A SENHORA DONA MARTA E A DISCÍPULA MARIA

Julho 20, 2019

1. Imediatamente a seguir ao belo trabalho de amor do Bom Samaritano (Lucas 10,25-37), apresentado como figura do discípulo de Jesus, eis-nos a braços com outra cena de exceção do Evangelho de Lucas: Jesus, Marta e Maria (Lucas 10,38-42), que continua a expor diante de nós, neste Domingo XVI do Tempo Comum, traços salientes para continuarmos a compor a figura do discípulo de Jesus.

2. A primeira anotação do narrador é para nos comunicar que, estando Jesus em viagem, uma mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa (Lucas 10,38). Acrescenta logo que Marta tinha uma irmã, chamada Maria (Lucas 10,39), e começa de imediato a desenhar o retrato das duas irmãs.

3. De Maria, diz-nos que se SENTOU aos pés de Jesus e que ESCUTAVA a sua Palavra (Lucas 10,39). O leitor apercebe-se de imediato que Maria assume a figura de discípula atenta, dedicada e deliciada: SENTADA perto do Mestre, ESCUTAVA… O narrador usa outras tintas para pintar o retrato de Marta. Começa por nos dizer que andava DISTRAÍDA (verbo grego perispáô) com muito trabalho (Lucas 10,40a). Aproximando-se, porém, disse a Jesus com um certo ar de reprovação: «Senhor, a ti não te importa que a minha irmã me deixe sozinha a trabalhar?» (Lucas 10,40b). E sem esperar pela resposta, como quem está cheia de razão, acrescenta logo, como quem tem autoridade para dar ordens até a Jesus: «Diz-lhe, pois, que me venha ajudar!» (Lucas 10,40c). É aqui que intervém Jesus, com a sua Palavra serena e soberana, para lhe dizer: «Marta, Marta, andas PREOCUPADA (verbo grego merimnáô) e ÀS VOLTAS (verbo grego thorybázô) com MUITAS COISAS (pollá), quando UMA SÓ (henós) é necessária» (Lucas 10,41-42). E conclui, para total espanto nosso e de Marta: «Maria ESCOLHEU (eklégomai) a parte BOA (e bela), que não lhe será tirada» (Lucas 10,42).

4. Importa ver já, com clareza, que Maria não diz uma palavra em todo o episódio. Não se ouve a sua voz. Ela está tranquilamente SENTADA e totalmente concentrada na ESCUTA de outra VOZ, que não a sua. Maria é a mulher de UMA COISA e de UMA PESSOA. Por isso, na base da sua vida, tem de haver uma ESCOLHA. Nas páginas da Escritura Santa, é normalmente Deus o sujeito do verbo ESCOLHER. Quando também nós ousamos ESCOLHER, então já se percebe que deixamos muitos mundos para trás e que nasce em nós um mundo novo, por acostagem ao mundo de Deus.

5. Marta começa por receber Jesus na casa dela. É a senhora dona Marta. Olha de soslaio para a sua irmã Maria que acusa de não fazer nada, e repreende Jesus por não se importar com isso, e acaba mesmo dando ordens a Jesus, para que, por sua vez, dê ordens a Maria para a ir ajudar. É a senhora dona Marta. Manda, ou pensa que manda, em casa, na sua irmã e em Jesus!

6. A sua vida é uma azáfama, anda às voltas, ocupada por preocupações e preconceitos, descentrada e desconcentrada. O seu fazer é tradicional e convencional. Nunca ESCOLHEU. Apenas CONTINUOU a fazer o habitual. O narrador diz-nos que anda DISTRAÍDA, e Jesus diz-lhe que anda PREOCUPADA (merimnáô) e ÀS VOLTAS (thorybázô)… Vocabulário importante. Um pouco adiante, Jesus adverte os seus discípulos para não se PREOCUPAREM (merimnáô) com a vida, quanto ao que hão de comer, nem com o corpo, quanto ao que hão de vestir (Lucas 12,22), e acrescenta logo que isso – afadigar-se com o que comer, beber e andar freneticamente, de lado para lado, como meteoritos (meteôrízô) – são coisas dos pagãos! (Lucas 12,30). E põe-nos diante dos olhos este tesouro evangélico e poético: «Considerai os lírios do campo, que não fiam nem tecem!…» (Lucas 12,27).

7. Ressalta deste finíssimo quadro que também o agitar-se por Deus ou pelo próximo pode ser coisa pagã. Não necessariamente por ser pagão o objeto da busca, mas por ser pagão o modo de procurar: com afã, inquietação, agitação! Na verdade, as «muitas coisas» podem viciar, não apenas a escuta, mas também o verdadeiro serviço. Fazer muito pode ser sinal de amor, mas pode também fazer morrer o amor! Ao hóspede é necessário oferecer companhia, não apenas coisas!

8. Ao contrário da senhora dona Marta, que nunca abriu mão da sua condição de dona, Maria percebeu bem que não é dona, mas simplesmente hóspede. Não da sua irmã Marta, mas de Jesus. Maria está, na verdade, hospedada em casa de Jesus. Por isso, está assim serena e tranquila. Entregou-lhe tudo: o coração, as mãos, os olhos, o cofre, a chave do cofre, a chave de casa. Marta não é apresentada como sendo má pessoa, mas não compreendeu que, quando Jesus entra em nossa casa, é dele a casa, e nós simplesmente seus hóspedes, tranquilamente sentados junto dele! Ai esta nossa entranhada tentação patronal!

9. Dizia um velho rabino acerca de um seu colega: «anda de tal modo ocupado com as COISAS de Deus, que até se esquece de que ELE existe!». Convenhamos que se trata de um esquecimento desastroso…

10. Veja-se bem a simplicidade, a prontidão e a candura desarmantes da lição do velho Abraão do Antigo Testamento de hoje (Génesis 18,1-10). Parece mesmo que Abraão já estava ali, à porta da tenda, à espera de alguém ou de Alguém! Depois de entrever Alguém ao longe, percorre aquela avenida num instante, e, como bom beduíno oriental, quase implora que não passem adiante sem descansar e retemperar as forças na sua tenda. Os viandantes aceitam. Abraão corre, apressa-se, e, no mesmo movimento de alegria, entram Sara, sua esposa, e o seu servo, escrupulosamente seguindo as diretrizes de Abraão. Mesmo quando os seus hóspedes estão recostados à mesa, isto é, à volta de uma pele de vaca sobre o chão à entrada da tenda, debaixo da árvore, estendida, Abraão permanece de pé, em atitude de disponibilidade e serviço. Abraão apresenta-se loquaz e atarefado, enquanto os seus hóspedes estão tranquilos e pronunciam frases curtas, antes da grande palavra de esperança, completamente inesperada, que abre novos horizontes para toda a humanidade! Note-se ainda que as três medidas de farinha (Génesis 18,6), mais coisa menos coisa como 60 quilos de farinha, que Abraão manda Sara amassar e meter ao forno apontam já para a parábola do Evangelho (Mateus 13,33; Lucas 13,21), e, para além disso, dada a quantidade, para o banquete do Reino de Deus! Mas também aquele filho prometido (Génesis 18,10) aponta para o Filho que encherá as páginas do Novo Testamento e da nossa vida!

11. Na lição de hoje da Carta aos Colossenses 1,24-28, Paulo apresenta-se como «servidor» (diákonos) do Evangelho a toda a criatura (v. 23) e como «servidor» (diákonos) do corpo de Cristo, que é a Igreja (ekklêsía) (v. 24). Tudo isto, não por vontade do Apóstolo, mas segundo a «economia» (oikonomía) de Deus, dada a ele por Deus para proveito nosso para levar a cumprimento a Palavra de Deus (v. 25). A Deus aprouve dar-nos a conhecer (gnôrízô) o seu mistério (mystêrion). Portanto, o mistério bíblico não é o que não se sabe nem se pode saber; é, antes, aquilo ou Aquele que Deus nos dá a conhecer (vv. 26-28). Mistério, portanto, prometido, anunciado, ensinado e conhecido! Para glória de Deus e nossa! Mas Paulo, o Apóstolo, ainda quer deixar diante de nós uma leitura nova do sofrimento, de que tanto fugimos e que a tanto custo suportamos. Diz o Apóstolo: «Alegro-me (chaírô) nos sofrimentos em vosso favor e completo o que falta nas tribulações de Cristo na minha carne em favor do seu corpo, que é a Igreja» (v. 24). Só o amor dá sentido à dor.

