MISSÃO: MUDANÇA DE LUGAR E DE MODO

Junho 13, 2020

1. Atravessada em seis etapas dominicais (Domingos IV a IX) a paisagem sublime das alturas do Discurso programático da Montanha (Mateus 5,1-7,29), e tendo vivido de perto a cena do chamamento e resposta imediata e festiva de Mateus (Mateus 9,9-13) (Domingo X), ficaremos agora, durante três Domingos (XI-XIII) com o chamado “Discurso Missionário” (Mateus 9,36-11,1).

2. Neste Domingo XI, escutaremos Mateus 9,36-10,8. Tudo começa pelo princípio. E o princípio é sempre a compaixão de Jesus, dita com o verbo splanchnízomai, que implica um movimento visceral, maternal, de Jesus à vista das multidões cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor (Mateus 9,36). É a mesma comoção visceral, maternal, que encontramos em tantas outras circunstâncias: a cena da viúva de Naim (Lucas 7,13), do bom samaritano (Lucas 10,33), do pai da parábola da misericórdia (Lucas 15,20). A expressão «como ovelhas sem pastor» é uma maneira de dizer muito bíblica para expressar a dispersão, o desalento e o desencanto das pessoas (Números 27,17; 1 Reis 22,17; Judite 11,19; Ezequiel 34,5-6). E sempre com a mesma maneira de ver enternecida e comovida, Jesus diz logo para os seus discípulos: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos; pedi, pois, ao Senhor da messe que mande trabalhadores para a sua messe» (Mateus 9,37-38). A messe, grego therismós, qualifica a colheita, não a sementeira. É outra imagem muito bíblica para desenhar, não o tempo da espera e preparação, mas o tempo da realização do Reino de Deus, com a vinda do Messias. Por isso também, é um tempo novo, de alegria e de canções, como refere o Salmo 126,5-6. A imagem da messe, que traz consigo a realização do Reino de Deus, completa a imagem do jejum, referida pouco atrás, em Mateus 9,14-15. Os discípulos de João Batista e os fariseus jejuam para apressar a vinda do Messias. Os discípulos de Jesus não jejuam, porque o Messias já está com eles. Ele é o Reino-de-Deus em Pessoa, a Autobasileía, no dizer certeiro e contundente de Orígenes (185-254). É por isso que o dizer dos Apóstolos soa: «Fez-se próximo o REINO dos CÉUS» (Mateus 10,7b), sendo que «fez-se próximo» está escrito em grego com éggiken, que é o perfeito do verbo eggízô. E já se sabe que o perfeito grego começa e continua, não está de passagem.

3. É neste contexto que Jesus envia em missão os seus Doze Apóstolos, citados pelo nome, e que ficam fortemente vinculados a Jesus: 1) pelo chamamento (10,1a); 2) pela autoridade dada (10,1b); 3) pelo envio (10,5 e 16); 4) pelo anúncio (kêrýssô), que coloca sobre eles a marca da fidelidade (10,7a); 5) pelas palavras que devem dizer: «Fez-se próximo o REINO dos CÉUS» (10,7b), que já foram postas na boca de Jesus (4,17) e de João Batista (3,2); 6) pelas obras que devem realizar (10,1 e 8), que são também realizadas por Jesus (4,23-24; 8,16-17), e servem para identificar Jesus (11,5); 7) indo, antes de mais, à procura das ovelhas perdidas (10,6; cf. 18,12), como Jesus (9,36; 15,24); 8) pela Graça preveniente e concomitante (10,8); 9) pela sobriedade e despojamento, pobreza e simplicidade (10,9-10), que os conforma ao «Filho do Homem», que «não tem onde reclinar a cabeça» (8,20), até à Cruz (João 19,30); 10) pela imensa dignidade impressa em cada ser humano, imagem de Deus: daí o invulgar «sem sandálias (só em Mateus e Lucas 10,4) nem bastão» (10,10); sem sandálias: é assim que se está na presença do Deus santo (Ex 3,5; Js 5,15); sem sandálias e sem bastão: era assim que se entrava no Templo (os sacerdotes oficiavam descalços) e na sinagoga; os enviados de Jesus vão na presença de Deus e veem em cada ser humano a imagem de Deus; 11) pelo sustento (10,10), dado por Deus ao seu Servo e a Jesus, conforme a lição de Isaías 42,1, texto citado por Mateus em 12,18; ver também Elias, que bebe da torrente e é alimentado pelos corvos (1 Reis 17,4-6), e o Rei messiânico que, a caminho, bebe da torrente (Salmo 110,7); 12) sacudir o pó dos pés ao sair de casas e cidades não acolhedoras (10,14) reclama a remoção do pó profano num caminho sagrado; 13) pela rejeição e perseguição que lhes será movida (10,16-19), que é também, desde o princípio, a perseguição movida a Jesus (2,13); 14) pelo acompanhamento permanente e tranquilo do Pai e do seu Espírito, pelo que devemos fazer pausa e bemol, para que seja o Espírito a falar em nós (10,19-20; cf. 17,9); 15) acolher os Doze é acolher Jesus e o Pai (10,40).

4. As anotações acabadas de fazer dizem respeito a todo o discurso missionário, e devem, por isso, ser tidas em consideração também nos próximos dois Domingos. Jesus chama os Doze, dá-lhes autoridade e envia-os. A autoridade não é coisa própria dos Doze. É dada e recebida da fonte, que é Jesus. E destina-se a libertar as pessoas da influência dos espíritos impuros e a curar. Nas pessoas simples da Palestina do tempo de Jesus, estava ancorada a crença nos espíritos bons e maus que governavam o mundo e se instalavam como parasitas nas pessoas. Expulsar os espíritos maus não é nem menos eficaz nem menos credível que as curas psicanalíticas atuais. O envio é para anunciar (kêrýssô) que o Reino dos Céus se fez próximo e que é preciso ir à procura das ovelhas perdidas e encher o mundo de paz e de esperança.

5. A missão não é resguardar-se no seu grupo de pertença, e, desde aí, fazer proselitismo e propaganda (paradigma identitário e totalitário). A missão implica sair de si, mudança de lugar e de modo, não ficar aqui ou ali e não ficar assim. Implica ir à procura do outro perdido em qualquer margem da vida, acolhê-lo e velar por ele (paradigma alteritário).

6. Um ícone ilustrativo deste grande Capítulo X de Mateus: num dia de fevereiro de 1208, talvez no dia 24, Festa de S. Matias, na igreja de Santa Maria degli Angeli (Porziuncola), em Assis, um homem rico e até então dado a não poucos devaneios, ouviu a leitura desta página luminosa. Acendeu-se-lhe o coração. Nesse dia nasceu, ou completou o seu novo nascimento, S. Francisco de Assis.

7. O contraponto musical em pura sintonia vem hoje do grande texto de Êxodo 19,2-6, e lança a semente para tempos de colheita e realização que hão de vir, e que o Evangelho mostra cumpridos. O «dizer» de Deus está guardado no centro da estrutura, como num envelope. Tem a ver com um passado de graça operado por Deus em favor dos Filhos de Israel e por estes experimentado e por um futuro de graça oferecido por Deus e que pode ser também experimentado. «Vós vistes o que Eu fiz ao Egito, como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe até mim» (Êxodo 19,4), eis o passado de graça, com fé e amor recitado – «o relato acredita-se; a história sabe-se» –, «módulo narrativo» elástico e miniatural que carinhosamente guardamos e transportamos connosco como uma joia de família, junto ao coração: é pequeno, trabalho delicado de artística e carinhosa miniatura, que recolhe com ternura o passado e o torna presente, para ser facilmente transportado e calorosamente recitado por cada um de nós; nele nos reconhecermos, dele vivemos, com ele nos identificamos, com ele nos apresentamos. O passado e o futuro de graça rodam, porém, sobre a resposta de adesão a Deus que Israel tem de dar, e não pode deixar de dar, exigida por aquele enfático «E AGORA» (we‘attah) que ocupa o centro da estrutura. Salta à vista que há um «dizer» de Deus a atravessar o texto, a atravessar Israel e a atravessar-nos a nós. Note-se ainda que está aqui a nascer um povo sacerdotal, verdadeiro «sacerdócio comum dos fiéis», assente na escuta e no cumprimento da Palavra, relação nova de nova proximidade e nova familiaridade entre Deus e o seu povo.

8. A Carta aos Romanos 5,6-11 mostra-nos aquele Jesus Cristo que se debruça com amor sobre o nosso desvalor, exatamente como aparece no Evangelho de hoje, maternalmente se compadecendo das pessoas perdidas, cansadas e abatidas.

9. Na tradição judaica, o Salmo 100 constitui uma velha, pequena oração que ressoa no nosso coração como louvor ao Deus bom, cujo amor é eterno. Intitula-se «Um cântico para a tôdah» (mizmôr letôdah), isto é, para a ação de graças ao Senhor. Este pequeno hino articula gritos de alegria, louvor, conhecimento, súplica, bênção. Agostinho comenta assim: «Deixa que a oração se transforme no teu alimento. Rezando, adquires novas energias, e Aquele a quem rezas torna-se mais doce para contigo». No centro do pequeno hino está uma profissão de fé no Senhor: o Senhor é Deus, nosso criador, que estabeleceu a aliança com Israel («nós somos o seu povo»), o amor do Senhor é para sempre, a sua fidelidade para todas as gerações (v. 3 e 5).

 

Barcas ao largo,

Corações ao alto,

Em pura sintonia com a alegria do Evangelho,

Ide!

 

Ide

E entrai em cada coração,

Semeai a paz,

Saboreai o pão que houver,

E que a mão de Deus vos der.

 

Não largueis nunca essa mão de amor.

É ela que vos guia

Rumo à alegria

Da messe e da missão.

 

Acolhe, Senhor, a nossa prece

Por todos os que continuam a levar o teu amor

A toda a humanidade

E a fazer de cada coração

A casa mais bela da cidade.

 

António Couto


TÃO POBRE, TÃO POBRE, TÃO POBRE…, QUE SÓ TINHA DINHEIRO!

Setembro 21, 2019

1. O uso cristão da riqueza preenche quase por completo o Capítulo 16 do Evangelho de Lucas. Digo «quase», porque temos de excluir apenas uma breve palavra sobre a lei (Lucas 16,16-17) e outra, brevíssima, sobre o divórcio (Lucas 16,18). Dividindo o Capítulo em duas grandes partes, ficamos então com duas belas parábolas de Jesus: a primeira (Lucas 16,1-13), conhecida como «O administrador desonesto», será proclamada neste Domingo XXV do Tempo Comum, e a segunda (Lucas 16,19-31), conhecida como parábola do «Rico avarento e do pobre Lázaro», será proclamada no Domingo seguinte, XXVI do Tempo Comum.

2. A parábola do Administrador desonesto, que escutaremos neste Domingo XXV, tem sempre desorientado quer os leitores e ouvintes que a leem ou ouvem com simplicidade e bom senso, quer os exegetas que pretendem captar os seus segredos e penetrar nos seus veios mais profundos. E o problema reside nisto: é possível que o Evangelho proponha como modelo a imitar um homem desonesto?

3. Os exegetas enveredam habitualmente, para atenuar o mal-estar sentido, pelos costumes em uso na Palestina, em que as terras eram muitas vezes propriedade de grandes senhores, em muitos casos estrangeiros, que deixavam no terreno administradores locais, a quem davam grande margem de manobra, desde que, no final do ano, entregassem ao senhor o que tinham acordado. Neste sentido, é facilmente compreensível que o administrador ou feitor, de acordo com os negócios feitos, podia também obter licitamente os seus lucros, e que tenha sido com a sua parte dos lucros que o administrador, em nada prejudicando o seu senhor, tenha levado a efeito aqueles descontos que vemos nesta parábola.

4. Explicação aparentemente fácil e sensata, mas que não pode ser levada em conta. É demasiado equilíbrio para tão pouca explicação! Em boa verdade, a parábola não chama a atenção para a desonestidade do administrador, nem para os meios a que recorreu para fazer amigos. Claramente, a sua desonestidade não interessa a Jesus: não a condena, e tão pouco recomenda que a imitemos. Em vez disso, Jesus chama a nossa atenção para a prontidão e inteligência com que o administrador procede, sem permitir que o assalte, nem por um momento, a hesitação.

5. É verdade que o administrador da parábola e o discípulo de Jesus que a escuta pertencem a duas maneiras diferentes de estar na vida e de proceder: o primeiro obedece à lógica do mundo; o segundo à do Reino. Trata-se evidentemente de duas maneiras diferentes de encarar a vida. Não obstante, o discípulo de Jesus, de acordo com o andamento da parábola, deve aprender do administrador, não a ser desonesto, mas a capacidade de decidir com prontidão, inteligência e largueza. É isto que está em causa. É que, face ao Reino de Deus, o discípulo de Jesus deve ser igualmente rápido, hábil e perspicaz a tomar decisões. Não há, de facto, urgência maior. É quanto resulta do ensino de Jesus no caminho.

6. Mas a grande questão que salta da parábola é ainda esta: e Jesus não esbanja também os bens do Pai, o amor, o perdão, a misericórdia? Surge, portanto, uma segunda e inevitável questão: e nós, discípulos de Jesus, que vimos e ouvimos estas coisas no caminho, guardamos ciosamente estas riquezas divinas só para nós, ou esbanjamo-las com largueza e alegria como Jesus?

7. A parábola contada por Jesus permite ainda uma correta compreensão sobre a função do dinheiro. O dinheiro é para servir o homem, mas torna-se muitas vezes o seu dono, diante do qual nós nos prostramos, segurança enganadora, falso sucedâneo de Deus, ídolo, a que o Evangelho chama MAMONA (mamônã) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego mamônãs [= dinheiro, riqueza] deriva, através do aramaico mamôn, da raiz hebraica ’mn, que serve também para dizer a fé e a confiança em Deus. É como quem diz que podemos equivocar-nos radicalmente, deixando de pôr a nossa fé e confiança no Deus vivo, para nos agarrarmos aos ídolos mortos e vazios, uma espécie de «espantalhos num campo de pepinos!» (Jeremias 10,5). No nosso caso e nesta sociedade moderna, pode tratar-se de belos edifícios plantados no meio das cidades. É aí que estão os bancos! O historiador das religiões, David Flüsser, atravessava um dia a cidade de Atenas enquanto reflectia sobre a fé, grego pístis, no Novo Testamento. E quando levantou os olhos, deparou-se com grandes letras no frontal de um edifício. Leu: trápeza tês písteôs, à letra, banco de fé, em termos modernos, banco de crédito! Veja-se, hoje, com olhar lúcido, o logro ou o lodaçal das nossas arquitetadas seguranças!

8. Daí a muito bíblica e oriental advertência de Jesus: «Ninguém pode servir a dois senhores», donde: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Lucas 16,13). De notar que o Livro de Ben-Sirá já advertia com sabedoria: «Muitos pecam por amor ao dinheiro. Aquele que procura enriquecer faz todas as falcatruas». E ainda: «Como se introduz um pau entre as junturas das pedras, assim se intromete o pecado entre a venda e a compra» (Ben-Sirá 27,1-3).

9. O livro de Amós, de que hoje ouvimos também uma pequena perícope (8,4-7), caustica severamente a exploração dos pobres, a corrupção e o lucro fácil. O mundo de Amós é de oito séculos antes de Cristo. Mas o seu Livro parece ter sido escrito hoje, dada a sua tremenda atualidade. A lição de hoje abre com a chamada «fórmula de atenção» (Ouvi), que introduz habitualmente oráculos de desgraça, e dirige-se aos ricos e latifundiários, que vendem o trigo aos necessitados, enganando-os e roubando-os sorrateiramente, usando balanças, medidas e pesos falseados, comprando o trabalho dos pobres por um par de sandálias! Como se vê, sendo embora o texto do séc. VIII a.C., parece que estamos a ler um compêndio moderno de economia e comércio, que tem em vista apenas o lucro fácil a custo seja do que for. O oráculo termina referindo que para um tal comportamento de roubo, para cúmulo disfarçado de seriedade, não há amnistia: «nunca o esquecerei», diz Deus (v. 7). O efá, de que se fala no texto (v. 5), usado para medir cereais, equivalia a 45 litros. O sheqel ou siclo, de que também se fala no v. 5, pesava 11,4 gramas. A moeda propriamente dita aparece no séc. VIII na Anatólia, e pouco depois na Grécia. O sheqel é o nome atualmente usado para designar a moeda israelita.

10. Chega-nos hoje mais uma extraordinária lição de São Paulo na sua 1 Carta a Timóteo 2,1-8. Primeiro que tudo (prôton pántôn), rezar por todos os homens, usando todas as modalidades da oração: súplicas (deêseis), orações intensas (proseuchaí), pedidos (enteúxeis), ações de graças (eucharistíai) (v. 1). Depois, a afirmação da vontade salvadora universal de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos, e ao conhecimento da verdade venham (v. 4). Dois movimentos: um da parte de Deus, nunca anulável; outro da nossa parte, que nos devemos pôr em movimento em ordem ao conhecimento profundo, pessoal, íntimo, experimental (epígnôsis) da verdade, que é o amor fiel e fiável de Deus por nós. Em continuidade, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que se entregou a si mesmo por nós (vv. 5-6). A seguir, a razão de ser do próprio Paulo e da sua missão de anunciador (kêryx) e apóstolo (apóstolos) (v.7). Por último, como ao princípio, a vontade de Paulo de que todos rezem em toda a parte (v. 8).

11. E ficamos com a música inebriante do Salmo 113, o Salmo que abre o fascículo dos Salmos 113-118, catalogados como o «pequeno Hallel da Páscoa» ou «Hallel egípcio», cantados no decurso da Ceia da Páscoa hebraica, de que o Talmude registra uma imagem sugestiva, deixando supor que, no decurso da Ceia da Páscoa, se levantava das casas dos hebreus um suspiro de louvor que perfurava os tetos e chegava ao céu: «A Páscoa é saborosa como a azeitona, e o Hallel deve atravessar os tetos das casas para chegar ao trono de Deus». O Salmo 113, sessenta palavras hebraicas, apresenta três belos andamentos: o primeiro, vv. 1-3, convida os orantes a encher de louvor o espaço todo visto na sua linha horizontal (do nascer ao pôr do sol: oriente-ocidente) e o tempo todo (agora e sempre). Este louvor intenso dirige-se à pessoa do Senhor, expressa pelo Nome do Senhor (três vezes). O segundo andamento, vv. 4-6, desenha uma linha vertical no sentido descendente (céu-terra), e mostra a transcendência, a glória e a incomparabilidade de Deus, sentado no alto, nos céus, mas amorosamente debruçado sobre a terra. Portanto, o nosso Deus não é um Deus impassível e abstrato, fechado nas paredes douradas da sua eternidade, mas é um Deus que se interessa por nós. O terceiro andamento, vv. 7-9, desenha agora uma linha vertical no sentido ascendente (terra-céu), e mostra Deus em ação no nosso mundo, levantando do pó e do esterco os indigentes, e fazendo da estéril, por todos desprezada, mãe honrada e feliz, habitante digna na casa do Senhor. Grande Hino de Louvor, que faz comunhão na vertical e na horizontal, e que nos junta a todos na bênção (. 2), hebraico berakah, grego eulogía, que desenha um mundo de bondade e de bem, de pensar bem, dizer bem, querer bem, fazer bem. Bendizer ou dizer bem une, como sabemos. Une-nos uns com os outros e todos com Deus. É a Eucaristia. Ao contrário, maldizer ou dizer mal separa, como também sabemos.

12. Mas nunca nos esqueçamos que não pode ser o dinheiro a comandar a nossa vida. Nunca nos devemos esquecer da história daquele fulano que era tão pobre, tão pobre, tão pobre…, que só tinha dinheiro!

