IMPOSSÍVEL TRAVAR O CAMINHO DO AMOR

Fevereiro 2, 2019

1. O texto do Evangelho de Lucas proclamado e ouvido no Domingo IV do Tempo Comum (Lucas 4,21-30) retoma e continua o «discurso programático» de Jesus na Sinagoga de Nazaré, iniciado no Domingo III. Neste 1.º SÁBADO da sua vida pública, Jesus entrou na Sinagoga, LEVANTOU-SE para fazer a leitura litúrgica dos Profetas (Isaías) e SENTOU-SE para fazer a instrução com base na Lei (Deuteronómio): «HOJE foi cumprida (passivo divino!) esta Escritura nos vossos ouvidos».

2. O que Jesus faz é o procedimento tradicional do judeu piedoso em dia de SÁBADO, e as palavras que diz são também antigas. Dizendo as Palavras da Escritura e nada acrescentando de novo, Jesus assume-se como «FILHO DA ESCRITURA». As gentes de Nazaré olham, num primeiro momento, este Jesus com apreço e admiração, mas rapidamente passam a uma atitude hostil para com ele, apontando-lhe outra «paternidade»: «Não é este o “FILHO DE JOSÉ”?»; «o que ouvimos dizer que FIZESTE em Cafarnaum, FAZ também aqui na TUA PÁTRIA».

3. Mas, neste SÁBADO INICIAL, Jesus NÃO FAZ nada de semelhante àquilo que fará nos outros SÁBADOS. Este SÁBADO INICIAL reclama aquele SÁBADO FINAL em que Jesus também NADA FAZ: passá-lo-á inteiramente deitado no sepulcro! E a própria Paixão é exatamente o contrário de uma manifestação de poder: é antes passividade e impotência de Jesus! Ele, que tinha salvado outros, não se salvará a si mesmo! Mas neste SÁBADO INICIAL Jesus continua também a não dizer nada de novo. Cita dois provérbios: «Médico, cura-te a ti mesmo» e «nenhum profeta é bem aceite na sua pátria», sendo que os provérbios são património de todos e de ninguém. Reclama depois a obra de dois Profetas antigos, Elias e Eliseu, para mostrar que também eles NADA FIZERAM para as gentes da SUA PÁTRIA: Elias sai da sua pátria para socorrer uma viúva de Sídon, e Eliseu cura o sírio Naamã, um estrangeiro que o vem procurar na sua pátria. Também Jesus saltará fronteiras e atenderá estrangeiros. Bem ao contrário, Israel e as gentes de Nazaré: cegos, não acolheram a ESCRITURA de ontem como Palavra para eles «HOJE», do mesmo modo que no FILHO DE JOSÉ não souberam ver o Profeta, aquele que, como a Escritura, traz a Palavra. Quebram dessa maneira o laço de união entre o FILHO e a PÁTRIA, terra dos pais. E para vincar melhor a rejeição desta herança que é o seu FILHO, expulsam-no para fora da cidade. Pior ainda, tramam a sua morte: matando o FILHO, renegam a própria paternidade, perdendo assim a sua própria identidade. Perdendo-se, portanto. Da admiração inicial à rejeição final.

4. Não surpreende, portanto, que esta herança, rejeitada pela própria família, seja distribuída a outros, aos de fora. Este SÁBADO INICIAL contém em gérmen todos os elementos que o relato do Evangelho vai mostrar: desde logo o SÁBADO FINAL, mas também este FILHO DA ESCRITURA, que abre e lê abundantemente a Escritura aos nossos olhos para que ela se cumpra como Palavra nos nossos ouvidos, tornando-nos FILHOS DA PALAVRA. A oposição dos habitantes de Nazaré não foi suficiente para travar a história de Jesus, como também não o conseguiram fazer aqueles que o crucificaram e o continuam a crucificar ainda HOJE, pois Ele continua HOJE a passar pelo meio de nós. Resta saber que atitude assumimos nós HOJE. Retê-lo não é possível. Só podemos segui-lo!

5. A citação dos provérbios não é inocente. Mostra Jesus como PROFETA. De facto, ao citar o provérbio «Médico, cura-te a ti mesmo», Jesus está a dizer o que ainda não foi dito, mas será dito no cenário da Paixão: «Salvou os outros, que se salve a si mesmo!» (Lucas 23,35), dirá o povo;  «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,37), dizem os soldados. E ao dizer: «Nenhum Profeta é bem recebido na sua pátria», Jesus está a apresentar-se como Profeta verdadeiro. Na verdade, a perseguição começará logo ali e será uma constante ao longo do seu caminho. A Palavra profética faz o caminho, e não é o caminho que faz a Palavra! É esse caminho profético que Ele faz e segue, passando pelo meio deles. Esta Palavra que acontece, a d’Ele, a minha e a tua, faz a história e julga a história. Ao contrário do que facilmente dizemos, porque não pensamos, não é a história que nos julga. Somos nós que julgamos a história.

