O CEGO-DISCÍPULO DE JERICÓ

Outubro 27, 2018

1. Jeremias 31,7-9 põe diante de nós uma grande procissão de alegria e de esperança, vinda do Norte, da Babilónia, em que participam todos os filhos de Deus. Note-se a presença dos cegos, dos aleijados, das grávidas, das parturientes. Procissão maravilhosa em que ninguém fica de fora ou para trás: pura graça e salvação de Deus bem à vista! Verdadeiramente, Deus SALVA (hôshîa‛) o seu Povo (Jeremias 31,7). Não nos esqueçamos Hoje de valorizar o nosso canto do HOSSANA, que é um grito levantado para Deus, e que significa, à letra, «SALVA, POR FAVOR» (hôshîa‛ na’).

2. Para dizer esta alegria filial, batismal, temos de cantar que «o Senhor fez maravilhas em favor do seu povo». É o Salmo 126, o canto do regresso a Casa, de um sonho feliz, da estação das canções e das colheitas. Verdadeiramente Deus cuida de nós. O Canto ritmado do Salmo 126 serve para nos abrir bem os olhos do coração para vermos bem as inumeráveis maravilhas com que Deus enche os nossos caminhos todos os dias. Entre a sementeira e a ceifa, entre a dor e a alegria, o inverno e a primavera, a semente não erra e não mente. Segue o seu curso natural. Suavemente. Aí está, portanto, outra vez a jubilosa procissão dos exilados! E nós, extasiados, como quem sonha, a boca cheia de riso e os lábios de canções.

3. Aí está também a Carta (ou pregação) aos Hebreus 5,1-6, que nos apresenta uma excelente figuração do sacerdote: chamado por Deus, postado a meio caminho entre o coração de Deus e o coração dos homens, para encher este mundo de graça serena e fecunda. Ao jeito da vara sacerdotal de Aarão e por acumulado excesso, de onde brotam ao mesmo tempo folhas verdes, flores em botão, flores abertas e frutos maduros, conforme o insuperável texto do Livro dos Números 17,16-26. Vara de amendoeira. Já ninguém estranhará agora que o candelabro (menôrah) que, noite e dia, ardia na presença de Deus, estivesse ornamentado com flores de amendoeira (Êxodo 25,31-35; 37,20-22). E também já ninguém estranhará que a tradição judaica tardia refira que a vara do Messias havia de ser de amendoeira. O excesso divino da primavera e da esperança em pleno inverno humano de dor e de pecado.

4. E lá está outra vez um Cego no Caminho de Jesus. É do grande texto de Marcos 10,46-52 que falamos, e que é conhecido como o episódio do Cego de Jericó. Na verdade, está em cena muito mais do que cegueira e geografia. Atente-se em como o narrador nos passa sobre o Cego informação exaustiva, distribuída em seis anotações: é o filho de Timeu (1), chama-se Bartimeu (2), é cego (3), pede esmola (4), está sentado (5) à beira do Caminho (6).

5. Se revisitarmos com atenção as páginas dos Evangelhos, nomeadamente de Marcos, só encontramos tanta informação pessoal nos relatos de vocação. Veja-se, a propósito, o chamamento de Simão e André (Marcos 1,16-18), de Tiago e João (Marcos 1,19-20) e de Levi (Marcos 2,14). Estes indicadores são importantes, pois é bem provável que, no episódio do Cego de Jericó, estejamos mais perante um relato de vocação do que de cura.

6. O Cego, excluído, GRITA por duas vezes. Quem grita é porque está longe e se quer fazer ouvir. Um Cego sente-se longe de Deus, da luz e da comunidade. Dizia assim a tradição religiosa e cultural daquele tempo e daquele espaço. Por isso, o Cego GRITA e volta a GRITAR. O conteúdo do seu GRITO é belo: «Filho de David, Jesus, FAZ-ME GRAÇA (eléêsón me). É quanto nós cantamos ainda Hoje, e Hoje devemos valorizar também este dizer: Kýrie eléêson! Significa, na sua letra, pedir ao Senhor que pegue maternalmente em nós ao colo, que maternalmente nos embale, que maternalmente olhe e sorria para nós!

7. Ouvindo estes GRITOS, Jesus PÁRA. Parando, fica ao nível do Cego, que estava parado, e parado ia ali ficar. Jesus PÁRA e CHAMA. Um versículo (49) em que o verbo CHAMAR se ouve três vezes. Jesus não exclui, mas inclui e faz que aqueles que antes mandavam calar o cego, querendo mantê-lo na exclusão, entrem agora neste novo movimento de inclusão. Note-se o agrafo à grande procissão de Jeremias 31,7-9, que incluía cegos, aleijados, grávidas e parturientes. Também Jesus não quer deixar ninguém de fora ou para trás.

