UM MUNDO NOVO GOVERNADO POR UM MENINO

Dezembro 7, 2019

(A quem interessar, e para outras latitudes onde esta página é lida, dado que este ano, neste Domingo II do Advento, em Portugal, se celebra a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria).

1. O texto do Evangelho deste Domingo II do Advento (Mateus 3,1-12) apresenta algumas notas salientes: 1) É notória a sintonia de João com Jesus, dado que ambos abrem o seu ministério, dizendo as mesmas palavras: «Convertei-vos, porque se fez próximo o Reino dos Céus» (Mateus 3,2; cf. Mateus 4,17); 2) ambos colocam o seu ministério com referência a Isaías (Mateus 3,3; cf. Isaías 40,3; 4,14-15; 8,23-9,1); 3) ambos abrem no deserto a sua missão, evocando o Êxodo do Egito, o novo Êxodo da Babilónia (Ezequiel 20,33-38) e o Êxodo do noivado de Deus com Israel (Oseias 2,16-23), mas também a febre messiânica que situava no deserto o princípio da renovação escatológica; 4) a indumentária de João Batista (Mateus 3,4) evoca a de Elias (2 Reis 1,8), com o qual é, de resto, identificado por Jesus (Mateus 11,14; 17,12-13).

2. Se é evocada a continuidade dos ministérios de João e de Jesus, não deixa também de ser bem acentuado o confronto entre os dois: 1) vê-se bem que João Batista anuncia um Messias juiz, que traz na mão o machado e a pá de joeirar (3,10-12), enquanto que Jesus assumirá a figura de Servo do Senhor manso e humilde (12,17-21); 2) o apelo à conversão que João faz não é dirigido aos pagãos, mas aos israelitas piedosos (3,7-10): portanto, face ao Messias juiz que vem aí, também os justos se devem converter; não é a raça de Abraão que conta, mas a fé; 3) a conversão manifesta-se em fazer fruto, uma ideia recorrente em Mateus (cf. 7,16-20; 12,33; 13,8; 21,41 e 43; 25,40 e 45…); 4) a conversão, aqui expressa pelo verbo metanoéô, não deve ser vista apenas pelo seu significado etimológico: mudar de mentalidade; seria uma maneira de ver muito intimista, mostraria o homem debruçado sobre si mesmo, sobre os seus pecados; ora, a raiz hebraica shûb, sobretudo depois de Jeremias (Isaías 31,6; 45,22; 55,7; Jeremias 3,7.10.14.22; 4,1; 8,5; 18,11; 24,7; 25,5; 26,3; 35,15; 36,7; 44,5; Lamentações 3,40; Ezequiel 13,22; 14,6; 18,23 e 30; 33,9 e 11; Oseias 11,5; 12,6; 14,1-2; Joel 2,12-13; Zacarias 1,3-4; Malaquias 3,7), não implica o dobrar-se do homem sobre si mesmo, mas o orientar-se para ALGUÉM, para Deus, com quem o ser humano cortou relações, distanciando-se e quebrando a aliança. Esta ideia de conversão como caminho de regresso a Deus estava muito disseminada no judaísmo primitivo, mas era desconhecida na religião grega; 5) à vista de Jesus que vem no meio da multidão, como verdadeiro Servo do Senhor (3,13-14), que assume as faltas da multidão, João fica confuso; na verdade, esperava um Juiz, e não um Servo solidário com o povo no pecado (por isso, vem, no meio do povo, a este batismo de penitência); 6) além disso, e contra todas as expectativas de João, Jesus não vem para batizar, mas para ser batizado (3,11.13-14); 7) o diálogo travado entre João Baptista e Jesus (3,14-15) é exclusivo de Mateus (nenhum outro Evangelho o descreve).

3. Faz-se notório o sonho de um Deus que desce ao nosso meio, não para nos condenar ou derrubar, mas para se tornar solidário connosco.

4. Isaías 11,1-10, que serve hoje de ressonância ao Evangelho, mostra muito mais o tom manso e suave do Servo do Senhor que Jesus incarna do que o martelo do Juiz que João Batista prenuncia. Isaías abre diante de nós um mundo novo, tenro e terno, que, visto desde este nosso mundo escuro e tantas vezes desumano, soa a sonho. Ei-lo desenhado nestes versos imensos: «Então o lobo habitará com o cordeiro,/ o leopardo deitar-se-á com o cabrito,/ o bezerro e o leãozinho andarão juntos,/ e um menino pequeno os conduzirá.// A vaca e o urso pastarão juntos,/ juntas se deitarão as suas crias,/ o leão comerá feno com o boi,/ e a criança de peito brincará com a víbora» (Isaías 11,6-8).

