IMPOSSÍVEL TRAVAR O CAMINHO DO AMOR

Fevereiro 2, 2019

1. O texto do Evangelho de Lucas proclamado e ouvido no Domingo IV do Tempo Comum (Lucas 4,21-30) retoma e continua o «discurso programático» de Jesus na Sinagoga de Nazaré, iniciado no Domingo III. Neste 1.º SÁBADO da sua vida pública, Jesus entrou na Sinagoga, LEVANTOU-SE para fazer a leitura litúrgica dos Profetas (Isaías) e SENTOU-SE para fazer a instrução com base na Lei (Deuteronómio): «HOJE foi cumprida (passivo divino!) esta Escritura nos vossos ouvidos».

2. O que Jesus faz é o procedimento tradicional do judeu piedoso em dia de SÁBADO, e as palavras que diz são também antigas. Dizendo as Palavras da Escritura e nada acrescentando de novo, Jesus assume-se como «FILHO DA ESCRITURA». As gentes de Nazaré olham, num primeiro momento, este Jesus com apreço e admiração, mas rapidamente passam a uma atitude hostil para com ele, apontando-lhe outra «paternidade»: «Não é este o “FILHO DE JOSÉ”?»; «o que ouvimos dizer que FIZESTE em Cafarnaum, FAZ também aqui na TUA PÁTRIA».

3. Mas, neste SÁBADO INICIAL, Jesus NÃO FAZ nada de semelhante àquilo que fará nos outros SÁBADOS. Este SÁBADO INICIAL reclama aquele SÁBADO FINAL em que Jesus também NADA FAZ: passá-lo-á inteiramente deitado no sepulcro! E a própria Paixão é exatamente o contrário de uma manifestação de poder: é antes passividade e impotência de Jesus! Ele, que tinha salvado outros, não se salvará a si mesmo! Mas neste SÁBADO INICIAL Jesus continua também a não dizer nada de novo. Cita dois provérbios: «Médico, cura-te a ti mesmo» e «nenhum profeta é bem aceite na sua pátria», sendo que os provérbios são património de todos e de ninguém. Reclama depois a obra de dois Profetas antigos, Elias e Eliseu, para mostrar que também eles NADA FIZERAM para as gentes da SUA PÁTRIA: Elias sai da sua pátria para socorrer uma viúva de Sídon, e Eliseu cura o sírio Naamã, um estrangeiro que o vem procurar na sua pátria. Também Jesus saltará fronteiras e atenderá estrangeiros. Bem ao contrário, Israel e as gentes de Nazaré: cegos, não acolheram a ESCRITURA de ontem como Palavra para eles «HOJE», do mesmo modo que no FILHO DE JOSÉ não souberam ver o Profeta, aquele que, como a Escritura, traz a Palavra. Quebram dessa maneira o laço de união entre o FILHO e a PÁTRIA, terra dos pais. E para vincar melhor a rejeição desta herança que é o seu FILHO, expulsam-no para fora da cidade. Pior ainda, tramam a sua morte: matando o FILHO, renegam a própria paternidade, perdendo assim a sua própria identidade. Perdendo-se, portanto. Da admiração inicial à rejeição final.

4. Não surpreende, portanto, que esta herança, rejeitada pela própria família, seja distribuída a outros, aos de fora. Este SÁBADO INICIAL contém em gérmen todos os elementos que o relato do Evangelho vai mostrar: desde logo o SÁBADO FINAL, mas também este FILHO DA ESCRITURA, que abre e lê abundantemente a Escritura aos nossos olhos para que ela se cumpra como Palavra nos nossos ouvidos, tornando-nos FILHOS DA PALAVRA. A oposição dos habitantes de Nazaré não foi suficiente para travar a história de Jesus, como também não o conseguiram fazer aqueles que o crucificaram e o continuam a crucificar ainda HOJE, pois Ele continua HOJE a passar pelo meio de nós. Resta saber que atitude assumimos nós HOJE. Retê-lo não é possível. Só podemos segui-lo!

5. A citação dos provérbios não é inocente. Mostra Jesus como PROFETA. De facto, ao citar o provérbio «Médico, cura-te a ti mesmo», Jesus está a dizer o que ainda não foi dito, mas será dito no cenário da Paixão: «Salvou os outros, que se salve a si mesmo!» (Lucas 23,35), dirá o povo;  «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,37), dizem os soldados. E ao dizer: «Nenhum Profeta é bem recebido na sua pátria», Jesus está a apresentar-se como Profeta verdadeiro. Na verdade, a perseguição começará logo ali e será uma constante ao longo do seu caminho. A Palavra profética faz o caminho, e não é o caminho que faz a Palavra! É esse caminho profético que Ele faz e segue, passando pelo meio deles. Esta Palavra que acontece, a d’Ele, a minha e a tua, faz a história e julga a história. Ao contrário do que facilmente dizemos, porque não pensamos, não é a história que nos julga. Somos nós que julgamos a história.

