COMO EU VOS AMEI

Maio 18, 2019

1. No tempo de Jesus, o panorama do judaísmo palestinense era dominado por duas escolas: a escola conservadora e rigorista de Shammai e a escola liberal de Hillel.

2. Conta-se que, um dia, um homem se terá apresentado na escola de Shammai, e fez ao mestre um estranho pedido: «quero que, enquanto eu me mantiver apenas com um pé no chão, tu me expliques toda a Lei». Diz-se que Shammai se limitou a pegar na sua vara de mestre e a correr o homem pela porta fora, pois era óbvio que o homem fazia um pedido impossível de cumprir, tal era a vastidão da Lei. Mas o homem não desanimou e dirigiu-se à escola de Hillel, a quem formulou o mesmo pedido. E Hillel terá respondido de pronto: «Nada mais fácil: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti!”».

3. A esta sentença de Hillel, na sua formulação negativa, deu-se o nome de «regra de ouro». Em boa verdade, ela já aparece no Livro de Tobias 4,15. É, todavia, fácil de verificar, que esta sentença é de fácil cumprimento. Dado que o seu teor é negativo, para a cumprir, basta a alguém cruzar os braços e nada fazer. Procedendo assim, nada fará de inconveniente a ninguém, cumprindo assim escrupulosamente a sentença.

4. Tentando talvez evitar a inação acoitada na formulação negativa anterior, os Evangelhos apresentam desta máxima uma formulação positiva: «Faz aos outros o que queres que te façam ti!» (Mateus 7,12; Lucas 6,31). Levando a sério esta formulação, já não é suficiente jogar à defesa e nada fazer, mas é requerido o fazer. Seja como for, as duas formulações apresentadas, quer a negativa quer a positiva, padecem do mesmo vício: sou eu o centro, é à minha volta que tudo roda, e o que eu faço ou deixo de fazer é com o objetivo claro de que me seja retribuído outro tanto!

5. O tom positivo da referida «regra de ouro» recebe ainda outra bem conhecida formulação: «Ama o teu próximo como a ti mesmo!», que atravessa de lés-a-lés a inteira Escritura: Levítico 19,18; Mateus 22,39; Romanos 13,9; Gálatas 5,14; Tiago 2,8. Mas também esta formulação é perigosa: primeiro, porque eu continuo o ser o centro, a medida do amor aos outros; segundo, porque, se alguém não se ama a si mesmo (e são, infelizmente, cada vez mais os casos!), como poderá cumprir devidamente esta máxima?

6. É aqui que cai, como uma lâmina, a força do Evangelho de Jesus, proclamado, por graça, neste Domingo V da Páscoa (João 13,31-34): «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei!» (João 13,34), precedido por aquele precioso e carinhoso diminutivo «filhinhos» (teknía) (João 13,33), só aqui, esta única vez, colocado nos lábios de Jesus. Aqui, a medida não sou eu. Aqui, a medida é Jesus. Aqui, a medida é sem medida! Aqui, o amor não é interesseiro. Aqui, o amor é puro, radical, incondicional, assimétrico, sem retorno. Aqui, o amor é até ao fim, e obriga-nos a ter sempre como referência o Senhor Jesus e o seu modo de viver, dando a vida por amor, para sempre e para todos!

7. Este mandamento recebido (João 10,18) e dado (João 13,34; 15,12) impõe aos discípulos de Jesus de todos os tempos um estilo novo, uma nova maneira de viver e de fazer: «Como Eu vos fiz, fazei vós também» (João 13,15). Nesta formulação, o que é mais importante não é o que fazer, mas o como fazer. Neste sentido, alerta bem a Conferência Episcopal Argentina na sua Carta Pastoral Misión Continental (2009), n.º 17: «Importa considerar em primeiro lugar o que é preliminar a qualquer programa de ação. Antes da organização de tarefas, importa considerar como as vou executar, o modo, a atitude, o estilo. Desta maneira, as tarefas serão ferramentas de um estilo de comunhão, cordial, discipular, que transmite o fundamental: a bondade de Deus».

8. A lição de hoje do Livro dos Atos dos Apóstolos (14,21-27) põe outra vez diante de nós a viagem transitiva e intransitiva que a graça de Deus nos faz fazer (Atos 14,26), e de que resulta a narrativa de tudo o que Deus fez connosco (Atos 14,27) e com os pagãos, abrindo-lhes a porta da fé (Atos 14,27). É esta expressão que dá o título à Carta Apostólica Porta Fidei [«A Porta da Fé»] com que Bento XVI quis marcar o Ano da Fé, aberto em 11 de outubro de 2012, comemoração da data de abertura do Concílio II do Vaticano (11 de outubro de 1962), e encerrado (o Ano da Fé) em 24 de novembro de 2013, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo.

9. Notável a lição do Livro do Apocalipse (21,1-5). Mundo novo, com Deus, Ele mesmo, a habitar no meio de nós, verdadeiro Emanuel, que acariciará o nosso rosto e enxugará as nossas lágrimas. Com o Emanuel a habitar connosco, desaparecerão a morte, o luto, a lamentação, a dor, e também o mar que, no mundo bíblico, aparece como símbolo do caos e do mal.

10. Fica bem hoje cantar com alegria renovada o grande hino alfabético que é o Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração. Orígenes classificava este Salmo como «o supremo cântico de ação de graças», e Agostinho viu-o como «a oração perfeita de Cristo, uma oração para todas as circunstâncias e acontecimentos da vida». E enquanto saboreamos as imensas riquezas que nos vêm de Deus: a sua graça, misericórdia, amor e bondade (Salmo 145,8-9), usando, para o efeito, toda a gama de sabores e todas as letras do alfabeto, continuemos a cantar: «Abris, Senhor, a vossa mão, e saciais a nossa fome!» (Salmo 145,16).

 

A grande questão que se levanta do chão

E do “eu”

Não é de ordem gnoseológica e científica,

Acerca do que se pode conhecer

E da constituição de qualquer ser.

A grande questão que se levanta do chão

É da ordem do amor,

Acerca do que é o amor,

Se eu amo

E se sou amado.

 

Se colocares no Google a pergunta: “o que é o amor?”,

Obténs para cima de trezentos milhões de respostas.

Mas, na Bíblia, as respostas reduzem-se a uma só: dar a vida.

 

Por isso, na Bíblia, amar é amar o estrangeiro,

Que é o outro diferente de mim,

E amar o inimigo,

Que é o outro contra mim.

 

Em suma, amar é amar o próximo,

Que é aquele que está agora a passar por mim,

Aquele que agora está mais perto de mim,

Que é o significado do superlativo latino proximus.

 

Salta à vista que este amor não brota de nós,

Não está em nós a fonte deste amor.

A fonte e o modelo de um amor assim é Deus,

É Jesus que se debruça sobre o estrangeiro e o inimigo que eu sou.

 

Senhor Jesus, ensina-nos a amar sem medida, como Tu.

 

António Couto

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INUNDAÇÃO DE LUZ

Maio 11, 2019

1. O selêucida Antíoco IV Epifânio tinha profanado o Templo de Jerusalém, introduzindo lá cultos pagãos. Contra esta helenização e paganização do judaísmo lutaram os Macabeus, e, em 164 a.C., Judas Macabeu procede à purificação do Templo e à sua Dedicação ao Deus Vivo. Este acontecimento deve ser celebrado todos os anos, durante oito dias, com a Festa da Dedicação, a partir de 25 do mês de Kisleu, que, no ano em curso de 2019, corresponde ao nosso dia 23 de dezembro, nas proximidades da nossa festa de Natal.

2. É no ambiente desta Festa anual da Dedicação do Templo, em pleno inverno, que se situa a perícope do Evangelho de João 10,27-30 (veja-se 10,22), proclamada neste Domingo IV da Páscoa, também Domingo do Bom Pastor e Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Este Dia de Oração remonta à radiomensagem de Paulo VI, de 11 de Abril de 1964, que deu início a este Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que são um indicador seguro da vitalidade da fé e do amor de cada comunidade paroquial e diocesana, bem como o testemunho da saúde moral e espiritual das famílias cristãs, num mundo carente de mãos e corações sacerdotais.

