A DOENÇA DO CORAÇÃO DE PEDRA (sklêrokardía)

Outubro 1, 2021

1. Além dos quatro episódios que decorrem fora das fronteiras de Israel (três na Decápole, a oriente do Mar da Galileia, e um na região de Tiro, a noroeste de Israel) (ver Domingo XXIII), a ação de Jesus decorre quase toda na Galileia (Marcos 1-9) e em Jerusalém (Marcos 11-16), tendo pelo meio a viagem da Galileia para Jerusalém (Marcos 10): em Marcos 10,1, Jesus sai de Cafarnaum, onde esteve em Marcos 9,33-50; em Marcos 10,46, chega a Jericó; em Marcos 11,1, está nas imediações de Jerusalém. Serve este levantamento topográfico para situar o episódio do Evangelho deste Domingo XXVII (Marcos 10,2-16) após a saída de Cafarnaum, a caminho da Judeia e de Jerusalém, viagem feita, não pela Samaria, mas descendo pela margem oriental do Jordão, talvez na Pereia, onde a comunidade judaica era considerável (Marcos 10,1a). O narrador ainda nos informa que as multidões (óchloi), única vez no plural em Marcos, vieram ter com Ele, que, como de costume (hôs eiôthei), expressão só aqui usada em Marcos, os ensinava (Marcos 10,1b).

2. É também aqui que os fariseus, mais uma vez «para pôr Jesus à prova» (peirázô) (cf. 8,11; 12,15), lhe perguntam «se é lícito (éxestin) ao homem repudiar (apolýô) a sua mulher» (Marcos 10,2). A pergunta é uma armadilha, por mais de uma razão. Primeiro, porque este modo de fazer era já usual entre os judeus. Se Jesus desse uma resposta negativa, corria o risco de provocar um alvoroço entre os homens que o ouviam. Segundo, porque podia acentuar o conflito com Herodes Antipas, que já tinha feito prender João Batista, por este ter protestado contra a sua relação irregular com Herodíades (Marcos 6,18). Terceiro, porque se desse uma resposta positiva, corria o risco de entrar numa discussão académica interminável e inútil, pois eram conhecidas interpretações diversas, entre o rigorismo e o laxismo. Por exemplo, a escola rigorista de Shammai era de opinião que a separação só devia ser permitida em caso de adultério, enquanto que a escola liberal de Hillel achava que a separação era permitida por tudo e por nada.

3. Portanto, Jesus não se deixa apanhar na armadilha, e pergunta por sua vez aos fariseus: «O que é que vos ordenou (entéllomai) Moisés?» (Marcos 10,3). Eles tiveram de responder: «Moisés permitiu (epitrépô) escrever uma ata de divórcio e repudiar» (Marcos 10,4). Os fariseus estão a citar o Livro do Deuteronómio 24,1, e vê-se que interpretavam esta prescrição de Moisés como permissão do divórcio. De onde se deduzia que os homens (só os homens) têm o direito de repudiar as suas mulheres, direito a que as mulheres não tinham direito, pois não podiam separar-se dos seus maridos. Ouvida esta resposta, Jesus entra então na argumentação a sério, referindo que Moisés não permitiu o divórcio, mas apenas quis pôr ordem e humanidade numa situação que os homens tinham criado, e que gerava muitas complicações. Na verdade, a mulher repudiada, se o divórcio não fosse devidamente documentado, continuava ligada ao seu anterior marido, e não ficava livre para se voltar a casar; podia ser vista como uma mulher casada em fuga, e, caso se viesse a ligar a outro homem, podia ser acusada de adultério e ser condenada à morte por lapidação (cf. Deuteronómio 22,22).

4. Tirado isto a limpo, Jesus declara então que esta prescrição de Moisés não se destina a permitir o divórcio, mas a pôr os necessários limites à «dureza do coração» ou «esclerose do coração», a famosa sklêrokardía dos homens, a verdadeira responsável pelo divórcio (Marcos 10,5). Esclarecido então o alcance da prescrição de Moisés, meramente corretiva de uma situação que a «esclerose do coração» dos homens criou, e que, lendo bem o Livro do Deuteronómio 10,12-22, significa o fechamento do homem a Deus, à sua bondade, à sua grandeza e à sua vontade (ver a expressão em Deuteronómio 10,16 e Jeremias 4,4), Jesus passa logo a expor (Marcos 10,6-8) a vontade de Deus sobre o casal humano, como se pode ver lendo os relatos da criação: «Deus os fez homem e mulher» (Génesis 1,27); «o homem deixará o seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois serão uma só carne» (Génesis 2,24). E conclui: «Não separe o homem o que Deus uniu» (Marcos 10,9).

