A SOBERANIA DO AMOR

Novembro 24, 2018

1. A «Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei», com esta denominação, foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de ação, que já tinha fundado a Ação Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se dos valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós-Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, alterando-lhe a denominação para «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo».

2. «O Senhor Reina». É assim que abre o Salmo 93, que hoje cantamos. Esta locução verbal – «o Senhor reina» – é também a mais usual no Antigo Testamento para dizer Deus na ação de reinar, isto é, de salvar, justificar, perdoar, criar. Na verdade, reinar é salvar, isto é, trazer a prosperidade, o bem-estar e a alegria ao seu Povo. É esta a missão do rei bíblico. Salvar é justificar. Justificar é, no seu sentido mais profundo, transformar um pecador em justo. Justificar é, portanto, perdoar. Neste profundo sentido bíblico, justificar e perdoar são ações que só Deus pode fazer, dado que, transformar um pecador em justo é igual a criar ou recriar. E da ação de criar também só Deus é o sujeito em toda a Escritura. Já se sabe que o Novo Testamento transforma o ativo «Deus Reina» no mais abstrato «Reino de Deus».

3. Tanta e quase indescritível riqueza, a de um Deus, que o Livro de Daniel 7,3-12 apresenta solenemente sentado no seu trono de Luz e de Fogo purificador, que inutiliza o poder das quatro bestas enormes saídas do mar com aspeto terrível, e que se assemelham a um leão com asas de águia, um urso com costelas na boca, um leopardo alado com quatro cabeças, e um monstro metálico aterrorizador, com enormes dentes de ferro que tudo tritura, cospe e espezinha debaixo das enormes patas. Tinha ainda dez chifres na cabeça, mas nasceu-lhe entretanto um outro mais pequeno e insolente, com uma boca que proferia palavras arrogantes. Estas bestas representam quatro impérios: babilónio, medo, persa e grego (de Alexandre Magno e seus sucessores). Os dez chifres são os reis da dinastia Selêucida, e o décimo primeiro é Antíoco IV Epifânio (175-163). O tribunal divino toma assento para julgar o arrogante Antíoco, que é morto e destruído. E vê-se então, em contraponto com as bestas que saem do mar, símbolo da desordem e do mal, o Filho do Homem que vem sobre as nuvens, do mundo celeste, portanto. A ele é entregue o reino eterno, não assente no poder prepotente da brutalidade, mas no poder manso do Amor (Daniel 7,13-14).

4. No Livro do Apocalipse 1,5-8, este Filho do Homem tem um nome. Chama-se Jesus Cristo. Aparece igualmente sobre as nuvens do céu e ostenta, entre outros, o belíssimo título de «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5). E é por este Amor levado ao extremo que vence, sem combater, este combate, amando, abraçando, sofrendo, sorvendo e dissolvendo o poder da brutalidade, como sucede aos poderosos da terra na batalha de Harmagedôn (Apocalipse 16,14 e 16; 17,14; 19,11-21). Também não é assim de admirar que, neste grande Livro do Apocalipse, o mar, que já vimos no Livro de Daniel como fonte da confusão e do mal, deixe de existir (Apocalipse 21,1). Vem assim a toda a luz a soberania nova do Filho do Homem, que é Jesus, «Aquele que nos ama». A sua soberania é o Amor, que é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). É Primeiro, e, por ser Primeiro, é também Último. Se é Primeiro e é também Último, então o Amor é a soberania verdadeira, a única soberania portanto, porque tudo o resto cai e fica pelo caminho. Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o poder velho e podre da violência e da brutalidade das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é de sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal, que se foi insinuando nas pregas do nosso coração. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor frágil que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa prepotência!

5. Tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos, e apenas aumentaria a violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, sofrendo-a, dissolvendo-a e absolvendo-a. É assim que o Amor Reina, Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Judeus e Pilatos representam, no Evangelho de hoje (João 18,33-37), os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência e estupidez. Os quatro Evangelhos documentam a pergunta de Pilatos a Jesus: «Tu és o rei dos Judeus?» (Mateus 27,11; Marcos 15,2; Lucas 23,3; João 18,33). Nos sinóticos, Jesus dá uma resposta breve: «Tu o dizes» (Mateus 27,11; Marcos 15,2; Lucas 23,3), para logo se remeter a um silêncio habitado e teológico (Mateus 27,12; Marcos 15,4; Lucas 23,9), à maneira do Servo de YHWH, Cordeiro conduzido ao matadouro, mas que não abriu a boca (Isaías 53,7). João, ao contrário, apresenta um longo diálogo entre Jesus e Pilatos, em que o ponto mais alto está nas palavras de Jesus: «O meu reino não é deste mundo; o meu reino não é daqui» (João 18,36). E explica bem Jesus a Pilatos e a nós que, se o seu reino fosse deste mundo, daqui, lá estariam certamente, para o defender, as suas forças militares. Em vez dessa quinquilharia, o seu Reino assenta num Amor novo e subversivo, que não pode deixar de amar a nossa violência até ao fim e ao fundo, sorvendo-lhe todo o veneno.

6. As coisas são de tal ordem, tão novas, que, daqui para a frente, a partir da entrada de um tal amor no mundo, todas as formas de poder se devem considerar superadas. Na verdade, Jesus é Rei na medida em que contrapõe o amor ao poder. A Igreja participa nesta soberania de Cristo, assumindo até ao fim a mais humilde e radical atitude de serviço à humanidade, não servindo-se da humanidade, mas servindo a humanidade em cada ser humano, de acordo com o “código da autoridade cristã”: «Sabeis que aqueles que se consideram chefes das nações, as dominam, e os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não será assim entre vós; ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós, seja vosso servo, e aquele que queira ser o primeiro entre vós, seja escravo de todos. Na verdade, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos» (Marcos 10,42-45). Compete à Igreja manter bem aberto este golpe que Cristo infligiu a qualquer forma de poder e a todo o mal.

7. Vem, Senhor Jesus! Ilumina com a tua Luz nova as trevas, as pregas e as pedras do nosso coração empedernido. Reina sobre nós, Salva-nos, Justifica-nos, Perdoa-nos, Recria-nos. Faz-nos outra vez à tua Imagem. Dissolve a besta brava que há em nós e que, à imagem de Caim, não fala, mas trucida e come o outro. Hoje é o Dia da celebração de um amor novo e de uma nova ordem assente, não no poder, mas no amor.

António Couto

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A (PRO)VOCAÇÃO DA SANTIDADE E DA FELICIDADE

Outubro 31, 2018

1. Dia de Todos os Santos. Deus é a Santidade. Três vezes Santo. Santo, Santo, Santo. Santo, na língua hebraica, diz-se qadôsh, cujo significado mais consistente é separado. Separado de quê ou de quem, podemos perguntar. Da sua criação? Parece que não, pois o Deus da Bíblia olha para ela e por ela com beleza e bondade. De nós? Obviamente não, pois o Deus da Bíblia bem vê e vê bem os seus filhos queridos, ouve a nossa voz, conhece as nossas alegrias e tristezas, desce ao nosso nível e debruça-se sobre nós com carinho. Separado de quê ou de quem, então? Separado de si mesmo, eis a surpreendente identidade de Deus! Separado de si mesmo, isto é, não agarrado ao seu mundo divino e dourado para o defender ciosamente (Filipenses 2,6). Ao contrário, o nosso Deus é um Deus que sai de si por amor, para, por amor, vir ao nosso encontro. É esta realidade que se vê bem em toda a Escritura, Antigo e Novo Testamento. Paulo, na Carta aos Filipenses e na 2 Carta aos Coríntios, resume bem esta realidade ao falar de Jesus Cristo que «se esvaziou (ekénôsen) a si mesmo, recebendo a forma de escravo» (Filipenses 2,7), e «sendo rico se fez pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (2 Coríntios 8,9).

