JESUS, A NOSSA ÚNICA REFERÊNCIA

Julho 17, 2021

1. O Evangelho deste Domingo XVI do Tempo Comum (Marcos 6,30-34) insere-se numa bela sequência de preciosos textos. Importante não perder de vista o fio de ouro (ou de sentido) que entretece os episódios que, com extrema habilidade, Marcos coloca diante dos nossos olhos. Em Marcos 6,1-6, Jesus é rejeitado na sua pátria, prolepse de tudo o que lhe vai acontecer. No episódio seguinte, Marcos 6,7-13, Jesus envia os «Doze» em missão. Envia-os dois a dois, leves, sem nada a que se agarrar ou distrair. A sua única bagagem é o Evangelho. Logo a seguir, em Marcos 6,14-29, é narrada a versão popular do martírio de João Batista, que difere da versão política de Flávio Josefo. Em Marcos 6,30, «os Apóstolos» (hoi apóstolloi) reúnem-se junto de Jesus, e narraram-lhe tudo o que tinham feito e ensinado.

2. De notar, em primeiro lugar, que a missão dos «Doze» aparece premonitoriamente colocada entre a rejeição de Jesus e o martírio de João Batista. Esta leitura sai ainda reforçada se tivermos em conta que o episódio do martírio de João Batista rasga em duas partes a missão dos «Doze», intrometendo-se entre o envio, a partida de junto de Jesus e o anúncio feito pelos «Doze» (Marcos 6,7-13), e o regresso de «os Apóstolos» a Jesus (Marcos 6,30).

3. De notar, em segundo lugar, a permanente referência a Jesus por parte dos «Doze». Na verdade, é Jesus que os envia, e envia-os dois a dois, é d’Ele que partem, é d’Ele que são arautos, mensageiros ou testemunhas, é a Ele que regressam, é a Ele que fazem a «relação» do acontecido.

4. Uma inteligência mais profunda do envio «dois a dois»: não vão em nome próprio, mas são apenas testemunhas daquele que os enviou. E, porque é de testemunho que se trata, para que este seja válido, requer-se a presença de duas ou três testemunhas (cf. Deuteronómio 19,15 e João 8,17). Neste caso, as testemunhas estão vinculadas a Jesus. Mas o vínculo a Jesus sai ainda reforçado neste «dois a dois», se tivermos em conta a palavra de Jesus: «Onde estão dois ou três reunidos em meu nome, ali estou Eu no meio deles» (Mateus 18,20).

5. Esta centralidade de Jesus na vida dos «Doze» está ainda referida no facto de regressarem a Ele e de a Ele apresentarem a «relação» de tudo o que aconteceu. Note-se que não fazem uma «relação» por alto, mas uma «relação» exaustiva: «de tudo». Tudo o que fizeram e ensinaram tinha, na verdade, Jesus como única referência.

6. Depois de noticiado este regresso a Jesus e da menção ao relatório exaustivo da missão, os «Doze» são, pela primeira vez, chamados «os Apóstolos» (hoi apóstoloi) (Marcos 6,30). E Jesus retoma agora a iniciativa, vinculando-os ainda mais, se assim se pode dizer, a si mesmo, convidando-os à comunhão com Ele («Vinde»), separando-os para o efeito da multidão que os apertava (Marcos 6,31). «E partiram na barca para um lugar deserto, à parte» (Marcos 6,32). No Evangelho de Marcos, a «barca» (tò ploîon) demarca um espaço privilegiado que Jesus partilha unicamente com os seus discípulos.