5. Depois, em casa (Marcos 10,10), lugar da intimidade, Jesus explica aos seus discípulos que tanto incorre em adultério o homem como a mulher que abandonam os respetivos cônjuges e casam com outros (Marcos 10,11-12). Com este dizer, alargado à mulher, Jesus estende o bisturi também à nossa sklêrokardía. De facto, aos fariseus Jesus apenas falou do homem que repudia a sua mulher e casa com outra, porque, em mundo judaico, não era permitido à mulher repudiar o marido, para casar com outro. Era, porém, permitido em mundo grego. E é sabido que os destinatários diretos do Evangelho de Marcos vivem no mundo greco-romano.

6. E Jesus mostra de novo aos seus discípulos que é necessário romper a crosta da nossa importância, que nos separa de Deus e dos pequeninos (Marcos 10,13-16). Também aqui se trata de sklêrokardía. Em boa verdade, envoltos na crosta da nossa importância, já não sabemos receber. E o reino de Deus não é para comprar ou conquistar, mas unicamente para receber. Daí a importância das crianças para Jesus. Não é a sua inocência e candura que aqui é salientada, mas o facto de serem dependentes e confiantes.

7. Aí está, então, o chão do Evangelho de hoje, a vontade de Deus expressa na Criação, a que Jesus faz referência (Génesis 2,18-24). A extraordinária narrativa abre com a constatação enfática por parte de Deus de um problema gravíssimo que pode acarretar a morte do homem. Este problema chama-se «solidão». Deus é levado a afirmar: «Não é, de facto, bom (lo’-tôb) que o HOMEM (ha’adam) esteja só (lebaddô)» (Génesis 2,18a). Note-se que este enfático «não-bom» colide com o «sete vezes bom» e o «SIM» que enchia Génesis 1,1-2,4a, ao todo 452 palavras em que não soa um único «não», e o «bom» se faz ouvir por sete vezes.

8. Tendo constatado o o grave perigo que ameaça o homem, Deus trata logo de remediar a situação, propondo-se «fazer (‘asah) um auxílio (‘ezer) a ele correspondente (kenegdô)» (Génesis 2,18b). Note-se outra vez o uso do masculino ‘ezer, e não do feminino ‘ezrah. Neste contexto, em que ‘ezer designará a mulher, mas não só, o uso do masculino é fruto com certeza de uma escolha premeditada, sendo, por isso, de lhe atribuir especial importância. Na verdade, a exegese moderna mostrou que o título «auxílio» (‘ezer), que aparece no Antigo Testamento por 21 vezes [= Génesis 2,18.20; Êxodo 18,4; Deuteronómio 33;7.26.29; Salmo 20,3; 33,20; 70,6; 89,20; 115,9.10.11; 121,1.2; 124,8; 146,5; Isaías 30,5; Ezequiel 12,14; Os 13,9; Daniel 11,34], é, na maioria dos casos, excetuadas as duas menções do Génesis, um título dado direta ou indiretamente a Deus, que é o verdadeiro «auxílio» do homem. Trata-se, em todos os casos, de um auxílio pessoal, e não instrumental, sendo mesmo um auxílio indispensável em situações de extremo perigo, não longe da fronteira que separa a vida e a morte. Qual é então o perigo que ameaça o homem em Gn 2,18? É certamente a solidão. E a verdadeira solidão chama-se coisificação. Sim, o homem pode perder-se no meio de objetos, coisificando também Deus e os outros. É Deus normalmente o auxílio do homem. A mulher surge na mente de Deus com o título grande de «auxílio» do varão, assim como o varão é o «auxílio» da mulher, e qualquer ser humano deve ser o «auxílio» de outro ser humano. Está assim desvendado o estranho uso, neste contexto, do masculino ‘ezer.

9. Por sua vez, a expressão kenegdô assenta na preposição neged [= ao lado de, diante de, contra], mas remete ainda para o hiphil higgîd [= narrar], e, portanto, para um sujeito de palavra, deixando entrever que o «auxílio» que Deus se propõe fazer seja alguém que saiba estar «ao lado de» alguém, não de forma tirânica e prepotente, mas apto para a doçura da palavra.