António Couto

 


A MISERICÓRDIA DA VERDADE

Agosto 31, 2019

1. Imaginemos o final de uma manhã de verão batida por um vento quente, e que se está a celebrar um casamento hebraico com um número elevado de convidados que se empurram uns aos outros à volta da tenda nupcial, sob a qual, na presença do rabino, o noivo introduz o anel no dedo da noiva, enquanto profere a fórmula do Talmude: «Com este anel, ficas-me consagrada segundo a Lei de Moisés e de Israel». Seguir-se-á a leitura e a assinatura da ketubah, o documento legal que garante os direitos e os deveres dos cônjuges.

2. Ali ao lado, as mesas aguardam os convidados para o almoço festivo. Alguns já, entretanto, começaram a ocupar os lugares mais propícios à fotografia de jet-set com lugar assegurado nas primeiras páginas dos jornais do dia seguinte, enquanto outros procuram aproximar-se o mais possível dos esposos para, depois da oração das sete bênçãos rituais a Deus por ter criado a maravilha do amor humano, poderem assistir ao gesto de quebrar um copo de vinho, que é um gesto muito popular e significativo, que pretende recordar aos jovens esposos que ninguém, nem sequer dois jovens enamorados e felizes, conhecerá sempre uma alegria plena que nunca seja visitada por laivos de tristeza e dor.

3. O cenário descrito pode servir para situar o Evangelho deste Domingo XXII do Tempo Comum (Lucas 14,1.7-14), com Jesus a esquadrinhar aquelas faces oxidadas pela mentira e toldadas por latas e latas de tinta e montes e montes de aparências. E a partir das hipocrisias que se cruzam diante dos seus olhos, Jesus adverte os convidados que se atropelam na tentativa de ocupar os primeiros lugares: «Procurai os últimos lugares!» (Lucas 14,10), muito na linha da multissecular sabedoria de Israel: «Não te vanglories diante do rei,/ nem ocupes o lugar dos grandes,/ pois é melhor para ti que te digam: “Sobe para aqui!”,/ do que seres humilhado diante de um nobre» (Provérbios 25,6-7). O que Jesus tem em vista é esta muito humana e instintiva vanglória de nos sentirmos superiores aos outros, de o podermos mostrar, e de sermos reconhecidos como tal. Esta busca de prestígio, este desejo vão de ostentar superioridade, pode ver-se até, imagine-se, no próprio funeral e na pedra tumular!

4. E, voltando-se depois para o fariseu que o tinha convidado, Jesus desequilibra-lhe a maneira mundana de ver e de fazer, e põe-lhe diante dos olhos a assimetria do Reino de Deus: «Quando deres um banquete, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos» (Lucas 14,12). Por esta lógica simétrica [hoje convido-te eu a ti; amanhã convidas-me tu a mim], os pobres ficam sempre de fora! A assimetria do Reino de Deus vira tudo do avesso e ao contrário: «convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos, e serás feliz por eles não terem com que te retribuir» (Lucas 14,14). Como se vê, aos quatro grupos de pessoas que dão lustro ao nosso «ego», Jesus contrapõe outros quatro grupos de pessoas habitualmente excluídas, não só por não trazerem nenhum lustro ao nosso «ego», mas até por criarem algum embaraço. Mas é por esta brecha de GRAÇA aberta no nosso quotidiano, que entra Deus e o mundo novo de Deus, diz Jesus.

5. A literatura talmúdica põe-nos esta assimetria da bondade diante dos olhos do modo mais radical possível, quando fala da «misericórdia da verdade» a propósito do sepultamento de um cadáver de que nenhum familiar próximo do defunto pôde ou quis ocupar-se. Diz o Talmude: «Se o Sumo-sacerdote, quando se dirige para o Templo para celebrar o Yôm Kippûr, se vem a deparar com um cadáver, não deve hesitar em “tornar-se impuro” no contacto com o cadáver, porque a “misericórdia da verdade” prevalece sobre a liturgia do Yôm Kippûr». O que faz, neste caso, o Sumo-sacerdote é símbolo de uma misericórdia absolutamente gratuita, pois o morto nada pode retribuir-lhe. Este ato de misericórdia quebra todos os cadeados do círculo encantado do nosso «eu», e abre-nos para a verdadeira imitação de Deus.

6. Aí está outra vez a ecoar a velha e assimétrica sabedoria de Israel: «Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te,/ para achares graça diante do Senhor […]. A água apaga a chama,/ a esmola apaga os pecados» (Ben-Sirá 3,20 e 30). É fazendo assim, diz bem a Carta aos Hebreus, que vos aproximais de Deus, de Jesus, dos santos e de milhões de anjos reunidos em festa» (Hebreus 12,22-24).

7. Não nos esqueçamos de que «dar esmola» (eleêmosýnê) é «fazer GRAÇA» (eleêô). É, portanto, imitar Deus, a quem rezamos ou cantamos: Kýrie eléêson [= «Senhor, faz-nos GRAÇA»], isto é, embala-nos nos teus braços maternais e olha para nós com um olhar maternal.

8. Em Jesus, a GRAÇA é acessível a todos, pois Ele olha com olhos de GRAÇA para todos: ricos e pobres, justos e pecadores, sãos e doentes. Também para os fariseus. Note-se que o Evangelho de Lucas, que é o Evangelho da GRAÇA de Deus aberto para todos, é o único a pôr Jesus por três vezes à mesa com fariseus (veja-se 7,36; 11,37; 14,1).

9. O Salmo 68 constitui um imenso catálogo das maravilhas de Deus, expostas numa linguagem vivíssima, saltitante, incontrolável, como convém a Deus. Os Cruzados fizeram dele o seu hino de batalha. A parte que será cantada neste Domingo exalta Deus como aquele que faz estremecer os justos de incontida alegria, que, na sua santidade, se apresenta como Pai dos órfãos e defensor das viúvas, que dá uma casa aos sem-abrigo, faz sair os prisioneiros ao som de música, e deixa os rebeldes no deserto, derrama a sua chuva sobre a sua herança, envolve o pobre no seu manto de bondade. Riqueza cénica, cromática, rítmica, encantatória. O Salmo é unanimemente considerado o mais difícil do Saltério. Mas é sobretudo uma impressionante obra de amor e de fé que canta a ação de Deus na história, à frente do seu povo, e no meio do seu povo, em favor do seu povo.

António Couto


E NÓS, QUE PENSÁVAMOS QUE TÍNHAMOS LUGAR GARANTIDO…

Agosto 24, 2019

1. A profecia de Isaías (66,18-21), hoje lida e escutada, rompe os nossos estreitos e falsos privilégios e alarga em muito a estrada da salvação, pondo todos os povos, como nossos irmãos, festivamente a caminho de Jerusalém, cidade da fraternidade e da paz! Enfim, aí está de novo a fechar o Livro de Isaías a ideia grande de missão: urge levar a glória de Deus às nações (verdadeira dimensão missionária do Povo de Deus), em vez de nos deixarmos seduzir pela glória das nações (Isaías 66,19)! E a ideia revolucionária de alargar o sacerdócio, para além das cerradíssimas fronteiras sadoquitas e levíticas, para todas as nações (Isaías 66,21), refina, de certo modo, a comunidade do culto já entretanto aberta, para espanto nosso, a eunucos e estrangeiros (Isaías 56,3-7)! Sempre para espanto nosso, o grande Isaías tinha já posto Deus a pronunciar a seguinte bênção: «Bendito o meu povo, o Egipto, e a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança» (Isaías 19,25). E já antes, no cântico de Sião do Capítulo 2,2-3, Isaías põe todas as nações a caminho de Jerusalém, para aí experimentarem a alegria de saborear, como filhos e irmãos, o pão da Palavra de Deus. E o profeta aproveita esta imensa procissão de esperança para gritar aos ouvidos dos seus concidadãos: «Vem, Casa de Jacob, vem, caminhar na luz do Senhor!» (Isaías 2,5).

2. Também a palavra do Evangelho proclamado neste Domingo XXI (Lucas 13,22-30) se dirige fortemente a NÓS, os que nos consideramos de dentro, e continua a desconcertar a nossa miopia no que às coisas de Deus diz respeito. «Comemos e bebemos contigo», «ouvimos os teus ensinamentos» (Lucas 13,26)! É como quem diz: frequentámos a Igreja e os sacramentos, comungámos tantas vezes, ouvimos proclamar a tua Palavra, conhecemos-Te muito bem, somos praticantes de longa data e até talvez… beatos!

3. Ficaremos espantados quando percebermos bem que os títulos que orgulhosamente ostentamos são falsos, há muito caducados, e não garantem o acesso a lugar nenhum no banquete do Reino dos Céus, pois não basta dizer «Senhor, Senhor!». É preciso «fazer a vontade do meu Pai que está nos céus!», diz-nos Jesus (Mateus 7,21).

4. Salta à vista que o texto de Lucas 13,22-30 se divide claramente em duas partes; Lucas 13,22-24 e Lucas 13,25-30. A primeira parte abre com o aceno ao caminho crucial de Jesus, que, desde Lucas 19,51, como já vimos, se dirige sem hesitação para Jerusalém. Lucas 13,22 apresenta-nos a segunda menção deste caminho para Jerusalém. É neste contexto do caminho, que surge a nossa pergunta: «Senhor, é pequeno o número dos que se salvam?» (Lucas 13,23). Como é seu hábito, Jesus não responde diretamente «sim» ou «não». Em vez disso, deixa uma forte interpelação (Lucas 13,24) e conta uma parábola (Lucas 13,25-30).

5. Eis a interpelação: «Lutai com todas as forças (verbo agonízô) por entrar pela porta estreita» (Lucas 13,24). O verbo empregado (agonízô) implica luta e empenho extremo, não assim-assim. A parábola é ainda mais desconcertante para nós. É mesmo tão desconcertante, que corremos o risco de nem sequer levarmos a sério o que ouvimos. Da porta estreita, Jesus passa para a casa, e para o dono da casa que fecha a porta (Lucas 13,25). E, pelos vistos, nós não estamos dentro da casa, estamos fora, a bater à porta e a gritar: «Senhor, abre-nos!». E, de dentro, vem a resposta do dono da casa: «Não vos conheço!» (Lucas 13,25).

6. Ao contrário, e para novo e ainda maior espanto nosso, NÓS, de fora, veremos a casa cheia de gente que vem de longe, do norte, do sul, do nascente e do poente (Lucas 13,29). E perguntaremos atravessados por um último espanto: então, NÓS, que somos padres, sacristães, ministros da comunhão, catequistas, acólitos, leitores, membros do conselho económico, do conselho pastoral, do grupo coral e não sei de quantas irmandades, NÓS, que estávamos sempre do lado de dentro, como é que agora estamos do lado de fora?! Então, e estes desconhecidos, pagãos, não praticantes, que antes tinham de nos pedir licença para entrar, como é que agora estão lá dentro, e nós cá fora?!

7. A razão é clara: o dono da casa não nos conhece (Lucas 13,25). Reside, então, aqui o problema. Estamos tantas vezes dentro das igrejas, tagarelamos uns com os outros, ocupamos ciosamente os nossos lugares, mas será que prestamos alguma atenção ao dono da casa? Será que chegamos a dar pela Presença que habita aquela Casa e que dá sentido à nossa vida? Falamos com Ele? Fazemos com Ele aquele caminho crucial?

8. É neste caminho que acontecem coisas importantes, e não podemos andar nele distraídos, inativos, de braços caídos. A página de Mateus 25 explicita bem o tom do Evangelho de hoje: «Afastai-vos de MIM (…), pois tive fome e não ME destes de comer, tive sede e não ME destes de beber, era estrangeiro e não ME acolhestes, nu e não ME vestistes, estive doente e na prisão e não ME visitastes. (…) Em verdade vos digo: cada vez que não o fizestes a UM (hení) destes, os mais pequenos, também a MIM o não fizestes”» (Mateus 25,42-43.45).

9. Salta à vista que é urgente começar AGORA a compreender que é preciso validar, com a vida, o bilhete que dá acesso à mesa do Reino dos Céus. A compreender e a fazer. É a inação que nos desclassifica. Jesus manda-nos lutar: «Lutai com todas as forças, até agonizar (verbo agonízô), por entrar pela porta estreita» (Lucas 13,24). Podemos ouvi-lo, de outra maneira, da boca de Pedro em Cesareia Marítima: «Na verdade, Deus não faz aceção de pessoas, mas em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça é bem aceite por Ele» (Atos dos Apóstolos 10,34-35).

10. Hoje, como sempre, é de santos e de justos que o nosso mundo precisa. Deles é o Reino dos Céus. E NÓS? Eles não perdem tempo em acudir às necessidades dos seus irmãos, sejam eles quem forem. E NÓS? Alguém dizia, não há muito tempo, que «os cristãos meramente praticantes estão em fim de linha. Hoje, precisamos de cristãos enamorados!». O cristão meramente praticante é aquele que está sempre a dizer: «Posso estar descansado: hoje cumpri todos os meus deveres». O cristão enamorado é aquele que não para de dizer: «Sim, fiz alguma coisa; mas ainda tenho tanta coisa para fazer!».

11. Lutai com todas as vossas forças em todos os momentos. A porta é estreita e está aberta pouco tempo. É o espaço e o tempo da nossa vida. Sede cristãos enamorados! E não vos esqueçais que o amor verdadeiro (agápê) é uma luta (agôn), sendo que agápê e agôn têm a mesma etimologia.

12. A lição de hoje do sermão da Carta aos Hebreus (12,5-7.11-13) é mesmo uma lição, uma instrução ao jeito do Livro dos Provérbios 3,11-12, que cita, para nos dizer e ensinar que Deus nos trata como filhos, e é por isso que nos ama e pedagogicamente nos corrige. É nesta ótica que devem ser lidas todas as situações da vida, sobretudo as mais difíceis.

13. O Salmo 117, o mais pequeno do Saltério, apenas 17 palavras hebraicas, é semelhante a um «ponto», sendo, por isso, chamado o punctum Psalterii. Por ser tão pequeno, já houve quem o quisesse juntar ao anterior (116) ou ao seguinte (118). Mas este é o caso em que o pequeno é belo e ao mesmo tempo imenso, porque reclama para o louvor de Deus todas as nações e todos os povos! E põe em realce dois dos mais belos atributos de Deus: o amor fiel (hesed) e a fidelidade (ʼemet). Soa, no Saltério, como o nosso «Glória ao Pai…». É citado na Carta aos Romanos 15,11, pelo seu elevado e concentrado teor universalista e missionário. É por isso também que a sua tonalidade se ajusta bem à liturgia ecuménica deste Domingo.

António Couto


UM FOGO NOVO

Agosto 17, 2019

1. Abre assim a extraordinária lição do Evangelho deste Domingo XX do Tempo Comum (Lucas 12,49-57): «O fogo Eu vim trazer sobre a terra, e como Eu desejo que já tivesse sido aceso (anêphthê: aoristo passivo de anáptô)! Tenho um batismo para ser batizado, e como estou sob stress (synéchômai) até que ele seja consumado (telesthê: aoristo conjuntivo passivo de teléô [= levar à perfeição]»! (Lucas 12,49-50). Um claro paralelismo sinonímico, assente em dois passivos divinos ou teológicos. Fogo ainda por acender, batismo ainda por receber. Não é, portanto, o batismo do Jordão. Esse ficou já para trás. Trata-se, isso sim, de levar à perfeição a missão filial batismal recebida no batismo do Jordão, que será cumprida no batismo da Cruz Gloriosa com a Dádiva do fogo do Espírito Santo a todos nós! Digamo-lo uma vez mais: no decurso da sua vida terrena, embora possuísse o Espírito Santo em plenitude, Jesus ainda não o podia dar a nós, pois ainda não tinha sido glorificado (João 7,39).

2. Não é, pois, de um vulgar incêndio que se trata. Este fogo é novo! Não é nosso. É de Deus. Vem de Deus. Mas arde e queima e opera dentro de nós, como um bisturi de dois gumes, até dividir alma e espírito, junturas e medulas, e julga mesmo as considerações e intenções do coração (Hebreus 4,12). É a própria Palavra de Deus que é como um fogo devorador (Jeremias 23,29). Veja-se o coração a arder dos dois discípulos de Emaús (Lucas 24,32). Veja-se a sarça que ardia e não se consumia, mas chamava por Moisés (Êxodo 3,2-4). Veja-se o fogo que arde no coração e nos ossos de Jeremias, e que ele não consegue dominar (Jeremias 20,9).

3. O batismo é um lume que alumia e queima e prepara para a luta do amor (agôn tês ágapês). Agôn [= luta] e agápê [= amor] têm a mesma etimologia. Vê-se, portanto, até etimologicamente, que o amor é uma luta que implica decisões todos os dias e a todas as horas. Sim, biblicamente, o amor não é um estado mais ou menos romântico ou idílico que se sofre, mas uma catadupa de decisões que temos de tomar. É preciso mesmo decidir amar os inimigos. Entenda-se bem: «amar», não «matar». Por isso, Jesus não veio trazer a paz angélica, mas a divisão evangélica (Lucas 12,51) ou a espada, como refere bem o paralelo de Mateus 10,34. Sim, para quem ama verdadeiramente, nada pode ser indiferente ou equivalente. Cada momento tem de deixar marcas, pois implica decisões e incisões até ao sangue (Hebreus 12,4). Não amaciemos e anestesiemos nós o Evangelho, não lhe retiremos o vigor, a alma, o lume e o gume, até o pormos a concordar com tudo e com todos, até o tornarmos inútil! As pessoas não precisam de entretenimentos, mas de Jesus Cristo!

4. E o batismo de Jesus (e o nosso) coloca-nos também no caminho duro da decisão que é sempre incisão, do sangue e do combate. O batismo é, na verdade, uma imersão na morte de Cristo (Romanos 6,3), e não nas «claras, frescas, doces águas» idílicas, como acontecia nos rituais batismais greco-romanos de fecundidade do deus Pã, ou nas múltiplas imersões de purificação que ao tempo de Jesus se cumpriam na comunidade de Qumran. Corramos, pois, com paciência (hypomonê) para o combate (agôn) (Hebreus 12,1), pois ainda não resistimos até ao sangue no combate (agôn) contra o pecado (Hebreus 12,4), assim nos será dado ouvir no sermão da Carta aos Hebreus que hoje nos atinge (Hebreus 12,1-4).

5. É de uma luta de todos os dias que se fala. E de um amor que impõe decisões, incisões e lutas todos os dias. Torna-se então necessário aprender e cultivar a paciência, cujo vocábulo grego, hypomonê, significa etimologicamente «estar debaixo de», carregando e suportando o peso que transportamos. Portanto, a paciência remete para sofrimento, mas não se trata de um sofrimento masoquista e inútil, que abate quem o sofre, mas que faz de quem o sofre a base para a vitória, no caso militar ou desportivo ou de quem queira triunfar em qualquer atividade. Vendo mais longe e mais fundo, como requer sempre o Evangelho, a paciência é o suporte ou fundamento que segura e mantém de pé o inteiro edifício do universo. E os Santos são os verdadeiros «carregadores» do mundo.

6. Um episódio da vida do poeta russo Serghei Esenin (1895-1925) ajuda a ilustrar melhor o carácter combativo do nosso batismo e do caminho crucial da vida cristã. À beira do suicídio, o poeta refugia-se num quarto de um albergue desconhecido. Mas adveio-lhe, nesse instante, do fundo da alma, a vontade irresistível de escrever uma última poesia. Porém, no albergue não havia tinta. Foi assim que Esenin foi levado a fazer uma incisão, um corte, no braço, e a escrever com o próprio sangue o seu último poema. Serve o episódio mencionado apenas para percebermos que só com o próprio sangue, isto é, com a nossa vida, podemos escrever a nossa adesão ao Reino de Deus. E o nosso batismo não pode ficar apenas registado com tinta em algum poeirento arquivo paroquial. Temos de o escrever com o nosso próprio sangue, no dia-a-dia.