3. A Festa da Dedicação, em hebraico hanûkkah, celebra-se durante oito dias, e tem como símbolo o candelabro de oito braços. Relata o Talmude que, quando os judeus fiéis entraram no Templo profanado pelos pagãos helenistas, encontraram uma única âmbula de azeite puro (kasher) de oliveira para reacender o candelabro de sete braços, em hebraico menôrah, que é um dos símbolos de Israel, e que deve arder permanentemente diante do Deus Vivo. Todavia, uma âmbula de azeite duraria apenas um dia, e eram precisos oito dias para preparar novo azeite puro. Pois bem, o azeite daquela única âmbula durou milagrosamente oito dias! Daí que, na Festa da Dedicação, se acenda um candelabro de oito braços, chamado hanûkkiah. Mas acende-se apenas uma luz por dia, depois do pôr-do-sol, aumentando progressivamente até estarem acesas as oito luzes. Além disso, e ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, que alumiam o interior do Santuário e da casa de família respetivamente, as Luzes do candelabro da Dedicação, refere o ritual, devem ser vistas cá fora: devem alumiar o ambiente social, político, comercial e cultural. E também ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, não se acendem todas de uma vez, mas progressivamente, uma por dia, porque, quando as condições são adversas (paganismo helenista e escuro), não basta acender uma luz e mantê-la; é preciso aumentar constantemente a luz… Mais luz! Mais luz! Mais luz!

4. Como este simbolismo é importante para os dias de hoje! Está escuro cá dentro e lá fora, o mundo parece desconstruir-se, o paganismo é galopante! Mais do que nunca, é preciso, portanto, não apenas manter a luz, mas aumentá-la progressivamente. E está em maravilhosa sintonia com o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que salienta sempre a importância da fé e da esperança.

5. O resto é a força e a beleza da imagem do Bom e Belo Pastor, que dá a Vida Eterna às suas ovelhas, que as segura pela mão, que as conhece, enquanto elas escutam a voz do Bom Pastor e o seguem (João 10,27-29). Maravilhosa Comunhão.

6. Maravilhosa Comunhão também entre este Bom e Belo Pastor, que é o Filho, e o Pai. Texto imenso e intenso, de grande alcance trinitário: «Eu e o Pai uma Realidade somos» (João 10,30). Deixem-me pôr aqui o texto grego: egò kaì ho patêr hén esmen. O verbo está no plural: somos. Junta «Eu» e «o Pai», duas Pessoas. O predicativo, porém, não está na forma masculina, mas na forma neutra: uma Realidade (hén). Donde: o Filho e o Pai não são uma só Pessoa (da ordem da hypóstasis), mas são uma única Realidade (não coisa!, como se vê em algumas pobres traduções), uma única Substância (da ordem da ousía), como diziam bem os Padres gregos. Ó música insondável do Amor de Deus, ó admirável comunhão de três Pessoas iguais, mas distintas, ó Vida Plena e Verdadeira a nós acessível por graça! Basta, para tanto, conhecer, escutar e seguir o Bom e Belo Pastor.

7. A lição de hoje do Livro dos Atos dos Apóstolos (13,14.43-52) mostra-nos Paulo e Barnabé em Antioquia da Pisídia, antiga cidade situada no coração da Ásia Menor, atual Turquia, hoje reduzida a algumas ruínas junto da aldeia de Jalvaz. Entrando na sinagoga em dia de sábado, Paulo e Barnabé anunciaram aí, na longa perícope hoje não lida (vv. 16-41), o kêrigma tripartido da fé: a Promessa feita aos Pais, Cristo Ressuscitado, o Dom do Espírito Santo. O anúncio suscitou a fé em numerosos hebreus que, no final, se unem aos dois apóstolos (vv. 42-43). O círculo de ouvintes e crentes aumentou no sábado seguinte (v. 44), o que provocou a inveja dos judeus fiéis à sinagoga (v. 45). Vendo então que a Palavra de Deus era rejeitada pelos judeus da sinagoga, Paulo e Barnabé voltaram-se para os pagãos, que muito se alegravam e glorificavam a Deus, e abraçaram a fé (v. 48). Os dois apóstolos leem esta recusa dos judeus e a consequente oferta da salvação aos pagãos como fazendo parte do Desígnio divino, e citam a propósito Isaías 49,6: «Eu te estabeleci como luz das nações pagãs, para que leves a salvação até aos confins da terra» (v. 47). E Isaías outra vez a confirmar esta oferta da salvação a todos os povos, pondo-os todos sob a Bênção de Deus: «Bendito o Egito, meu povo, a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança» (Isaías 19,25). É o Evangelho sem peias nem fronteiras. Paulo e Barnabé acabaram naturalmente expulsos da cidade devido às perseguições dos judeus (v. 50). Mas o Espírito Santo ia enchendo de alegria os novos discípulos (v. 52).

8. A mesma realidade pode ver-se na lição de hoje do Livro do Apocalipse 7,9.14-17, onde a Jerusalém celeste congrega «uma multidão imensa de todas as nações, raças, povos e línguas» (v. 9). A lição é clara: os eleitos de Deus não pertencem a uma só raça ou cultura ou língua ou nacionalidade. Mas, neste povo «pentecostal», podemos logo identificar outra característica, uma espécie de verso e reverso, viver em dois teclados, dois cenários sobrepostos: os fiéis experimentam a aflição, mas vivem na alegria, a perseguição, mas vivem na glória, são atormentados, mas vivem na serenidade. Outra vez o episódio de hoje do Livro dos Atos dos Apóstolos como paradigma: em Antioquia da Pisídia levantou-se uma perseguição contra Paulo Barnabé e os primeiros crentes, e, não obstante, «os discípulos estavam cheios de alegria» (Atos 13,52) e «os pagãos alegravam-se e glorificavam a Deus» (Atos 13,48). Os eleitos do Apocalipse imitaram Cristo também no martírio, «lavando as suas vestes no sangue do Cordeiro» (Apocalipse 7,14). Experimentaram a fome e a sede, o sol e o calor ardente. Agora, porém, seguindo o ritual da Festa das Tendas (cf. Levítico 23,40), levam palmas (phoínix) na mão (Apocalipse 7,9), símbolo de vitória e de festa e de vida nova e eterna (phoínix tem o duplo significado de palmeira e fénix, a ave da imortalidade), e serão apascentados e conduzidos pelo Cordeiro às fontes de água viva (Apocalipse 7,16), e o próprio Deus enxugará com carinho as lágrimas dos seus olhos (Apocalipse 7,17; cf. Isaías 25,8).

9. Na tradição judaica, o Salmo 100 constitui uma velha, pequena oração que ressoa no nosso coração como louvor ao Deus bom, cujo amor é eterno. Intitula-se «Um cântico para a tôdah» (mizmôr letôdah), isto é, para a ação de graças ao Senhor. Este pequeno hino articula gritos de alegria, louvor, conhecimento, súplica, bênção. Agostinho comenta assim: «Deixa que a oração se transforme no teu alimento. Rezando, adquires novas energias, e Aquele a quem rezas torna-se mais doce para contigo». No centro do pequeno hino está uma profissão de fé no Senhor: o Senhor é Deus, nosso criador, que estabeleceu a aliança com Israel («nós somos o seu povo»), o amor do Senhor é para sempre, a sua fidelidade para todas as gerações (vv. 3 e 5).

 

Senhor Jesus Cristo,

Único Senhor da minha vida,

Bom Pastor dos meus passos inseguros

E do silêncio inquieto do meu coração,

Cheio de sonhos, anseios, dúvidas, inquietações.

 

Senhor Jesus,

Faz ressoar em mim a tua voz de paz e de ternura.

Eu sei que pronuncias o meu nome com doçura,

E me envias ao encontro daquele meu irmão que Te procura.

 

Fico contigo sentado junto ao poço.

Alumia o meu pobre coração.

Vejo que, de toda a parte, chega gente de cântaro na mão.

Dispõe de mim, Senhor,

Nesta hora de Nova Evangelização.

 

Que eu saiba, Senhor,

Interpretar bem a tua melodia.

Que eu saiba, Senhor,

Dizer sempre SIM como Maria.

 

António Couto


A IDENTIDADE DO RESSUSCITADO NÃO PASSA PELO ROSTO, MAS PELAS MÃOS E CORAÇÃO ABERTOS: VIDA DADA POR AMOR, PARA SEMPRE, PARA TODOS!

