JESUS, O PAI E NÓS SEMPRE EM REDE

Maio 9, 2020

1. Os nomes JESUS e PAI juntam-se para entretecer uma rede finíssima que atravessa e extravasa o corpo do inteiro IV Evangelho, onde se ouvem respetivamente por 237 vezes e 124 vezes. Entenda-se: a vida de JESUS está completamente nas mãos do PAI, dele provém e para ele se orienta totalmente, de modo a JESUS poder dizer: «EU e o PAI somos um (hén)» (João 10,30) – não para indicar uma só pessoa, mas uma só realidade, bem traduzida no modo neutro, e não masculino, do numeral «um» (hén) – ou: «Quem ME vê, vê o PAI» (João 14,9). Só no Evangelho deste Domingo V da Páscoa (João 14,1-12), pode contar-se o nome PAI por 12 vezes!

2. Total orientação da sua vida para o PAI. Diz, na verdade, Jesus para os seus discípulos: «Para onde EU vou, vós conheceis o caminho» (João 14,4), mudando logo o lugar pela pessoa: «EU para o PAI vou» (João 14,12). Pelo meio, cruza-se a incompreensão ou incompetência expressa de dois dos seus discípulos: Tomé e Filipe, que o mesmo é dizer, a nossa incompreensão e incompetência. Tomé, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»], não sabe para onde vai JESUS; logo, não sabe o caminho (João 14,5), e Filipe recebe de Jesus uma repreensão que também nos atinge, pois é proferida no plural, e soa assim: «Há tanto tempo estou convosco, e não ME conheces, Filipe?» (João 14,9).

3. Tomé é bem Gémeo nosso, nosso irmão gémeo, muito parecido connosco, nesta passagem e em muitas outras. E Filipe [«Amigo dos cavalos»], único nome verdadeiramente grego, isto é, pagão, entre os Apóstolos de Jesus, também se manifesta muito semelhante a nós aqui e em outros lugares, como, por exemplo, João 6,5-7, onde é literalmente posto à prova por Jesus, e chumba claramente no teste. Na verdade, Jesus pergunta-lhe, para o pôr à prova: «Filipe, onde compraremos pão para que eles comam» (João 6,5). E Filipe põe-se a contar o dinheiro, dizendo onde põe a sua confiança, e responde que não há nada a fazer, porque não há dinheiro (João 6,7). Filipe, talvez como nós, ainda não sabia que o onde (póthen) a que Jesus se refere não é o shopping, mas é o PAI. Ainda não sabia ou conhecia Isaías 55,1-2, em que Deus nos convida a comprar a Ele pão, sem gastar qualquer dinheiro: «Todos vós que tendes sede, vinde às águas!/ Vós, que não tendes dinheiro, vinde!/ Comprai (agorázô LXX) cereal e comei!/ Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ […] Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Isaías 55,1-2).

4. O Jesus que anima este diálogo connosco é verdadeiramente o CAMINHO, a VERDADE e a VIDA (João 14,6). Não é um caminho de terra batida ou uma estrada de asfalto. É um CAMINHO pessoal, uma maneira de viver, com entranhas, pés, mãos e coração. Não é uma verdade de tipo filosófico, jurídico ou político, a usual adequação da mente à coisa. Não é uma coisa. A VERDADE bíblica [hebraico ʼemet] não responde à pergunta: «O que é a verdade?», à boa maneira de Pilatos (João 18,38), mas à pergunta inédita: «QUEM é a VERDADE?». De facto, ʼemet deriva de ʼem [= mãe] e de ʼaman [= firmar, confiar], e remete para CONFIANÇA e FIDELIDADE. Não é uma verdade que se saiba. É uma atitude que se aprende. É aquela VERDADE que uma criança vai aprendendo ao colo da sua mãe. Está ali ALGUÉM que a segura e que a ama, ALGUÉM em quem a criança pode confiar, que em caso algum a vai deixar cair ao chão, como bem refere Edith Stein (Santa Teresa Benedita da Cruz). A VERDADE é ALGUÉM de fiar como uma MÃE, realidade bem patente na etimologia, dado que ʼemet [= verdade] deriva de ʼem [= mãe]. Não engana, portanto. É assim que JESUS é também a VIDA toda recebida (do PAI), toda a nós dada.

5. É assim também, maternalmente, que se entende a jovem e bela comunidade cristã nascente, atenta, outra vez como uma mãe, aos seus filhos que necessitam de assistência (Atos dos Apóstolos 6,1-7). Como é belo ver crescer, e cresce mesmo, uma comunidade de rosto maternal, de braços sempre abertos para acolher e abraçar, de mãos sempre abertas para receber, dar e acariciar. Tudo tão ao jeito e ao estilo de Jesus. Total dedicação à oração e ao serviço (diakonía) da Palavra de Deus (6,4). Total dedicação ao serviço (diakonía) da caridade. Atenção, porém: Filipe não aparece com o título de diácono (diákonos). O seu trabalho é evangelizar (Atos 8,26-40), e, se algum título lhe é atribuído, é o de «o evangelista» (ho euaggelistês) (Atos 21,8).