7. Sim, o tom combativo que enche a página do Evangelho de Lucas não se refere aos últimos tempos. Não está para vir. É no nosso dia-a-dia que se trava este combate. São coisas «deste tempo» (kairós) (Lucas 12,56), em que vivemos, e que devemos saber ler. Sintomaticamente, sabemos ler os sinais atmosféricos e meteorológicos do tempo segmentado (chrónos) que vivemos. Mas temos dificuldade em ler o kairós, que é o nosso tempo segmentado (chrónos) inundado pela enchente da Palavra de Deus, pela graça da Presença do próprio Deus, a que temos de responder agora, e não podemos não responder ou adiar a resposta.

8. Jeremias, de cuja profecia ouvimos hoje um extrato (38,4-10), é bem o ícone incandescente das lutas sem fim em defesa da verdade da Palavra de Deus. Quer quando tem pela frente o tirano Joaquim (609-598), colocado no trono pelo egípcio Nekao II, o troca-tintas Sedecias (597-587), colocado no trono pelo babilónio Nabucodonosor, os militares, a aristocracia, a sua própria família, ou o povo em geral. Claramente, e sem equívocos de nenhuma espécie, Jeremias anuncia a morte a quem quiser permanecer na defesa da cidade de Jerusalém, e apregoa a rendição aos babilónios como única esperança de sobrevivência. Por causa desta alta traição à pátria, assim julgam os ministros e os chefes militares, Jeremias será lançado numa cisterna e atolar-se-á no lodo (v. 6). Daí será retirado por um estrangeiro compadecido (vv. 7-10), e será depois, no fatídico ano de 587, em que Jerusalém será arrasada, protegido pelos babilónios. Mas o rei Sedecias e o seu exército não terão igual sorte. Fugirão da cidade, mas serão perseguidos e alcançados. Sedecias verá os seus filhos serem degolados. Depois, ser-lhe-ão vazados os olhos, e será levado com cadeias para a Babilónia.

9. O Salmo 40 apresenta um primeiro andamento de ação de graças (vv. 1-10), seguido logo por um movimento de súplica e lamentação (vv. 11-18). Parece, pois, haver no corpo do Salmo uma estranha divisão. Quem é o «eu» que constata e agradece os benefícios de Deus no v. 1, e quem é o «eu» que, no v. 14, implora ainda com veemência o auxílio de Deus? Este insistente pedido de ajuda ouve-se novamente no v. 18, que hoje serve de refrão ao Salmo. Esta notória divisão no corpo do Salmo não é ilógica, como muitas vezes tem sido vista. É humana, dado ser também a nossa vida tecida por momentos de sonho e de outros tempos desgraçados. Em sintonia com o Evangelho de hoje, e também com a lição de Jeremias e do Sermão da Carta aos Hebreus. Há, porém, um dado novo, um canto novo: seja qual for a nossa situação, está sempre lá o bom Deus, a quem nos podemos dirigir com confiança.

António Couto


A GANÂNCIA ASFIXIA E MATA

Agosto 3, 2019

1. Diz o Tratado Pirqê ’Abôt 2,9, da Mishna judaica, que «o caminho mau de que o homem se deve afastar é pedir emprestado e não restituir», acrescentando logo que «é a mesma coisa receber emprestado de um homem ou de Deus». Comentando este dito da sabedoria judaica, afirma, de forma contundente, o grande filósofo hebreu Abraham Joshua Heschel: «Talvez esteja aqui o núcleo da miséria humana: quando nos esquecemos de que a vida é um dom e também um empréstimo».

2. Servem estes ditos rabínicos para nos conduzir ao extraordinário DIZER e MOSTRAR de Jesus no Evangelho deste XVIII Domingo do Tempo Comum (Lucas 12,13-21): «Vede bem e guardai-vos de toda a GANÂNCIA (pleonexía)» (Lucas 12,15). É fácil de entender o termo grego usado pelo narrador: pleonexía, que aqui traduzimos por ganância, deriva de pléon [= mais] + échô [= ter], e passa, portanto, a ideia clara de desejarmos TER MAIS poder, posse, dinheiro, sucesso, etc… Esta raiz daninha pode tomar de tal modo conta de nós que acaba por minar e envenenar todos os nossos comportamentos. São Paulo chama, com toda a razão, a este vício da «ganância» ou «avareza», «idolatria» (Colossenses 3,5). É o feitiço ou o fetiche do poder, da posse, da riqueza, do dinheiro, do sucesso, diante dos quais nos prostramos, seguranças enganadoras, falsos sucedâneos de Deus, a que o Evangelho chama MAMONA (mamônã) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego mamônãs [= dinheiro, riqueza] deriva, através do aramaico mamôn, da raiz hebraica ’mn, que serve também para dizer a fé (ʽemunah) e a confiança em Deus. É como quem diz que nos podemos equivocar radicalmente, deixando de pôr a nossa fé e confiança no Deus vivo, para nos agarrarmos aos ídolos mortos e vazios, uma espécie de «espantalhos num campo de pepinos!» (Jeremias 10,5).

3. E, para que tudo fique mais claro, aí vem mais uma história arrasadora de Jesus. «A terra de um HOMEM RICO produziu muito» (Lucas 12,16). E eis o HOMEM RICO, sintomaticamente apresentado em cena SEMPRE SÓ, voltado unicamente para si mesmo, entretido com a sua autorreferencialidade, a cogitar CONSIGO MESMO, e a falar apenas CONSIGO MESMO (Lucas 12,17-19).

4. Diz ele: deitarei abaixo os meus celeiros pequenos, construirei novas infraestruturas, grandes celeiros, e recolherei lá todo o meu trigo e os meus bens. Depois, direi para MIM MESMO: tens muitos bens acumulados para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te! (Lucas 12,18-19). Assim falou o HOMEM RICO a sós CONSIGO MESMO. Mas agora é a vez de Deus, que lhe diz: «Mentecapto (áphrôn), precisamente esta noite morrerás, e as coisas que acumulaste para quem serão?» (Lucas 12,20). E o narrador conclui: «Assim acontece àquele que acumula PARA SI MESMO e não PARA DEUS» (Lucas 12,21). Note-se o vivo contraste entre aquele para muitos anos, projetado pelo homem rico, e a lâmina impiedosa daquele precisamente esta noite, pronunciado por Deus e que deita a perder a rima de projetos que elaborámos! Note-se também o vivo contraste das duas formas de viver que o texto assinala: para si mesmo e para Deus. Viver para si mesmo é a autorreferencialidade que estiola a vida, de que não se cansa de falar o Papa Francisco. Para Deus impõe uma direção da nossa vida para fora de nós, para Deus, bem assinalado no texto grego com a expressão eis Theón (Lucas 12,21), que implica movimento para Deus. Na lição do Evangelho do próximo Domingo (XIX), Jesus ensinar-nos-á que este para Deus se verifica no para os outros: «Vendei os vossos bens, e dai em esmola» (Lucas 12,33).

5. Não é suficiente traduzir o termo grego áphrôn por «insensato» ou «estúpido». Áphrôn resulta de phrên [= mente] a que se antepõe o a- (alfa) privativo, pelo que áphrôn indica a falta total de inteligência, um mentecapto, desmiolado, sem-mente.

6. Olhando atentamente à nossa volta, neste mundo em crise acentuada e à deriva, veremos depressa (e não é só no futebol) tantos «ricos mentecaptos», que passeiam e planeiam, falam e gastam sozinhos. Onde estão na nossa não-mente os irmãos a quem devemos fazer participar com alegria da nossa riqueza? E, em última análise, a orientação da nossa vida é PARA NÓS MESMOS ou PARA DEUS? Recebemos a vida, os outros, a riqueza como um DOM e um EMPRÉSTIMO, de que devemos responder a cada momento, ou pensamos que somos DONOS de todos e de tudo, registando logo todos e tudo em nosso nome, nossa propriedade para nosso uso, consumo e satisfação exclusivos? A parábola do rico mentecapto, que acabámos de seguir em Lucas, e que constitui um importante ensinamento de Jesus no caminho, pode muito bem ser vista como o desenvolvimento do gérmen sapiencial já registado no Livro de Ben-Sirá 11,18-19: «Há quem enriqueça por GANÂNCIA, e será esta a sua recompensa: quando ele disser: “agora encontrei descanso, agora comerei dos meus bens”, ele não sabe quando virá o dia em que deixará tudo a outros e morrerá».

7. Temos hoje a ácida e lúcida companhia de Qohelet (1,2; 2,21-23), esse intrigante pregador que nos segue por toda a parte e não cessa de nos ir lembrando que tudo o que fazemos pode afinal não passar de um sopro, fumaça, um vento que passa, um ócio oco e vão, uma soneira. E logo com tanto irmão à nossa beira!

8. São Paulo regressa ao essencial nesta bela página da Carta aos Colossenses (3,1-5.9-11), pondo em destaque a nossa condição cristã assente no batismo, isto é, na enxertia da nossa vida em Cristo. «Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, com ressuscitastes (synêgérthête: aor. pass. de synegeírô), procurai as coisas do alto» (v. 1). A Igreja antiga retirou daqui o tà ánô zêteíte, sucessivamente traduzido com sursum corda, corações ao alto, que se usa no diálogo inicial da Prece Eucarística em todas as liturgias. A vida nova, batismal, em Cristo, requer de nós vestidos novos (v. 10), com o consequente abandono dos velhos vícios que nos prendem à terra. Não se trata, obviamente, de um convite ao desprezo das coisas terrenas, dando corpo, por assim dizer, a uma religião de evasão e alienação. Trata-se, antes, de não nos encerrarmos nas coisas deste mundo, à maneira do rico da parábola de hoje, a quem encaixa bem a lista de vícios do v. 5, em que sobressai «a ganância insaciável (pleonexía), que é idolatria». Nós, batizados em Cristo, procuramos aquele tesouro escondido no campo, pelo qual vale a pena vender tudo (Mateus 13,44).

9. O Salmo 90 põe em cena a eternidade e a solidez de Deus em confronto com a fragilidade e o sabor efémero da vida humana, sempre vista no microscópio de Deus. Este confronto é cantado na elegia sapiencial dos vv. 1-10, sendo de súplica os vv. 11-17. O primeiro movimento pode resumir-se na afirmação do v. 4: «Mil anos aos teus olhos são o dia de ontem que passou, como uma vigília da noite». E o segundo movimento tem o seu ponto alto no v. 12: «Ensina-nos a bem contar os nossos anos, para chegarmos à sabedoria do coração». Estar de passagem e sermos tão frágeis como a flor da erva (vv. 5-6), não nos leva para o pessimismo, mas para viver intensamente a vida que Deus nos dá, Ele que é e permanece o nosso refúgio de geração em geração (v. 1). O grande estudioso dos Salmos, Artur Weiser (1893-1978), alemão, de tradição Evangélica, expressa bem esta realidade: «Na luz da graça de Deus, um reflexo de eternidade cai também sobre a vida e sobre a obra do homem. Da parte de Deus, a fragilidade recebe subsistência, a miséria torna-se glória, aquilo que parecia sem sentido, alcança significado… É como se a estrela de outro mundo viesse fazer luz sobre o fluir dos nossos dias».

António Couto


A SENHORA DONA MARTA E A DISCÍPULA MARIA

Julho 20, 2019

1. Imediatamente a seguir ao belo trabalho de amor do Bom Samaritano (Lucas 10,25-37), apresentado como figura do discípulo de Jesus, eis-nos a braços com outra cena de exceção do Evangelho de Lucas: Jesus, Marta e Maria (Lucas 10,38-42), que continua a expor diante de nós, neste Domingo XVI do Tempo Comum, traços salientes para continuarmos a compor a figura do discípulo de Jesus.

2. A primeira anotação do narrador é para nos comunicar que, estando Jesus em viagem, uma mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa (Lucas 10,38). Acrescenta logo que Marta tinha uma irmã, chamada Maria (Lucas 10,39), e começa de imediato a desenhar o retrato das duas irmãs.

3. De Maria, diz-nos que se SENTOU aos pés de Jesus e que ESCUTAVA a sua Palavra (Lucas 10,39). O leitor apercebe-se de imediato que Maria assume a figura de discípula atenta, dedicada e deliciada: SENTADA perto do Mestre, ESCUTAVA… O narrador usa outras tintas para pintar o retrato de Marta. Começa por nos dizer que andava DISTRAÍDA (verbo grego perispáô) com muito trabalho (Lucas 10,40a). Aproximando-se, porém, disse a Jesus com um certo ar de reprovação: «Senhor, a ti não te importa que a minha irmã me deixe sozinha a trabalhar?» (Lucas 10,40b). E sem esperar pela resposta, como quem está cheia de razão, acrescenta logo, como quem tem autoridade para dar ordens até a Jesus: «Diz-lhe, pois, que me venha ajudar!» (Lucas 10,40c). É aqui que intervém Jesus, com a sua Palavra serena e soberana, para lhe dizer: «Marta, Marta, andas PREOCUPADA (verbo grego merimnáô) e ÀS VOLTAS (verbo grego thorybázô) com MUITAS COISAS (pollá), quando UMA SÓ (henós) é necessária» (Lucas 10,41-42). E conclui, para total espanto nosso e de Marta: «Maria ESCOLHEU (eklégomai) a parte BOA (e bela), que não lhe será tirada» (Lucas 10,42).

4. Importa ver já, com clareza, que Maria não diz uma palavra em todo o episódio. Não se ouve a sua voz. Ela está tranquilamente SENTADA e totalmente concentrada na ESCUTA de outra VOZ, que não a sua. Maria é a mulher de UMA COISA e de UMA PESSOA. Por isso, na base da sua vida, tem de haver uma ESCOLHA. Nas páginas da Escritura Santa, é normalmente Deus o sujeito do verbo ESCOLHER. Quando também nós ousamos ESCOLHER, então já se percebe que deixamos muitos mundos para trás e que nasce em nós um mundo novo, por acostagem ao mundo de Deus.

5. Marta começa por receber Jesus na casa dela. É a senhora dona Marta. Olha de soslaio para a sua irmã Maria que acusa de não fazer nada, e repreende Jesus por não se importar com isso, e acaba mesmo dando ordens a Jesus, para que, por sua vez, dê ordens a Maria para a ir ajudar. É a senhora dona Marta. Manda, ou pensa que manda, em casa, na sua irmã e em Jesus!

6. A sua vida é uma azáfama, anda às voltas, ocupada por preocupações e preconceitos, descentrada e desconcentrada. O seu fazer é tradicional e convencional. Nunca ESCOLHEU. Apenas CONTINUOU a fazer o habitual. O narrador diz-nos que anda DISTRAÍDA, e Jesus diz-lhe que anda PREOCUPADA (merimnáô) e ÀS VOLTAS (thorybázô)… Vocabulário importante. Um pouco adiante, Jesus adverte os seus discípulos para não se PREOCUPAREM (merimnáô) com a vida, quanto ao que hão de comer, nem com o corpo, quanto ao que hão de vestir (Lucas 12,22), e acrescenta logo que isso – afadigar-se com o que comer, beber e andar freneticamente, de lado para lado, como meteoritos (meteôrízô) – são coisas dos pagãos! (Lucas 12,30). E põe-nos diante dos olhos este tesouro evangélico e poético: «Considerai os lírios do campo, que não fiam nem tecem!…» (Lucas 12,27).

7. Ressalta deste finíssimo quadro que também o agitar-se por Deus ou pelo próximo pode ser coisa pagã. Não necessariamente por ser pagão o objeto da busca, mas por ser pagão o modo de procurar: com afã, inquietação, agitação! Na verdade, as «muitas coisas» podem viciar, não apenas a escuta, mas também o verdadeiro serviço. Fazer muito pode ser sinal de amor, mas pode também fazer morrer o amor! Ao hóspede é necessário oferecer companhia, não apenas coisas!

8. Ao contrário da senhora dona Marta, que nunca abriu mão da sua condição de dona, Maria percebeu bem que não é dona, mas simplesmente hóspede. Não da sua irmã Marta, mas de Jesus. Maria está, na verdade, hospedada em casa de Jesus. Por isso, está assim serena e tranquila. Entregou-lhe tudo: o coração, as mãos, os olhos, o cofre, a chave do cofre, a chave de casa. Marta não é apresentada como sendo má pessoa, mas não compreendeu que, quando Jesus entra em nossa casa, é dele a casa, e nós simplesmente seus hóspedes, tranquilamente sentados junto dele! Ai esta nossa entranhada tentação patronal!

9. Dizia um velho rabino acerca de um seu colega: «anda de tal modo ocupado com as COISAS de Deus, que até se esquece de que ELE existe!». Convenhamos que se trata de um esquecimento desastroso…

10. Veja-se bem a simplicidade, a prontidão e a candura desarmantes da lição do velho Abraão do Antigo Testamento de hoje (Génesis 18,1-10). Parece mesmo que Abraão já estava ali, à porta da tenda, à espera de alguém ou de Alguém! Depois de entrever Alguém ao longe, percorre aquela avenida num instante, e, como bom beduíno oriental, quase implora que não passem adiante sem descansar e retemperar as forças na sua tenda. Os viandantes aceitam. Abraão corre, apressa-se, e, no mesmo movimento de alegria, entram Sara, sua esposa, e o seu servo, escrupulosamente seguindo as diretrizes de Abraão. Mesmo quando os seus hóspedes estão recostados à mesa, isto é, à volta de uma pele de vaca sobre o chão à entrada da tenda, debaixo da árvore, estendida, Abraão permanece de pé, em atitude de disponibilidade e serviço. Abraão apresenta-se loquaz e atarefado, enquanto os seus hóspedes estão tranquilos e pronunciam frases curtas, antes da grande palavra de esperança, completamente inesperada, que abre novos horizontes para toda a humanidade! Note-se ainda que as três medidas de farinha (Génesis 18,6), mais coisa menos coisa como 60 quilos de farinha, que Abraão manda Sara amassar e meter ao forno apontam já para a parábola do Evangelho (Mateus 13,33; Lucas 13,21), e, para além disso, dada a quantidade, para o banquete do Reino de Deus! Mas também aquele filho prometido (Génesis 18,10) aponta para o Filho que encherá as páginas do Novo Testamento e da nossa vida!

11. Na lição de hoje da Carta aos Colossenses 1,24-28, Paulo apresenta-se como «servidor» (diákonos) do Evangelho a toda a criatura (v. 23) e como «servidor» (diákonos) do corpo de Cristo, que é a Igreja (ekklêsía) (v. 24). Tudo isto, não por vontade do Apóstolo, mas segundo a «economia» (oikonomía) de Deus, dada a ele por Deus para proveito nosso para levar a cumprimento a Palavra de Deus (v. 25). A Deus aprouve dar-nos a conhecer (gnôrízô) o seu mistério (mystêrion). Portanto, o mistério bíblico não é o que não se sabe nem se pode saber; é, antes, aquilo ou Aquele que Deus nos dá a conhecer (vv. 26-28). Mistério, portanto, prometido, anunciado, ensinado e conhecido! Para glória de Deus e nossa! Mas Paulo, o Apóstolo, ainda quer deixar diante de nós uma leitura nova do sofrimento, de que tanto fugimos e que a tanto custo suportamos. Diz o Apóstolo: «Alegro-me (chaírô) nos sofrimentos em vosso favor e completo o que falta nas tribulações de Cristo na minha carne em favor do seu corpo, que é a Igreja» (v. 24). Só o amor dá sentido à dor.

12. O Salmo 15 é uma «Liturgia de ingresso» no santuário, ou uma «Liturgia das portas». Constituía, na prática, uma espécie de liturgia penitencial ou exame de consciência feito à porta do Templo, para se aquilatar se a pessoa reúne condições para poder entrar no Templo. Quer isto dizer que, para alguém poder transpor o limiar do Templo, para poder ir à presença de Deus, tem de preencher uma série de requisitos morais e existenciais, e não apenas de pureza ritual, que nem sequer é falada no Salmo. Nas fachadas dos santuários do Egito e da Mesopotâmia estavam inscritas as condições requeridas para se aceder ao culto. Tratava-se, em quase todos os casos, de preceitos de natureza ritual ou exterior. Também o Talmude lembrava que «o homem não deve subir ao monte do Templo com sapatos ou bolsa ou com os pés cheios de pó; não deve reduzir os átrios do templo a entradas apressadas, e muito menos cuspir neles». Como se vê, o nosso Salmo não se entretém com ritualismos exteriores, mas requer comportamentos como o cumprimento de atos éticos e existenciais, que envolvam a justiça e a verdade, que evitem a calúnia e o insulto e a usura. Tenha-se presente que, no mundo oriental, o empréstimo interesseiro atingia, por vezes, níveis altíssimos. Por exemplo, na Mesopotâmia, as taxas de empréstimo chegaram a variar entre 17 e 50%. O nosso Salmo apela à verdade e à generosidade.