10. É então que, de um lado (tsela‘) do ser humano, Deus «constrói» (banah) a mulher (’ishshah) (Génesis 2,22). O texto diz tudo. Sendo um lado, fica logo dito que a mulher e o homem, juntos, são dois lados, que formam uma unidade, como os dois lados de uma porta ou de uma janela. Não se pode destruir um sem destruir também o outro. Por outro lado, ao usar o verbo «construir» (banah) para a mulher, fica já igualmente dito, por assonância, o mundo da mulher: «filhos» (banîm), «casa» (bêt). Quanto a ’ishshah, é simplesmente o feminino de ’îsh.

11. Ainda que não tenhamos reparado nisso, tivemos de esperar até agora, para ouvirmos pela primeira vez a voz humana a ecoar no cenário da criação. E é significativo que tal suceda para o homem expressar o seu alvoroço de noivo, saudando extasiado a mulher-noiva com a expressão familiar «osso dos meus ossos e carne da minha carne» (Génesis 2,23), primeiro canto de amor e ao amor que se encontra nas páginas da Bíblia. O relato da aparição da mulher não deve fazer esquecer que é relatada, em estreito paralelismo, a aparição da linguagem.

12. E porque são o auxílio um do outro, o lado um do outro, identificando-se um pelo outro (veja-se o jogo de ’îsh e ’ishshah), «o homem (’îsh) deixará o seu pai e a sua mãe, e se unirá amorosamente à sua mulher (’ishshah), e serão [os dois] uma só carne» (Génesis 2,24). Convenhamos que a expressão é insólita! No sistema patriarcal, é a mulher, e não o homem, que deixa a sua família para se unir ao seu marido. Mas o insólito serve aqui talvez para realçar a grande força do amor, e para mostrar que é só outro amor, e só ele, que pode separar do primeiro amor, o amor dos pais. De resto, o texto não pretende, com certeza, fazer qualquer referência a um sentido matriarcal, mas quer sobretudo acentuar que são os dois a deixar um amor anterior, porque encontraram um amor mais forte. «Forte como a morte o amor»! (Cântico dos Cânticos 8,6). Inegociável o amor. Não separe o homem o que Deus uniu.

13. Mas há, porventura, outra temática que se insinua em filigrana nesta expressão: a temática do único eleito, abençoado e portador de bênção para todos os povos, peregrino da liberdade, chamado a deixar-se transformar em «outro homem». De facto, o relato de Abraão abre com a interpelação do Senhor para uma viagem transitiva e intransitiva (lek-leka), para deixar a sua terra e a sua parentela e ir… (Génesis 12,1-3). É paradigmático que Abraão deixe a casa paterna. É nessa estrada que é colocado Adam, o pai da humanidade, e a inteira humanidade consigo. Mas também os primeiros reis pisam essa estrada. É assim que Saul vai da casa do seu pai à procura das jumentas perdidas (1 Samuel 9,3), e acaba por ser ungido rei (1 Samuel 10,1), sendo transformado em um «homem outro» (’îsh ’aher) (1 Samuel 10,6), com um «coração outro» (leb ’aher) (1 Samuel 10,9). E também David anda fora de casa, quando Samuel o procura para o ungir como rei (1 Samuel 16,11-13). E também a amada do Cântico dos Cânticos, símbolo de Israel e da inteira humanidade amada e desposada por Deus, é mandada entrar na estrada de Abraão, mediante aquele «Vai para ti» (lekî-lak) (Cântico dos Cânticos 2,10). Em jogo está a verdadeira vocação-missão de alteridade, sendo que a alteridade bem compreendida implica outra maneira de compreender, outro coração portanto. Esta é certamente a grande temática já instalada no texto fundacional de Génesis 2,24. A não ser assim, nem o texto faz sentido, pois não se vê bem como é que este primeiro homem, modelado da terra, possa deixar o seu pai e a sua mãe!