6. Somos HOJE também colocados perante o relato abreviado da vocação profética de Jeremias (1,4-5 e 17-19). O relato abre com a chamada «fórmula de acontecimento» [= «Veio sobre mim a Palavra do Senhor»] (1,4), que marca um início novo na vida do Profeta, e fecha com a chamada «fórmula de conforto» ou de «assistência» [= «Eu estou contigo»] (1,19), pela qual Deus garante ao seu Profeta apoio permanente. A missão de Jeremias destina-se às nações pagãs, mas também a Judá, seus reis, sacerdotes e todo o povo (1,17). A todos Jeremias, o profeta de Anatôt, uma aldeiazinha situada a uns seis quilómetros a nordeste de Jerusalém, deve falar a Palavra do Senhor. Os versículos cortados, por sinal os mais belos, definem a missão de Jeremias como uma missão difícil, marcada por quatro verbos negativos [= arrancar, destruir, exterminar, demolir] (1,10a), a que só depois se seguem dois positivos [= construir, plantar] (1,10b). Nesta altura, com Jeremias consciente da difícil missão que lhe foi confiada, estabelece-se um dos mais belos e significativos diálogos de toda a Escritura. A Palavra do Senhor vem sobre Jeremias (nova «fórmula de acontecimento») para lhe perguntar: «O que vês, Jeremias?», a que o Profeta responde com a belíssima expressão: «Vejo um ramo de amendoeira!» (1,11). «Viste bem, Jeremias», confirma o Senhor (1,12).

7. A amendoeira é uma das poucas árvores que floresce em pleno inverno. Jeremias vê bem, de forma penetrante que, na invernia da sua difícil missão, nasce já a flor da esperança, que é sempre a última palavra de Deus. E é essa flor-palavra, palavra em flor, que o Profeta vê-ouve-diz sempre, mesmo no meio da tempestade! Na verdade, Jeremias atravessa o período mais negro da história do seu país (Judá). Assiste às duas entradas arrasadoras do babilónio Nabucodonosor em Jerusalém, em 597 e 587 a. C. Os olhos de Jeremias veem a destruição, o sangue, a morte, a destruição do Templo, a deportação do rei, a que foram vazados os olhos, depois de ser obrigado a assistir à morte dos seus filhos. Os olhos de Jeremias veem sangue, ruína, morte, devastação, deportação, enfim, o fim do seu país. Não obstante tudo isto, Jeremias não fica com os olhos presos no sangue e na lama, e vê já mais além, vê um ramo de amendoeira, a flor da esperança, que anuncia já um tempo novo, bom e belo. Ainda hoje, à entrada de Anatôt, terra natal de Jeremias, se pode ver uma grande e velha amendoeira! Extraordinária lição e desafio para nós que estamos ainda com os olhos turvos pelas atrocidades, perseguições e acentuado desprezo pela vida humana que se vai vendo por este mundo fora.

8. Continuamos também, neste Domingo IV do Tempo Comum, com a Leitura semi-contínua do «Apóstolo». Ficamos assim perante o famoso «Hino à caridade» (1 Coríntios 12,31-13,13), uma das páginas mais extraordinárias do epistolário paulino. A uma comunidade em que os membros correm por conta própria, na vã tentativa de se posicionarem à frente uns dos outros, o Apóstolo Paulo aponta o AMOR (agápê) como caminho, testemunho e meta a atingir. É que mesmo que eu possua todos os bens e todos os dons, se não tiver o AMOR, que é o testemunho a transportar e a transmitir, posso estar a correr em vão ou ter já corrido em vão. É que o que é mesmo necessário viver é o AMOR.

9. Temos hoje a graça de poder saborear um bocadinho do Salmo 71, que é o único Salmo declaradamente posto na boca de um idoso. E aí, o velho orante não se lamenta nem tão-pouco faz apelo a qualquer sobrevivência depois da morte, mas implora simplesmente: «Não me rejeites no tempo da velhice,/ não me abandones quando o meu vigor desvanece» (vv. 9 e 18). Amando apaixonadamente esta vida, e vivendo-a com o intenso gosto de viver que Deus lhe incutiu no coração, ao homem bíblico não lhe sobra tempo para sonhos fáceis de imortalidade – o desejo da imortalidade é completamente estranho à alma ou à substância da antropologia bíblica – ou lúgubres meditações sobre a morte. O Antigo Testamento sabe e sente que a vida humana tem medida. Não a medida da inveja, como se vê nos mitos assiro-babilónicos, mas a medida do amor. E isso basta. E isso nos basta.

