A CENTRALIDADE DO CORAÇÃO

Março 2, 2019

1. Neste Domingo VIII do Tempo Comum continuamos a escutar e a digerir, no Evangelho, o «Discurso da planície», hoje na sua terceira e última parte (Lucas 6,39-45), toda dominada pelo amor e pela misericórdia. A arquitetura desta terceira parte do «Discurso da planície» assenta em três comparações, destinadas a afinar os critérios da nossa vida de discípulos de Jesus. A primeira comparação surge em Lucas 6,39-40, e põe em cena um cego a guiar outro cego. E a pergunta certeira de Jesus: «Não cairão os dois nalgum abismo? (Lucas 6,39). Mateus canalizou a comparação de Jesus para os fariseus: «Ai de vós, guias cegos…» (Mateus 23,16-17). Lucas usou-a, antes, para advertir diretamente os discípulos de Jesus de todos os tempos, fazendo ver que nenhum discípulo é mais do que o mestre, mas que todo o discípulo deve ser como o mestre (Lucas 6,40). Outra vez, de forma clara e sem equívocos: o discípulo não tem senão que repetir o que Jesus disse, sendo que a verdade da palavra do discípulo não está, portanto, na sua habilidade pessoal, mas na sua fidelidade ao Mestre.

2. A segunda comparação põe em cena o argueiro e a trave (Lucas 6,41-42), e denuncia de imediato os nossos juízos quotidianos, levianos e rápidos acerca dos outros. Estamos sempre a ver o argueiro que está nos olhos do nosso irmão, e não vemos a trave que se atravessa nos nossos olhos e nos impede de ver bem seja o que for. O filósofo romano Séneca (4 a.C.-65 d.C.), contemporâneo de Jesus, já se exprimia assim: «Temos diante dos olhos os defeitos dos outros, enquanto os nossos ficam atrás». Estar sempre pronto a criticar os defeitos dos outros, sem sequer nos apercebermos dos nossos, porque já estamos habituados e acomodados, protegidos por uma crosta opaca, é um tipo de comportamento denunciado por Jesus como «hipocrisia» (v. 42). A «hipocrisia» é um termo de origem grega e designa aquele que, no teatro, representa um papel que não corresponde à sua vida. Por exemplo, veste-se de santo…, e é um delinquente! A lição de Jesus é pertinente: «Tira primeiro (prôton) a trave do teu olho, e depois verás bem…» (v. 42). Portanto, fica claro para todos nós o que há que fazer sempre em primeiro lugar: proceder à limpeza da nossa vida, adequando-a ao Evangelho. Ao comentar o Salmo 30, Santo Agostinho faz esta observação aguda e penetrante: «Não penses mal do teu irmão. Sê tu com humildade o que queres que ele seja, e não pensarás que ele é o que tu não és» (Enarrationes in psalmos, 30,2,7). E Lucas dirá mais à frente que «A lâmpada do corpo é o teu olho. Se o teu olho estiver são, todo o teu corpo ficará iluminado; mas se ele for mau, o teu corpo também ficará às escuras. Portanto, vê bem se a luz que há em ti não são trevas» (Lucas 11,34-35).

3. A terceira comparação põe lado a lado a árvore boa e a árvore má (Lucas 6,43-45). À primeira vista, parece que Jesus coloca o acento nas obras, no que se faz, e não nas palavras, no que se diz. A pequena parábola aponta, porém, ainda outra direção: é de dentro, do interior, do coração, que provêm as obras, boas ou más. Pelo que o verdadeiro problema consiste em mudar o interior, o coração, a nascente. Na verdade, na cultura semítica e bíblica, o coração é comparado a um depósito, de onde se retiram os pensamentos, as palavras e as ações. Por isso, conclui Jesus no v. 45, o homem bom, do seu bom coração tira coisas boas; o mau, do seu mau coração tira coisas más; e a boca fala da abundância do coração. É, portanto, necessário manter o coração puro e limpo de mato e de silvas, para o encher de bondade, pois só um coração bom pode e sabe amar os inimigos, perdoar os irmãos, indicar aos errantes o caminho certo. O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), pastor luterano, morto nos campos de concentração nazis, escrevia na sua Ética que «a bondade não é uma qualidade da vida, mas a própria vida, e que ser bom significa viver». Não admira, pois, que Jesus tenha definido os hipócritas como «sepulcros caiados», cadáveres ambulantes, que se iludem pensando que estão vivos; na verdade, como têm o coração impuro, estão mortos e deambulam às escuras. As pessoas como as árvores: não se conhecem as pessoas pela sua folhagem, isto é, pelas aparências; conhecem-se, antes, pelos seus frutos, isto é, pela sua generosidade e pelo seu amor. E ainda: uma pessoa egoísta, egocêntrica, egolátrica e autorreferencial apega-se ao tesouro ilusório e falso do seu orgulho, e mal abre o tesouro do seu coração, vem logo fora a malvadez, os juízos cruéis, o ódio.