14. Sim, as 45 palavras hebraicas do salmo 128 enchem-nos de paz, luz, serenidade. Respira-se também a fragrância da videira e a juventude da oliveira. Mas a família cantada neste Salmo não está fechada sobre si mesma, mas aberta à comunidade por Deus abençoada. Portanto, do perímetro da casa e da mesa em que vivem e se sentam pais e filhos, avista-se e sente-se a paz da Cidade Santa, Jerusalém. Não é de admirar que a tradição judaica tenha sabido extrair deste Salmo as «sete bênçãos para as núpcias». Saboreemos o perfume deste extrato: «Bendito, ó Senhor, que concedeste ao esposo e à esposa júbilo, canto, gozo, alegria, amor, paz, fraternidade e amizade. Possam depressa e para sempre, ó Senhor, ressoar gritos de gozo em Jerusalém, cidade santa. Possa levantar-se, cheia, a voz jubilosa do esposo e da esposa e os coros gozosos de quem os acompanha na sua alegria. Bendito és tu, Senhor, que alegras o esposo com a sua esposa!».

15. E assim também com aquele que incarnou no nosso mundo, que deu a sua vida por nós, e sacerdotalmente nos santifica, e não se envergonha de nos chamar seus irmãos. É assim a homilia da Carta aos Hebreus que hoje iniciamos (2,9-11).

António Couto

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OH SUBLIME CIÊNCIA DAS ALTURAS!

Fevereiro 22, 2020

1. Neste Domingo VII do Tempo Comum, continuamos a escutar nas alturas, em alta frequência e alta fidelidade, o que não se pode escutar cá por baixo, em onda média, no meio do barulho e do entulho. E soam hoje, aos nossos ouvidos atónitos, no nosso coração atónito, as duas últimas das «seis antíteses» proferidas por Jesus no SERMÃO DA MONTANHA, e referentes à lei de talião e ao amor ao próximo (Mateus 5,38-48).

2. Diz a conhecida «Lei de talião» – do latim talio, talis [tal, igual] ou ius talionis [lei do corte ou contusão] –, assim formulada no Livro do Êxodo: «vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão» (Êxodo 21,24-25). Formulação semelhante desta Lei já se encontra, de resto, nos parágrafos 196 e 197 do famoso código de Hammurabi, que remonta mais ou menos a 1700 anos antes de Cristo. E, ao contrário do que se diz habitualmente, esta Lei não representa a barbaridade, mas um avanço civilizacional, pois assenta, não na multiplicação desenfreada da vingança e da violência, mas na sua contenção, pois condena o agressor a receber apenas a sanção igual àquela que ele provocou à vítima.

3. Bem diferente é a chamada Lei da vingança desenfreada, traduzida, por exemplo, no famoso «Cântico da espada» de Lamec, que se expressa assim no Livro do Génesis: «Eu matei um homem por uma ferida, uma criança por uma contusão. Sim, Caim é vingado sete vezes, mas Lamec setenta e sete vezes!» (Génesis 4,23-24). O que se vê aqui é que Lamec respira uma vingança irracional, um ódio irracional. O que ouvimos nas alturas da Montanha é que Jesus respira e ensina um amor irracional, até ao paroxismo, ao absurdo e à estupidez, dissolvendo completamente os ódios, vinganças e violências do «Cântico de Lamec», mas ultrapassando também a fria simetria da «Lei de talião». «Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho, dente por dente”. Porém, eu digo-vos: “Não resistais ao homem mau. Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda; se alguém te levar ao tribunal para ficar com a tua túnica, oferece-lhe também o manto; se alguém te forçar a acompanhá-lo durante cinco km, acompanha-o durante dez!”» (Mateus 5,38-41). Oh sublime ciência das alturas!

4. E Jesus continua em alta sintonia, altíssima alegria, altíssimo amor, estendendo o amor para além dos círculos restritos das nossas simpatias, até aos nossos próprios inimigos! Amor assimétrico, que Jesus ensina agora nas alturas, mas que praticará e ensinará até à Cruz! Ele leva até ao alto do Monte das Bem-Aventuranças e até ao alto do Calvário os nossos ódios desenfreados e a nossa fria justiça distributiva, e restitui-nos em troca o perdão excessivo e o amor transbordante.

5. Ao tempo de Jesus, o panorama do judaísmo palestinense era dominado por duas escolas: a escola conservadora e rigorista de Shammai e a escola liberal de Hillel. Conta-se que, um dia, um homem se terá apresentado na escola de Shammai, e fez ao mestre um estranho pedido: «quero que», diz o homem, «enquanto eu me mantiver apenas com um pé no chão, tu me expliques toda a Lei». Diz-se que Shammai se limitou a pegar na sua vara de mestre e a correr o homem pela porta fora, pois era óbvio que o homem fazia um pedido impossível de cumprir, tal era a vastidão da Lei, e o pouco tempo concedido para a sua explicação. Mas o homem não desanimou e dirigiu-se à escola de Hillel, a quem formulou o mesmo pedido. E Hillel terá respondido de pronto: «Nada mais fácil: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti!”».