12. O Salmo 15 é uma «Liturgia de ingresso» no santuário, ou uma «Liturgia das portas». Constituía, na prática, uma espécie de liturgia penitencial ou exame de consciência feito à porta do Templo, para se aquilatar se a pessoa reúne condições para poder entrar no Templo. Quer isto dizer que, para alguém poder transpor o limiar do Templo, para poder ir à presença de Deus, tem de preencher uma série de requisitos morais e existenciais, e não apenas de pureza ritual, que nem sequer é falada no Salmo. Nas fachadas dos santuários do Egito e da Mesopotâmia estavam inscritas as condições requeridas para se aceder ao culto. Tratava-se, em quase todos os casos, de preceitos de natureza ritual ou exterior. Também o Talmude lembrava que «o homem não deve subir ao monte do Templo com sapatos ou bolsa ou com os pés cheios de pó; não deve reduzir os átrios do templo a entradas apressadas, e muito menos cuspir neles». Como se vê, o nosso Salmo não se entretém com ritualismos exteriores, mas requer comportamentos como o cumprimento de atos éticos e existenciais, que envolvam a justiça e a verdade, que evitem a calúnia e o insulto e a usura. Tenha-se presente que, no mundo oriental, o empréstimo interesseiro atingia, por vezes, níveis altíssimos. Por exemplo, na Mesopotâmia, as taxas de empréstimo chegaram a variar entre 17 e 50%. O nosso Salmo apela à verdade e à generosidade.

António Couto

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AMARÁS!

Julho 13, 2019

1. Prosseguimos neste Domingo XV do Tempo Comum a leitura ou a pintura de Lucas 10, que tenta mostrar, cada vez com maior nitidez, os traços mais salientes da figura do discípulo de Jesus. É assim que Lucas coloca diante de nós a figura do «Bom Samaritano» (Lucas 10,25-37).

2. «Sou a personagem mais popular do Evangelho. Vós falais muitas vezes de mim: há vinte séculos que oiço o vosso aplauso por ter puxado o freio com que parei o cavalo naquela estrada que seguia de Jerusalém para Jericó. Ofereci imagens consoladoras à vossa emotividade e ao vosso gosto inato de histórias com um final feliz: a minha figura debruçada a colocar faixas, as gotas de óleo e vinho derramadas sobre as feridas do viandante maltratado pelos ladrões e traído por aqueles dois que pouco antes me precederam naquela estrada e lhe tinham negado a sua piedade, o facto de eu ter colocado o ferido sobre a minha montada, a pousada com o hospedeiro a quem entrego dois denários para ele continuar a assistência. E vós, para me honrar, ornamentastes com estas cenas as entradas dos albergues e lugares piedosos». É assim que o escritor italiano Luigi Santucci (1918-1999) abre o seu Samaritano apocrifo, deixando transparecer alguma ironia.

3. É grandemente sintomático que Jesus, com o recurso à parábola, tenha sabido e querido deslocar para a estrada, para o caminho, para a praça pública, as questões que eram habitualmente discutidas nas escolas ou na sinagoga entre especialistas. E assim, desde o princípio, tudo, no texto, se joga sobre o fazer, e não sobre o saber, como seria de esperar na mente do doutor. O próprio doutor da lei, que abre o diálogo com Jesus (Lucas 10,25), foi pedagogicamente conduzido por Jesus a saber talvez mais do que queria fazer, e talvez menos do que queria saber.

4. Note-se ainda, para além da estranheza da pergunta do doutor pelo fazer, e não pelo saber, que o objetivo é herdar (klêronoméô) a vida eterna, isto é, chegar a ser filho de Deus, filiação divina (hyiothesía) por graça recebida (Romanos 8,15-16; Gálatas 4,5). Fica-se a saber no final que é fazendo MISERICÓRDIA (spaggchnízomai) (Lucas 10,33) ou GRAÇA (éleos) (Lucas 10,37), como o SAMARITANO, que se herda a vida eterna.

5. Concentrando agora a nossa atenção sobre a parábola do Evangelho de Lucas (10,25-37), é impressionante notar que o narrador tenha necessitado de pouco mais de cem palavras, exatamente 106 no texto grego, incluindo artigos e partículas gramaticais (cf. Lucas 10,30b-35), para criar um quadro inesquecível!

6. Um HOMEM, anónimo e solitário, percorre os 27 km da estrada romana que, serpenteando através do Wadi el-Kelt, ligava a Cidade Santa (Jerusalém) ao belíssimo oásis de Jericó, tradicional morada de sacerdotes, superando um desnivelamento de cerca de 1100 metros. De improviso, na paisagem inóspita e desértica daquela estrada, o cenário habitual: BANDIDOS que saltam da emboscada, roubo, violência, fuga. Fica na berma da estrada um corpo ensanguentado, com a guarda de honra das rochas vermelhas dos montes circundantes, ditos em hebraico Adummîm, tradução literal: «do sangue». Tudo envolto num gritante silêncio.

7. Mas eis, ao longe, um SACERDOTE… Súbita desilusão. O narrador refere que o SACERDOTE bem viu o nosso homem, mas «passou pelo lado contrário» (antiparêlthen). Evitou demoras, chatices, incómodos, impureza ritual. Eis, todavia, no horizonte, outra possibilidade: um LEVITA… A mesma desilusão. Também ele «passou pelo lado contrário» (antiparêlthen).

8. A narrativa atinge o seu auge. Eis que vem agora um SAMARITANO, lídimo representante daquele «estúpido povo que habita em Siquém» (Ben-Sirá 50,26), mas vai fazer tudo ao contrário dos dois anteriores representantes da religiosidade fria e formal de Jerusalém. Veja-se com quanto pormenor o narrador descreve todos os seus gestos: vem até junto dele (1), viu-o (2), FOI TOMADO DE MISERICÓRDIA (3), aproximou-se (4), enfaixou-lhe as feridas (5), derramou óleo e vinho (6), colocou-o na sua montada (7), levou-o para uma pousada (8), tomou-o ao seu cuidado (9), deu dois denários ao hospedeiro (10), e disse-lhe: «Toma tu cuidado dele» (11).

9. Aí está a religiosidade fria e calculista e insensível, debruçada sobre si mesma, que passa ao lado da vida por e para estar atenta apenas às rubricas, por parte dos agentes do culto oficial de Jerusalém, em claro contraponto com o amor pessoal, eivado de afeto e de gestos de carinho ativo e criativo deste SAMARITANO, totalmente debruçado sobre os outros e para os outros, interessando-se até sobre o seu futuro, e provocando outros a entrar nesta dinâmica nova cheia de amor novo. Notável aquele: «Cuida tu dele!», do Samaritano, implicando o hospedeiro neste trabalho do amor! E de Jesus implicando o doutor: «Vai e faz tu!».

10. Fica claro que todo o fazer do samaritano tem o sabor do excesso e da maravilha. A sua história termina assim: «Quando eu voltar, pagar-te-ei». Mas esta é, como sabemos, a assinatura de Deus, como se pode ver nas parábolas do Reino (cf. Mateus 24,15 e 19). E o tempo e os irmãos que nos deixa nas mãos são a graça da missão que nos confia.

11. É por tudo isto que, sobre uma pedra da pretensa pousada do Bom Samaritano, na verdade um edifício do tempo dos Cruzados, mas que os peregrinos identificam com a pousada da parábola, um peregrino medieval gravou em latim estas palavras: «Ainda que sacerdotes e levitas passem ao lado da tua angústia, fica a saber que Cristo é o Bom Samaritano, que terá MISERICÓRDIA de ti, e, na hora da tua morte, te conduzirá à pousada eterna».

12. «Amarás!», é quanto responde o doutor, lendo a Lei de Deus (Lucas 10,27), que não está longe de ti: está na tua boca e no teu coração, como diz a lição do Livro do Deuteronómio 30,10-14, hoje escutada, e em que, no último dia da sua vida, Moisés insiste em repetir a Israel que, para viver feliz na Terra Prometida em que vai entrar, deve escutar e pôr em prática a Palavra de Deus, verdadeira chave da vida de Israel e da nossa.

