NEGOCIANTES OUSADOS OU O TEMPO TODO SENTADOS EM CIMA DO TESOURO

Novembro 18, 2017

1. A parábola do Domingo passado (XXXII) terminava assim: «Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora» (Mateus 25,13). E a parábola deste Domingo, XXXIII do Tempo Comum, que segue imediatamente a anterior (Mateus 25,14-30), agrafa-se a ela, utilizando três motivos temáticos e literários: a) se a parábola do Domingo passado terminava incutindo uma atitude de vigilância: «Vigiai, pois…» [gregoreîte oûn], a de hoje encaixa ou imbrica-se nela, dizendo em que consiste essa atitude de vigilância, iniciando com: «É, na verdade, como…» [hôsper gár] (Mateus 25,14); b) o atraso do noivo na parábola anterior (Mateus 25,5) corresponde ao «muito tempo depois» da parábola de hoje (Mateus 25,19); c) as virgens operosas da parábola anterior, que tinham tudo preparado, correspondem aos dois servos operosos da parábola de hoje: elas entram na sala do banquete (Mateus 25,10), como eles entram na alegria do seu Senhor (Mateus 25,21 e 23); do mesmo modo que as virgens não operosas da parábola anterior, que não tinham tudo preparado, têm o seu paralelo no servo mau e preguiçoso da parábola de hoje: elas ficam fora da porta da sala do banquete (Mateus 25,12), como ele é excluído da alegria do seu Senhor (Mateus 25,30).

2. Entrando agora mais dentro da parábola deste Domingo XXXIII (Mateus 25,14-30), somos logo levados a tomar consciência de que um imenso dom, vindo de Deus, precede sempre a nossa ação: cinco talentos, dois talentos, um talento… é sempre uma imensa quantidade dada logo à partida!

3. O talento começou por ser uma unidade de peso, usada sobretudo para medir metais preciosos. Por exemplo, na Babilónia, um talento equivalia a 60 quilos. Imagine-se então o valor de um talento de ouro! Em épocas sucessivas, no período helenístico, o valor do talento baixou, situando-se então entre 35 e 26 quilos. De qualquer modo, um talento equivalia então a 6000 denários, sendo que o denário era o salário normal de um dia de trabalho. Um talento, 6000 denários, era assim o equivalente a uma vida inteira de trabalho! Portanto, quer seja um, dois ou cinco talentos, é sempre um imenso dom que nos é entregue! É sabido que o grande humanista Erasmo de Roterdão (1467-1536) partiu desta página do Evangelho para dar a estes «talentos» o sentido novo do «talento» ou «capacidades» que distinguem cada ser humano. Esta acostagem é possível, se respeitarmos as devidas distâncias. O Evangelho não fala tanto do empenho, dos méritos, das capacidades de cada um, mas mais, muito mais da graça preveniente de Deus, do primado da graça de Deus em relação a nós.

4. Bem! O andamento da parábola continua a dizer-nos que os talentos entregues por Deus a cada um de nós não são como uma pedra preciosa que há que guardar ciosamente. São antes como uma imensa soma de dinheiro que há que pôr a render, ou como uma semente que há que semear para produzir raízes, caule, ramos, folhas, flores e frutos. Só que esta imensa soma de dinheiro ou esta semente capaz de um tal desenvolvimento são-nos entregues sem instruções!

5. É assim que a parábola progride, mostrando-nos que os dois primeiros servos não perderam tempo, mas partiram logo (euthéôs) (Mateus 25,15 e 17) e obtiveram resultados fantásticos (100% de lucro) (Mateus 25,20 e 22). Mas o terceiro, ao contrário, agiu como se o talento recebido fosse uma pedra preciosa, e guardou-a ciosamente, para, a seu tempo, a devolver intacta ao seu dono.

6. As razões do comportamento estranho deste terceiro servo, são-nos manifestadas depois, quando este servo se explica aquando da chegada, «muito tempo depois», do seu Senhor. Ele diz, escolhendo mal as palavras: «Eu sei que és um homem duro (sklêrós), que colhes onde não semeaste e juntas onde não espalhaste. Tive medo, e escondi o teu talento na terra» (Mateus 25,24-25).

7. Aqui estão as respostas erradas, que vêm desde Adam. Também Adam, nosso lídimo representante, teve medo de Deus e escondeu-se dele (cf. Génesis 3,10). Na esteira de Adam, também este terceiro servo da parábola de Mateus ficou tolhido pelo medo e optou por jogar pelo seguro, que se vem a revelar falso. O medo deriva, nos dois casos, de uma falsa imagem de Deus, que é visto como um homem duro e exigente. É assim que ficamos muitas vezes paralisados, sem perceber a lógica dos dons de Deus, a começar pelo dom de Deus por excelência, que é o Espírito Santo. Sim, os dons do Deus da parábola são dinâmicos, e não pedras estáticas e imóveis! E o Deus da parábola é o Senhor da alegria (Mateus 25,21 e 23), e não do medo!

8. Portanto, a vigilância de Mateus 25,13 («Vigiai, pois…») manifesta-se em sermos ativos, generosos, corajosos e ousados desde o primeiro momento («partir logo») (Mateus 25,21 e 23), e não em ficarmos tolhidos, frios e inertes, ciosamente guardando um grande tesouro… Negociantes ousados, e não o tempo todo sentados em cima do tesouro.

9. A lição do Livro dos Provérbios 31,10-31, hoje lida aos repelões (vv. 10-13.19-20.29-31) mostra-nos, por assim dizer, o retrato da «mulher ideal». Não se fala da sua beleza nem do charme feminino. Vemo-la, antes, como esposa, mãe e dona de casa, sempre atenta a tudo e a todos. Não vive centrada em si mesma, de forma autorreferencial, mas olha para todos e por todos à sua volta, não esquecendo os pobres e necessitados (v. 20), que estão no centro das suas atenções e no centro do poema. Como este belo modelo encaixa bem no coração deste I Dia Mundial dos Pobres! Ela faz tudo, e tudo sabe fazer bem. Não perde tempo. Esta figura modelar encaixa à maravilha na parábola dos talentos do Evangelho de hoje. Nas suas mãos e em tudo o que faz, ela põe a render os talentos que Deus, no seu Designio Divino, lhe entregou. É ainda de realçar que este magnífico poema (Pr 31,10-31) é alfabético, isto é, os seus 22 versículos seguem, uma após outra, as 22 letras do alfabeto hebraico, e constitui o fecho do Livro dos Provérbios.