5. Avista-se daqui o Menino de Belém. Uma paz a perder de vista, sem princípio e sem fim. Um mundo novo governado por um menino pequeno. Vê-se bem que este mundo belo e manso não se parece nada com o nosso, cheio de raivas e de ódios, invejas, mentiras, manhas, astúcias, violências e guerras. Nenhum menino poderia governar um mundo assim. E o problema que nos assalta não está no menino; está neste nosso mundo mentiroso, fraudulento e violento.

6. Contra este mundo empedernido e embrutecido embate a ternura do Menino de Belém. Entenda-se bem outra vez: não é o menino que está errado; somos nós que estamos completamente errados. É por isso que somos convidados à conversão.

7. O mundo novo e saboroso que emerge dos textos de hoje é também sublinhado por S. Paulo nas exortações que nos dirige na Carta endereçada aos Romanos 15,4-9. Como seria belo um mundo pautado por uma verdadeira fraternidade em que todos vivêssemos sob o impulso e o alento carinhoso e criador de Deus. Na verdade, todos respiramos o mesmo alento, que o texto grego diz com o belo termo composto homothymadón (Romanos 15,6), que junta homós [= mesma] e thymós [= alma], sendo que thymós deriva de thýô [= soprar]. E que mundo maravilhoso surgiria, rompendo a crosta do egoísmo e da dureza de coração, se «nos acolhêssemos uns aos outros, como Cristo nos acolheu a nós» (Romanos 15,7). Aí está então a comunidade humana irmanada e reunida, porque todos recebemos de Deus o mesmo alento, o mesmo sopro criador (Génesis 2,7), e com uma só boca (en henì stómati) e a uma só voz cantamos os louvores do nosso Deus (Romanos 15,6). Esta linguagem e esta harmonia enchem por inteiro a comunidade primitiva (Atos 1,14; 2,46; 5,12).

8. Também os versos sublimes do Salmo Real 72 cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva.

 

O Senhor do Advento

É Aquele-que-Vem

Nascer em Belém,

Bater à nossa porta,

Pedir ao nosso coração

Um bocadinho de pão.

 

Tão pouco e tanto

Nos pede Jesus,

E para nosso espanto,

E para encanto nosso,

O Filho de Maria

Vem vestido de irmão nosso

De cada dia.

 

Ele anda por aí,

Ao frio e ao calor,

Rico e pobrezinho,

Nosso Senhor.

 

Vem, Menino,

Senhor do mundo,

Do sol e da lua,

Bate à minha porta,

Entra em minha casa,

E que, por graça,

Entre eu também na tua.

 

António Couto


NAQUELA MANHÃ DE HÁ DOIS MIL ANOS

Fevereiro 9, 2019

1. Naquela manhã de há dois mil anos algo de extraordinário aconteceu para que alguns pescadores do lago da Galileia – o Evangelho de Lucas 5,1-11 destaca os nomes de Pedro, Tiago e João – tenham abandonado as barcas, as redes, os peixes acabados de pescar em grande quantidade, enfim, tudo, para seguirem mais de perto Jesus.

2. Pedro, sempre ele, diz-nos o porquê da revolução operada na sua vida: «Por causa da tua Palavra, Mestre, lançarei as redes» (Lucas 5,5). Por causa da tua Palavra. Naquela manhã, Jesus ensinava (edídasken) as multidões, sentado (kathísas) na barca de Pedro, que Jesus tinha pedido a Pedro para afastar um pouco da praia para a água. Bela forma encontrada por Jesus de obrigar Pedro a ter de escutar todo o seu ensinamento! E ensinava de forma continuada: assim o indica o imperfeito do verbo grego. Sentado: é a posição do Mestre que ensina na cátedra. É ainda sentado como Mestre na barca que Jesus ordena agora a Pedro: «Afasta (a barca) para o mar profundo, e lançai as vossas redes para a pesca!» (Lucas 5,4). Pedro mostrou a sua estupefação de pescador experimentado: tinham trabalhado toda a noite e nada tinham pescado! Quanto mais agora, de dia, seria inútil fazê-lo! Lançou, porém, as redes, e pouco depois caiu de joelhos aos pés de Jesus, sempre sentado como Mestre na barca, e avançou um pedido: «Distancia-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador» (Lucas 5,8). Mas Jesus diz para Pedro: «Não tenhas medo! Doravante serás pescador de homens» (Lucas 5,10). E o narrador anota a fechar o episódio que «Tendo conduzido as barcas para terra, tendo deixado tudo, seguiram-no» (Lucas 5,11).