6. A esta sentença de Hillel, na sua formulação negativa, deu-se o nome de «regra de ouro». Em boa verdade, ela já aparece no Livro de Tobias 4,15. É, todavia, fácil de verificar, que esta sentença é de fácil cumprimento. Dado que o seu teor é negativo, para a cumprir, basta a alguém cruzar os braços e nada fazer. Procedendo assim, nada fará de inconveniente a ninguém, cumprindo assim escrupulosamente a sentença formulada.

7. Tentando talvez evitar a inação acoitada na formulação negativa anterior, os Evangelhos apresentam desta máxima uma formulação positiva: «Faz aos outros o que queres que te façam ti!» (Mateus 7,12; Lucas 6,31). Levando a sério esta formulação, já não é suficiente jogar à defesa e nada fazer, mas é, de facto, requerido fazer alguma coisa. Seja como for, as duas formulações apresentadas, quer a negativa quer a positiva, padecem do mesmo vício: sou eu o centro, é à minha volta que tudo roda, e o que eu faço ou deixo de fazer é com o objetivo claro de que me seja retribuído outro tanto!

8. O tom positivo da referida «regra de ouro» recebe ainda outra bem conhecida formulação: «Ama o teu próximo como a ti mesmo!», que atravessa a inteira Escritura: Levítico 19,18; Mateus 22,39; Romanos 13,9; Gálatas 5,14; Tiago 2,8. Mas também esta formulação é perigosa: primeiro, porque eu continuo o ser o centro, sendo eu a medida do amor devido aos outros; segundo, porque, se alguém não se ama a si mesmo (e são, infelizmente, cada vez mais os casos!), como poderá cumprir devidamente esta máxima?

9. É aqui que cai, como uma lâmina, a força do Evangelho que sai dos lábios de Jesus: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei!» (João 13,34; 15,12). Aqui, a medida não sou eu. Aqui, a medida é Jesus, o das alturas, o do alto das montanhas. Aqui, a medida é sem medida! Aqui, o amor não é interesseiro. Aqui, o amor é puro, radical, incondicional, assimétrico, sem retorno. Aqui, o amor é até ao fim! Oh sublime ciência das alturas!

10. O texto do Antigo Testamento que faz hoje companhia ao Evangelho é retirado do Livro do Levítico 19,1-2.17-18, e nele fica desenhado o caminho e a fonte da santidade: «Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo» (Levítico 19,2); mas é também tirado a limpo que o nosso caminho, isto é, o nosso comportamento para com os nossos irmãos, não pode passar nunca pelo ódio nem pela vingança, mas apenas pelo amor (Levítico 19,18), ainda que numa formulação muito simétrica: «Ama o teu próximo como a ti mesmo», a única vez, de resto, que encontramos esta formulação no AT.

11. O Apóstolo Paulo continua a interpelar, com a força do Evangelho, a comunidade cristã de Corinto e as nossas comunidades cristãs de hoje (1 Coríntios 3,16-23). Sim, diz Paulo com extrema precisão: «O Espírito Santo habita em vós» (1 Coríntios 3,16). E acrescenta ainda: «Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus» (1 Coríntios 3,22-23). Portanto, tudo e todos caminhamos para a casa do Pai; entretanto, é Cristo o único Senhor, o único caminho e o único companheiro da nossa vida.

12. O Salmo 103 é uma das joias do Antigo Testamento e constitui um grande canto ao amor de Deus, uma espécie de prelúdio ao «Deus é amor» (1 João 4,8). Desenrola-se em dois movimentos. O primeiro (vv. 1-9) trata o amor e o perdão de Deus com sucessivos particípios hínicos, que mostram um Deus que perdoa, cura, redime, coroa de amor e misericórdia, sacia de bem, e uma série de nomes (justiça, dá a conhecer, obras, misericordioso, gracioso). O segundo movimento (vv. 10-18) põe lado a lado o amor permanente de Deus e a nossa humana fraqueza. A linha vertical (céu-terra) serve para mostrar a imensidão do amor de Deus (v. 11), escrevendo-se na linha horizontal (oriente-ocidente) a grandeza sem medida do seu perdão (v. 12). O belíssimo v. 13 passa a imagem inultrapassável de Deus como um pai com ventre maternal (rehem). A fragilidade humana aparece traduzida nas imagens do pó (v. 14) e da erva (vv. 15-16), em contraponto com a estabilidade do amor de Deus (v. 17). Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas deste grande Salmo 103, que alguns autores já chamaram o Te Deum do Antigo Testamento.