2. Sim. Se agora pararmos um pouco a contemplar a vida dos Santos canonizados e de tantos outros irmãos nossos, de extrema dedicação, simplicidade e alegria, não oficialmente canonizados, mas também Santos, pois arriscam e dão diariamente a sua vida pelos outros, compreenderemos logo que também eles, todos eles, se desfizeram ou separaram dos seus projetos, gostos, família, amigos, coisas, e se entregaram de alma e coração aos seus irmãos. Veja-se, por exemplo, e porque ainda temos presente o seu modo de proceder, a Beata Madre Teresa de Calcutá. Que dedicação, que amor, que paixão! Veja-se também, porque parece que todos o conhecemos e amamos, S. Francisco de Assis. Entenda-se, porém, sempre que somos Santos por graça, porque o Deus Santo, Ele é a Santidade, se faz próximo de nós, santificando-nos! É assim que nos tornamos, por graça, «concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Efésios 2,19). Nova cidadania. Nova familiaridade. Dêmos, pois, neste Dia Santo, graças ao Deus Santo, que nos santifica!

3. Só um Deus assim pode e sabe felicitar os pobres. Com um tom carregado de felicidade, não restritivo, mas alargado a toda a humanidade, as «Felicitações» do Rei novo atingem todas as pessoas, chegando às franjas da sociedade, às periferias existenciais, onde estão os pobres de verdade. É o grande Evangelho das «Bem-Aventuranças» ou «Felicitações» (Mateus 5,1-12), que abre o SERMÃO da MONTANHA, dito nas alturas da MONTANHA, que hoje temos a graça de escutar mais uma vez. No meio destas «Felicitações» – é por nove vezes que soa o termo «FELIZES» –, note-se a centralidade da MISERICÓRDIA (5.ª felicitação) (5,7). Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS. Aos misericordiosos será feita misericórdia. Belíssimo círculo bem no centro das Bem-Aventuranças. Notem-se igualmente as inclusões assentes na repetição da locução «reino dos céus» (1.ª e 8.ª) (5,3 e 10) e do termo «justiça» (4.ª e 8.ª) (5,6 e 10). Estas inclusões convidam-nos também ao reconhecimento de duas tábuas de felicitações, a primeira à volta da pobreza evangélica (5,3-6), e a segunda à volta da bondade do coração (5,7-10).

«5,1Vendo as multidões, subiu à montanha.

Tendo-se sentado, vieram ter com ele os seus discípulos.

2Abrindo então a sua boca, ensinava-os dizendo:

3FELIZES (makárioi / ’ashrê) os pobres de espírito (ptôchoì tô pneúmati),

porque deles é o reino dos céus;

4FELIZES os aflitos,

porque serão consolados;

5FELIZES os mansos,

porque herdarão a terra;

6FELIZES os que têm fome e sede de justiça,

porque serão saciados;

7FELIZES os misericordiosos (eleêmones),

porque lhes será feita misericórdia (eleêthêsontai);

8FELIZES os puros de coração,

porque verão a Deus;

9FELIZES os fazedores de paz,

porque serão chamados filhos de Deus;

10FELIZES os perseguidos por causa da justiça,

porque deles é o reino dos céus.

11FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem,

e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal

por causa de mim (éneken emoû)» (Mateus 5,1-11).

4. Não nos esqueçamos que continuamos na Montanha, nas alturas, pois há certas maneiras de viver e de sentir que só podem ter o seu habitat nas alturas. O Papa João Paulo II escreveu na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (2001), n.º 31, que perguntar a um catecúmeno se ele quer receber o batismo é o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta última pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo número, João Paulo II define a santidade como a «”medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto, imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.

5. Os «pobres de espírito», aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é «baixa de rûah» (shephal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23), isto é, sem espaço físico, económico, social ou psicológico. Não precisam de se afirmar. São claramente os últimos da sociedade, mas que, na sua humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois os ptochoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados, num círculo restrito, mas uma imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie.

6. É quanto assinala a majestosa multidão dos 144.000 da bela página do Apocalipse 7,2-4.9-14. 144.000, número perfeito e incontável (12 vezes 12 vezes 1000), que traduz todos os redimidos, de todas as raças, nações, povos e línguas, inumerável família dos filhos de Deus, todos com vestes brancas, porque lavadas no sangue do Cordeiro, e que jubilosamente aclamam o Deus Santo. «Somos filhos de Deus e seremos semelhantes a Ele», grande teologia da divinização por graça aportada pela página sempre nova da Primeira Carta de S. João 3,1-3.

