SENHOR, DÁ-NOS SEMPRE DESSE PÃO!

Julho 30, 2021

1. Continuamos, neste Domingo XVIII do Tempo Comum, a revisitar a página Evangélica de João 6, no caso de hoje, 6,24-35. Depois do episódio do CONDIVISÃO dos pães, Jesus afastou-se sozinho para o monte (João 6,15), e os seus discípulos entraram na Barca e atravessaram o Mar da Galileia, na direção de Cafarnaum (João 6,16-17). Em pleno Mar, foram apanhados pelo escuro, por um vento grande e pelo medo (João 6,17-20). Na verdade, iam sós, pois Jesus ainda não tinha vindo ter com eles. Mas vem, e com ele vem também a calma e a serenidade, e logo encontram rumo seguro para terra (João 6,21). Definitivamente: os discípulos de Jesus não podem andar sozinhos, sem Jesus: quando o fazem, invade-os a noite, a tormenta, o medo.

2. Com o afastamento de Jesus para o monte, também a multidão ficou sozinha, mas leva mais tempo até se aperceber da sua solidão e da ausência de Jesus. O escuro não os preocupa. Passam a noite a dormir descansadamente. Só no dia seguinte se apercebem da falta de Jesus, da falta que Jesus lhes faz, e vão à procura d’Ele (João 6,22-24). Encontram-no, e manifestam a confusão neles instalada, perguntando: «Rabbî, quando vieste para aqui?» (João 6,25).

3. Sem contemplações e com palavras duríssimas, Jesus desvenda logo, de forma clara e solene, a sonolência e incompreensão que os habita: «Em verdade, em verdade, vos digo: “Vós procurais-me, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e enchestes a barriga como animais (chortázô)”» (João 6,26). A comparação é forte e de denso sabor profético. O verbo usado é chortázô, derivado de chórtos, que significa «erva seca», «feno», «palha». No dizer de Jesus, aquela multidão comeu como comem os animais. E, no fim, deitam-se a dormir. Até ao dia seguinte. A comida dos animais também é dom de Deus, mas eles não se apercebem, nem agradecem. Do mesmo modo, a multidão come e dorme. Não vê nem lê «sinais». O alimento recebido não dá que pensar e que rezar. Não se apercebe que o alimento é dom de Deus, e que remete, portanto, para Deus.

4. E tão-pouco entendem que está ali o verdadeiro pão da vida (João 6,35). Não veem nem ouvem Jesus, e o sentido novo que traz para a vida das pessoas. Limitam-se a contar a história antiga do maná antigo que os seus pais comeram no deserto. Como quem diz (e nós repetimos muitas vezes o mesmo refrão viciado): «antigamente é que era!».

5. E esse maná antigo era, afinal, bem pouca coisa. Mas foi «visto» como sinal da providência de Deus em pleno deserto, como ensina a lição de hoje do Livro do Êxodo 16. Trata-se do maná chamado lecanora, que se encontra desde o Irão até ao Norte de África, portanto também no norte da Península sinaítica, que é granuloso e aguado, de dimensões bem reduzidas, minúsculas, do tamanho da semente do coentro [= cerca de 5 milímetros de diâmetro], de cor branca, e tem sabor a mel (Êxodo 16,31). Trata-se, na verdade, da secreção produzida pelo tamarisco, chamado tamarix gallica ou tamarix-mannifera, após a picada de um inseto, o coccus manniparus, ou de dois, a trabutina-mannipara e o naiacoccus serpentinus.