 

«A santidade é a medida alta da vida cristã ordinária».

Os santos vivem, portanto, nas alturas,

Sem, todavia, levantarem os pés da terra.

 

Também Jesus se sentou no alto do Monte,

Para aí declarar felizes, felizes, felizes

Os pobres, os mansos, os aflitos,

Os famintos, os sedentos, os misericordiosos,

Os pacificadores, os perseguidos.

 

E Jesus repete estas felicitações,

E por nove vezes as atira

Contra os vidros embaciados

Do nosso empedernido coração.

 

É do alto do monte que Jesus proclama estas maravilhas.

Há coisas que só se podem dizer nas alturas.

 

Senhor Jesus,

Mestre diferente dos escribas de todos os tempos,

Ensina-nos a descobrir a sabedoria que há nos pobres

Quando estendem para nós as suas mãos abertas e vazias,

A ternura que há nos pacificadores e misericordiosos

Quando se colocam diante das nossas armas,

A esperança que há nos perseguidos e refugiados

Quando batem às nossas portas fechadas.

 

Ensina-nos, Senhor, a compreender

Que sempre foram os santos e os justos

A abrir caminhos novos e belos

Onde os poderosos só sabem estender muros e arame farpado.

 

António Couto


COMO EU VOS AMEI

Maio 18, 2019

1. No tempo de Jesus, o panorama do judaísmo palestinense era dominado por duas escolas: a escola conservadora e rigorista de Shammai e a escola liberal de Hillel.

2. Conta-se que, um dia, um homem se terá apresentado na escola de Shammai, e fez ao mestre um estranho pedido: «quero que, enquanto eu me mantiver apenas com um pé no chão, tu me expliques toda a Lei». Diz-se que Shammai se limitou a pegar na sua vara de mestre e a correr o homem pela porta fora, pois era óbvio que o homem fazia um pedido impossível de cumprir, tal era a vastidão da Lei. Mas o homem não desanimou e dirigiu-se à escola de Hillel, a quem formulou o mesmo pedido. E Hillel terá respondido de pronto: «Nada mais fácil: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti!”».

3. A esta sentença de Hillel, na sua formulação negativa, deu-se o nome de «regra de ouro». Em boa verdade, ela já aparece no Livro de Tobias 4,15. É, todavia, fácil de verificar, que esta sentença é de fácil cumprimento. Dado que o seu teor é negativo, para a cumprir, basta a alguém cruzar os braços e nada fazer. Procedendo assim, nada fará de inconveniente a ninguém, cumprindo assim escrupulosamente a sentença.

4. Tentando talvez evitar a inação acoitada na formulação negativa anterior, os Evangelhos apresentam desta máxima uma formulação positiva: «Faz aos outros o que queres que te façam ti!» (Mateus 7,12; Lucas 6,31). Levando a sério esta formulação, já não é suficiente jogar à defesa e nada fazer, mas é requerido o fazer. Seja como for, as duas formulações apresentadas, quer a negativa quer a positiva, padecem do mesmo vício: sou eu o centro, é à minha volta que tudo roda, e o que eu faço ou deixo de fazer é com o objetivo claro de que me seja retribuído outro tanto!

5. O tom positivo da referida «regra de ouro» recebe ainda outra bem conhecida formulação: «Ama o teu próximo como a ti mesmo!», que atravessa de lés-a-lés a inteira Escritura: Levítico 19,18; Mateus 22,39; Romanos 13,9; Gálatas 5,14; Tiago 2,8. Mas também esta formulação é perigosa: primeiro, porque eu continuo o ser o centro, a medida do amor aos outros; segundo, porque, se alguém não se ama a si mesmo (e são, infelizmente, cada vez mais os casos!), como poderá cumprir devidamente esta máxima?