4. A lição do Livro de Ben-Sirá 27,5-8 que hoje nos atinge é bela, pedagógica e incisiva, e procede por constatações paralelas. Assim, em cada versículo, o sábio coloca diante de nós um dado retirado da experiência quotidiana, assentando logo sobre ele uma luminosa aplicação ao homem. Aproximemos a objetiva: no v. 5, o dado da experiência quotidiana é a peneira, que retém o lixo, do mesmo modo que o homem, no ato de falar, expõe os seus defeitos; no v. 6, o dado da experiência é o forno, que põe à prova a qualidade das vasilhas de barro nele introduzidas, do mesmo modo que, no ato de falar, também é posta à prova a qualidade do homem; no v. 7, o dado da experiência é o fruto, que mostra a qualidade da árvore, do mesmo modo que as palavras proferidas pelo homem mostram o bom ou mau estado do seu coração. O fecho destes paralelismos surge no v. 8, em que somos advertidos a não julgar ninguém antes de ele falar. Convenhamos que se trata de uma instrução cheia de sabedoria, que ataca a permanente tentação que nos sobrevém de antecipar os juízos, que não passam, portanto, de pré-juízos, tantas vezes errados, e, por isso, danosos para nós e para os outros. Esta bela e incisiva instrução, direitinha ao coração, deixa-nos, em termos de conteúdo e de linguagem, longe da folhagem, na estrada do Evangelho de hoje.

5. É-nos dada a graça de escutar hoje o final do Capítulo XV da Primeira Carta aos Coríntios (15,54-58), em que o Apóstolo fala aos fiéis de Corinto de então, mas também de todas as proveniências e tempos, do «mistério» da Ressurreição da carne, que Paulo anuncia «que é», mas não «como é» (v. 51), sendo sempre, porém, consequência direta, e a mais alta, da Ressurreição do Senhor. A discrição de Paulo faz o necessário contraponto com as infinitas fantasias e especulações que, acerca da ressurreição da carne, circulavam no ambiente de então. Basta dizer, na sua essência e sobriedade, que o nosso corpo será transformado, transfigurado (allagêsómetha), o que se deve, não à nossa capacidade, mas unicamente à ação do Espírito Santo (vv. 45 e 49), que vem para nós unicamente através da Humanidade Glorificada de Jesus (João 7,39; 19,34; Atos 2,33). Por isso, recomenda o Apóstolo: «Graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo» (v. 57).

6. O belo Salmo 92 continua a fazer vibrar em nós a música da semente, das árvores, das aves e dos dias breves e belos, da eternidade. O orante realça a imagem vegetal, fresca e verdejante, da palmeira e do cedro, verdadeiro brasão do justo. Quer a palmeira quer o cedro evocam uma vitalidade contra a qual em vão atenta o deserto. Além disso, o cedro, com a sua altura, simboliza a longevidade: pode durar um milénio. E a palmeira, phoínix no texto grego, com o seu duplo significado de palmeira e fénix, a ave da imortalidade, servirá à tradição cristã para celebrar a vitória da vida nova e eterna. No culto sinagogal, este Salmo é cantado à entrada do Sábado, ao pôr-do-sol de sexta-feira. Lê-se na Mishna: «Ao sábado canta-se o cântico do dia de sábado (Salmo 92), cântico para o tempo que há de vir, para o dia que será inteiramente sábado e repouso para a vida eterna. Mas é o Senhor que está por detrás de tudo isto. É por isso que é bom e belo louvá-lo!