8. Ao sentir-se chamado e incluído, o Cego deixa tudo (atira fora o seu manto, onde recolhia as esmolas), e, num salto (sem qualquer hesitação), fica junto de Jesus. Jesus pergunta-lhe, tal como atrás tinha perguntado aos dois filhos de Zebedeu: «Que queres que Eu te faça?» Naturalmente, o Cego responde: «Que eu veja!» Mas Jesus diz-lhe: «VAI!». Poucos se apercebem do notório desajuste entre o pedido do Cego e a resposta de Jesus. «VAI!» não é, de facto, a resposta adequada ao pedido do cego: «Que eu veja!». A resposta adequada seria: «Vê!», como está, de resto, documentado no episódio paralelo de Lucas 18,42. Mas neste «VAI!» já se vê claramente o teor vocacional do relato.

9. Lindo ver na conclusão do relato que o Cego viu, ficou iluminado, e SEGUIA Jesus no CAMINHO. Aí está outra vez a figura bela do verdadeiro discípulo de Jesus. Chamado e iluminado pela Luz que é Jesus, segue Jesus no CAMINHO. Tem de O seguir, temos de O seguir. Ele é a Luz verdadeira. E a nossa Luz é apenas reflexa.

10. Senhor Jesus, chama por nós, inclui-nos no teu amor, faz-nos graça, ilumina a nossa vida, torna-nos fiéis seguidores, atrás de Ti, no teu CAMINHO de LUZ.

António Couto

Anúncios

UM CAMINHO NOVO SE ABRE A NOSSOS PÉS

Outubro 20, 2018

1. O Domingo XXIX do Tempo Comum oferece-nos um pequeno extrato do chamado «Quarto Canto do Servo de YHWH» (Isaías 53,10-11). O justo, meu Servo, diz Deus, justificará muitos, diz Deus. Profeta «profetizado»: eis a verdade do profeta-servo. Não fala, mas é falado: fala Deus dele (Isaías 52,13-15; 53,11-12); falamos nós dele (53,1-10). Nós, batendo no peito, reconhecendo que as suas chagas não são o seu castigo merecido, mas a cura para a nossa malvadez. Entram pelos olhos: são a imagem do que há dentro de nós. De facto, vendo bem aquelas chagas, temos mesmo de reconhecer que foi a nossa violência e malvadez que as produziu. Diagnosticada a doença, podemos lançar mão do remédio. Deus apresenta-o como aquele que, entregando a sua vida à nossa violência, atravessa a nossa violência, não combatendo-a com mais violência, o que só aumentaria o caudal da violência, mas absorvendo-a e sofrendo-a, e abraçando-a, dissolvendo-a e absolvendo-a por amor: é assim que nos justifica, isto é, nos transforma de pecadores em justos: milagre do perdão e da recriação do nosso Deus.

2. Faz-nos bem a seguir cantar demoradamente com o Salmo 33: «Desça sobre nós a vossa misericórdia», e contemplar com encanto e emoção o rosto do novo sumo-sacerdote, Jesus, Filho de Deus, posto por escrito diante dos nossos olhos no trono da Cruz (Gálatas 3,1), para o vermos bem e para nos vermos bem: outra vez um rosto desfigurado pela nossa violência e malvadez, e a ternura daquele olhar de graça, que nos redime e salva. É a extraordinária lição de Hebreus 4,14-16.

3. E voltamos ao CAMINHO com Marcos 10,35-45. É a vez de Tiago e João, que vão no CAMINHO desde o princípio, agora que o CAMINHO se aproxima do seu termo, se aproximarem de Jesus com um estranho pedido. Vão de pé no CAMINHO, mas querem SENTAR-SE em lugares de destaque. O narrador diz-nos que os outros Dez ficaram indignados. Entenda-se: não tanto pela reprovação que o pedido dos dois irmãos lhes merecia, mas porque também eles pensavam a mesma coisa, e se viram antecipados.

4. Jesus chama-os todos para si, para lhes dizer ao coração que há os CHEFES deste mundo que mandam e tiranizam e tiram a vida, e há os SERVOS que servem e dão a vida por amor, isto é, justificam.

5. E aí está Jesus a apresentar-se de novo como verdadeiro Mestre pró-ativo, que sabe o CAMINHO, ensina o CAMINHO, faz o CAMINHO, é o CAMINHO: veio para SERVIR e DAR A VIDA por amor.

6. Mas tudo ficará mais claro, quando, no próximo Domingo (XXX) se vir bem o confronto produzido pelo episódio do Cego de Jericó (Marcos 10,46-52), paradigmática e pedagogicamente colocado no termo do CAMINHO.

7. O Cego está sentado (a posição ansiada por João e Tiago e pelos outros dez!) à beira do caminho. Grita porque, sendo cego, é um excluído, e há, portanto, entre ele e a sociedade e Deus, pensa ele, uma grande distância. Tem de gritar, portanto, para vencer essa distância. Mas aí está o Mestre pró-ativo: PÁRA, descendo ao nível do cego, e CHAMA, incluindo o excluído, anulando a distância. Sem hesitação, o cego atira logo fora o manto, que constitui a sua subsistência, a sua vida (tinha-o estendido à beira do caminho, e era nele que os transeuntes deitavam as esmolas), e, com um salto, de forma decidida e enérgica, fica no lugar certo, junto de Jesus. Jesus faz-lhe a mesma pergunta que ouvimos hoje fazer a João e a Tiago: «Que queres que Eu te faça?». Resposta óbvia do cego: «Que eu veja!». Ordem nova de Jesus: «VAI!».