Abril 27, 2019

1. Em 30 de abril do ano 2000, o Papa São João Paulo II consagrou o Domingo II da Páscoa como «Domingo da Divina Misericórdia». Compreende-se que, nesse mesmo dia, tenha canonizado a religiosa e mística polaca Santa Faustina Kowalska (1905-1938), primeira canonização do novo milénio, que, no seu Diário, registava o pedido que lhe fazia Jesus de a Igreja vir a instituir solenemente o primeiro Domingo depois da Páscoa (como então se dizia) como Festa da Divina Misericórdia.

2. Novos percursos se abrem, e é aqui que se inicia o Evangelho do Domingo II da Páscoa (João 20,19-31), Os discípulos estão num lugar, com as portas fechadas, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter, vem e fica no MEIO deles, o lugar da Presidência, e saúda-os: «A paz convosco!». Mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, e agrafa-os à sua missão: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): está sempre em missão; o nosso está no presente, e passa. O presente da nossa missão aparece, portanto, agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-nos dito que os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo (cf. João 20,8), também eles veem com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão. Este sopro só aparece aqui em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (napah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

3. A identidade do Senhor Ressuscitado está para além do rosto. Por isso, vê-lo não implica necessariamente reconhecê-lo, como sucede em não poucas páginas dos Evangelhos. A identidade do Ressuscitado não é do domínio da fotografia. Vem de dentro. Reside na sua vida a nós dada por amor até ao fim, aponta para a Cruz. Por isso, Jesus mostra as mãos e o lado aberto, mãos dadas e coração aberto, sinais abertos para entrar no sacrário da sua intimidade, dádiva infinita que rebenta as paredes dos nossos olhos embotados e do nosso coração empedernido. Entenda-se também que a missão que nos é confiada é mostrar Jesus. Está bom de ver que não basta exibir as capas do catecismo que mostram um Jesus de olhos azuis e cabelo louro encaracolado. Só o podemos mostrar com a nossa vida dele recebida, e igualmente dada e comprometida.

4. O narrador informa-nos logo a seguir que, afinal, Tomé (Toma’), chamado Gémeo (Dídymos), não estava com eles quando veio Jesus. Dídymos é, na verdade, a tradução literal, em grego, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»]. Mas os outros diziam-lhe repetidamente (élegon: imperf. de légô), imperfeito de duração, com a mesma linguagem da Madalena, mas no plural: «Vimos (heôrákamen: perf. de horáô) o Senhor!» (João 20,25). Portanto, também eles são testemunhas, pois viram e continuam a ver o Senhor, de acordo com o tempo perfeito do verbo grego. Mas Tomé quer tudo controlado e verificado, ponto por ponto, e refere: «Se eu não vir (ídô: conj. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) nas suas mãos a marca dos cravos, e não meter o meu dedo na marca dos cravos e não meter a minha mão no seu lado, não acreditarei» (João 20,25).

5. Novo desarme: oito dias depois, estavam outra vez os discípulos com as portas fechadas (mas o medo já não é mencionado), e Tomé estava com eles. Veio Jesus, ficou no MEIO, saudou-os com a paz, e dirigiu-se logo a Tomé desta maneira: «Traz o teu dedo aqui e vê (íde: imper. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Aí está Tomé adivinhado, desvendado e desarmado. Também ele podia ter pensado: «E como é que ele sabia que eu queria fazer aquilo?». Tomé cai aqui, adivinhado e antecipado, precedido por Aquele que nos precede sempre. Não quer tirar mais provas. Diz de imediato: «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20,28), uma das mais belas profissões de fé de toda a Escritura. E Jesus diz para ele: «Porque me viste e continuas a ver (heôrakás me), tempo perfeito de horáô, acreditaste e continuas a acreditar (pepísteukas), tempo perfeito de pisteúô; felizes (makárioi) os que, não tendo visto (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo), acreditaram (pisteúsantes: part. aor. de pisteúô)!» (João 20,29), tempo aoristo. Esta felicitação é para nós.

6. Notável o percurso dos Discípulos. Fechados e com medo, viram Jesus entrar e ficar no MEIO deles, sem que as portas e as paredes constituíssem obstáculo. Trocaram o medo pela alegria, e também eles começaram a ver de forma continuada o Senhor e a dizê-lo repetidamente. Notável e exemplar para nós o percurso de Tomé, chamado Gémeo: não estava com a comunidade, tão-pouco aceitou o seu testemunho; queria provas. Mas quando veio Jesus e o adivinhou, precedendo-o e presidindo-o, entregou-se completamente! Tomé, chamado Gémeo! Irmão gémeo! Irmão gémeo de quem? Meu e teu, assim pretende o narrador. De vez em quando, também nós não estamos com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. Por vezes, também duvidamos e queremos provas. Como Tomé, chamado Gémeo. Salta à vista que também devemos estar com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. E professar convictamente a nossa fé no Ressuscitado que nos preside (no MEIO) e nos precede sempre. Como Tomé, chamado Gémeo.

7. A lição do Livro dos Atos dos Apóstolos (4,32-35, mas ver também 2,42-47 e 5,12-16) deste Domingo II da Páscoa é outra vez soberba. Trata-se de uma visita guiada ao Cenáculo, a primeira Catedral da Igreja nascente, mas com ramificações em todas as casas, em todos os corações, bem assente em quatro colunas: o ensino dos Apóstolos (1), a comunhão fraterna (2), a fração do pão (3) e a oração (4). Com a boca cheia de louvor, os olhos de graça, as mãos de paz e de pão, as entranhas de misericórdia, a comunidade bela crescia, crescia, crescia. Não admira. Era tão jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela!

8. E o Autor do Livro do Apocalipse desenha também diante de nós, na lição de hoje (Apocalipse 1,9-19), a figura sublime do Filho do Homem, O que Vive (ho zôn) (Apocalipse 1,18), porque venceu a morte para sempre, e nos protege sempre, pondo sobre nós a sua mão direita (Apocalipse 1,17). Excelente visualização da Divina Misericórdia, milagre aos nossos olhos, amor e bondade sem medida com que o bom Deus enche os nossos dias, as nossas mãos, o nosso coração, as nossas entranhas, os nossos passos. É assim que, como refere São Máximo Confessor (580-662), «a Páscoa gera a fé e a fé gera o amor». E A misericórdia é a chama divina com que devemos acender e purificar o nosso coração.

9. Cantemos, por isso, o Salmo 118, que é o último canto do chamado «Pequeno Hallel Pascal» (113-118), mas que era seguramente cantado noutras festividades de Israel, nomeadamente na Festa das Tendas, tendo em conta o seu teor processional, e até a sua distribuição por coros. Este Salmo levanta-se do meio da alegria própria da Festa («Este é o dia que o Senhor fez,/ nele nos alegremos e exultemos!»: v. 24), e eleva ao Deus sempre fiel uma grande Ação de Graças por todas as maravilhas que Ele tem realizado em favor do seu povo. Sim, toda a nossa energia e toda a melodia que nos habita é o próprio Senhor, conforme o belíssimo v. 14: «Minha força e meu canto YAH!», que soa assim em hebraico: ‘azzî wezimrat YAH. Além do nosso Salmo, a expressão densa e impressiva encontra-se ainda em Êxodo 15,2 e Isaías 12,2. YAH está por YHWH. O refrão que vamos cantar aparece a abrir e a fechar este grande Salmo, e constitui como que o envelope onde guardamos a bela melodia que cantamos. Soa assim: «Louvai o Senhor porque Ele é bom,/ porque para sempre é o seu amor!» (vv. 1 e 29).

 

Senhor Jesus,

Há tanta gente que Te procura à pressa e Te quer ver.

Mas quando dizem que Te querem ver,

Não é para Te conhecer.

É o teu rosto, a cor dos teus olhos e cabelos,

A tez da tua pele, a tua forma de vestir que os atrai e contagia.

Querem ver-te como se fosse numa fotografia.

 

Mas Tu, Senhor Jesus Ressuscitado,

Quando Te dás a conhecer a nós,

Não mostras o rosto,

Uma fotografia,

O cartão de cidadão.