6. Somos HOJE também colocados perante o relato abreviado da vocação profética de Jeremias (1,4-5 e 17-19). O relato abre com a chamada «fórmula de acontecimento» [= «Veio sobre mim a Palavra do Senhor»] (1,4), que marca um início novo na vida do Profeta, e fecha com a chamada «fórmula de conforto» ou de «assistência» [= «Eu estou contigo»] (1,19), pela qual Deus garante ao seu Profeta apoio permanente. A missão de Jeremias destina-se às nações pagãs, mas também a Judá, seus reis, sacerdotes e todo o povo (1,17). A todos Jeremias, o profeta de Anatôt, uma aldeiazinha situada a uns seis quilómetros a nordeste de Jerusalém, deve falar a Palavra do Senhor. Os versículos cortados, por sinal os mais belos, definem a missão de Jeremias como uma missão difícil, marcada por quatro verbos negativos [= arrancar, destruir, exterminar, demolir] (1,10a), a que só depois se seguem dois positivos [= construir, plantar] (1,10b). Nesta altura, com Jeremias consciente da difícil missão que lhe foi confiada, estabelece-se um dos mais belos e significativos diálogos de toda a Escritura. A Palavra do Senhor vem sobre Jeremias (nova «fórmula de acontecimento») para lhe perguntar: «O que vês, Jeremias?», a que o Profeta responde com a belíssima expressão: «Vejo um ramo de amendoeira!» (1,11). «Viste bem, Jeremias», confirma o Senhor (1,12).

7. A amendoeira é uma das poucas árvores que floresce em pleno inverno. Jeremias vê bem, de forma penetrante que, na invernia da sua difícil missão, nasce já a flor da esperança, que é sempre a última palavra de Deus. E é essa flor-palavra, palavra em flor, que o Profeta vê-ouve-diz sempre, mesmo no meio da tempestade! Na verdade, Jeremias atravessa o período mais negro da história do seu país (Judá). Assiste às duas entradas arrasadoras do babilónio Nabucodonosor em Jerusalém, em 597 e 587 a. C. Os olhos de Jeremias veem a destruição, o sangue, a morte, a destruição do Templo, a deportação do rei, a que foram vazados os olhos, depois de ser obrigado a assistir à morte dos seus filhos. Os olhos de Jeremias veem sangue, ruína, morte, devastação, deportação, enfim, o fim do seu país. Não obstante tudo isto, Jeremias não fica com os olhos presos no sangue e na lama, e vê já mais além, vê um ramo de amendoeira, a flor da esperança, que anuncia já um tempo novo, bom e belo. Ainda hoje, à entrada de Anatôt, terra natal de Jeremias, se pode ver uma grande e velha amendoeira! Extraordinária lição e desafio para nós que estamos ainda com os olhos turvos pelas atrocidades, perseguições e acentuado desprezo pela vida humana que se vai vendo por este mundo fora.

8. Continuamos também, neste Domingo IV do Tempo Comum, com a Leitura semi-contínua do «Apóstolo». Ficamos assim perante o famoso «Hino à caridade» (1 Coríntios 12,31-13,13), uma das páginas mais extraordinárias do epistolário paulino. A uma comunidade em que os membros correm por conta própria, na vã tentativa de se posicionarem à frente uns dos outros, o Apóstolo Paulo aponta o AMOR (agápê) como caminho, testemunho e meta a atingir. É que mesmo que eu possua todos os bens e todos os dons, se não tiver o AMOR, que é o testemunho a transportar e a transmitir, posso estar a correr em vão ou ter já corrido em vão. É que o que é mesmo necessário viver é o AMOR.