6. É claro, diz S. Pedro (1 Pedro 2,4-9), que Jesus é a pedra viva, base de um novo tipo de edifício, que nenhum arquiteto sabe desenhar ou projetar. É, na verdade, um edifício espiritual, feito de pedras vivas (!). E nós somos essas pedras vivas, esse Templo espiritual, que tem em Cristo a sua referência permanente. Um Templo novo e inédito com sangue, entranhas, mãos, pés e coração.

7. Enfim, o Salmo 33, que hoje cantamos, é um verdadeiro «canto novo» (shîr hadash) a fazer vibrar as fibras do nosso coração com a música do amor misericordioso que nos vem de Deus. Mas é também música sem palavras (terûʽah) (v. 2), jubilação, exultação, lalação de radical confiança da criança que em nós sorri e dança, porque Deus vela por nós. Comenta Santo Agostinho: «Já sabes o que é o canto novo: um homem novo, um canto novo».

 

«O lugar para onde Eu vou,

Vós sabeis o caminho para lá», diz Jesus.

«Nós não sabemos para onde vais,

Como podemos saber o caminho para lá?»,

Retorquiu Tomé.

 

Tomé é como nós:

Não sabe trabalhar sem metas e objetivos.

E é em função das metas e objetivos,

Que escolhe caminhos e metodologias.

 

Deus disse a Abraão: «Vai do teu país

Para o país que Eu te fizer ver».

E o narrador diz-nos que «Abraão foi».

Para onde? Para qual país?

Não interessa.

Interessa é saber que uma mão segura nos guia,

E que o caminho que trilhamos nos conduz sempre ao destino.

 

É assim que faz Jesus também.

Não nos indica no mapa o lugar do destino,

Mas mostra-nos o caminho para chegar lá.

Por isso nos diz: «Vinde atrás de Mim…».

 

É assim a procissão e a peregrinação.

Ele vai connosco e à nossa frente.

Ele é o caminho,

A mão segura,

A água pura,

O pão de trigo.

 

Ensina-nos, Senhor,

A caminhar contigo.

 

António Couto


PARA VÓS, SENHOR, ELEVO A MINHA ALMA!

Novembro 30, 2019

1. «Para vós, Senhor, elevo a minha alma» (Salmo 25,1). Antífona do Cântico de Entrada que inaugura a celebração eucarística do Advento, do Ano litúrgico, do Ano inteiro. Aponta a atitude a assumir pela Assembleia fiel e orante: a oblação permanente, a oração constante. Para que esta atitude não fique esquecida, mas tome verdadeiramente conta de nós, a mesma «subida» espiritual é cantada com esfuziante alegria no Salmo Responsorial (122). Extraordinário pórtico de entrada no Advento e no novo Ano litúrgico. Belíssima forma de viver, elevando para Deus a nossa vida: a oração é a nossa vida! A nossa vida em ascensão e oração permanente, sacrifício de suave odor, incenso puro subindo para o nosso Deus. Sempre. O Evangelho dirá com a mesma energia e alegria: «Estai atentos», «Vigiai», «Compreendei», «Estai preparados», «Sabei o dia», «Não aconteça que não deis por nada!» (Mateus 24,37-44). Vida levantada, rosto erguido para Deus. É o gesto do justo justificado por Deus (Job 22,26). Página em branco, Primeira e Última, que podemos apresentar a Deus neste início de Advento e de Ano litúrgico. É de Deus a palavra e a escrita que não passa.

2. Curiosamente a lição do Evangelho não condena a malvadez e a violência das pessoas, mas a sua indiferença, anestesia e sonolência («não dar por nada»). «Vigiar», «Estar atentos» significa não se deixar enterrar na lama dos caminhos banais e fúteis deste tempo dormente, e S. Paulo mostra que a busca desenfreada do sucesso e das falsas soluções da droga, da devassidão, da embriaguez, das rixas, dos ciúmes é uma teia que nos enreda e não nos deixa ver bem, belo e bom. Não nos deixa, portanto, ver Cristo, o mais belo dos filhos dos homens (Salmo 45,3), «belo a dar a vida e belo a retomá-la, belo na Cruz, belo no sepulcro, belo no céu» (Santo Agostinho). Andamos sempre tão atarefados com inúmeros afazeres, campos, bois, negócios, casamentos, que ficamos com o «coração pesado» e insensível, incapaz de ver o Filho-do-Homem-que-vem, a qualquer hora, nos nossos irmãos mais pequeninos! Ora, o Advento é o Filho do Homem que vem, para que nós o acolhamos. Se o acolhermos, saímos fora da teia dos nossos afazeres que nos sufoca, o penúltimo, e entramos no mundo maravilhoso do Último, do Amor, da Liberdade, que rompe as nossas teias e cadeias.