Se fosse assim,

Mal seria que os teus amigos Te não reconhecessem.

 

E o facto é que,

Quando surges no meio deles,

Não Te reconhecem.

E em vez do rosto,

São, afinal, as mãos e o lado que apresentas.

Entenda-se: é a tua maneira de viver que nos queres fazer ver.

Na verdade, a tua identidade é dar a vida,

É dar a mão e o coração.

É essa a tua lição, a tua paixão, a tua ressurreição.

 

Senhor, dá-nos sempre desse pão!

 

António Couto


NA NOITE SANTA

Abril 20, 2019

1. «Este é o Dia que o Senhor fez!» (Salmo 118,25). Aleluia! Este é o Dia que o Senhor nos fez! Aleluia! Este é o Dia em que o Senhor nos fez! Aleluia! «Por isso, estamos exultantes de alegria» (Salmo 126,3). Aleluia!

2. Este é o Dia em que desfiamos com amor o rosário das tuas maravilhas, tantas elas são, percorrendo a avenida das tuas Escrituras desde a Criação até à Páscoa, desde a Páscoa até à Criação. Tanto faz. Porque neste Dia novo o tempo não nos mede e nos afasta e nos cataloga em séculos e milénios, mas põe-nos todos a conviver lado a lado. É assim que lemos e compreendemos que no teu «Filho amado», Jesus Cristo, «Imagem» tua e «primogénito de toda a criatura», «tudo foi criado» (Colossenses 1,16), «e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Lemos e compreendemos que o «teu Filho, Jesus Cristo, não foi Sim e não, mas unicamente Sim» (2 Coríntios 1,19). Passeámos assim no jardim da tua Criação boa e bela, visitámos as suas 452 palavras (Génesis 1,1-2,4a), e nelas não encontrámos um único «não», um único alçapão. Se o teu Filho amado, Jesus Cristo, Imagem tua e primogénito de toda a criatura, foi sempre Sim e nunca não, e se foi n’Ele que foram criadas todas as coisas, então a Criação inteira tem também de ser Sim, Sim, Sim, e nunca não.

3. Que belo mundo novo, Senhor, quiseste depositar nas nossas mãos! Que grande Sim nos confiaste, Senhor, antes de nós merecermos de Ti qualquer confiança! Visitámos depois o Egipto opressor, e de lá, Tu nos libertaste, Senhor, fazendo-nos atravessar a pé enxuto o mar Vermelho, como se fosse uma «planície verdejante» (Sabedoria 19,7). Vestíamos roupas brancas, trazíamos o coração em festa, e nos lábios um cântico novo, como sucede também ainda hoje, Senhor, neste Dia admirável da tua Ressurreição, em que cantamos outra vez com inefável alegria: «Minha força e meu canto é o Senhor! A Ele devo a minha liberdade!» (Êxodo 15,2).

4. Com Isaías e Ezequiel, recordámos depois as paisagens tristes e sombrias do nosso exílio, mas também da tua admirável proteção sempre presente. Diz uma velha história rabínica que, um dia, «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o arguto rabino terá respondido que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas, gastando o nosso dinheiro com aquilo que não alimenta, e esquecendo o teu insistente convite: «Vinde e comprai sem dinheiro vinho e leite […]. Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom» (Isaías 55,1-3). Era assim que andávamos, Senhor, perdidos longe de ti e longe de nós. Mas também lá, à perdição em que andávamos, chegou a tua mão criadora, redentora, libertadora e carinhosa, e reconstruíste a nossa vida sobre a alegria, embelezaste o nosso rosto com óleo perfumado, e vestiste-nos com a veste branca dos teus filhos. E como se isto não enchesse a medida do teu amor sempre sem medida, ainda fizeste connosco uma Aliança nova, e deste-nos um coração novo e um espírito novo.

5. Coração novo, música nova, ensinada pelos Anjos nos campos de Belém: Gloria in excelsis Deo! Outra vez lado-a-lado, oh milagre da Escritura Santa, dois acontecimentos no tempo separados: o nascimento de Jesus e a sua morte e Ressurreição: lá estão os mesmos Anjos; as mesmas faixas a envolver o Menino e o Crucificado; o Menino deposto na manjedoura, o Crucificado deposto no sepulcro. Extraordinária acostagem do Menino e do Crucificado. E São Paulo a descodificar o nosso Batismo, pelo qual somos sepultados com Cristo, para com Ele ressurgirmos para uma vida nova (Romanos 6,3-5).

6. E assim chegamos sempre ao Ressuscitado, hoje visto através do relato de Lucas 24,1-12. Àquele Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras, que se levanta do chão raso e da folha plana de papiro ou de papel, elevando a humana vida e a inteira Escritura à sua Plenitude. Era, na verdade, muito grande aquela pedra que barrava a entrada e a saída do sepulcro (Marcos 16,3-4). Quem a pode retirar? A pedra da morte é sempre intransponível para as nossas forças. Tem, por isso, de ser trabalho de Deus. É assim que as mulheres que vão de madrugada ao sepulcro (Lucas 24,1) que elas bem conheciam (Lucas 23,55), levam os aromas e perfumes que tinham cuidadosa e carinhosamente preparado (Lucas 24,1; 23,56), e encontraram a pedra do sepulcro retirada (apokekylisménon: part. perf. pass. de apokylíô) (Lucas 24,2), e, entrando, não encontraram o corpo do Senhor Jesus (Lucas 24,3). Estes dois acontecimentos deixaram as mulheres sem saber o que fazer, literalmente, «sem caminho» (aporéô) (Lucas 24,4). Póros significa caminho; áporos, com o prefixo privativo á, significa «sem caminho». Estando assim as mulheres completamente à deriva, eis logo junto delas dois homens com vestes relampejantes (astráptô) (Lucas 24,4b).

7. A pedra muito grande retirada, no tempo perfeito, representa a porta da habitação da morte para sempre aberta. O modo passivo (passivo divino ou teológico) do verbo revela que um tal afazer é coisa só de Deus. O facto de os homens serem dois caracteriza-os como testemunhas (cf. Deuteronómio 19,15) e acentua a autoridade do que disserem. As vestes relampejantes revelam a sua proveniência celeste (cf. Mateus 28,3). Este novo acontecimento da aparição junto delas dos dois homens com vestes relampejantes provoca nelas dois tipos de reação: uma reação interior – «ficaram cheias de medo» (émphobos genómenos) –, e uma reação exterior: «inclinaram o rosto para a terra» (Lucas 24,5), expressão só aqui usada em todo o NT e nos LXX. Os dois homens de proveniência celeste, duas testemunhas, falam ao mesmo tempo para as mulheres: «Por que procurais (tí zêteîte) entre os mortos «o Vivente» (tòn zônta)?» (Lucas 24,5b). A pergunta põe às claras o absurdo da ação das mulheres: tudo fazem para estar perto de Jesus, mas fazem-no no lugar errado! E acrescentam logo: «Não está aqui, mas foi ressuscitado (egérthê: aor. pass. de egeírô) (Lucas 24,6a). Não podemos deixar de reparar em Lucas 2,49, quando Jesus diz para Maria e José: «Por que me procuráveis (tí ezêteîté me)? Não sabíeis que nas coisas de meu Pai é necessário que eu esteja?». Não sabiam Maria e José, como não sabem as mulheres. E nós?

8. Não é possível não reparar nos contrapontos. As mulheres procuram o Vivente (ho zôn) – linguagem paulina; nos Evangelhos só Lucas usa este título – no mundo da morte! Inclinam o rosto para o chão, e é celeste a proveniência dos dois homens! O título de «O Vivente», e não apenas «Ressuscitado» (literalmente «acordado»), mostra ainda com mais força que Jesus não «acordou» simplesmente para a vida de antes, como quando alguém acorda do sono, mas entrou numa nova condição de vida permanente, divina. Ele está vivo e presente. No texto lucano, que estamos a seguir, as mulheres não são incumbidas de nenhuma missão destinada aos discípulos, e também não surge a Galileia como meta. A Galileia surge nos lábios dos dois homens com vestes relampejantes, não para indicar a meta, mas o lugar de origem que guardava as Palavras faladas (laléô), portanto, com carga de revelação, que Jesus lhes tinha dirigido acerca da sua morte e ressurreição (anísthêmi, anásthasis) (Lucas 24,6-7), que exprime já não «acordar», mas «levantar-se». Esse falar novo de Jesus na Galileia, indicado pelos dois homens, é introduzido com uma única ordem: «Recordai» (mnêsthête, imper. aor. de mimnêskomai). E o narrador refere que elas se recordaram das Palavras (tà rhêmata) de Jesus (Lucas 24,8), e acrescenta que elas, mesmo sem terem recebido nenhuma incumbência, anunciaram (apaggéllô) estas coisas aos Onze e aos outros com eles (Lucas 24,9).