9. Temos hoje a graça de poder saborear um bocadinho do Salmo 71, que é o único Salmo declaradamente posto na boca de um idoso. E aí, o velho orante não se lamenta nem tão-pouco faz apelo a qualquer sobrevivência depois da morte, mas implora simplesmente: «Não me rejeites no tempo da velhice,/ não me abandones quando o meu vigor desvanece» (vv. 9 e 18). Amando apaixonadamente esta vida, e vivendo-a com o intenso gosto de viver que Deus lhe incutiu no coração, ao homem bíblico não lhe sobra tempo para sonhos fáceis de imortalidade – o desejo da imortalidade é completamente estranho à alma ou à substância da antropologia bíblica – ou lúgubres meditações sobre a morte. O Antigo Testamento sabe e sente que a vida humana tem medida. Não a medida da inveja, como se vê nos mitos assiro-babilónicos, mas a medida do amor. E isso basta. E isso nos basta.

 

Sabes, meu irmão, que em Anatôt,

Há uma amendoeira em flor carregada de esperança.

Sim, em Anatôt, de Anatôt, a amendoeira levanta-se

E planta-se no teu coração róseo-branco de criança.

Sim, em Anatôt, Foz Coa, Kilimanjaro, Lamego,

Aí mesmo no chão do teu coração,

Tanto faz, minha irmã, meu irmão.

Sai dessa reclusão

E vem expor-te

A este vendaval manso de graça e de perdão.

 

A amendoeira em flor é uma toalha branca estendida pelo chão.

Não pela minha mão,

Incapaz de tecer um tal manto de brancura,

Mas pela mão de Deus,

Que também faz brotar o vinho e o pão

E a ternura

No nosso coração.

 

António Couto

Anúncios

DE ONDE ÉS TU?

Julho 7, 2018

1. O Evangelho deste Domingo XIV do Tempo Comum (Marcos 6,1-6) enlaça no do Domingo passado (XIII), pondo Jesus a sair de lá (ekeîthen) (Marcos 6,1), isto é, de Cafarnaum, da casa de Jairo (Marcos 5,35-43), e a dirigir-se para a sua pátria (pátris) (Marcos 6,1), ao encontro dos seus familiares e conterrâneos, sendo o sábado e a sinagoga (Marcos 6,2) o natural lugar desse encontro. Esta primeira ida de Jesus à sua pátria fica a marcar também, no Evangelho de Marcos, a última vez que Jesus ensina numa sinagoga (Marcos 1,21.23.29.30; 3,1; 6,2), e também o sábado será mencionado apenas mais uma vez, precisamente na manhã de Páscoa (Marcos 16,1).

2. E, portanto, tudo neste texto, neste encontro, assume um carácter decisivo. Desde logo a escolha do termo «pátria», que carrega consigo um significado mais intenso e mais amplo do que o mais habitual de «povoação». Com esta forma de dizer, este decisivo encontro com Jesus não fica apenas circunscrito a uma pequena região da Galileia, mas prefigura já o encontro de Jesus com o inteiro Israel, e a rejeição que lhe será movida por este. São mesmo já visíveis desde aqui as resistências ao Evangelho radicadas no nosso coração, e que o Quarto Evangelho porá a claro: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11). Mas também esta última vez a ensinar na sinagoga, e este sábado que aponta para aquele último «passado o sábado» (Marcos 16,1), devem gravar em nós evocações e apelos decisivos. Tudo o que tem sabor a último carrega um particular peso específico.

3. Aventurando-nos um pouco mais dentro do texto, não ficaremos certamente admirados por vermos que estes conterrâneos de Jesus estejam a par das suas humildes e bem conhecidas raízes geográficas e familiares que, na mentalidade antiga, determinam a identidade e a capacidade da pessoa. Notaremos ainda, sem grande espanto, que os conterrâneos de Jesus sabem, em termos anagráficos, muito mais do que o leitor, sobre Jesus: dele sabem indicar a família, a profissão, a residência. O que nos deve espantar, isso sim, é que aqueles conterrâneos de Jesus não saibam dizer «DE ONDE» (póthen) lhe vem aquela sabedoria única e os prodígios que realiza.

4. Às vezes, por termos os olhos tão embrenhados na terra, nas coisas da terra, não conseguimos ver o céu! Veja-se a iluminante cena da cura do cego de nascença (João 9). Em diálogo com o cego curado, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos DE ONDE (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é “espantoso” (tò thaumastón): vós não sabeis DE ONDE (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! Tal como o cego, e fazendo uso da mesma linguagem, também Jesus “estava espantado” (ethaúmazen) com a falta de fé dos seus conterrâneos (Marcos 6,6). Note-se bem que a falta de fé aqui assinalada não é apenas a negação de Deus. É a rejeição de Jesus em nome de uma errada conceção de Deus. Podemos dizer mesmo: para salvar a honra de Deus. Veja-se bem até onde pode chegar a nossa cegueira!