8. Poucos se apercebem. Mas «VAI!» não é a resposta adequada ao pedido do cego: «Que eu veja!». A resposta adequada seria: «Vê!», como está, de resto, no episódio paralelo de Lucas 18,42.

9. Mas, de facto, o cego obedeceu à ordem nova de Jesus. Diz-nos o narrador que SEGUIA JESUS NO CAMINHO! Note-se aquele SEGUIA, que é um imperfeito de duração, que implica um seguimento de forma continuada. Modelo perfeito do discípulo de Jesus.

10. Vejam-se atentamente os confrontos: 1) o cego está SENTADO, mas põe-se de pé; de pé vão os discípulos de Jesus, mas querem SENTAR-SE; 2) o cego deixa tudo (atira fora o manto), mas os discípulos querem saber o que ganham por terem deixado tudo (Marcos 10,28); 3) o cego está à beira do CAMINHO, mas entra no CAMINHO para seguir Jesus no CAMINHO; o homem rico de Marcos 10,17-22, que encontrámos no Domingo XXVIII, entra no CAMINHO, mas sai logo do CAMINHO…

11. Tantos desafios e provocações, modelos e contra modelos, para nós, discípulos que hoje seguimos Jesus no CAMINHO!

12. Não nos esqueçamos ainda que passa hoje (21 de Outubro) o 92.º Dia Missionário Mundial, Dia em que somos sempre desafiados a calcorrear as estradas do mundo com o mesmo ímpeto missionário das primeiras comunidades cristãs, lembrando-nos que «a pregação do Evangelho não é para a Igreja um contributo facultativo, mas um dever que lhe incumbe» (Evangelii Nuntiandi, n.º 5).

13. Neste sentido, somos sempre exortados a refazer as pegadas de São Paulo e o itinerário espiritual da mulher da Samaria (João 4) que, pedagogicamente conduzida por Jesus, abandona o cântaro antigo, que só servia para transportar água antiga, e corre à cidade, não para fazer afirmações paralisantes, mas para deixar no ar um convite e uma fina interrogação que põe a cidade inteira a caminho de Jesus: «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo?» (João 4,29). Esta interrogação («Não será ele o Cristo?») é um convite à verificação, e põe, por isso, os samaritanos em movimento; se ela dissesse: «Ele é o Cristo!», já não mobilizava ninguém.

14. É nosso dever olhar com amor e diligência para a Igreja missionariamente renovada que há 53 anos saiu do II Concílio do Vaticano, para nela vermos um sinal luminoso de Cristo para todos os continentes. Não podemos hoje esmorecer no nosso dinamismo missionário, mas devemos pedir a Deus que nos ajude a renová-lo e a avivá-lo, pois está a aumentar o número daqueles que não conhecem Cristo. De facto, em 1965, o Concílio falava em 2.000.000.000 de não cristãos (Ad Gentes, n.º 10). Vinte e cinco anos depois, em 1990, o Papa João Paulo II refere que esse número quase duplicou (Redemptoris Missio, n.º 3), número que a missiografia precisa em 3.449.084.000. Em 2000, esse número subia para 4.069.672.000. Em 2006, o número de não cristãos sobe para 4.373.076.000. Para 2025, prevê-se que esse número atinja os 5.220.896.000.

15. Decididamente, não podemos continuar apenas a fazer que seguimos Jesus no CAMINHO, tendo em conta apenas os nossos interesses e olhando este mundo com indiferença e calculismo. Forçoso é que mudemos de atitude, deixando imprimir no nosso coração e no nosso rosto o estilo de vida de Jesus: pobre, despojado, feliz, apaixonado, ousado, próximo e dedicado.

Barcas ao largo,

Corações ao alto,

Em pura sintonia com a alegria do Evangelho,

Ide!

 

Ide

E entrai em cada coração,

Semeai a paz,

Saboreai o pão que houver,

E que a mão de Deus vos der.

 

Não largueis nunca essa mão de amor.

É ela que vos guia

Rumo à alegria

Da messe e da missão.

 

Acolhe, Senhor, a minha prece

Por todos os que continuam a levar o teu amor

A toda a humanidade

E a fazer de cada coração

A casa mais bela da cidade.

 

António Couto


PELO BURACO DA AGULHA

Outubro 12, 2018

1. Um punhado de terra, eis quanto é toda a riqueza do mundo comparada com a sabedoria que vem de Deus (Sabedoria 7,9). Por isso, pedimos, cantando, com o Salmo 90,12, que Deus nos dê a Sabedoria do coração: entenda-se o bom senso, a sensibilidade e a bondade, e que elas sejam a medida com que acertamos diariamente os nossos comportamentos e os batimentos do nosso coração.