9. Só agora, para realçar que o testemunho não é anónimo e desprovido de valor, o narrador refere os nomes de três mulheres: Maria Madalena, Joana e Maria de Tiago, e outras com elas, e volta a referir que elas diziam repetidamente (élegon) estas coisas aos apóstolos, mas que eles não lhes deram crédito, considerando aquelas palavras como uma léria (lêros) (Lucas 24,10-11), isto é, tratava-se só de palavras, sem nenhum facto que lhes correspondesse. Esta anotação da incredulidade mostra que os apóstolos não eram ingénuos e que a fé na Ressurreição de Jesus não foi inventada. E serve para pôr em destaque Pedro, que se levantou, correu ao sepulcro, inclinou-se, viu só as faixas, e voltou maravilhando-se (thaumázôn) (Lucas 24,12). Note-se que, em mundo judaico, «correr» é um comportamento insólito num adulto, o que, neste caso de Pedro, deixa a descoberto um particular interesse e empenhamento. E aquele regresso «maravilhando-se», implica que também Pedro já entrou na avenida das maravilhas de Deus!

10. O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde. É por isso que a Paixão é um relato, mas a Ressurreição, que põe fim ao relato, só nos pode chegar como Notícia, vinda de fora, como a Aurora.

11. É por isso que esta Noite é uma fulguração de Luz e Lume novo. Desde as brasas acesas, ao Círio Pascal aceso, ao nosso coração aceso como o dos discípulos de Emaús. É também por isso que o Batismo começou por ser chamado «Iluminação», sendo a Vigília Pascal também a grande Noite Batismal. E cada batizado levará para sempre a arder dentro de si este Lume.

12. Ilumina, Senhor, a tua Igreja Santa, e os seus novos filhos que hoje nascem na fonte batismal. Que os nossos passos sejam sempre firmes, e o nosso coração sempre fiel. Vem, Senhor Jesus! Aleluia!

 

Tu, Senhor, Tu falas

E um caminho novo se abre a nossos pés,

Uma luz nova em nossos olhos arde,

Átrio de luminosidade,

Pão

De trigo e de liberdade,

Claridade que se ateia ao coração.

 

Lume novo, lareira acesa na cidade,

És Tu, Senhor, o clarão da tarde,

A notícia, a carícia, a ressurreição.

 

Passa outra vez, Senhor, dá-nos a mão,

Levanta-nos,

Não nos deixes ociosos nas praças,

Sentados à beira dos caminhos,

Sonolentos,

Desavindos,

A remendar bolsas ou redes.

 

Sacia-nos.

Envia-nos, Senhor,

E partiremos

O pão,

O perdão,

Até que em cada um de nós nasça um irmão.

 

António Couto


PAIXÃO DO SENHOR

Abril 19, 2019

1. Foi-nos dada a graça de nos reunirmos aqui, na Casa de Deus, nesta Sexta-Feira Santa, para celebrarmos, unidos de alma e coração à Igreja inteira, a Una e Santa, a Paixão do único Senhor da nossa vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo.

2. E foi-nos dado seguir, passo a passo, com a conversão do coração e o louvor no coração, o imenso relato da Paixão do único Senhor da nossa vida, a partir do Evangelho segundo S. João (18,1-19,42). Foi assim que atravessámos o Cédron e entrámos no «jardim». É de noite, mas arde a LUZ, a LUZ, a LUZ. É verdade que já não estamos todos. Judas perdeu-se na NOITE, na NOITE, na NOITE (João 13,30). Virá depois com archotes e lanternas – mísero sucedâneo da LUZ – e com armas (João 18,3). Vem prender a LUZ, mas cai encandeado (João 18,6). Tem de ser a LUZ a ofuscar-se por amor e a entregar-se a ele por amor. Neste ponto preciso, refere o relato de Marcos que nós fugimos todos, abandonando-o (Marcos 14,50). E fugidos andaremos, e perdidos, na noite e no frio, até sermos outra vez por Ele encontrados e recolhidos. Mas já, entretanto, Pedro, perdido, se acolhe a outra luz e se aquece a outro lume (João 18,18). E, interpelado, nega ter andado com Jesus, ter alguma coisa a ver com Jesus, ter parte com Jesus. Nega mesmo conhecer Jesus (Marcos 14,67-71; João 18,17-27).

3. Até que o galo canta, e começa a nascer o dia para Pedro (Marcos 14,72; João 18,1-27). Notemos que quando Judas sai, é de NOITE, e que, depois da negação de Pedro, o DIA nasce com o canto do galo. O relato de Pedro faz parte integrante do relato da Paixão, e não é um seu acompanhamento secundário. É o relato do anunciador. O canto do galo é um sinal. Traz para a cena a obra criadora do primeiro dia, em que, segundo o relato do Génesis, «Deus separou a luz e as trevas» (Génesis 1,3-5). Aqui, em contraponto, estão as trevas de Judas e a luz nascente para Pedro. Obra luminosa e criadora. Mas também anunciadora, porque este canto exerce uma função de referência entre as fases do tempo: nenhum animal é mais querigmático do que o galo. Iremos encontrá-lo sobre os nossos antigos campanários, mas já, antes disso, o encontrámos muitas vezes sobre os primeiros sarcófagos cristãos. Não são as horas do tempo que o galo anuncia; o galo anuncia o nascer de um Dia novo, sem princípio nem fim, não sujeito aos ponteiros do relógio.

4. Mas vejamos ainda melhor a qualidade ou falta dela do testemunho que damos de Jesus. Também aqui a página do Evangelho é admirável e implacável. Jesus acaba de dizer ao Sumo-Sacerdote que não o interrogue a Ele, mas que interrogue aqueles que ouviram os seus ensinamentos, pois não falou às escondidas, mas em público (João 18,19-21). Impressionante verificarmos que, ao mesmo tempo que Jesus faz esta afirmação dentro do Palácio, Pedro esteja a ser interrogado cá fora, e responda negando tudo! (João 18,17.25-27).

5. Mas Jesus prossegue o seu caminho de amor até ao fim. Até à Cruz. É lá que se revela o rosto do doentio gosto pela morte que nos habita. «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,35.37.39), gritamos nós repetidamente zombando, porque o que queremos mesmo, não é que Ele se salve; o que queremos mesmo é assistir ao doentio espetáculo da morte! Não quero que penseis, meus irmãos, que isto são coisas do passado, e que não têm nada a ver connosco. Não. O que estou a dizer acerca deste doentio gosto pela morte passa-se hoje. Como gostamos nós de ver os nossos irmãos a atolar-se na lama! A tanto chegou a nossa malvadez! Um ódio sem motivo, sem fundo, nos habita (Salmo 35,19; 69,5; João 15,25). Sim, Ele é o Justo. Ele é a Bondade absolutamente gratuita, sempre Primeira e radical, igualmente sem motivo, sem fundo. Ele ama Primeiro (1 João 4,19), quando éramos ainda pecadores (Romanos 5,8). Por isso, em vez de à nossa violência oferecer mais violência, Ele acolhe-a e acolhe-nos por amor, e por amor a nós se entrega, declarando assim ultrapassados e inúteis os nossos mais requintados ódios e os nossos mais sofisticados instrumentos de guerra (cf. Isaías 2,2-4; Miqueias 4,1-3). Ali, naquele Corpo Crucificado, morto por amor, e por amor exposto por escrito diante dos nossos olhos atónitos (Gálatas 3,1), morre o nosso desejo de morte, o nosso pecado, apagado pelo fogo do amor, que declara o nosso pecado completamente inútil, inutilizado, anulado e ultrapassado (cf. Colossenses 2,14).