António Couto


AMARÁS!

Julho 13, 2019

1. Prosseguimos neste Domingo XV do Tempo Comum a leitura ou a pintura de Lucas 10, que tenta mostrar, cada vez com maior nitidez, os traços mais salientes da figura do discípulo de Jesus. É assim que Lucas coloca diante de nós a figura do «Bom Samaritano» (Lucas 10,25-37).

2. «Sou a personagem mais popular do Evangelho. Vós falais muitas vezes de mim: há vinte séculos que oiço o vosso aplauso por ter puxado o freio com que parei o cavalo naquela estrada que seguia de Jerusalém para Jericó. Ofereci imagens consoladoras à vossa emotividade e ao vosso gosto inato de histórias com um final feliz: a minha figura debruçada a colocar faixas, as gotas de óleo e vinho derramadas sobre as feridas do viandante maltratado pelos ladrões e traído por aqueles dois que pouco antes me precederam naquela estrada e lhe tinham negado a sua piedade, o facto de eu ter colocado o ferido sobre a minha montada, a pousada com o hospedeiro a quem entrego dois denários para ele continuar a assistência. E vós, para me honrar, ornamentastes com estas cenas as entradas dos albergues e lugares piedosos». É assim que o escritor italiano Luigi Santucci (1918-1999) abre o seu Samaritano apocrifo, deixando transparecer alguma ironia.

3. É grandemente sintomático que Jesus, com o recurso à parábola, tenha sabido e querido deslocar para a estrada, para o caminho, para a praça pública, as questões que eram habitualmente discutidas nas escolas ou na sinagoga entre especialistas. E assim, desde o princípio, tudo, no texto, se joga sobre o fazer, e não sobre o saber, como seria de esperar na mente do doutor. O próprio doutor da lei, que abre o diálogo com Jesus (Lucas 10,25), foi pedagogicamente conduzido por Jesus a saber talvez mais do que queria fazer, e talvez menos do que queria saber.

4. Note-se ainda, para além da estranheza da pergunta do doutor pelo fazer, e não pelo saber, que o objetivo é herdar (klêronoméô) a vida eterna, isto é, chegar a ser filho de Deus, filiação divina (hyiothesía) por graça recebida (Romanos 8,15-16; Gálatas 4,5). Fica-se a saber no final que é fazendo MISERICÓRDIA (spaggchnízomai) (Lucas 10,33) ou GRAÇA (éleos) (Lucas 10,37), como o SAMARITANO, que se herda a vida eterna.

5. Concentrando agora a nossa atenção sobre a parábola do Evangelho de Lucas (10,25-37), é impressionante notar que o narrador tenha necessitado de pouco mais de cem palavras, exatamente 106 no texto grego, incluindo artigos e partículas gramaticais (cf. Lucas 10,30b-35), para criar um quadro inesquecível!

6. Um HOMEM, anónimo e solitário, percorre os 27 km da estrada romana que, serpenteando através do Wadi el-Kelt, ligava a Cidade Santa (Jerusalém) ao belíssimo oásis de Jericó, tradicional morada de sacerdotes, superando um desnivelamento de cerca de 1100 metros. De improviso, na paisagem inóspita e desértica daquela estrada, o cenário habitual: BANDIDOS que saltam da emboscada, roubo, violência, fuga. Fica na berma da estrada um corpo ensanguentado, com a guarda de honra das rochas vermelhas dos montes circundantes, ditos em hebraico Adummîm, tradução literal: «do sangue». Tudo envolto num gritante silêncio.

7. Mas eis, ao longe, um SACERDOTE… Súbita desilusão. O narrador refere que o SACERDOTE bem viu o nosso homem, mas «passou pelo lado contrário» (antiparêlthen). Evitou demoras, chatices, incómodos, impureza ritual. Eis, todavia, no horizonte, outra possibilidade: um LEVITA… A mesma desilusão. Também ele «passou pelo lado contrário» (antiparêlthen).

8. A narrativa atinge o seu auge. Eis que vem agora um SAMARITANO, lídimo representante daquele «estúpido povo que habita em Siquém» (Ben-Sirá 50,26), mas vai fazer tudo ao contrário dos dois anteriores representantes da religiosidade fria e formal de Jerusalém. Veja-se com quanto pormenor o narrador descreve todos os seus gestos: vem até junto dele (1), viu-o (2), FOI TOMADO DE MISERICÓRDIA (3), aproximou-se (4), enfaixou-lhe as feridas (5), derramou óleo e vinho (6), colocou-o na sua montada (7), levou-o para uma pousada (8), tomou-o ao seu cuidado (9), deu dois denários ao hospedeiro (10), e disse-lhe: «Toma tu cuidado dele» (11).

9. Aí está a religiosidade fria e calculista e insensível, debruçada sobre si mesma, que passa ao lado da vida por e para estar atenta apenas às rubricas, por parte dos agentes do culto oficial de Jerusalém, em claro contraponto com o amor pessoal, eivado de afeto e de gestos de carinho ativo e criativo deste SAMARITANO, totalmente debruçado sobre os outros e para os outros, interessando-se até sobre o seu futuro, e provocando outros a entrar nesta dinâmica nova cheia de amor novo. Notável aquele: «Cuida tu dele!», do Samaritano, implicando o hospedeiro neste trabalho do amor! E de Jesus implicando o doutor: «Vai e faz tu!».

10. Fica claro que todo o fazer do samaritano tem o sabor do excesso e da maravilha. A sua história termina assim: «Quando eu voltar, pagar-te-ei». Mas esta é, como sabemos, a assinatura de Deus, como se pode ver nas parábolas do Reino (cf. Mateus 24,15 e 19). E o tempo e os irmãos que nos deixa nas mãos são a graça da missão que nos confia.

11. É por tudo isto que, sobre uma pedra da pretensa pousada do Bom Samaritano, na verdade um edifício do tempo dos Cruzados, mas que os peregrinos identificam com a pousada da parábola, um peregrino medieval gravou em latim estas palavras: «Ainda que sacerdotes e levitas passem ao lado da tua angústia, fica a saber que Cristo é o Bom Samaritano, que terá MISERICÓRDIA de ti, e, na hora da tua morte, te conduzirá à pousada eterna».

12. «Amarás!», é quanto responde o doutor, lendo a Lei de Deus (Lucas 10,27), que não está longe de ti: está na tua boca e no teu coração, como diz a lição do Livro do Deuteronómio 30,10-14, hoje escutada, e em que, no último dia da sua vida, Moisés insiste em repetir a Israel que, para viver feliz na Terra Prometida em que vai entrar, deve escutar e pôr em prática a Palavra de Deus, verdadeira chave da vida de Israel e da nossa.

13. Hoje temos a graça de escutar um antigo hino sobre o primado de Jesus, provavelmente de língua aramaica, que Paulo incrustou na sua Carta aos Colossenses (1,15-20). O hino é belo, teológico, denso, produzido com rima e metro, como é normal nos hinos antigos. «Filho do amor do Pai» (v. 13) é Jesus Cristo, «Imagem (eikôn) do Deus invisível», «Primogénito (prôtótokos) de toda a criatura» (v. 15) e também «Primogénito dos mortos» e «Cabeça do corpo que é a Igreja» (v. 18), «n’Ele» (en autô) (v. 16), «através d’Ele» (di’ autoû) e «para Ele» (eis autón) (v. 16) tudo foi criado. Ele, o Senhor Jesus, é absolutamente o centro de tudo e o primeiro em tudo, desde a criação, à propiciação pelo sangue da sua Cruz (v. 20), à vida da Igreja, à Ressurreição. É sempre n’Ele e através d’Ele e para Ele, que tudo quanto existe encontra o seu caminho, sentido, enlevo (eudokía) e plenitude (plêrôma).

14. O Salmo 69 é uma súplica intensa e imensa de um pobre sofredor cansado e a perder o pé, tal é a fundura do poço em que se vê atolado, a lama inconsistente e escorregadia que pisa, a força da torrente que o arrasta. Da funda crise em que se encontra, todos os seus gritos se dirigem para Deus, e são insistentes. Veja-se um pouco da sua distribuição pelo mapa do Salmo: «Salva-me» (v. 1 e 15), «responde-me» (vv. 14 e 17), «responde-me depressa» (v. 18), «aproxima-te» (v. 19), «redime-me» (v. 19), «liberta-me» (v. 19), «levanta-me» (v. 30). Catadupa de imagens. Palavras angustiadas ditas a Deus, para que Deus intervenha na vida deste pobre. Não se trata, note-se bem, de angústia à solta, incontrolada, mas modulada, dita a Deus, traduzida em palavras sinceras e sentidas, rezadas, tocadas, cantadas. Todavia, os vv. 22-28, em que perpassa a vingança e a imprecação, foram julgados inapropriados pela tradição cristã, que os cortou da Liturgia das Horas. Esta imensa súplica, selada no final por uma ação de graças (vv. 31-37), foi sempre muito apreciada pela tradição cristã, pelas citações que dela faz o Novo Testamento. Assim, entre outras, João 15,25 cita o v. 5: «Odiaram-me sem motivo»; João 2,17 cita o v. 10a: «O zelo da tua casa me devora»; Romanos 15,3 cita o v. 10b: «Os insultos dos que te insultam recaem sobre mim»; Mateus 27,34 e Marcos 15,23 aludem ao v. 22, acerca do vinagre; Atos 1,20 cita o v. 26: «Que a sua tenda fique deserta». Assumindo e resumindo tudo, Santo Hilário de Poitiers (séc. IV) via neste Salmo, em filigrana, a inteira trama da paixão de Jesus.

António Couto


MISSÃO OU DEMISSÃO

Julho 6, 2019

1. Vamos ter o privilégio de poder conviver nos próximos três Domingos (XIV, XV e XVI) com o texto sublime de Lucas 10, todo ele dedicado a afinar os traços do retrato do discípulo de Jesus, o que Lucas faz em três quadros que formam um tríptico. Assim, vemos hoje (Domingo XIV do Tempo Comum) o primeiro quadro, o ENVIO dos 72 discípulos de Jesus para um trabalho de ALEGRIA (Lucas 10,1-20). Veremos no próximo Domingo (XV do Tempo Comum) o segundo quadro, que expõe uma figura belíssima que assume alguns traços fundamentais do discípulo de Jesus: o Bom Samaritano (Lucas 10,25-37). E, no Domingo XVI, a fechar Lucas 10, veremos o terceiro quadro, que mostra as figuras de Marta e de Maria (Lucas 10,38-42), em que Maria, sentada como discípula atenta aos pés do Mestre, deixa ver mais alguns traços determinantes do discípulo de Jesus.

2. Mas hoje, Domingo XIV, aí estão os 72 discípulos ENVIADOS por Jesus, portanto vinculados a Jesus. O número 72 traduz a universalidade: somos todos enviados por Jesus! Na mentalidade hebraica, eram 72 as nações que povoavam a terra. E as 70 nações que, na tábua dos povos, encontramos em Génesis 10, sobem significativamente para 72 na conhecida versão grega dos LXX! Assim, ao escolher um discípulo por nação, Jesus possibilita que todas as nações possam escutar o Evangelho! Digamos, pois, que podemos ver aqui o início daquele caudal maravilhoso que um dia, na manhã de Pentecostes, atingirá a sua foz, quando todas as nações que há debaixo do céu (Atos 2,5) ouvirem falar (laléô), verbo característico da revelação, nas suas línguas maternas as maravilhas de Deus (Atos 2,11).

3. Note-se que, já antes, em Lucas 9,1-6, Jesus enviou os Doze (Apóstolos). O ENVIO dos 72 discípulos que hoje se apresenta diante de nós, em Lucas 10,1-20, é um exclusivo do Evangelho de Lucas e vinca bem a qualidade missionária deste Evangelho, que faz missionários, não apenas os Doze, mas todos os discípulos de Jesus! Sem equívocos: ser cristão ou discípulo de Jesus é ser missionário. Ser missionário não é uma segunda vocação, facultativa, uma espécie de adorno ou adereço que pode advir apenas a alguns cristãos (Francisco, Evangelii gaudium, n.º 273). Sempre sem equívocos: SER CRISTÃO É SER MISSIONÁRIO! É viver intensamente de Jesus e com Jesus, e partir, sair de si, para levar Jesus ao coração dos nossos irmãos. A grande Apóstola das ruas de Ivry, Madeleine Delbrêl (1904-1964), dizia as coisas assim, de maneira contundente, como evangélicas facas de dois gumes: «A missão não é facultativa. Os meios ateus [e indiferentes] em que vivemos impõem-nos uma escolha: MISSÃO OU DEMISSÃO CRISTû (mas ver também, no mesmo sentido, a Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, n.º 5, de 1975, de Paulo VI, a Mensagem para o Dia Missionário Mundial, de 2012, de Bento XVI, e a Carta Pastoral Misión Continental, n.º 4, de 2009, da Conferência Episcopal da Argentina).

4. O trabalho da Evangelização a que somos CHAMADOS e ENVIADOS por Jesus é um trabalho de ALEGRIA. Não de sementeira, mas de CEIFA (thêrismós). De acordo com o Salmo 126, a sementeira é um tempo de lágrimas, ma a CEIFA é um tempo de ALEGRIA e MÚSICA: «Vão andando e chorando, levando as sementes; ao voltar, vêm cantando, trazendo braçados de espigas» (Salmo 126,6).

5. O ENVIADO de Jesus deve partir belo, leve e livre, com causas, e sem coisas: «Ide! (…) Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias» (Lucas 10,4), mas com mansidão, alegria e paz, como cordeiros (Lucas 10,3). O cordeiro é um animal pacífico: não mata, mas é morto! Como Jesus, o cordeiro de Deus! Veja-se, de resto, a riqueza semântica do aramaico talyaʼ, que significa «cordeiro, servo, pão e filho», perfeita tradução da identidade de Jesus. E com carácter de urgência: «Não vos demoreis pelo caminho» (Lucas 10,4). O objetivo é chegar quanto antes ao coração das pessoas, a quem se deve entregar a PAZ, entenda-se, a FELICIDADE, que é o significado pleno do termo hebraico SHALÔM.

6. Note-se sempre bem que os discípulos de Jesus são ENVIADOS ao encontro das pessoas. Portanto, não são as pessoas que são chamadas a vir ao encontro dos discípulos de Jesus. Sim, o discípulo de Jesus não pode limitar-se a falar do Reino de Deus àqueles que veem ter com ele e o interrogam. Ao discípulo de Jesus é requerido que tome a iniciativa e fale em primeiro lugar. Deve assumir uma postura pró-ativa, não se contentando simplesmente em esperar e responder.

7, Somos informados, no final deste imenso texto, que os 72 voltaram cheios de ALEGRIA!

8. O contraponto belíssimo vem hoje do último Capítulo de Isaías, que vale a pena transcrever, tal é a sua beleza e exaltação: «Alegrai-vos com Jerusalém,/ rejubilai com ela todos vós que a amais;/ regozijai-vos com ela, sim, regozijai-vos,/ todos vós que fizestes luto sobre ela,/ pois mamareis e saciar-vos-eis do peito da sua consolação,/ pois sugareis e vos deleitareis da sua mama gloriosa./ pois assim diz o Senhor:/ “Eis-me a estender para ela a paz como um rio,/ e como uma torrente a transbordar a glória das nações./ Sereis amamentados,/ levados sobre os flancos,/ e sobre os joelhos acariciados./ Como um filho (’îsh) que a sua mãe consola,/ assim Eu vos consolarei;/ sim, em Jerusalém sereis consolados”» (Isaías 66,10-13).

9. É fácil verificar que Jerusalém é apresentada como uma mãe que amamenta e acalenta os seus filhos. Mas tereis reparado ainda que também Deus aparece dito com traços paternais e maternais, mais maternais que paternais, pois assume sobre si o papel de uma Mãe, daquela Mãe, que consola o seu filho, os seus filhos. E o belíssimo texto diz ainda que este filho, ou estes filhos que Deus, como uma Mãe, consola, já não são propriamente bebés, mas gente crescida (’îsh, e não yôneq). Sim, salta à vista que Deus cuida de nós à maneira maternal.

10. Total dedicação e transparência, assemelhação com Jesus, de quem carrega os estigmas (stígmata) e entrega casa a casa, porta a porta, mão na mão, coração a coração, a graça do Senhor Nosso, Jesus Cristo. Eis o retrato do Apóstolo no final da Carta aos Gálatas (6,14-18), que hoje tivemos também a graça de ouvir.

11. Verificação: como este mundo anda triste e distraído, anestesiado e dormente! E como nós, discípulos de Jesus, ENVIADOS a este mundo por Jesus, temos de sentir a urgência de levar este rio de ALEGRIA aos nossos irmãos. A não esquecer: ser cristão é ser missionário! Olhando com amor para este mundo, impõe-se-nos uma escolha: MISSÃO ou DEMISSÃO Cristã!

12. Missão nossa será sempre cantar a glória de Deus e convocar a terra inteira para verificar as maravilhas operadas por Deus. Todos e cada um. A comunidade e eu de mãos dadas e levantadas para Deus, como acontece muitas vezes nos Salmos. Temos muito a relatar e a agradecer, repassando diante de nós, não apenas a paisagem bíblica, mas também a nossa paisagem humana. Também o Salmo de hoje começa em tom comunitário (Salmo 66,1-12) para nos mostrar depois também o papel do solista (vv. 13-20).

António Couto


CAMINHO CRUCIAL

Junho 29, 2019

1. Neste Domingo XIII do Tempo Comum temos a graça de ouvir o Evangelho de Lucas 9,51-62, que é uma página sublime e sobrecarregada de cenários de seguimento, sucessivos e desconcertantes, que interpelam todos aqueles, de ontem e de hoje, que são chamados a seguir o caminho de Jesus.

2. O primeiro cenário é a anotação radical de que Jesus «tornou o seu rosto duro como pedra na direção de Jerusalém» (Lucas 9,51). A expressão «tornar o rosto duro como pedra» provém do terceiro canto do Servo de YHWH, de Isaías 50,7, e serve para assinalar uma atitude firme e decidida da qual não se pode voltar atrás. Ainda que, no contexto do Evangelho de Lucas, esta anotação marque a viragem geográfica de Jesus da Galileia para a Judeia e para Jerusalém, a anotação é sobretudo de ordem teológica, salientando a total confiança de Jesus no Pai e a total orientação da sua vida para o Pai, tal como o Servo confia plenamente no seu Senhor e para Ele orienta toda a sua vida. Mas o facto de Jesus «tornar o seu rosto duro como pedra na direção de Jerusalém» deve ensinar-nos a ver que Jesus caminha sem hesitação para a Cruz, o que faz do seu caminho e do nosso caminho um caminho Crucial.

3. O segundo cenário é o envio (apostéllô) por parte de Jesus de mensageiros (ángelloi) à sua frente com a missão de preparar (etoimázô) a vinda do próprio Jesus (Lucas 9,52). Extraordinária e preciosa indicação. A missão excede o mensageiro, que é sempre e só um preparador de caminhos para a vinda daquele que há de vir, Jesus Cristo, que é assim o único imprescindível! Fica claro desde cedo, desde já, que a nossa missão tem a dimensão do precursor humilde, pobre e manso, que apenas abre portas e corações (Malaquias 3,24), e põe a mesa, para que possa entrar o Rei da Glória (Salmo 24,7 e 9). Portanto, a postura do mensageiro ou missionário é a de um pedinte que vai à frente e bate à porta, às portas (também Lucas 10,1). Sim, é um pedinte, «sem bolsa, nem alforge, nem sandálias» (Lucas 10,4), que «come e bebe do que lhe servirem» (Lucas 10,7). Tem de aprender a pedir e a receber; não a insultar, a suspeitar, a ameaçar e a possuir.