 

As coisas do mundo

Não podem alimentar-te

Nem encher de perfume a tua vida.

 

A tua alegria não está entre as coisas passageiras.

Relâmpagos, tempestades, terramotos,

Sons e vozes da terra são estrangeiros para ti.

 

Tu, meu irmão a tempo inteiro,

Não deixes de sentir os pés no chão do terreiro,

Mas mantém também a cabeça no céu,

Ao léu,

Para poderes ouvir sempre bem a voz de Deus,

E ver bem, belo e bom,

Para tirar o argueiro

Da vista do teu irmão e companheiro.

 

Que o ódio e a violência nunca tomem conta do teu coração.

Que o teu coração seja habitação de paz.

Que nunca te seduza o som das espingardas.

Debulha o teu grão,

Reparte o teu pão,

Olha para Deus com gratidão.

 

Tens um ano inteiro

Para encher de amor o teu celeiro.

Não tenhas medo do nevoeiro.

Que todos os dias haja misericórdia

No teu coração e nas tuas mãos.

Que o Senhor seja sempre a tua Luz,

Meu irmão e irmão de Jesus.

 

António Couto

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AMAI OS VOSSOS INIMIGOS

Fevereiro 23, 2019

1. Continuamos, neste Domingo VII do Tempo Comum, a saborear o imenso Discurso da planície de Jesus (Lucas 6,27-38), em que o amor, a dádiva, a bondade, elevados até ao absurdo, constituem o fio condutor do inteiro Discurso, e também o verdadeiro cartão de identidade do discípulo de Jesus. Também aqui vale a pena atravessar o texto, deixando-nos, todavia, atravessar também pelo texto:

«A vós que estais a escutar, eu digo: “Amai os vossos inimigos, fazei bem àqueles que vos odeiam, bendizei (eulogéô) os que vos amaldiçoam (kataráomai = katá + ará [= maldição]), rezai por aqueles que vos caluniam. Àquele que te bater numa face, oferece também a outra, e àquele que te tirar o manto, deixa-o levar também a túnica. A todo aquele que te pede, dá, e àquele que levar o que é teu, não lho reclames. Como quereis que vos façam as pessoas, fazei-lhes vós do mesmo modo.

E se amais os que vos amam, que graça (cháris) vos é devida? Na verdade, também os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazeis bem aos que vos fazem bem, que graça (cháris) vos é devida? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestais àqueles de quem esperais receber, que graça (cháris) vos é devida? Também os pecadores emprestam aos pecadores para receberem outro tanto. Em vez disso, amai os vossos inimigos e fazei bem e emprestai sem esperar receber nada em troca, e será grande a vossa recompensa (misthós), e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é amável (chrêstós) para com os ingratos (acháristoi) e os maus (ponêroí).

Tornai-vos misericordiosos (oiktírmones) como também o vosso Pai é misericordioso (oiktírmôn). E não julgueis, e não sereis julgados; e não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados; dai, e ser-vos-á dado: uma medida boa, calcada, sacudida, a transbordar, será dada no vosso regaço; na verdade, com a medida com que medirdes, sereis medidos também”» (Lucas 6,27-38).

2. Convenhamos que se trata de um texto espantoso, Evangelho puro, sem glosas ou outras qualificações, que desvenda e desfaz a nossa velha lógica retributiva e respetivos comportamentos pautados pela paridade, reciprocidade e simetria, e desenha novos critérios assimétricos e gratuitos, desconcertantes para a nossa mentalidade assente nos nossos sacrossantos direitos. Se o Antigo Testamento insistia, por mais de trinta vezes, na necessidade de amar o estrangeiro, que é o outro diferente de mim, nesta página sublime do Evangelho, Jesus manda-nos amar o nosso inimigo (Lucas 6,27 e 35), que é o outro, não apenas o outro diferente de mim, mas o outro contra mim.

