EM NOME DO PAI E DO FILHO E DO ESPÍRITO SANTO

Junho 15, 2019

1. «Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, ao Deus que é e que era e que vem». Assim se cantará Hoje nas nossas Igrejas na aclamação ao Evangelho, fazendo ecoar e ressoar a doxologia trinitária mais conhecida e diariamente várias vezes repetida, porque amada, Hoje completada com as palavras do Apocalipse 1,8. Nos textos que Hoje a liturgia da Palavra nos oferece como alimento escolhido e abundante, Deus deixa-se entrever, desde diversos ângulos, de modo subtil, como que em contraluz ou filigrana, no seu mistério trinitário. Atravessa-os, pois, como que um fio de ouro trinitário, que nos deve atravessar e entrelaçar, por pura graça, a nós também.

2. O Evangelho do Dia, sempre proclamado e não apenas lido, constitui sempre o centro à volta do qual se organizam e ganham luz as demais páginas oferecidas da Escritura Santa. Mas constitui também para nós o principal fio de luz que deve alumiar a nossa vida. Comecemos então por ver o Evangelho de Hoje retirado de João 16,12-15. Vale a pena transcrever o texto, dada a finura das palavras de Jesus aos seus discípulos nesta última tarde da sua vida terrena:

«Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não podeis por agora carregar o seu peso. Mas quando vier (érchomai) Ele (ekeînos), o Espírito da Verdade (tò pneûma tês alêtheías), guiar-vos-á (hodêgêsei hymãs) na Verdade toda (alêtheia pâsa); com efeito, não falará (laléô) de si mesmo (aph’ heautoû), mas falará (laléô) tudo quanto tiver escutado, e anunciar-vos-á as realidades que hão de vir. Ele (ekeînos) glorificar-me-á, porque receberá (lambánô) do que é meu, e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu; por isso eu disse que recebe do que é meu, e vo-lo anunciará» (João 16,12-15).

3. Trata-se da quinta vez, no Evangelho de João, que Jesus fala da Vinda do Espírito Santo. As outras quatro são 14,16; 14,26; 15,26 e 16,7. Note-se, desde já que, nestes cinco referidos dizeres de Jesus, a Vinda do Espírito Santo aparece sempre dita no futuro. Note-se também que o verbo «vir» (érchomai) é, na Bíblia, um dos verbos próprios de Deus. No Antigo Testamento, bastas vezes se refere que o Deus Vivo «vem» ao encontro do seu povo. No Novo Testamento, um dos nomes que caracteriza Jesus é «Aquele-que-Vem» (ho erchómenos). O nosso texto e os demais falam do Espírito que «virá», com liberdade soberana, divina, pessoal, Deus de Deus. Note-se ainda que Jesus fala do Espírito, tò pneûma, neutro em grego, com o pronome masculino, ekeînos, para indicar que se trata de uma Pessoa, não de uma coisa ou de uma força, que requeriria o pronome no neutro.

4. É dito «Espírito da Verdade», entenda-se da «Verdade» de Deus aos homens dada, e que é também o Caminho e a Vida (cf. João 14,6). É, portanto, o próprio Jesus Cristo, com toda a sua vinda e vida, e com a sua palavra que o comunica. O Espírito está, portanto, particularmente vinculado a Jesus, Pessoa divina a Pessoa divina. E a sua ação consiste em «guiar» (hodegéô), isto é, conduzir, ao longo do íngreme Caminho (hodós), até à meta, que é a «Verdade toda». Portanto, conduzir a Cristo, na sua totalidade. A relação dos discípulos com Jesus, e a adesão a Jesus, é ainda parcial.

5. Releve-se ainda que o Espírito «vem» de maneira autónoma, soberana, divina, mas não fala (laléô), verbo de revelação, a partir de si mesmo. É autónomo em operar divinamente, mas não é autónomo quanto aos conteúdos da sua operação. Tal como Jesus, Deus, também o Espírito, Deus, é obediente em vista da «Verdade toda», que é uma Pessoa «falada», por assim dizer, pelo Pai, que é o Verbo, que o Espírito Santo «escuta» do Pai, divino, indizível, eterno Diálogo tripolar interpessoal, inter-recíproco, interinfinito. E assim o Espírito fala apenas «quanto escuta». Em suma, Aquele que escuta fala a nós Jesus Cristo, o Verbo de Deus, «a Verdade». Por isso, «receberá (lambánô) do que é meu, e vo-lo anunciará». Mas o que é do Filho é também do Pai. Então, o Espírito receberá o que é do Filho, e, portanto, também do Pai, e é isso, e só isso, que anunciará. Entre o Pai e o Filho tudo é comum: a Vida, a Divindade, a Glória. Três termos precisos e preciosos para indicar exatamente o Espírito Santo, que é a Vida, a Divindade, a Glória que une consubstancialmente o Pai e o Filho, sendo o Espírito Santo a divina Comunhão entre os Três, o Único Deus.

6. Há mais. «Anunciará as realidades que hão de vir». Ora, quem determina e anuncia o futuro é só Deus. Não há ídolo que saiba anunciar o futuro. Só Deus anuncia antes de acontecer, e explica-o depois de acontecido. Veja-se esta polémica sobretudo no chamado «Segundo Isaías (Is 40-55), em concreto Is 41,21-23; 44,7; 45,21; 46,10. Espírito Santo, Deus, que anuncia e explica. A partir de agora, os discípulos não esperam novidades. Os histerismos de revelações, aparições e visões que agitam hoje tantos pobres iludidos, privados de verdadeiros conteúdos cristãos e bíblicos e da Tradição, são uma verdadeira «blasfémia contra o Espírito Santo». Por isso, o Papa Bento XVI, na Exortação Apostólica Verbum Domini [2010], n.º 14, lembrou-nos as palavras de S. João da Cruz, que escreveu, na sua Subida ao Monte Carmelo, II, 22, que «Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra, e não tem outra, Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única, e já nada mais tem para dizer […]. Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E, por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade». E advertiu-nos bem o Papa que é preciso «distinguir a Palavra de Deus das revelações privadas cujo papel não é completar a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época histórica».

7. O Espírito recebe (lambánô) do que é de Jesus (João 16,14 e 15), do mesmo modo que Jesus recebeu do Pai (Mateus 11,27; João 10,18; Apocalipse 2,28), que lhe deu tudo o que tem e é. Do mesmo modo, o ensinamento (didachê) do Espírito é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência da fé, avivando as brasas do desejo da Palavra primeira e criadora no coração de cada homem, debaixo de qualquer céu. Este ensinamento interior do Espírito é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos conheceis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). Cumpre-se assim a profecia de Jeremias 31,31-34 (38,31-34 LXX) que refere que «todos me conhecerão (eidêsousin)» com uma ciência que não resulta da instrução, mas que é incutida por Deus no coração. Assim escreve Paulo aos Romanos 5,1-5, na lição também Hoje a nós oferecida, que «o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado» (v. 5).

8. Para chegar a estes espantosos dizeres de Jesus sobre o Espírito Santo, foi necessário que aquele fio de ouro trinitário fosse atravessando a Escritura. É assim que também nos é dado escutar Hoje aquele hino, de extraordinária solenidade e beleza, que a própria Sabedoria entoa no Livro dos Provérbios 8,22-31. Nesse maravilhoso hino, Deus e a Sabedoria entretecem um diálogo do qual brotam todas as maravilhas da criação, em cujo cume estão «os filhos do homem». É com eles que a Sabedoria encontra as suas delícias, entenda-se, a sua felicidade. E foi precisamente a partir deste encontro feliz entre a divindade e a humanidade que a tradição cristã identificou na Sabedoria divina aqui celebrada o retrato do próprio Cristo. Por isso, lemos no prólogo do Evangelho de S. João que «o Verbo estava no princípio junto de Deus, tudo foi feito por meio d’Ele, e sem Ele nada foi feito de tudo quanto existe. N’Ele estava a vida, e a vida era a luz dos homens» (João 1,2-4). E, no hino que abre a Carta aos Colossenses, lê-se: «Ele é a imagem do Deus invisível, gerado antes de todas as criaturas; pois foi por meio d’Ele que foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, visíveis e invisíveis (…). Todas as coisas foram criadas por meio d’Ele e para Ele. Ele é antes de tudo, e tudo n’Ele subsiste» (Colossenses 1,15-17). A obra da criação é, como se vê, reconduzida a Cristo, Sabedoria de Deus.