10. O Apóstolo, por sua vez, na sua Primeira Carta aos Tessalonicenses 5,1-6, reclama de nós a vigilância permanente, sem nunca nos deixarmos embalar pelos pregões dos distribuidores de soníferos e de tranquilizantes, que vão pregando «paz e segurança» (1 Tessalonicenses 5,3)

 11. Sim, as 45 palavras hebraicas do Salmo 128 enchem-nos de paz, luz, serenidade. Respira-se também a fragrância da videira e a juventude da oliveira. Mas a família cantada neste Salmo não está fechada sobre si mesma, mas aberta à comunidade por Deus abençoada. Portanto, do perímetro da casa e da mesa em que vivem e se sentam pais e filhos, avista-se e sente-se a paz da Cidade Santa, Jerusalém. Não é de admirar que a tradição judaica tenha sabido extrair deste Salmo as «sete bênçãos para as núpcias». Saboreemos o perfume deste extrato: «Bendito, ó Senhor, que concedeste ao esposo e à esposa júbilo, canto, gozo, alegria, amor, paz, fraternidade e amizade. Possam depressa e para sempre, ó Senhor, ressoar gritos de gozo em Jerusalém, cidade santa. Possa levantar-se, cheia, a voz jubilosa do esposo e da esposa e os coros gozosos de quem os acompanha na sua alegria. Bendito és tu, Senhor, que alegras o esposo com a sua esposa!».

António Couto

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CHEGAR COM O CONTROLO ENCERRADO

Novembro 11, 2017

1. O cenário é o de um casamento judaico tradicional. No último dia dos festejos, depois do pôr-do-sol, o noivo, acompanhado pelos seus amigos, à luz de tochas e ao som de cânticos, formando um cortejo, dirigia-se para a casa da noiva, que o esperava, acompanhada pelas suas amigas. Quando o cortejo do noivo chegava ao seu destino, a noiva abandonava a sua casa com as suas amigas, e formava-se então uma única comitiva luminosa e ruidosa, que se dirigia para a casa do noivo onde se celebrava o casamento e tinha lugar o banquete nupcial.

2. O Evangelho deste Domingo XXXII do Tempo Comum (Mateus 25,1-13) começa por aludir ao cenário referido no que diz respeito ao grupo das jovens amigas que acompanham a noiva que aguarda a chegada do cortejo do noivo. Note-se, porém, que a noiva nunca é referida no texto, e que o noivo não segue o ritual previsto, pois se atrasa muito para além da hora habitual. Mas também as amigas da noiva saltam fora do espelho, pois são divididas em dois estranhos grupos, iguais em número, mas não em qualidade: cinco prudentes e cinco insensatas.

3. Dado o atraso, inesperado, do cortejo do noivo, as amigas da noiva acabam por adormecer todas, não se notando neste particular qualquer diferença entre os dois grupos. Até que, no meio da noite, também inesperadamente, a vozearia do cortejo do noivo faz acordar, estremunhadas, as amigas da noiva, e é agora que se notam as primeiras dissonâncias no comportamento dos dois grupos: as prudentes, juntamente com as suas tochas, necessárias para entrar na luminosa comitiva nocturna, levam também o indispensável combustível: o azeite. A arqueologia tem mostrado estas antigas tochas e o seu funcionamento: um suporte de madeira em cuja cavidade superior se introduziam trapos e estopa, que eram então embebidos em azeite, e acesos só na hora de sair para o exterior. São, na verdade, luzes de exterior, que nada têm a ver com as lucernas de interior. Depois de embebidas em azeite, e acesas, o seu tempo de duração era de cerca de quinze minutos. Pelo que só deviam ser acesas imediatamente antes de sair. E, ainda assim, se a viagem demorasse, devia transportar-se também a vasilha do azeite, para não se correr o risco de a tocha se apagar. É este segundo aspecto que separa as jovens insensatas das prudentes.

4. Com as tochas apagadas, as jovens insensatas não puderam integrar a comitiva nupcial. Enquanto foram comprar o azeite, o cortejo chegou a casa do noivo, deu-se início ao banquete e fechou-se a porta. Mais tarde, chegaram também as jovens insensatas, e disseram: «Senhor, Senhor, abre-nos a porta» (Mateus 25,11). A resposta, porém, surge com mais estrondo que o fechar da porta, e soa assim: «Em verdade vos digo que não vos conheço» (Mateus 25,12).

5. Para se entender bem o alcance das locuções «Senhor, Senhor» e «não vos conheço», importa reler atrás, no Discurso programático da Montanha, Mateus 7,21-23: «Não todo aquele que me diz “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos e em teu nome que expulsámos demónios e em teu nome que fizemos muitos milagres?” Então eu lhes declararei: “Nunca vos conheci”».

6. E a propósito do bom conhecimento, importa revisitar ainda Mateus 12,48-50, para descobrir uma nova família, que são as pessoas que melhor conhecemos: «“Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” E estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem faz a vontade do meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”».

7. Este noivo que demora a vir é o Senhor. O tempo da sua demora é o tempo que, por graça, nos é dado a todos para estarmos sempre prontos, preparados e operosos. Afinal, as jovens insensatas também sabiam bem o que era necessário, tanto que acabaram por cumprir o programa e chegar à meta. Só que tarde e a más horas, e o controlo já estava encerrado.

8. O texto do Antigo Testamento que serve de espelho ao Evangelho de hoje, que fala do noivo, da luz e da vigilância, é o texto do Livro da Sabedoria 6,13-18. Saúda-se já por termos hoje a graça de escutar um bocadinho deste Livro delicioso, que poucas vezes encontramos na Liturgia. Alegramo-nos ainda porque encontramos neste bocadinho de pão da Sabedoria o amor, a luz, o conhecimento, a busca incessante, o encontro feliz. Na verdade, a Sabedoria em Deus é Deus, e constitui uma figura simbólica que indica o amor de Deus, amor nupcial, transformante, unitivo. A Sabedoria é Luz divina inalterável; portanto, Vida divina inalterável. Apresenta-se como uma esposa que vem ao nosso encontro, tomando a iniciativa do Amor. Portanto, a Sabedoria é Graça preveniente, concomitante, consequente, que desposa cada fiel, e todos os fiéis reunidos em comunidade. Trabalho do Amor é a Sabedoria, que atravessa o Novo Testamento como Sabedoria Incarnada. Dá-nos, Senhor, a tua Sabedoria sempre diligente. Ensina-nos a bem contar os nossos dias (Salmo 90,12) e a saber cantar as nossas alegrias. Vem, Senhor Jesus!

9. Escutamos e escrutamos uma vez mais um grande e claro texto da Primeira Carta aos Tessalonicenses 4,13-18, saído da pena de S. Paulo que, de Corinto, capital da Acaia, da casa de Priscila e Áquila, onde estava hospedado, escreve aos cristãos de Tessalónica, capital da Macedónia, certamente respondendo a dúvidas que de lá lhe foram trazidas e reportadas. No extrato de hoje, trata-se de saber se a força da ressurreição de Jesus Cristo (cf. Filipenses 3,10) também chega àqueles que já morreram. O texto diz bem, como ainda hoje nós usamos dizer na liturgia, aqueles que adormeceram em Cristo, usando o verbo grego koimáomai, em cuja raiz está também koimêsis [= sono] e koimêtêrion [= cemitério], que é o dormitório, o lugar onde se dorme. A resposta de Paulo é clara: com a vinda do Senhor, e à sua voz de comando, todos ressuscitaremos com Ele, os mortos [= os que dormem] e os vivos. Sim, vem a hora, e é agora, em que os que morreram ouvirão a voz do Filho de Deus, e viverão (cf. João 5,25 e 28). Não nos deixemos, portanto, habitar pela tristeza, porque temos connosco a esperança, que nos atira para além do horizonte das mais elementares leis da natureza. O neopaganismo em que vive atolada esta sociedade vende uma finitude, em que o finito, o defunto, que é aquele que deixou de funcionar, deve ser assumido como tal, ponto final. O Cristianismo também sabe desta finitude, mas enquanto a finitude neopagã é vista como natural, nós, cristãos, vemo-la como criatural. Então, no Cristianismo, o homem tem um fim, não por ser mortal, mas por ser criado. E, portanto, a nossa finitude cristã está fundada sobre o Criador, e não sobre nós mesmos. A maneira de ver neopagã não tem saída, nem a quer ter, nem a pode ter. Ao contrário, a ótica cristã remete para o Criador, deixando-nos, portanto, no terreno firme da esperança e da confiança.

