PREPARAI O CAMINHO DO SENHOR

Dezembro 2, 2022

Is 11,1-10; Sl 72; Rm 15,4-9; Mt 3,1-12

1. O texto do Evangelho deste Domingo II do Advento (Mateus 3,1-12) apresenta algumas notas salientes que reclamam a nossa atenção. 1) É notória a sintonia de João com Jesus, dado que ambos abrem o seu ministério, dizendo as mesmas palavras: «Convertei-vos, porque se fez próximo o Reino dos Céus» (Mateus 3,2; cf. Mateus 4,17). 2) O ministério de ambos é colocado com referência a belas e indicativas paisagens textuais de Isaías: «Uma voz clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”», é o lema do ministério de João Batista, como se pode ver em Mateus 3,3, citando Isaías 40,3. Por sua vez, «Terra de Zabulão e terra de Neftali, caminho do mar, região de além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que jazia nas trevas viu uma grande luz…», é o lema do ministério de Jesus, como se pode ver em Mateus 4,14-16, cumprindo Isaías 8,23-9,1. 3) Ambos abrem no deserto a sua missão, evocando o Êxodo do Egito, o novo Êxodo da Babilónia (Ezequiel 20,33-38) e o Êxodo do noivado de Deus com Israel (Oseias 2,16-23), mas também a febre messiânica que situava no deserto o princípio da renovação escatológica (cf. Mateus 24,26): em todos os casos, o deserto evoca a proximidade com Deus, o povo «a céu aberto» com Deus. 4) A indumentária de João Batista (Mateus 3,4) evoca a de Elias (2 Reis 1,8). Em toda a Escritura, só os dois se vestem de pêlos de camelo com um cinturão de couro. De resto, também Jesus identifica João Batista com Elias (Mateus 11,14; 17,12-13). De notar ainda que, na interpretação de Malaquias 3,23, o ministério de Elias não tem a ver com a vinda de outro profeta, mas com a Vinda do próprio Deus. Sem equívocos então: em Jesus não se trata da vinda de outro profeta, mas da Vinda do próprio Deus!

2. É para esta Vinda de Deus em Jesus que todos se devem preparar. E é porque esta Vinda é vista como importante e decisiva, que é requerida uma preparação. A Vinda d’Aquele-que-Vem é tão importante, que não basta ficar tranquilamente à espera d’Ele. É preciso preparar-se para essa Vinda. Fazer com que todas as pessoas se preparem para esta Vinda, eis a missão de João Batista, que assume traços específicos. De modo estranhamente diferente dos outros profetas, João Batista não vai pregar para as cidades e aldeias ao encontro das pessoas, mas vai para o deserto, e são as pessoas que têm de ir ter com ele. E não são apenas algumas. São todas. O texto diz expressamente «toda a Judeia» e «toda a região à volta do Jordão» (v. 5). É ainda de salientar que, para se deslocarem ao deserto, as pessoas têm de deixar os seus afazeres habituais. Deixar tudo para trás e ir para o deserto, lugar que evoca, de muitos modos, a proximidade de Deus, como já mostrámos atrás em 1.3). É esta realidade que exige adequada preparação. Para ter acesso à Presença de Deus e ao seu serviço, impõe-se que se tenha um coração puro (Salmo 24,3-5), pelo que é necessário fazer as necessárias imersões ou abluções com água pura. Não é que a água lave o coração, mas é disso um indicador. Estas purificações rituais com água pura, banhos e outras abluções, eram feitas pelas próprias pessoas. Mas agora estamos perante um facto novo. Não são as pessoas que se purificam na água. É João Batista que as introduz na água. E para significar e implicar a necessária purificação, não apenas exterior, mas sobretudo interior, João exige das pessoas a confissão dos pecados e a conversão, bem como a imersão ou batismo nas águas do Jordão, que traz à memória a travessia operada pelo povo de Israel, vindo do deserto, antes de entrar na Terra Prometida (Josué 3). E é também o rio que Elias atravessa antes de ser arrebatado para o céu (2 Reis 2,1-18). Ao rio Jordão anda, pois, associada a aproximação a Deus, à sua Vida, e aos seus dons.