2. Vem depois, no Evangelho deste Domingo XXVIII do Tempo Comum (Marcos 10,17-30), aquele homem rico, sincero, educado e de boa prática religiosa, que parece ter estado ali à espera de Jesus, pois tinha «uma coisa» que só podia tratar com Jesus. Jesus sai de casa em Marcos 10,10, para seguir o seu caminho, que é também o caminho da formação dos seus discípulos. Mal o vê, o homem rico entra subitamente NO CAMINHO de Jesus, pedindo-lhe que lhe aponte o caminho para a vida eterna. Mal ele sabia que tinha acabado de entrar nesse CAMINHO e nessa VIDA, e que bastava seguir tranquilamente Jesus até ao fim. Jesus é o Mestre novo, verdadeiro líder pró-ativo, que não ensina como os escribas. Ele sabe o caminho, mostra o caminho, faz o caminho. Por isso, passa e chama, dizendo: «Vinde atrás de Mim!».

3. O homem rico, educado e de boa prática religiosa entra no CAMINHO, e Jesus entra nele, pois olha dentro dele (verbo emblépô) com amor divino. Único verdadeiro olhar de Deus, que vê sempre dentro, vê sempre o coração, vê sempre com o coração.

4. E aquela imensa, inesquecível rajada de verbos: Vai, vende, dá, vem e segue-me!, que atravessou o coração do homem rico, e ainda hoje nos atravessa a nós. Queira Deus que atravesse verdadeiramente o nosso coração. É, estou convicto, ainda hoje, a «uma coisa» (hén) que nos falta!

5. E aquele homem rico, educado e de boa prática religiosa, em quem facilmente nos poderemos rever, saiu do CAMINHO, ficou sem caminho e sem horizontes, triste e tão-somente agarrado ao seu punhado de terra!

6. Jesus olha agora o coração e com o coração os seus discípulos, a quem trata por «filhos» (única vez no Evangelho de Marcos!), contrapondo a riqueza ao Reino de Deus. Sim, não há maneira de nos salvarmos; há apenas maneira de sermos salvos! A metáfora do camelo e do buraco da agulha é bem expressiva e impressiva, sendo o camelo o animal de maiores dimensões conhecido no mundo de Jesus e dos seus discípulos, e o buraco da agulha uma das aberturas mais pequenas!

7. E aquele elenco fantástico apresentado por Jesus: casas, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos e terras. Quase ninguém repara nisto, e somos quase sempre levados a pensar que Jesus fornece dois elencos: um das coisas que há que deixar e outro das coisas que há que ganhar! Aí está a velha lógica das coisas materiais versus coisas espirituais! Mas Jesus apresenta apenas um elenco repetido. É a maneira de ver que deve mudar: do ter para o receber! Temos de aprender a ver o coração e com o coração, como Jesus. Podemos admirar a beleza de uma flor, mesmo quando está no jardim do nosso vizinho!

8. Pois, argumenta Pedro, também ele homem educado e de boa prática religiosa: «Se é assim, quem é que se salva?» E Jesus: «Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível!». É, portanto, para Deus que nos devemos voltar completamente. E aí está a lição inultrapassável do Mestre pró-ativo, que sabe o caminho, mostra o caminho e faz o caminho. Escreve S. Paulo: «Jesus Cristo, sendo rico, fez-se pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (2 Coríntios 8,9).

9. A que faz eco o estranho negócio que o monge cartuxo diz que fez: «Vendi o sentimento de me julgar indispensável, e comprei a minha inutilidade», olhando para a Cruz na qual «Jesus já não era útil a ninguém, mas nos estava a salvar a todos» (Monges da Cartuxa São Bruno, Sentieri del deserto [2001], p. 26).

10. O Salmo 90 põe em cena a eternidade e a solidez de Deus em confronto com a fragilidade e o sabor efémero da vida humana, sempre vista no microscópio de Deus. Este confronto é cantado na elegia sapiencial dos vv. 1-10, sendo de súplica os vv. 11-17. O primeiro movimento pode resumir-se na afirmação do v. 4: «Mil anos aos teus olhos são o dia de ontem que passou, como uma vigília da noite». E o segundo movimento tem o seu ponto alto no v. 12: «Ensina-nos a bem contar os nossos anos, para chegarmos à sabedoria do coração». Estar de passagem e sermos tão frágeis como a flor da erva (vv. 5-6), não nos leva para o pessimismo, mas para viver intensamente a vida que Deus nos dá, Ele que é e permanece o nosso refúgio de geração em geração (v. 1). O grande estudioso dos Salmos, Artur Weiser (1893-1978), alemão, de tradição Evangélica, expressa bem esta realidade: «Na luz da graça de Deus, um reflexo de eternidade cai também sobre a vida e sobre a obra do homem. Da parte de Deus, a fragilidade recebe subsistência, a miséria torna-se glória, aquilo que parecia sem sentido, alcança significado… É como se a estrela de outro mundo viesse fazer luz sobre o fluir dos nossos dias».

11. Entretanto, não esqueçamos o bisturi da Palavra de Deus, que anda dentro de nós e opera a esclerose do nosso coração (Hebreus 4,12; cf. Salmo 149,6).