10. O Salmo 63 é conhecido como «o cântico do amor místico», atravessado por uma apaixonada intensidade, bem expressa na primeira afirmação ou declaração de amor à boca do Salmo, mas que enche, de resto, o Salmo inteiro: «O meu Deus és Tu» (ʼelî ʼattah), a que responde e corresponde Deus em Isaías 43,1, declarando: «Para mim tu és» (lî ʼattah). Tudo o resto no Salmo 63 assenta sobre esta certeza. A minha vida recebida (naphshî), por quatro vezes referida (vv. 2.5.9.10) agarra-se amorosamente (dabaq) a Ti (v. 9), canta o teu amor, vive de Ti, tem sede de Ti, como cantaremos no refrão. A beleza, intensidade e espiritualidade que atravessam este Salmo ganham visibilidade na liturgia bizantina das manhãs de Domingo, e os vv. 3-6 entram no cânone eucarístico armeno.

António Couto


CASA DE DEUS: ESPAÇO RELACIONAL NOVO

Novembro 9, 2017

1. A Igreja celebra hoje a Festa da Dedicação da Basílica de S. João de Latrão, que é «a igreja-mãe e cabeça de todas as igrejas», sede do bispo de Roma, e dá-nos a oportunidade de celebrar a presença de Deus no meio de nós, no nosso espaço. Mas é ainda uma boa oportunidade para aprendermos a olhar com mais amor para os espaços das nossas Igrejas catedrais e locais, espalhadas pelo mundo inteiro, que acolhem a presença de Deus e de muitos irmãos, e que reconhecem à Igreja e ao bispo de Roma a «presidência da caridade» (Santo Inácio de Antioquia).

2. O texto do Evangelho proclamado nesta celebração constitui uma importante passagem no tecido do IV Evangelho (João 2,13-22). Jesus apresenta-se como tempo novo e Templo novo, novo espaço relacional, caminho novo aberto para o PAI, nova paginação e compreensão das Escrituras. Da Páscoa dos judeus (A) à Páscoa de Jesus (A’), do Templo antigo (B) ao Santuário novo (B’), tendo no meio o caminho da memória que começam a fazer os discípulos de Jesus (C), como podemos constatar no texto a seguir transcrito:

«E estava próxima a Páscoa dos judeus, e JESUS subiu a Jerusalém. (A)

 E ENCONTROU no TEMPLO (hierón) os vendedores de bois e ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. E, tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do TEMPLO (hierón), as ovelhas e os bois, bem como os cambistas, espalhou as moedas, derrubou as mesas, e disse aos que vendiam as pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da CASA DO MEU PAI (oíkos toû patrós mou) CASA de COMÉRCIO (oíkos emporíou)”. (B)

 Recordaram-se os discípulos d’ELE que está escrito: “O zelo da tua CASA (toû oíkou sou) me devorará”. (C)

 Responderam então os judeus e disseram-LHE: “Que sinal nos mostras de que podes fazer estas coisas?” Respondeu JESUS e disse-lhes: “Destruí este SANTUÁRIO (naós), e em três dias o levantarei (egeírô)”. Disseram então os judeus: “Em quarenta e seis anos foi edificado este SANTUÁRIO (naós), e tu em três dias o levantarás (egeírô)?” (B’)

 Isto, porém, dizia do SANTUÁRIO do seu corpo (toû naoû toû sômatos autoû). Quando, pois, foi ressuscitado dos mortos (êgérthê), recordaram-se os discípulos d’ELE que tinha dito isto, e acreditaram na Escritura e na palavra que JESUS tinha dito» (João 2,13-22). (A’)

3. O episódio aparece situado e datado. O lugar é Jerusalém e o seu Templo. O tempo é a Festa da Páscoa. Ora, uma FESTA é, na tradição bíblica, um ENCONTRO marcado (mô‘ed),  plural mô‘adîm, de ya‘ad [= marcar um encontro]. Um ENCONTRO marcado com Deus e com os outros. Sendo um ENCONTRO marcado com Deus e com os outros, então é sempre um espaço de alegria, de filialidade e de fraternidade. E se a FESTA é de peregrinação, como é a PÁSCOA, aqui referida [as outras duas são as SEMANAS ou PENTECOSTES e as TENDAS], então a alegria, a filialidade e a fraternidade são ainda mais intensas, dado que FESTA de peregrinação se diz, na língua hebraica, hag, plural hagîm. E o nome hag remete para o verbo hag [= dançar], e deriva de hûg, que significa círculo, e, portanto, família, lareira, encontro, alegria, música, roda, dança, vida.

4. ENCONTRO, filialidade, fraternidade: marcas acentuadas por JESUS que, em vez de Templo de pedra (hierón), diz CASA (oíkos) – com particular afeto, CASA DO MEU PAI –, sendo a CASA paterna o lugar do ENCONTRO e da intimidade, e não das coisas, da superficialidade, da banalidade, do consumismo, do mercado. Nos paralelos de Mateus, Marcos e Lucas, citando Isaías 56,7, JESUS fala do Templo usando a expressão forte «A MINHA CASA» (ho oîkós mou) (Mateus 21,13; Marcos 11,17; Lucas 19,46).

5. É neste sentido que o Livro dos Atos dos Apóstolos nos mostra a comunidade-mãe de Jerusalém a frequentar assiduamente o Templo, salientando, no entanto, que a sua maneira de prestar culto a Deus acontecia nas CASAS. Do Templo para as CASAS (Atos 2,46). Não se trata de uma simples mudança de lugar, mas de uma diferente conceção do espaço: não se trata de um espaço local, mas relacional. O novo espaço cultual é a comunidade que vive filial e fraternalmente, verdadeira transparência de Jesus. A extensão deste espaço chama-se comunhão.

6. Sintomático é que, postos estes pressupostos, o texto refira, não que JESUS ENCONTROU filhos e irmãos, mas que ENCONTROU vendedores, banqueiros e comerciantes, contra a profecia de Zacarias 14,21, que refere que «Não haverá mais vendedor na CASA de YHWH dos exércitos naquele dia». «A CASA DO MEU PAI», «A MINHA CASA», por um lado, e o MERCADO, por outro lado, são lugares incompatíveis. São maneiras diferentes de conceber e ocupar o espaço.

7. No texto que estamos cuidadosamente a ler, o Templo é dito com três vocábulos diferentes – hierón, oíkos e naós – com significações diferentes: edifício de pedra, casa familiar, santuário (ou lugar da presença de Deus).