3. E que significado atribuir à anotação da incompetência (ikanós) de João para «retirar» ou descalçar as sandálias d’Aquele-que-Vem (v. 11)? Será simplesmente uma confissão de humildade por parte de João face a Alguém que lhe é incomparavelmente superior? Esta tonalidade está certamente presente, mas não esgota a metáfora das sandálias. Trata-se, desde logo, de um dizer importante, pois encontramo-lo por cinco vezes no Novo Testamento: Mateus 3,11; Marcos 1,7; Lucas 3,16; João 1,27; Atos dos Apóstolos 13,25. Num célebre artigo, intitulado «As sandálias do Messias Noivo», Luís Alonso-Schökel levou este dizer e esta metáfora para o domínio da esponsalidade do Messias. De acordo com o referido nos Salmos 60,10 e 108,9, «pôr a sandália sobre» significa «tomar posse»; é, portanto, linguagem jurídica de posse. No Livro do Deuteronómio 25,5-9, o não-cumprimento da lei do levirato implica que seja «retirada» a sandália ao cunhado não cumpridor da lei, gesto que garante a sua perda de posse no domínio matrimonial. Aqui já se trata de direito matrimonial. Em Rute 4,7-10, temos um caso jurídico concreto em que o que tem o direito de resgatar o património e de desposar Rute prescinde desse direito. Para o dizer juridicamente, em reunião pública realizada à porta da cidade (Rute 4,1), o homem em causa «retira» a sandália e entrega-a a Booz, que fica assim com o direito de resgatar o património e de desposar Rute. A metáfora da sandália em Mateus 4,11 e nos demais dizeres do Novo Testamento que anotámos significa que é Jesus o noivo, a quem assiste o direito de desposar Israel, e que a João não assiste esse direito ou competência.

4. Se é evocada a continuidade dos ministérios de João e de Jesus, não deixa também de ser bem acentuado, por outro lado, o confronto entre os dois, pois têm esquemas messiânicos diferentes. 1) Vê-se bem que João Batista anuncia um Messias-Juiz, que traz na mão o machado e a pá de joeirar (3,10-12), ao passo que Jesus assume a figura de Servo-do-Senhor manso e humilde (12,17-21). 2) O apelo à conversão que João faz não é dirigido apenas aos pagãos e aos pecadores, mas também aos israelitas piedosos (3,7-10): portanto, face ao Messias-Juiz-que-Vem, também os justos se devem converter; não é a raça de Abraão que conta, mas a fé. 3) A conversão manifesta-se em fazer fruto, uma ideia recorrente em Mateus (cf. 7,16-20; 12,33; 13,8; 21,41 e 43; 25,40 e 45…). 4) A conversão, aqui expressa pelo verbo grego metanoéô, não deve ser vista apenas pelo seu significado etimológico: mudar de mentalidade. Seria uma maneira de ver muito intimista, mostraria o homem debruçado sobre si mesmo, sobre os seus pecados. Ora, a raiz hebraica shûb, sobretudo depois de Jeremias (Isaías 31,6; 45,22; 55,7; Jeremias 3,7.10.14.22; 4,1; 8,5; 18,11; 24,7; 25,5; 26,3; 35,15; 36,7; 44,5; Lamentações 3,40; Ezequiel 13,22; 14,6; 18,23 e 30; 33,9 e 11; Oseias 11,5; 12,6; 14,1-2; Joel 2,12-13; Zacarias 1,3-4; Malaquias 3,7), não implica o dobrar-se do homem sobre si mesmo, mas endireitar-se e orientar-se para ALGUÉM, para Deus, com quem o ser humano cortou relações, distanciando-se e quebrando a aliança. Esta ideia de conversão como caminho de regresso a Deus estava muito disseminada no judaísmo primitivo, mas era desconhecida no mundo grego. 5) À vista de Jesus-que-Vem no meio da multidão, como verdadeiro Servo-do-Senhor (3,13-14), que assume as faltas da multidão, João fica confuso. Na verdade, esperava um Juiz, e não um Servo solidário com o povo no pecado, como indica o facto de Jesus vir no meio do povo a este batismo de penitência. 6) Além disso, e contra todas as expetativas de João, Jesus não vem para batizar, mas para ser batizado (3,11.13-14). 7) O diálogo travado neste lugar entre João Batista e Jesus (3,14-15), que nenhum outro Evangelho descreve, e em que João mostra o seu desacordo com o facto de ter de ser ele a batizar Jesus e não o contrário, é ultrapassado por Jesus que profere aqui as suas primeiras palavras neste Evangelho: «é bom que seja cumprida toda a justiça» (v. 15). A justiça, termo muito em uso neste Evangelho em que se faz ouvir por sete vezes (Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32), traduz o plano divino de salvação, que é a divina surpresa, e requer a adequação da nossa vontade a esse plano, melhor dito, a essa surpresa. Sendo as primeiras palavras de Jesus, e por isso importantes e analépticas, rasgam uma avenida de sentido que Jesus seguirá até à Cruz: obediência ao Pai e solidariedade com o povo pecador. Rutura clara com a esperança messiânica de João e do mundo judaico desse tempo, mas sintonia com o significado verdadeiro das Escrituras. A conversão a que João e o judaísmo e cada um de nós somos convidados é um regresso à sintonia com a Palavra de Deus. Pelo que o verdadeiro judeu e o verdadeiro homem é aquele que se faz cristão. Torna-se então notório o sonho de um Deus que desce ao nosso mundo, não para nos condenar ou derrubar, mas para se tornar solidário connosco e caminhar no meio de nós.