7. Fica-se unicamente pela barca a estreita comunhão de Jesus com os seus discípulos. É mesmo só a comunhão que sai realçada, pois nada nos é dito sobre nenhum particular assunto de conversa durante a viagem. Saídos na barca da pressão da multidão, ei-los que, ao sair da barca, estão de novo no meio da multidão. E o narrador lá está para nos dizer que «Ele viu» (eîden) (Marcos 6,34). É a quinta vez, neste Evangelho, que o narrador nos diz que Jesus «viu» (Marcos 1,10; 1,16; 1,19; 2,14; 6,34).  A primeira vez, «viu» os céus abertos e o Espírito a descer (Marcos 1,10). A segunda vez, «viu» Simão e André (Marcos,1,16). A terceira vez, «viu» Tiago e João (Marcos 1,19). A quarta vez, «viu» Levi (Marcos 2,14). Nestas quatro primeiras vezes, este «ver» de Jesus desencadeia um agir novo e decisivo. Também agora, na quinta vez, o olhar de Jesus abre para uma página de sublime misericórdia (esplagchnísthê) (Marcos 6,34), que leva Jesus a reunir e abraçar aquela multidão de ovelhas sem pastor, e a ensiná-las demoradamente, dando resposta plena à preocupação de Moisés no deserto, à entrada da Terra Prometida, pedindo a Deus um novo guia «para que a comunidade do Senhor não seja como um rebanho sem pastor» (Números 27,17). Depois, Jesus repartirá com eles o pão. Primeiro, ensiná-los-á demoradamente. Depois, repartirá com eles o pão. O grão do espírito precede o grão de trigo.

8. Jeremias 23,1-6 constitui um marco, traça uma fronteira entre um tempo velho e a cair de podre, marcado por aquele «Ai (hôy) dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas» (Jeremias 23,1), que retoma aquele «Ai» que arrasa o tirano rei Joaquim (609-597), e o toma como paradigma dos maus pastores (Jeremias 22,11 e 18). O grande profeta de Anatôt vê bem a ruína dos poderosos, mas vê e sente na própria pele também a desgraça que se abate sobre os pobres, porque não há pastores bons e justos que lhes indiquem os caminhos a seguir. Jeremias, o profeta do ramo de amendoeira (Jeremias 1,11), não pode ficar com os olhos enterrados na lama, mas já vê vir, lá ao longe, um «Gérmen justo» (tsemah tsaddîq), um pastor bom e justo, que trará a salvação, e o seu nome será «YHWH, nossa justiça» (YHWH tsidqenû) (Jeremias 23,6). Este nome novo, no plural, atinge e condena também o rei Sedecias (tsidqiyah) (597-587), cujo nome significa «YHWH, minha justiça», no singular, e que, devido aos seus cambalachos políticos entre a Babilónia e o Egito, acarretou sobre o povo de Judá o desastre de 587. Mas é sobretudo notório que o «Gérmen justo», que receberá o nome de «YHWH, nossa justiça», da descendência de David e que salvará o seu povo, aponta já para Jesus, o Bom e Belo Pastor, que sente compaixão pelas suas ovelhas, como se vê no Evangelho de hoje.

9. Na lição da Carta aos Efésios 2,13-18, Paulo põe diante de nós todos, judeus e pagãos, a ação salvadora e unificadora de Jesus Cristo. Nele, na sua Cruz, no seu Corpo, novo Templo, não há mais lugar para separações, cai o muro que, no velho Templo, separava o átrio dos pagãos do átrio dos judeus. Jesus Cristo, aproximando-se de todos, aproximou-nos a todos, os de longe e os de perto, destruiu ódios e toda a espécie de barreiras, e estabeleceu a Paz entre nós. O Evangelho, que é Cristo, une, reúne, enlaça, entrelaça, gera fraternidade. Bem à vista no Evangelho de hoje.

10. Quanto ao mais, todo o tempo é tempo para nos deixarmos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor, cantando o Salmo 23. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… É a alegria da nossa família reunida. Confessou o filósofo francês Henri Bergson: «As centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23».

11. Deixamos já aberta a página que se segue no Evangelho de Marcos: o pão, o pão, o pão! No texto grego, original, o nome «Jesus» aparece em Marcos 6,30, para reaparecer depois só, 89 versículos depois, em Marcos 8,27. Escritura sublime: desaparece o nome «Jesus» e a paisagem textual enche-se com o nome «pão» (21 vezes). Claríssimo convite a aprendermos a ver Jesus no pão! Mas nos próximos cinco Domingos (XVII a XXI), não leremos Marcos, mas João 6, que contém o grande discurso do pão da vida.