 

Sabes, meu irmão, que em Anatôt,

Há uma amendoeira em flor carregada de esperança.

Sim, em Anatôt, de Anatôt, a amendoeira levanta-se

E planta-se no teu coração róseo-branco de criança.

Sim, em Anatôt, Foz Coa, Kilimanjaro, Lamego,

Aí mesmo no chão do teu coração,

Tanto faz, minha irmã, meu irmão.

Sai dessa reclusão

E vem expor-te

A este vendaval manso de graça e de perdão.

 

A amendoeira em flor é uma toalha branca estendida pelo chão.

Não pela minha mão,

Incapaz de tecer um tal manto de brancura,

Mas pela mão de Deus,

Que também faz brotar o vinho e o pão

E a ternura

No nosso coração.

 

António Couto

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ASSEMBLEIA DE ALEGRIA E DE ESPERANÇA

Janeiro 26, 2019

1. São Lucas é o Evangelista do corrente Ano Litúrgico. E embora já tenha sido proclamado e já tenhamos escutado diversos episódios do Evangelho de São Lucas nos quatro Domingos do Advento, Natal (1.ª e 2.ª missas), Festa da Sagrada Família, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, e Festa do Batismo do Senhor, é só agora que vamos começar a proclamá-lo e a escutá-lo em leitura contínua. Importa, por isso, inserir neste momento um esquema deste Evangelho, para podermos compreender melhor o ritmo da sua leitura:

 

1,1-4 = Prólogo histórico (A)

1,5-2,52 = Evangelho da Infância (B)

3,1-9,50 = Ministério na Galileia (C)

9,51-19,27 = Partida/subida para Jerusalém (D)

19,28-21,36 = Ministério em Jerusalém (C’)

22,1-23,56 = Paixão – Morte – Sepultura (B’)

24,1-53 = Epílogo: Ressurreição – Aparições – Promessa do Espírito (A’)

 

2. O Evangelho deste Domingo III faz a acostagem do «prólogo» (1,1-4) ao «discurso programático» de Jesus na sinagoga de Nazaré (4,14-21), saltando a pregação e prisão de João Batista (3,1-20), o Batismo de Jesus e a genealogia (3,21-38), e a sua tentação no deserto, de que sai vitorioso (4,1-13).

3. O prólogo (Lucas 1,1-4) é importante para se compreender a solidez de todo o Evangelho. Lucas, da segunda geração cristã, não fez obra por conta própria. Faz questão de dizer que escreveu de forma ordenada e com acribia e controlando desde o começo os factos (prágmata) de Jesus, aqueles que foram cumpridos (passivo divino!) entre nós, e que já foram recebidos com carinho mão na mão (epicheiréô) e postos em narração (diêgêsis) por muitos, conforme nos foram transmitidos (paradídômi) por aqueles que foram testemunhas oculares (autóptai) desde o princípio (ap’ archês). Factos de Jesus, testemunhas oculares, transmissão-receção mão na mão, narração, controlo desde as fontes. Lucas escreve para que o seu Leitor tenha um conhecimento pofundo e pessoal (epiginôskô) dos factos de Jesus, sobre os quais se faz a instrução da catequese (katêchéô), que forma a nossa consciência cristã.

4. O episódio de Nazaré (4,14-21) é importante. Antes de mais é dito que Jesus procede na força (dýnamis) do Espírito, inciso próprio de Lucas, que salienta a plena identificação somática de Jesus com o Espírito. Já antes, desde o Batismo, Jesus é dito plêrês [= cheio] do Espírito (4,1), e plêrês indica, não a passividade de quem está cheio, mas a condição natural, ativa, de quem possui a plenitude do Espírito Santo. Sempre na força do Espírito, entrou em dia de sábado na sinagoga, e LEVANTOU-SE (anístêmi) para fazer a leitura litúrgica (anaginôskô) (Lucas 4,16).

5. Em João 7,15, ao verem Jesus a ensinar no Templo, os judeus ficam admirados e interrogam-se: «Como é que ele entende de letras sem ter estudado?». Lucas 4,16 informa-nos que sabia pelo menos ler! Jesus lê um texto composto de Isaías 61,1-3; 58,1-11; 35,1-3, mas Lucas compendia-o na citação de Is 61,1-2.

6. Os conteúdos são decisivos, e Jesus aplica-os soberanamente a si mesmo, com a consciência de ser o Realizador da Promessa antiga: o Espírito do Senhor sobre mim porque me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me e eis-me a anunciar (kêrýssô) aos prisioneiros a «remissão» (áphesis) [= amnistia], aos cegos o retorno da vista, a restituir aos oprimidos a liberdade, a anunciar (kêrýssô) o ano da graça [= jubileu] do Senhor (Lucas 4,18-19). Trata-se de funções reais, sacerdotais e proféticas. Atos 10,38 confirmará que Jesus, ungido com o Espírito, passou cumprindo todas estas funções.