3. Entenda-se bem que Pedro lançou as redes para a pesca, não baseado nas suas capacidades de pescador experimentado, mas por causa da Palavra de Jesus ou sobre a Palavra de Jesus. Palavra aqui diz-se rhêma, que tem o significado fortíssimo de «Palavra que acontece» ou de «Acontecimento que fala». Entenda-se também então que a nova missão de pescador de homens que Jesus lhe confia terá de ser também somente assente nesta Palavra de Jesus. A missão de Pedro e a nossa!

4. Notem-se os sucessivos «afastamentos» que são, na verdade, «aproximações». Primeiro é Jesus que pede a Pedro que afaste (epanágô) a sua barca um pouco da terra (Lucas 5,3), para poder, dessa cátedra improvisada, ensinar melhor as multidões. Note-se, todavia, que, com este recurso, Jesus põe Pedro bem junto dele! Quando Jesus pronuncia, pela segunda vez, o verbo afastar, fá-lo em imperativo dirigido ainda a Pedro (Lucas 5,4), e é para aquela pesca milagrosa que aproximará ainda mais Pedro de Jesus! A terceira vez é a vez de Pedro. E é para fazer uma profissão de fé, reconhecendo em Jesus o Senhor, isto é, Deus. E decorre deste reconhecimento que Pedro se reconheça como pecador, que não pode estar na presença do Deus Santo. Daí, o grito: «Distancia-te (exérchomai) de mim, Senhor… (Lucas 5,8). A última palavra é, como tinha de ser, de Jesus, que dá uma nova identidade a Pedro: «pescador de homens» (Lucas 5,10). E o episódio termina com o narrador a vincular radicalmente Pedro e os companheiros a Jesus com aquele dizer: tendo deixado tudo, seguiram-no (akolouthéô) (Lucas 5,11)».

5. Entenda-se ainda bem que este seguimento de Jesus a que Pedro e nós somos convidados, não se destina a aprender uma doutrina ou uma ideia, mas a seguir de perto uma Pessoa, Jesus de Nazaré, e a sua maneira concreta de viver. É a adesão a uma Pessoa que está em causa para Pedro e para nós.

6. De Pedro e dos seus companheiros é dito que deixaram barcas, redes, peixes, tudo, para seguirem Jesus (Lucas 5,11), decisão radical que o Evangelho de Lucas continuará a salientar noutras passagens: «Se alguém quiser seguir-me, diga não a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias, e siga-me» (Lucas 9,23); «Vendei tudo o que tendes e dai-o em esmola» (Lucas 12,33); «Aquele de vós que não renunciar a todos os seus bens não pode ser meu discípulo» (Lucas 14,33); «Vende tudo o que tens e distribui-o aos pobres» (Lucas 18,21).

7. É assim que Pedro se faz pescador de homens, lançando as redes da Palavra criadora de Deus até à sua morte, com o sangue, na cidade de Roma. Como memória eterna deste «pescador», ainda hoje, em todos os dias 28 de Junho, véspera da Solenidade de São Pedro e São Paulo, se coloca simbolicamente sobre a porta da Basílica de São Pedro, em Roma, uma rede de ramos de buxo. Não uma coroa de louros, mas uma rede de louros!

8. Em perfeita consonância com a cena do Evangelho, relatando-nos o verdadeiro encontro de Pedro com o Deus Santo, o Antigo Testamento oferece-nos, neste Domingo V do Tempo Comum, o majestoso texto da vocação e missão de Isaías (6,1-8). No decurso de uma liturgia no Templo de Jerusalém, Isaías é investido como Profeta. Estamos por volta de 736 a.C., época provável da morte do rei Ozias, referida em Isaías 6,1. Perante a manifestação do Deus três vezes Santo, sentado no trono da graça que é o propiciatório da Arca da Aliança que ocupa o centro do Santo dos Santos do Templo, Isaías não tinha evasivas. Quando o Deus Santo se manifesta ao homem, provoca nele o mais intenso movimento de relação, movimento mortal, fulminante (Êxodo 33,20; Jeremias 30,21). Assim, Isaías, que tinha sido arrastado para um tão intenso movimento relacional, constata que devia estar morto, e, todavia, está vivo, bem vivo, vivificado! Milagre! E Isaías soube receber-se como dado, como filho da Palavra criadora de Deus e não já apenas dos seus pais ou da sua pátria, e doar-se, por sua vez, a Deus de acordo com a sua nova identidade, vocação e missão de Profeta. Como Pedro no Evangelho de hoje.