6. Afinal, é bem pouca coisa o maná. Tal como os cinco pães e os dois peixinhos. Mas, quando se vê como um dom de Deus, essa pouca coisa é tanto! Eis como admiravelmente escreve o Livro da Sabedoria, quando fala do maná: «nutriste o teu povo com um alimento de anjos, DESTE-lhe o PÃO do CÉU, com mil sabores: ele manifestava a tua DOÇURA (glykýtês, glicose). Assim os teus FILHOS QUERIDOS aprenderam, Senhor, que NÃO É A PRODUÇÃO DE FRUTOS que alimenta os homens, mas a tua Palavra que a todos sustenta» (Sabedoria 16,20-21.26). Aí está, claro, claríssimo, o indicador correto da compreensão da chamada «multiplicação» dos pães por Jesus. Não, Jesus não faz o papel de um qualquer produtor ou empresário que faz uma operação de multiplicação de bens, para satisfazer os desejos das pessoas, em termos de consumo e de mercado. Ele distribui, reparte, partilha a Palavra de Deus, fazendo nascer desta operação um mundo novo. Já todos devíamos saber que aumentar a produção pode aumentar a ganância, mas não resolve o problema da fome ou da pobreza. Aumentar a produção não é nenhum milagre. O milagre reside na partilha! O nosso povo simples, que guarda sempre uma inteligência grata e penetrante, diz bem que «o pouco com Deus é muito; o muito sem Deus é nada!». Admirável sabedoria e sintonia com o Evangelho de Jesus!

7. Jesus é a Palavra Viva, o Pão da Vida, que, no meio de nós, manifesta a Doçura ou a Glicose de Deus (cf. Sabedoria 16,21). É sempre tendo este Jesus como referência e fonte de vida nova, que devemos abandonar a antiga vida oca e vã (mátaios), a inteligência obscurecida (skótos), a alienação (apallotrióô) e a ignorância (agnôsía) de Deus, o coração endurecido (pôrôsis), que geram insensibilidade, dissolução, impureza e avidez, e, em Jesus, renovar a nossa inteligência, compreensão e sentido da vida, revestindo-nos (endýô) de hábitos novos, que não se vendem ou compram no pronto-a-vestir (Efésios 4,17-24).

8. Sim, Ele está no meio de nós, mas não é nosso. Não é um sistema de produção ou de abastecimento. Ele é o Amor, a Alegria, a Vida Vivente e Eterna, Vida divina, dita zôê (João 6,33) ou zôê aiônios (João 6,27), e não bíos ou psychê, vocábulos que dizem a nossa vida corrente e o seu sustento. Ele é o Céu e o Pão descido do Céu à nossa terra, para nos fazer viver felizes e nos elevar à sua condição de Filho, filhos no Filho. Está no meio de nós, mas não o podemos reter ou possuir. Ensina-nos bem Abraham Joshua Heschel que um dom é como um vaso cheio de afeto, que se quebra logo que o recebedor o comece a considerar como seu. Senhor Jesus, dá-nos sempre desse pão!

9. O Salmo 78 ensina-nos que a Bíblia é a longa história de uma salvação sempre oferecida, acolhida e, por vezes, rejeitada. Lembra-nos que as maravilhas de Deus não são para guardar no cofre da família, mas para passar, de mão em mão, de coração a coração, de pais para filhos, de geração a geração. A catequese é o anúncio de um acontecimento em carne viva que nos deve comprometer, e não de uma série de frias, enlatadas ou requentadas fórmulas ou teses teológicas.

António Couto


CEIA DO SENHOR

Abril 1, 2021

1. Com esta celebração da Ceia do Senhor, em Quinta-Feira Santa, a Igreja Una e Santa reacende a memória da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade, e dá início ao Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do seu Senhor (o Tríduo Pascal prolonga-se até às Vésperas II do Domingo da Ressurreição), que constitui o ponto mais alto do Ano Litúrgico, de onde tudo parte e aonde tudo chega, coração que bate de amor em cada passo dado, em cada gesto esboçado, em cada casa visitada, em cada mesa posta, em cada pedacinho de pão sonhado e partilhado. É assim que Deus nos dá a graça de caminhar durante todo o Ano Litúrgico, dia após dia, Domingo após Domingo, sempre partindo da Páscoa do Senhor, sempre chegando à Páscoa do Senhor.

2. Neste Dia Santíssimo, é-nos dada a graça de poder escutar um dos mais antigos e intensos relatos da Ceia do Senhor: «O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton), e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim”. Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim”. Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Coríntios 11,23-26).