7. Terminada a leitura, Jesus SENTOU-SE para ensinar, para fazer a tradicional homilia (Lucas 4,20a). E o narrador informa-nos, de maneira admirável, que «os olhos de todos estavam fixos nele!» (Lucas 4,20b), apontando já para o grande ensinamento da Cruz, quando Jesus diz: «Quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a mim» (João 12,32), anotando depois o narrador: «Olharão para Aquele que transpassaram» (João 19,37). Em Nazaré, Jesus começou assim a sua homilia: «Hoje foi cumprida (passivo divino!) esta Escritura nos vossos ouvidos» (Lucas 4,21).

8. O texto, muito denso, bem diferente das débeis versões oficiais, salienta a força da Palavra de Deus quando é objeto de escuta qualificada. Este «Hoje» (sêmeron), que Lucas usa por oito vezes no seu Evangelho (2,11; 4,21; 5,26; 19,5; 19,9; 22,34; 22,61; 23,53), tornou-se clássico nas homilias dos Padres gregos. Neste seu primeiro ensinamento, Jesus como que não diz nada de novo! Na sua boca estão só palavras antigas! Excelente maneira de Jesus se apresentar como «Filho da Escritura», Leitor e conhecedor da Escritura: lê os Profetas (Isaías) e aponta para a Lei (Deuteronómio), o Livro do «Hoje» (70 vezes) e do «Escuta, Israel!».

9. Em perfeita consonância com o Evangelho (Assembleia reunida, Leitura da Palavra, olhos fixos), aí está o belo texto de Neemias 8,2-10. Grande texto do tardio pós-exílio que mostra a Assembleia, composta por homens, mulheres e crianças desde a idade da razão, reunida, de pé, no 1.º Dia do Ano (Dia de Ano Novo), para escutar com atenção e compreender até às lágrimas a Palavra do Senhor. Esdras, o sacerdote, está também de pé num estrado de madeira feito de propósito, e todos levantam os olhos para ele. A liturgia começa, como é usual, com a «bênção sacerdotal» (Números 6,23-26), a que o povo responde «Amen» com as mãos levantadas, gesto fundamental que indica plena compreensão e total adesão.

10. O Novo Testamento mostrará o novo Sacerdote, que é Cristo, no novo estrado de madeira, que é a Cruz, novo Livro da Escritura de Deus, onde São Paulo lê para nós: «Jesus Cristo exposto por escrito (proegráphê), crucificado (estaurôménos» (Gálatas 3,1), que atrai, como já atrás referimos, os olhos de todos (João 19,37).

11. Quase no final, mas ainda próximos do Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos, são oportuníssimas as palavras que o Apóstolo Paulo, Apóstolo da Unidade, dirige aos cristãos de Corinto (1 Coríntios 12,12-30) e a nós também. Diz ele que as nossas diferenças não são uma praga ou uma chaga, mas uma graça para partilhar com alegria em vista da utilidade comum. Não nos podemos, portanto, habituar à separação! Temos de compreender o escândalo que constitui a separação (também das Igrejas Cristãs): qual de nós aceitaria de bom grado que o seu próprio corpo fosse mutilado ou amputado? Então como podemos aceitar que o seja o Corpo de Cristo?

12. Neste Domingo, é a Assembleia unida porque reunida pela Palavra, que está no centro das atenções: é a Assembleia de Nazaré, é a Assembleia que nos mostra o Livro de Neemias, é também a nossa Assembleia Dominical, que Hoje se reúne à volta do Senhor Ressuscitado, nossa Alegria e nossa Esperança. «Não abandonemos, então, a nossa Assembleia, como alguns costumam fazer», oportuníssima exortação da Carta aos Hebreus (10,25).

13. Refere, a propósito, um antigo conto judaico: «Vira e revira a Palavra de Deus, porque nela está tudo. Contempla-a, envelhece e consome-te nela. Não te afastes dela, porque não há coisa melhor do que ela». E o Salmo 19, que hoje cantamos, ensina-nos que Deus ilumina o universo com o fulgor do sol, e ilumina o homem com o fulgor da sua Palavra revelada que a Escritura Santa carinhosamente guarda.

António Couto


«CHAÎRE» MARIA!