9. A leitura cristã do hino de Provérbios 8, isto é, o fio de ouro ou de sentido que dele se desprende foi, porém, levado mais longe, associando-lhe a melodia do Salmo 104,30, em que se canta: «Envia o teu Espírito, e eles são criados, e renovas a face da terra». Com esta aportação, no rosto da Sabedoria pode ver-se também o Espírito Santo em ação na criação. E aí está a Trindade no alvor da criação. A Sabedoria é Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Mas o Filho, o Verbo é revelado como a Sabedoria incarnada.

9. «Ó abismo de riqueza e sabedoria e conhecimento de Deus! Como são insondáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! (…) Porque d’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele a glória pelos séculos, ámen!» (Romanos 11,33 e 36).

António Couto

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A CENTRALIDADE DO CORAÇÃO

Março 2, 2019

1. Neste Domingo VIII do Tempo Comum continuamos a escutar e a digerir, no Evangelho, o «Discurso da planície», hoje na sua terceira e última parte (Lucas 6,39-45), toda dominada pelo amor e pela misericórdia. A arquitetura desta terceira parte do «Discurso da planície» assenta em três comparações, destinadas a afinar os critérios da nossa vida de discípulos de Jesus. A primeira comparação surge em Lucas 6,39-40, e põe em cena um cego a guiar outro cego. E a pergunta certeira de Jesus: «Não cairão os dois nalgum abismo? (Lucas 6,39). Mateus canalizou a comparação de Jesus para os fariseus: «Ai de vós, guias cegos…» (Mateus 23,16-17). Lucas usou-a, antes, para advertir diretamente os discípulos de Jesus de todos os tempos, fazendo ver que nenhum discípulo é mais do que o mestre, mas que todo o discípulo deve ser como o mestre (Lucas 6,40). Outra vez, de forma clara e sem equívocos: o discípulo não tem senão que repetir o que Jesus disse, sendo que a verdade da palavra do discípulo não está, portanto, na sua habilidade pessoal, mas na sua fidelidade ao Mestre.

2. A segunda comparação põe em cena o argueiro e a trave (Lucas 6,41-42), e denuncia de imediato os nossos juízos quotidianos, levianos e rápidos acerca dos outros. Estamos sempre a ver o argueiro que está nos olhos do nosso irmão, e não vemos a trave que se atravessa nos nossos olhos e nos impede de ver bem seja o que for. O filósofo romano Séneca (4 a.C.-65 d.C.), contemporâneo de Jesus, já se exprimia assim: «Temos diante dos olhos os defeitos dos outros, enquanto os nossos ficam atrás». Estar sempre pronto a criticar os defeitos dos outros, sem sequer nos apercebermos dos nossos, porque já estamos habituados e acomodados, protegidos por uma crosta opaca, é um tipo de comportamento denunciado por Jesus como «hipocrisia» (v. 42). A «hipocrisia» é um termo de origem grega e designa aquele que, no teatro, representa um papel que não corresponde à sua vida. Por exemplo, veste-se de santo…, e é um delinquente! A lição de Jesus é pertinente: «Tira primeiro (prôton) a trave do teu olho, e depois verás bem…» (v. 42). Portanto, fica claro para todos nós o que há que fazer sempre em primeiro lugar: proceder à limpeza da nossa vida, adequando-a ao Evangelho. Ao comentar o Salmo 30, Santo Agostinho faz esta observação aguda e penetrante: «Não penses mal do teu irmão. Sê tu com humildade o que queres que ele seja, e não pensarás que ele é o que tu não és» (Enarrationes in psalmos, 30,2,7). E Lucas dirá mais à frente que «A lâmpada do corpo é o teu olho. Se o teu olho estiver são, todo o teu corpo ficará iluminado; mas se ele for mau, o teu corpo também ficará às escuras. Portanto, vê bem se a luz que há em ti não são trevas» (Lucas 11,34-35).

3. A terceira comparação põe lado a lado a árvore boa e a árvore má (Lucas 6,43-45). À primeira vista, parece que Jesus coloca o acento nas obras, no que se faz, e não nas palavras, no que se diz. A pequena parábola aponta, porém, ainda outra direção: é de dentro, do interior, do coração, que provêm as obras, boas ou más. Pelo que o verdadeiro problema consiste em mudar o interior, o coração, a nascente. Na verdade, na cultura semítica e bíblica, o coração é comparado a um depósito, de onde se retiram os pensamentos, as palavras e as ações. Por isso, conclui Jesus no v. 45, o homem bom, do seu bom coração tira coisas boas; o mau, do seu mau coração tira coisas más; e a boca fala da abundância do coração. É, portanto, necessário manter o coração puro e limpo de mato e de silvas, para o encher de bondade, pois só um coração bom pode e sabe amar os inimigos, perdoar os irmãos, indicar aos errantes o caminho certo. O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), pastor luterano, morto nos campos de concentração nazis, escrevia na sua Ética que «a bondade não é uma qualidade da vida, mas a própria vida, e que ser bom significa viver». Não admira, pois, que Jesus tenha definido os hipócritas como «sepulcros caiados», cadáveres ambulantes, que se iludem pensando que estão vivos; na verdade, como têm o coração impuro, estão mortos e deambulam às escuras. As pessoas como as árvores: não se conhecem as pessoas pela sua folhagem, isto é, pelas aparências; conhecem-se, antes, pelos seus frutos, isto é, pela sua generosidade e pelo seu amor. E ainda: uma pessoa egoísta, egocêntrica, egolátrica e autorreferencial apega-se ao tesouro ilusório e falso do seu orgulho, e mal abre o tesouro do seu coração, vem logo fora a malvadez, os juízos cruéis, o ódio.

4. A lição do Livro de Ben-Sirá 27,5-8 que hoje nos atinge é bela, pedagógica e incisiva, e procede por constatações paralelas. Assim, em cada versículo, o sábio coloca diante de nós um dado retirado da experiência quotidiana, assentando logo sobre ele uma luminosa aplicação ao homem. Aproximemos a objetiva: no v. 5, o dado da experiência quotidiana é a peneira, que retém o lixo, do mesmo modo que o homem, no ato de falar, expõe os seus defeitos; no v. 6, o dado da experiência é o forno, que põe à prova a qualidade das vasilhas de barro nele introduzidas, do mesmo modo que, no ato de falar, também é posta à prova a qualidade do homem; no v. 7, o dado da experiência é o fruto, que mostra a qualidade da árvore, do mesmo modo que as palavras proferidas pelo homem mostram o bom ou mau estado do seu coração. O fecho destes paralelismos surge no v. 8, em que somos advertidos a não julgar ninguém antes de ele falar. Convenhamos que se trata de uma instrução cheia de sabedoria, que ataca a permanente tentação que nos sobrevém de antecipar os juízos, que não passam, portanto, de pré-juízos, tantas vezes errados, e, por isso, danosos para nós e para os outros. Esta bela e incisiva instrução, direitinha ao coração, deixa-nos, em termos de conteúdo e de linguagem, longe da folhagem, na estrada do Evangelho de hoje.

5. É-nos dada a graça de escutar hoje o final do Capítulo XV da Primeira Carta aos Coríntios (15,54-58), em que o Apóstolo fala aos fiéis de Corinto de então, mas também de todas as proveniências e tempos, do «mistério» da Ressurreição da carne, que Paulo anuncia «que é», mas não «como é» (v. 51), sendo sempre, porém, consequência direta, e a mais alta, da Ressurreição do Senhor. A discrição de Paulo faz o necessário contraponto com as infinitas fantasias e especulações que, acerca da ressurreição da carne, circulavam no ambiente de então. Basta dizer, na sua essência e sobriedade, que o nosso corpo será transformado, transfigurado (allagêsómetha), o que se deve, não à nossa capacidade, mas unicamente à ação do Espírito Santo (vv. 45 e 49), que vem para nós unicamente através da Humanidade Glorificada de Jesus (João 7,39; 19,34; Atos 2,33). Por isso, recomenda o Apóstolo: «Graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo» (v. 57).

6. O belo Salmo 92 continua a fazer vibrar em nós a música da semente, das árvores, das aves e dos dias breves e belos, da eternidade. O orante realça a imagem vegetal, fresca e verdejante, da palmeira e do cedro, verdadeiro brasão do justo. Quer a palmeira quer o cedro evocam uma vitalidade contra a qual em vão atenta o deserto. Além disso, o cedro, com a sua altura, simboliza a longevidade: pode durar um milénio. E a palmeira, phoínix no texto grego, com o seu duplo significado de palmeira e fénix, a ave da imortalidade, servirá à tradição cristã para celebrar a vitória da vida nova e eterna. No culto sinagogal, este Salmo é cantado à entrada do Sábado, ao pôr-do-sol de sexta-feira. Lê-se na Mishna: «Ao sábado canta-se o cântico do dia de sábado (Salmo 92), cântico para o tempo que há de vir, para o dia que será inteiramente sábado e repouso para a vida eterna. Mas é o Senhor que está por detrás de tudo isto. É por isso que é bom e belo louvá-lo!