6. Ainda vamos a tempo de ver que, sob o olhar do Crucificado, quatro soldados levam as coisas de Jesus, que, para o efeito, dividem em quatro partes: uma para cada um deles (João 19,23). O contraponto, belo, vem de quatro mulheres (a mãe de Jesus, / a irmã de sua mãe, / Maria, mulher de Cléofas, / e Maria Madalena), que não levam as coisas de Jesus, mas se abraçam à Cruz de Jesus (parà tô staurô), como se ela fosse uma pessoa (João 19,25). Elas abraçam e levam o amor de Jesus!

7. Na Cruz, Jesus reza o salmo 22, todo, desde «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Salmo 22,2), até «Esta é a obra do Senhor!» (Salmo 22,32), que são as últimas palavras do Salmo 22, que deixam a claro que é de Deus a obra da Cruz! É assim, nos braços do Pai, que Jesus morre, sendo depois o seu corpo descido da Cruz e carinhosamente envolvido em panos de linho literalmente encharcados com 32 quilos e 800 gramas de perfume! (João 19,39), à imagem do Rei messiânico cantado no Salmo 45,9. Foi sepultado no jardim, num sepulcro novo, no qual ainda ninguém tinha sido deposto (João 19,41). O Rei é sempre o primeiro em tudo. Vem depois aquela madrugada da Ressurreição.

8. Por isso, depois disso, por causa disso, os primeiros cristãos rapidamente fizeram deste Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto. O Imperador Adriano (117-138) soterrou o Santo Sepulcro e paganizou-o, estabelecendo ali cultos pagãos com a clara intenção de afastar os cristãos: no lugar do Santo Sepulcro, pôs a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore. O mesmo fez, de resto, em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, quando em 13 de Setembro de 326, por indicação de um habitante de Jerusalém, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, descobriu a Cruz do Senhor, mandou logo demolir as construções pagãs. Foi assim que vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela basílica da Anástasis, que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a adoração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. A peregrina Egéria, da Galiza, que em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «desde as 08h00 da manhã até ao meio-dia», «todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

9. Adoremos nós também, com amor, neste Dia de Sexta-Feira Santa, a Santa Cruz do único Senhor da nossa vida.

 

Esta sexta-feira é Santa. Grande. Autêntica.

Vê-se Jesus exposto na Cruz por todo o lado.

Solene exposição.

Mesmo fechando os olhos, as janelas e as portas,

Tu rebentas as comportas com jatos de Luz,

E saltas as trincheiras do meu coração.

 

Vem, Senhor Jesus,

Entra pela janela dos meus olhos,

Enche todos os recantos do meu ser,

Ilumina todos os redutos,

E faz-me ver que todo o comodismo e egoísmo

É sem raiz nem flor nem frutos.

 

Irei, Senhor,

Em procissão de amor,

Beijar a tua Cruz.

 

E quando eu olhar para ti,

Para o teu rosto ferido e desfigurado,

Para as tuas muitas chagas a sangrar,

Dá-me a graça de aí ver bem o meu pecado.

 

E quando Tu, Senhor, olhares para mim,

Com esse meigo olhar de serena compaixão,

Dá-me a graça de ver o teu perdão nunca poupado,

E de sair com o coração transfigurado.

 

António Couto


CEIA DO SENHOR

Abril 18, 2019

1. Com esta celebração da Ceia do Senhor, em Quinta-Feira Santa, a Igreja Una e Santa reacende a memória da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade, e dá início ao Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do seu Senhor (o Tríduo Pascal prolonga-se até às Vésperas II do Domingo da Ressurreição), que constitui o ponto mais alto do Ano Litúrgico, de onde tudo parte e aonde tudo chega, coração que bate de amor em cada passo dado, em cada gesto esboçado, em cada casa visitada, em cada mesa posta, em cada pedacinho de pão sonhado e partilhado. É assim que Deus nos dá a graça de caminhar durante todo o Ano Litúrgico, dia após dia, Domingo após Domingo, sempre partindo da Páscoa do Senhor, sempre chegando à Páscoa do Senhor.

2. Neste Dia Santíssimo, é-nos dada a graça de poder escutar um dos mais antigos e intensos relatos da Ceia do Senhor: «O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton), e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim”. Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim”. Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Coríntios 11,23-26).

3. Atravessado o relato, deparamo-nos com uma sequência verbal riquíssima, que mostra bem como a vivência da Eucaristia transforma a nossa vida desde dentro, desde o coração, sístole e diástole, ao mesmo tempo sangue e amor a circular nas nossas veias! Vida nova que vem de Deus, como quando o Espírito impele Sansão, os profetas, Paulo ou Jesus. O verbo hebraico para dizer este impulso do Espírito é paՙam. Sim, o Espírito impele-nos e empurra-nos pela estrada fora, mas esta sua ação forte e suave faz-se também sentir por dentro e desde dentro, movendo o coração e as suas avenidas, pois a família etimológica que de paՙam se desprende também serve para dizer o bater do coração e a pulsação (poՙam), e estende-se ainda ao soar do sino ou da campainha (paՙamon), cujo som festivo ouvimos há pouco, e se calou, para voltar a soar na noite da Vigília Pascal. Portanto, o Espírito de Deus que invocamos sobre este pão e sobre este vinho, impele-nos, empurra-nos, impulsiona-nos desde fora, mas move também a nossa vida desde dentro, dando-nos um coração novo, capaz de conjugar em cada dia os verbos fundamentais da Eucaristia: RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,/ PARTILHAR e DAR,/ COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

4. Receber é um verbo fundamental, é a base da nossa vida, do pão e do vinho, vocação e missão sempre de Deus recebidas. Deus antes de nós; Deus para nós. Começamos a Eucaristia de mãos abertas para Deus, grande atitude bíblica e cristã. Dar graças. É só reconhecendo e sabendo e sentindo que a Graça tomou conta de nós, que podemos e sabemos dar graças, outra grande atitude que transforma a nossa vida. Partir, partilhar o pão. Grande atitude a de saber que nada é só meu, nem sequer a minha vida. Tudo é para partilhar com alegria com tantos irmãos e irmãs. Sim, à minha volta há só irmãos e irmãs, e à minha frente há sempre uma mesa posta com lugar para todos. Em memória de Jesus. Sim, amados irmãos e irmãs, nunca podemos esquecer aquele jeito de Jesus. Ele no centro da nossa vida e das nossas atitudes, municiando-as. Anunciar a morte do Senhor. Não se trata de chorar ou de vestir de luto, como quem diz que Jesus morreu e desapareceu. Não é essa a vocação cristã. Trata-se, antes, de saber ver e ler bem a Cruz de Jesus e o caminho da Cruz de Jesus, da sua Morte e Ressurreição. Jesus não morreu para desaparecer. Morreu para viver em plenitude e dar aos seus irmãos essa vida nova, transbordante e transformante. Sim, trata-se de anunciar que Jesus viveu e morreu para dar a vida por amor, para sempre e para todos. E é nessa atitude que continua vivo e presente no meio de nós.

5. Tivemos Hoje também a graça de ouvir o colorido relato da Páscoa primeira, celebrada pelo Povo hebreu no Egito, conforme o relato do Êxodo 12,1-14. «Páscoa» quer dizer «passagem», e põe em cena «passageiros». Com os antigos pastores beduínos seminómadas, que preenchem a memória da pré-história de Israel, aprendemos a passar festivamente para um tempo novo, do inverno para a primavera, numa festa noturna, ao luar, na primeira lua-cheia da primavera, que marca o início da transumância ao encontro de novas pastagens e de vida nova. Com os hebreus, no Egito, sedentarizámos e atualizámos a festa da primeira lua-cheia da primavera dos antigos pastores seminómadas de Israel, e fomos levados, por graça, a passar da escravidão para a liberdade, que é um caminho sempre novo, nunca terminado e sempre a recomeçar, com a cintura apertada, sandálias nos pés, cajado na mão, lume novo aceso no coração. Com Jesus Cristo, fomos, também por graça, levados a passar do pecado para a graça, da soleira da porta para a mesa, da morte para a vida em abundância, da nossa casa para a Casa do Pai. É assim que nós, por graça feitos «filhos no Filho», aprendemos a ser estrangeiros e hóspedes, tranquilamente sentados em Casa e à Mesa daquele único Senhor que servimos e que, paradoxalmente, nos serviu primeiro a nós.