António Couto


DESCER DE NÓS ABAIXO

Setembro 22, 2018

1. No Evangelho deste Domingo XXV do Tempo Comum, continuamos a ler a chamada «secção do caminho» do Evangelho de Marcos (Ver Domingo XXIV), hoje a passagem de Marcos 9,30-37. Este texto intenso e sublime cai sobre nós como uma faca de dois gumes e envolve-nos em duas vagas avassaladoras: Marcos 9,30-32 e 9,33-37.

2. A primeira acontece no caminho que desce de Cesareia de Filipe para Cafarnaum, um dia de caminho e de ensinamento de Jesus aos seus discípulos. Concentração máxima: Jesus a sós com os seus discípulos (ninguém de fora os acompanha) e um único dizer na sua boca do Mestre que repetidamente ensinava: «O Filho do Homem vai ser entregue (paradídotai: pass. teológico ou divino) por Deus nas mãos dos homens, que o matarão, mas três dias depois de morto ressuscitará» (Marcos 9,31). Note-se, em todo o caso, que Jesus passará das nossas mãos violentas e assassinas, para as mãos paternais do Pai. Jesus ensina, portanto, a sua paixão, morte e ressurreição. Ficam aqui bem a descoberto as nossas mãos violentas e assassinas. Mas é estranho o comportamento dos discípulos de Jesus, que nos é dado a conhecer pelo narrador. Na verdade, aqueles discípulos de Jesus (e nós com eles) não queriam compreender aquelas palavras e até tinham medo de as vir a compreender. É esta a mais correta tradução daquele verbo agnoéô, que não significa apenas «ignorar», «desconhecer», «não compreender», mas, mais do que isso, «não querer compreender». E era o medo de, porventura, virem a compreender que os impedia de fazer qualquer pergunta a Jesus (Marcos 9,32).

3. Leva tempo àqueles discípulos de Jesus, e a mim, e a nós, compreender que, se a maneira de ser de Deus é o amor, só o amor, então Ele tem de descer ao nosso nível, sujando-se na mentira do nosso coração e na violência das nossas mãos, não nos opondo qualquer resistência, que é o nosso modo habitual de fazer e que faz aumentar a violência, mas amando também a nossa violência até ao fim e ao fundo. Aqueles discípulos de Jesus (e nós com eles) não querem nem sequer pensar nesta maneira de viver e de morrer. Por isso, não querem compreender o verdadeiro caminho do amor que Jesus ensina, e, porque não querem correr quaisquer riscos, não ousam sequer fazer perguntas.

4. É aqui que somos atingidos em cheio pela segunda vaga do texto de hoje. Chegados a Cafarnaum, e tendo entrado na casa (seguramente a casa de Pedro), somos confrontados com uma pergunta certeira de Jesus acerca do assunto que vínhamos a debater (dialogízomai) no caminho (Marcos 9,33). Mas se já antes não arriscámos perguntar nada a Jesus, agora também não nos atrevemos a responder. O narrador passa-nos duas informações: que «eles (como nós) se calavam» (esiôpôn: imperf. de siôpáô), implicando este imperfeito um silêncio continuado (1), e que tinham disputado (dialégomai) no caminho uns com os outros sobre quem fosse o maior (2) (Marcos 9,34). Note-se que a pergunta de Jesus supõe um debate de ideias (verbo dialogízomai), mas a anotação do narrador deixa supor uma luta de interesses (verbo dialégomai). Note-se ainda o contraponto: enquanto Jesus ensina o caminho do amor humilde e oblativo, até ao fim, os seus discípulos ocupam-se de grandezas.

5. Neste momento, Jesus senta-se (modo enfático) e chama para si (modo enfático) os Doze, e diz-lhes (légei: pres. do verbo légô), a eles e a nós, num presente que ainda hoje ecoa no meio de nós: «Se alguém quer ser o primeiro, será o último de todos e o servo de todos» (Marcos 9,35). Entenda-se bem aquele «de todos», duas vezes dito, para evitar equívocos. Anote-se também que, no Evangelho de Marcos, Jesus só se senta três vezes (4,1; 9,35; 13,3).

6. E a ilustração do Mestre, que continua sentado a ensinar, agora com gestos e palavras: recebeu um criança pequena (paidíon), colocou-a no meio deles e de nós, e disse: «Quem receber uma destas crianças pequeninas, no meu nome, recebe-me a Mim…» (Marcos 9,36-37). Note-se aquele: «No meio», que é o lugar mais importante. Note-se também o «No meu nome», que significa ao jeito de Jesus. Note-se ainda que Jesus não usa jogos de estatística. Fala de uma criança apenas. E também deixa claro que, para se receber uma criança pequenina, são precisas mãos maternais, que acariciam e dão vida, ao contrário das mãos dos homens que agarram e matam, já atrás retratadas em Marcos 9,31. De resto, vê-se bem, em filigrana, que uma criança pequenina traduz todos os nossos irmãos dependentes, cuja vida depende de nós, não nos sendo permitido, portanto, abandoná-los e voltar-lhes as costas.

7. Tanto se pode aprender com Jesus «na casa» e «no caminho». Aprendemos a descer de nós abaixo, a abrir as nossas mãos fechadas e armadas, e a revestir-nos de gestos de amor novos, serviçais, maternais.