8. Quando, num dos típicos «mal-entendidos» do IV Evangelho, JESUS diz: «Destruí este SANTUÁRIO (naós), e em três dias o levantarei (egeírô)» (João 2,19), os judeus não conseguem distinguir entre o naós pessoal que JESUS levantará em três dias e o hierón feito de pedra que demorou 46 anos a construir (João 2,20). Em claro contraponto, o narrador explica bem, num genitivo epexegético, que JESUS «dizia isto do SANTUÁRIO do seu corpo» (toû naoû toû sômatos autoû) (João 2,21). Entenda-se: do SANTUÁRIO que é o seu corpo. Com esta explicação do narrador, fica claro que é JESUS o «lugar» da adoração de Deus, a verdadeira «Casa de Deus» (cf. João 1,51), o SANTUÁRIO de Deus.

9. A anotação do narrador, em João 2,22, faz-nos ver ainda que foi também assim que entenderam os discípulos a partir da Ressurreição de Jesus. Lição para os leitores: num tempo em que já não há Templo em Jerusalém, os leitores crentes do IV Evangelho experimentam a PRESENÇA de JESUS Ressuscitado como o seu verdadeiro «Templo».

10. Em harmonia com o Santuário novo, gerador de vida nova e relações novas, que é Jesus Ressuscitado, está hoje o Santuário novo de Ezequiel 47,1-12, de onde sai água excecionalmente abundante e salutar, um caudal que cresce, cresce, cresce, saneia, fertiliza e cura, fazendo da Terra Prometida o verdadeiro jardim do éden, com água boa e salutar, com muitas árvores com muitos frutos. Como a torrente corre para oriente e sudeste, é toda a árida Arabá e o Mar Morto salitrado e sulfuroso que recebem vida nova em abundância. E também o homem pode pescar e colher frutos novos todos os meses, e encontrar cura nas folhas medicinais de tantas árvores. E tudo isto vem do Santuário. Como o rio de água viva que irriga a Jerusalém celeste, e que sai do trono de Deus e do Cordeiro. Também este rio é gerador de vida, de fertilidade, de frutos doze vezes ao ano, e de remédio para curar todos os corações (Apocalipse 22,1-2).

11. O Apóstolo lembra, na sua Primeira Carta aos Coríntios (3,9-17), que todos formamos um belo edifício construído por Deus, mas também por nós, sobre o alicerce que é Jesus Cristo. E, de forma intensa, como sempre, São Paulo ainda grita aos ouvidos dos cristãos de Corinto e aos nossos: «Não sabeis que sois Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (…). Na verdade, o Templo de Deus é santo, e esse Templo sois vós!» (1 Coríntios 3,16 e 17). É sempre importante e sobrecarregado de beleza este movimento das pedras para as pessoas. A lição hebraica do Salmo 150,1 põe-nos a cantar assim: «Louvai Deus no seu Santuário». É notável a atualização grega dos LXX, que registra assim: «Louvai Deus nos seus santos».

12. Se o Salmo 150,1 decanta bem o Evangelho de hoje e a lição da Primeira Carta aos Coríntios, o Salmo 46 continua o nosso êxtase quando contemplamos a cidade-mãe, Jerusalém, a morada de Deus no meio de nós, no seu Santuário, e o rio sobrecarregado de beleza que rega e alegra Jerusalém. Este rio não é aqui a inconstante torrente de Gihón que corre mansamente para Siloé. É claramente uma hipérbole espiritual que nos leva para além desta Jerusalém sedenta e árida, situada a 800 metros de altitude, para a Jerusalém celeste irrigada por um rio de água viva, fonte de vida e de remédio (Apocalipse 22,1-2). As águas deste rio não se deixam inquinar. Nem a vida da cidade, sempre cheia de paz e de alegria.

 

Quem tem sede,

Venha a mim e beba,

Diz Jesus,

E expôs-se sobre a Cruz

Como fonte sempre aberta e disponível.

 

Quem tem sede,

Alegre-se então por poder beber,

Mas não se entristeça

Por não ser capaz de esgotar a fonte.

 

Convém que a fonte permaneça

E abasteça o horizonte

De paz e de alegria.

 

A água escorre deste santuário,

E, como um rio,

Percorre e irriga a terra inteira,

Coração a coração,

Sementeira a sementeira.

 

E não há fio que meça esta torrente,

Que cresce desde a nascente até ao estuário.

E nas suas margens tanta vida nova e bela nasce e cresce,

Tanto trigo floresce,

Tanto coração amadurece,

Tanto amor.

 

Dá-me sempre dessa água viva, Senhor!

 

António Couto


ESTILO FRATERNAL E MATERNAL

Novembro 4, 2017

1. Neste Domingo XXXI do Tempo Comum, continuamos a ouvir Jesus a ensinar no Templo, no Átrio dos Gentios, seguindo o Evangelho de Mateus 23,1-12. O Capítulo 23 do Evangelho de Mateus apresenta-se assim arrumado: 1) 23,1-12, em que Jesus dirige o seu ensinamento às multidões e aos seus discípulos (Mateus 23,1), primeiro a todos (Mateus 23,2-7), depois particularmente aos seus discípulos (Mateus 23,8-12), pondo diante de uns e de outros a figura oca dos escribas e fariseus, a sua busca de notoriedade e de aplauso, apresentando-os como uma espécie de caricatura do seu verdadeiro discípulo, que deve ser humilde, serviçal, filho de Deus e irmão numa família de irmãos; 2) 23,13-36, em que Jesus se dirige directamente aos escribas e fariseus com sete «ais», sendo o «ai» uma fórmula de desgraça com que os profetas anunciam a ruína que está já aí à porta; 3) 23,37-39, em que Jesus se lamenta sobre Jerusalém, com aquele célebre «Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes eu quis reunir os teus filhos como a galinha reúne os pintainhos…, mas agora a tua casa ficará deserta», que constitui uma espécie de ponte para o Capítulo 24, em que logo no versículo primeiro Jesus sai do Templo.

2. No Evangelho de Mateus, o mundo dos escribas e dos fariseus é sempre pintado com cores escuras e sombrias. O único bom escriba que o Evangelho de Mateus conhece é aquele que se tornou discípulo: «Todo o escriba que se tornou discípulo do Reino dos Céus é semelhante ao proprietário que do seu tesouro tira coisas novas e coisas velhas» (Mateus 13,52; cf. 23,34).

3. Portanto, o discípulo de Jesus – e nós, hoje – não devemos preocuparmos com o estatuto nem correr atrás de honras, ambição e carreirismo, da notoriedade tornada visível nas filactérias (tephillîm), pequenas caixas de couro que continham textos-chave da Escritura (Deuteronómio 6,8 e 11,18), e que se atavam à fronte e ao braço esquerdo, para ficar mais perto do coração, ou as franjas de cor azul ou violeta (tsîtsît), que pendiam das vestes (Números 15,38-39), mais tarde do tallît (manto que os judeus piedosos vestem para a oração). Convenhamos em que é bem intencionada a prescrição, mas acaba por resultar em pura ostentação!