13. Hoje temos a graça de escutar um antigo hino sobre o primado de Jesus, provavelmente de língua aramaica, que Paulo incrustou na sua Carta aos Colossenses (1,15-20). O hino é belo, teológico, denso, produzido com rima e metro, como é normal nos hinos antigos. «Filho do amor do Pai» (v. 13) é Jesus Cristo, «Imagem (eikôn) do Deus invisível», «Primogénito (prôtótokos) de toda a criatura» (v. 15) e também «Primogénito dos mortos» e «Cabeça do corpo que é a Igreja» (v. 18), «n’Ele» (en autô) (v. 16), «através d’Ele» (di’ autoû) e «para Ele» (eis autón) (v. 16) tudo foi criado. Ele, o Senhor Jesus, é absolutamente o centro de tudo e o primeiro em tudo, desde a criação, à propiciação pelo sangue da sua Cruz (v. 20), à vida da Igreja, à Ressurreição. É sempre n’Ele e através d’Ele e para Ele, que tudo quanto existe encontra o seu caminho, sentido, enlevo (eudokía) e plenitude (plêrôma).

14. O Salmo 69 é uma súplica intensa e imensa de um pobre sofredor cansado e a perder o pé, tal é a fundura do poço em que se vê atolado, a lama inconsistente e escorregadia que pisa, a força da torrente que o arrasta. Da funda crise em que se encontra, todos os seus gritos se dirigem para Deus, e são insistentes. Veja-se um pouco da sua distribuição pelo mapa do Salmo: «Salva-me» (v. 1 e 15), «responde-me» (vv. 14 e 17), «responde-me depressa» (v. 18), «aproxima-te» (v. 19), «redime-me» (v. 19), «liberta-me» (v. 19), «levanta-me» (v. 30). Catadupa de imagens. Palavras angustiadas ditas a Deus, para que Deus intervenha na vida deste pobre. Não se trata, note-se bem, de angústia à solta, incontrolada, mas modulada, dita a Deus, traduzida em palavras sinceras e sentidas, rezadas, tocadas, cantadas. Todavia, os vv. 22-28, em que perpassa a vingança e a imprecação, foram julgados inapropriados pela tradição cristã, que os cortou da Liturgia das Horas. Esta imensa súplica, selada no final por uma ação de graças (vv. 31-37), foi sempre muito apreciada pela tradição cristã, pelas citações que dela faz o Novo Testamento. Assim, entre outras, João 15,25 cita o v. 5: «Odiaram-me sem motivo»; João 2,17 cita o v. 10a: «O zelo da tua casa me devora»; Romanos 15,3 cita o v. 10b: «Os insultos dos que te insultam recaem sobre mim»; Mateus 27,34 e Marcos 15,23 aludem ao v. 22, acerca do vinagre; Atos 1,20 cita o v. 26: «Que a sua tenda fique deserta». Assumindo e resumindo tudo, Santo Hilário de Poitiers (séc. IV) via neste Salmo, em filigrana, a inteira trama da paixão de Jesus.

António Couto


MISSÃO OU DEMISSÃO

Julho 6, 2019

1. Vamos ter o privilégio de poder conviver nos próximos três Domingos (XIV, XV e XVI) com o texto sublime de Lucas 10, todo ele dedicado a afinar os traços do retrato do discípulo de Jesus, o que Lucas faz em três quadros que formam um tríptico. Assim, vemos hoje (Domingo XIV do Tempo Comum) o primeiro quadro, o ENVIO dos 72 discípulos de Jesus para um trabalho de ALEGRIA (Lucas 10,1-20). Veremos no próximo Domingo (XV do Tempo Comum) o segundo quadro, que expõe uma figura belíssima que assume alguns traços fundamentais do discípulo de Jesus: o Bom Samaritano (Lucas 10,25-37). E, no Domingo XVI, a fechar Lucas 10, veremos o terceiro quadro, que mostra as figuras de Marta e de Maria (Lucas 10,38-42), em que Maria, sentada como discípula atenta aos pés do Mestre, deixa ver mais alguns traços determinantes do discípulo de Jesus.

2. Mas hoje, Domingo XIV, aí estão os 72 discípulos ENVIADOS por Jesus, portanto vinculados a Jesus. O número 72 traduz a universalidade: somos todos enviados por Jesus! Na mentalidade hebraica, eram 72 as nações que povoavam a terra. E as 70 nações que, na tábua dos povos, encontramos em Génesis 10, sobem significativamente para 72 na conhecida versão grega dos LXX! Assim, ao escolher um discípulo por nação, Jesus possibilita que todas as nações possam escutar o Evangelho! Digamos, pois, que podemos ver aqui o início daquele caudal maravilhoso que um dia, na manhã de Pentecostes, atingirá a sua foz, quando todas as nações que há debaixo do céu (Atos 2,5) ouvirem falar (laléô), verbo característico da revelação, nas suas línguas maternas as maravilhas de Deus (Atos 2,11).

3. Note-se que, já antes, em Lucas 9,1-6, Jesus enviou os Doze (Apóstolos). O ENVIO dos 72 discípulos que hoje se apresenta diante de nós, em Lucas 10,1-20, é um exclusivo do Evangelho de Lucas e vinca bem a qualidade missionária deste Evangelho, que faz missionários, não apenas os Doze, mas todos os discípulos de Jesus! Sem equívocos: ser cristão ou discípulo de Jesus é ser missionário. Ser missionário não é uma segunda vocação, facultativa, uma espécie de adorno ou adereço que pode advir apenas a alguns cristãos (Francisco, Evangelii gaudium, n.º 273). Sempre sem equívocos: SER CRISTÃO É SER MISSIONÁRIO! É viver intensamente de Jesus e com Jesus, e partir, sair de si, para levar Jesus ao coração dos nossos irmãos. A grande Apóstola das ruas de Ivry, Madeleine Delbrêl (1904-1964), dizia as coisas assim, de maneira contundente, como evangélicas facas de dois gumes: «A missão não é facultativa. Os meios ateus [e indiferentes] em que vivemos impõem-nos uma escolha: MISSÃO OU DEMISSÃO CRISTû (mas ver também, no mesmo sentido, a Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, n.º 5, de 1975, de Paulo VI, a Mensagem para o Dia Missionário Mundial, de 2012, de Bento XVI, e a Carta Pastoral Misión Continental, n.º 4, de 2009, da Conferência Episcopal da Argentina).

4. O trabalho da Evangelização a que somos CHAMADOS e ENVIADOS por Jesus é um trabalho de ALEGRIA. Não de sementeira, mas de CEIFA (thêrismós). De acordo com o Salmo 126, a sementeira é um tempo de lágrimas, ma a CEIFA é um tempo de ALEGRIA e MÚSICA: «Vão andando e chorando, levando as sementes; ao voltar, vêm cantando, trazendo braçados de espigas» (Salmo 126,6).

5. O ENVIADO de Jesus deve partir belo, leve e livre, com causas, e sem coisas: «Ide! (…) Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias» (Lucas 10,4), mas com mansidão, alegria e paz, como cordeiros (Lucas 10,3). O cordeiro é um animal pacífico: não mata, mas é morto! Como Jesus, o cordeiro de Deus! Veja-se, de resto, a riqueza semântica do aramaico talyaʼ, que significa «cordeiro, servo, pão e filho», perfeita tradução da identidade de Jesus. E com carácter de urgência: «Não vos demoreis pelo caminho» (Lucas 10,4). O objetivo é chegar quanto antes ao coração das pessoas, a quem se deve entregar a PAZ, entenda-se, a FELICIDADE, que é o significado pleno do termo hebraico SHALÔM.

6. Note-se sempre bem que os discípulos de Jesus são ENVIADOS ao encontro das pessoas. Portanto, não são as pessoas que são chamadas a vir ao encontro dos discípulos de Jesus. Sim, o discípulo de Jesus não pode limitar-se a falar do Reino de Deus àqueles que veem ter com ele e o interrogam. Ao discípulo de Jesus é requerido que tome a iniciativa e fale em primeiro lugar. Deve assumir uma postura pró-ativa, não se contentando simplesmente em esperar e responder.

7, Somos informados, no final deste imenso texto, que os 72 voltaram cheios de ALEGRIA!

8. O contraponto belíssimo vem hoje do último Capítulo de Isaías, que vale a pena transcrever, tal é a sua beleza e exaltação: «Alegrai-vos com Jerusalém,/ rejubilai com ela todos vós que a amais;/ regozijai-vos com ela, sim, regozijai-vos,/ todos vós que fizestes luto sobre ela,/ pois mamareis e saciar-vos-eis do peito da sua consolação,/ pois sugareis e vos deleitareis da sua mama gloriosa./ pois assim diz o Senhor:/ “Eis-me a estender para ela a paz como um rio,/ e como uma torrente a transbordar a glória das nações./ Sereis amamentados,/ levados sobre os flancos,/ e sobre os joelhos acariciados./ Como um filho (’îsh) que a sua mãe consola,/ assim Eu vos consolarei;/ sim, em Jerusalém sereis consolados”» (Isaías 66,10-13).