5. Numa altura em que se continua a falar da «receção» do Concílio II do Vaticano, dado que ainda estamos na esteira da celebração dos 50 anos da sua realização (1962-1965), podemos falar também, com as devidas distâncias, da «receção» de Jesus e do seu Evangelho. O texto diz-nos que os seus conterrâneos não o receberam, não se deixaram atravessar por Ele, pelo Céu que Ele indicava e trazia consigo. Ponte para o próximo Domingo (XV), em que ouviremos o episódio que se segue imediatamente ao de hoje (Marcos 6,7-13). Aí, Jesus enviará os seus Doze Apóstolos, dois a dois, despojados de meios ou de equipamento, para ressaltar bem a importância do Anúncio do Evangelho. Mas a ponte entre os dois textos e respectivos Domingos está em que ouviremos Jesus dizer aos seus Apóstolos: «Qualquer lugar (tópos) que não vos “receba” (déxetai)…». Os livros dizem que, em Marcos, o verbo «receber» (déchomai) está sempre referido a Jesus. Trata-se de «receber», de «acolher» Jesus. É então também fácil ver qual é o «lugar» que não «recebeu» Jesus. Mas o problema é sempre este: e nós?

6. A figura de Ezequiel, profeta frágil, mas que aponta para um «Deus que dá força» (etimologia do seu nome), por 93 vezes interpelado por Deus com a locução «Filho do Homem», é por Deus incumbido da missão difícil de ser sentinela (tsopeh) (Ezequiel 3,17; 33,7) da casa rebelde de Israel, junto do rio Cobar, em Tel ’Abîb (Ezequiel 1,1-3; 3,15), na Babilónia, uma espécie de «pároco dos exilados». Tel ’Abîb significa «colina da primavera» ou das «espigas». É um lugar duro de exílio, mas, porque lembra a primavera, é também um nome carregado de esperança. Os judeus deram este nome significativo a uma das primeiras colónias que fundaram na Palestina, junto da costa Mediterrânica, em finais do século XIX, onde se situa hoje a capital política de Israel. O rio Cobar é um canal de irrigação, hoje chamado Shatt Ennil, que parte do Eufrates para irrigar a cidade de Nippur, onde os Babilónios instalaram deportados oriundos de diferentes proveniências, entre os quais se contam os deportados de Judá. Na sua fragilidade e na rejeição que experimenta, o profeta Ezequiel ajuda a perceber e a «receber» melhor a figura de Jesus, o Deus feito homem, que a si mesmo se diz nos Evangelhos, por 82 vezes, «Filho do Homem».

7. E São Paulo dá testemunho, na Segunda Carta aos Coríntios (12,7-10) da força nova de Cristo, que o habita: «Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que se manifesta a minha força» (2 Coríntios 12,9). E ainda: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Coríntios 12,10).

8. O Salmo 123 mostra-nos a força do olhar através de uma série de olhares que se entrecruzam: os meus olhos, os olhos dos servos, os olhos da escrava, os nossos olhos. Os meus olhos e os nossos olhos estão postos em Deus; os dos servos nas mãos dos seus patrões; os da escrava nas mãos da sua patroa. Há, todavia, uma diferença entre as mãos de Deus e as dos patrões. As mãos dos patrões dão ordens. As mãos de Deus abençoam, dão, salvam, embalam com ternura, fazem graça. Portanto, o homem que reza neste Salmo não junta as mãos, mas abre-as para as de Deus, formando uma espécie de puzzle, para receber os dons de Deus; também não fecha os olhos, mas escancara-os para o céu; e tão-pouco se fecha no seu mundo interior, mas abre-se completamente para fora. O orante deste Salmo reza com as mãos e os olhos abertos, com a alma aberta.

António Couto


É PERMITIDO AO SÁBADO FAZER O BEM OU FAZER O MAL?

Junho 2, 2018

1. O Evangelho deste Domingo IX do Tempo Comum faz-nos escutar as últimas duas (Marcos 2,23-3,6) das cinco controvérsias reunidas em Marcos 2,1-3,6. Depois do jejum e do Esposo (Marcos 2,18-22), que ocupa o centro da estrutura, e que são escutadas no Domingo VIII, eis-nos agora perante dois episódios que nos mostram Jesus como Senhor do sábado e sob o olhar acusador de fariseus e herodianos, que começam a tramar a forma como o hão de matar (Marcos 3,6).