3. Atravessado o relato, deparamo-nos com uma sequência verbal riquíssima, que mostra bem como a vivência da Eucaristia transforma a nossa vida desde dentro, desde o coração, sístole e diástole, ao mesmo tempo sangue e amor a circular nas nossas veias! Vida nova que vem de Deus, como quando o Espírito impele Sansão, os profetas, Paulo ou Jesus. O verbo hebraico para dizer este impulso do Espírito é paՙam. Sim, o Espírito impele-nos e empurra-nos pela estrada fora, mas esta sua ação forte e suave faz-se também sentir por dentro e desde dentro, movendo o coração e as suas avenidas, pois a família etimológica que de paՙam se desprende também serve para dizer o bater do coração e a pulsação (poՙam), e estende-se ainda ao soar do sino ou da campainha (paՙamon), cujo som festivo ouvimos há pouco, e se calou, para voltar a soar na noite da Vigília Pascal. Portanto, o Espírito de Deus que invocamos sobre este pão e sobre este vinho, impele-nos, empurra-nos, impulsiona-nos desde fora, mas move também a nossa vida desde dentro, dando-nos um coração novo, capaz de conjugar em cada dia os verbos fundamentais da Eucaristia: RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,/ PARTILHAR e DAR,/ COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

4. Receber é um verbo fundamental, é a base da nossa vida, do pão e do vinho, vocação e missão sempre de Deus recebidas. Deus antes de nós; Deus para nós. Começamos a Eucaristia de mãos abertas para Deus, grande atitude bíblica e cristã. Dar graças. É só reconhecendo e sabendo e sentindo que a Graça tomou conta de nós, que podemos e sabemos dar graças, outra grande atitude que transforma a nossa vida. Partir, partilhar o pão. Grande atitude a de saber que nada é só meu, nem sequer a minha vida. Tudo é para partilhar com alegria com tantos irmãos e irmãs. Sim, à minha volta há só irmãos e irmãs, e à minha frente há sempre uma mesa posta com lugar para todos. Em memória de Jesus. Sim, amados irmãos e irmãs, nunca podemos esquecer aquele jeito de Jesus. Ele no centro da nossa vida e das nossas atitudes, municiando-as. Anunciar a morte do Senhor. Não se trata de chorar ou de vestir de luto, como quem diz que Jesus morreu e desapareceu. Não é essa a vocação cristã. Trata-se, antes, de saber ver e ler bem a Cruz de Jesus e o caminho da Cruz de Jesus, da sua Morte e Ressurreição. Jesus não morreu para desaparecer. Morreu para viver em plenitude e dar aos seus irmãos essa vida nova, transbordante e transformante. Sim, trata-se de anunciar que Jesus viveu e morreu para dar a vida por amor, para sempre e para todos. E é nessa atitude que continua vivo e presente no meio de nós.

5. Tivemos Hoje também a graça de ouvir o colorido relato da Páscoa primeira, celebrada pelo Povo hebreu no Egipto, conforme o relato do Êxodo 12,1-14. «Páscoa» quer dizer «passagem», e põe em cena «passageiros». Com os antigos pastores beduínos seminómadas, que preenchem a memória da pré-história de Israel, aprendemos a passar festivamente para um tempo novo, do inverno para a primavera, numa festa noturna, ao luar, na primeira lua-cheia da primavera, que marca o início da transumância ao encontro de novas pastagens e de vida nova. Com os hebreus, no Egipto, sedentarizámos e atualizámos a festa da primeira lua-cheia da primavera dos antigos pastores seminómadas de Israel, e fomos levados, por graça, a passar da escravidão para a liberdade, que é um caminho sempre novo, nunca terminado e sempre a recomeçar, com a cintura apertada, sandálias nos pés, cajado na mão, lume novo aceso no coração. Com Jesus Cristo, fomos, também por graça, levados a passar do pecado para a graça, da soleira da porta para a mesa, da morte para a vida em abundância, da nossa casa para a Casa do Pai. É assim que nós, por graça feitos «filhos no Filho», aprendemos a ser estrangeiros e hóspedes, tranquilamente sentados em Casa e à Mesa daquele único Senhor que servimos e que, paradoxalmente, nos serviu primeiro a nós.