7. Note-se ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «felizes» ou «bem-aventurados» diz-se ’ashrê, derivação do verbo ’ashar, que significa «pôr-se a caminho». Extraordinária maneira de designar os «bem-aventurados» como pioneiros, aqueles que abrem caminhos novos e bons e de vida nova e boa para o mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente e anestesiado em que vivemos.

8. Sim, disse-o no Sínodo, para mim e para todos: por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza quanto baste (Mateus 19,22; Marcos 10,22; Lucas 18,23), por sermos ricos e importantes?

9. «Esta é a geração dos que pruram o Senhor». Cantemos e aclamemos, por isso, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. Nos dois primeiros andamentos deste Salmo (vv. 1-2 e 3-6), justamente a parte Hoje cantada, destaca-se o nosso canto de amor ao Deus criador e providente (vv. 1-2), que constitui como que a abertura do inteiro Salmo, e as condições morais para viver na presença deste Deus (vv. 3-6), formuladas numa espécie de «liturgia de entrada» ou «das portas». Os fiéis, em procissão, à chegada ao Templo de Jerusalém, fazem a pregunta ritual: «Quem pode subir ao monte do Senhor,/ quem pode entrar no seu lugar santo?» (v. 3), ao que os sacerdotes respondem, apontando aquí três condições essenciais: «Mãos inocentes e coração puro», em que as mãos traduzem a ação, e o coração a intenção, isto é, o inteiro viver do homem, a sua opção fundamental, de onde decorre também o não ir atrás dos ídolos e não praticar fraudes (vv. 4-5). O terceiro andamento mostra as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, que são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia registra por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

 

«O Senhor disse: “Eu bem VI a opressão do meu povo que está no Egito,

e OUVI o seu grito diante dos seus opressores;

CONHEÇO, na verdade, os seus sofrimentos.

DESCI a fim de o libertar da mão dos egípcios

e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa,

para uma terra que mana leite e mel”» (Êxodo 3,7-8).

 

Neste quadro sublime, Deus, o Deus bíblico,

Revela a Moisés e a nós a sua identidade.

É um Deus bem atento, próximo e interventor.

É um Deus que, por amor, SAI de SI,

E não fica encerrado dentro das paredes douradas da sua eternidade.

Um Deus que SAI de SI é um Deus SANTO.

 

Atravessamos nestes dias uma mancha de tempo,

Que costumamos dedicar a todos os SANTOS,

Conhecidos e anónimos,

E aos Fiéis Defuntos.

 

Tempo de lembrar os SANTOS e a Santidade,

Que é a «medida alta da vida cristã ordinária»,

Como escreveu bem S. João Paulo II.

 

E o SANTO é aquele que SAI de SI,

É aquele que ouve com os ouvidos de Deus,

Vê com os olhos de Deus,

Fala com a língua de Deus,

Acaricia com as mãos de Deus,

Ama com o coração de Deus.

 

Senhor, ensina-nos a SAIR de NÓS,

Dos nossos interesses egoístas e egocêntricos,

E a sairmos ao encontro dos nossos irmãos pequeninos e necessitados.

Senhor, ensina-nos a ser SANTOS.

 

António Couto


SENHORA DA ASSUNÇÃO OU DA DORMIÇÃO

Agosto 14, 2018

1. Ainda que com títulos diferentes, mas com temas e conteúdos idênticos, as Igrejas do Oriente e do Ocidente, portanto a Igreja inteira, a Una e Santa, celebra no dia 15 de Agosto a maior e mais antiga festa da Mãe de Deus, a Virgem Santa Maria. No Oriente, é a festa da «Dormição» (koímêsis), enquanto, no Ocidente, prevalece a tonalidade da «Assunção» (análêmpsis).