2. O primeiro episódio (Marcos 2,23-28) mostra Jesus e os seus discípulos, em dia de sábado, a atravessar os campos. E dos discípulos de Jesus, diz-nos o narrador, que, atravessando os campos, colhiam espigas (Marcos 2,23), sob o olhar judicioso e acusador dos fariseus, que interrogam Jesus acerca deste incumprimento da Lei por parte dos seus discípulos (Marcos 2,24). Colher espigas em dia de sábado, naturalmente com o intuito de comerem os grãos, eis o que não era permitido fazer. Duplo, ou mesmo triplo, incumprimento da Lei. Ao sábado era proibido colher fosse o que fosse (Êxodo 34,21), bem como preparar qualquer tipo de refeição. E era apenas permitido percorrer, entre ida e volta 1892 metros. Dado que andavam pelos campos, é provável que também este último preceito estivesse a ser violado.

3. Jesus responde chamando a atenção dos fariseus para o episódio narrado no Primeiro Livro de Samuel 21,2-7. Aí, David, que andava fugido de Saul, que o perseguia, dirigiu-se a Aquimelec, sacerdote do santuário de Nob, e pediu-lhe cinco pães para si e para os combatentes que o acompanhavam. Aquimelec apenas dispõe dos chamados «Pães do Rosto» (lehem panîm), que são colocados, de sábado a sábado, diante do Rosto de Deus, em número de Doze, tantos quantas as tribos de Israel, dispostos em duas filas de seis sobre uma mesa revestida de ouro colocada diante do Santo dos Santos. Trata-se de pão consagrado a Deus, renovado todos os sábados. Ao sábado, colocavam-se sobre a mesa doze pães novos, e os doze pães antigos eram comidos ou consumidos apenas pelos sacerdotes e dentro do santuário. A mais ninguém era permitido comer aqueles pães (Levítico 24,5-9; cf. Êxodo 25,23-30). Todavia, dadas as condições de miséria e de fome de David e dos seus companheiros, Aquimelec dá-lhes para comer os pães consagrados. Esta remissão para a Escritura, este «Nunca lestes…», serve a Jesus para mostrar aos fariseus que o seu rigor está em contradição com as próprias Escrituras que querem citar a seu favor.

4. Mas há mais. Depois de referir aos fariseus este episódio (Marcos 2,25-26), Jesus dá por subentendido, tendo em conta a conhecida argumentação rabínica «do menor para o maior», que, se foi permitido a David e aos seus companheiros comer os pães consagrados, por causa da fome, quanto mais é permitido ao Filho de David e aos seus companheiros arrancar e comer espigas profanas. E quanto ao facto de as espigas terem sido colhidas em dia de sábado, Jesus aproveita a embalagem da subentendida argumentação rabínica, para declarar logo ali que «o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado», e que, «portanto, o Filho do Homem é Senhor também do sábado» (Marcos 2,27-28).

5. Com estas declarações conclusivas, fica claro que Jesus tem do sábado uma noção bem diferente da que têm os fariseus. Estes também admitiam algumas exceções no que se refere à prática das prescrições sabáticas. Por exemplo, era permitido fugir para salvar a vida, ajudar uma pessoa em perigo de vida, ajudar uma mulher com dores de parto, ajudar a apagar um incêndio, e coisas semelhantes. Mas eram sempre vistas como exceções à regra. Em relação ao entendimento dos fariseus, Jesus não é apenas mais liberal, alargando, por assim dizer, o leque das exceções à regra. Não. Jesus muda própria a regra, apresentando uma diferente conceção de Deus e da reverência que lhe é devida. A diferença reside sobretudo nisto: o amor devido a Deus não colide com o bem do homem. Deus está do lado do homem. E não há mais um pedaço de tempo para dedicar a Deus e outro pedaço para dedicar ao homem. Agora, o tempo é todo de Deus, e é por ser todo de Deus, que é também todo para o homem.

6. A controvérsia sobre o sábado continua no segundo episódio do Evangelho de hoje (Marcos 3,1-6), em que Jesus assume todo o protagonismo. Entra na sinagoga, em dia de sábado. Não nos é dito de que sinagoga se trate: se da de Cafarnaum (cf. 1,21-28) ou de alguma das sinagogas da Galileia (cf. 1,39). Mas é-nos dito que na sinagoga em que Jesus entra está um homem (ánthrôpos) com uma mão paralisada (Marcos 3,1). E é-nos dito igualmente que estão lá outros a ver se Jesus o curaria em dia de sábado, para o poderem acusar (Marcos 3,2). Se o homem aparece apenas com a determinação genérica de «ser humano» (ántrôpos), os outros não passam de «eles», que estão lá apenas como observadores que desejam poder transformar-se em acusadores. Só Jesus tem nome. Só Jesus entra. O homem e «eles» já lá estão. O homem não pede nada; «eles» não perguntam nada. Só Jesus tem nome, só Jesus fala, só Jesus age. Ele é verdadeiramente o Senhor do Sábado.