Dezembro 7, 2018

1. «Fazendo memória da Toda Santa, imaculada, sobrebendita, gloriosa Senhora nossa, Mãe de Deus e Sempre Virgem Maria, juntamente com todos os Santos, consagramo-nos nós e toda a nossa vida a Cristo Deus». Assim se conclui, no rito bizantino, a oração que abre a celebração deste Dia, à qual a assembleia responde: «a Ti, Senhor!». É o «fiat», o «faça-se» dito por Maria (Lucas 1,38), a Serva do Senhor, a ecoar também no nosso coração e a brotar dos nossos lábios. É o eco daquele «faça-se» de Deus na primeira página da Escritura Santa a ecoar no coração de Maria e no nosso também. É aquele «Sim» imenso que atravessa as primeiras 452 palavras da Escritura Santa (Génesis 1,1-2,4a), onde não se lê um único «Não». «Tudo, na verdade, foi feito pelo Verbo» (João 1,3), «n’Ele foram criadas todas as coisas» (Colossenses 1,16), e o Verbo incarnado, Jesus Cristo, no dizer do Apóstolo, «foi sempre Sim, e nunca não» (2 Coríntios 1,19). Aí está a filigrana que faz vibrar a melodia e mostra a verdadeira harmonia da Escritura. Imensa sintonia a ecoar hoje em tantos corações! As partituras desta música divina vêm hoje de Lucas 1,26-38, Génesis 3,9-15.20, Efésios 1,3-6.11-12 e do Salmo 98.

2. É bom sabermos e sentirmos que as Igrejas do Oriente e do Ocidente, embora divididas entre si, nos dias 8 e 9 de Dezembro (8 no Ocidente e 9 no Oriente), nove meses antes da Festa da sua Natividade (8 de Setembro), juntam as suas vozes em maravilhosa harmonia para celebrar a Mãe de Deus no singular privilégio da Conceição Imaculada da sua humanidade.

3. Bem sabemos, além disso, que os Coptos dedicam a Maria o inteiro mês de Kiahq, que coincide mais ou menos com o nosso mês de Dezembro, e os Caldeus, os Antioquenos e os Maronitas celebram, também nesta altura do ano, e durante pelo menos quatro Domingos, o tempo do chamado Sûbbarâ ou «Anunciação» ou «Evangelização», Vinda de Deus ao nosso mundo, notícia após notícia, para abrir as nossas trincheiras e fazer nascer em nós um mundo novo, um cântico novo.

4. «Onde estás?», pergunta o Deus-Que-Vem por amor ao encontro da sua criatura dileta (Génesis 3,9). «Tive medo e escondi-me», respondemos nós, amedrontados (Génesis 3,10). A narrativa exemplar de Génesis 3, que hoje lemos, desvenda todas as nossas inúteis estratégias de defesa, e faz-nos ver como nós nos escondemos de nós mesmos e de Deus, e como alijamos facilmente as nossas culpas sobre os outros. Correto, limpo, terapêutico, salvador, era assumirmos e confessarmos humildemente as nossas culpas. Mas não. Fugimos, escondemo-nos de nós, e respondemos: «Foi a mulher», «foi aquele», «foi aquela», e, em última análise, «foste Tu, foste Tu, Deus» (Génesis 3,12), porque foste Tu que me deste a maravilha de um irmão, de uma irmã, e foi esse irmão dado por Ti, essa irmã dada por Ti, que me deu a comer aquele fruto, fruto de um furto! És Tu, portanto, e em última análise, o culpado. Aí estamos nós a fugir de nós mesmos, e a acusar os outros! E se não assumimos as nossas culpas, como podemos corrigir os nossos erros, e como podemos chegar a descobrir a realidade humana e divina do perdão? Sim, porque quando nos escondemos de Deus, estamos também a esconder Deus e os seus dons, a Alegria, o Amor, o Perdão.

5. Sim, esta história tem a ver connosco. Estando o Rabbi Shneur Zalman (1745-1812) preso em S. Petersburgo, entrou na sua cela o comandante da guarda, e pôs-se a conversar com ele sobre assuntos diversos. No final, perguntou: «Como se deve interpretar que Deus Omnisciente pergunte a Adam: “Onde estás?”». «Você acredita», respondeu o Rabbi, «que a Escritura é eterna e que diz respeito a todos os tempos, a todas as gerações e a todas as pessoas?». «Sim, acredito», disse o comandante da guarda. «Então», respondeu o Rabbi, «em cada tempo Deus pergunta a cada homem: “Onde estás no teu mundo? Dos dias e dos anos que te foram atribuídos, já passaram muitos: entretanto, até onde é que tu chegaste no teu mundo?”. Deus disse, por exemplo: “Vê, já há 46 anos que andas aqui. Onde te encontras?”». Ao ouvir o número exato dos seus anos, o comandante sentiu dificuldade em controlar-se, pôs a mão no ombro do Rabbi, e exclamou: «Bravo!». Mas o seu coração tremia.