 

As coisas do mundo

Não podem alimentar-te

Nem encher de perfume a tua vida.

 

A tua alegria não está entre as coisas passageiras.

Relâmpagos, tempestades, terramotos,

Sons e vozes da terra são estrangeiros para ti.

 

Tu, meu irmão a tempo inteiro,

Não deixes de sentir os pés no chão do terreiro,

Mas mantém também a cabeça no céu,

Ao léu,

Para poderes ouvir sempre bem a voz de Deus,

E ver bem, belo e bom,

Para tirar o argueiro

Da vista do teu irmão e companheiro.

 

Que o ódio e a violência nunca tomem conta do teu coração.

Que o teu coração seja habitação de paz.

Que nunca te seduza o som das espingardas.

Debulha o teu grão,

Reparte o teu pão,

Olha para Deus com gratidão.

 

Tens um ano inteiro

Para encher de amor o teu celeiro.

Não tenhas medo do nevoeiro.

Que todos os dias haja misericórdia

No teu coração e nas tuas mãos.

Que o Senhor seja sempre a tua Luz,

Meu irmão e irmão de Jesus.

 

António Couto


AMAI OS VOSSOS INIMIGOS

Fevereiro 23, 2019

1. Continuamos, neste Domingo VII do Tempo Comum, a saborear o imenso Discurso da planície de Jesus (Lucas 6,27-38), em que o amor, a dádiva, a bondade, elevados até ao absurdo, constituem o fio condutor do inteiro Discurso, e também o verdadeiro cartão de identidade do discípulo de Jesus. Também aqui vale a pena atravessar o texto, deixando-nos, todavia, atravessar também pelo texto:

«A vós que estais a escutar, eu digo: “Amai os vossos inimigos, fazei bem àqueles que vos odeiam, bendizei (eulogéô) os que vos amaldiçoam (kataráomai = katá + ará [= maldição]), rezai por aqueles que vos caluniam. Àquele que te bater numa face, oferece também a outra, e àquele que te tirar o manto, deixa-o levar também a túnica. A todo aquele que te pede, dá, e àquele que levar o que é teu, não lho reclames. Como quereis que vos façam as pessoas, fazei-lhes vós do mesmo modo.

E se amais os que vos amam, que graça (cháris) vos é devida? Na verdade, também os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazeis bem aos que vos fazem bem, que graça (cháris) vos é devida? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestais àqueles de quem esperais receber, que graça (cháris) vos é devida? Também os pecadores emprestam aos pecadores para receberem outro tanto. Em vez disso, amai os vossos inimigos e fazei bem e emprestai sem esperar receber nada em troca, e será grande a vossa recompensa (misthós), e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é amável (chrêstós) para com os ingratos (acháristoi) e os maus (ponêroí).

Tornai-vos misericordiosos (oiktírmones) como também o vosso Pai é misericordioso (oiktírmôn). E não julgueis, e não sereis julgados; e não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados; dai, e ser-vos-á dado: uma medida boa, calcada, sacudida, a transbordar, será dada no vosso regaço; na verdade, com a medida com que medirdes, sereis medidos também”» (Lucas 6,27-38).

2. Convenhamos que se trata de um texto espantoso, Evangelho puro, sem glosas ou outras qualificações, que desvenda e desfaz a nossa velha lógica retributiva e respetivos comportamentos pautados pela paridade, reciprocidade e simetria, e desenha novos critérios assimétricos e gratuitos, desconcertantes para a nossa mentalidade assente nos nossos sacrossantos direitos. Se o Antigo Testamento insistia, por mais de trinta vezes, na necessidade de amar o estrangeiro, que é o outro diferente de mim, nesta página sublime do Evangelho, Jesus manda-nos amar o nosso inimigo (Lucas 6,27 e 35), que é o outro, não apenas o outro diferente de mim, mas o outro contra mim.

3. A avalanche da página evangélica cai sobre nós em três vagas sucessivas. A primeira levanta-se dos vv. 27-31. Depois do amor aos nossos inimigos (note-se bem o realismo aportado pelo adjetivo vossos, nossos, teus, meus, que não nos deixa no plano dos inimigos em geral ou virtual!), as coisas continuam, loucas e impensáveis, de acordo com a loucura de Deus (cf. 1 Coríntios 1,25), pelo caminho do paradoxo: fazei bem àqueles que vos odeiam; bendizei os que vos amaldiçoam; rezai por aqueles que vos caluniam; àquele que te tirar o manto, deixa-o levar também a túnica. Esta última maneira de fazer implica a redução à nudez, pois habitualmente, na Palestina, usavam-se apenas aquelas duas peças de roupa. Termina a primeira vaga da avalanche com a chamada «regra de ouro»: «Como quereis que vos façam as pessoas, fazei-lhes vós do mesmo modo» (v. 31). Para mais informação acerca da «regra de ouro», veja-se a análise ao Domingo V da Páscoa.

4. Se não estamos ainda submersos por esta primeira, imensa vaga, exponhamo-nos à segunda, que se levanta dos vv. 32-35, e que arrasa as nossas pretensas boas doutrinas e hábitos assentes na reciprocidade e boas maneiras, e não na graça (vv. 32-34). São referidas três situações emblemáticas: amar aqueles que nos amam, fazer bem a quem nos faz bem, emprestar para receber outro tanto ou mais. Note-se que, por exemplo, na Mesopotâmia, as taxas de juro oscilavam entre os 17 e os 50%! Só teremos direito a recompensa, que é a graça, se a nossa maneira de fazer saltar fora desta engrenagem da reciprocidade, e nos tornarmos imitadores de Deus, que também distribui a sua graça aos ingratos e maus (v. 35). Aí fica então exposta e clara a nossa recompensa, que não será expressa em outro tanto dinheiro destinado a ser abandonado com a morte, tão-pouco será expressa no bem-estar prometido aos justos no Antigo Testamento, mas na extraordinária possibilidade de nos tornarmos filhos de Deus, membros da família deste Deus que ama, ama, ama (v. 35).

5. A terceira vaga levanta-se dos vv. 36-38, e traz para a cena outra vez a «imitação de Deus» logo naquele dito de abertura: «Tornai-vos misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso» (v. 36), logo traduzido em comportamentos e estilos de vida: não julgar, não condenar, perdoar, dar (vv. 37-38).

6. Os nossos bons (pensamos nós) hábitos, não nos deixam levar esta loucura a sério. Pensamos que estes ensinamentos de Jesus são utópicos e irrealizáveis, que não são para se fazer, e assim vamos tranquilizando a nossa consciência. Sim, estamos docemente habituados e suavemente embalados pelas nossas boas maneiras ao longo de tanto tempo adquiridas. Mas chegou o tempo de renovarmos o nosso coração e o respetivo cartão de identidade! O que consta nesta altíssima carta do Evangelho não é utópico, isto é, sem lugar. É, antes, eutópico, isto é, um lugar feliz, com outros mapas, outras estradas e outras tabuadas! É possível vencer o mal com o bem (Romanos 12,14-21). Vencer sem combater, claro. Como Jesus, que desce ao nosso mundo para abraçar, absorver e absolver as nossas raivas e os nossos ódios. Como o Deus da Sabedoria, que é «o que domina a força», no belo dizer do Livro da Sabedoria 12,18.

7. Para fazer luz e receber luz deste imenso texto do Evangelho, chega hoje também aos nossos ouvidos a figura magnânima de David que, no deserto de Zif, não usou a força contra Saul, mas lhe poupou a vida, como narra a bela história do Primeiro Livro de Samuel 26,2.7-9.12-13.22-23. De facto, Saul não era apenas, como diz a bela narrativa, o «ungido do Senhor» (vv. 9 e 23), mas também dormia um sono ritual (tardemah), enviado pelo Senhor (v. 12).

8. São Paulo faz, na Primeira Carta aos Coríntios 15,45-49, um extraordinário módulo narrativo, em que põe em cena, na mesma página, lado a lado, o primeiro Adam e o último Adam e ainda nós, que levamos as marcas do primeiro, mas também as do último. E é a imagem do último que prevalecerá em nós, por obra e graça de Deus.