3. A avalanche da página evangélica cai sobre nós em três vagas sucessivas. A primeira levanta-se dos vv. 27-31. Depois do amor aos nossos inimigos (note-se bem o realismo aportado pelo adjetivo vossos, nossos, teus, meus, que não nos deixa no plano dos inimigos em geral ou virtual!), as coisas continuam, loucas e impensáveis, de acordo com a loucura de Deus (cf. 1 Coríntios 1,25), pelo caminho do paradoxo: fazei bem àqueles que vos odeiam; bendizei os que vos amaldiçoam; rezai por aqueles que vos caluniam; àquele que te tirar o manto, deixa-o levar também a túnica. Esta última maneira de fazer implica a redução à nudez, pois habitualmente, na Palestina, usavam-se apenas aquelas duas peças de roupa. Termina a primeira vaga da avalanche com a chamada «regra de ouro»: «Como quereis que vos façam as pessoas, fazei-lhes vós do mesmo modo» (v. 31). Para mais informação acerca da «regra de ouro», veja-se a análise ao Domingo V da Páscoa.

4. Se não estamos ainda submersos por esta primeira, imensa vaga, exponhamo-nos à segunda, que se levanta dos vv. 32-35, e que arrasa as nossas pretensas boas doutrinas e hábitos assentes na reciprocidade e boas maneiras, e não na graça (vv. 32-34). São referidas três situações emblemáticas: amar aqueles que nos amam, fazer bem a quem nos faz bem, emprestar para receber outro tanto ou mais. Note-se que, por exemplo, na Mesopotâmia, as taxas de juro oscilavam entre os 17 e os 50%! Só teremos direito a recompensa, que é a graça, se a nossa maneira de fazer saltar fora desta engrenagem da reciprocidade, e nos tornarmos imitadores de Deus, que também distribui a sua graça aos ingratos e maus (v. 35). Aí fica então exposta e clara a nossa recompensa, que não será expressa em outro tanto dinheiro destinado a ser abandonado com a morte, tão-pouco será expressa no bem-estar prometido aos justos no Antigo Testamento, mas na extraordinária possibilidade de nos tornarmos filhos de Deus, membros da família deste Deus que ama, ama, ama (v. 35).

5. A terceira vaga levanta-se dos vv. 36-38, e traz para a cena outra vez a «imitação de Deus» logo naquele dito de abertura: «Tornai-vos misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso» (v. 36), logo traduzido em comportamentos e estilos de vida: não julgar, não condenar, perdoar, dar (vv. 37-38).

6. Os nossos bons (pensamos nós) hábitos, não nos deixam levar esta loucura a sério. Pensamos que estes ensinamentos de Jesus são utópicos e irrealizáveis, que não são para se fazer, e assim vamos tranquilizando a nossa consciência. Sim, estamos docemente habituados e suavemente embalados pelas nossas boas maneiras ao longo de tanto tempo adquiridas. Mas chegou o tempo de renovarmos o nosso coração e o respetivo cartão de identidade! O que consta nesta altíssima carta do Evangelho não é utópico, isto é, sem lugar. É, antes, eutópico, isto é, um lugar feliz, com outros mapas, outras estradas e outras tabuadas! É possível vencer o mal com o bem (Romanos 12,14-21). Vencer sem combater, claro. Como Jesus, que desce ao nosso mundo para abraçar, absorver e absolver as nossas raivas e os nossos ódios. Como o Deus da Sabedoria, que é «o que domina a força», no belo dizer do Livro da Sabedoria 12,18.

7. Para fazer luz e receber luz deste imenso texto do Evangelho, chega hoje também aos nossos ouvidos a figura magnânima de David que, no deserto de Zif, não usou a força contra Saul, mas lhe poupou a vida, como narra a bela história do Primeiro Livro de Samuel 26,2.7-9.12-13.22-23. De facto, Saul não era apenas, como diz a bela narrativa, o «ungido do Senhor» (vv. 9 e 23), mas também dormia um sono ritual (tardemah), enviado pelo Senhor (v. 12).

8. São Paulo faz, na Primeira Carta aos Coríntios 15,45-49, um extraordinário módulo narrativo, em que põe em cena, na mesma página, lado a lado, o primeiro Adam e o último Adam e ainda nós, que levamos as marcas do primeiro, mas também as do último. E é a imagem do último que prevalecerá em nós, por obra e graça de Deus.