9. É fácil verificar que Jerusalém é apresentada como uma mãe que amamenta e acalenta os seus filhos. Mas tereis reparado ainda que também Deus aparece dito com traços paternais e maternais, mais maternais que paternais, pois assume sobre si o papel de uma Mãe, daquela Mãe, que consola o seu filho, os seus filhos. E o belíssimo texto diz ainda que este filho, ou estes filhos que Deus, como uma Mãe, consola, já não são propriamente bebés, mas gente crescida (’îsh, e não yôneq). Sim, salta à vista que Deus cuida de nós à maneira maternal.

10. Total dedicação e transparência, assemelhação com Jesus, de quem carrega os estigmas (stígmata) e entrega casa a casa, porta a porta, mão na mão, coração a coração, a graça do Senhor Nosso, Jesus Cristo. Eis o retrato do Apóstolo no final da Carta aos Gálatas (6,14-18), que hoje tivemos também a graça de ouvir.

11. Verificação: como este mundo anda triste e distraído, anestesiado e dormente! E como nós, discípulos de Jesus, ENVIADOS a este mundo por Jesus, temos de sentir a urgência de levar este rio de ALEGRIA aos nossos irmãos. A não esquecer: ser cristão é ser missionário! Olhando com amor para este mundo, impõe-se-nos uma escolha: MISSÃO ou DEMISSÃO Cristã!

12. Missão nossa será sempre cantar a glória de Deus e convocar a terra inteira para verificar as maravilhas operadas por Deus. Todos e cada um. A comunidade e eu de mãos dadas e levantadas para Deus, como acontece muitas vezes nos Salmos. Temos muito a relatar e a agradecer, repassando diante de nós, não apenas a paisagem bíblica, mas também a nossa paisagem humana. Também o Salmo de hoje começa em tom comunitário (Salmo 66,1-12) para nos mostrar depois também o papel do solista (vv. 13-20).

António Couto


CAMINHO CRUCIAL

Junho 29, 2019

1. Neste Domingo XIII do Tempo Comum temos a graça de ouvir o Evangelho de Lucas 9,51-62, que é uma página sublime e sobrecarregada de cenários de seguimento, sucessivos e desconcertantes, que interpelam todos aqueles, de ontem e de hoje, que são chamados a seguir o caminho de Jesus.

2. O primeiro cenário é a anotação radical de que Jesus «tornou o seu rosto duro como pedra na direção de Jerusalém» (Lucas 9,51). A expressão «tornar o rosto duro como pedra» provém do terceiro canto do Servo de YHWH, de Isaías 50,7, e serve para assinalar uma atitude firme e decidida da qual não se pode voltar atrás. Ainda que, no contexto do Evangelho de Lucas, esta anotação marque a viragem geográfica de Jesus da Galileia para a Judeia e para Jerusalém, a anotação é sobretudo de ordem teológica, salientando a total confiança de Jesus no Pai e a total orientação da sua vida para o Pai, tal como o Servo confia plenamente no seu Senhor e para Ele orienta toda a sua vida. Mas o facto de Jesus «tornar o seu rosto duro como pedra na direção de Jerusalém» deve ensinar-nos a ver que Jesus caminha sem hesitação para a Cruz, o que faz do seu caminho e do nosso caminho um caminho Crucial.

3. O segundo cenário é o envio (apostéllô) por parte de Jesus de mensageiros (ángelloi) à sua frente com a missão de preparar (etoimázô) a vinda do próprio Jesus (Lucas 9,52). Extraordinária e preciosa indicação. A missão excede o mensageiro, que é sempre e só um preparador de caminhos para a vinda daquele que há de vir, Jesus Cristo, que é assim o único imprescindível! Fica claro desde cedo, desde já, que a nossa missão tem a dimensão do precursor humilde, pobre e manso, que apenas abre portas e corações (Malaquias 3,24), e põe a mesa, para que possa entrar o Rei da Glória (Salmo 24,7 e 9). Portanto, a postura do mensageiro ou missionário é a de um pedinte que vai à frente e bate à porta, às portas (também Lucas 10,1). Sim, é um pedinte, «sem bolsa, nem alforge, nem sandálias» (Lucas 10,4), que «come e bebe do que lhe servirem» (Lucas 10,7). Tem de aprender a pedir e a receber; não a insultar, a suspeitar, a ameaçar e a possuir.

4. Aí está, portanto, pedagogicamente em contraponto, o terceiro cenário. Trata-se da ilusão de poder de Tiago e João, os filhos de Zebedeu, que propõem a Jesus dizimar uma povoação samaritana só porque esta recusa acolher Jesus. Vê-se que ainda não aprenderam a pedir e a receber, mas sabem tudo sobre a suspeita, a ameaça e o poder. Os dois irmãos discípulos, que não entenderam ainda o caminho manso e humilde de Jesus, que tem os mesmos tons do Servo de YHWH, são duramente repreendidos (Lucas 9,55) com o mesmo verbo (epitimáô) com que Jesus estigmatiza os espíritos impuros (cf. Lucas 4,35).

5. Mas um quarto cenário salta à vista de quem segue atentamente a página evangélica. O início desta viagem de Jesus para a Judeia e Jerusalém fica marcado pelo seu não acolhimento e rejeição numa aldeia da Samaria (Lucas 9,52). Mas a mesma rejeição tinha acontecido no início da sua missão em Nazaré (Lucas 4,29), e aponta já para a sua rejeição em Jerusalém e para a futura rejeição dos anunciadores do Evangelho. Portanto, e sem medos e sem equívocos, a rejeição acompanha o Evangelho em pessoa, que é Jesus Cristo. Os seus discípulos de ontem e de hoje devem saber estas coisas, para não procurarem facilidades no seguimento fiel do caminho de Jesus. Aí está sempre a balizar o caminho a palavra de Jesus: «Se me perseguiram a mim, perseguir-vos-ão também a vós» (João 15,20).

6. O quinto cenário fixa a nossa atenção em alguém que se propõe seguir Jesus, com estas palavras: «Seguir-Te-ei para onde quer que vás!» (Lucas 9,57), logo seguidas da declaração de Jesus: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça!» (Lucas 9,58). Note-se bem que o texto diz o essencial e omite o circunstancial, deixando-nos sem saber quem era o homem, de onde veio, o que é que o levou a propor-se seguir Jesus, e como terá reagido à declaração de Jesus acerca da sua pobreza radical, que deveria adotar também quem o quisesse seguir. Tê-lo-á seguido no caminho? Foi-se outra vez embora? Com este procedimento escorreito, a intenção do narrador é certamente apresentar a força do seguimento de Jesus enquanto tal, não o fazendo depender desta ou daquela circunstância, e fazendo dele um seguimento incondicional. Seguir Jesus é um absoluto, sem condições, atitude posta em destaque pelo facto de Jesus não ter eira nem beira, «não tem onde reclinar a cabeça», o que torna incontornável a transparência da sua confiança no Pai. Sua e daqueles que o queiram seguir no caminho.

7. Permiti que abra aqui um sexto cenário, retomando o dito de Jesus: as raposas têm as suas tocas, as aves do céu os seus ninhos; em contraponto, Jesus, o Filho do Homem, não tem onde reclinar a cabeça (Lucas 9,58). Aqui está a especificidade do homem em relação ao animal. A liberdade do animal é uma liberdade sem responsabilidade, uma liberdade solitária. Não é assim com o homem: «Não é bom que o homem esteja só», é uma das primeiras lições do Livro do Génesis (Génesis 2,18). A liberdade do homem é uma responsabilidade que se assume face à Criação, constrói-se sempre com alguém, sempre diante de alguém. Ao homem compete assumir atitudes responsáveis, o que o impede de encontrar tão cedo um lugar onde reclinar a cabeça. Fixemos outra vez e sempre os nossos olhos em Jesus, e compreendamos que apenas a morte interrompe este caminho de crucial responsabilidade. Atente-se que é apenas sobre a Cruz que Jesus reclinará a cabeça (João 19,30).