2. O Evangelho deste grande Dia relata o belíssimo episódio da «Visitação» (Lucas 1,39-45) seguido do cântico da «Exultação» ou «Magnificat» (Lucas 1,46-56). Note-se outra vez uma pequena diferença de tonalidade: o episódio evangélico que o Ocidente conhece por «Visitação», recebe no Oriente o nome de «Saudação» (aspasmós). E o episódio que precede e motiva esta «Visitação» ou «Saudação» recebe no Ocidente o nome de «Anunciação» e no Oriente o nome de «Evangelização» (euangelismós) (Lucas 1,26-38). Verdadeiramente é a Leveza e a Alegria em trânsito, a caminho, ao ritmo do vento do Espírito, música nova, inefável e bendita. Vinda de Deus até Maria, até Isabel, até João Baptista, outra vez até Deus. Lembra uma pequena parábola rabínica que, quando David andava fugido de Saul, buscando refúgio nas montanhas (1 Samuel 22 e seguintes), um dia dependurou a sua harpa numa árvore, e adormeceu. Mas o vento, passando, fez as cordas da harpa exalar uma suave melodia. Verdadeira música do Espírito.

3. É igualmente sugestiva a intuição dos Mestres judaicos, registrada por Martin Buber nos seus «Contos dos Justos». Citando o Salmo 147,1, em que se lê: «É bom cantar ao nosso Deus», Buber apresenta logo a bela interpretação que Rabbí Elimelek dava deste versículo: «É bom se o homem faz cantar Deus nele». Música divina. Assim Maria correndo sobre os montes e saudando Isabel, em casa de quem permanece cerca de três meses, e cantando as maravilhas de Deus no Magnificat, assim Isabel bendizendo Maria e bendizendo Deus, assim João Baptista, dançando ao som dessa nova música inefável, no ventre de Isabel.

4. Maria correndo sobre os montes: feliz evocação do mensageiro de boas notícias de Isaías 52,7: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião…». Feliz evocação também do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, assim cantado pela amada: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». Assim, com este simples acorde montanhoso, o narrador e grande retratista do terceiro Evangelho traça o perfil de Maria movida, não por uma pressa qualquer, mas por uma grande notícia e pelo amor. A aclamação de Isabel: «Bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre» [= «Bendita tu e bendito Deus»], lembra o duplo «Bendito» na aclamação de Judite (13,18). A locução maravilhada de Isabel: «E de onde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?» (Lucas 1,43), remete para o atónito dizer de David: «E de onde me é dado que venha ao meu encontro a Arca do Senhor?» (2 Samuel 6,9). E a «dança de João» reclama a dança de David na presença da Arca do Senhor (2 Samuel 6,5.14.16.21). E os «cerca de três meses» de permanência de Maria em casa de Isabel, regressando então a sua casa (Lucas 1,56), não são, como vulgarmente se pensa, para indicar que Maria está presente no nascimento de João Baptista, pois este apenas é narrado no versículo seguinte (Lucas 1,57). É, antes, outra vez o acerto com a Arca do Senhor, que permanece cerca de três meses na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,11). Os acordes textuais evidentes mostram Maria como a Arca da Aliança, como, de resto, é aclamada pelo Povo de Deus, quando recita a ladainha de Nossa Senhora.

5. O que verdadeiramente me extasia e inebria é esta música outra, ventilando as cordas do nosso humano, e quase sempre orgulhoso, coração. Vem outra vez a propósito a velha sabedoria judaica, que nos legou esta bela pequena história: «Conta-se que, quando David terminou o Livro dos Salmos, se sentiu muito orgulhoso. Então disse para Deus: “Senhor do mundo, quem de entre todos os seres que criaste, canta melhor do que eu a tua glória?”. Naquele momento, apareceu uma rã que lhe disse: “David, não te envaideças. Eu canto melhor do que tu a glória de Deus”» (Sefer ha-Haggadah, 89b).

6. Aí está, a descoberto, na lição do Livro do Apocalipse (11,19; 12,1-6.10), a Arca da Aliança, a Mulher messiânica, a Igreja, Maria, grávida de um Filho que nasceu, «sinal» para sempre aceso e legível da presença viva e ativa de Deus no meio de nós, como a luz de uma vela, para a celebração festiva dos filhos de Deus reunidos. Avista-se, porém, outro «sinal» de sinal contrário, que serve para nos manter unidos e atentos no meio das dificuldades e perseguições desta vida, que, todavia, não devem toldar-nos a vista da salvação e da vitória, claramente a descoberto no horizonte onde brilha a esperança: «Agora cumpriu-se a salvação, a força e o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo» (Apocalipse 12,10).