6. É aqui que cai, como uma lâmina, a força do Evangelho de Jesus, proclamado, por graça, neste Domingo V da Páscoa (João 13,31-34): «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei!» (João 13,34), precedido por aquele precioso e carinhoso diminutivo «filhinhos» (teknía) (João 13,33), só aqui, esta única vez, colocado nos lábios de Jesus. Aqui, a medida não sou eu. Aqui, a medida é Jesus. Aqui, a medida é sem medida! Aqui, o amor não é interesseiro. Aqui, o amor é puro, radical, incondicional, assimétrico, sem retorno. Aqui, o amor é até ao fim, e obriga-nos a ter sempre como referência o Senhor Jesus e o seu modo de viver, dando a vida por amor, para sempre e para todos!

7. Este mandamento recebido (João 10,18) e dado (João 13,34; 15,12) impõe aos discípulos de Jesus de todos os tempos um estilo novo, uma nova maneira de viver e de fazer: «Como Eu vos fiz, fazei vós também» (João 13,15). Nesta formulação, o que é mais importante não é o que fazer, mas o como fazer. Neste sentido, alerta bem a Conferência Episcopal Argentina na sua Carta Pastoral Misión Continental (2009), n.º 17: «Importa considerar em primeiro lugar o que é preliminar a qualquer programa de ação. Antes da organização de tarefas, importa considerar como as vou executar, o modo, a atitude, o estilo. Desta maneira, as tarefas serão ferramentas de um estilo de comunhão, cordial, discipular, que transmite o fundamental: a bondade de Deus».

8. A lição de hoje do Livro dos Atos dos Apóstolos (14,21-27) põe outra vez diante de nós a viagem transitiva e intransitiva que a graça de Deus nos faz fazer (Atos 14,26), e de que resulta a narrativa de tudo o que Deus fez connosco (Atos 14,27) e com os pagãos, abrindo-lhes a porta da fé (Atos 14,27). É esta expressão que dá o título à Carta Apostólica Porta Fidei [«A Porta da Fé»] com que Bento XVI quis marcar o Ano da Fé, aberto em 11 de outubro de 2012, comemoração da data de abertura do Concílio II do Vaticano (11 de outubro de 1962), e encerrado (o Ano da Fé) em 24 de novembro de 2013, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo.

9. Notável a lição do Livro do Apocalipse (21,1-5). Mundo novo, com Deus, Ele mesmo, a habitar no meio de nós, verdadeiro Emanuel, que acariciará o nosso rosto e enxugará as nossas lágrimas. Com o Emanuel a habitar connosco, desaparecerão a morte, o luto, a lamentação, a dor, e também o mar que, no mundo bíblico, aparece como símbolo do caos e do mal.

10. Fica bem hoje cantar com alegria renovada o grande hino alfabético que é o Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração. Orígenes classificava este Salmo como «o supremo cântico de ação de graças», e Agostinho viu-o como «a oração perfeita de Cristo, uma oração para todas as circunstâncias e acontecimentos da vida». E enquanto saboreamos as imensas riquezas que nos vêm de Deus: a sua graça, misericórdia, amor e bondade (Salmo 145,8-9), usando, para o efeito, toda a gama de sabores e todas as letras do alfabeto, continuemos a cantar: «Abris, Senhor, a vossa mão, e saciais a nossa fome!» (Salmo 145,16).

 

A grande questão que se levanta do chão

E do “eu”

Não é de ordem gnoseológica e científica,

Acerca do que se pode conhecer

E da constituição de qualquer ser.

A grande questão que se levanta do chão

É da ordem do amor,

Acerca do que é o amor,

Se eu amo

E se sou amado.

 

Se colocares no Google a pergunta: “o que é o amor?”,

Obténs para cima de trezentos milhões de respostas.

Mas, na Bíblia, as respostas reduzem-se a uma só: dar a vida.

 

Por isso, na Bíblia, amar é amar o estrangeiro,

Que é o outro diferente de mim,

E amar o inimigo,

Que é o outro contra mim.

 

Em suma, amar é amar o próximo,

Que é aquele que está agora a passar por mim,

Aquele que agora está mais perto de mim,

Que é o significado do superlativo latino proximus.

 

Salta à vista que este amor não brota de nós,

Não está em nós a fonte deste amor.

A fonte e o modelo de um amor assim é Deus,

É Jesus que se debruça sobre o estrangeiro e o inimigo que eu sou.

 

Senhor Jesus, ensina-nos a amar sem medida, como Tu.

 

António Couto