9. A grande aclamação do «Santo, Santo, Santo» faz parte substancial e central da celebração de todas as Igrejas cristãs. Se virmos bem, também nós hoje e aqui estamos perante o «Santo, Santo, Santo». Exatamente no lugar de Isaías e de Pedro…

10. A leitura semi-contínua do Apóstolo Paulo prossegue hoje com um texto de fundamental importância (1 Coríntios 15,1-11), um «credo» cujo conteúdo é o Evangelho (euaggélion) fielmente evangelizado (euaggelízomai) pelo Apóstolo e fielmente recebido (paralambánô) e guardado (katéchô) pela comunidade cristã de Corinto. O Apóstolo enuncia os dois grandes elos da genuína cadeia da Tradição: «Transmiti-vos (paradídômi) o que eu recebi (paralambánô)». Transmitir e receber e de novo transmitir sem interrupção. Os conteúdos da Tradição (parádosis) do Evangelho são: a) Cristo morreu pelos nossos pecados «segundo as Escrituras»; b) foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia «segundo as Escrituras»; c) o Senhor Ressuscitado fez-se ver a Cefas e aos Doze, depois a mais de quinhentos irmãos (a maioria dos quais ainda estavam vivos quando Paulo escrevia, podendo, por isso, testemunhar), depois a Tiago, depois a todos os discípulos, e, por último, ao próprio Apóstolo Paulo que escreve e no qual opera a graça de Deus. Todos, o Apóstolo e os Apóstolos, anunciam (kêrýssô) este Evangelho, e todos, o Apóstolo, os Apóstolos e os fiéis, nós também, acreditámos (pisteúô) neste Evangelho e vivemos deste Evangelho, que é a nossa vida verdadeira (Gálatas 2,20; Filipenses 3,21).

11. O Salmo 138, que hoje cantamos, é «o canto do chamamento universal», como o define S.to Atanásio (séc. IV). O orante, voltado para o Templo (v. 2), como era usual fazer-se no judaísmo tardio (o islamismo fá-lo-á mais tarde em relação a Meca), sente e sabe que a sua oração não esbarra contra um céu cerrado, surdo e mudo, mas é registada e repercute-se no coração de Deus, que em caso algum abandona a obra das suas mãos (v. 8). Grande Ação de Graças deste orante (v. 1) e dos reis de toda a terra (v. 4). Nossa também.

 

Naquela manhã de há dois mil anos,

Algo de extraordinário aconteceu,

Para que aqueles pescadores experimentados,

Que pela manhã regressavam da faina desanimados,

Sem nada terem pescado,

Agora que o sol já se levantava,

A uma palavra de Jesus a eles dirigida,

Tenham lançado outra vez as redes ao mar,

E tenham visto os peixes inundá-las.

 

Naquela manhã de há dois mil anos,

Algo de extraordinário aconteceu,

Tudo por causa de uma palavra de Jesus.

 

O que ali aconteceu foi tudo de tal monta,

Que Simão Pedro

E os outros que estavam com ele,

Se puseram a fazer contas à vida,

E decidiram deixar logo ali,

Abandonados junto à praia,

Os barcos, as redes e os muitos peixes.

 

Naquela manhã de há dois mil anos,

E sem poder sair do refluxo daquela palavra nova de Jesus,

Aqueles pescadores tiveram que decidir

Ficar com os barcos, as redes, os peixes e o mar,

Ou seguir no encalço de Jesus.

 

Claro que escolheram seguir Jesus:

Não se pode abandonar a nascente de tantas maravilhas!

 

Ensina-nos, Senhor,

Nesta manhã em que o sol nasce como há dois mil anos,

A saber ouvir e escolher a tua Palavra de amor,

E a deixar para trás tudo o que nos impedir

De ir contigo.

 

António Couto