9. O Salmo 103 é uma das joias do Antigo Testamento e constitui um grande canto ao amor de Deus, uma espécie de prelúdio ao «Deus é amor» (1 João 4,8). Desenrola-se em dois movimentos. O primeiro (vv. 1-9) trata o amor e o perdão de Deus com sucessivos particípios hínicos, que mostram um Deus que perdoa, cura, redime, coroa de amor e misericórdia, sacia de bem, e uma série de nomes (justiça, dá a conhecer, obras, misericordioso, gracioso). O segundo movimento (vv. 10-18) põe lado a lado o amor permanente de Deus e a nossa humana fraqueza. A linha vertical (céu-terra) serve para mostrar a imensidão do amor de Deus (v. 11), escrevendo-se na linha horizontal (oriente-ocidente) a grandeza sem medida do seu perdão (v. 12). O belíssimo v. 13 passa a imagem inultrapassável de Deus como um pai com ventre maternal (rehem). A fragilidade humana aparece traduzida nas imagens do pó (v. 14) e da erva (vv. 15-16), em contraponto com a estabilidade do amor de Deus (v. 17). Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas deste grande Salmo 103, que alguns autores já chamaram o Te Deum do Antigo Testamento.

 

Ousar pôr o coração à escuta do Evangelho

É deixar-se atravessar por uma avalanche de graça

Que nos arrastará até ao coração de Deus,

E nos obrigará a mudar quase tudo

Na nossa vida e na nossa agenda,

Na nossa cómoda maneira

De nos sentarmos à lareira

Simplesmente a ver passar os dias

E a deitar contas à vida e à carteira.

 

Amar os inimigos

Não é coisa que eu pudesse sequer imaginar,

Quanto mais fazer ou praticar.

 

Oferecer a outra face a quem me bate,

Dar, dar tudo, dar o manto e a túnica,

Deixar-se roubar e não reclamar,

Amar os maus, os maldizentes, os delinquentes,

O repugnantes, os incompetentes,

Amar, enfim, até ao absurdo,

Eis o que Jesus me vem dizer que Deus faz,

Que Deus faz por mim,

E que é por isso que eu também devo fazer assim,

Deixando o Evangelho ganhar corpo em mim.

 

António Couto


E JESUS DESCEU PARA O MEIO DE NÓS

Fevereiro 16, 2019

1. Conta-nos São Lucas que Jesus saiu (exérchomai) para a MONTANHA para ORAR, e estava (ên: imperf. de eimí) a passar (dianyktereúôn: part. presente de dianyktereúô) a noite inteira em ORAÇÃO (Lucas 6,12). Note-se que Jesus se separa para rezar. E a expressão usada (imperfeito do verbo «ser» seguido de particípio presente) indica que Jesus rezou, sem parar, a noite inteira. O Evangelho de Lucas recorda-nos que Jesus reza sempre nos momentos importantes da sua missão. Quando amanheceu, continua São Lucas, Jesus chamou os discípulos e escolheu «Doze» a quem chamou Apóstolos, seguindo-se logo a lista dos seus nomes (Lucas 6,13-16). De notar que também Mateus 10,2 e Marcos 6,30 sabem que os Doze são Apóstolos, mas apenas Lucas refere que foi o próprio Jesus a dar-lhes este nome (Lucas 6,13). Notemos ainda que o Apóstolo é o enviado autorizado, que fala em nome de quem o envia. Não está autorizado a dizer palavras suas ou a expressar a sua opinião. Fica totalmente vinculado àquele que o envia. A primeira nota que o caracteriza é a fidelidade.

2. Depois desta introdução, parece-me oportuno, pela sua importância, inserir o texto do Evangelho que hoje será proclamado (Lucas 6,17.20-26), sem o corte dos vv. 18-19:

 

«Tendo descido com eles, ficou de pé num lugar plano, e um grupo numeroso dos seus discípulos e uma multidão numerosa do povo (laós) de toda a Judeia e de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon, que tinham vindo para o escutar e fazer-se curar das suas doenças. E aqueles que eram atormentados por espíritos impuros eram curados, e toda a multidão procurava tocá-lo, porque uma força saía dele e curava todos. E tendo levantado os seus olhos para os seus discípulos, dizia:

 

Felizes vós, os pobres,

porque vosso é o reino de Deus;

Felizes vós que tendes fome agora,

porque sereis saciados;

Felizes vós que chorais agora,

porque rireis;

Felizes sois vós, quando os homens vos odiarem, e quando vos expulsarem e insultarem e rejeitarem o vosso nome como mau por causa do Filho do Homem.

 

Mas ai de vós os ricos,

porque tendes a vossa consolação;

Ai de vós, que estais saciados agora,

porque tereis fome;

Ai de vós, que rides agora,

porque andareis aflitos e chorareis;

Ai de vós, quando todos os homens disserem bem de vós:

era assim que os seus pais tratavam os falsos profetas» (Lucas 6,17-26).

 

3. O Evangelho deste Domingo VI do Tempo Comum começa com esta descida para um lugar plano, que não tem de ser necessariamente a planície ao nível do mar da Galileia; pode muito bem tratar-se de um planalto acessível a uma grande multidão, doentes incluídos. Vê-se e compreende-se bem que o Discurso de Jesus é, em Lucas, mais breve e apresentado num cenário plano (Lucas 6,17-7,1), bem diferente do Sermão da Montanha de Mateus, mais longo e encenado nas alturas (Mateus 5,1-7,19). Se Lucas quer pôr Jesus em contacto com toda a gente, inclusive com os doentes, é fácil compreender que Jesus tem de descer ao nível deles, e não os pode obrigar a subir à Montanha.

4. É significativo que o evangelista descreva esta grande multidão como POVO (laós) oriundo de toda a Judeia, Jerusalém, Tiro e Sídon (Lucas 6,17), que veio para escutar Jesus e ser por Ele curado (Lucas 6,18). Ao contrário dos outros evangelistas que praticamente o ignoram, Lucas introduz este POVO (laós) profusamente no seu Evangelho. Este POVO (laós) tem conotação religiosa: é o Povo de Deus que o II Concílio do Vaticano consagrará. O que faz e define este POVO (laós) não é nenhum elemento étnico, nacionalista ou histórico, mas a eleição e a graça de Deus. Qualquer pessoa, de qualquer língua, nação, raça, cultura, que oiça a Palavra de Deus e lhe responda passa a fazer parte deste Povo. Neste sentido, esta multidão pode ter no seu seio elementos estrangeiros (Tiro e Sídon), mas não deixa, por isso, de ser um POVO (laós), o Povo de Deus. É igualmente significativo que todos tenham vindo ouvir Jesus! Aos olhos dos Apóstolos, que Jesus acabara de escolher, está ali indicado proleticamente o caminho da futura evangelização.

5. Então, Jesus, de pé, e «tendo levantado os olhos» como um profeta (em Mateus «sentou-se» como um mestre), declarou de forma direta e incisiva, em 2.ª pessoa, como fazem os profetas (Mateus usa a 3.ª pessoa, estilo sapiencial, sereno e pedagógico), bem-aventurados por Deus os POBRES, os FAMINTOS de agora, os que CHORAM agora, os REJEITADOS ou DESCARTADOS de agora. Lucas é mais radical e direto do que Mateus. Às quatro bem-aventuranças junta, em contraponto, quatro mal-aventuranças, declarando malditos por Deus os RICOS de agora, os FARTOS de agora, os que RIEM agora, os que RECEBEM APLAUSOS agora. As mal-aventuranças são introduzidas por um «Ai», fórmula técnica para introduzir anúncios de desgraça no discurso profético.

6. Lucas esclarecerá mais à frente, quando for contada a história do RICO FARTO e do POBRE LÁZARO (16,19-31), que os FARTOS não são demovidos pelos profetas nem tão-pouco por um morto que ressuscite! E esta parábola do homem Rico e do pobre Lázaro, que escutaremos no Domingo XXVI, é também o melhor comentário ao texto das bem-aventuranças e mal-aventuranças de hoje.

7. Jeremias 17,5-8 faz boa companhia ao Evangelho de hoje. O profeta expõe em discurso profético, abrindo com a clássica fórmula do mensageiro que soa: «Assim disse o Senhor», um refrão de tipo sapiencial que percorre toda a Escritura de lés a lés: «MALDITO o homem que confia no homem, afastando-se do Senhor;/ BENDITO o homem que confia no Senhor, pondo nele toda a sua confiança». O primeiro assemelha-se ao tamarisco do deserto, mirrado e amargo, que mora numa terra salitrada e estéril; o segundo é como uma árvore viçosa plantada junto da água boa.

8. A mesma temática e até as mesmas imagens vegetais enchem o Salmo Responsorial de hoje (Salmo 1): o homem que recita a instrução do Senhor dia e noite é como a ÁRVORE plantada e que dá fruto; o malvado é como a PALHA que o vento dispersa. A ÁRVORE plantada está de pé, respira o vento, como o homem, e dá fruto; a PALHA não respira o vento, mas é levada pelo vento; e não dá fruto, mas é a casca do fruto. É também fácil entender que é a mesma lição que encontramos na antítese das «bem-aventuranças / mal-aventuranças» do Evangelho de hoje.