9. O Salmo 103 é uma das joias do Antigo Testamento e constitui um grande canto ao amor de Deus, uma espécie de prelúdio ao «Deus é amor» (1 João 4,8). Desenrola-se em dois movimentos. O primeiro (vv. 1-9) trata o amor e o perdão de Deus com sucessivos particípios hínicos, que mostram um Deus que perdoa, cura, redime, coroa de amor e misericórdia, sacia de bem, e uma série de nomes (justiça, dá a conhecer, obras, misericordioso, gracioso). O segundo movimento (vv. 10-18) põe lado a lado o amor permanente de Deus e a nossa humana fraqueza. A linha vertical (céu-terra) serve para mostrar a imensidão do amor de Deus (v. 11), escrevendo-se na linha horizontal (oriente-ocidente) a grandeza sem medida do seu perdão (v. 12). O belíssimo v. 13 passa a imagem inultrapassável de Deus como um pai com ventre maternal (rehem). A fragilidade humana aparece traduzida nas imagens do pó (v. 14) e da erva (vv. 15-16), em contraponto com a estabilidade do amor de Deus (v. 17). Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas deste grande Salmo 103, que alguns autores já chamaram o Te Deum do Antigo Testamento.

 

Ousar pôr o coração à escuta do Evangelho

É deixar-se atravessar por uma avalanche de graça

Que nos arrastará até ao coração de Deus,

E nos obrigará a mudar quase tudo

Na nossa vida e na nossa agenda,

Na nossa cómoda maneira

De nos sentarmos à lareira

Simplesmente a ver passar os dias

E a deitar contas à vida e à carteira.

 

Amar os inimigos

Não é coisa que eu pudesse sequer imaginar,

Quanto mais fazer ou praticar.

 

Oferecer a outra face a quem me bate,

Dar, dar tudo, dar o manto e a túnica,

Deixar-se roubar e não reclamar,

Amar os maus, os maldizentes, os delinquentes,

O repugnantes, os incompetentes,

Amar, enfim, até ao absurdo,

Eis o que Jesus me vem dizer que Deus faz,

Que Deus faz por mim,

E que é por isso que eu também devo fazer assim,

Deixando o Evangelho ganhar corpo em mim.

 

António Couto


E JESUS DESCEU PARA O MEIO DE NÓS

Fevereiro 16, 2019

1. Conta-nos São Lucas que Jesus saiu (exérchomai) para a MONTANHA para ORAR, e estava (ên: imperf. de eimí) a passar (dianyktereúôn: part. presente de dianyktereúô) a noite inteira em ORAÇÃO (Lucas 6,12). Note-se que Jesus se separa para rezar. E a expressão usada (imperfeito do verbo «ser» seguido de particípio presente) indica que Jesus rezou, sem parar, a noite inteira. O Evangelho de Lucas recorda-nos que Jesus reza sempre nos momentos importantes da sua missão. Quando amanheceu, continua São Lucas, Jesus chamou os discípulos e escolheu «Doze» a quem chamou Apóstolos, seguindo-se logo a lista dos seus nomes (Lucas 6,13-16). De notar que também Mateus 10,2 e Marcos 6,30 sabem que os Doze são Apóstolos, mas apenas Lucas refere que foi o próprio Jesus a dar-lhes este nome (Lucas 6,13). Notemos ainda que o Apóstolo é o enviado autorizado, que fala em nome de quem o envia. Não está autorizado a dizer palavras suas ou a expressar a sua opinião. Fica totalmente vinculado àquele que o envia. A primeira nota que o caracteriza é a fidelidade.