4. Aí está, portanto, pedagogicamente em contraponto, o terceiro cenário. Trata-se da ilusão de poder de Tiago e João, os filhos de Zebedeu, que propõem a Jesus dizimar uma povoação samaritana só porque esta recusa acolher Jesus. Vê-se que ainda não aprenderam a pedir e a receber, mas sabem tudo sobre a suspeita, a ameaça e o poder. Os dois irmãos discípulos, que não entenderam ainda o caminho manso e humilde de Jesus, que tem os mesmos tons do Servo de YHWH, são duramente repreendidos (Lucas 9,55) com o mesmo verbo (epitimáô) com que Jesus estigmatiza os espíritos impuros (cf. Lucas 4,35).

5. Mas um quarto cenário salta à vista de quem segue atentamente a página evangélica. O início desta viagem de Jesus para a Judeia e Jerusalém fica marcado pelo seu não acolhimento e rejeição numa aldeia da Samaria (Lucas 9,52). Mas a mesma rejeição tinha acontecido no início da sua missão em Nazaré (Lucas 4,29), e aponta já para a sua rejeição em Jerusalém e para a futura rejeição dos anunciadores do Evangelho. Portanto, e sem medos e sem equívocos, a rejeição acompanha o Evangelho em pessoa, que é Jesus Cristo. Os seus discípulos de ontem e de hoje devem saber estas coisas, para não procurarem facilidades no seguimento fiel do caminho de Jesus. Aí está sempre a balizar o caminho a palavra de Jesus: «Se me perseguiram a mim, perseguir-vos-ão também a vós» (João 15,20).

6. O quinto cenário fixa a nossa atenção em alguém que se propõe seguir Jesus, com estas palavras: «Seguir-Te-ei para onde quer que vás!» (Lucas 9,57), logo seguidas da declaração de Jesus: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça!» (Lucas 9,58). Note-se bem que o texto diz o essencial e omite o circunstancial, deixando-nos sem saber quem era o homem, de onde veio, o que é que o levou a propor-se seguir Jesus, e como terá reagido à declaração de Jesus acerca da sua pobreza radical, que deveria adotar também quem o quisesse seguir. Tê-lo-á seguido no caminho? Foi-se outra vez embora? Com este procedimento escorreito, a intenção do narrador é certamente apresentar a força do seguimento de Jesus enquanto tal, não o fazendo depender desta ou daquela circunstância, e fazendo dele um seguimento incondicional. Seguir Jesus é um absoluto, sem condições, atitude posta em destaque pelo facto de Jesus não ter eira nem beira, «não tem onde reclinar a cabeça», o que torna incontornável a transparência da sua confiança no Pai. Sua e daqueles que o queiram seguir no caminho.

7. Permiti que abra aqui um sexto cenário, retomando o dito de Jesus: as raposas têm as suas tocas, as aves do céu os seus ninhos; em contraponto, Jesus, o Filho do Homem, não tem onde reclinar a cabeça (Lucas 9,58). Aqui está a especificidade do homem em relação ao animal. A liberdade do animal é uma liberdade sem responsabilidade, uma liberdade solitária. Não é assim com o homem: «Não é bom que o homem esteja só», é uma das primeiras lições do Livro do Génesis (Génesis 2,18). A liberdade do homem é uma responsabilidade que se assume face à Criação, constrói-se sempre com alguém, sempre diante de alguém. Ao homem compete assumir atitudes responsáveis, o que o impede de encontrar tão cedo um lugar onde reclinar a cabeça. Fixemos outra vez e sempre os nossos olhos em Jesus, e compreendamos que apenas a morte interrompe este caminho de crucial responsabilidade. Atente-se que é apenas sobre a Cruz que Jesus reclinará a cabeça (João 19,30).

8. O sétimo cenário é o apelo limpo, igualmente despido de acessórios, que Jesus faz a alguém: «Segue-me!», a que o visado responde imediatamente: «Permite-me ir primeiro sepultar o meu pai!» (Lucas 9,59). E a resposta, quase escandalosa de Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Tu, vai anunciar o Reino de Deus!» (Lucas 9,60). Estas imensas palavras de Jesus ganham ainda maior acutilância se soubermos que a mentalidade e a sabedoria judaicas davam enorme importância ao dar sepultura a um familiar. Era uma ação de tal monta e de tal conta que dispensava da oração do Shema‛, da oração das dezoito bênçãos e de todos os preceitos da Lei (Mishnah Berakhot 3,1a). Mas o caminho novo de Jesus inverte o normal caminhar da experiência humana da vida para a morte. O caminho de Jesus, e segundo Jesus, é da morte para a vida: «nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos; quem não ama, permanece na morte» (1 João 3,14). Quem quiser seguir Jesus tem, portanto, de apostar tudo no novo sentido que Jesus imprime à existência: partir da morte para a vida, com a única chave possível que abre este caminho Crucial: o amor, o amor, o amor! Mais amor, mais amor, mais amor!

9. O oitavo e último cenário é igualmente forte, igualmente desconcertante. Põe diante de nós alguém, também sem qualquer registo de circunstâncias, que está disposto a seguir Jesus, desde que Jesus lhe faça uma pequena concessão: permitir que se despeça dos seus familiares. Digamos que pede apenas para dar um pequeno passo atrás, e logo dará dois em frente. Já sabemos que Elias fez esta concessão a Eliseu (1 Reis 19,20), como nos é dado ler na lição do Antigo Testamento de hoje. Mas Jesus é mais do que Elias, e não faz qualquer concessão: «Aquele que deita as mãos ao arado, e olha para trás, não serve para o Reino de Deus!» (Lucas 9,62). O poeta inglês Thomas S. Eliot (1888-1965), fala, neste contexto, de «uma insuportável camisa de fogo que Deus teceu com as suas próprias mãos», para depois nos envolver nela, como se fosse o manto de Elias. «As forças humanas, continua o poeta, não a podem levar; cedo nos apercebemos que apenas podemos viver e respirar se nos deixarmos queimar, queimar de amor». Ainda e sempre e só o amor!

10. Já se vê que é a cena de Elias e de Eliseu, narrada em 1 Reis 19,19-21, que faz de fundo ao Evangelho de hoje. Simbolicamente, Elias atira o seu manto sobre Eliseu, fazendo-o assim seu seguidor. Eliseu andava a lavrar um grande campo, agarrado ao arado, puxado por doze juntas de bois. Sentindo o chamamento de Elias, Eliseu apenas pede o tempo necessário para ir abraçar o seu pai e a sua mãe. Elias concede. Eliseu despede-se de forma radical, sagrada e festiva. Matou uma junta de bois, e assou a sua carne sobre a madeira do arado. Queimando o arado, é todo um mundo que deixa para trás, sem retorno. Enceta depois um caminho novo atrás de Elias.

11. Na lição de hoje da Carta aos Gálatas (5,1.13-18), São Paulo lembra aos Gálatas e a nós que a nossa liberdade (eleuthería) não foi nem é obra nossa. Devemo-la a Cristo (v. 1). E o Apóstolo adverte-nos ainda de que esta liberdade dada e recebida não pode ser agora pretexto para voltar à escravidão. Bem ao contrário, deve ser pretexto para a caridade e o serviço humilde aos outros (v. 13). Vale a pena dizer aqui, a propósito, que este é um dos dois lugares em que Paulo cita o segundo mandamento, o do amor ao próximo como a nós mesmos (v. 14; o outro é Romanos 13,9), e que Paulo nunca cita o primeiro mandamento, o do amor a Deus «com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças» (Deuteronómio 6,4-5). Tal maneira de proceder não é para estranhar. Na verdade, quer a Bíblia Hebraica quer o coração dos Evangelhos falam menos do nosso amor para com Deus (ou Cristo), e mais, muito mais, do nosso amor para com o próximo e para com o estrangeiro e o inimigo! E não se trata de um amor que satisfaz o nosso desejo, mas da imitação do amor de Deus (amar como Ele ama) e de obedecer a um mandamento (amar como Ele manda amar). Então, a nossa resposta ao amor de Deus (ou de Cristo) não consiste na redamatio ou retribuição a Deus (ou a Cristo) do amor com que Ele nos ama, mas volta-se para a frente e traduz-se no amor ao outro, próximo, estrangeiro ou inimigo! Quer na Revelação patente no AT quer em Jesus, o amor ao próximo aparece como o lugar, o único lugar, da epifania do nosso amor a Deus (ou a Cristo). Então, amar a Deus e ao próximo como manda Jesus, é amar como Deus ama, como Deus nos ama.

12. As pedras e as coisas, as casas e as terras, nunca devem ocupar, muito menos encher, o nosso coração. Os sacerdotes, descendentes de Aarão não tinham terra distribuída em Israel. A sua herança era o Senhor (cf. Números 18,20). Cantamos no refrão do Salmo de hoje, o Salmo 16, «Senhor, Tu és a minha herança» (v. 5). No seu Sermão 344, Santo Agostinho comenta assim: «O salmista não diz: “Ó Deus, dá-me uma herança”. Diz antes: “Tudo o que me podes dar fora de Ti, é vil. Sê Tu a minha herança. É a Ti que eu amo… Esperar Deus de Deus, estar cheio de Deus. Basta-te Ele; fora dele, nada te pode bastar». Esta melodia deve encher o nosso coração e este Dia de Domingo, Dia do Senhor, de doação radical, total, ao Senhor. Entenda-se: é um caminho novo que se abre à nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distrações, sem nostalgias, sem saídas de emergência ou de segurança!

António Couto


O NOSSO «LUGAR FELIZ» É CRISTO

Junho 22, 2019

1. Este Domingo XII do Tempo Comum oferece-nos a imensa utopia messiânica que atravessa a profecia de Zacarias 9-14, um povo pobre, explorado, combatido e assassinado, mas que é a «pupila dos olhos do Senhor» (Zacarias 2,12), que tem nele colocados os seus olhos (Zacarias 9,1 e 8). Este povo pobre e mártir tem direito à sua esperança e ao seu rei diferente, que se apresenta pobre e pacífico, montado num jumento, animal de paz e não de guerra, e que porá fim aos instrumentos de guerra (Zacarias 9,9-10). Mundo novo. O texto deste Domingo (Zacarias 12,10-11; 13,1) faz-nos chorar este povo pobre e mártir personificado num filho único, num filho primogénito, martirizado, mas faz-nos ver também, e fixa o nosso olhar nesta figura desfigurada e transpassada, mas transfigurada, pois se tornará numa fonte de água pura, salvadora e salutar (Zacarias 13,1; 14,8). É, neste sentido, que «hão de olhar para aquele que transpassaram» (Zacarias 12,10). Cruzamento de olhares: olha Deus para ele, por ele; olhamos agora também nós para ele, por ele! É sabido que João, vendo Jesus e relendo este texto de Zacarias, fixa o nosso olhar em Jesus crucificado, transpassado, desfigurado, transfigurado (João 19,37). Então o crucificado ressuscitado, que preside à nossa assembleia dominical e à nossa vida, deixa de ser uma u-topia [= «sem lugar»], para se transformar numa eu-topia [= «lugar feliz»]. Olhar fixo n’Ele! Mãos abertas em concha para Ele, para as encher nessa fonte de graça e de saúde! Sim, somos chamados a transformar o «deslugar» deste mundo em «lugar feliz»! Mãos à obra! Ou, melhor ainda, corações à obra!

2. Faz equilíbrio com este grande texto de Zacarias o Evangelho de Lucas 9,18-24. Começa por nos apresentar Jesus a rezar sozinho, o que acontece imensas vezes no Evangelho de Lucas, que é, por isso, também chamado «Evangelho da oração». E «orar» é, em sentido genuíno, etimológico, beijar, como lembrou o Papa Bento XVI aos jovens reunidos na XX Jornada Mundial da Juventude, realizada em Colónia, em 2005, referindo que a palavra latina para oração é oratio e a locução latina para adoração é ad oratio, contacto boca a boca, beijo, abraço, e portanto, no fundo, amor, ou seja, orientar a nossa vida toda para Deus, entregar a Deus a nossa vida toda, para que seja Ele a olhar para nós, por nós! É importante sabermos, informa-nos o narrador, que os seus discípulos estavam com Ele. Estar com Ele é o «lugar feliz» do discípulo de todos os tempos. Estar sem Ele é sempre um «deslugar». Se for este o caso, temos rapidamente de mudar de lugar!

3. Também ficamos a saber, pela informação dos discípulos de então, que as multidões dizem Jesus com o passado, alinhando-o com as figuras do passado (João Batista, Elias, um antigo profeta redivivo) (Lucas 9,19), não contendo, portanto, nada de substancialmente novo. Em contraponto com as multidões, Pedro avança um dizer novo, diz que Jesus é o Cristo de Deus, sem, todavia, com este dizer, renovar a sua vida, sem fixar n’Ele os olhos e o coração, e sem encher as mãos em concha com a água viva que d’Ele vem.

4. É Jesus, e só podia ser Jesus, que se autoapresenta aos seus discípulos de ontem e de hoje, como tendo de sofrer, ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia (Lucas 9,22). Aí está o transpassado, desfigurado, transfigurado, fonte única de água viva para nós, fonte da nossa vida. Dizemos, na verdade, muitas coisas. Mas é necessário ouvir Jesus dizer. Porque só Ele se diz e nos diz. Para o discípulo, escutar é deixar-se dizer! Para o discípulo, dizer é redizer o dito de Jesus. Eis o Mestre. Eis o discípulo.

5. Ainda duas coisas únicas deste Evangelho, duas pérolas, portanto: «Dizia Ele a todos: “Se alguém quer vir atrás de mim, diga não a si mesmo, e tome a sua cruz todos os dias, e siga-me”» (Lucas 9,23). A primeira pérola está em que Jesus diz para todos. O dizer de Jesus, o seu ensinamento novo, não é para elites, para alguns iluminados. É para todos. Entenda-se que a escola de Jesus está aberta a todos, ricos e pobres, maus e bons, especialistas e ignorantes. Já se sabe que o ignorante é aquele que não sabe; de resto, também o dito especialista não sabe, mas não sabe, para usar o aforismo cortante do escritor italiano Leo Longanesi (1905-1957), com grande competência e autoridade! Ainda bem, portanto, que Jesus diz para todos, e todos devemos estar sentados e atentos na sua escola. A segunda pérola é que a vida cristã, que consiste em seguir Jesus, é coisa quotidiana, de todos os dias. Lucas é mesmo o único Evangelista que regista a necessidade de tomar a cruz todos os dias. Não é só para alguns dias de festa. Não pode ter pausas.

6. Dizer não a si mesmo é pensar ao contrário do que estamos habituados a fazer. Pensamos sempre primeiro em nós, em salvar-nos a nós mesmos. E para nos salvarmos a nós mesmos, pensamos nós, temos de nos antecipar aos outros, ser mais espertos do que os outros, passar à frente dos outros. Exatamente o contrário de Jesus, que não quis salvar-se a si mesmo. Quis salvar-nos a nós, pôr-se ao nosso serviço, fazer-se fonte de água viva para nós. «Salva-te a ti mesmo, e desce da Cruz!» (Lucas 23,35-39), eis a tentação que cai sobre Jesus em três vagas sucessivas. Todavia, se se tivesse salvo a si mesmo, não nos salvava a nós! Estamos, portanto, perante a lógica nova do «quem perde, ganha», que é o jogo novo do cristianismo.

7. Não se pode ser cristão, discípulo de Jesus, seguir Jesus, dizer Jesus, sem dar a vida. O discípulo de Jesus, à maneira de Jesus, tem de pôr em jogo a própria vida, e não simplesmente os adereços. Tudo, e não apenas o supérfluo. Dar o que sobra não tem a marca de Deus, não é fazer a verdadeira memória de Jesus, que se entregou a si mesmo por nós (Efésios 5,2), por mim (Gálatas 2,20). O supérfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo transforma a vida para sempre.

8. É esta novidade que São Paulo afirma outra vez na Carta aos Gálatas 3,26-29. Sim, Paulo já não se sabe dizer sem dizer Jesus Cristo. Por Ele foi alcançado, n’Ele foi batizado, está revestido d’Ele. Se vive, é porque está enxertado em Cristo, o «lugar feliz» da sua vida.

9. O Salmo 63 é conhecido como «o cântico do amor místico», atravessado por uma apaixonada intensidade, bem expressa na primeira afirmação ou declaração de amor à boca do Salmo, mas que enche, de resto, o Salmo inteiro: «O meu Deus és Tu» (ʼelî ʼattah), a que responde e corresponde Deus em Isaías 43,1, declarando: «Para mim tu és» (lî ʼattah). Tudo o resto no Salmo 63 assenta sobre esta certeza. A minha vida recebida (naphshî), por quatro vezes referida (vv. 2.5.9.10) agarra-se amorosamente (dabaq) a Ti (v. 9), canta o teu amor, vive de Ti. A beleza, intensidade e espiritualidade que atravessam este Salmo ganham visibilidade na liturgia bizantina das manhãs de Domingo, e os vv. 3-6 entram no cânone eucarístico armeno.

António Couto


EM NOME DO PAI E DO FILHO E DO ESPÍRITO SANTO

Junho 15, 2019

1. «Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, ao Deus que é e que era e que vem». Assim se cantará Hoje nas nossas Igrejas na aclamação ao Evangelho, fazendo ecoar e ressoar a doxologia trinitária mais conhecida e diariamente várias vezes repetida, porque amada, Hoje completada com as palavras do Apocalipse 1,8. Nos textos que Hoje a liturgia da Palavra nos oferece como alimento escolhido e abundante, Deus deixa-se entrever, desde diversos ângulos, de modo subtil, como que em contraluz ou filigrana, no seu mistério trinitário. Atravessa-os, pois, como que um fio de ouro trinitário, que nos deve atravessar e entrelaçar, por pura graça, a nós também.

2. O Evangelho do Dia, sempre proclamado e não apenas lido, constitui sempre o centro à volta do qual se organizam e ganham luz as demais páginas oferecidas da Escritura Santa. Mas constitui também para nós o principal fio de luz que deve alumiar a nossa vida. Comecemos então por ver o Evangelho de Hoje retirado de João 16,12-15. Vale a pena transcrever o texto, dada a finura das palavras de Jesus aos seus discípulos nesta última tarde da sua vida terrena:

«Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não podeis por agora carregar o seu peso. Mas quando vier (érchomai) Ele (ekeînos), o Espírito da Verdade (tò pneûma tês alêtheías), guiar-vos-á (hodêgêsei hymãs) na Verdade toda (alêtheia pâsa); com efeito, não falará (laléô) de si mesmo (aph’ heautoû), mas falará (laléô) tudo quanto tiver escutado, e anunciar-vos-á as realidades que hão de vir. Ele (ekeînos) glorificar-me-á, porque receberá (lambánô) do que é meu, e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai tem é meu; por isso eu disse que recebe do que é meu, e vo-lo anunciará» (João 16,12-15).

3. Trata-se da quinta vez, no Evangelho de João, que Jesus fala da Vinda do Espírito Santo. As outras quatro são 14,16; 14,26; 15,26 e 16,7. Note-se, desde já que, nestes cinco referidos dizeres de Jesus, a Vinda do Espírito Santo aparece sempre dita no futuro. Note-se também que o verbo «vir» (érchomai) é, na Bíblia, um dos verbos próprios de Deus. No Antigo Testamento, bastas vezes se refere que o Deus Vivo «vem» ao encontro do seu povo. No Novo Testamento, um dos nomes que caracteriza Jesus é «Aquele-que-Vem» (ho erchómenos). O nosso texto e os demais falam do Espírito que «virá», com liberdade soberana, divina, pessoal, Deus de Deus. Note-se ainda que Jesus fala do Espírito, tò pneûma, neutro em grego, com o pronome masculino, ekeînos, para indicar que se trata de uma Pessoa, não de uma coisa ou de uma força, que requeriria o pronome no neutro.