6. É aí que estamos todos, meus irmãos. Aí, entenda-se, em Casa e à Mesa, hospedados. Aí, entenda-se, em Casa e à Mesa, hospedados. E é aí que Jesus se dirige a Pedro e a cada um de nós, e diz: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo!» (João 13,8). Isto é, não participarás da minha vida por amor Dada e Recebida (cf. João 10,17-18). «Ter parte com» Cristo é «participar» no seu supremo serviço de amor até dar a vida para receber a vida. «Ser lavado» e «ter parte com» e «estar puro» é linguagem bíblica de ordenação sacerdotal. Basta ler o texto do Livro dos Números 18,20, juntamente com os Capítulos 29 e 40 do Livro do Êxodo e o Capítulo 8.º do Livro do Levítico, acerca da ordenação sacerdotal de Aarão e dos seus filhos. Está aí, na participação na vida nova de Jesus, no modo novo de viver de Jesus, a fonte do nosso sacerdócio ministerial, mas também do sacerdócio comum dos fiéis.

7. É à Mesa que estamos, meus irmãos, nesta tarde e nesta Ceia Primeira de Quinta-Feira Santa, hospedados na Casa do único Senhor da nossa Vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo. Reparemos então bem em tudo o que Ele faz e diz no Evangelho de hoje (João 13,1-15), porque tudo n’Ele é exemplar e programático para nós. Diz-nos o narrador atento que Jesus «DEPÕE (títhêmi) o manto» a abrir a cena, no v. 4, e «RECEBE (lambánô) o manto» a fechar a cena, no v. 12. DEPOR e RECEBER são, aos nossos olhos encantados, os mesmos verbos com que, no Capítulo 10.º, o Bom Pastor «DEPÕE (títhêmi) a vida» e «RECEBE (lambánô) a vida» (v. 17). Ora, DEPOR a vida e RECEBER a vida são a imensa e penetrante tradução da Cruz. E entre uma e outra coisa, entre «DEPOR o manto» e «RECEBER o manto», «DEPOR a vida» e «RECEBER a vida», no centro geométrico e teológico do lava-pés (v. 8), aí está a advertência solene que Jesus dirige a Pedro e a cada um de nós: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo!» (João 13,8).

8. Por isso, Jesus diz, num imenso dizer revelatório ainda a retinir nos nossos ouvidos e a ecoar em tudo o que fazemos: «Como Eu vos fiz, fazei vós também!» (João 13,15). Vê-se bem, meus irmãos, que não é tanto o que se faz que interessa. Interessa muito mais o como se faz. O segredo é dar a vida por amor, para sempre, para todos. Jesus é o único Mestre que ensina a Viver desta maneira. E é assim que fica bem à nossa vista o significado da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade.

9. O Salmo 116, que hoje cantamos, é o quarto canto do chamado «Hallel Pascal», que reúne os Salmos 113-118. O Salmo 116 enche de música e de cor a Ceia Pascal hebraica. Na verdade, neste Salmo, canta-se a liberdade e a alegria confiante de vermos a nossa vida segura nas mãos de Deus, que nos retira do esquecimento do túmulo, e reacende a chama que se extingue. Entre os admiradores deste Salmo conta-se, com algum espanto nosso, o filósofo francês Voltaire (1694-1778), que privilegiava o v. 12: «Como restituirei (heshîb) ao Senhor por todos os seus benefícios (gemûlôt) que me deu?». O Salmo fornece logo a seguir a resposta: «O cálice da salvação erguerei,/ e o Nome do Senhor invocarei./ Os meus votos ao Senhor cumprirei,/ diante de todo o seu povo» (vv. 13-14). Este cálice erguido e partilhado assinala, no ritual (seder) da Ceia Pascal hebraica, o momento em que ia passando entre os comensais a terceira taça de vinho, a da Acção de Graças. De resto, o orante sabe bem que não pode «restituir» a Deus. Por isso, no Saltério, o sujeito do verbo «restituir» (heshîb: hiphil de shûb) é, por norma, Deus (21 sobre 28 vezes). Mas o orante pode sempre agradecer a Deus e anunciar a todos que Deus atua em favor do seu povo, ação de evangelização.

10. Que o Senhor da nossa vida nos ensine a ser fiéis ao seu dizer e ao seu modo admirável de fazer.

 

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a Deus,

Sabe a pão,

Sabe a alegria,

Sabe a Eucaristia!

 

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a amor,

A dádiva da vida,

A uma lágrima comovida.

 

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a Ceia

E a Jesus,

Luz grande que incendeia

As trevas do coração,

E faz nascer amor e comunhão.

 

António Couto


AOS OMBROS E NO CORAÇÃO

Abril 17, 2019

1. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu», diz Isaías (61,1), reconhecendo nesta unção a nova e bela missão da graça e da liberdade e da alegria e da consolação que Deus agora lhe confia.

2. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu», repete Jesus na sinagoga de Nazaré (Lucas 4,18), assumindo sobre si a unção e a nova e bela missão de Isaías. Jesus levantou-se para fazer a leitura litúrgica (anaginôskô), e sentou-se para fazer a homilia. E «Os olhos de todos», informa o narrador, «estavam fixos (atenízô) nele!», num misto de espanto, de encanto e de esperança (Lucas 4,20). É breve e intensa a homilia de Jesus, que disse somente: «Hoje foi plenificada (peplêrôtai: perf. pass. de plêróô) (passivo divino ou teológico!) esta Escritura nos vossos ouvidos» (Lucas 4,21).

3. Condensação e hipérbole do tempo e da Escritura. O tempo deixa de ser o fio tecido e a tecer de chrónos, o fio dos dias e dos anos a fio, para se concentrar neste único Hoje (sêmeron), termo técnico, clássico, nas homilias dos Padres gregos, em que cai sobre nós, como um relâmpago, uma vertigem, a Palavra toda de Deus, não nos deixando também senão este único Hoje para responder! Tudo Hoje e Aqui. É este vinco na página, esta dobra, esta mão-cheia de tempo, apenas esta mão-cheia de tempo, que se chama kairós, tempo da graça. Se repararmos bem, se tivermos os olhos bem abertos, veremos então que, na intensa homilia de Jesus, a Palavra salta do plano da folha de papiro ou de papel, e começa a ganhar relevo, forma-se um corpo, desenha-se um rosto, pulsa um coração, ouve-se uma voz. Mas também a tinta irrompe da página selada e alisada, e entra-nos, aos borbotões, pelos olhos adentro, como o ribombar do trovão e o rumor de muitas águas (Ezequiel 1,24; 43,2; Apocalipse 1,15; 14,2; 19,6)! E o sentido rebenta como uma enxurrada, corre pelos caminhos, embate contra portas e janelas, amontoa-se no seu termo, que ele não pode ultrapassar, que é a morte, mas rebenta-o e deixa-nos inundadas a casa e a alma!

4. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu». É assim que nós Hoje, submersos pelo Espírito, reunidos em unum presbyterium, para nos dizermos, temos de receber de Jesus as mesmas palavras que Ele próprio pediu emprestadas e a que deu sentido pleno, corpo, rosto e voz, fazendo-as sair da superfície plana da folha de papiro. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu» constitui, de facto, a maneira mais bela e profunda de o presbitério de uma Diocese poder afirmar em uníssono a sua identidade diaconal, e não patronal. É mesmo a única maneira de nós podermos dizer quem verdadeiramente somos. Algumas formas verbais que podemos pedir outra vez emprestadas a Isaías e a Jesus podem ajudar-nos a perceber melhor a grandeza e a dignidade da nossa vocação e missão: ungidos e enviados para anunciar o Evangelho aos pobres.

5. «Encontrei o meu Servo David, e ungi-o com o meu óleo santo», cantávamos com o Salmo 89,21. Encontro e unção do rei segundo o coração de Deus (1 Samuel 13,14). Mas também o sacerdote era ungido com o azeite santo, como é dito de Aarão num belo poema artisticamente construído em cascata: «Como é bom, como é belo, viverem unidos os irmãos. É como azeite do bom sobre a cabeça, descendo pela barba, a barba de Aarão, descendo sobre a boca das suas vestes» (Salmo 133,1-2).