9. A leitura semi-contínua do Apóstolo (1 Coríntios 15,12.16-20) prossegue hoje com a temática fundamental da ressurreição, tratada de forma notável em 1 Coríntios 15, cuja primeira parte foi lida no Domingo passado. Aí, Paulo expunha o acontecimento da Ressurreição de Jesus Cristo como centro da pregação apostólica e da fé das comunidades cristãs.

10. Hoje, Paulo começa por constatar que alguns membros da comunidade de Corinto não dão ouvidos aos conteúdos da pregação apostólica e negam simplesmente a ressurreição. E fazem-no em nome da mentalidade platónica, que considera a «carne» como elemento mau e desprezível, condenado à destruição, sendo a «alma» um elemento divino que, libertado da «carne», voltará a formar uma espécie de deus cósmico. Vê-se bem que segundo esta conceção errónea, a criação é má, ao contrário da declaração de Deus, que lhe apõe, por sete vezes, o carimbo de «boa» (Génesis 1). Paulo reage vigorosamente contra esta mentalidade instalada na comunidade, e prega aquilo que os Padres chamarão a «Economia da carne». «Cristo ressuscitou, primícias dos que adormeceram». Ele é, portanto, o primeiro Homem a ser ressuscitado. E se é o primeiro, então constitui certeza para os «outros» depois dele, que abre a série. Nele a morte foi vencida para todos. A esperança fundamenta-se na certeza deste Acontecimento principal da Vida do Senhor, que dá significado a todos os outros acontecimentos da sua Vida, ao inteiro Antigo Testamento, à Igreja e à vida dos homens.

11. É este acontecimento fundante que a Igreja Una e Santa, Esposa do Senhor, celebra jubilosamente Domingo após Domingo. Também hoje, portanto.

 

Há dois mil anos Jesus subiu ao monte,

E lá passou a noite em oração.

Quando se fez dia,

Escolheu os Doze,

E com eles desceu para o meio do povo,

Que de toda a parte tinha vindo

À procura da Palavra,

Que sabiam carregada de Luz e de Esperança.

 

Jesus desceu,

Ficou no meio deles,

Pertinho deles,

Ao alcance de muitas mãos que o tocavam.

Havia lá muitos doentes:

Claro que não podiam subir ao monte.

 

Desceu Jesus,

Como sempre desce Deus

Ao encontro dos seus filhos,

E declarou felizes

Os pobres,

Os famintos,

Os que tinham lágrimas nos olhos e na voz,

Os descartados.

 

Mas advertiu os ricos,

Os fartos,

Os que riam,

Os que iam de sucesso em sucesso,

Sem que os seus olhos vissem

E os seus ouvidos ouvissem

As lágrimas dos pobres e doridos.

 

Os Apóstolos estavam lá

E viram tudo

E ouviram tudo,

E nós também hoje com eles

E Jesus no nosso meio.

Ficamos todos a saber

Como fazer acontecer o Evangelho.

 

António Couto


IMPOSSÍVEL TRAVAR O CAMINHO DO AMOR

Fevereiro 2, 2019

1. O texto do Evangelho de Lucas proclamado e ouvido no Domingo IV do Tempo Comum (Lucas 4,21-30) retoma e continua o «discurso programático» de Jesus na Sinagoga de Nazaré, iniciado no Domingo III. Neste 1.º SÁBADO da sua vida pública, Jesus entrou na Sinagoga, LEVANTOU-SE para fazer a leitura litúrgica dos Profetas (Isaías) e SENTOU-SE para fazer a instrução com base na Lei (Deuteronómio): «HOJE foi cumprida (passivo divino!) esta Escritura nos vossos ouvidos».

2. O que Jesus faz é o procedimento tradicional do judeu piedoso em dia de SÁBADO, e as palavras que diz são também antigas. Dizendo as Palavras da Escritura e nada acrescentando de novo, Jesus assume-se como «FILHO DA ESCRITURA». As gentes de Nazaré olham, num primeiro momento, este Jesus com apreço e admiração, mas rapidamente passam a uma atitude hostil para com ele, apontando-lhe outra «paternidade»: «Não é este o “FILHO DE JOSÉ”?»; «o que ouvimos dizer que FIZESTE em Cafarnaum, FAZ também aqui na TUA PÁTRIA».

3. Mas, neste SÁBADO INICIAL, Jesus NÃO FAZ nada de semelhante àquilo que fará nos outros SÁBADOS. Este SÁBADO INICIAL reclama aquele SÁBADO FINAL em que Jesus também NADA FAZ: passá-lo-á inteiramente deitado no sepulcro! E a própria Paixão é exatamente o contrário de uma manifestação de poder: é antes passividade e impotência de Jesus! Ele, que tinha salvado outros, não se salvará a si mesmo! Mas neste SÁBADO INICIAL Jesus continua também a não dizer nada de novo. Cita dois provérbios: «Médico, cura-te a ti mesmo» e «nenhum profeta é bem aceite na sua pátria», sendo que os provérbios são património de todos e de ninguém. Reclama depois a obra de dois Profetas antigos, Elias e Eliseu, para mostrar que também eles NADA FIZERAM para as gentes da SUA PÁTRIA: Elias sai da sua pátria para socorrer uma viúva de Sídon, e Eliseu cura o sírio Naamã, um estrangeiro que o vem procurar na sua pátria. Também Jesus saltará fronteiras e atenderá estrangeiros. Bem ao contrário, Israel e as gentes de Nazaré: cegos, não acolheram a ESCRITURA de ontem como Palavra para eles «HOJE», do mesmo modo que no FILHO DE JOSÉ não souberam ver o Profeta, aquele que, como a Escritura, traz a Palavra. Quebram dessa maneira o laço de união entre o FILHO e a PÁTRIA, terra dos pais. E para vincar melhor a rejeição desta herança que é o seu FILHO, expulsam-no para fora da cidade. Pior ainda, tramam a sua morte: matando o FILHO, renegam a própria paternidade, perdendo assim a sua própria identidade. Perdendo-se, portanto. Da admiração inicial à rejeição final.

4. Não surpreende, portanto, que esta herança, rejeitada pela própria família, seja distribuída a outros, aos de fora. Este SÁBADO INICIAL contém em gérmen todos os elementos que o relato do Evangelho vai mostrar: desde logo o SÁBADO FINAL, mas também este FILHO DA ESCRITURA, que abre e lê abundantemente a Escritura aos nossos olhos para que ela se cumpra como Palavra nos nossos ouvidos, tornando-nos FILHOS DA PALAVRA. A oposição dos habitantes de Nazaré não foi suficiente para travar a história de Jesus, como também não o conseguiram fazer aqueles que o crucificaram e o continuam a crucificar ainda HOJE, pois Ele continua HOJE a passar pelo meio de nós. Resta saber que atitude assumimos nós HOJE. Retê-lo não é possível. Só podemos segui-lo!

5. A citação dos provérbios não é inocente. Mostra Jesus como PROFETA. De facto, ao citar o provérbio «Médico, cura-te a ti mesmo», Jesus está a dizer o que ainda não foi dito, mas será dito no cenário da Paixão: «Salvou os outros, que se salve a si mesmo!» (Lucas 23,35), dirá o povo;  «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,37), dizem os soldados. E ao dizer: «Nenhum Profeta é bem recebido na sua pátria», Jesus está a apresentar-se como Profeta verdadeiro. Na verdade, a perseguição começará logo ali e será uma constante ao longo do seu caminho. A Palavra profética faz o caminho, e não é o caminho que faz a Palavra! É esse caminho profético que Ele faz e segue, passando pelo meio deles. Esta Palavra que acontece, a d’Ele, a minha e a tua, faz a história e julga a história. Ao contrário do que facilmente dizemos, porque não pensamos, não é a história que nos julga. Somos nós que julgamos a história.