4. É dito «Espírito da Verdade», entenda-se da «Verdade» de Deus aos homens dada, e que é também o Caminho e a Vida (cf. João 14,6). É, portanto, o próprio Jesus Cristo, com toda a sua vinda e vida, e com a sua palavra que o comunica. O Espírito está, portanto, particularmente vinculado a Jesus, Pessoa divina a Pessoa divina. E a sua ação consiste em «guiar» (hodegéô), isto é, conduzir, ao longo do íngreme Caminho (hodós), até à meta, que é a «Verdade toda». Portanto, conduzir a Cristo, na sua totalidade. A relação dos discípulos com Jesus, e a adesão a Jesus, é ainda parcial.

5. Releve-se ainda que o Espírito «vem» de maneira autónoma, soberana, divina, mas não fala (laléô), verbo de revelação, a partir de si mesmo. É autónomo em operar divinamente, mas não é autónomo quanto aos conteúdos da sua operação. Tal como Jesus, Deus, também o Espírito, Deus, é obediente em vista da «Verdade toda», que é uma Pessoa «falada», por assim dizer, pelo Pai, que é o Verbo, que o Espírito Santo «escuta» do Pai, divino, indizível, eterno Diálogo tripolar interpessoal, inter-recíproco, interinfinito. E assim o Espírito fala apenas «quanto escuta». Em suma, Aquele que escuta fala a nós Jesus Cristo, o Verbo de Deus, «a Verdade». Por isso, «receberá (lambánô) do que é meu, e vo-lo anunciará». Mas o que é do Filho é também do Pai. Então, o Espírito receberá o que é do Filho, e, portanto, também do Pai, e é isso, e só isso, que anunciará. Entre o Pai e o Filho tudo é comum: a Vida, a Divindade, a Glória. Três termos precisos e preciosos para indicar exatamente o Espírito Santo, que é a Vida, a Divindade, a Glória que une consubstancialmente o Pai e o Filho, sendo o Espírito Santo a divina Comunhão entre os Três, o Único Deus.

6. Há mais. «Anunciará as realidades que hão de vir». Ora, quem determina e anuncia o futuro é só Deus. Não há ídolo que saiba anunciar o futuro. Só Deus anuncia antes de acontecer, e explica-o depois de acontecido. Veja-se esta polémica sobretudo no chamado «Segundo Isaías (Is 40-55), em concreto Is 41,21-23; 44,7; 45,21; 46,10. Espírito Santo, Deus, que anuncia e explica. A partir de agora, os discípulos não esperam novidades. Os histerismos de revelações, aparições e visões que agitam hoje tantos pobres iludidos, privados de verdadeiros conteúdos cristãos e bíblicos e da Tradição, são uma verdadeira «blasfémia contra o Espírito Santo». Por isso, o Papa Bento XVI, na Exortação Apostólica Verbum Domini [2010], n.º 14, lembrou-nos as palavras de S. João da Cruz, que escreveu, na sua Subida ao Monte Carmelo, II, 22, que «Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra, e não tem outra, Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única, e já nada mais tem para dizer […]. Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E, por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade». E advertiu-nos bem o Papa que é preciso «distinguir a Palavra de Deus das revelações privadas cujo papel não é completar a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época histórica».

7. O Espírito recebe (lambánô) do que é de Jesus (João 16,14 e 15), do mesmo modo que Jesus recebeu do Pai (Mateus 11,27; João 10,18; Apocalipse 2,28), que lhe deu tudo o que tem e é. Do mesmo modo, o ensinamento (didachê) do Espírito é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência da fé, avivando as brasas do desejo da Palavra primeira e criadora no coração de cada homem, debaixo de qualquer céu. Este ensinamento interior do Espírito é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos conheceis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). Cumpre-se assim a profecia de Jeremias 31,31-34 (38,31-34 LXX) que refere que «todos me conhecerão (eidêsousin)» com uma ciência que não resulta da instrução, mas que é incutida por Deus no coração. Assim escreve Paulo aos Romanos 5,1-5, na lição também Hoje a nós oferecida, que «o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado» (v. 5).

8. Para chegar a estes espantosos dizeres de Jesus sobre o Espírito Santo, foi necessário que aquele fio de ouro trinitário fosse atravessando a Escritura. É assim que também nos é dado escutar Hoje aquele hino, de extraordinária solenidade e beleza, que a própria Sabedoria entoa no Livro dos Provérbios 8,22-31. Nesse maravilhoso hino, Deus e a Sabedoria entretecem um diálogo do qual brotam todas as maravilhas da criação, em cujo cume estão «os filhos do homem». É com eles que a Sabedoria encontra as suas delícias, entenda-se, a sua felicidade. E foi precisamente a partir deste encontro feliz entre a divindade e a humanidade que a tradição cristã identificou na Sabedoria divina aqui celebrada o retrato do próprio Cristo. Por isso, lemos no prólogo do Evangelho de S. João que «o Verbo estava no princípio junto de Deus, tudo foi feito por meio d’Ele, e sem Ele nada foi feito de tudo quanto existe. N’Ele estava a vida, e a vida era a luz dos homens» (João 1,2-4). E, no hino que abre a Carta aos Colossenses, lê-se: «Ele é a imagem do Deus invisível, gerado antes de todas as criaturas; pois foi por meio d’Ele que foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, visíveis e invisíveis (…). Todas as coisas foram criadas por meio d’Ele e para Ele. Ele é antes de tudo, e tudo n’Ele subsiste» (Colossenses 1,15-17). A obra da criação é, como se vê, reconduzida a Cristo, Sabedoria de Deus.

9. A leitura cristã do hino de Provérbios 8, isto é, o fio de ouro ou de sentido que dele se desprende foi, porém, levado mais longe, associando-lhe a melodia do Salmo 104,30, em que se canta: «Envia o teu Espírito, e eles são criados, e renovas a face da terra». Com esta aportação, no rosto da Sabedoria pode ver-se também o Espírito Santo em ação na criação. E aí está a Trindade no alvor da criação. A Sabedoria é Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Mas o Filho, o Verbo é revelado como a Sabedoria incarnada.

9. «Ó abismo de riqueza e sabedoria e conhecimento de Deus! Como são insondáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! (…) Porque d’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele a glória pelos séculos, ámen!» (Romanos 11,33 e 36).

António Couto


A CENTRALIDADE DO CORAÇÃO

Março 2, 2019

1. Neste Domingo VIII do Tempo Comum continuamos a escutar e a digerir, no Evangelho, o «Discurso da planície», hoje na sua terceira e última parte (Lucas 6,39-45), toda dominada pelo amor e pela misericórdia. A arquitetura desta terceira parte do «Discurso da planície» assenta em três comparações, destinadas a afinar os critérios da nossa vida de discípulos de Jesus. A primeira comparação surge em Lucas 6,39-40, e põe em cena um cego a guiar outro cego. E a pergunta certeira de Jesus: «Não cairão os dois nalgum abismo? (Lucas 6,39). Mateus canalizou a comparação de Jesus para os fariseus: «Ai de vós, guias cegos…» (Mateus 23,16-17). Lucas usou-a, antes, para advertir diretamente os discípulos de Jesus de todos os tempos, fazendo ver que nenhum discípulo é mais do que o mestre, mas que todo o discípulo deve ser como o mestre (Lucas 6,40). Outra vez, de forma clara e sem equívocos: o discípulo não tem senão que repetir o que Jesus disse, sendo que a verdade da palavra do discípulo não está, portanto, na sua habilidade pessoal, mas na sua fidelidade ao Mestre.

2. A segunda comparação põe em cena o argueiro e a trave (Lucas 6,41-42), e denuncia de imediato os nossos juízos quotidianos, levianos e rápidos acerca dos outros. Estamos sempre a ver o argueiro que está nos olhos do nosso irmão, e não vemos a trave que se atravessa nos nossos olhos e nos impede de ver bem seja o que for. O filósofo romano Séneca (4 a.C.-65 d.C.), contemporâneo de Jesus, já se exprimia assim: «Temos diante dos olhos os defeitos dos outros, enquanto os nossos ficam atrás». Estar sempre pronto a criticar os defeitos dos outros, sem sequer nos apercebermos dos nossos, porque já estamos habituados e acomodados, protegidos por uma crosta opaca, é um tipo de comportamento denunciado por Jesus como «hipocrisia» (v. 42). A «hipocrisia» é um termo de origem grega e designa aquele que, no teatro, representa um papel que não corresponde à sua vida. Por exemplo, veste-se de santo…, e é um delinquente! A lição de Jesus é pertinente: «Tira primeiro (prôton) a trave do teu olho, e depois verás bem…» (v. 42). Portanto, fica claro para todos nós o que há que fazer sempre em primeiro lugar: proceder à limpeza da nossa vida, adequando-a ao Evangelho. Ao comentar o Salmo 30, Santo Agostinho faz esta observação aguda e penetrante: «Não penses mal do teu irmão. Sê tu com humildade o que queres que ele seja, e não pensarás que ele é o que tu não és» (Enarrationes in psalmos, 30,2,7). E Lucas dirá mais à frente que «A lâmpada do corpo é o teu olho. Se o teu olho estiver são, todo o teu corpo ficará iluminado; mas se ele for mau, o teu corpo também ficará às escuras. Portanto, vê bem se a luz que há em ti não são trevas» (Lucas 11,34-35).

3. A terceira comparação põe lado a lado a árvore boa e a árvore má (Lucas 6,43-45). À primeira vista, parece que Jesus coloca o acento nas obras, no que se faz, e não nas palavras, no que se diz. A pequena parábola aponta, porém, ainda outra direção: é de dentro, do interior, do coração, que provêm as obras, boas ou más. Pelo que o verdadeiro problema consiste em mudar o interior, o coração, a nascente. Na verdade, na cultura semítica e bíblica, o coração é comparado a um depósito, de onde se retiram os pensamentos, as palavras e as ações. Por isso, conclui Jesus no v. 45, o homem bom, do seu bom coração tira coisas boas; o mau, do seu mau coração tira coisas más; e a boca fala da abundância do coração. É, portanto, necessário manter o coração puro e limpo de mato e de silvas, para o encher de bondade, pois só um coração bom pode e sabe amar os inimigos, perdoar os irmãos, indicar aos errantes o caminho certo. O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), pastor luterano, morto nos campos de concentração nazis, escrevia na sua Ética que «a bondade não é uma qualidade da vida, mas a própria vida, e que ser bom significa viver». Não admira, pois, que Jesus tenha definido os hipócritas como «sepulcros caiados», cadáveres ambulantes, que se iludem pensando que estão vivos; na verdade, como têm o coração impuro, estão mortos e deambulam às escuras. As pessoas como as árvores: não se conhecem as pessoas pela sua folhagem, isto é, pelas aparências; conhecem-se, antes, pelos seus frutos, isto é, pela sua generosidade e pelo seu amor. E ainda: uma pessoa egoísta, egocêntrica, egolátrica e autorreferencial apega-se ao tesouro ilusório e falso do seu orgulho, e mal abre o tesouro do seu coração, vem logo fora a malvadez, os juízos cruéis, o ódio.

4. A lição do Livro de Ben-Sirá 27,5-8 que hoje nos atinge é bela, pedagógica e incisiva, e procede por constatações paralelas. Assim, em cada versículo, o sábio coloca diante de nós um dado retirado da experiência quotidiana, assentando logo sobre ele uma luminosa aplicação ao homem. Aproximemos a objetiva: no v. 5, o dado da experiência quotidiana é a peneira, que retém o lixo, do mesmo modo que o homem, no ato de falar, expõe os seus defeitos; no v. 6, o dado da experiência é o forno, que põe à prova a qualidade das vasilhas de barro nele introduzidas, do mesmo modo que, no ato de falar, também é posta à prova a qualidade do homem; no v. 7, o dado da experiência é o fruto, que mostra a qualidade da árvore, do mesmo modo que as palavras proferidas pelo homem mostram o bom ou mau estado do seu coração. O fecho destes paralelismos surge no v. 8, em que somos advertidos a não julgar ninguém antes de ele falar. Convenhamos que se trata de uma instrução cheia de sabedoria, que ataca a permanente tentação que nos sobrevém de antecipar os juízos, que não passam, portanto, de pré-juízos, tantas vezes errados, e, por isso, danosos para nós e para os outros. Esta bela e incisiva instrução, direitinha ao coração, deixa-nos, em termos de conteúdo e de linguagem, longe da folhagem, na estrada do Evangelho de hoje.

5. É-nos dada a graça de escutar hoje o final do Capítulo XV da Primeira Carta aos Coríntios (15,54-58), em que o Apóstolo fala aos fiéis de Corinto de então, mas também de todas as proveniências e tempos, do «mistério» da Ressurreição da carne, que Paulo anuncia «que é», mas não «como é» (v. 51), sendo sempre, porém, consequência direta, e a mais alta, da Ressurreição do Senhor. A discrição de Paulo faz o necessário contraponto com as infinitas fantasias e especulações que, acerca da ressurreição da carne, circulavam no ambiente de então. Basta dizer, na sua essência e sobriedade, que o nosso corpo será transformado, transfigurado (allagêsómetha), o que se deve, não à nossa capacidade, mas unicamente à ação do Espírito Santo (vv. 45 e 49), que vem para nós unicamente através da Humanidade Glorificada de Jesus (João 7,39; 19,34; Atos 2,33). Por isso, recomenda o Apóstolo: «Graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo» (v. 57).

6. O belo Salmo 92 continua a fazer vibrar em nós a música da semente, das árvores, das aves e dos dias breves e belos, da eternidade. O orante realça a imagem vegetal, fresca e verdejante, da palmeira e do cedro, verdadeiro brasão do justo. Quer a palmeira quer o cedro evocam uma vitalidade contra a qual em vão atenta o deserto. Além disso, o cedro, com a sua altura, simboliza a longevidade: pode durar um milénio. E a palmeira, phoínix no texto grego, com o seu duplo significado de palmeira e fénix, a ave da imortalidade, servirá à tradição cristã para celebrar a vitória da vida nova e eterna. No culto sinagogal, este Salmo é cantado à entrada do Sábado, ao pôr-do-sol de sexta-feira. Lê-se na Mishna: «Ao sábado canta-se o cântico do dia de sábado (Salmo 92), cântico para o tempo que há de vir, para o dia que será inteiramente sábado e repouso para a vida eterna. Mas é o Senhor que está por detrás de tudo isto. É por isso que é bom e belo louvá-lo!

 

As coisas do mundo

Não podem alimentar-te

Nem encher de perfume a tua vida.

 

A tua alegria não está entre as coisas passageiras.

Relâmpagos, tempestades, terramotos,

Sons e vozes da terra são estrangeiros para ti.

 

Tu, meu irmão a tempo inteiro,

Não deixes de sentir os pés no chão do terreiro,

Mas mantém também a cabeça no céu,

Ao léu,

Para poderes ouvir sempre bem a voz de Deus,

E ver bem, belo e bom,

Para tirar o argueiro

Da vista do teu irmão e companheiro.

 

Que o ódio e a violência nunca tomem conta do teu coração.

Que o teu coração seja habitação de paz.

Que nunca te seduza o som das espingardas.

Debulha o teu grão,

Reparte o teu pão,

Olha para Deus com gratidão.

 

Tens um ano inteiro

Para encher de amor o teu celeiro.

Não tenhas medo do nevoeiro.

Que todos os dias haja misericórdia

No teu coração e nas tuas mãos.

Que o Senhor seja sempre a tua Luz,

Meu irmão e irmão de Jesus.

 

António Couto


AMAI OS VOSSOS INIMIGOS

Fevereiro 23, 2019

1. Continuamos, neste Domingo VII do Tempo Comum, a saborear o imenso Discurso da planície de Jesus (Lucas 6,27-38), em que o amor, a dádiva, a bondade, elevados até ao absurdo, constituem o fio condutor do inteiro Discurso, e também o verdadeiro cartão de identidade do discípulo de Jesus. Também aqui vale a pena atravessar o texto, deixando-nos, todavia, atravessar também pelo texto:

«A vós que estais a escutar, eu digo: “Amai os vossos inimigos, fazei bem àqueles que vos odeiam, bendizei (eulogéô) os que vos amaldiçoam (kataráomai = katá + ará [= maldição]), rezai por aqueles que vos caluniam. Àquele que te bater numa face, oferece também a outra, e àquele que te tirar o manto, deixa-o levar também a túnica. A todo aquele que te pede, dá, e àquele que levar o que é teu, não lho reclames. Como quereis que vos façam as pessoas, fazei-lhes vós do mesmo modo.

E se amais os que vos amam, que graça (cháris) vos é devida? Na verdade, também os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazeis bem aos que vos fazem bem, que graça (cháris) vos é devida? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestais àqueles de quem esperais receber, que graça (cháris) vos é devida? Também os pecadores emprestam aos pecadores para receberem outro tanto. Em vez disso, amai os vossos inimigos e fazei bem e emprestai sem esperar receber nada em troca, e será grande a vossa recompensa (misthós), e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é amável (chrêstós) para com os ingratos (acháristoi) e os maus (ponêroí).

Tornai-vos misericordiosos (oiktírmones) como também o vosso Pai é misericordioso (oiktírmôn). E não julgueis, e não sereis julgados; e não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados; dai, e ser-vos-á dado: uma medida boa, calcada, sacudida, a transbordar, será dada no vosso regaço; na verdade, com a medida com que medirdes, sereis medidos também”» (Lucas 6,27-38).

2. Convenhamos que se trata de um texto espantoso, Evangelho puro, sem glosas ou outras qualificações, que desvenda e desfaz a nossa velha lógica retributiva e respetivos comportamentos pautados pela paridade, reciprocidade e simetria, e desenha novos critérios assimétricos e gratuitos, desconcertantes para a nossa mentalidade assente nos nossos sacrossantos direitos. Se o Antigo Testamento insistia, por mais de trinta vezes, na necessidade de amar o estrangeiro, que é o outro diferente de mim, nesta página sublime do Evangelho, Jesus manda-nos amar o nosso inimigo (Lucas 6,27 e 35), que é o outro, não apenas o outro diferente de mim, mas o outro contra mim.

3. A avalanche da página evangélica cai sobre nós em três vagas sucessivas. A primeira levanta-se dos vv. 27-31. Depois do amor aos nossos inimigos (note-se bem o realismo aportado pelo adjetivo vossos, nossos, teus, meus, que não nos deixa no plano dos inimigos em geral ou virtual!), as coisas continuam, loucas e impensáveis, de acordo com a loucura de Deus (cf. 1 Coríntios 1,25), pelo caminho do paradoxo: fazei bem àqueles que vos odeiam; bendizei os que vos amaldiçoam; rezai por aqueles que vos caluniam; àquele que te tirar o manto, deixa-o levar também a túnica. Esta última maneira de fazer implica a redução à nudez, pois habitualmente, na Palestina, usavam-se apenas aquelas duas peças de roupa. Termina a primeira vaga da avalanche com a chamada «regra de ouro»: «Como quereis que vos façam as pessoas, fazei-lhes vós do mesmo modo» (v. 31). Para mais informação acerca da «regra de ouro», veja-se a análise ao Domingo V da Páscoa.

4. Se não estamos ainda submersos por esta primeira, imensa vaga, exponhamo-nos à segunda, que se levanta dos vv. 32-35, e que arrasa as nossas pretensas boas doutrinas e hábitos assentes na reciprocidade e boas maneiras, e não na graça (vv. 32-34). São referidas três situações emblemáticas: amar aqueles que nos amam, fazer bem a quem nos faz bem, emprestar para receber outro tanto ou mais. Note-se que, por exemplo, na Mesopotâmia, as taxas de juro oscilavam entre os 17 e os 50%! Só teremos direito a recompensa, que é a graça, se a nossa maneira de fazer saltar fora desta engrenagem da reciprocidade, e nos tornarmos imitadores de Deus, que também distribui a sua graça aos ingratos e maus (v. 35). Aí fica então exposta e clara a nossa recompensa, que não será expressa em outro tanto dinheiro destinado a ser abandonado com a morte, tão-pouco será expressa no bem-estar prometido aos justos no Antigo Testamento, mas na extraordinária possibilidade de nos tornarmos filhos de Deus, membros da família deste Deus que ama, ama, ama (v. 35).