4. É verdade que ecoa um mundo novo nestes dizeres: «Mas vós não vos façais chamar por Rabbî, literalmente «meu maior», pois um só é o vosso Mestre (didáskalos), e vós sois todos irmãos» (Mateus 23,8). A ninguém chameis «Pai», a ninguém chameis «Guia» (kathêgêtês), que é aquele que indica o caminho, pois «um só», «um só», «um só» (três vezes surge esta expressão no texto de hoje) é o vosso Mestre, o vosso Pai, o vosso Guia. Em consonância, no Evangelho de Mateus, o título de «Mestre» nunca é dado a Jesus pelos seus discípulos, mas apenas pelos de fora; e o título de Rabbî só se ouve nos lábios de Judas, depois da sua apostasia (Mateus 26,25 e 49). Por sua vez, o termo «Guia» só aparece aqui em todo o Novo Testamento, e é desconhecido no texto dos LXX.

5. Salta à vista que devemos proceder sempre com simplicidade e verdade, sem protagonismo, ostentação ou ambição, e que, por detrás de nós, de tudo o que fazemos ou dizemos, deve ver-se sempre o Senhor Jesus, de quem devemos ser pura transparência. Se assim fosse, e assim deve ser, como seria belo e bem diferente este nosso mundo!

6. Sempre em linha com o Evangelho, Malaquias 2,10 pergunta hoje de forma certeira: «Não temos todos um único Pai? Por que agimos então com maldade uns para com os outros?». Pergunta certeira, que nos obriga a depor as armas da violência e da mentira e nos obriga a investir mais, muito mais, na luta (agôn) do amor (agápês).

7. Enfim, aí está hoje S. Paulo (1 Tessalonicenses 2,7-13) a recordar diante de nós, para que nunca mais esqueçamos e a implementemos, a sua metodologia de anunciador do Evangelho. Fala de Deus com particular afeto e proximidade, sobrepondo as metáforas da criança e da mãe, da dependência e pequenez e da dedicação condescendente (1 Ts 2,7). Apóstolos como crianças (népios), sem preconceitos ou prestígio a defender, que tudo recebem com simplicidade e alegria, e apóstolos como mães cheias de ternura, que se dão completamente aos seus filhos. Népios significa, à letra, «criança de peito», e, em sentido translato, «imaturo», «inocente», «dependente», que de per si, não tem nenhum valor. E trophós não significa exatamente «mãe», mas «ama-de-leite». Mas como é dito logo a seguir que acalenta os próprios filhos, então é uma «ama» que é mãe, uma mãe que amamenta, que se dá totalmente aos seus filhos. Evangelho total: o dom da salvação (euaggélion) e o dom da própria vida (psychê) (1 Ts 2,8). Não se pode dar o Evangelho sem dar a vida. O dom da vida não significa, neste contexto, disposição para o martírio estrito, mas condividir (metadoûnai) diariamente aquilo que constitui a vida: o tempo, as energias, a saúde. O tempo significa amor. Àqueles ou àquilo a que concedo tempo, concedo amor. É, portanto, fácil sabermos quem amamos ou o que amamos. Foi assim, de forma intensa, afetuosa, maternal, personificada, um-a-um, a tempo inteiro e de corpo inteiro, que Paulo transmitiu o Evangelho aos Tessalonicenses e em toda a parte.

8. O Salmo 131, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma», serve de fundamento maravilhoso a um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus exalta na sua «História de uma alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança desmamada (gamul). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

9. Que anda por aqui um mundo novo, lá isso anda. Que entre ele em nós, e que entremos nele também.

António Couto


A (PRO)VOCAÇÃO DA SANTIDADE E DA FELICIDADE

Outubro 31, 2017

1. Dia de Todos os Santos. Deus é a Santidade. Três vezes Santo. Santo, Santo, Santo. Santo, na língua hebraica, diz-se qadôsh, cujo significado mais consistente é separado. Separado de quê ou de quem, podemos perguntar. Da sua criação? Parece que não, pois o Deus da Bíblia olha para ela e por ela com beleza e bondade. De nós? Obviamente não, pois o Deus da Bíblia bem vê e vê bem os seus filhos queridos, ouve a nossa voz, conhece as nossas alegrias e tristezas, desce ao nosso nível e debruça-se sobre nós com carinho. Separado de quê ou de quem, então? Separado de si mesmo, eis a surpreendente identidade de Deus! Separado de si mesmo, isto é, não agarrado ao seu mundo divino e dourado para o defender ciosamente (Filipenses 2,6). Ao contrário, o nosso Deus é um Deus que sai de si por amor, para, por amor, vir ao nosso encontro. É esta realidade que se vê bem em toda a Escritura, Antigo e Novo Testamento. Paulo, na Carta aos Filipenses e na 2 Carta aos Coríntios, resume bem esta realidade ao falar de Jesus Cristo que «se esvaziou (ekénôsen) a si mesmo, recebendo a forma de escravo» (Filipenses 2,7), e «sendo rico se fez pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (2 Coríntios 8,9).

2. Sim. Se agora pararmos um pouco a contemplar a vida dos Santos canonizados e de tantos outros irmãos nossos, de extrema dedicação, simplicidade e alegria, não oficialmente canonizados, mas também Santos, pois arriscam e dão diariamente a sua vida pelos outros, compreenderemos logo que também eles, todos eles, se desfizeram ou separaram dos seus projectos, gostos, família, amigos, coisas, e se entregaram de alma e coração aos seus irmãos. Veja-se, por exemplo, e porque ainda temos presente o seu modo de proceder, a Santa Madre Teresa de Calcutá. Que dedicação, que amor, que paixão! Veja-se também, porque parece que todos o conhecemos e amamos, S. Francisco de Assis. Entenda-se, porém, sempre que somos Santos por graça, porque o Deus Santo, Ele é a Santidade, se faz próximo de nós, santificando-nos! É assim que nos tornamos, por graça, «concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Efésios 2,19). Nova cidadania. Nova familiaridade. Dêmos, pois, neste Dia Santo, graças ao Deus Santo, que nos santifica!

3. Só um Deus assim pode e sabe felicitar os pobres. Com um tom carregado de felicidade, não restritivo, mas alargado a toda a humanidade, as «Felicitações» do Rei novo atingem todas as pessoas, chegando às franjas da sociedade, às periferias existenciais, onde estão os pobres de verdade. É o grande Evangelho das «Bem-Aventuranças» ou «Felicitações» (Mateus 5,1-12), que abre o SERMÃO da MONTANHA, dito nas alturas da MONTANHA, que hoje temos a graça de escutar mais uma vez. No meio destas «Felicitações» – é por nove vezes que soa o termo «FELIZES» –, note-se a centralidade da MISERICÓRDIA (5.ª felicitação) (5,7). Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS. Aos misericordiosos será feita misericórdia. Belíssimo círculo bem no centro das Bem-Aventuranças. Notem-se igualmente as inclusões assentes na repetição da locução «reino dos céus» (1.ª e 8.ª) (5,3 e 10) e do termo «justiça» (4.ª e 8.ª) (5,6 e 10). Estas inclusões convidam-nos também ao reconhecimento de duas tábuas de felicitações, a primeira à volta da pobreza evangélica (5,3-6), e a segunda à volta da bondade do coração (5,7-10).