6. É usual dizer-se que esta conhecida página do Livro do Génesis narra a entrada do mal no coração do homem e no mundo. Mas do que se trata mesmo é da importância da relação do homem com Deus, e diz-nos que o mal entra no mundo quando o homem quebra esta relação e se desliga de Deus. Por isso também, daí para a frente, a Escritura Santa ocupa-se em mostrar que a resposta a dar ao mal não é apenas o bem, mas o santo. Entenda-se: não o homem fechado sobre si, autossuficiente e autorreferencial, mas completamente aberto e voltado para Deus, de quem por amor tudo recebe e se recebe. E completamente voltado para os outros, a quem tudo entrega por amor. Como Maria, a figura deste luminoso Dia.

7. Em perfeita sintonia, aí está o Apóstolo a dizer o fundamental: «que Deus nos escolheu para sermos santos» (Efésios 1,4) e para nos dar, através de Jesus Cristo, a nossa verdadeira identidade, a filiação divina (hyiothesía) (Efésios 1,5). Entrando assim, por graça, na casa de Deus (Efésios 4,19), andaremos sempre na sua presença. Ele é o Deus Santo que nos santifica. Escutemos também a melodia admirável em que o Apóstolo nos faz entrar na Carta aos Romanos 15,4-9. Como seria belo um mundo pautado por uma verdadeira fraternidade em que todos vivêssemos sob o impulso e o alento carinhoso e criador de Deus. Na verdade, todos respiramos o mesmo alento, que o texto grego diz com o belo termo composto homothymadón (Romanos 15,6), que junta homós [= mesma] e thymós [= alma], sendo que thymós deriva de thýô [= soprar]. E que mundo maravilhoso surgiria, rompendo a crosta do egoísmo e da dureza de coração, se «nos acolhêssemos uns aos outros, como Cristo nos acolheu a nós» (Romanos 15,7). Aí está então a comunidade humana irmanada e reunida, porque todos recebemos de Deus o mesmo alento, o mesmo sopro criador (Génesis 2,7), e com uma só boca (en henì stómati) e a uma só voz cantamos os louvores do nosso Deus (Romanos 15,6), autor de tantas maravilhas (Êxodo 15,11)! Esta linguagem e esta harmonia enchem por inteiro a comunidade primitiva (Atos 1,14; 2,46; 5,12).

8. O ícone desta santidade, neste mundo, é Maria, no grande texto da Anunciação (Lucas 1,26-38). Vale a pena contemplá-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus toda a sua vida, a sua virgindade. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver está, porém, solidamente documentada por parte de homens e mulheres. Ao contrário do homem do Génesis e desta sociedade em que vivemos, Maria não se esconde de Deus nem esconde Deus. Expõe-se, na sua verdade e simplicidade, ao imenso clarão de Deus. É assim que se expõe a Deus e que expõe Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Vocação que lhe vem de Deus. Maria vai ser a Mãe, não de um filho, mas do Filho há muito ansiado, esperado e anunciado nas páginas da Escritura Santa Antiga. É o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e é o Filho de Maria, totalmente consubstancial à sua Mãe. Santa Maria, Mãe de Deus.

9. Por isso, «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «não tenhas medo», «o Senhor está contigo» (Lucas 1, 28 e 30). Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos», «não tenhais medo» (Mateus 28,5 e 9). E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

10. «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada (Lucas 1,48). É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor (Lucas 1,45)! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática (Lucas 11,28)!

11. Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de Março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099, pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

12. A uns 200 metros para nordeste encontra-se a Igreja da Nutrição, que guarda a memória de S. José e dos «irmãos de Jesus» do ramo de José, muito zelosos dos seus direitos, tradição bem conhecida na Igreja primitiva, a partir do século II, e fechados aos gentio-cristãos pelo dogma da habdalah [= separação entre os judeo-cristãos e os cristãos da Grande Igreja]. Nesse sentido, é sabido que em 570 impediram o Anónimo de Piacenza de visitar a «casa de José», e, em 614, alistaram-se com os Persas de Cosroé, vindo ao de cima o seu zelo destruidor de igrejas «cristãs». Com a vitória de Heráclio, estes judeo-cristãos nazarenos levaram consigo as suas tradições sobre Nazaré e S. José, e ter-se-ão refugiado junto dos coptos egípcios. Logo a seguir, em 670, Arculfo já pôde visitar e descrever a casa de S. José em Nazaré. A descrição de Arculfo vê-se confirmada mais tarde, nas escavações do P. Viaud e de Fr. Benedetto Vlaminck, nos anos de 1890 e 1909-1910, e, mais tarde ainda, em 1970, pelo P. Bagatti.