5. Isaías 11,1-10, que serve hoje de ressonância ao Evangelho de hoje, mostra muito mais o tom manso e suave do Servo-do-Senhor que Jesus incarna do que o martelo do Juiz que João Batista prenuncia. Isaías abre diante de nós um mundo novo, tenro e terno, que, visto desde este nosso mundo escuro e tantas vezes desumano, soa a sonho. Ei-lo desenhado nestes versos imensos: «Então o lobo habitará com o cordeiro,/ o leopardo deitar-se-á com o cabrito,/ o bezerro e o leãozinho andarão juntos,/ e um menino pequeno os conduzirá.// A vaca e o urso pastarão juntos,/ juntas se deitarão as suas crias,/ o leão comerá feno com o boi,/ e a criança de peito brincará com a víbora» (Isaías 11,6-8).

6. Avista-se daqui o Menino de Belém. Uma paz a perder de vista, sem princípio e sem fim. Um mundo novo governado por um menino pequeno. Vê-se bem que este mundo belo e manso não se parece nada com o nosso, cheio de raivas e de ódios, invejas, mentiras, manhas, astúcias, violências e guerras. Nenhum menino poderia governar um mundo assim. E o problema que nos assalta não está no menino; está neste nosso mundo mentiroso, fraudulento e violento.

7. Contra este mundo empedernido e embrutecido embate a ternura do Menino de Belém. Entenda-se bem outra vez: não é o menino que está errado; somos nós que estamos completamente errados e equivocados. É por isso que somos convidados à conversão.