8. O sétimo cenário é o apelo limpo, igualmente despido de acessórios, que Jesus faz a alguém: «Segue-me!», a que o visado responde imediatamente: «Permite-me ir primeiro sepultar o meu pai!» (Lucas 9,59). E a resposta, quase escandalosa de Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Tu, vai anunciar o Reino de Deus!» (Lucas 9,60). Estas imensas palavras de Jesus ganham ainda maior acutilância se soubermos que a mentalidade e a sabedoria judaicas davam enorme importância ao dar sepultura a um familiar. Era uma ação de tal monta e de tal conta que dispensava da oração do Shema‛, da oração das dezoito bênçãos e de todos os preceitos da Lei (Mishnah Berakhot 3,1a). Mas o caminho novo de Jesus inverte o normal caminhar da experiência humana da vida para a morte. O caminho de Jesus, e segundo Jesus, é da morte para a vida: «nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos; quem não ama, permanece na morte» (1 João 3,14). Quem quiser seguir Jesus tem, portanto, de apostar tudo no novo sentido que Jesus imprime à existência: partir da morte para a vida, com a única chave possível que abre este caminho Crucial: o amor, o amor, o amor! Mais amor, mais amor, mais amor!

9. O oitavo e último cenário é igualmente forte, igualmente desconcertante. Põe diante de nós alguém, também sem qualquer registo de circunstâncias, que está disposto a seguir Jesus, desde que Jesus lhe faça uma pequena concessão: permitir que se despeça dos seus familiares. Digamos que pede apenas para dar um pequeno passo atrás, e logo dará dois em frente. Já sabemos que Elias fez esta concessão a Eliseu (1 Reis 19,20), como nos é dado ler na lição do Antigo Testamento de hoje. Mas Jesus é mais do que Elias, e não faz qualquer concessão: «Aquele que deita as mãos ao arado, e olha para trás, não serve para o Reino de Deus!» (Lucas 9,62). O poeta inglês Thomas S. Eliot (1888-1965), fala, neste contexto, de «uma insuportável camisa de fogo que Deus teceu com as suas próprias mãos», para depois nos envolver nela, como se fosse o manto de Elias. «As forças humanas, continua o poeta, não a podem levar; cedo nos apercebemos que apenas podemos viver e respirar se nos deixarmos queimar, queimar de amor». Ainda e sempre e só o amor!

10. Já se vê que é a cena de Elias e de Eliseu, narrada em 1 Reis 19,19-21, que faz de fundo ao Evangelho de hoje. Simbolicamente, Elias atira o seu manto sobre Eliseu, fazendo-o assim seu seguidor. Eliseu andava a lavrar um grande campo, agarrado ao arado, puxado por doze juntas de bois. Sentindo o chamamento de Elias, Eliseu apenas pede o tempo necessário para ir abraçar o seu pai e a sua mãe. Elias concede. Eliseu despede-se de forma radical, sagrada e festiva. Matou uma junta de bois, e assou a sua carne sobre a madeira do arado. Queimando o arado, é todo um mundo que deixa para trás, sem retorno. Enceta depois um caminho novo atrás de Elias.

11. Na lição de hoje da Carta aos Gálatas (5,1.13-18), São Paulo lembra aos Gálatas e a nós que a nossa liberdade (eleuthería) não foi nem é obra nossa. Devemo-la a Cristo (v. 1). E o Apóstolo adverte-nos ainda de que esta liberdade dada e recebida não pode ser agora pretexto para voltar à escravidão. Bem ao contrário, deve ser pretexto para a caridade e o serviço humilde aos outros (v. 13). Vale a pena dizer aqui, a propósito, que este é um dos dois lugares em que Paulo cita o segundo mandamento, o do amor ao próximo como a nós mesmos (v. 14; o outro é Romanos 13,9), e que Paulo nunca cita o primeiro mandamento, o do amor a Deus «com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças» (Deuteronómio 6,4-5). Tal maneira de proceder não é para estranhar. Na verdade, quer a Bíblia Hebraica quer o coração dos Evangelhos falam menos do nosso amor para com Deus (ou Cristo), e mais, muito mais, do nosso amor para com o próximo e para com o estrangeiro e o inimigo! E não se trata de um amor que satisfaz o nosso desejo, mas da imitação do amor de Deus (amar como Ele ama) e de obedecer a um mandamento (amar como Ele manda amar). Então, a nossa resposta ao amor de Deus (ou de Cristo) não consiste na redamatio ou retribuição a Deus (ou a Cristo) do amor com que Ele nos ama, mas volta-se para a frente e traduz-se no amor ao outro, próximo, estrangeiro ou inimigo! Quer na Revelação patente no AT quer em Jesus, o amor ao próximo aparece como o lugar, o único lugar, da epifania do nosso amor a Deus (ou a Cristo). Então, amar a Deus e ao próximo como manda Jesus, é amar como Deus ama, como Deus nos ama.

12. As pedras e as coisas, as casas e as terras, nunca devem ocupar, muito menos encher, o nosso coração. Os sacerdotes, descendentes de Aarão não tinham terra distribuída em Israel. A sua herança era o Senhor (cf. Números 18,20). Cantamos no refrão do Salmo de hoje, o Salmo 16, «Senhor, Tu és a minha herança» (v. 5). No seu Sermão 344, Santo Agostinho comenta assim: «O salmista não diz: “Ó Deus, dá-me uma herança”. Diz antes: “Tudo o que me podes dar fora de Ti, é vil. Sê Tu a minha herança. É a Ti que eu amo… Esperar Deus de Deus, estar cheio de Deus. Basta-te Ele; fora dele, nada te pode bastar». Esta melodia deve encher o nosso coração e este Dia de Domingo, Dia do Senhor, de doação radical, total, ao Senhor. Entenda-se: é um caminho novo que se abre à nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distrações, sem nostalgias, sem saídas de emergência ou de segurança!

António Couto


SOBRE O FUNDAMENTO DOS APÓSTOLOS

Junho 28, 2019

1. Os Santos Apóstolos Pedro e Paulo são festejados em todas as Igrejas do Oriente e do Ocidente, nos antigos, como nos novos calendários, na mesma data, 29 de Junho. A Igreja do Oriente ainda hoje acomuna os dois Apóstolos com o título de Prôtóthronoi, os «primeiros na cátedra» da doutrina divina e salvífica. A Igreja de Roma já existia antes da chegada de Pedro e Paulo, mas venera-os como verdadeiros «fundadores», pois só com eles se vê como Igreja «Apostólica», coração de Pedro, coração de Paulo. A própria iconografia, em inumeráveis representações, junta os dois Apóstolos e Mártires, já desde os séculos II e III, sinal da veneração que os fiéis de Roma e do mundo inteiro lhes dedicavam. Veneração verificável, de resto, no facto de os túmulos dos dois grandes Apóstolos e Mártires ser a meta da única peregrinação do mundo cristão antigo.

2. Os textos da Escritura Santa hoje abertos diante de nós põem em relevo, naturalmente, as duas grandes figuras de Apóstolos que hoje celebramos. O Evangelho é de Mateus 16,13-19, e põe em destaque a figura de Pedro. Também a passagem do Livro dos Atos 12,1-11 lhe é dedicada. O texto do final da 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18 põe naturalmente em realce a figura de Paulo.

3. Cesareia de Filipe, atual Banyas, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS, que atravessa o inteiro Evangelho (Mateus 16,13-19). Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Aí construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus Pã, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.

4. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus põe a questão da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: «Quem dizem as pessoas que é o Filho do Homem?» (Mateus 16,13), para acrescentar logo de seguida, de forma direta e enfática: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15). A esta pergunta, posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16). Jesus declara Feliz (makários) Simão, filho de Jonas, não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). E é sobre este dizer de Simão Pedro, dizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pétros» – «pétra». Mas note-se também que quem constrói a Igreja é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir também é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, só Jesus e Pedro recebem o apelativo de «pedra». «Rocha», «rochedo», «pedra firme» diz-se, em hebraico, tsûr ou sela‘, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no coração do Salmista: «O Senhor é a minha Rocha (sela‘) e a minha fortaleza (…), nele me abrigo, meu Rochedo (tsûr), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu refúgio» (Salmo 18,3).

5. Mas o hebraico conhece também o termo keph, aramaico kêpha’, para designar a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos, mas várias vezes em Paulo (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9.11.14); kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados.

6. Jesus declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, política, jurídica, económica ou científica. É esclarecedor o texto de Isaías 22,19-23, que fala do «rito das chaves» e do poder retirado a Shebna e conferido a Eliaqîm. As chaves do Reino dos Céus são as chaves do amor e do perdão, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os pés na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constituição Dogmática Lumen gentium: «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo» (n.º 9).