13. Foi o Concílio de Basileia (1439) que sugeriu a definição do dogma da Imaculada Conceição, proclamado depois por Pio IX em 08 de Dezembro de 1854, através da bula Ineffabilis Deus. Note-se que o termo «conceção», na linguagem bíblica, indica a totalidade da existência. O velho orante do Salmo 71, olhando retrospetivamente para a sua vida de fidelidade e de amor, exclama extasiado: «Sobre ti me apoiei desde o ventre, desde as entranhas de minha mãe» (Salmo 71,6). Assim também, a existência de Maria está, desde o seu início, sob a proteção de Deus, marcada com o selo de Deus, não estando nunca sob o selo do pecado original, que mostra a existência humana marcada por um projeto alternativo ao de Deus, em que cada existência humana, eu, o meu pai, os filhos que aparecerão sobre a face da terra, queremos ser por nossas próprias forças «como deus, conhecedores do bem e mal» (Génesis 3,5).

14. Esta celebração da Mãe de Deus e nossa Mãe e Padroeira Principal de Portugal é um desafio imenso para o homem «em fuga» deste tempo, que se esconde de si mesmo, que continua a esconder-se de Deus, e que pretende esconder Deus, retirando-o da via pública e da vida pública. Atravessamos verdadeiramente a «noite do mundo» (Weltnacht), diz Martin Heidegger, onde «Cada um está sozinho no coração da terra/ atravessado por um raio de sol:/ e é logo noite», como bem escreve o escritor italiano Salvatore Quasimodo. Homem deste tempo às escuras, engessado, triste, exilado, escondido, anestesiado, volta para a Luz, reentra em tua casa, no teu coração despedaçado. Há de seguramente por lá haver ainda, caída no fundo da alma, uma lágrima dorida e uma mão de Mãe à tua espera!

 

Senhora de dezembro,

Maria, minha Mãe,

Passa hoje o dia da tua Imaculada Conceição.

 

Senhora de dezembro,

Dos dias frios e frágeis,

Dos passos firmes e ágeis,

Do coração que velava

À espera de quem te amava.

 

Assim te entregaste a Deus,

De coração inteiro,

Como um tinteiro

Todo derramado numa página.

 

Tu és a mais bela página de Deus,

A Deus doada, apresentada, dedicada,

Mãe da vida consagrada,

Imaculada,

Ensina-me a tua tabuada,

A tua nova alegria,

A luz do Evangelho que te aquece e alumia.

 

Eu te saúdo, Maria,

Neste dia da tua Imaculada Conceição.

Ave-Maria.

 

António Couto


DE ONDE ÉS TU?

Julho 7, 2018

1. O Evangelho deste Domingo XIV do Tempo Comum (Marcos 6,1-6) enlaça no do Domingo passado (XIII), pondo Jesus a sair de lá (ekeîthen) (Marcos 6,1), isto é, de Cafarnaum, da casa de Jairo (Marcos 5,35-43), e a dirigir-se para a sua pátria (pátris) (Marcos 6,1), ao encontro dos seus familiares e conterrâneos, sendo o sábado e a sinagoga (Marcos 6,2) o natural lugar desse encontro. Esta primeira ida de Jesus à sua pátria fica a marcar também, no Evangelho de Marcos, a última vez que Jesus ensina numa sinagoga (Marcos 1,21.23.29.30; 3,1; 6,2), e também o sábado será mencionado apenas mais uma vez, precisamente na manhã de Páscoa (Marcos 16,1).

2. E, portanto, tudo neste texto, neste encontro, assume um carácter decisivo. Desde logo a escolha do termo «pátria», que carrega consigo um significado mais intenso e mais amplo do que o mais habitual de «povoação». Com esta forma de dizer, este decisivo encontro com Jesus não fica apenas circunscrito a uma pequena região da Galileia, mas prefigura já o encontro de Jesus com o inteiro Israel, e a rejeição que lhe será movida por este. São mesmo já visíveis desde aqui as resistências ao Evangelho radicadas no nosso coração, e que o Quarto Evangelho porá a claro: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11). Mas também esta última vez a ensinar na sinagoga, e este sábado que aponta para aquele último «passado o sábado» (Marcos 16,1), devem gravar em nós evocações e apelos decisivos. Tudo o que tem sabor a último carrega um particular peso específico.

3. Aventurando-nos um pouco mais dentro do texto, não ficaremos certamente admirados por vermos que estes conterrâneos de Jesus estejam a par das suas humildes e bem conhecidas raízes geográficas e familiares que, na mentalidade antiga, determinam a identidade e a capacidade da pessoa. Notaremos ainda, sem grande espanto, que os conterrâneos de Jesus sabem, em termos anagráficos, muito mais do que o leitor, sobre Jesus: dele sabem indicar a família, a profissão, a residência. O que nos deve espantar, isso sim, é que aqueles conterrâneos de Jesus não saibam dizer «DE ONDE» (póthen) lhe vem aquela sabedoria única e os prodígios que realiza.