8. O justo Jesus caminha por entre o sofrimento, o desprezo e a zombaria. E assim também os seus discípulos. O fim, porém, é a glória da Ressurreição. Um breve extrato do Livro da Sabedoria (2,12.17-20) faz-nos ver os ímpios a conspirar de mil maneiras contra o justo, que os importuna com o seu comportamento, e a maquinar a sua morte, para se verem livres dele. Não faltam os motivos de zombaria, afirmando que querem verificar se é verdade o que justo diz, pois afirma que é filho de Deus, e que Deus o assistirá e libertará das mãos dos ímpios (Sabedoria 2,18). Tudo semelhante à ironia sarcástica dos zombadores que passam junto da Cruz do Senhor (Marcos 15,29-32). Mas também é oportuno ver Sabedoria 5,1-15, o quadro que forma um díptico com Sabedoria 2,1-20. Em 5,1-15, os ímpios provocadores e zombadores reencontram-se, no dia do julgamento, lado a lado com o justo que maltrataram. Ao ver o justo de pé, apavorados e atónitos, dirão entre soluços de angústia: «Este é aquele de quem outrora nos ríamos, de quem fizemos alvo de chacota, nós, insensatos! Considerávamos a sua vida uma loucura, e o seu fim infame. Como é que agora é contado entre os filhos de Deus, e partilha a sorte dos santos?» (Sabedoria 5,4-5). E confessam: «Sim, extraviámo-nos do caminho da verdade, a luz da justiça não brilhou para nós, para nós não nasceu o sol. Cansámo-nos nas veredas da iniquidade e da perdição…» (Sabedoria 5,6-7).

9. São Tiago 3,16-4,3 serve-nos também hoje um texto incisivo, que nos ajuda a ler o nosso mundo e o nosso coração. Inveja e discórdia produzem desordem e ações perversas (3,16). Ao contrário, a Sabedoria do alto (ánôthen) é pura (hágnê), pacífica, afável, conciliadora, misericordiosa, cheia de frutos bons, sem duplicidade nem hipocrisia (3,17). E depois, de forma penetrante e pedagógica, pergunta São Tiago: «De onde vêm as guerras e os conflitos entre vós? Não é das vossas paixões que lutam nos vossos membros? Cobiçais, e nada tendes; então, assassinais. Sois ciumentos, e nada conseguis; então, entrais em conflitos e guerras» (4,1-2a). E desvenda este não ter: «Não tendes, porque não pedis» (4,2b). E ainda: «Pedis, e não recebeis, porque pedis mal» (4,3). As lições são muitas e importantes, e têm de ser objeto de profunda reflexão.

10. O Salmo 54 representa a típica súplica bíblica, em que se contam três atores: o «eu» orante, «eles» (os inimigos), e Deus. Três são também os tempos em que se desenrola a oração: o passado feliz, o presente amargo, um futuro melhor, objeto de esperança. Entretanto, fica claro que Deus está sempre do lado do orante, e, por isso, o tempo está carregado de esperança. Os inimigos são descritos como estrangeiros, estranhos (zarîm). Entenda-se: gente fora da comunidade e longe de Deus, que não respeita Deus nem a maneira de viver dos justos. Também este Salmo ajuda a reler, por um lado, toda a agressividade e zombaria que atravessa os textos de hoje, que a figura do ímpio estulto incarna. Por outro lado, mostra também a segurança do justo.

António Couto


O CAMINHO DE JESUS

Setembro 15, 2018

1. Também hoje, dada a importância de que se reveste, optamos por visitar mais de perto o texto do Evangelho deste Domingo XXIV do Tempo Comum (Marcos 8,27-35), disponibilizando-o em tradução literal:

«E saiu JESUS e os DISCÍPULOS d’ELE (hoi mathêtaì autoû) para as povoações de Cesareia de Filipe. E, NO CAMINHO (en tê hodô), perguntou aos DISCÍPULOS d’ELE, dizendo-lhes: “Quem dizem as pessoas que EU SOU?”. Eles disseram-LHE, dizendo: “João Baptista; outros, Elias, e outros ainda, um dos profetas”. E ELE perguntou-lhes: “E VÓS, quem dizeis que EU SOU?” Respondendo, Pedro diz-LHE: “TU és o CRISTO”. E censurou-os (epetímêsen) para não dizerem a ninguém acerca d’ELE.

E COMEÇOU A ENSINÁ-LOS (kaì êrxato didáskein autoús) que é preciso (deî) o FILHO DO HOMEM sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar. E abertamente (parrêsía) falava esta palavra. E tomando-O consigo (proslabómenos), Pedro começou a censurá-lo (epitimân) (cf. 9,31-32; 10,32-34). ELE, porém, voltando-se e vendo os DISCÍPULOS d’ELE, censurou (epetímêsen) Pedro e diz: “Vai para trás de MIM (hypáge opísô mou), satanás, pois não tens em consideração as coisas de Deus, mas as dos homens”.