7. É importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Concílio Vaticano II. De facto, Pedro é a Pedra e tem as Chaves do Reino dos Céus, e é-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar: «Tudo o que ligares (dêsês: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeménon: part. perf. pass. de déô) nos Céus, e tudo o que desligares (lýsês: conj. aor. de lýô) sobre a terra, ficará para sempre desligado (lelyménon: part. perf. pass. de lýô) nos Céus» (Mateus 16,19). Todavia, no Evangelho de Mateus, e só no Evangelho de Mateus, esta autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar, é também confiada à inteira comunidade, exatamente nos mesmos termos em que é confiada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes (dêsête: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeména: part. perf. pass. de déô) no céu, e tudo o que desligardes (lýsête: conj. aor. de lýô) na terra, ficará para sempre desligado (lelyména: part. perf. pass. de lýô) no céu» (Mateus 18,18). É belo ver a inteira comunidade assente na Pedra, que é Pedro, como Pedro, com Pedro, não alijando responsabilidades, mas unida, reunida e operante na prática quotidiana do Perdão!

8. Atos 12,1-11 é uma página assombrosa, que sai fora do estilo lucano, e se aproxima mais do estilo do evangelista Marcos. Não admira. É mesmo para casa de Maria, mãe de João Marcos, que Pedro se dirige no episódio seguinte (Atos 12,12-17). Na página de hoje, Pedro é salvo miraculosamente pela intervenção do Anjo de Deus, do próprio Deus, portanto. São significativos os cinco imperativos que o Anjo dirige a Pedro: Levanta-te, cinge-te, calça as sandálias, cobre-te com o teu manto e segue-me! (Atos 12,8). Com o primeiro imperativo, caem das mãos de Pedro as correntes de ferro. Assim começa a liberdade! Passam depois, sem qualquer sobressalto, um após outro, dois postos da guarda, e abre-se automaticamente (automátê) o portão de ferro que dava para fora (Atos 12,10). Quando Pedro cai em si, está numa rua de Jerusalém, e reconhece a mão de Deus nesta espetacular ação de libertação em que é libertado das mãos de Herodes (Atos 12,10-11). Trata-se de Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande. Favorecido, primeiro por Calígula, depois por Cláudio, foi vendo, a partir do ano 37, começar e aumentar o seu reinado de norte para sul: em 37, é libertado das suas cadeias de ferro – estava preso em Roma – por Calígula, que lhe entrega, juntamente com o título de rei, as tetrarquias de Filipe e de Lisânias; em 40, recebe a tetrarquia de Herodes Antipas, acabando de 41 a 44, ano da sua morte, por se tornar rei também sobre a Judeia, de certo modo refazendo o antigo reino de Herodes o Grande. É no decurso destes últimos anos que se situam os acontecimentos relatados ou apenas acenados na lição de hoje, nomeadamente o martírio de Tiago, filho de Zebedeu, e a prisão de Pedro.

9. A cena da libertação de Pedro acontece na noite de Páscoa, em paralelismo com os hebreus que, no Egipto celebraram a Páscoa da libertação. Também aí acontece a intervenção de Deus (Êxodo 12,8.12), também de noite, e os hebreus, como Pedro agora, comem a Páscoa com os rins cingidos e sandálias nos pés (Êxodo 12,11). E, de novo em paralelismo com os hebreus na saída do Egipto, também Pedro deve caminhar pelas ruas da cidade e pelos caminhos do mundo. É aí que Pedro e os Apóstolos devem agora fazer falar a Palavra, e não já no Templo, como sucedeu no relato da libertação dos Apóstolos narrado em Atos 5,18-21.

10. Na verdade, quando Pedro dá por si, encontra-se na rua! Dirige-se então para casa de Maria, mãe de João Marcos, onde era usual os cristãos se reunirem para rezar (Atos 12,12). Pedro bate insistentemente ao portão exterior que dá para o pátio interior da casa, e, apercebendo-se, veio uma criada, de nome Rode [= Rosa] ver quem era (Atos 12,13). Mal reconheceu a voz de Pedro, ficou tão contente que, em vez de abrir o portão, correu para dentro anunciando que Pedro estava lá fora (Atos 12,14). Responderam-lhe que estava maluca (maínê) (Atos 12,15). Quando finalmente abriram o portão, que não se abre automaticamente como o da cadeia, ficaram assombrados, fora de si (exístêmi) (Atos 12,16). É este o assombro maravilhoso que toma conta de Marcos, que enche o seu Evangelho, e esta página de eleição!

11. Chegámos finalmente a Paulo e ao final da sua 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18, em que Paulo traça, por assim dizer, o seu testamento autobiográfico, recorrendo a três imagens. A primeira provém do culto, do rito de libação (2 Timóteo 4,6), hebraico nesek (Êxodo 29,40; Levítico 23,13), que consiste em derramar um pouco de vinho ou de mosto (cerca de 1,5 litros) sobre o altar, onde será queimado juntamente com a oferenda (minhah), subindo o seu perfume para o alto, para Deus. Do mesmo modo, a inteira vida de Paulo foi uma incessante subida para o seu Senhor, nada retendo para si mesmo, cá em baixo. A segunda provém do mundo militar. É o combate (agôn), que Paulo combateu a vida inteira, e que qualifica de «belo» e «bom» (kalós) (2 Timóteo 4,7). A terceira provém do mundo desportivo, concretamente do atletismo. «Completei a minha corrida (drómos)» (2 Timóteo 4,7). Como o atleta sacrifica tudo para alcançar a vitória, também Paulo despendeu todas as suas energias para alcançar «a coroa da justiça» que o Senhor lhe dará (2 Timóteo 4,8), e que é bem diferente da «coroa corruptível» que os atletas conquistam no estádio (1 Coríntios 9,25). Seja-nos permitido ir buscar ainda uma quarta imagem ao mundo dos marinheiros. «O tempo (ho kairós) começou já a recolher as velas (systéllô)» (1 Cor 7,29). Paulo sabe que está a chegar ao porto, depois de ter atravessado tempestades de toda a ordem, sempre, no entanto, assistido pelo seu Senhor, para que se cumprisse o anúncio (kêrygma) do Evangelho a todas as nações (2 Timóteo 4,17). E termina tudo com uma bela doxologia: «A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Ámen» (2 Timóteo 4,18).

12. O Salmo 34 põe nos lábios dos pobres a bênção (berakah), que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (tehillah), que é a sua verdadeira razão de viver (vv. 2-3). O pobre enche o olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na versão grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunhão, também nas liturgias de rito bizantino, lê-se: «geúsasthe kaì ídete hóti chrêstós ho Kýrios» («Saboreai e vede que Bom é o Senhor»), em que o adjetivo chrêstós, «bom», é lido na pronúncia viva: christós, o que vem a resultar, na atualização cristã: «Saboreai e vede que Cristo é o Senhor». Belo e saboroso, sem dúvida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege até os seus ossos para não serem quebrados (v. 21), tal como é dito do cordeiro pascal, o mais alto símbolo de libertação. No seu Caminho de perfeição, Santa Teresa de Ávila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e e incisivos discursos sobre a pobreza: «A pobreza é um bem que contém em si todos os bens do mundo; ela confere um império imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens cá de baixo desde o momento em que os faz cair aos pés».

António Couto


CORAÇÃO PARA SEMPRE ABERTO

Junho 27, 2019

1. Passa hoje, no calendário litúrgico desta sexta-feira, a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que assinala a presença viva, próxima e intensa de um amor sublime e de uma esperança nova, refletida no rosto, no coração e no horizonte de cada ser humano. Esse horizonte novo brota do coração aberto de Jesus Cristo, fogo ardente de amor e de sentido que enche de luz os nossos passos, tantas vezes andados na penumbra e no escuro. São Paulo diz bem aos cristãos de Éfeso que, antes de terem sido encontrados por Jesus Cristo, viviam «sem esperança e sem Deus no mundo» (Efésios 2,12). A questão, entenda-se bem, já não é apenas viver sem Deus, no desconhecimento (agnôsía) de Deus. É viver sem Deus no mundo, no meio de nós, pertinho de nós, connosco. Sim, se repararmos bem, sem a presença de Deus no mundo, também a nossa habitação fica desabitada, uma espécie de câmara escura, e fica sem sentido a nossa vida. Sem Deus no mundo, pode haver apenas pequenas e inúteis deduções, como quem deduz o céu da terra ou o Último do penúltimo.