 

«5,1Vendo as multidões, subiu à montanha.

Tendo-se sentado, vieram ter com ele os seus discípulos.

2Abrindo então a sua boca, ensinava-os dizendo:

 

3FELIZES (makárioi / ’ashrê) os pobres de espírito (ptôchoì tô pneúmati),

porque deles é o reino dos céus;

4FELIZES os aflitos,

porque serão consolados;

5FELIZES os mansos,

porque herdarão a terra;

6FELIZES os que têm fome e sede de justiça,

porque serão saciados;

 

7FELIZES os misericordiosos (eleêmones),

porque lhes será feita misericórdia (eleêthêsontai);

8FELIZES os puros de coração,

porque verão a Deus;

9FELIZES os fazedores de paz,

porque serão chamados filhos de Deus;

10FELIZES os perseguidos por causa da justiça,

porque deles é o reino dos céus.

 

11FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem,

e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal

por causa de mim (éneken emoû)» (Mateus 5,1-11).

 

4. Não nos esqueçamos que continuamos na Montanha, nas alturas, pois há certas maneiras de viver e de sentir que só podem ter o seu habitat nas alturas. O Papa João Paulo II escreveu na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (2001), n.º 31, que perguntar a um catecúmeno se ele quer receber o batismo é o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta última pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo número, João Paulo II define a santidade como a «”medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto, imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.

5. Os «pobres de espírito», aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é «baixa de rûah» (shephal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23), isto é, sem espaço físico, económico, social ou psicológico. Não precisam de se afirmar. São claramente os últimos da sociedade, mas que, na sua humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois os ptochoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados, num círculo restrito, mas uma imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie.

6. É quanto assinala a majestosa multidão dos 144.000 da bela página do Apocalipse 7,2-4.9-14. 144.000, número perfeito e incontável (12 vezes 12 vezes 1000), que traduz todos os redimidos, de todas as raças, nações, povos e línguas, inumerável família dos filhos de Deus, todos com vestes brancas, porque lavadas no sangue do Cordeiro, e que jubilosamente aclamam o Deus Santo. «Somos filhos de Deus e seremos semelhantes a Ele», grande teologia da divinização por graça aportada pela página sempre nova da Primeira Carta de S. João 3,1-3.

7. Note-se ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «felizes» ou «bem-aventurados» diz-se ’ashrê, derivação do verbo ’ashar, que significa «pôr-se a caminho». Extraordinária maneira de designar os «bem-aventurados» como pioneiros, aqueles que abrem caminhos novos e bons e de vida nova e boa para o mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente e anestesiado em que vivemos.

8. Sim, disse-o no Sínodo, para mim e para todos: por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza quanto baste (Mateus 19,22; Marcos 10,22; Lucas 18,23), por sermos ricos e importantes?

9. «Esta é a geração dos que pruram o Senhor». Cantemos e aclamemos, por isso, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. Nos dois primeiros andamentos deste Salmo (vv. 1-2 e 3-6), justamente a parte Hoje cantada, destaca-se o nosso canto de amor ao Deus criador e providente (vv. 1-2), que constitui como que a abertura do inteiro Salmo, e as condições morais para viver na presença deste Deus (vv. 3-6), formuladas numa espécie de «liturgia de entrada» ou «das portas». Os fiéis, em procissão, à chegada ao Templo de Jerusalém, fazem a pregunta ritual: «Quem pode subir ao monte do Senhor,/ quem pode entrar no seu lugar santo?» (v. 3), ao que os sacerdotes respondem, apontando aquí três condições essenciais: «Mãos inocentes e coração puro», em que as mãos traduzem a ação, e o coração a intenção, isto é, o inteiro viver do homem, a sua opção fundamental, de onde decorre também o não ir atrás dos ídolos e não praticar fraudes (vv. 4-5). O terceiro andamento mostra as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, que são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia registra por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

 

«O Senhor disse: “Eu bem VI a opressão do meu povo que está no Egipto,

e OUVI o seu grito diante dos seus opressores;

CONHEÇO, na verdade, os seus sofrimentos.

DESCI a fim de o libertar da mão dos egípcios

e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa,

para uma terra que mana leite e mel”» (Êxodo 3,7-8).

 

Neste quadro sublime, Deus, o Deus bíblico,

Revela a Moisés e a nós a sua identidade.

É um Deus bem atento, próximo e interventor.

É um Deus que, por amor, SAI de SI,

E não fica encerrado dentro das paredes douradas da sua eternidade.

Um Deus que SAI de SI é um Deus SANTO.

 

Atravessamos nestes dias uma mancha de tempo,

Que costumamos dedicar a todos os SANTOS,

Conhecidos e anónimos,

E aos Fiéis Defuntos.

 

Tempo de lembrar os SANTOS e a Santidade,

Que é a «medida alta da vida cristã ordinária»,

Como escreveu bem S. João Paulo II.

 

E o SANTO é aquele que SAI de SI,

É aquele que ouve com os ouvidos de Deus,

Vê com os olhos de Deus,

Fala com a língua de Deus,

Acaricia com as mãos de Deus,

Ama com o coração de Deus.

 

Senhor, ensina-nos a SAIR de NÓS,

Dos nossos interesses egoístas e egocêntricos,

E a sairmos ao encontro dos nossos irmãos pequeninos e necessitados.

Senhor, ensina-nos a ser SANTOS.

 

António Couto


O ESSENCIAL E AS SOBRAS

Outubro 28, 2017

1. Aí está, no Evangelho deste Domingo XXX do Tempo Comum (Mateus 22,34-40), mais uma pergunta armadilhada [«para o experimentar», verbo grego peirázô, literalmente «montar um laço, uma armadilha»] posta a Jesus por um Fariseu, um doutor da lei (nomikós), única menção deste nome em todo o Evangelho de Mateus. Antes deste «legista» partir ao encontro de Jesus com a sua pergunta traiçoeira, destinada a capturá-lo na armadilha preparada, é-nos dito que os Fariseus se reuniram (Mateus 22,34). Mas já o tinham feito também em Mateus 22,15, antes da pergunta sobre o imposto, e é ainda reunidos que os encontramos em Mateus 22,41, antes da pergunta decisiva de Jesus acerca da filiação do Messias, que os reduzirá ao silêncio (Mateus 22,46). Estas sucessivas reuniões dos Fariseus para estudar a maneira de tramar Jesus representam uma clara alusão ao Salmo 2, em que se diz que os reis das nações se amotinam contra Deus e contra o seu Messias (v. 2).

2. A pergunta armadilhada que o «legista» fariseu coloca a Jesus soa assim: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» (Mateus 22,36). A pergunta parece inofensiva, mas, na verdade, destina-se a tentar arrastar Jesus para o plano inclinado da interminável discussão académica. De facto, os mestres judeus, lendo minuciosamente a Lei, ou seja, os cinco primeiros Livros da Bíblia [= Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio], e reduzindo-a a preceitos, tinham contado lá 613 preceitos, sendo 365, tantos quantos os dias do ano, negativos, e 248, tantos quantos, assim se pensava então, os membros do corpo, positivos.