5. A terceira vaga levanta-se dos vv. 36-38, e traz para a cena outra vez a «imitação de Deus» logo naquele dito de abertura: «Tornai-vos misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso» (v. 36), logo traduzido em comportamentos e estilos de vida: não julgar, não condenar, perdoar, dar (vv. 37-38).

6. Os nossos bons (pensamos nós) hábitos, não nos deixam levar esta loucura a sério. Pensamos que estes ensinamentos de Jesus são utópicos e irrealizáveis, que não são para se fazer, e assim vamos tranquilizando a nossa consciência. Sim, estamos docemente habituados e suavemente embalados pelas nossas boas maneiras ao longo de tanto tempo adquiridas. Mas chegou o tempo de renovarmos o nosso coração e o respetivo cartão de identidade! O que consta nesta altíssima carta do Evangelho não é utópico, isto é, sem lugar. É, antes, eutópico, isto é, um lugar feliz, com outros mapas, outras estradas e outras tabuadas! É possível vencer o mal com o bem (Romanos 12,14-21). Vencer sem combater, claro. Como Jesus, que desce ao nosso mundo para abraçar, absorver e absolver as nossas raivas e os nossos ódios. Como o Deus da Sabedoria, que é «o que domina a força», no belo dizer do Livro da Sabedoria 12,18.

7. Para fazer luz e receber luz deste imenso texto do Evangelho, chega hoje também aos nossos ouvidos a figura magnânima de David que, no deserto de Zif, não usou a força contra Saul, mas lhe poupou a vida, como narra a bela história do Primeiro Livro de Samuel 26,2.7-9.12-13.22-23. De facto, Saul não era apenas, como diz a bela narrativa, o «ungido do Senhor» (vv. 9 e 23), mas também dormia um sono ritual (tardemah), enviado pelo Senhor (v. 12).

8. São Paulo faz, na Primeira Carta aos Coríntios 15,45-49, um extraordinário módulo narrativo, em que põe em cena, na mesma página, lado a lado, o primeiro Adam e o último Adam e ainda nós, que levamos as marcas do primeiro, mas também as do último. E é a imagem do último que prevalecerá em nós, por obra e graça de Deus.

9. O Salmo 103 é uma das joias do Antigo Testamento e constitui um grande canto ao amor de Deus, uma espécie de prelúdio ao «Deus é amor» (1 João 4,8). Desenrola-se em dois movimentos. O primeiro (vv. 1-9) trata o amor e o perdão de Deus com sucessivos particípios hínicos, que mostram um Deus que perdoa, cura, redime, coroa de amor e misericórdia, sacia de bem, e uma série de nomes (justiça, dá a conhecer, obras, misericordioso, gracioso). O segundo movimento (vv. 10-18) põe lado a lado o amor permanente de Deus e a nossa humana fraqueza. A linha vertical (céu-terra) serve para mostrar a imensidão do amor de Deus (v. 11), escrevendo-se na linha horizontal (oriente-ocidente) a grandeza sem medida do seu perdão (v. 12). O belíssimo v. 13 passa a imagem inultrapassável de Deus como um pai com ventre maternal (rehem). A fragilidade humana aparece traduzida nas imagens do pó (v. 14) e da erva (vv. 15-16), em contraponto com a estabilidade do amor de Deus (v. 17). Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas deste grande Salmo 103, que alguns autores já chamaram o Te Deum do Antigo Testamento.

 

Ousar pôr o coração à escuta do Evangelho

É deixar-se atravessar por uma avalanche de graça

Que nos arrastará até ao coração de Deus,

E nos obrigará a mudar quase tudo

Na nossa vida e na nossa agenda,

Na nossa cómoda maneira

De nos sentarmos à lareira

Simplesmente a ver passar os dias

E a deitar contas à vida e à carteira.

 

Amar os inimigos

Não é coisa que eu pudesse sequer imaginar,

Quanto mais fazer ou praticar.

 

Oferecer a outra face a quem me bate,

Dar, dar tudo, dar o manto e a túnica,

Deixar-se roubar e não reclamar,

Amar os maus, os maldizentes, os delinquentes,

O repugnantes, os incompetentes,

Amar, enfim, até ao absurdo,

Eis o que Jesus me vem dizer que Deus faz,

Que Deus faz por mim,

E que é por isso que eu também devo fazer assim,

Deixando o Evangelho ganhar corpo em mim.

 

António Couto


E JESUS DESCEU PARA O MEIO DE NÓS

Fevereiro 16, 2019

1. Conta-nos São Lucas que Jesus saiu (exérchomai) para a MONTANHA para ORAR, e estava (ên: imperf. de eimí) a passar (dianyktereúôn: part. presente de dianyktereúô) a noite inteira em ORAÇÃO (Lucas 6,12). Note-se que Jesus se separa para rezar. E a expressão usada (imperfeito do verbo «ser» seguido de particípio presente) indica que Jesus rezou, sem parar, a noite inteira. O Evangelho de Lucas recorda-nos que Jesus reza sempre nos momentos importantes da sua missão. Quando amanheceu, continua São Lucas, Jesus chamou os discípulos e escolheu «Doze» a quem chamou Apóstolos, seguindo-se logo a lista dos seus nomes (Lucas 6,13-16). De notar que também Mateus 10,2 e Marcos 6,30 sabem que os Doze são Apóstolos, mas apenas Lucas refere que foi o próprio Jesus a dar-lhes este nome (Lucas 6,13). Notemos ainda que o Apóstolo é o enviado autorizado, que fala em nome de quem o envia. Não está autorizado a dizer palavras suas ou a expressar a sua opinião. Fica totalmente vinculado àquele que o envia. A primeira nota que o caracteriza é a fidelidade.

2. Depois desta introdução, parece-me oportuno, pela sua importância, inserir o texto do Evangelho que hoje será proclamado (Lucas 6,17.20-26), sem o corte dos vv. 18-19:

 

«Tendo descido com eles, ficou de pé num lugar plano, e um grupo numeroso dos seus discípulos e uma multidão numerosa do povo (laós) de toda a Judeia e de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon, que tinham vindo para o escutar e fazer-se curar das suas doenças. E aqueles que eram atormentados por espíritos impuros eram curados, e toda a multidão procurava tocá-lo, porque uma força saía dele e curava todos. E tendo levantado os seus olhos para os seus discípulos, dizia:

 

Felizes vós, os pobres,

porque vosso é o reino de Deus;

Felizes vós que tendes fome agora,

porque sereis saciados;

Felizes vós que chorais agora,

porque rireis;

Felizes sois vós, quando os homens vos odiarem, e quando vos expulsarem e insultarem e rejeitarem o vosso nome como mau por causa do Filho do Homem.

 

Mas ai de vós os ricos,

porque tendes a vossa consolação;

Ai de vós, que estais saciados agora,

porque tereis fome;

Ai de vós, que rides agora,

porque andareis aflitos e chorareis;

Ai de vós, quando todos os homens disserem bem de vós:

era assim que os seus pais tratavam os falsos profetas» (Lucas 6,17-26).

 

3. O Evangelho deste Domingo VI do Tempo Comum começa com esta descida para um lugar plano, que não tem de ser necessariamente a planície ao nível do mar da Galileia; pode muito bem tratar-se de um planalto acessível a uma grande multidão, doentes incluídos. Vê-se e compreende-se bem que o Discurso de Jesus é, em Lucas, mais breve e apresentado num cenário plano (Lucas 6,17-7,1), bem diferente do Sermão da Montanha de Mateus, mais longo e encenado nas alturas (Mateus 5,1-7,19). Se Lucas quer pôr Jesus em contacto com toda a gente, inclusive com os doentes, é fácil compreender que Jesus tem de descer ao nível deles, e não os pode obrigar a subir à Montanha.

4. É significativo que o evangelista descreva esta grande multidão como POVO (laós) oriundo de toda a Judeia, Jerusalém, Tiro e Sídon (Lucas 6,17), que veio para escutar Jesus e ser por Ele curado (Lucas 6,18). Ao contrário dos outros evangelistas que praticamente o ignoram, Lucas introduz este POVO (laós) profusamente no seu Evangelho. Este POVO (laós) tem conotação religiosa: é o Povo de Deus que o II Concílio do Vaticano consagrará. O que faz e define este POVO (laós) não é nenhum elemento étnico, nacionalista ou histórico, mas a eleição e a graça de Deus. Qualquer pessoa, de qualquer língua, nação, raça, cultura, que oiça a Palavra de Deus e lhe responda passa a fazer parte deste Povo. Neste sentido, esta multidão pode ter no seu seio elementos estrangeiros (Tiro e Sídon), mas não deixa, por isso, de ser um POVO (laós), o Povo de Deus. É igualmente significativo que todos tenham vindo ouvir Jesus! Aos olhos dos Apóstolos, que Jesus acabara de escolher, está ali indicado proleticamente o caminho da futura evangelização.

5. Então, Jesus, de pé, e «tendo levantado os olhos» como um profeta (em Mateus «sentou-se» como um mestre), declarou de forma direta e incisiva, em 2.ª pessoa, como fazem os profetas (Mateus usa a 3.ª pessoa, estilo sapiencial, sereno e pedagógico), bem-aventurados por Deus os POBRES, os FAMINTOS de agora, os que CHORAM agora, os REJEITADOS ou DESCARTADOS de agora. Lucas é mais radical e direto do que Mateus. Às quatro bem-aventuranças junta, em contraponto, quatro mal-aventuranças, declarando malditos por Deus os RICOS de agora, os FARTOS de agora, os que RIEM agora, os que RECEBEM APLAUSOS agora. As mal-aventuranças são introduzidas por um «Ai», fórmula técnica para introduzir anúncios de desgraça no discurso profético.

6. Lucas esclarecerá mais à frente, quando for contada a história do RICO FARTO e do POBRE LÁZARO (16,19-31), que os FARTOS não são demovidos pelos profetas nem tão-pouco por um morto que ressuscite! E esta parábola do homem Rico e do pobre Lázaro, que escutaremos no Domingo XXVI, é também o melhor comentário ao texto das bem-aventuranças e mal-aventuranças de hoje.

7. Jeremias 17,5-8 faz boa companhia ao Evangelho de hoje. O profeta expõe em discurso profético, abrindo com a clássica fórmula do mensageiro que soa: «Assim disse o Senhor», um refrão de tipo sapiencial que percorre toda a Escritura de lés a lés: «MALDITO o homem que confia no homem, afastando-se do Senhor;/ BENDITO o homem que confia no Senhor, pondo nele toda a sua confiança». O primeiro assemelha-se ao tamarisco do deserto, mirrado e amargo, que mora numa terra salitrada e estéril; o segundo é como uma árvore viçosa plantada junto da água boa.

8. A mesma temática e até as mesmas imagens vegetais enchem o Salmo Responsorial de hoje (Salmo 1): o homem que recita a instrução do Senhor dia e noite é como a ÁRVORE plantada e que dá fruto; o malvado é como a PALHA que o vento dispersa. A ÁRVORE plantada está de pé, respira o vento, como o homem, e dá fruto; a PALHA não respira o vento, mas é levada pelo vento; e não dá fruto, mas é a casca do fruto. É também fácil entender que é a mesma lição que encontramos na antítese das «bem-aventuranças / mal-aventuranças» do Evangelho de hoje.

9. A leitura semi-contínua do Apóstolo (1 Coríntios 15,12.16-20) prossegue hoje com a temática fundamental da ressurreição, tratada de forma notável em 1 Coríntios 15, cuja primeira parte foi lida no Domingo passado. Aí, Paulo expunha o acontecimento da Ressurreição de Jesus Cristo como centro da pregação apostólica e da fé das comunidades cristãs.

10. Hoje, Paulo começa por constatar que alguns membros da comunidade de Corinto não dão ouvidos aos conteúdos da pregação apostólica e negam simplesmente a ressurreição. E fazem-no em nome da mentalidade platónica, que considera a «carne» como elemento mau e desprezível, condenado à destruição, sendo a «alma» um elemento divino que, libertado da «carne», voltará a formar uma espécie de deus cósmico. Vê-se bem que segundo esta conceção errónea, a criação é má, ao contrário da declaração de Deus, que lhe apõe, por sete vezes, o carimbo de «boa» (Génesis 1). Paulo reage vigorosamente contra esta mentalidade instalada na comunidade, e prega aquilo que os Padres chamarão a «Economia da carne». «Cristo ressuscitou, primícias dos que adormeceram». Ele é, portanto, o primeiro Homem a ser ressuscitado. E se é o primeiro, então constitui certeza para os «outros» depois dele, que abre a série. Nele a morte foi vencida para todos. A esperança fundamenta-se na certeza deste Acontecimento principal da Vida do Senhor, que dá significado a todos os outros acontecimentos da sua Vida, ao inteiro Antigo Testamento, à Igreja e à vida dos homens.

11. É este acontecimento fundante que a Igreja Una e Santa, Esposa do Senhor, celebra jubilosamente Domingo após Domingo. Também hoje, portanto.

 

Há dois mil anos Jesus subiu ao monte,

E lá passou a noite em oração.

Quando se fez dia,

Escolheu os Doze,

E com eles desceu para o meio do povo,

Que de toda a parte tinha vindo

À procura da Palavra,

Que sabiam carregada de Luz e de Esperança.

 

Jesus desceu,

Ficou no meio deles,

Pertinho deles,

Ao alcance de muitas mãos que o tocavam.

Havia lá muitos doentes:

Claro que não podiam subir ao monte.

 

Desceu Jesus,

Como sempre desce Deus

Ao encontro dos seus filhos,

E declarou felizes

Os pobres,

Os famintos,

Os que tinham lágrimas nos olhos e na voz,

Os descartados.

 

Mas advertiu os ricos,

Os fartos,

Os que riam,

Os que iam de sucesso em sucesso,

Sem que os seus olhos vissem

E os seus ouvidos ouvissem

As lágrimas dos pobres e doridos.

 

Os Apóstolos estavam lá

E viram tudo

E ouviram tudo,

E nós também hoje com eles

E Jesus no nosso meio.

Ficamos todos a saber

Como fazer acontecer o Evangelho.

 

António Couto


IMPOSSÍVEL TRAVAR O CAMINHO DO AMOR

Fevereiro 2, 2019

1. O texto do Evangelho de Lucas proclamado e ouvido no Domingo IV do Tempo Comum (Lucas 4,21-30) retoma e continua o «discurso programático» de Jesus na Sinagoga de Nazaré, iniciado no Domingo III. Neste 1.º SÁBADO da sua vida pública, Jesus entrou na Sinagoga, LEVANTOU-SE para fazer a leitura litúrgica dos Profetas (Isaías) e SENTOU-SE para fazer a instrução com base na Lei (Deuteronómio): «HOJE foi cumprida (passivo divino!) esta Escritura nos vossos ouvidos».

2. O que Jesus faz é o procedimento tradicional do judeu piedoso em dia de SÁBADO, e as palavras que diz são também antigas. Dizendo as Palavras da Escritura e nada acrescentando de novo, Jesus assume-se como «FILHO DA ESCRITURA». As gentes de Nazaré olham, num primeiro momento, este Jesus com apreço e admiração, mas rapidamente passam a uma atitude hostil para com ele, apontando-lhe outra «paternidade»: «Não é este o “FILHO DE JOSÉ”?»; «o que ouvimos dizer que FIZESTE em Cafarnaum, FAZ também aqui na TUA PÁTRIA».

3. Mas, neste SÁBADO INICIAL, Jesus NÃO FAZ nada de semelhante àquilo que fará nos outros SÁBADOS. Este SÁBADO INICIAL reclama aquele SÁBADO FINAL em que Jesus também NADA FAZ: passá-lo-á inteiramente deitado no sepulcro! E a própria Paixão é exatamente o contrário de uma manifestação de poder: é antes passividade e impotência de Jesus! Ele, que tinha salvado outros, não se salvará a si mesmo! Mas neste SÁBADO INICIAL Jesus continua também a não dizer nada de novo. Cita dois provérbios: «Médico, cura-te a ti mesmo» e «nenhum profeta é bem aceite na sua pátria», sendo que os provérbios são património de todos e de ninguém. Reclama depois a obra de dois Profetas antigos, Elias e Eliseu, para mostrar que também eles NADA FIZERAM para as gentes da SUA PÁTRIA: Elias sai da sua pátria para socorrer uma viúva de Sídon, e Eliseu cura o sírio Naamã, um estrangeiro que o vem procurar na sua pátria. Também Jesus saltará fronteiras e atenderá estrangeiros. Bem ao contrário, Israel e as gentes de Nazaré: cegos, não acolheram a ESCRITURA de ontem como Palavra para eles «HOJE», do mesmo modo que no FILHO DE JOSÉ não souberam ver o Profeta, aquele que, como a Escritura, traz a Palavra. Quebram dessa maneira o laço de união entre o FILHO e a PÁTRIA, terra dos pais. E para vincar melhor a rejeição desta herança que é o seu FILHO, expulsam-no para fora da cidade. Pior ainda, tramam a sua morte: matando o FILHO, renegam a própria paternidade, perdendo assim a sua própria identidade. Perdendo-se, portanto. Da admiração inicial à rejeição final.

4. Não surpreende, portanto, que esta herança, rejeitada pela própria família, seja distribuída a outros, aos de fora. Este SÁBADO INICIAL contém em gérmen todos os elementos que o relato do Evangelho vai mostrar: desde logo o SÁBADO FINAL, mas também este FILHO DA ESCRITURA, que abre e lê abundantemente a Escritura aos nossos olhos para que ela se cumpra como Palavra nos nossos ouvidos, tornando-nos FILHOS DA PALAVRA. A oposição dos habitantes de Nazaré não foi suficiente para travar a história de Jesus, como também não o conseguiram fazer aqueles que o crucificaram e o continuam a crucificar ainda HOJE, pois Ele continua HOJE a passar pelo meio de nós. Resta saber que atitude assumimos nós HOJE. Retê-lo não é possível. Só podemos segui-lo!

5. A citação dos provérbios não é inocente. Mostra Jesus como PROFETA. De facto, ao citar o provérbio «Médico, cura-te a ti mesmo», Jesus está a dizer o que ainda não foi dito, mas será dito no cenário da Paixão: «Salvou os outros, que se salve a si mesmo!» (Lucas 23,35), dirá o povo;  «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,37), dizem os soldados. E ao dizer: «Nenhum Profeta é bem recebido na sua pátria», Jesus está a apresentar-se como Profeta verdadeiro. Na verdade, a perseguição começará logo ali e será uma constante ao longo do seu caminho. A Palavra profética faz o caminho, e não é o caminho que faz a Palavra! É esse caminho profético que Ele faz e segue, passando pelo meio deles. Esta Palavra que acontece, a d’Ele, a minha e a tua, faz a história e julga a história. Ao contrário do que facilmente dizemos, porque não pensamos, não é a história que nos julga. Somos nós que julgamos a história.

6. Somos HOJE também colocados perante o relato abreviado da vocação profética de Jeremias (1,4-5 e 17-19). O relato abre com a chamada «fórmula de acontecimento» [= «Veio sobre mim a Palavra do Senhor»] (1,4), que marca um início novo na vida do Profeta, e fecha com a chamada «fórmula de conforto» ou de «assistência» [= «Eu estou contigo»] (1,19), pela qual Deus garante ao seu Profeta apoio permanente. A missão de Jeremias destina-se às nações pagãs, mas também a Judá, seus reis, sacerdotes e todo o povo (1,17). A todos Jeremias, o profeta de Anatôt, uma aldeiazinha situada a uns seis quilómetros a nordeste de Jerusalém, deve falar a Palavra do Senhor. Os versículos cortados, por sinal os mais belos, definem a missão de Jeremias como uma missão difícil, marcada por quatro verbos negativos [= arrancar, destruir, exterminar, demolir] (1,10a), a que só depois se seguem dois positivos [= construir, plantar] (1,10b). Nesta altura, com Jeremias consciente da difícil missão que lhe foi confiada, estabelece-se um dos mais belos e significativos diálogos de toda a Escritura. A Palavra do Senhor vem sobre Jeremias (nova «fórmula de acontecimento») para lhe perguntar: «O que vês, Jeremias?», a que o Profeta responde com a belíssima expressão: «Vejo um ramo de amendoeira!» (1,11). «Viste bem, Jeremias», confirma o Senhor (1,12).