6. Olhamos para o texto, e vemos o azeite de oliveira, perfumado com mirra, cinamomo, cálamo e cássia (Êxodo 30,22-33), a encharcar a cabeça e o cabelo de Aarão, a descer pela barba, e sobre a boca das vestes… A escrita é meticulosa e quer que se veja o azeite, não a descer pelo pescoço, mas por fora, encharcando o humeral (ʼephod), uma espécie de roquete que desce sobre os ombros, e, descendo sempre, encharca depois o peitoral (hoshen), bolsa quadrada, com 25 cm de lado, aplicada sobre o humeral, cobrindo o peito. Sim, quem escreve interessa-se que o azeite encharque o tecido que está sobre os ombros e sobre o peito do sacerdote. Sim, porque nas duas alças do humeral que estão sobre os ombros, traz o sacerdote incrustadas duas pedras de ónix, uma sobre cada ombro, cada uma gravada com seis nomes das doze tribos de Israel (Êxodo 28,1-14). E, sobre o peito, no peitoral, traz o sacerdote doze pedras preciosas diferentes, e em cada uma delas está gravado o nome de uma das doze tribos de Israel (Êxodo 28,15-30), irmanadas, como se fosse uma joia em unidade harmónica. Extraordinária simbologia! O sacerdote carrega aos ombros (Êxodo 28,12) e leva sobre o coração (Êxodo 28,29) todos e cada um dos filhos de Israel! É assim que se vê bem a missão do sacerdote. Mas vê-se igualmente bem que se trata de um povo todo ungido, todo unido, todo sacerdotal e aromático.

7. Dizia bem a lição do Livro do Apocalipse: «Graça e paz […] da parte de Jesus Cristo, Aquele que nos ama, que nos libertou dos nossos pecados com o seu sangue, e fez de nós um Reino de Sacerdotes» (Apocalipse 1,4-6), respondendo e cumprindo a lição do Livro do Êxodo 19,6, em que Deus dizia, com o verbo no futuro: «Farei de vós um Reino de Sacerdotes».

8. Guardemos connosco, Hoje, amados irmãos, esta unção e este reino de sacerdotes. Sim, somos um presbitério de Ungidos, desde o bispo, aos sacerdotes, aos diáconos. Ungido diz-se em hebraico Mashîah, e em grego Christós, termos que, em português, soam Messias e Cristo. O Ungido por excelência é, então, Cristo, Jesus Cristo, Jesus Ungido, e d’Ele todos sabemos que, enquanto Ungido com o Espírito Santo, passou pelo meio de nós fazendo o bem e curando e libertando e amando até ao fim, intensa e plenamente, sem pausas nem bemóis, porque Deus estava com Ele (Atos 10,37-38). Se o Ungido é Cristo, então nós somos outros Cristos, porque somos igualmente Ungidos. E se somos outros Cristos, então a referência da nossa maneira de viver terá de ser também sempre Cristo. Temos, então, de nos revestir de Cristo (Romanos 13,14; Gálatas 3,27; Colossenses 3,12-14), de fazer nosso o estilo de vida de Cristo, manso e humilde, orante, feliz, evangelizador, apaixonado, pobre, despojado, ousado, próximo e dedicado. Só assim, configurados com Cristo, cristificados, podemos viver e agir in persona Christi Capitis ou in persona Christi Servitoris, na pessoa de Cristo Cabeça do seu Corpo, que é a Igreja, ou na pessoa de Cristo Servo do seu Corpo, que é a Igreja. É assim que dizemos hoje, nesta Quinta-Feira Santa, a nossa identidade Sacerdotal e Diaconal.

9. Mas também vós, Fiéis Leigos, batizados e crismados, sois, na verdade inteira, outros Cristos, porque fostes também Ungidos com o óleo do Crisma, que recebe o seu nome de Cristo. Cristo significa Ungido. Crisma significa Unção. Também vós, amados Fiéis Leigos, fostes Ungidos na fronte, no Batismo e na Confirmação, com o óleo do Crisma. Além de Ungidos na fronte, no Batismo e na Confirmação, os Sacerdotes foram ainda Ungidos nas mãos com o mesmo óleo do Crisma, e o Bispo foi-o ainda na cabeça. Também as igrejas e os altares são ungidos com o óleo do Crisma no dia da sua Dedicação.

10. Mas não podemos ficar só pelo exterior – a fronte, as mãos, a cabeça –, e pelo pouco óleo, tão pouco que mal se vê e mal se sente, com que costumamos fazer esta unção. Quando lemos, na Bíblia, relatos de Unção com óleo, por exemplo, quando Samuel unge Saul (1 Samuel 10,1) ou David (1 Samuel 16,13), ou quando admiramos a bela cascata do Salmo 133, que canta a unção sacerdotal, constatamos logo que anda ali demasiado óleo perfumado, de modo a encharcar os cabelos, os vestidos e a regar ainda o próprio chão. Somos então levados a perguntar: porquê tanto óleo, se acaba por escorrer e se perder no chão? E a resposta é: derramando tanto óleo na cabeça, vê-se que ficam empapados os cabelos, os vestidos, e acaba por escorrer para o chão. Mas o povo bíblico vê ou compreende ainda mais, muito mais, e é para este «mais» que é preciso chamar ainda a atenção. O povo bíblico compreende ainda que desse muito óleo em grande quantidade derramado na cabeça, uma parte entra para dentro da cabeça, e vai banhar o interior do homem, vai banhar o coração, a alma e as entranhas.

11. Aí está então a verdade da Unção com o óleo do Crisma que fazemos na fronte, nas mãos ou na cabeça. Na verdade, é no coração que somos Ungidos. E se a Unção feita na fronte, nas mãos ou na cabeça pode sempre ser lavada com um pouco de água e sabão, a Unção feita no coração é indelével, imprime carácter, não pode mais ser apagada. É assim, amados irmãos Ungidos no coração, que não podemos mais deixar de ser quem somos, outros Cristos: eu, bispo; vós, sacerdotes; vós, diáconos; vós, fiéis leigos.

12. É este óleo do Crisma, com que todos somos ungidos no coração, identificando-nos assim com Cristo, que vai ser, nesta Missa Crismal, confecionado e consagrado pelo Bispo, com o testemunho e cooperação dos Sacerdotes. Vão igualmente ser benzidos o óleo dos enfermos, destinado a servir de remédio e de alívio aos doentes, e o óleo dos catecúmenos, destinado a preparar e dispor os catecúmenos para o Batismo.

13. O óleo do Crisma que vamos consagrar, e os óleos dos enfermos e dos catecúmenos que vamos benzer, constituem, no meio de nós, um autêntico manancial ou programa de vida. Igual ao de Cristo. Outros Cristos, Ungidos no coração, para levar o anúncio do Evangelho a todos os nossos irmãos. Se somos outros Cristos, Ele está connosco, em nós, no meio de nós. A messe e a plantação são d’Ele. A Ele a honra, a glória e o louvor para sempre. Amén.

 

Senhor Jesus, faz da tua Igreja uma sarça

Ardente de amor diante dos nossos olhos,

Alimenta-lhe o fogo com o teu óleo sagrado que abrasa de amor a terra inteira,

Faz que aquela chama dia-a-dia nos incendeie e nos chame

E que nós saibamos responder sempre: “Eis-me aqui”.

 

Dá à tua Igreja ternura e coragem e aragem:

A coragem da ternura e a aragem que nos limpa o coração e o olhar.

 

Aceita, Senhor, as nossas lágrimas e sorrisos,

E torna-nos próximos e acolhedores de quem está só, triste e sem esperança.

Faz uma fogueira com as nossas maldades,

E mesmo que nos desviemos de Ti,

Quando para Ti voltarmos,

Cobertos de lama e de pó,

Lava com sabão de amor o nosso coração,

Ainda antes de Te pedirmos perdão.

 

Não nos censures,

Não ralhes connosco,

Mas unge com ternura a nossa fronte,

Com o teu óleo perfumado de alegria,

Pega em nós ao colo,

Senta-nos à mesa,

Para que possamos outra vez olhar-Te olhos nos olhos,

Talvez a chorar,

Mas sem corar.

 

Senhor, que a Tua sarça ardente alumie sempre os nossos passos

De cada dia.

 

António Couto