8. O mundo novo e saboroso que emerge dos textos de hoje é também sublinhado por S. Paulo nas exortações que nos dirige na Carta endereçada aos Romanos 15,4-9. Como seria belo um mundo pautado por uma verdadeira fraternidade em que todos vivêssemos sob o impulso e o alento carinhoso e criador de Deus. Na verdade, todos respiramos o mesmo alento, que o texto grego diz com o belo termo composto homothymadón (Romanos 15,6), que junta homós [= mesma] e thymós [= alma], sendo que thymós deriva de thýô [= soprar]. E que mundo maravilhoso surgiria, rompendo a crosta do egoísmo e da dureza de coração, se «nos acolhêssemos uns aos outros, como Cristo nos acolheu a nós» (Romanos 15,7). Aí está então a comunidade humana irmanada e reunida, porque todos recebemos de Deus o mesmo alento, o mesmo sopro criador (Génesis 2,7), e com uma só boca (en henì stómati) e a uma só voz cantamos os louvores do nosso Deus (Romanos 15,6). Esta linguagem e esta harmonia enchem por inteiro a comunidade primitiva (Atos 1,14; 2,46; 5,12).

9. Também os versos sublimes do Salmo Real 72 cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva, e a que só Deus pode responder.

António Couto

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E NÓS QUE HAVEMOS DE FAZER?

Dezembro 10, 2021

1. Como tivemos oportunidade de ver e de sentir, o Evangelho do Domingo II do Advento (Lucas 3,1-6) rasga este mundo ao meio de forma clara e impiedosa. Diz o narrador, com a precisão do bisturi, que a Palavra de Deus passa ao lado dos senhores deste mundo, e cita Tibério César, Pilatos, Herodes Antipas, Filipe, Lisânias, Anás e Caifás, e nós podemos sempre atualizar esta lista, incluindo nela outros nomes e o nosso também. Aí está o golpe a sangrar do bisturi de dois gumes que é a Palavra de Deus (Salmo 149,6; Juízes 3,16-22; Hebreus 4,12). Então, a Palavra de Deus passa ao lado deste mundo rico e poderoso, autorreferencial, impiedoso, insensível e indiferente, e, para espanto nosso, vai cair sobre um pobre, João Batista, que não habita em palácios, mas no deserto! Com esse bisturi da Palavra, João Batista pode sempre limpar (João 15,3) o silvado que nos enche os ouvidos, lavar as gorduras que embotam o nosso humano coração e desfazer, com o martelo pneumático, o pedregulho que petrifica o nosso quotidiano.

2. Aí está, então, no Evangelho deste Domingo III do Advento (Lucas 3,10-18), outra vez João Batista em cena, irrompendo agora com o bisturi da Palavra direto aos ouvidos dos homens deste tempo, ouvidos obstruídos por mato e por silvas, anunciando que o tempo está maduro para limpar a eira e recolher o trigo, que a hora é de frutos novos!

3. «E nós que devemos fazer?» (Lucas 3,10.12.14), perguntam as multidões, os publicanos, os soldados. Perguntamos nós também. Responde João Batista, que acaba de abrir caminho por entre o mato e as silvas que obstruem o caminho que vai dos nossos ouvidos até ao nosso coração empedernido: vós não vos canseis de dar, não roubeis, não pratiqueis a injustiça, não façais violência! Amai! Reparemos que todos os frutos de conversão que João Batista menciona e reclama se referem sempre ao nosso comportamento para com o próximo. Fica claro que a conversão, isto é, o nosso voltar-se para Deus, passa sempre pelos nossos gestos para com o próximo, nomeadamente pela partilha para além do impensável. Se eu tenho duas túnicas, e o meu próximo nenhuma, devo dar-lhe uma. Fica então claro que, nesta nossa sociedade, em que poucos têm muito, muitíssimo, quase tudo, e os outros nada, andamos a brincar com o Evangelho!

4. Mas este verbo «partilhar» é terrível. Sem darmos por isso, é a última palavra que queremos ouvir. Na verdade, «partilhar» desvenda e despoja-nos da nossa falsa boa vontade, da nossa generosidade virtual, do nosso vão sentimentalismo religioso, enfim, da nossa hipocrisia. Partilhar não é «depositar» nos outros apenas o supérfluo, as sobras. Dar o que sobra não tem a marca de Deus, não é fazer a verdadeira memória de Jesus, que se entregou a si mesmo por nós (Efésios 5,2), por mim (Gálatas 2,20). O supérfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo transforma a vida para sempre. Mas João Batista, verdadeiro guardião da fronteira entre este mundo que passa e o mundo que vem, anuncia também uma Presença nova, a d’Aquele-Que-Vem, com o Espírito, que dá a vida verdadeira: ei-lo que vem, o noivo, o esposo, aquele de quem eu, diz João Batista, não tenho o direito nem o poder de desatar a correia da sandália!