2. Depois desta introdução, parece-me oportuno, pela sua importância, inserir o texto do Evangelho que hoje será proclamado (Lucas 6,17.20-26), sem o corte dos vv. 18-19:

 

«Tendo descido com eles, ficou de pé num lugar plano, e um grupo numeroso dos seus discípulos e uma multidão numerosa do povo (laós) de toda a Judeia e de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon, que tinham vindo para o escutar e fazer-se curar das suas doenças. E aqueles que eram atormentados por espíritos impuros eram curados, e toda a multidão procurava tocá-lo, porque uma força saía dele e curava todos. E tendo levantado os seus olhos para os seus discípulos, dizia:

 

Felizes vós, os pobres,

porque vosso é o reino de Deus;

Felizes vós que tendes fome agora,

porque sereis saciados;

Felizes vós que chorais agora,

porque rireis;

Felizes sois vós, quando os homens vos odiarem, e quando vos expulsarem e insultarem e rejeitarem o vosso nome como mau por causa do Filho do Homem.

 

Mas ai de vós os ricos,

porque tendes a vossa consolação;

Ai de vós, que estais saciados agora,

porque tereis fome;

Ai de vós, que rides agora,

porque andareis aflitos e chorareis;

Ai de vós, quando todos os homens disserem bem de vós:

era assim que os seus pais tratavam os falsos profetas» (Lucas 6,17-26).

 

3. O Evangelho deste Domingo VI do Tempo Comum começa com esta descida para um lugar plano, que não tem de ser necessariamente a planície ao nível do mar da Galileia; pode muito bem tratar-se de um planalto acessível a uma grande multidão, doentes incluídos. Vê-se e compreende-se bem que o Discurso de Jesus é, em Lucas, mais breve e apresentado num cenário plano (Lucas 6,17-7,1), bem diferente do Sermão da Montanha de Mateus, mais longo e encenado nas alturas (Mateus 5,1-7,19). Se Lucas quer pôr Jesus em contacto com toda a gente, inclusive com os doentes, é fácil compreender que Jesus tem de descer ao nível deles, e não os pode obrigar a subir à Montanha.

4. É significativo que o evangelista descreva esta grande multidão como POVO (laós) oriundo de toda a Judeia, Jerusalém, Tiro e Sídon (Lucas 6,17), que veio para escutar Jesus e ser por Ele curado (Lucas 6,18). Ao contrário dos outros evangelistas que praticamente o ignoram, Lucas introduz este POVO (laós) profusamente no seu Evangelho. Este POVO (laós) tem conotação religiosa: é o Povo de Deus que o II Concílio do Vaticano consagrará. O que faz e define este POVO (laós) não é nenhum elemento étnico, nacionalista ou histórico, mas a eleição e a graça de Deus. Qualquer pessoa, de qualquer língua, nação, raça, cultura, que oiça a Palavra de Deus e lhe responda passa a fazer parte deste Povo. Neste sentido, esta multidão pode ter no seu seio elementos estrangeiros (Tiro e Sídon), mas não deixa, por isso, de ser um POVO (laós), o Povo de Deus. É igualmente significativo que todos tenham vindo ouvir Jesus! Aos olhos dos Apóstolos, que Jesus acabara de escolher, está ali indicado proleticamente o caminho da futura evangelização.

5. Então, Jesus, de pé, e «tendo levantado os olhos» como um profeta (em Mateus «sentou-se» como um mestre), declarou de forma direta e incisiva, em 2.ª pessoa, como fazem os profetas (Mateus usa a 3.ª pessoa, estilo sapiencial, sereno e pedagógico), bem-aventurados por Deus os POBRES, os FAMINTOS de agora, os que CHORAM agora, os REJEITADOS ou DESCARTADOS de agora. Lucas é mais radical e direto do que Mateus. Às quatro bem-aventuranças junta, em contraponto, quatro mal-aventuranças, declarando malditos por Deus os RICOS de agora, os FARTOS de agora, os que RIEM agora, os que RECEBEM APLAUSOS agora. As mal-aventuranças são introduzidas por um «Ai», fórmula técnica para introduzir anúncios de desgraça no discurso profético.

6. Lucas esclarecerá mais à frente, quando for contada a história do RICO FARTO e do POBRE LÁZARO (16,19-31), que os FARTOS não são demovidos pelos profetas nem tão-pouco por um morto que ressuscite! E esta parábola do homem Rico e do pobre Lázaro, que escutaremos no Domingo XXVI, é também o melhor comentário ao texto das bem-aventuranças e mal-aventuranças de hoje.