4. Às vezes, por termos os olhos tão embrenhados na terra, nas coisas da terra, não conseguimos ver o céu! Veja-se a iluminante cena da cura do cego de nascença (João 9). Em diálogo com o cego curado, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos DE ONDE (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é “espantoso” (tò thaumastón): vós não sabeis DE ONDE (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! Tal como o cego, e fazendo uso da mesma linguagem, também Jesus “estava espantado” (ethaúmazen) com a falta de fé dos seus conterrâneos (Marcos 6,6). Note-se bem que a falta de fé aqui assinalada não é apenas a negação de Deus. É a rejeição de Jesus em nome de uma errada conceção de Deus. Podemos dizer mesmo: para salvar a honra de Deus. Veja-se bem até onde pode chegar a nossa cegueira!

5. Numa altura em que se continua a falar da «receção» do Concílio II do Vaticano, dado que ainda estamos na esteira da celebração dos 50 anos da sua realização (1962-1965), podemos falar também, com as devidas distâncias, da «receção» de Jesus e do seu Evangelho. O texto diz-nos que os seus conterrâneos não o receberam, não se deixaram atravessar por Ele, pelo Céu que Ele indicava e trazia consigo. Ponte para o próximo Domingo (XV), em que ouviremos o episódio que se segue imediatamente ao de hoje (Marcos 6,7-13). Aí, Jesus enviará os seus Doze Apóstolos, dois a dois, despojados de meios ou de equipamento, para ressaltar bem a importância do Anúncio do Evangelho. Mas a ponte entre os dois textos e respectivos Domingos está em que ouviremos Jesus dizer aos seus Apóstolos: «Qualquer lugar (tópos) que não vos “receba” (déxetai)…». Os livros dizem que, em Marcos, o verbo «receber» (déchomai) está sempre referido a Jesus. Trata-se de «receber», de «acolher» Jesus. É então também fácil ver qual é o «lugar» que não «recebeu» Jesus. Mas o problema é sempre este: e nós?

6. A figura de Ezequiel, profeta frágil, mas que aponta para um «Deus que dá força» (etimologia do seu nome), por 93 vezes interpelado por Deus com a locução «Filho do Homem», é por Deus incumbido da missão difícil de ser sentinela (tsopeh) (Ezequiel 3,17; 33,7) da casa rebelde de Israel, junto do rio Cobar, em Tel ’Abîb (Ezequiel 1,1-3; 3,15), na Babilónia, uma espécie de «pároco dos exilados». Tel ’Abîb significa «colina da primavera» ou das «espigas». É um lugar duro de exílio, mas, porque lembra a primavera, é também um nome carregado de esperança. Os judeus deram este nome significativo a uma das primeiras colónias que fundaram na Palestina, junto da costa Mediterrânica, em finais do século XIX, onde se situa hoje a capital política de Israel. O rio Cobar é um canal de irrigação, hoje chamado Shatt Ennil, que parte do Eufrates para irrigar a cidade de Nippur, onde os Babilónios instalaram deportados oriundos de diferentes proveniências, entre os quais se contam os deportados de Judá. Na sua fragilidade e na rejeição que experimenta, o profeta Ezequiel ajuda a perceber e a «receber» melhor a figura de Jesus, o Deus feito homem, que a si mesmo se diz nos Evangelhos, por 82 vezes, «Filho do Homem».

7. E São Paulo dá testemunho, na Segunda Carta aos Coríntios (12,7-10) da força nova de Cristo, que o habita: «Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que se manifesta a minha força» (2 Coríntios 12,9). E ainda: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Coríntios 12,10).

8. O Salmo 123 mostra-nos a força do olhar através de uma série de olhares que se entrecruzam: os meus olhos, os olhos dos servos, os olhos da escrava, os nossos olhos. Os meus olhos e os nossos olhos estão postos em Deus; os dos servos nas mãos dos seus patrões; os da escrava nas mãos da sua patroa. Há, todavia, uma diferença entre as mãos de Deus e as dos patrões. As mãos dos patrões dão ordens. As mãos de Deus abençoam, dão, salvam, embalam com ternura, fazem graça. Portanto, o homem que reza neste Salmo não junta as mãos, mas abre-as para as de Deus, formando uma espécie de puzzle, para receber os dons de Deus; também não fecha os olhos, mas escancara-os para o céu; e tão-pouco se fecha no seu mundo interior, mas abre-se completamente para fora. O orante deste Salmo reza com as mãos e os olhos abertos, com a alma aberta.

António Couto