5. Desatar a correia da sandália. Não é de um simples gesto de humildade que se trata. A sandália leva-nos para o campo do direito de posse e também do direito matrimonial. Basta ler o Livro do Deuteronómio 25,5-9 sobre a Lei do Levirato e o Livro de Rute 4,7-10 acerca do casamento de Booz com Rute. O noivo, que é o primeiro a ter o direito de desposar a noiva, se quiser prescindir desse direito em favor do segundo, tira a sua própria sandália (ou é-lhe retirada) e entrega-a ao segundo na ordem do direito. Era esta a prática do direito matrimonial no antigo Israel. João Batista não pode desatar a sandália daquele que tem o direito à noiva. Só este é que é o noivo, o esposo. João Batista não é o noivo, mas indica-o. Ei-lo que está a chegar! O esposo é Cristo. E a esposa é do esposo. A hora é de alegria, é de amor, é de frutos de alegria e de amor!

6. Portanto, «Alegrai-vos sempre no Senhor!», porque «o Senhor está próximo!», grita de alegria o Apóstolo Paulo aos ouvidos dos cristãos de Filipos (Filipenses 4,4-7). E a lição é para nós também.

7. E o Profeta Sofonias (3,14-18) mantém alta a tonalidade festiva: «Rejubila, filha de Sião!,/ Solta gritos de alegria, Israel!»,/ «porque o Senhor está no meio de Ti!». Também este intenso convite é para nós, hoje, e deve ser vivido por nós, hoje e aqui, reunidos em assembleia litúrgica festiva, que confessamos uma e outra vez: «Ele está no meio de nós!».

8. Sempre em tom de festa e de alegria, o Salmo Responsorial, hoje um hino de louvor retirado de Isaías 12,3-6, deixa a nossa alma cheia de canções, fazendo-nos repetir (e nós repetimos o que amamos): «Povo do Senhor, exulta e canta de alegria!», ou «Exultai de alegria, porque está no meio de vós o Santo de Israel!». Sim, o povo de Deus, a sua Igreja Una e Santa, vive da música de Deus, cantando com um dos mais belos versos da inteira Escritura: «Minha força e meu canto Yah!» (Salmo 118,14; Isaías 12,2; cf. Êxodo 15,2). Yah de YHWH, como quando cantamos «Alelu-yah!» [= Louvai Yah], louvai Deus, o nosso Deus, Aquele que está no meio de nós, hoje e sempre, operando maravilhas.

9. Por tudo isto, e não é pouco, este Domingo III do Advento é chamado «Domingo gaudete», «Domingo da alegria». Que o seja de verdade nos nossos corações. Deixemo-nos, então, atravessar pela Alegria, e sintamos bem fundo, para além da capa do nosso sentimentalismo religioso, o bisturi da Palavra de Deus e o martelo pneumático do Espírito.

São estes os caminhos do Advento,

cheiinhos do vento do Espírito,

que derruba as folhas secas das árvores,

e nos faz ver

que somos todos como a erva,

e a nossa glória não é mais do que a flor da erva.

Mas seca a erva e murcha a flor,

e nós passamos.

Sim, estamos de passagem.

Mas sentimos no rosto,

ou talvez no coração,

a tua aragem mansa,

que nos enche de paz e confiança.

O Advento é uma escola de esperança

e de oração,

de coragem e de alento.

O Advento é uma viagem

até ao nascimento

do menino de Belém,

lá, e dentro de nós também.

António Couto