6. Somos HOJE também colocados perante o relato abreviado da vocação profética de Jeremias (1,4-5 e 17-19). O relato abre com a chamada «fórmula de acontecimento» [= «Veio sobre mim a Palavra do Senhor»] (1,4), que marca um início novo na vida do Profeta, e fecha com a chamada «fórmula de conforto» ou de «assistência» [= «Eu estou contigo»] (1,19), pela qual Deus garante ao seu Profeta apoio permanente. A missão de Jeremias destina-se às nações pagãs, mas também a Judá, seus reis, sacerdotes e todo o povo (1,17). A todos Jeremias, o profeta de Anatôt, uma aldeiazinha situada a uns seis quilómetros a nordeste de Jerusalém, deve falar a Palavra do Senhor. Os versículos cortados, por sinal os mais belos, definem a missão de Jeremias como uma missão difícil, marcada por quatro verbos negativos [= arrancar, destruir, exterminar, demolir] (1,10a), a que só depois se seguem dois positivos [= construir, plantar] (1,10b). Nesta altura, com Jeremias consciente da difícil missão que lhe foi confiada, estabelece-se um dos mais belos e significativos diálogos de toda a Escritura. A Palavra do Senhor vem sobre Jeremias (nova «fórmula de acontecimento») para lhe perguntar: «O que vês, Jeremias?», a que o Profeta responde com a belíssima expressão: «Vejo um ramo de amendoeira!» (1,11). «Viste bem, Jeremias», confirma o Senhor (1,12).

7. A amendoeira é uma das poucas árvores que floresce em pleno inverno. Jeremias vê bem, de forma penetrante que, na invernia da sua difícil missão, nasce já a flor da esperança, que é sempre a última palavra de Deus. E é essa flor-palavra, palavra em flor, que o Profeta vê-ouve-diz sempre, mesmo no meio da tempestade! Na verdade, Jeremias atravessa o período mais negro da história do seu país (Judá). Assiste às duas entradas arrasadoras do babilónio Nabucodonosor em Jerusalém, em 597 e 587 a. C. Os olhos de Jeremias veem a destruição, o sangue, a morte, a destruição do Templo, a deportação do rei, a que foram vazados os olhos, depois de ser obrigado a assistir à morte dos seus filhos. Os olhos de Jeremias veem sangue, ruína, morte, devastação, deportação, enfim, o fim do seu país. Não obstante tudo isto, Jeremias não fica com os olhos presos no sangue e na lama, e vê já mais além, vê um ramo de amendoeira, a flor da esperança, que anuncia já um tempo novo, bom e belo. Ainda hoje, à entrada de Anatôt, terra natal de Jeremias, se pode ver uma grande e velha amendoeira! Extraordinária lição e desafio para nós que estamos ainda com os olhos turvos pelas atrocidades, perseguições e acentuado desprezo pela vida humana que se vai vendo por este mundo fora.

8. Continuamos também, neste Domingo IV do Tempo Comum, com a Leitura semi-contínua do «Apóstolo». Ficamos assim perante o famoso «Hino à caridade» (1 Coríntios 12,31-13,13), uma das páginas mais extraordinárias do epistolário paulino. A uma comunidade em que os membros correm por conta própria, na vã tentativa de se posicionarem à frente uns dos outros, o Apóstolo Paulo aponta o AMOR (agápê) como caminho, testemunho e meta a atingir. É que mesmo que eu possua todos os bens e todos os dons, se não tiver o AMOR, que é o testemunho a transportar e a transmitir, posso estar a correr em vão ou ter já corrido em vão. É que o que é mesmo necessário viver é o AMOR.

9. Temos hoje a graça de poder saborear um bocadinho do Salmo 71, que é o único Salmo declaradamente posto na boca de um idoso. E aí, o velho orante não se lamenta nem tão-pouco faz apelo a qualquer sobrevivência depois da morte, mas implora simplesmente: «Não me rejeites no tempo da velhice,/ não me abandones quando o meu vigor desvanece» (vv. 9 e 18). Amando apaixonadamente esta vida, e vivendo-a com o intenso gosto de viver que Deus lhe incutiu no coração, ao homem bíblico não lhe sobra tempo para sonhos fáceis de imortalidade – o desejo da imortalidade é completamente estranho à alma ou à substância da antropologia bíblica – ou lúgubres meditações sobre a morte. O Antigo Testamento sabe e sente que a vida humana tem medida. Não a medida da inveja, como se vê nos mitos assiro-babilónicos, mas a medida do amor. E isso basta. E isso nos basta.

 

Sabes, meu irmão, que em Anatôt,

Há uma amendoeira em flor carregada de esperança.

Sim, em Anatôt, de Anatôt, a amendoeira levanta-se

E planta-se no teu coração róseo-branco de criança.

Sim, em Anatôt, Foz Coa, Kilimanjaro, Lamego,

Aí mesmo no chão do teu coração,

Tanto faz, minha irmã, meu irmão.

Sai dessa reclusão

E vem expor-te

A este vendaval manso de graça e de perdão.

 

A amendoeira em flor é uma toalha branca estendida pelo chão.

Não pela minha mão,

Incapaz de tecer um tal manto de brancura,

Mas pela mão de Deus,

Que também faz brotar o vinho e o pão

E a ternura

No nosso coração.

 

António Couto


ASSEMBLEIA DE ALEGRIA E DE ESPERANÇA

Janeiro 26, 2019

1. São Lucas é o Evangelista do corrente Ano Litúrgico. E embora já tenha sido proclamado e já tenhamos escutado diversos episódios do Evangelho de São Lucas nos quatro Domingos do Advento, Natal (1.ª e 2.ª missas), Festa da Sagrada Família, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, e Festa do Batismo do Senhor, é só agora que vamos começar a proclamá-lo e a escutá-lo em leitura contínua. Importa, por isso, inserir neste momento um esquema deste Evangelho, para podermos compreender melhor o ritmo da sua leitura:

 

1,1-4 = Prólogo histórico (A)

1,5-2,52 = Evangelho da Infância (B)

3,1-9,50 = Ministério na Galileia (C)

9,51-19,27 = Partida/subida para Jerusalém (D)

19,28-21,36 = Ministério em Jerusalém (C’)

22,1-23,56 = Paixão – Morte – Sepultura (B’)

24,1-53 = Epílogo: Ressurreição – Aparições – Promessa do Espírito (A’)

 

2. O Evangelho deste Domingo III faz a acostagem do «prólogo» (1,1-4) ao «discurso programático» de Jesus na sinagoga de Nazaré (4,14-21), saltando a pregação e prisão de João Batista (3,1-20), o Batismo de Jesus e a genealogia (3,21-38), e a sua tentação no deserto, de que sai vitorioso (4,1-13).

3. O prólogo (Lucas 1,1-4) é importante para se compreender a solidez de todo o Evangelho. Lucas, da segunda geração cristã, não fez obra por conta própria. Faz questão de dizer que escreveu de forma ordenada e com acribia e controlando desde o começo os factos (prágmata) de Jesus, aqueles que foram cumpridos (passivo divino!) entre nós, e que já foram recebidos com carinho mão na mão (epicheiréô) e postos em narração (diêgêsis) por muitos, conforme nos foram transmitidos (paradídômi) por aqueles que foram testemunhas oculares (autóptai) desde o princípio (ap’ archês). Factos de Jesus, testemunhas oculares, transmissão-receção mão na mão, narração, controlo desde as fontes. Lucas escreve para que o seu Leitor tenha um conhecimento pofundo e pessoal (epiginôskô) dos factos de Jesus, sobre os quais se faz a instrução da catequese (katêchéô), que forma a nossa consciência cristã.

4. O episódio de Nazaré (4,14-21) é importante. Antes de mais é dito que Jesus procede na força (dýnamis) do Espírito, inciso próprio de Lucas, que salienta a plena identificação somática de Jesus com o Espírito. Já antes, desde o Batismo, Jesus é dito plêrês [= cheio] do Espírito (4,1), e plêrês indica, não a passividade de quem está cheio, mas a condição natural, ativa, de quem possui a plenitude do Espírito Santo. Sempre na força do Espírito, entrou em dia de sábado na sinagoga, e LEVANTOU-SE (anístêmi) para fazer a leitura litúrgica (anaginôskô) (Lucas 4,16).

5. Em João 7,15, ao verem Jesus a ensinar no Templo, os judeus ficam admirados e interrogam-se: «Como é que ele entende de letras sem ter estudado?». Lucas 4,16 informa-nos que sabia pelo menos ler! Jesus lê um texto composto de Isaías 61,1-3; 58,1-11; 35,1-3, mas Lucas compendia-o na citação de Is 61,1-2.

6. Os conteúdos são decisivos, e Jesus aplica-os soberanamente a si mesmo, com a consciência de ser o Realizador da Promessa antiga: o Espírito do Senhor sobre mim porque me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me e eis-me a anunciar (kêrýssô) aos prisioneiros a «remissão» (áphesis) [= amnistia], aos cegos o retorno da vista, a restituir aos oprimidos a liberdade, a anunciar (kêrýssô) o ano da graça [= jubileu] do Senhor (Lucas 4,18-19). Trata-se de funções reais, sacerdotais e proféticas. Atos 10,38 confirmará que Jesus, ungido com o Espírito, passou cumprindo todas estas funções.