3. A questão que entretinha os mestres e as suas escolas era agora a de estabelecer uma ordem nesses 613 preceitos ou mandamentos, dizendo qual consideravam o primeiro ou o mais importante ou o maior, e assim por diante. Discussão interminável e natural fonte de conflitos, pois, como é usual dizer-se, cada mestre sua sentença. Qual seria então a posição de Jesus nesta matéria, e como a defenderia?

4. Jesus responde ao «legista» fariseu, não caindo, porém, na apertada ratoeira que este lhe arma, mas abrindo portas, janelas e… corações engessados! Na verdade, e como sempre costuma fazer, a resposta de Jesus excede, rebentando-a, a pergunta feita. Jesus cita, em primeiro lugar, o Livro do Deuteronómio 6,5: «AMARÁS o Senhor, teu Deus, com todo o coração, toda a alma, todas as forças». Dito isto, Jesus opera um inesperado, para o «legista», salto de trapézio, e acrescenta: «O segundo, porém, é semelhante (homoía) a este, e cita agora o Livro do Levítico 19,18: «AMARÁS o teu próximo como a ti mesmo».

5. Ora, o «legista» estava apenas interessado em saber qual era, segundo o Mestre Jesus, o primeiro mandamento. Jesus respondeu, mas fez logo saber ao «legista» também o segundo. Mas não disse simplesmente que era o segundo. Disse que este segundo era semelhante ao primeiro. Ora, se é semelhante (e só Mateus usa aqui este semelhante), já não é apenas segundo, mas faz corpo com o primeiro. Sendo assim, então o AMOR a Deus é verificável no AMOR ao próximo, no nosso dia-a-dia.

6. Mas Jesus rebenta outra vez a pergunta do «legista», na conclusão que tira, e em que refere que «Destes dois mandamentos se suspende» (krématai) (Mateus 22,40), só aqui usado no NT, isto é, «depende», «pendura» «toda a Lei e os Profetas» (Mateus 22,40). Não se trata, portanto, de um final, de uma conclusão a que se chega, de um resumo, mas de um ponto de partida, de um fundamento. Na linguagem de Santo Agostinho, seria como o fundamento de um edifício espiritual que se encontra no cume, na pedra cumeeira. A locução «a Lei e os Profetas» é uma forma de dizer toda a Escritura. A pergunta do «legista» visava apenas a Lei, mas Jesus diz, na sua resposta, que é a inteira Escritura que está atravessada pelo fio de ouro do AMOR a Deus e ao próximo.

7. Como quem diz: o grau do teu AMOR a Deus verifica-se pela qualidade do teu AMOR ao próximo. Diretamente de Jesus para o «legista»: se olhas para mim de lado, se vens cheio de más intenções, se colocas um laço, uma armadilha, diante dos meus pés, então estás longe de todos os mandamentos. Do 1.º, do 2.º, do 3.º e do 613.º!

8. Tudo somado, aquele «legista», perguntador traiçoeiro, não se situava corretamente face a Deus e ao seu próximo. Não era o AMOR que o fazia mover. Não estava no centro da Escritura Santa. Anda muito pela periferia. Ocupava muito do seu tempo, não a AMAR, mas a tentar tramar os outros!

9. Nem de propósito. Salta daqui uma missão aberta, um imenso convite a sairmos de nós, sem armadilhas e só com amor, ao encontro dos nossos irmãos. Dizia o Papa Bento XVI, na sua mensagem para o 85.º Dia Missionário Mundial (2011): «A missão universal empenha TODOS, TUDO e SEMPRE». Entenda-se bem: TODOS, TUDO e SEMPRE! Um silogismo fácil: se a missão envolve TODOS, TUDO e SEMPRE, então atinge-nos no essencial, e não afecta apenas as sobras, porque ficámos sem sobras! Verificação: então por que razão continuamos com toda a tranquilidade do mundo a dedicar à missão universal apenas as nossas sobras de pessoas, de meios e de tempo? Como podemos andar, afinal, também nós, armadilhados de boas e sub-reptícias intenções!

10. A lição de hoje do Livro do Êxodo (22,20-26) é clara e faz de coro e de chão à página sublime do Evangelho: Deus ama com especial predileção os necessitados, em que a Bíblia vê particularmente os pobres, o órfão, a viúva e o estrangeiro, e manda-nos que façamos como Ele. Deus não tolera qualquer armadilha que lhes seja feita.

11. S. Paulo continua a evocar com amor a sua passagem por Tessalónica, como refere um extrato do início da Primeira Carta aos Tessalonicenses hoje lido (1,5-10). Não um amor qualquer, mas aquele amor com que ele próprio foi amado por Jesus Cristo (Gálatas 2,20). Portanto, amor de doação total, amor sem volta atrás. Na página que escreve, Paulo diz saber que os cristãos de Tessalónica estão a imitar o seu modo de proceder, isto é, de amar, que é o do Senhor também. Ressoará sempre na Igreja e nas Igrejas este fortíssimo dizer de Paulo: «Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo» (1 Cor 11,1). É nesta linha que se devem pôr também as Igrejas que hoje escutam esta página, escrita com amor.

12. Um Deus fiel, seguro, firme como «rocha», que não oscila nem engana, atento e próximo do homem, sobretudo dos mais fragilizados, eis o fluxo poético que nos oferece o grande Te Deum que é o Salmo 18. Deixemo-lo tomar conta de nós. Este Deus e este fluxo poético.

António Couto


DEVOLVEI AS COISAS DE CÉSAR A CÉSAR E AS COISAS DE DEUS A DEUS

Outubro 21, 2017

1. Depois das parábolas do banquete (Mateus 22,1-10) e do traje nupcial (Mateus 22,11-14), sendo esta última exclusiva de Mateus, mas as duas muito bem articuladas no texto de Mateus 22,1-14, o restante do Capítulo 22 de Mateus oferece-nos uma série progressiva de três questões postas sucessivamente a Jesus por Fariseus e Herodianos (Mateus 22,15-22), Saduceus (Mateus 22,23-33) e um Fariseu (Mateus 22,34-40), a que se segue uma quarta, a mais importante (sequência 3 + 1), posta por Jesus aos Fariseus (Mateus 22,41-46).

2. Destes quatro episódios, apenas dois serão escutados nos próximos dois Domingos. Assim, neste Domingo XXIX do Tempo Comum, escutaremos o episódio de Mateus 22,15-22 (cf. paralelos em Marcos 12,13-17 e Lucas 20,20-26), em que Fariseus e Herodianos se juntam para tentar tramar Jesus pela palavra, colocando-lhe por isso e para isso uma pergunta traiçoeira, assim formulada: «É permitido dar (dídômi) o imposto a César, ou não?» (Mateus 22,17).

3. Note-se que o episódio decorre no Templo, certamente no Átrio dos Gentios, uma vasta área de 13,5 hectares, propícia ao encontro de muita gente, judeus e não judeus, onde Jesus se encontra a ensinar desde Mateus 21,23 até Mateus 24,1, em que é referido que Jesus saiu do Templo.