6. É aí que estamos todos, meus irmãos. Aí, entenda-se, em Casa e à Mesa, hospedados. Aí, entenda-se, em Casa e à Mesa, hospedados. E é aí que Jesus se dirige a Pedro e a cada um de nós, e diz: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo!» (João 13,8). Isto é, não participarás da minha vida por amor Dada e Recebida (cf. João 10,17-18). «Ter parte com» Cristo é «participar» no seu supremo serviço de amor até dar a vida para receber a vida. «Ser lavado» e «ter parte com» e «estar puro» é linguagem bíblica de ordenação sacerdotal. Basta ler o texto do Livro dos Números 18,20, juntamente com os Capítulos 29 e 40 do Livro do Êxodo e o Capítulo 8.º do Livro do Levítico, acerca da ordenação sacerdotal de Aarão e dos seus filhos. Está aí, na participação na vida nova de Jesus, no modo novo de viver de Jesus, a fonte do nosso sacerdócio ministerial, mas também do sacerdócio comum dos fiéis.

7. É à Mesa que estamos, meus irmãos, nesta tarde e nesta Ceia Primeira de Quinta-Feira Santa, hospedados na Casa do único Senhor da nossa Vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo. Reparemos então bem em tudo o que Ele faz e diz no Evangelho de hoje (João 13,1-15), porque tudo n’Ele é exemplar e programático para nós. Diz-nos o narrador atento que Jesus «DEPÕE (títhêmi) o manto» a abrir a cena, no v. 4, e «RECEBE (lambánô) o manto» a fechar a cena, no v. 12. DEPOR e RECEBER são, aos nossos olhos encantados, os mesmos verbos com que, no Capítulo 10.º, o Bom Pastor «DEPÕE (títhêmi) a vida» e «RECEBE (lambánô) a vida» (v. 17). Ora, DEPOR a vida e RECEBER a vida são a imensa e penetrante tradução da Cruz. E entre uma e outra coisa, entre «DEPOR o manto» e «RECEBER o manto», «DEPOR a vida» e «RECEBER a vida», no centro geométrico e teológico do lava-pés (v. 8), aí está a advertência solene que Jesus dirige a Pedro e a cada um de nós: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo!» (João 13,8).

8. Por isso, Jesus diz, num imenso dizer de revelação ainda a retinir nos nossos ouvidos e a ecoar em tudo o que fazemos: «Como Eu vos fiz, fazei vós também!» (João 13,15). Vê-se bem, meus irmãos, que não é tanto o que se faz que interessa. Interessa muito mais o como se faz. O segredo é dar a vida por amor, para sempre, para todos. Jesus é o único Mestre que ensina a Viver desta maneira. E é assim que fica bem à nossa vista o significado da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade.

9. O Salmo 116, que hoje cantamos, é o quarto canto do chamado «Hallel da Páscoa», que reúne os Salmos 113-118. O Salmo 116 enche de música e de cor a Ceia Pascal hebraica. Na verdade, neste Salmo, canta-se a liberdade e a alegria confiante de vermos a nossa vida segura nas mãos de Deus, que nos retira do esquecimento do túmulo, e reacende a chama que se extingue. Entre os admiradores deste Salmo conta-se, com algum espanto nosso, o filósofo francês Voltaire (1694-1778), que privilegiava o v. 12: «Como restituirei (heshîb) ao Senhor por todos os seus benefícios (gemûlôt) que me deu?». O Salmo fornece logo a seguir a resposta: «O cálice da salvação erguerei,/ e o Nome do Senhor invocarei./ Os meus votos ao Senhor cumprirei,/ diante de todo o seu povo» (vv. 13-14). Este cálice erguido e partilhado assinala, no ritual (seder) da Ceia Pascal hebraica, o momento em que ia passando entre os comensais a terceira taça de vinho, a da Ação de Graças. De resto, o orante sabe bem que não pode «restituir» a Deus. Por isso, no Saltério, o sujeito do verbo «restituir» (heshîb: hiphil de shûb) é, por norma, Deus (21 sobre 28 vezes). Mas o orante pode sempre agradecer a Deus e anunciar a todos que Deus atua em favor do seu povo, ação de evangelização.