E chamando para SI (proskalesámenos) a MULTIDÃO, juntamente com os DISCÍPULOS d’ELE, disse-lhes: “Se alguém quiser atrás de MIM SEGUIR (opísô mou akoloutheîn), RENEGUE (aparnêsásthô: imp. aor. de aparnéomai) a si mesmo (heautón), TOME A SUA CRUZ e SIGA-ME, pois aquele que quiser salvar a própria vida, vai perdê-la, mas o que perder a própria vida por causa de MIM e do Evangelho, vai salvá-la”» (Marcos 8,27-35).

2. O episódio «NO CAMINHO» de Cesareia de Filipe abre significativamente com o nome «JESUS», abandonado 89 versículos atrás, em Marcos 6,30! Forma clara e enfática de o narrador dizer ao leitor que estamos perante um episódio importante, justamente considerado o centro geométrico e teológico do Evangelho de Marcos. Ao apresentar JESUS e os seus discípulos NO CAMINHO, o narrador abre a secção central deste Evangelho (Marcos 8,27-10,52), normalmente intitulada: «O seguimento de Jesus NO CAMINHO», que é o CAMINHO que conduz da Galileia a Jerusalém, o CAMINHO da formação de Jesus aos seus discípulos. Vamos seguir a par e passo esta importante secção do Evangelho de Marcos durante sete Domingos, desde o Domingo XXIV até ao Domingo XXX.

3. Cesareia de Filipe, tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS. Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Aí construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto.

4. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que JESUS põe a questão da sua identidade. Soberanamente JESUS pergunta: «Quem dizem as pessoas que eu sou?» (8,27), para acrescentar logo de seguida: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (8,29). A pergunta é única em todo o arco da Escritura. Ninguém, antes ou depois de Jesus, em toda a Escritura, fez ou fará uma pergunta semelhante.

5. Para o povo, JESUS é um profeta. Um entre muitos. Mas para Pedro, Jesus não é apenas um entre muitos. Ele é Único e Último (cf. Marcos 12,1-12), o Rei definitivo, o Cristo, o Messias, que traz todo o bem para o seu povo («Fez tudo bem feito»: Marcos 7,37). E assim, à questão direta e enfática – «E vós, quem dizeis que eu sou?» (8,29) – posta por JESUS aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Pedro responde: «Tu és o Cristo!». Note-se bem que JESUS não pergunta simplesmente: «Quem sou Eu?», mas: «Quem dizeis vós que Eu sou?». Dizer é mais do que um saber. Implica o compromisso, a vida, de quem diz.

6. À primeira vista, parece que Pedro respondeu acertadamente. Mas o contexto mostra que o discípulo não reunia competência sobre a matéria, não estava ainda em condições de fazer as operações mentais e afetivas necessárias para uma resposta correta que reunisse todos os elementos necessários de modo a implicar na resposta o respondedor. O dizer de Pedro ainda era um dizer antigo, tradicional e convencional, sem implicações pessoais. Pedro ainda não tinha nascido de novo e do alto e do Espírito. Como podia dizer JESUS? «Tu és o Cristo!», respondeu Pedro. Fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de «Cristo», vê-se logo no seguimento do texto, que no «Cristo» de Pedro não entrava o sofrimento, a rejeição, a morte, a ressurreição (8,31-32). Muito menos a adesão pessoal de Pedro a este «Cristo». Na verdade, Pedro recrimina JESUS pelo CAMINHO de rejeição, sofrimento e morte que Ele acaba de mostrar como sendo o verdadeiro CAMINHO de «Cristo» segundo JESUS. O CAMINHO de «Cristo» segundo Pedro só inclui triunfo e sucesso.

7. Por isso, porque Pedro acertou com a resposta – na verdade, JESUS é o «Cristo» –, mas não é o «Cristo» como Pedro pensa que é, JESUS impõe soberanamente silêncio (8,30). O silêncio imposto por JESUS aos seus discípulos pode passar falsamente a ideia do chamado «segredo messiânico», segundo o qual JESUS não quereria que a sua identidade, uma vez descoberta, fosse divulgada. Trata-se, antes, de impedir que respostas, porventura certas nas palavras, mas erradas nos conteúdos, e elaboradas apenas com base em elementos convencionais e tradicionais (o «Cristo» do judaísmo), que não implicam um verdadeiro dizer pessoal, um novo nascimento do alto e do Espírito, sejam transmitidas boicotando assim o nascimento do conhecimento profundo e verdadeiro da novidade de JESUS e a implicação pessoal de quem diz JESUS e se diz face a JESUS. O verdadeiro sujeito deste dizer não o pode ser só por fazer parte de alguma instituição que confere credibilidade ao seu dizer já antes de começar a dizer, como, por exemplo, os escribas ou os próprios discípulos de JESUS.

8. Porque há muita coisa que os discípulos ainda têm de aprender, antes de saberem dizer JESUS, soberanamente JESUS começou a ensinar (8,31). É grandemente sintomático que o narrador empregue a mesma expressão («E começou a ensiná-los») quando JESUS ensina a semente (Marcos 4,1-2), quando ensina o pão (Marcos 6,34s.), e quando ensina a Paixão, Morte e Ressurreição (Marcos 8,31s.). Em boa verdade, JESUS é a semente e é também o pão, linguagem que ilumina e é iluminada pela Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Veja-se o dito condensado de João 12,24: «Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto».