7. O final da Primeira Carta aos Coríntios (15,20-27) põe um imenso selo de luz e de esperança na celebração luminosa deste Dia. Com a Ressurreição de Cristo salta à vista a poeira de toda a iniquidade e falsidade e morte, e já se vê a «assunção» da nossa frágil humanidade em Cristo e por Cristo até Deus Pai.

8. O belíssimo Canto de Amor, que é o Salmo 45, serve hoje para celebrar a Igreja Esposa e Mãe, e Maria Esposa e Mãe. Este belo hino, como o Cântico dos Cânticos, canta o Amor, que é sempre divino e humano. Na verdade, no amor humano pode ler-se o amor revelado por Deus, pelo que, se existe o amor, existe Deus. Não admira, por isso, que este Salmo tenha sido interpretado em clave messiânica quer no judaísmo quer no cristianismo.

9. Pela Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1 de Novembro de 1950, o Papa Pio XII proclamava a Assunção da Virgem Maria como dogma de fé. Mas é desde os primeiros séculos do Cristianismo que o Povo de Deus aclama, proclama e vive com amor intenso esta realidade. Quantas igrejas, paróquias e dioceses a têm como Padroeira! E, neste particular, este recanto Peninsular, terra de Santa Maria, não podia ser exceção. O Povo de Deus desde muito cedo aclamou a Assunção de Maria, Mãe de Deus e esperança da nossa frágil humanidade.

10. Um lugar guarda esta memória em Jerusalém. É preciso descer ao vale que corre a Oriente da cidade, o famoso vale do Cédron. Deixando à direita o Getsémani com as suas oliveiras seculares e a Basílica da Agonia de Jesus, muito próximo da Gruta dos Apóstolos ou da Prisão de Jesus, chega-se a um pátio pavimentado que dá para uma monumental fachada, que é o que resta de uma grande Igreja aí construída pelos Cruzados. Por detrás dessa fachada, estende-se uma escadaria que nos leva a uma cripta situada nas entranhas do vale do Cédron. É esta cripta que guarda um túmulo do século I, que a tradição cristã identifica com o túmulo de Maria, em forma de banco escavado na rocha, e que se apresenta bastante degradado devido à tentação dos peregrinos que, ao longo dos tempos, não resistiram a levar consigo um pedacinho da rocha que esteve em contacto com o corpo da «Bendita».

11. No dia da Solenidade da Assunção, é comovente ver aquela escadaria escura iluminada como um tapete de luz, devido às velas que os fiéis colocam em cada degrau. Conduzindo embora para um túmulo, a sensação que se cria é que aquela escadaria descendente, feita tapete de luz, abre para uma ianua coeli, «porta do céu», como também cantamos na litania de Maria.

12. No seguimento lógico da Assunção de Maria, a Igreja celebra oito dias depois, em 22 de Agosto, a Memória da Virgem Santa Maria, Rainha, proclamação também devida a Pio XII, através da Carta Encíclica Ad Coeli Reginam, de 11 de Outubro de 1954. Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos. O Rei e a Rainha não são, na Bíblia, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo dos homens. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar e a felicidade. Tal é a função do Rei e da Rainha.

 

Nossa Senhora da Assunção,

Santa Maria do verão,

Ao céu elevada,

À minha beira sentada,

Com tua roca de linho

E um novelo inteiro de carinho.

 

Olha por mim,

Fica sempre assim,

No campo e na eira,

À minha cabeceira.

É bom ter uma mãe

Como companheira.

 

Senhora da Assunção

Ou da Dormição,

Envolve-me no teu manto,

Adormece-me com o teu canto,

A tua lalação,

Pertinho do coração.

 

Vão os teus filhos

Em procissão de amor,

Atrás do teu andor,

Na mão uma flor.

Recebe-a, mãe,

E acolhe-nos sob a tua proteção,

Hoje e em cada dia,

Ave-Maria.

 

António Couto