7. Jeremias 17,5-8 faz boa companhia ao Evangelho de hoje. O profeta expõe em discurso profético, abrindo com a clássica fórmula do mensageiro que soa: «Assim disse o Senhor», um refrão de tipo sapiencial que percorre toda a Escritura de lés a lés: «MALDITO o homem que confia no homem, afastando-se do Senhor;/ BENDITO o homem que confia no Senhor, pondo nele toda a sua confiança». O primeiro assemelha-se ao tamarisco do deserto, mirrado e amargo, que mora numa terra salitrada e estéril; o segundo é como uma árvore viçosa plantada junto da água boa.

8. A mesma temática e até as mesmas imagens vegetais enchem o Salmo Responsorial de hoje (Salmo 1): o homem que recita a instrução do Senhor dia e noite é como a ÁRVORE plantada e que dá fruto; o malvado é como a PALHA que o vento dispersa. A ÁRVORE plantada está de pé, respira o vento, como o homem, e dá fruto; a PALHA não respira o vento, mas é levada pelo vento; e não dá fruto, mas é a casca do fruto. É também fácil entender que é a mesma lição que encontramos na antítese das «bem-aventuranças / mal-aventuranças» do Evangelho de hoje.

9. A leitura semi-contínua do Apóstolo (1 Coríntios 15,12.16-20) prossegue hoje com a temática fundamental da ressurreição, tratada de forma notável em 1 Coríntios 15, cuja primeira parte foi lida no Domingo passado. Aí, Paulo expunha o acontecimento da Ressurreição de Jesus Cristo como centro da pregação apostólica e da fé das comunidades cristãs.

10. Hoje, Paulo começa por constatar que alguns membros da comunidade de Corinto não dão ouvidos aos conteúdos da pregação apostólica e negam simplesmente a ressurreição. E fazem-no em nome da mentalidade platónica, que considera a «carne» como elemento mau e desprezível, condenado à destruição, sendo a «alma» um elemento divino que, libertado da «carne», voltará a formar uma espécie de deus cósmico. Vê-se bem que segundo esta conceção errónea, a criação é má, ao contrário da declaração de Deus, que lhe apõe, por sete vezes, o carimbo de «boa» (Génesis 1). Paulo reage vigorosamente contra esta mentalidade instalada na comunidade, e prega aquilo que os Padres chamarão a «Economia da carne». «Cristo ressuscitou, primícias dos que adormeceram». Ele é, portanto, o primeiro Homem a ser ressuscitado. E se é o primeiro, então constitui certeza para os «outros» depois dele, que abre a série. Nele a morte foi vencida para todos. A esperança fundamenta-se na certeza deste Acontecimento principal da Vida do Senhor, que dá significado a todos os outros acontecimentos da sua Vida, ao inteiro Antigo Testamento, à Igreja e à vida dos homens.

11. É este acontecimento fundante que a Igreja Una e Santa, Esposa do Senhor, celebra jubilosamente Domingo após Domingo. Também hoje, portanto.

 

Há dois mil anos Jesus subiu ao monte,

E lá passou a noite em oração.

Quando se fez dia,

Escolheu os Doze,

E com eles desceu para o meio do povo,

Que de toda a parte tinha vindo

À procura da Palavra,

Que sabiam carregada de Luz e de Esperança.

 

Jesus desceu,

Ficou no meio deles,

Pertinho deles,

Ao alcance de muitas mãos que o tocavam.

Havia lá muitos doentes:

Claro que não podiam subir ao monte.

 

Desceu Jesus,

Como sempre desce Deus

Ao encontro dos seus filhos,

E declarou felizes

Os pobres,

Os famintos,

Os que tinham lágrimas nos olhos e na voz,

Os descartados.

 

Mas advertiu os ricos,

Os fartos,

Os que riam,

Os que iam de sucesso em sucesso,

Sem que os seus olhos vissem

E os seus ouvidos ouvissem

As lágrimas dos pobres e doridos.

 

Os Apóstolos estavam lá

E viram tudo

E ouviram tudo,

E nós também hoje com eles

E Jesus no nosso meio.

Ficamos todos a saber

Como fazer acontecer o Evangelho.

 

António Couto