2. Com Deus no mundo, muda tudo. É o céu que desce à terra, é o Último que enche de sentido o penúltimo. Fica habitada a nossa habitação, e um sentido novo rebenta o nosso escuro duro. Sim, o coração aberto do Deus humanado enche-nos de luz e de esperança. Enche-nos de Jesus, de cujo lado aberto saiu sangue e água (João 19,34): o sangue do Cordeiro que assinala as umbreiras das nossas casas (Êxodo 12,22-23) e lava as nossas túnicas brancas (Apocalipse 7,14); a água, que é o Espírito Santo, que vem para nós da humanidade crucificada e glorificada de Jesus, e alumia a nossa inteligência e o nosso coração de filhos, ensinando-nos a dizer: Ab-ba! Do lado aberto do primeiro Adam adormecido nasceu Eva (Génesis 2,21-22). Do lado aberto do novo e último Adam adormecido nasce a Igreja!

3. Aí está então o mistério por Deus dado a conhecer e a amar (Efésios 3,8-19) (o conhecimento incha; só o amor edifica), a fonte da nossa vida verdadeira, as nossas habitações (êthos) habitadas de sentido, os nossos hábitos (éthos) luminosos e branqueados. Habitação diz-se, na língua grega, êthos. A habitação é a casa, é a Igreja, a Casa bela habitada por filhos e irmãos. Hábito diz-se éthos, de onde vem «ética», que é a norma para viver na Casa, é o amor e a alegria de que os filhos e irmãos, que vivem na Casa, devem andar sempre revestidos. Habitação e hábito! Ó admirável mundo novo, belo e sublime, que Deus não se cansa de oferecer aos seus filhos amados.

4. O Evangelho deste Dia (Lucas 15,3-7) é uma janela sublime e sempre aberta com vista direta para o coração de Deus, exposto, narrado, contado por Jesus. Mas antes de Jesus começar a contar Deus, o narrador prepara cuidadosamente o cenário (vv. 1-2), dizendo-nos que os PUBLICANOS e PECADORES se aproximavam de Jesus para o escutar, em claro contraponto com os ESCRIBAS e FARISEUS que estavam lá, não para o escutar, mas para criticar o facto de Jesus acolher os pecadores e comer com eles. Eles achavam que os pecadores eram merecedores de castigo severo e não de misericórdia, pois eram amplamente devedores a Deus, e não credores como os fariseus pensavam que eram. São visíveis, portanto, dois modos de ver, dois critérios: 1) o comportamento novo, misericordioso, inclusivo, por parte de Jesus, que acolhe e abraça os pecadores, até então marginalizados, hostilizados, descartados, excomungados; 2) o comportamento impiedoso, rigorista e exclusivista para com os pecadores por parte da velha tradição religiosa dos escribas e fariseus.

5. É a estes últimos, que não concordam com o seu comportamento e o criticam, que Jesus conta uma parábola, «ESTA PARÁBOLA» (taúten parabolên) (v. 3), no singular. Sim, o texto diz expressamente «ESTA PARÁBOLA», o que quer dizer que tudo o que Jesus vai contar até ao final do Capítulo é uma só parábola, e não três, como vulgarmente se pensa, titula e diz. Sendo a parábola contada para os ESCRIBAS e FARISEUS, então é desse lado do auditório que nós, leitores ou ouvintes, nos devemos colocar. Se nos colocarmos, como é usual e a nossa simpatia reclama, do lado dos PECADORES, da OVELHA perdida e encontrada, da DRACMA perdida e encontrada, do FILHO perdido e encontrado, a parábola passa-nos ao lado.

6. O primeiro quadro, que é o único que Hoje nos é apresentado, mostra-nos a OVELHA PERDIDA lá longe, e por amor PROCURADA e ENCONTRADA, e que dá azo à ALEGRIA partilhada com os amigos e vizinhos. E Jesus conclui que é assim no céu sempre que um PECADOR se converte. Ao fundo da cena estão noventa e nove JUSTOS que não precisam de conversão. Era o que pensavam os escribas e fariseus, e nós tantas vezes também!

7. A ovelha ou um de nós que se perde, perde-se porque volta as costas a Deus. Sempre seguindo os indicadores da parábola, é essencial que o PASTOR não imite o comportamento da ovelha, voltando-lhe as costas e não se importando mais dela, mas que continue a dedicar-lhe todo o seu cuidado e carinho pastoral, que nunca a exclua, mas que lute por incluí-la no seu rebanho. Para aquele PASTOR, não é uma ovelha qualquer; é a minha ovelha perdida.

8. O texto de Ezequiel 34,11-16 faz eco ao bom PASTOR do Evangelho de Hoje, que procura com todo o empenho a sua ovelha perdida. Em Ezequiel 34,1-10, Deus critica, pela boca do profeta, os maus pastores que se apascentam a si mesmos à custa das ovelhas. Em perfeito contraponto, no texto de Hoje, Deus assume-se como PASTOR bom que vai recolher as suas ovelhas de todos os lugares onde elas andam dispersas, e vai trazê-las para as boas pastagens de Israel, e vai cuidar delas pessoalmente, tratando cada uma conforme as suas necessidades: conduzir para o rebanho a desgarrada, curar a que tiver feridas, reanimar a desanimada. Para o futuro, afirma Deus que vai suscitar um PASTOR bom, que cuide bem das suas ovelhas, a saber, o seu servo David (vv.23-31). Então, sim, as ovelhas viverão tranquilas, os tempos serão de abundância e alegria, e a aliança realizar-se-á: vós sereis o meu rebanho, e Eu serei o vosso Deus. É aqui que encaixa o Evangelho de Hoje.

9. A lição de Hoje da Carta aos Romanos (5,5b-11) mostra-nos aquele Jesus Cristo que nos ama e se debruça e dá a sua vida por nós quando nós éramos ainda pecadores, e continuamos a ser, não havendo, portanto, nenhum mérito da nossa parte. Está à vista o cenário do Evangelho de hoje, em que Jesus empenha toda a sua vida e todo o seu tempo para trazer para si aqueles que andam perdidos, cansados e abatidos.

10. Quanto ao mais, todo o tempo é tempo para nos deixarmos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor, cantando o Salmo 23. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… É a alegria da nossa família reunida.

11. Sagrado Coração de Jesus, fazei o nosso coração semelhante ao vosso, neste dia belo e luminoso em que consagramos ao vosso Coração para sempre aberto a Igreja inteira e o mundo inteiro, sobretudo os que se afastaram de Ti, os doentes e desanimados, as famílias desavindas, as crianças abandonadas, os marginalizados e descartados, os que fogem de situações de guerra ou de miséria, e os que andam à procura de um abrigo, de uma mão carinhosa e de um coração aberto e acolhedor. Deixou escrito o beato Charles de Foucauld: «Perdei-vos no coração de Cristo: ele é o nosso refúgio, o nosso asilo, a casa do pássaro, o ninho da pomba, a barca de Pedro para atravessar o mar tempestuoso».

12. A Solenidade de hoje tem as suas raízes no coração de Deus, que as páginas da Escritura Santa nos dão a conhecer. Mas este caminho acentuou-se sobretudo nos tempos modernos, primeiro, nas revelações feitas a Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690), a quem se deve a implantação da devoção das nove primeiras sextas-feiras, mas também é oportuno lembrar S. Vicente de Paulo (1795-1850), que viveu e testemunhou com paixão «o mar imenso das divinas misericórdias», e as místicas religiosas Benigna Consolata (1885-1916), que se chamava a si mesma «a pequena secretária do amor misericordioso», Maria Teresa Desandais (1876-1943), que se via a si mesma como a «mensageira do amor misericordioso», e Santa Faustina Kowalska (1905-1938), «secretária da misericórdia». Particular importância para a realização da Solenidade de hoje e para a Consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus teve ainda a mística beata Maria do Divino Coração (1863-1899), sem esquecer a influência de Santa Teresa de Lisieux (1873-1897). Todas estas figuras místicas assumiram particular relevo na vivência e divulgação da mensagem da misericórdia de Deus. S. João XXIII dizia que «a Misericórdia é o nome mais belo de Deus, e acrescentava que as nossas misérias são o trono da Misericórdia divina». Em 1856, Pio IX estendeu a toda a Igreja a Festa do Sagrado Coração de Jesus. A Festa ou Solenidade de hoje, bem como a Consagração ao Sagrado Coração de Jesus, derivam das revelações destas místicas religiosas, tendo sido a beata Maria do Divino Coração a que mais de perto inspirou o Papa Leão XIII à sua instituição, que aconteceu em 1899, mediante a Encíclica Annum sacrum, tendo sido depois confirmadas por Pio XI em 1928, mediante a Encíclica Miserentissimus redemptor, e por Pio XII em 1956, mediante a encíclica Haurietis aquas. No seguimento das revelações da mística Santa Faustina Kowalska, S. João Paulo II instituiu o Domingo da Divina Misericórdia, a celebrar no Domingo II da Páscoa.