10. Que o Senhor da nossa vida nos ensine a ser fiéis ao seu dizer e ao seu modo admirável de fazer.

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a Deus,

Sabe a pão,

Sabe a alegria,

Sabe a Eucaristia!

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a amor,

A dádiva da vida,

A uma lágrima comovida.

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a Ceia

E a Jesus,

Luz grande que incendeia

As trevas do coração,

E faz nascer amor e comunhão.

António Couto


O PÃO NÃO SE MATA!

Agosto 1, 2020

1. O Evangelho deste Domingo XVIII do Tempo Comum (Mateus 14,13-21) é conhecido como a primeira «multiplicação dos pães», realizada, neste caso, em mundo judaico. Mas vê-se bem que o título de «multiplicação» é inadequado, pois o que está aqui em causa não é, na verdade, uma multiplicação, mas uma divisão, condivisão ou partilha.

2. Neste episódio, salta à vista o comportamento compassivo, acolhedor, hospitaleiro, inclusivo e de partilha de Jesus em confronto com o comportamento insensível, não-acolhedor, exclusivista, frio, mercantilista, consumista, egoísta e egocêntrico destes discípulos de Jesus, que propõem a Jesus que mande as pessoas embora, para que cada um compre de comer para si mesmo (Mateus 14,15). Em cena estão duas maneiras opostas de ver e de fazer: a de Jesus e a dos discípulos de Jesus. O diagrama a seguir mostra os dois comportamentos em confronto:

Jesus Discípulos
Misericórdia

Acolher

Curar

Dar

Condividir

Insensibilidade

Excluir

Mandar embora

Comprar

Cada um para si

 

3. Vistas bem as coisas, o comportamento destes discípulos, e, se calhar, o nosso também, opõe-se, ponto por ponto, ao comportamento novo de Jesus. O que Jesus faz à vista dos seus discípulos e em confronto com os seus discípulos parece ser em primeiro lugar para eles, para nós, para baralhar as nossas contas e a nossa esquadria mercantilista. A questão não está, de facto, em produzir mais. A questão está em partilhar mais, de preferência tudo. O que Jesus ensina a estes discípulos de mentalidade consumista é que condividir, partilhar, é a melhor maneira de multiplicar. Não é preciso produzir mais para partilhar mais. A grande operação de sinal : [= dividir] ou x [= multiplicar] é na lousa do coração que se faz. A celebração da Eucaristia, com Jesus sempre no meio de nós, partindo e repartindo o seu pão, reclama de nós que ensaiemos novas maneiras de fazer!

4. O narrador termina o episódio, informando-nos que aquela multidão de pessoas ficou saciada, e que ainda «sobraram» doze cestos! (Mateus 14,20). Note-se que o verbo grego usado para dizer «sobrar» é o verbo perisseúô, que implica o excesso que ultrapassa toda a medida e a abundância que transborda, tornando inadequadas e ultrapassadas todas as nossas pequenas medidas! É assim normal que o narrador nos informe de que, com os pedaços que sobraram, os discípulos encheram doze cestos, símbolo da plenitude transbordante e inesgotável. Quem aprendeu a partilhar a vida sabe bem que sobra sempre mais!

5. De notar que, aos olhos atónitos dos discípulos e dos nossos, Jesus não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas de «divisão» e «condivisão», «partilha» dos pães! O milagre de Jesus – aquilo que suscita surpresa e maravilha – não consiste em aumentar a quantidade do pão (que permanece a mesma), mas em abrir os olhos aos seus discípulos e a nós que, como cegos, só conhecemos e pensamos na lógica consumista de produzir mais, vender mais e comprar, bons acionistas, e não chegamos a saborear a lógica da gratuidade, que é a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus. Entrar nesta lógica é acreditar na força do dom, e ir por este mundo consumista, partindo o pão e dividindo-o, com a clara consciência de que onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos («todos comeram e foram saciados»), mas instaura-se igualmente o «excesso» que toda a dádiva e partilha contêm, a superabundância da graça («os discípulos encheram doze cestos»). E tudo isto acontece num deserto! Devia ser mais fácil ver aí exposta sobre a mesa a lição da nossa auto inssuficiência!