7. Terminada a leitura, Jesus SENTOU-SE para ensinar, para fazer a tradicional homilia (Lucas 4,20a). E o narrador informa-nos, de maneira admirável, que «os olhos de todos estavam fixos nele!» (Lucas 4,20b), apontando já para o grande ensinamento da Cruz, quando Jesus diz: «Quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a mim» (João 12,32), anotando depois o narrador: «Olharão para Aquele que transpassaram» (João 19,37). Em Nazaré, Jesus começou assim a sua homilia: «Hoje foi cumprida (passivo divino!) esta Escritura nos vossos ouvidos» (Lucas 4,21).

8. O texto, muito denso, bem diferente das débeis versões oficiais, salienta a força da Palavra de Deus quando é objeto de escuta qualificada. Este «Hoje» (sêmeron), que Lucas usa por oito vezes no seu Evangelho (2,11; 4,21; 5,26; 19,5; 19,9; 22,34; 22,61; 23,53), tornou-se clássico nas homilias dos Padres gregos. Neste seu primeiro ensinamento, Jesus como que não diz nada de novo! Na sua boca estão só palavras antigas! Excelente maneira de Jesus se apresentar como «Filho da Escritura», Leitor e conhecedor da Escritura: lê os Profetas (Isaías) e aponta para a Lei (Deuteronómio), o Livro do «Hoje» (70 vezes) e do «Escuta, Israel!».

9. Em perfeita consonância com o Evangelho (Assembleia reunida, Leitura da Palavra, olhos fixos), aí está o belo texto de Neemias 8,2-10. Grande texto do tardio pós-exílio que mostra a Assembleia, composta por homens, mulheres e crianças desde a idade da razão, reunida, de pé, no 1.º Dia do Ano (Dia de Ano Novo), para escutar com atenção e compreender até às lágrimas a Palavra do Senhor. Esdras, o sacerdote, está também de pé num estrado de madeira feito de propósito, e todos levantam os olhos para ele. A liturgia começa, como é usual, com a «bênção sacerdotal» (Números 6,23-26), a que o povo responde «Amen» com as mãos levantadas, gesto fundamental que indica plena compreensão e total adesão.

10. O Novo Testamento mostrará o novo Sacerdote, que é Cristo, no novo estrado de madeira, que é a Cruz, novo Livro da Escritura de Deus, onde São Paulo lê para nós: «Jesus Cristo exposto por escrito (proegráphê), crucificado (estaurôménos» (Gálatas 3,1), que atrai, como já atrás referimos, os olhos de todos (João 19,37).

11. Quase no final, mas ainda próximos do Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos, são oportuníssimas as palavras que o Apóstolo Paulo, Apóstolo da Unidade, dirige aos cristãos de Corinto (1 Coríntios 12,12-30) e a nós também. Diz ele que as nossas diferenças não são uma praga ou uma chaga, mas uma graça para partilhar com alegria em vista da utilidade comum. Não nos podemos, portanto, habituar à separação! Temos de compreender o escândalo que constitui a separação (também das Igrejas Cristãs): qual de nós aceitaria de bom grado que o seu próprio corpo fosse mutilado ou amputado? Então como podemos aceitar que o seja o Corpo de Cristo?

12. Neste Domingo, é a Assembleia unida porque reunida pela Palavra, que está no centro das atenções: é a Assembleia de Nazaré, é a Assembleia que nos mostra o Livro de Neemias, é também a nossa Assembleia Dominical, que Hoje se reúne à volta do Senhor Ressuscitado, nossa Alegria e nossa Esperança. «Não abandonemos, então, a nossa Assembleia, como alguns costumam fazer», oportuníssima exortação da Carta aos Hebreus (10,25).

13. Refere, a propósito, um antigo conto judaico: «Vira e revira a Palavra de Deus, porque nela está tudo. Contempla-a, envelhece e consome-te nela. Não te afastes dela, porque não há coisa melhor do que ela». E o Salmo 19, que hoje cantamos, ensina-nos que Deus ilumina o universo com o fulgor do sol, e ilumina o homem com o fulgor da sua Palavra revelada que a Escritura Santa carinhosamente guarda.

António Couto


OS SEGREDOS DAS BODAS DE CANÁ

Janeiro 19, 2019

1. Neste Domingo II do Tempo Comum, temos a graça de ouvir e ver a grandiosa cena do Evangelho de João 2,1-12, vulgarmente conhecida como «bodas de Caná», em que Jesus transforma em vinho excelente cerca de 600 litros de água. Caná é uma aldeia situada a uns seis quilómetros a nordeste de Nazaré. A Igreja Una e Santa é hoje de novo convidada e, por isso, se reúne (é reunida) num banquete de espanto e de alegria, para saborear o Vinho Bom (kalós) e Último, cuidadosamente guardado até Agora (héôs árti), mas Agora oferecido pelo Esposo verdadeiro, que é Jesus (João 2,1-11). O segredo deste vinho Bom e Último é conhecido dos que servem (diákonoi) (João 2,9b), mas o chefe-de-mesa (architríklinos) «não sabia “DE ONDE” (póthen) era» (João 2,9a).

2. E, na verdade, aquele saber ou não “DE ONDE” (póthen) era, aqui anotado pelo narrador, é a questão fundamental que atravessa o IV Evangelho, e aponta permanentemente para Deus. Provocação para uma sociedade indiferente, com saber, mas sem sabor, sem frio e sem calor, morna, à deriva, sem calafrios e sem Deus, que vive em plena orfandade. E, todavia, já Nietzsche o dizia: «Ao homem que te pede lume para acender o cigarro,/ se o deixares falar,/ dez minutos depois pedir-te-á Deus». Entremos, pois, por esta autoestrada repleta de sinalizações para Deus, pois ela vem de Deus, e por ela vem Deus, por amor, ao encontro dos seus filhos.

3. Em João 1,48, é Natanael que, atónito, pergunta a Jesus «“DE ONDE” (póthen) me conheces?». Em João 2,9, o nosso texto de hoje, é o narrador que nos informa que o chefe-de-mesa «não sabia “DE ONDE” (póthen) era» a água feita vinho. Em João 3,8, é Nicodemos que não sabe, acerca do Espírito, «“DE ONDE” (póthen) vem nem para onde vai». Em João 4,11, é a mulher da Samaria que não sabe “DE ONDE” (póthen) tira Jesus a água viva. Em João 6,5-7, é Filipe que chumba no teste que lhe faz Jesus, ao confessor que não sabe “A ONDE” (póthen) ir comprar pão para dar de comer a umas trinta mil pessoas. Em João 7,27, as autoridades de Jerusalém confirmam que, «quando vier o Cristo, ninguém saberá “DE ONDE” (póthen) Ele é». Em João 8,14, Jesus afirma, em polémica com os fariseus: «Eu sei “DE ONDE” (póthen) venho; vós, porém, não sabeis “DE ONDE” (póthen) venho». Em João 9,29, na cena da cura do cego de nascença, os fariseus afirmam acerca de Jesus: «Esse não sabemos “DE ONDE” (póthen) é», ao que, no versículo seguinte (João 9,30), com viva ironia, o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso: vós não sabeis “DE ONDE” (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!». Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a questão posta por Pilatos a Jesus, em João 19,9: «“DE ONDE” (póthen) és Tu?».

4. Demoremo-nos, pois, um pouco com o chefe-de-mesa, uma vez que é a ele que Jesus manda os servos levar o vinho novo (João 2,8). O chefe-de-mesa prova o vinho novo, e confessa a sua ignorância acerca da sua origem: de facto, «não sabia “DE ONDE” era», diz-nos o narrador (João 2,9a). A sua pergunta é, portanto, esta: «“DE ONDE” é este vinho»? Estranho é que o seguimento do texto nos mostre que o chefe-de-mesa passe ao lado da sua própria pergunta. Ele, que não sabia, podia ter perguntado aos servos, que sabiam (João 2,9b), porque tinham recebido e executado as ordens de Jesus (João 2,7-8). Em vez de se dirigir a eles, o chefe-de-mesa opta, todavia, por se dirigir ao noivo. E em vez de formular a sua pergunta acerca da origem daquele vinho, acaba simplesmente por manifestar o seu espanto pelo estranho procedimento adotado, contrário a todos os usos e costumes vigentes, de servir primeiro o vinho reles, deixando para o fim o vinho bom! (João 2,10).