António Couto


O SEU NOME É JOÃO

Junho 23, 2019

1. Na Solenidade do Nascimento de S. João Batista, é-nos dada a graça de escutar o Evangelho de Lucas 1,57-66. Depois de Maria ter visitado e saudado Isabel (Lucas 1,39-45), e depois de ter recitado a bela oração do Magnificat (Lucas 1,46-55), o narrador informa-nos que «Maria permaneceu com Isabel cerca de três meses, e depois voltou para sua casa» (Lucas 1,56).

2. Curiosamente, só agora, depois da anotada a saída de cena de Maria em Lucas 1,56, nos é dito, no versículo imediatamente seguinte, em Lucas 1,57, que Isabel deu à luz. Com esta anotação precisa, fica claro que os três meses que Maria passou em casa de Isabel nada têm a ver com a assistência que Maria podia prestar a Isabel aquando do nascimento do seu filho. Temos então de procurar noutra direção pelo significado que o narrador quis dar a essa estada de três meses de Maria em casa de Isabel. E aqui impõe-se-nos a anotação que consta em 2 Samuel 6,11 acerca da Arca do Senhor, sendo aí dito que «a Arca do Senhor ficou três meses em casa de Obed-Edom (atual Bídu, aldeiazinha no caminho de Emaús El-Qubèibeh), no antigo território de Gat, tendo o Senhor abençoado Obed-Edom e toda a sua casa».

3. Portanto, Maria é, no texto de Lucas, a Arca do Senhor presente em casa de Isabel, que abençoa a casa de Isabel. Verificação: não é dito, o que seria de todo normal, que os vizinhos e os familiares de Isabel ouviram dizer que Isabel tinha tido um filho, mas sim que «os vizinhos e familiares ouviram dizer que Deus cumulou Isabel com a sua misericórdia» (Lucas 1,58).

4. O oitavo dia do nascimento de um menino é uma grande festa em Israel. É nesse dia que o menino é circuncidado e recebe o seu nome. A casa de Isabel enche-se outra vez de familiares e vizinhos. Mais uma vez atento, o narrador diz-nos que aquela gente que veio para a festa queria dar ao menino o nome do seu pai, Zacarias (Lucas 1,59). Nem outra coisa era de supor, dado que, em contexto bíblico, o filho primogénito recebia habitualmente o nome do seu pai. Mas Isabel também estava atenta, e reagiu logo, dizendo: «Não, o menino chamar-se-á JOÃO!» (Lucas 1,60).

5. Os presentes ficaram atónitos com a reação de Isabel, e fizeram questão de vincar tal incongruência, referindo que na família ninguém tinha esse nome (Lucas 1,61). Recorreram, pois, ao mudo Zacarias para que se pronunciasse sobre o assunto do nome do menino. Zacarias, porque estava mudo, pediu uma tabuinha de cera, e escreveu: «O seu nome é JOÃO!», o que provocou o espanto de todos os presentes (Lucas 1,62-63).

6. Porquê, então, o nome de JOÃO? É certo que já o Anjo tinha mencionado a Zacarias este nome em Lucas 1,13. Mas porquê JOÃO, se ali, no livro anagráfico daquela família ninguém registava esse nome? O que significa o nome JOÃO? Em hebraico, JOÃO diz-se Yôhanan. Yôhanan significa literalmente «YHWH faz graça». E o que é fazer «fazer graça»? De forma plástica e concreta, é uma mãe que embala ternamente o seu bebé nos braços e baixa para ele o olhar carinhoso, bondoso, maravilhoso, gracioso, maternal. É este duplo gesto de carinho maternal que é a graça bíblica. Sobretudo aquele olhar belo, enternecido, embevecido, maternal, que enche o bebé de graça.

7. É assim que Deus olha para nós, e nos acaricia. É assim que Maria é saudada pelo Anjo com aquele: «Alegra-te, Cheia de Graça!» (Lucas 1,28). E é isso que Maria canta no Magnificat: «A minha alma engrandece o Senhor,/ e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,/ porque Ele Olhou (epiblépô = olhar condescendente) para a sua humilde serva» (Lucas 1,46-47).

8. O nome JOÃO não estava registado no livro anagráfico daquela família. O nome dado não é, portanto, da nossa colheita. Vem de Deus. Foi anunciado pelo Anjo. O que é que isto quer dizer? JOÃO é, por assim dizer, o último profeta do Antigo Testamento, e o primeiro do Novo Testamento. Sendo o último do Antigo Testamento, ele resume todo o Antigo Testamento. E o resumo é este: «Deus faz graça». Sendo o primeiro do Novo Testamento, ele constitui o sumário de todo o Novo Testamento. E o sumário é este: «Deus faz graça».

9. É a posição estratégica de JOÃO no limiar dos Dois Testamentos, encerrando um e abrindo outro, resumindo um e sumariando outro, que explica a nossa estranheza. Mas JOÃO é uma enorme lição. Neste Belo Nome está contida a inteira Escritura e o inteiro afazer de Deus. Parabéns, menino JOÃO, pelo teu nascimento no nosso mundo. Tu, que nos vieste mostrar Deus!

10. O Antigo Testamento serve-nos hoje, na Solenidade do Nascimento de S. João Batista, o chamado «segundo canto do Servo de YHWH» (Isaías 49,1-7). Gerado na dor de Israel como verdadeiro filho do milagre (Isaías 49,21), ergue-se esta singular figura de «Servo» (‘ebed), totalmente nas mãos de Deus, desde a sua predestinação desde o seio materno (Isaías 49,1 e 5), passando pela sua entrega à morte (Isaías 53,12), até à sua exaltação e glorificação (Isaías 52,13), de tal modo que Deus o pode chamar «meu Servo» (‘abdî). Na lição de hoje, o «Servo» fala em primeira pessoa e refere o seu chamamento por Deus, que continua a dizer o seu nome e a revelar-se a ele. Na verdade, Deus quer fazer dele o restaurador de Israel, o condutor dos exilados de Judá, mas também quer que ele seja uma luz para as nações, pois Deus quer que a sua salvação chegue até aos confins da terra. Da mesma forma, João não é a Luz, mas veio para dar testemunho da Luz (João 1,7-8).

11. Também temos a graça de ouvir hoje um pequeno extrato (Atos 13,22-27) do extenso «módulo narrativo» da história da salvação feito por Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (Actos.13,16-41). A parte hoje narrada e escutada põe diante de nós a história santa desde a promessa feita a David até João Batista, que mostra a sua realização, apontando Jesus.

12. O Salmo 139 é uma pequena maravilha, que põe diante de nós um Deus que se interessa por nós desde a nossa gestação no seio materno, ainda em embrião (golem) (Salmo 139,16), e depois acompanha com conhecimento pessoal todo o nosso percurso, toda a nossa vida. Tudo maravilhoso e admirável. Ó Deus amigo dos homens!

 

Levanto os meus olhos para os montes:

De onde virá o meu auxílio?

O meu auxílio vem do Senhor,

Que fez o céu e a terra.

 

Tudo fala de Ti, Senhor!

Tudo tem as marcas das tuas mãos carinhosas.

O dia ao dia entrega o Teu amor.

A noite à noite entrega a tua luz.

E até a minha vida, Senhor, fala de Ti.

 

Sim, foste Tu que formaste as entranhas do meu corpo,

E me criaste no seio da minha mãe.

Eu Te dou graças, Senhor,

Por me teres feito tão maravilhosamente:

Admiráveis são as Tuas obras!

 

Quando contemplo os céus,

Obra das tuas mãos,

A lua e as estrelas que lá colocaste,

Quando ponho as mãos em concha,

Para colher a água pura das nascentes,

Quando sigo com os olhos o voo dos pássaros,

Eu Te louvo, Senhor.

 

É assim que aprendo a viver de mãos erguidas,

E de coração levantado e extasiado.

 

António Couto