7. Desenhado e preenchido o cenário, Jesus diz (légei), no presente, ao homem: «Levanta-te (egeírô), e vem para o meio!» (Marcos 3,3). E diz (légei), no presente, para «eles»: «É permitido, ao sábado, fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou matá-la?» (Marcos 3,4a). Não é dito, no texto, que o homem se tenha movimentado, mas é dito que «eles» se calavam (esiôpôn: imperfeito de duração de siôpáô) (Marcos 3,4b).

8. Note-se bem a voz de Jesus a ecoar no presente e no silêncio. Note-se também a força da pergunta que formula, e que tem resposta demasiado óbvia. Na verdade, o bem deve fazer-se sempre, não apenas ao sábado, mas em todos os dias da semana! E o mal nunca se deve fazer, nem ao sábado nem em dia nenhum da semana! Quanto a matar, é proibido pela Lei sem mais detalhes (Êxodo 20,13). E, portanto, não salvar uma vida é violar a Lei, pois é demasiado óbvio que matamos sempre que não salvamos alguém da morte. Neste momento, o narrador mostra-nos um dos gestos mais fortes de Jesus: olha ao redor (periblépô) para «eles», com ira e tristeza, por causa da dureza do coração «deles» (Marcos 3,5a). E diz (légei), no presente, para o homem: «Estende a mão!». «Estendeu-a, e ficou restabelecida a sua mão» (Marcos 3,5b).

9. Esta é, nos Evangelhos, a única vez que Jesus opera uma cura por sua própria iniciativa. Note-se, porém, que «aqueles» que estavam lá para verificar se Jesus curaria ao sábado, ficaram sem nenhum registo no bloco-notas. Na verdade, Jesus nada fez que se visse no que à ação de curar diz respeito. Mas note-se agora também que Jesus tudo fez para que «eles» pudessem ver bem a sua soberania. Ao fazer vir o homem para o meio, deixou-o claramente à vista de todos. Não o tomou à parte, como referem outros relatos (cf. Marcos 7,33; 8,23). Ao dirigir-se ao homem por duas vezes (Marcos 3,3 e 5), Jesus quer que todos vejam que ele se interessa pessoalmente por aquele homem. Sim, Jesus é a transparência de Deus-Pai, que não quer nunca ficar confinado na lonjura e impessoalidade.

10. O texto do Deuteronómio 5,12-15, que hoje fica a retinir nos nossos ouvidos, constitui o contraponto ideal de quanto vimos e ouvimos no Evangelho. O sábado transporta consigo a memória da liberdade. Não para alguns, mas para todos: para ti, para os teus filhos e as tuas filhas, para o teu escravo e a tua escrava, para o teu boi, para o teu jumento, para todos os teus animais, para o estrangeiro que reside no teu meio. Extraordinária lição de liberdade! O grande filósofo e místico hebreu, Abraham Joshua Heschel (1907-1972), via o Sábado como uma pérola de Israel oferecida a toda a humanidade, um Templo de tempo, e não de espaço. Israel constrói o tempo onde outros povos constroem o espaço. Novidade arquitetónica de Israel. Por isso, não se pode reduzir o sábado a um preceito. Digamos nós: o nosso Domingo não pode reduzir-se a um preceito sob pena de pecado.

11. E S. Paulo, na lição contínua da Segunda Carta aos Coríntios (4,6-11), diz, com finura e verdade, que levamos este tesouro em vasos de barro. Ele é a Luz, faz luzir a luz, tudo alumia. A nossa luz é reflexa, e reside aí a sua beleza. Assim, não há motivo para vanglórias, mas fica claro que somos apenas (e tanto!) pura transparência de Cristo, deixando que se manifeste no nosso corpo a sua vida. Noutro lugar dirá: «Levo no meu corpo os estigmas de Jesus» (Gálatas 6,17). Belo programa de vida.

12. Entretanto, e sempre, ressoa no nosso pobre coração comovido e agradecido, o belo canto do Salmo 81. Sim, Deus colocou-se ao lado de Israel e ao nosso lado para nos aliviar das cargas pesadas que nos oprimem, desde o Egito até aos nossos dias.

António Couto