3. O escritor argentino Jorge Luis Borges deixou-nos versos densos como estes, acentuando a importância e a intensidade de cada momento da nossa vida a não desperdiçar: «Não há um instante que não esteja carregado como uma arma»; «Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes»; «Em cada instante a clépsidra deixa cair a última gota». E o poeta brasileiro Vinícius de Moraes escreveu assim num belíssimo poema: «A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais». É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Tudo no Evangelho é decisivo: cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

4. Átrio de um tempo novo, habitado, «carregado» de justiça e de bondade. Obra de Deus no nosso mundo. E só dele. Obra terna, tenra e nova, como um «rebento» de um jovem casal ou de uma planta. Sinal de Primavera no meio da invernia e da lama em que nos vamos atolando, ensonados e enlatados, sem sequer darmos por isso. É, portanto, mesmo preciso que Ele venha e que nos acorde e nos levante da nossa letargia com novas pautas e novos acordes musicais! E que nos dê nomes novos a nós, às nossas cidades, às nossas escolas, aos nossos hospitais, às nossas ruas! Up! Up! Up! Luz nova lá no alto a atrair os nossos olhos embotados. Instrução nova de Deus para todos os povos, armas transformadas em relhas de arado, flores brancas em mãos ensanguentadas (Isaías 2,1-5).

5. E aí está S. Paulo, no final da sua carreira, a escrever desde Corinto aos Romanos (13,11-14). E aí está também o buscador Agostinho. Na sua intensa busca da verdade, foi de Tagaste para Cartago, para Milão. Homem inquieto, no polo oposto do coktail da tranquilidade e consolo, servido pela New Age ou Next Age, e de acordo com a advertência de Julien Green: «Enquanto estivermos inquietos, podemos estar tranquilos». No princípio do Outono de 386, angustiado e inquieto, Agostinho (Confissões, Livro VIII, 12) sai para o jardim da sua casa, em Milão, e chora amargamente, sentado debaixo de uma figueira. Ouve então uma criança que, na casa vizinha, cantarolava uma estranha letra: «Toma e lê!», «toma e lê!». Agostinho apercebeu-se de que não era normal uma criança trautear uma canção com uma letra assim. Foi, por isso, levado a compreender que bem podia ser um recado de Deus para ele. Entrou em casa, desenrolou à sorte as Cartas de S. Paulo que tinha sobre a mesa, e leu: «Não em orgias e bebedeiras, não em devassidão e libertinagem, não em rixas e ciúmes, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não presteis atenção à carne através da concupiscência» (Romanos 13,13b-14).

6. Nesse dia e nessa hora, nasceu Santo Agostinho. Hoje podes nascer tu também, meu irmão do tempo novo do Advento. Mãos à obra, e conta sempre com a graça de Deus: «Segundo a graça que Deus me deu, como bom arquiteto, lancei o fundamento, mas é outro que constrói por cima. Mas cada um veja como constrói. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diferente do que foi posto: Jesus Cristo. Se alguém, sobre esse fundamento, constrói com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um será posta em evidência» (1 Coríntios 3,10-13).

7. Enfim, ressoa Hoje a voz do Salmo 122, um belíssimo Cântico de Sião, sobrecarregado de uma alegria elementar e de uma emoção visceral e instintiva. Desdobra-se em três vagas: a primeira (vv. 1-2) reúne a alegria incontida da partida e a emoção intensa da chegada; a segunda, vv. 3-5, entoa o louvor de Sião, passeia os olhos pela bela arquitetura dos seus edifícios, mas sobretudo vê Jerusalém como polo de atração e de união das tribos para louvar a pessoa (o Nome) de Deus no seu Templo; a terceira, vv. 6-9, estende uma toalha branca de paz (shalôm), três vezes dita, como vê os seus quatro ângulos, sobre a mais bela cidade, Jerusalém, yerûshalaim, popularmente interpretada como «cidade da paz (shalôm)», ainda que o seu nome signifique «Shalem a edificou», com referência a um deus dos antigos habitantes cananeus. Pouco importa. Ela é a Casa em que entram, felizes e emocionados os filhos de Deus, e experimentam a alegria da fraternidade, põem a mesa e estendem a toalha branca da paz (shalôm) e do bem (tôb), com que franciscanamente se saúdam!

 

Como é fácil, Senhor Jesus,

Daqui, de ao pé da tua Cruz,

Avistar a paisagem do Advento,

Compreender-lhe a mensagem,

Respirar-lhe o alento.

 

Daqui, de ao pé da tua Cruz de Luz,

Sem dúvida o lugar mais alto do mundo,

Mais alto e mais profundo,

Vê-se bem, com toda a claridade,

Que a lonjura do Advento não é horizontal.

Eleva-se em altura.

Como a tua túnica tecida de Alto-a-baixo,

Vertical,

E sem costura.

 

Tu vens do Alto, Senhor.

Tu vens de Deus.

Tu és Deus.

Tu és o Justo

Que chove das alturas

Sobre a nossa humanidade sedenta e às escuras.

 

Vem, Senhor Jesus,

Alumia e rega a nossa terra dura,

Acaricia o nosso humilde chão

E modela com as tuas mãos de amor

Em cada um de nós

Um novo coração

Capaz de ver.

Capaz de Te ver

Nascer

Em cada irmão.

 

António Couto