9. Já sabemos que Pedro respondeu antes do tempo com um punhado de palavras convencionais, que vinham na corrente da tradição judaica. Ainda não tinha nascido do alto e do Espírito, como sujeito novo de ação [= dizer e fazer], face à novidade de JESUS. Falta-lhe fazer aquele «caminho» transitivo e intransitivo, longo, gradual e tortuoso, da Galileia até à Cruz, que JESUS aponta logo de seguida aos seus discípulos e ao leitor. Aí nascerá para a Glória a humanidade de JESUS, ao mesmo tempo que nascerá Pedro como sujeito apto para dizer JESUS e se dizer face a JESUS. Por agora, Pedro e os discípulos e a multidão e o leitor devem «dizer energicamente não» (aparnéomai) a si mesmos e ocupar o seu lugar «atrás de» JESUS, para seguir o Mestre ao longo do CAMINHO. Este «dizer não» a si mesmo implica uma forte conotação de rejeição, que Isaías usa para a rejeição dos ídolos: «Naquele dia, Israel rejeitará (aparnéomai) os seus ídolos de prata e os seus ídolos de ouro, trabalho das vossas mãos pecadoras» (Isaías 31,7). Marcos só usa esta expressão aqui e no anúncio feito por Jesus da negação de Pedro (Marcos 14,30-31) e na recordação desse anúncio por parte de Pedro (Marcos 14,72). A lição é clara: ou «dizemos não» a nós mesmos ou acabaremos sempre por «dizer não» a JESUS.

10. Ocupar o seu lugar «atrás de» JESUS. Note-se a tradução correta: «Vai para trás de MIM» (hypáge opísô mou) (8,33), e não: «Afasta-te de MIM», como se vê em muitas traduções. «Atrás de MIM» é o lugar do discípulo, que segue o Mestre passo a passo, que deve ter em consideração as coisas de Deus, e não as dos homens. É, de resto, a mesmíssima linguagem posta na boca de JESUS aquando do chamamento de Pedro e André: «Vinde atrás de Mim (deûte ôpísô mou)» (Marcos 1,17).

11. Seguindo atentamente «atrás de» Jesus neste caminho de formação que constitui a secção central de Marcos (8,27-10,52), estes sete Domingos fazem-nos viver, episódio após episódio, importantes situações pedagógicas.

12. O chamado «Terceiro Canto do Servo de YHWH» (Isaías 50,5-9) faz eco ao caminho do Filho do Homem e de todo aquele que o quiser seguir, aberto no Evangelho de hoje em duas vagas sucessivas (Marcos 8,31-33 e 8,34-35). Este itinerário de Jesus para a Cruz e a Ressurreição será ainda acentuado por mais duas vezes (Marcos 9,30-31 e 10,32-34), mas esta declaração será sempre acompanhada de uma declaração paralela sobre o seu discípulo (Marcos 9,35 e 10,43-45). O retrato do discípulo de Jesus deve decalcar os traços do retrato do Mestre. Tal como Jesus, também o seu discípulo tem de ser o homem da doação total, sem reservas. Assim é também o Servo de YHWH que caminha, sem recuos, enfrentando determinado o sofrimento, mas sempre assistido pelo seu Deus. Esta determinação aparece traduzida pela expressão: «Tornei o meu rosto duro como pedra» (Isaías 50,7), que é como quem diz que tomou uma decisão da qual não poderá voltar atrás. Lucas pediu emprestada a Isaías esta forma de dizer para vincar a determinação com que Jesus orienta o seu rosto na direção de Jerusalém (Lucas 9,51).

13. Outra vez a lição oportuna e contundente de S. Tiago (2,14-18), a lembrar-nos que a fé que professamos é um dom de Deus, e tem de ser professada, não apenas com os lábios, mas com gestos concretos de caridade. A fé com alegria recebida deve ser com alegria dita e com alegria feita em pequenos gestos de amor. Não. Não se trata da fé contra as obras, nem de Tiago contra Paulo. Veja-se o dizer de Paulo aos Gálatas: «Em Cristo Jesus nada conta… senão a fé que opera por meio da caridade» (Gálatas 5,6).

14. O Salmo 116 apresenta-se composto por dois painéis, que formam um díptico. O primeiro integra os vv. 1-9, e abre com: «Eu amo». O segundo reúne os vv. 10-19, e abre com: «Eu acreditei». O painel de hoje, o primeiro, abre, como vimos, com «Eu amo». O objeto deste amor do orante é Deus, o seu Deus, e são logo evocadas as razões pelas quais o orante ama o seu Deus. Porque ouviu a sua súplica, se debruçou sobre ele, salvou a sua vida, transformou as suas lágrimas em alegria, porque é bom, justo e compassivo. Sim, o nosso Deus é digno de confiança, está sempre atento à nossa vida, caminha connosco. É bom, belo e justo que nós caminhemos também com Ele.

António Couto