António Couto


A VOZ DE UM FINO SILÊNCIO!

Agosto 8, 2020

1. A Igreja primitiva considerava a BARCA como figura da Igreja. Tertuliano (150-220) parece ter sido o primeiro a expressar esta temática por escrito (De Baptismo, XII, 7). E é fácil perceber a ligação: a BARCA aparece como um dos lugares em que JESUS está no meio dos seus discípulos e a sós com eles. De facto, a BARCA demarca um espaço privilegiado que JESUS condivide apenas com os seus discípulos. Mais ninguém entra nesta BARCA. No relato de Mateus, apenas por uma vez, e é o texto que temos a graça de escutar neste Domingo XIX (Mateus 14,22-33; cf. Marcos 6,45-52; João 6,16-21), os discípulos vão sozinhos na BARCA, sem Jesus. Mas surgem problemas, que os discípulos não conseguem resolver sozinhos. Esta importante cena serve também para mostrar que, sem Jesus, os discípulos não conseguem ter sucesso e correm perigo. A situação preparada por Jesus, que faz os seus discípulos subir sozinhos para aquela BARCA (cf. Mateus 14,22), serve para fazer ver aos seus discípulos de todos os tempos que precisamos de viver sabendo que Ele está sempre presente no meio de nós, ainda que não de modo visível e sensível, ainda que, porventura, nem sequer nos apercebamos da sua presença. A BARCA serve para atravessar o mar encapelado, que são as perseguições e as adversidades deste mundo. Mas apenas na companhia de JESUS. Ontem como hoje.

2. Na costa ocidental do Mar da Galileia, nas proximidades de Magdala, foi descoberta uma BARCA de pesca do tempo de Jesus. Tinha 8 metros de comprimento por 2,5 metros de largura. Já se vê que se trata de uma embarcação frágil, presa fácil das ondas.

3. Os relatos de Mateus e de Marcos anotam a hora da chegada de Jesus, andando sobre o mar: quarta vigília da noite, que o mesmo é dizer, entre as três e as seis horas da manhã. «Andando sobre o mar» é claramente um indicador divino, pois Deus é aquele «cuja estrada é no meio do mar,/ e o seu caminho sobre as muitas águas» (Salmo 77,20). Mas Mateus empresta a este episódio uma tonalidade própria, pois é o único a inserir o diálogo de Pedro com Jesus. Também Pedro caminha sobre as águas, a seu pedido, e seguindo a ordem de Jesus: «Vem!». Entenda-se bem: Pedro caminha sobre as águas como Jesus, mas não com autoridade própria. O que Pedro faz, assenta na Palavra de Jesus e na Fé que o liga a Jesus. Importante lição: Pedro faz o mesmo que faz Jesus enquanto permanecer vinculado a Jesus pela Fé. Esmorecendo a Fé em Jesus, Pedro torna-se presa fácil de outras forças e sucumbirá no meio da tempestade. Pedro como nós. Sentindo o perigo, Pedro grita: «Salva-me, Senhor!». E sente logo a mão de Jesus que o segura. Nós como Pedro.

4. A outra figura deste Domingo é Elias, «o fugitivo» (1 Reis 19,9-13). «Fugitivo» de si mesmo, de todos e de tudo. Todos o procuram para o matar, o mundo perdeu o seu encanto e o seu sentido, e até Deus não parece ser mais o mesmo. Como esta lição está cheia de atualidade…

5. E o certo é que este Elias, que surge solto na página, sem pai nem mãe, sem livro anagráfico, apenas com Deus do seu lado (cf. 1 Reis 17,1-24), continua a ser conduzido e comandado por Deus, que o salva da morte no deserto (cf. 1 Reis 19,5-8), e que o liberta das suas próprias amarras, fazendo-o sair (SAI!) para fora do escuro e do medo (cf. 1 Reis 19,11), e abrindo à sua frente um caminho novo, tenro e frágil, como o que espera um bebé que sai do ventre materno. SAIR (yatsa’) é o verbo do Êxodo, mas é também o verbo do nascimento! Ouve-se, nesta página imensa, por duas vezes: no v. 11, no imperativo («Sai!»), e no v. 13, no indicativo («Elias saiu»).