6. Em perfeita sintonia com o Evangelho de hoje, a lição de Isaías 55,1-3 é fantástica: «Todos vós que tendes sede, vinde às águas!/ Vós, que não tendes dinheiro, vinde!/ Comprai cereal e comei!/ Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ […] Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Isaías 55,1-2). Está aqui o elo que faltava: o verbo comprar, significativamente não agrafado com dinheiro. Comprar cereal sem dinheiro. Mas esta lição de Isaías reforça ainda a conjunção entre palavra e alimento, com aquela proposta: «Ouvi-me, ouvi-me, e comei!», que soa também a abrir o Livro do grande profeta: «Se vierdes e escutardes, o melhor da terra comereis» (Isaías 1,19), clarificada pelo confronto: «Mas se vos recusardes e vos rebelardes, será a espada que vos comerá» (Isaías 1,20). Um Deus bom e Pai convida os seus filhos sedentos e famintos a sentar-se à sua mesa e a comprar sem dinheiro o bom alimento. Note-se bem o oxímoro (comprar sem dinheiro) que nos deve (des)orientar sempre! Enquanto não entendermos isto, reprovaremos sempre no teste que Jesus fez a Filipe e faz a nós hoje também: «Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?» (João 6,5). Era um teste, diz-nos o narrador (João 6,6), e Filipe pôs-se a contar o dinheiro e a pensar no shopping! (João 6,7). Pelos vistos, não conhecia este imenso texto de Isaías, nem o Deus bom e Pai que dá coisas boas aos seus filhos! Nem aquela fantástica articulação do ouvido com o alimento («Ouvi-me, ouvi-me, e comei!»), que faz da Palavra de Deus o verdadeiro pão dos seus filhos! No meio de uma pandemia, devia ser mais fácil perceber a nossa auto inssuficiência, mas continuamos orgulhosamente a apregoar a nossa autossuficiência!

7. O pão dado, partido, condividido é um dom de Deus («Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!») (Isaías 55,2), faz nascer novas maneiras de viver, alarga a tenda e o coração, gera fraternidade e comunhão. Também por isso, ainda hoje, os beduínos do deserto não cortam o pão com a faca, e explicam que «o pão não se mata!». Sim, «o pão não se mata!»: parte-se e reparte-se!

8. De facto, quando matamos este pão cujo fermento é o amor e a alegria de estarmos reunidos como filhos e irmãos, o que nos resta? Sim, diz bem S. Paulo, na lição de hoje da Carta aos Romanos 8,35-39: «Nada nos pode separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo!».

9. Por isso, cantemos hoje, com o hino do Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração, e enquanto saboreamos a sua graça, misericórdia, amor e bondade (Salmo 145,8-9): «Abris, Senhor, a vossa mão, e saciais a nossa fome!» (Salmo 145,16). Tanta coisa nova para aprender neste Domingo.

 

Bendito o dia em que outra vez rezamos,

E outra vez sempre de novo.

Rezar é voltar sempre ao princípio,

E recitar com mais amor cada uma das tuas maravilhas.

 

Assim,

Talvez a oração não tenha fim,

Porque é uma viagem dentro de mim,

Fora de mim,

Enunciando nomes, dores, alegrias, guerras, fomes,

Calcorreando montanhas, vales, avenidas,

Colhendo frutos no coração das árvores,

Partilhá-los com os passarinhos

Na toalha multicolor que estendeste sobre este chão dourado.

 

Rezar é saber bem

Que as coisas belas que vemos neste mundo são todas tuas,

E a mais ninguém pertencem.

E quem agora as tem na mão deve acariciá-las,

Partilhá-las,

Porque as tem apenas emprestadas.

 

Obrigado, Senhor,

Pelo céu e pelo chão,

Pelo vinho e pelo pão,

E por cada irmão que me deste.

 

António Couto