4. É, portanto, no Átrio dos Gentios que, de forma estudada e matreira, fariseus e herodianos tentam surpreender Jesus com uma pergunta política fechada. Note-se que a pergunta foi preparada e feita para levar Jesus a responder «sim» ou «não». Para o caso, aos maliciosos perguntadores, tanto lhes fazia: para tramar Jesus, tanto lhes servia o «sim» como o «não». Na verdade, se Jesus respondesse «sim», seria visto como colaboracionista com o império romano ocupante e perderia todo o crédito religioso acumulado aos olhos das multidões que o viam como profeta, totalmente do lado de Deus. Cairia assim um dos grandes aliados de Jesus, o povo, que os adversários de Jesus temiam, sendo este medo que até agora os impediu de prender e eliminar Jesus (cf. Mateus 21,46). Se respondesse «não», seria denunciado às autoridades romanas como revolucionário, e certamente executado. Com este dilema aparentemente sem saída, os fariseus pensam retribuir a Jesus o embaraço em que os meteu com a pergunta acerca da origem do batismo de João, se era do céu ou se era da terra, de que não souberam sair de forma airosa (cf. Mateus 21,23-27).

5. Antes de verificarmos a extraordinária resposta com que Jesus desmonta a armadilha que lhe é posta, é ainda conveniente examinar o grau de adulação e hipocrisia dos perguntadores. De facto, o grupo de fariseus e herodianos aproxima-se de Jesus estendendo-lhe um tapete de louvores: «Sabemos que és verdadeiro», que «ensinas com verdade o caminho de Deus», e que «não fazes aceção de pessoas» (Mateus 22,16). Esta última expressão deriva da locução latina accipere personam [= receber a pessoa], que, por sua vez, traduz à letra o grego lambánein prósôpôn [= tomar o rosto], que tem por detrás a expressão hebraica nasaʼ panîm [= levantar o rosto]. A expressão hebraica faz sentido. O juiz justo, no ato de administrar a justiça, não levanta o rosto das pessoas, isto é, não julga de acordo com o rosto das pessoas ou por interesse, consoante as pessoas sejam ricas ou pobres, simpáticas ou desprezíveis, do nosso grupo de amigos ou não. O grego tenta traduzir a expressão hebraica, mas o latim e o vernáculo «fazer acepção de pessoas» não significa nada.

6. Note-se, porém, que este tapete rolante colocado diante de Jesus por fariseus e herodianos é com a intenção de o fazer mais facilmente escorregar e cair.

7. Mas Jesus descobre logo a malícia deles, e diz as coisas a direito, levando a sério o que os seus interlocutores lhe dizem por malícia. Além disso, chama-lhes «hipócritas» (uma palavra que se conta 30 vezes em Mateus), isto é, mentirosos camuflados debaixo de uma capa de verdade. Jesus, portanto, não responde à adulação com adulação, mas denuncia a máscara de mentira que envolve aqueles rostos! Vai mais longe: pede-lhes que lhe mostrem a moeda do imposto per capita (kênsos, transliteração grega do latim census) que, desde o ano 6 d. C., todos os judeus adultos, mulheres e escravos incluídos, tinham de pagar ao império romano. Além de hábeis impostores, os interlocutores de Jesus são igualmente rápidos a tirar a moeda do bolso, um denário, moeda romana correspondente ao salário de um dia de trabalho. Jesus pergunta, de forma contundente, usando o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: de quem é esta imagem e a inscrição?» (Mateus 22,20). A moeda tinha ao centro a imagem de Tibério coroado de grinaldas, que reinou de 14 a 37 d.C., e à volta a inscrição Ti[berius] Caesar Divi Aug[usti] F[ilius] Augustus, tendo no reverso Ponti[fex] Maxim[us]. Eles têm, portanto, de responder que uma e outra são de César. Note-se que tudo se passa no recinto sagrado do Templo. E a moeda que estes falsos justos ostentam desrespeita os dois primeiros mandamentos (Êxodo 20,3 e 4). Na verdade, Êxodo 20,4 proíbe as imagens (2.º mandamento), e Êxodo 20,3 proíbe o culto a outros deuses (1.º mandamento): ora, a inscrição descrevia o Imperador Romano com Divi Filius [= filho de um deus].

8. Jesus continua a usar o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: devolvei então as coisas de César a César e as coisas de Deus a Deus!» (Mateus 22,21). Note-se ainda como Jesus não responde com o verbo «dar» (dídômi) da pergunta, mas com «devolver» (apodídômi) o seu a seu dono. E introduz a enfática 2.ª parte «e as coisas de Deus a Deus». Fica então claro que a moeda vem de César e a César deve voltar. Mas Jesus, o Filho verdadeiro de Deus, «imagem do Deus invisível» (Colossenses 1,15), que até os falsos interlocutores reconhecem que está vinculado a Deus, pois afirmam que ensina o caminho de Deus (Mateus 22,16), é para devolver a Deus… Mas já sabemos que estes impostores montaram esta armadilha com o fito de o entregar a César (e é o que vão fazer mais à frente). E também fica claro que o ser humano, homem e mulher, criado à imagem de Deus (Génesis 1,26-27), é para devolver a Deus.

9. O v. 22, que foi cortado (mal) do texto deste Domingo, desenha a reviravolta dos caçadores caçados na sua própria armadilha. Caçados por excesso, pois refere o texto que ficaram maravilhados, e se foram embora (Mateus 22,22). Maravilhados, mas não convertidos. Voltarão cada vez mais envenenados para levar a cabo o projeto iníquo de retirar Jesus de Deus, para o entregar a César.

10. Como se vê, há nesta extraordinária resposta de Jesus muito mais do que a corrente e banal leitura que vê nesta passagem o mero estabelecimento de regras de convivência entre Estado e Igreja…

11. Ao contrário da nossa malícia que vamos extravasando, Deus olha-nos com bondade e os seus desígnios, mesmo quando escolhe um estrangeiro, são sempre por causa de nós, porque nos ama (Isaías 45,1.4-6). Este é também o modo caloroso de agir de Paulo, Silvano e Timóteo, que têm sempre presente, porque a amam, a comunidade de Tessalónica (1 Tessalonicenses 1,1-5). Terá de ser também o nosso modo de agir para com Deus e os nossos irmãos.

12. Sim, sem malícia, mas com o coração puro, cantemos as notas sublimes do Salmo 96. A música está escrita diante de nós, no pergaminho da natureza e da história, mas também no rosto belo de cada irmão e da inteira criação. O canto é novo. E já aprendemos com Santo Agostinho que só um homem novo pode cantar um canto novo.

13. Um canto novo nos deve unir e reunir, à volta do Senhor Ressuscitado, nosso contemporâneo, que nos guia e acompanha nos caminhos sempre novos da missão. Passa hoje o 91.º Dia Missionário Mundial, a que o Papa Francisco apôs o belo lema: «A Missão no coração da fé cristã». Assim, ficamos todos a saber que «Evangelizar é a nossa maneira de ser, a nossa identidade mais profunda», o verdadeiro ADN de todo o cristão batizado. Foi o Papa Pio XI que instituiu este Dia Missionário Mundial em 1926. Já vamos na 91.ª edição.

António Couto