6. É assim que o menino Elias, recém-nascido e recém-libertado, assiste no Sinai à sequência teofânica antiga: vento forte, terramoto, fogo! Tudo manifestações desatualizadas de Deus. Outra vez a sequência 3 + 1, a fazer apostar toda a atenção no 4! E aqui, depois do vento, do terramoto, do fogo, Elias ouve «a voz de um fino silêncio!» (1 Reis 19,12b).

7. Entenda-se: a voz de um cortante silêncio, voz de Deus que arde e opera dentro de nós. Colagem de figuras: «A tua Palavra ardia no meu coração como um fogo devorador,/ encerrado dentro dos meus ossos», confessa Jeremias 20,9. Já Moisés tinha descoberto aquela chama viva, que ardia no meio da sarça e não queimava,/ mas chamava (cf. Êxodo 3,2-4). Também os dois de Emaús sentiram o coração a arder, devido à Palavra e ao Sentido novo que abria caminhos onde caminhos não havia (Lucas 24,32). Elias encontrou essa Palavra nova na «voz de um fino silêncio» (1 Reis 19,12), escrita fina de Deus,/ com ponta de diamante,/ no coração do homem (cf. Jeremias 17,1; 31,33). E o autor da Carta aos Hebreus compara esse «fino dizer» ou «escrever» a uma espada de dois gumes, um bisturi, que opera e limpa a esclerose do coração (cf. João 15,3) e o zelo estéril, que rasga o âmago do homem e lhe deixa soltas as pregas do coração (cf. Hebreus 4,12; Apocalipse 1,16). É claro que este silêncio suave não é o silêncio que Elias se preparou para fazer. Elias não se preparou para silêncio nenhum. Ele partiu para o Sinai à espera de se encontrar lá com o Deus forte e invencível, Senhor do vento, do terramoto e do fogo! Não é, portanto, o silêncio que move Elias. E quando lá chega, Elias também não faz silêncio! É o silêncio que faz Elias! Não sou eu que faço silêncio! É o silêncio que me faz!

8. Na lição de hoje da Carta aos Romanos, S. Paulo lembra-nos que há um amor maior, que o leva até ao ponto de desejar dar a vida pelos seus irmãos! (Romanos 9,1-5). Vê-se bem que Paulo atingiu a estatura de Cristo! (Efésios 4,13).

9. Sim, anda por aí um amor maior, que é o tesouro e a pedra preciosíssima de Mateus 13,44-46, que tivemos a graça de ouvir no Domingo XVII. Anda por aí a maravilha, e nós continuamos, desfocados pelo medo do vento ou da tempestade, ou à procura de maravilhas, e, sem dar por isso, estamos a perder a capacidade de cantar! Cantemos então, percorrendo as belíssimas avenidas do Salmo 85, que aqui redesenhamos com as palavras do poeta inglês John Milton (1608-1674): «Sim, a Fidelidade e a Justiça, então,/ retornarão ao encontro dos homens,/ envoltas num arco-íris, e, gloriosamente vestida,/ a Bondade sentar-se-á no meio…/ E o céu, como para uma festa,/ escancarará as portas do seu palácio excelso».

10. Sim, as avenidas são por dentro! É dentro que arde o fogo, que fala o silêncio, que corta o bisturi! Atenção, portanto, ao modo novo, intransitivo, de viver!

 

Elias anda ao sabor de Deus,

Como um moinho ao vento,

Como um pássaro ao relento,

Como a voz de um fino silêncio,

A amadurar no coração de um grão de trigo

Ou de um amigo.

 

Como se pode combater este incêndio,

Apagar esta chama que chama,

Calar a voz deste fino silêncio,

Fugir deste bisturi que levamos cá dentro?

 

Jeremias tem outra vez razão:

É mais fácil enfrentar um furacão.

Esse, sabemos de onde vem e para onde vai!

 

António Couto