5. É fácil constatar que esta figura do chefe-de-mesa nos é apresentada no papel de pivot no que se refere ao andamento da festa; em relação ao vinho novo e bom que lhe é levado pelos servidores, manifesta desconhecer a sua proveniência; prova-o, como lhe competia, mas não esboça qualquer vontade de querer saber mais acerca dele; limita-se a manifestar a sua estranheza pelo facto de o ritual antigo ter sido alterado. O elenco destes traços figurais leva-nos a concluir que a figura do chefe-de-mesa representa bem as autoridades judaicas tradicionais, mas também todos os senhores do mundo, todos muito habituados, bons conhecedores das convenções, mas nada sensíveis à novidade que é visível em Jesus, nada sensíveis às pessoas e aos factos, que simplesmente lhes parecem saídos na roda do destino.

6. Os servos, que recebem e cumprem as ordens de Jesus, que dão o vinho novo e bom a provar aos judeus tradicionais e a toda a humanidade, são os discípulos de Jesus, que sabem a proveniência de Jesus, e sabem também discernir o «significado» deste primeiro «sinal» (sêmeíon) que Jesus fez» (João 2,11). O IV Evangelho apresenta, de resto, no seu corpo, sete sinais que requerem interpretação. Já vimos o primeiro. O segundo é a cura de uma criança gravemente doente, expressamente referido como segundo sinal (João 4,43-54). Vêm a seguir a cura de um paralítico (João 5,1-9), a multiplicação dos pães para cinco mil homens (João 6,1-15), Jesus a caminhar sobre as águas (João 6,16-21), a cura de um cego de nascença (João 9,1-12) e a ressurreição de Lázaro (João 11,1-44).

7. «A mãe de Jesus estava lá», diz-nos logo de entrada o narrador (João 2,1). Sintomático que, tendo ela sido apresentada como «mãe de Jesus» por duas vezes (João 2,1 e 3), pouco depois Jesus a trate por «mulher» (João 2,4), e não por «mãe». Este singular tratamento por «mulher» em vez de «mãe» tem sido muitas vezes visto como ríspido, distante e nada afetuoso da parte de Jesus. O mesmo tratamento por «mulher», e não por «mãe», aparece no Calvário também nos lábios de Jesus (João 19,26). Na verdade, esconde-se, neste tratamento por «mulher», um verdadeiro tesouro. A «mulher» é muitas vezes na Escritura o símbolo do Povo de Deus, e, mais concretamente de Sião-Jerusalém personificada como Esposa amada, Enlevo e Alegria de Deus, o Esposo (Isaías 54,5-7; 62,1-5), e como mãe embevecida dos filhos de Deus (Isaías 49,21; 60,1-4).

8. «Não têm vinho!», observa a mãe de Jesus, falando para Jesus (João 2,3). É uma observação de mãe atenta e de serva feliz, que está ali para amar e servir! A resposta de Jesus: «O que há entre mim e ti, mulher? Ainda não chegou a minha hora» (João 2,4), tem sido igualmente vista como uma resposta ríspida de Jesus à sua mãe. Na verdade, é uma daquelas frases que pode assumir duas valências opostas, conforme o tom de voz com que é dita. Tanto pode ser, de facto, uma resposta ríspida e de rutura, como pode ser, ao contrário, uma resposta de grande deferência e carinho. É óbvio que aqui é uma resposta de grande deferência e terno amor filial de Jesus. É como se Jesus dissesse: «Mulher, grande mulher, mulher messiânica, Aquela que atravessa em contraluz toda a Escritura Santa, que trouxeste até aqui nos teus braços a Esperança de um povo, porque precisas de mo pedir? Tu sabes bem que Eu o faço, e é já». E a mãe de Jesus, nunca chamada Maria no IV Evangelho, entendeu bem esta resposta (nós, pelos vistos, é que não). Sinal disso é que diz para os servos: «Fazei tudo o que Ele vos disser!».

9. Como Jesus dirá mais tarde – e diz hoje para nós – também no contexto de um banquete, a Eucaristia, em que somos nós os convidados: «Fazei isto em memória de Mim!».

10. «Estava lá a mãe de Jesus», como «estavam lá seis talhas», grandes e vazias (João 2,6). Mãe e Mulher da esperança, talhas vazias, mas que serão cheias de esperança até ao cimo. Delas jorrará o vinho novo e bom, até agora guardado para nós. Tempo novo e pleno do Amor de Deus. É Ele que servirá o banquete de carnes suculentas e vinhos deliciosos (Isaías 25,6).

11. O banquete Novo, Bom e Último do Reino de Deus, com o Vinho Bom e Último, até agora guardado na esperança, é agora cuidadosamente servido. É sabido que a tradição judaica descrevia com muito vinho o tempo da vinda do Messias, referindo que, nesse tempo, cada videira teria mil ramos, cada ramo mil cachos, cada cacho mil bagos, cada bago daria 460 litros de vinho! Que saber e sabor é o nosso? Sabemos e saboreamos a Alegria do Banquete nupcial? Servimos para servir este Amor, esta Alegria? Não esqueçamos que é este o «terceiro Dia!» (João 2,1), que agrafa esta Alegria à Alegria nova da Ressurreição ao «terceiro Dia», «sinal» para a Glória e para a Fé (João 2,11).

12. A página de hoje do Antigo Testamento é Isaías 62,1-5. Um simples relance de olhos por esta sublime paisagem textual de Isaías é suficiente para fazer ressaltar os acordes com o Evangelho de hoje. A cidade de Jerusalém (personificação de Israel), depois de experimentar o abandono e a desolação do Exílio, é agora olhada como uma noiva, desposada com Deus, seu Criador que, para o efeito, a recria, dando-lhe um nome novo, linguagem genesíaca (Génesis 1,1-4). E a alegria nupcial voltará a iluminar o rosto da cidade. É ainda dito, dentro do mesmo colorido, que a cidade-noiva será uma coroa (ʽatharah) nas mãos do Senhor, como o Livro dos Provérbios refere que «a esposa é a coroa (ʽatharah) do marido» (Provérbios 12,4). Belíssima linguagem nupcial, elevada dignidade para Jerusalém e para nós.

13. A comunidade cristã não pode ser vaidosa, autorreferencial, egoísta e individualista, como parecia ser Corinto, aos olhos de São Paulo (1 Coríntios 12,4-11). A comunidade bela e harmoniosa funciona como um corpo, é composta de irmãos, e todos têm em vista o bem comum. Os dons de cada um são para proveito de todos, e não para própria vanglória. Por isso, os dons são diferentes, é o Espírito que os distribui, e, postos em comum, servem para edificar a comunidade bela e harmoniosa. Como é hoje oportuno fazermos esta verificação nas nossas comunidades.

14. Comunidade bela e harmoniosa. Sujeito adequado e preparado pelo Espírito para cantar o «cântico novo» cujos tons nos dá hoje o Salmo 96, um Salmo que nos põe a cantar a Realeza de YHWH e as suas maravilhas. O melhor antídoto para o nosso culto tantas vezes apenas formal é uma fé coral que nos faz olhar, não tanto para o passado, mas para o futuro, para a notícia boa de um Deus que vem com um grande SIM para o nosso mundo. O «cântico novo» não nos põe a cantar hoje como ontem, mas hoje como amanhã.

 

Há um grande SIM a retinir no universo inteiro,

Na tua criação maravilhosa, verso e reverso,

Obra a obra, tudo bem feito por meio do teu Filho amado,

O Verbo, a Palavra sempre a dizer-se

E para sempre dita, anunciada, bendita.

SIM, o teu Filho Jesus não foi Sim e Não,

Mas unicamente SIM.

E com esse SIM fez-se e mobilou-se o universo inteiro.

SIM, é sintomático

Que nas 452 palavras hebraicas de Génesis Um,

O jardim da tua criação,

Não se encontre um único NÃO.

 

É tudo SIM, portanto,

E é nesse jardim que ecoa também o SIM de Maria,

E que cada lacuna, cada NÃO,

Se vá transformando sintomaticamente em SIM.

 

NÃO têm vinho, diz em Caná Maria para Jesus,

Mas logo terão vinho em excesso.

NÃO tenho marido, confessa a Jesus a mulher da Samaria,

Mas vai ter e está ali mesmo ao lado.

NÃO tenho ninguém que me lance à água,

Replica o paralítico à beira da piscina,

Mas já está ali Jesus mesmo ao lado.

NÃO tendes nada para comer, pois NÃO,

Pergunta e afirma Jesus perante os seus Apóstolos,

Que de madrugada regressam do mar sem nada terem pescado.

E eles respondem: NÃO!

Mas já está ali um banquete novo preparado sobre a praia.

 

Vem, Senhor Jesus,

Vem nascer em Belém

E aqui também,

Que precisamos tanto de Ti e do teu SIM.

 

António Couto