7. A amendoeira é uma das poucas árvores que floresce em pleno inverno. Jeremias vê bem, de forma penetrante que, na invernia da sua difícil missão, nasce já a flor da esperança, que é sempre a última palavra de Deus. E é essa flor-palavra, palavra em flor, que o Profeta vê-ouve-diz sempre, mesmo no meio da tempestade! Na verdade, Jeremias atravessa o período mais negro da história do seu país (Judá). Assiste às duas entradas arrasadoras do babilónio Nabucodonosor em Jerusalém, em 597 e 587 a. C. Os olhos de Jeremias veem a destruição, o sangue, a morte, a destruição do Templo, a deportação do rei, a que foram vazados os olhos, depois de ser obrigado a assistir à morte dos seus filhos. Os olhos de Jeremias veem sangue, ruína, morte, devastação, deportação, enfim, o fim do seu país. Não obstante tudo isto, Jeremias não fica com os olhos presos no sangue e na lama, e vê já mais além, vê um ramo de amendoeira, a flor da esperança, que anuncia já um tempo novo, bom e belo. Ainda hoje, à entrada de Anatôt, terra natal de Jeremias, se pode ver uma grande e velha amendoeira! Extraordinária lição e desafio para nós que estamos ainda com os olhos turvos pelas atrocidades, perseguições e acentuado desprezo pela vida humana que se vai vendo por este mundo fora.

8. Continuamos também, neste Domingo IV do Tempo Comum, com a Leitura semi-contínua do «Apóstolo». Ficamos assim perante o famoso «Hino à caridade» (1 Coríntios 12,31-13,13), uma das páginas mais extraordinárias do epistolário paulino. A uma comunidade em que os membros correm por conta própria, na vã tentativa de se posicionarem à frente uns dos outros, o Apóstolo Paulo aponta o AMOR (agápê) como caminho, testemunho e meta a atingir. É que mesmo que eu possua todos os bens e todos os dons, se não tiver o AMOR, que é o testemunho a transportar e a transmitir, posso estar a correr em vão ou ter já corrido em vão. É que o que é mesmo necessário viver é o AMOR.

9. Temos hoje a graça de poder saborear um bocadinho do Salmo 71, que é o único Salmo declaradamente posto na boca de um idoso. E aí, o velho orante não se lamenta nem tão-pouco faz apelo a qualquer sobrevivência depois da morte, mas implora simplesmente: «Não me rejeites no tempo da velhice,/ não me abandones quando o meu vigor desvanece» (vv. 9 e 18). Amando apaixonadamente esta vida, e vivendo-a com o intenso gosto de viver que Deus lhe incutiu no coração, ao homem bíblico não lhe sobra tempo para sonhos fáceis de imortalidade – o desejo da imortalidade é completamente estranho à alma ou à substância da antropologia bíblica – ou lúgubres meditações sobre a morte. O Antigo Testamento sabe e sente que a vida humana tem medida. Não a medida da inveja, como se vê nos mitos assiro-babilónicos, mas a medida do amor. E isso basta. E isso nos basta.

 

Sabes, meu irmão, que em Anatôt,

Há uma amendoeira em flor carregada de esperança.

Sim, em Anatôt, de Anatôt, a amendoeira levanta-se

E planta-se no teu coração róseo-branco de criança.

Sim, em Anatôt, Foz Coa, Kilimanjaro, Lamego,

Aí mesmo no chão do teu coração,

Tanto faz, minha irmã, meu irmão.

Sai dessa reclusão

E vem expor-te

A este vendaval manso de graça e de perdão.

 

A amendoeira em flor é uma toalha branca estendida pelo chão.

Não pela minha mão,

Incapaz de tecer um tal manto de brancura,

Mas pela mão de Deus,

Que também faz brotar o vinho e o pão

E a ternura

No nosso coração.

 

António Couto


ASSEMBLEIA DE ALEGRIA E DE ESPERANÇA

Janeiro 26, 2019

1. São Lucas é o Evangelista do corrente Ano Litúrgico. E embora já tenha sido proclamado e já tenhamos escutado diversos episódios do Evangelho de São Lucas nos quatro Domingos do Advento, Natal (1.ª e 2.ª missas), Festa da Sagrada Família, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, e Festa do Batismo do Senhor, é só agora que vamos começar a proclamá-lo e a escutá-lo em leitura contínua. Importa, por isso, inserir neste momento um esquema deste Evangelho, para podermos compreender melhor o ritmo da sua leitura:

 

1,1-4 = Prólogo histórico (A)

1,5-2,52 = Evangelho da Infância (B)

3,1-9,50 = Ministério na Galileia (C)

9,51-19,27 = Partida/subida para Jerusalém (D)

19,28-21,36 = Ministério em Jerusalém (C’)

22,1-23,56 = Paixão – Morte – Sepultura (B’)

24,1-53 = Epílogo: Ressurreição – Aparições – Promessa do Espírito (A’)

 

2. O Evangelho deste Domingo III faz a acostagem do «prólogo» (1,1-4) ao «discurso programático» de Jesus na sinagoga de Nazaré (4,14-21), saltando a pregação e prisão de João Batista (3,1-20), o Batismo de Jesus e a genealogia (3,21-38), e a sua tentação no deserto, de que sai vitorioso (4,1-13).

3. O prólogo (Lucas 1,1-4) é importante para se compreender a solidez de todo o Evangelho. Lucas, da segunda geração cristã, não fez obra por conta própria. Faz questão de dizer que escreveu de forma ordenada e com acribia e controlando desde o começo os factos (prágmata) de Jesus, aqueles que foram cumpridos (passivo divino!) entre nós, e que já foram recebidos com carinho mão na mão (epicheiréô) e postos em narração (diêgêsis) por muitos, conforme nos foram transmitidos (paradídômi) por aqueles que foram testemunhas oculares (autóptai) desde o princípio (ap’ archês). Factos de Jesus, testemunhas oculares, transmissão-receção mão na mão, narração, controlo desde as fontes. Lucas escreve para que o seu Leitor tenha um conhecimento pofundo e pessoal (epiginôskô) dos factos de Jesus, sobre os quais se faz a instrução da catequese (katêchéô), que forma a nossa consciência cristã.

4. O episódio de Nazaré (4,14-21) é importante. Antes de mais é dito que Jesus procede na força (dýnamis) do Espírito, inciso próprio de Lucas, que salienta a plena identificação somática de Jesus com o Espírito. Já antes, desde o Batismo, Jesus é dito plêrês [= cheio] do Espírito (4,1), e plêrês indica, não a passividade de quem está cheio, mas a condição natural, ativa, de quem possui a plenitude do Espírito Santo. Sempre na força do Espírito, entrou em dia de sábado na sinagoga, e LEVANTOU-SE (anístêmi) para fazer a leitura litúrgica (anaginôskô) (Lucas 4,16).

5. Em João 7,15, ao verem Jesus a ensinar no Templo, os judeus ficam admirados e interrogam-se: «Como é que ele entende de letras sem ter estudado?». Lucas 4,16 informa-nos que sabia pelo menos ler! Jesus lê um texto composto de Isaías 61,1-3; 58,1-11; 35,1-3, mas Lucas compendia-o na citação de Is 61,1-2.

6. Os conteúdos são decisivos, e Jesus aplica-os soberanamente a si mesmo, com a consciência de ser o Realizador da Promessa antiga: o Espírito do Senhor sobre mim porque me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me e eis-me a anunciar (kêrýssô) aos prisioneiros a «remissão» (áphesis) [= amnistia], aos cegos o retorno da vista, a restituir aos oprimidos a liberdade, a anunciar (kêrýssô) o ano da graça [= jubileu] do Senhor (Lucas 4,18-19). Trata-se de funções reais, sacerdotais e proféticas. Atos 10,38 confirmará que Jesus, ungido com o Espírito, passou cumprindo todas estas funções.

7. Terminada a leitura, Jesus SENTOU-SE para ensinar, para fazer a tradicional homilia (Lucas 4,20a). E o narrador informa-nos, de maneira admirável, que «os olhos de todos estavam fixos nele!» (Lucas 4,20b), apontando já para o grande ensinamento da Cruz, quando Jesus diz: «Quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a mim» (João 12,32), anotando depois o narrador: «Olharão para Aquele que transpassaram» (João 19,37). Em Nazaré, Jesus começou assim a sua homilia: «Hoje foi cumprida (passivo divino!) esta Escritura nos vossos ouvidos» (Lucas 4,21).

8. O texto, muito denso, bem diferente das débeis versões oficiais, salienta a força da Palavra de Deus quando é objeto de escuta qualificada. Este «Hoje» (sêmeron), que Lucas usa por oito vezes no seu Evangelho (2,11; 4,21; 5,26; 19,5; 19,9; 22,34; 22,61; 23,53), tornou-se clássico nas homilias dos Padres gregos. Neste seu primeiro ensinamento, Jesus como que não diz nada de novo! Na sua boca estão só palavras antigas! Excelente maneira de Jesus se apresentar como «Filho da Escritura», Leitor e conhecedor da Escritura: lê os Profetas (Isaías) e aponta para a Lei (Deuteronómio), o Livro do «Hoje» (70 vezes) e do «Escuta, Israel!».

9. Em perfeita consonância com o Evangelho (Assembleia reunida, Leitura da Palavra, olhos fixos), aí está o belo texto de Neemias 8,2-10. Grande texto do tardio pós-exílio que mostra a Assembleia, composta por homens, mulheres e crianças desde a idade da razão, reunida, de pé, no 1.º Dia do Ano (Dia de Ano Novo), para escutar com atenção e compreender até às lágrimas a Palavra do Senhor. Esdras, o sacerdote, está também de pé num estrado de madeira feito de propósito, e todos levantam os olhos para ele. A liturgia começa, como é usual, com a «bênção sacerdotal» (Números 6,23-26), a que o povo responde «Amen» com as mãos levantadas, gesto fundamental que indica plena compreensão e total adesão.

10. O Novo Testamento mostrará o novo Sacerdote, que é Cristo, no novo estrado de madeira, que é a Cruz, novo Livro da Escritura de Deus, onde São Paulo lê para nós: «Jesus Cristo exposto por escrito (proegráphê), crucificado (estaurôménos» (Gálatas 3,1), que atrai, como já atrás referimos, os olhos de todos (João 19,37).

11. Quase no final, mas ainda próximos do Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos, são oportuníssimas as palavras que o Apóstolo Paulo, Apóstolo da Unidade, dirige aos cristãos de Corinto (1 Coríntios 12,12-30) e a nós também. Diz ele que as nossas diferenças não são uma praga ou uma chaga, mas uma graça para partilhar com alegria em vista da utilidade comum. Não nos podemos, portanto, habituar à separação! Temos de compreender o escândalo que constitui a separação (também das Igrejas Cristãs): qual de nós aceitaria de bom grado que o seu próprio corpo fosse mutilado ou amputado? Então como podemos aceitar que o seja o Corpo de Cristo?

12. Neste Domingo, é a Assembleia unida porque reunida pela Palavra, que está no centro das atenções: é a Assembleia de Nazaré, é a Assembleia que nos mostra o Livro de Neemias, é também a nossa Assembleia Dominical, que Hoje se reúne à volta do Senhor Ressuscitado, nossa Alegria e nossa Esperança. «Não abandonemos, então, a nossa Assembleia, como alguns costumam fazer», oportuníssima exortação da Carta aos Hebreus (10,25).

13. Refere, a propósito, um antigo conto judaico: «Vira e revira a Palavra de Deus, porque nela está tudo. Contempla-a, envelhece e consome-te nela. Não te afastes dela, porque não há coisa melhor do que ela». E o Salmo 19, que hoje cantamos, ensina-nos que Deus ilumina o universo com o fulgor do sol, e ilumina o homem com o fulgor da sua Palavra revelada que a Escritura Santa carinhosamente guarda.

António Couto


OS SEGREDOS DAS BODAS DE CANÁ

Janeiro 19, 2019

1. Neste Domingo II do Tempo Comum, temos a graça de ouvir e ver a grandiosa cena do Evangelho de João 2,1-12, vulgarmente conhecida como «bodas de Caná», em que Jesus transforma em vinho excelente cerca de 600 litros de água. Caná é uma aldeia situada a uns seis quilómetros a nordeste de Nazaré. A Igreja Una e Santa é hoje de novo convidada e, por isso, se reúne (é reunida) num banquete de espanto e de alegria, para saborear o Vinho Bom (kalós) e Último, cuidadosamente guardado até Agora (héôs árti), mas Agora oferecido pelo Esposo verdadeiro, que é Jesus (João 2,1-11). O segredo deste vinho Bom e Último é conhecido dos que servem (diákonoi) (João 2,9b), mas o chefe-de-mesa (architríklinos) «não sabia “DE ONDE” (póthen) era» (João 2,9a).

2. E, na verdade, aquele saber ou não “DE ONDE” (póthen) era, aqui anotado pelo narrador, é a questão fundamental que atravessa o IV Evangelho, e aponta permanentemente para Deus. Provocação para uma sociedade indiferente, com saber, mas sem sabor, sem frio e sem calor, morna, à deriva, sem calafrios e sem Deus, que vive em plena orfandade. E, todavia, já Nietzsche o dizia: «Ao homem que te pede lume para acender o cigarro,/ se o deixares falar,/ dez minutos depois pedir-te-á Deus». Entremos, pois, por esta autoestrada repleta de sinalizações para Deus, pois ela vem de Deus, e por ela vem Deus, por amor, ao encontro dos seus filhos.

3. Em João 1,48, é Natanael que, atónito, pergunta a Jesus «“DE ONDE” (póthen) me conheces?». Em João 2,9, o nosso texto de hoje, é o narrador que nos informa que o chefe-de-mesa «não sabia “DE ONDE” (póthen) era» a água feita vinho. Em João 3,8, é Nicodemos que não sabe, acerca do Espírito, «“DE ONDE” (póthen) vem nem para onde vai». Em João 4,11, é a mulher da Samaria que não sabe “DE ONDE” (póthen) tira Jesus a água viva. Em João 6,5-7, é Filipe que chumba no teste que lhe faz Jesus, ao confessor que não sabe “A ONDE” (póthen) ir comprar pão para dar de comer a umas trinta mil pessoas. Em João 7,27, as autoridades de Jerusalém confirmam que, «quando vier o Cristo, ninguém saberá “DE ONDE” (póthen) Ele é». Em João 8,14, Jesus afirma, em polémica com os fariseus: «Eu sei “DE ONDE” (póthen) venho; vós, porém, não sabeis “DE ONDE” (póthen) venho». Em João 9,29, na cena da cura do cego de nascença, os fariseus afirmam acerca de Jesus: «Esse não sabemos “DE ONDE” (póthen) é», ao que, no versículo seguinte (João 9,30), com viva ironia, o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso: vós não sabeis “DE ONDE” (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!». Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a questão posta por Pilatos a Jesus, em João 19,9: «“DE ONDE” (póthen) és Tu?».

4. Demoremo-nos, pois, um pouco com o chefe-de-mesa, uma vez que é a ele que Jesus manda os servos levar o vinho novo (João 2,8). O chefe-de-mesa prova o vinho novo, e confessa a sua ignorância acerca da sua origem: de facto, «não sabia “DE ONDE” era», diz-nos o narrador (João 2,9a). A sua pergunta é, portanto, esta: «“DE ONDE” é este vinho»? Estranho é que o seguimento do texto nos mostre que o chefe-de-mesa passe ao lado da sua própria pergunta. Ele, que não sabia, podia ter perguntado aos servos, que sabiam (João 2,9b), porque tinham recebido e executado as ordens de Jesus (João 2,7-8). Em vez de se dirigir a eles, o chefe-de-mesa opta, todavia, por se dirigir ao noivo. E em vez de formular a sua pergunta acerca da origem daquele vinho, acaba simplesmente por manifestar o seu espanto pelo estranho procedimento adotado, contrário a todos os usos e costumes vigentes, de servir primeiro o vinho reles, deixando para o fim o vinho bom! (João 2,10).

5. É fácil constatar que esta figura do chefe-de-mesa nos é apresentada no papel de pivot no que se refere ao andamento da festa; em relação ao vinho novo e bom que lhe é levado pelos servidores, manifesta desconhecer a sua proveniência; prova-o, como lhe competia, mas não esboça qualquer vontade de querer saber mais acerca dele; limita-se a manifestar a sua estranheza pelo facto de o ritual antigo ter sido alterado. O elenco destes traços figurais leva-nos a concluir que a figura do chefe-de-mesa representa bem as autoridades judaicas tradicionais, mas também todos os senhores do mundo, todos muito habituados, bons conhecedores das convenções, mas nada sensíveis à novidade que é visível em Jesus, nada sensíveis às pessoas e aos factos, que simplesmente lhes parecem saídos na roda do destino.

6. Os servos, que recebem e cumprem as ordens de Jesus, que dão o vinho novo e bom a provar aos judeus tradicionais e a toda a humanidade, são os discípulos de Jesus, que sabem a proveniência de Jesus, e sabem também discernir o «significado» deste primeiro «sinal» (sêmeíon) que Jesus fez» (João 2,11). O IV Evangelho apresenta, de resto, no seu corpo, sete sinais que requerem interpretação. Já vimos o primeiro. O segundo é a cura de uma criança gravemente doente, expressamente referido como segundo sinal (João 4,43-54). Vêm a seguir a cura de um paralítico (João 5,1-9), a multiplicação dos pães para cinco mil homens (João 6,1-15), Jesus a caminhar sobre as águas (João 6,16-21), a cura de um cego de nascença (João 9,1-12) e a ressurreição de Lázaro (João 11,1-44).

7. «A mãe de Jesus estava lá», diz-nos logo de entrada o narrador (João 2,1). Sintomático que, tendo ela sido apresentada como «mãe de Jesus» por duas vezes (João 2,1 e 3), pouco depois Jesus a trate por «mulher» (João 2,4), e não por «mãe». Este singular tratamento por «mulher» em vez de «mãe» tem sido muitas vezes visto como ríspido, distante e nada afetuoso da parte de Jesus. O mesmo tratamento por «mulher», e não por «mãe», aparece no Calvário também nos lábios de Jesus (João 19,26). Na verdade, esconde-se, neste tratamento por «mulher», um verdadeiro tesouro. A «mulher» é muitas vezes na Escritura o símbolo do Povo de Deus, e, mais concretamente de Sião-Jerusalém personificada como Esposa amada, Enlevo e Alegria de Deus, o Esposo (Isaías 54,5-7; 62,1-5), e como mãe embevecida dos filhos de Deus (Isaías 49,21; 60,1-4).

8. «Não têm vinho!», observa a mãe de Jesus, falando para Jesus (João 2,3). É uma observação de mãe atenta e de serva feliz, que está ali para amar e servir! A resposta de Jesus: «O que há entre mim e ti, mulher? Ainda não chegou a minha hora» (João 2,4), tem sido igualmente vista como uma resposta ríspida de Jesus à sua mãe. Na verdade, é uma daquelas frases que pode assumir duas valências opostas, conforme o tom de voz com que é dita. Tanto pode ser, de facto, uma resposta ríspida e de rutura, como pode ser, ao contrário, uma resposta de grande deferência e carinho. É óbvio que aqui é uma resposta de grande deferência e terno amor filial de Jesus. É como se Jesus dissesse: «Mulher, grande mulher, mulher messiânica, Aquela que atravessa em contraluz toda a Escritura Santa, que trouxeste até aqui nos teus braços a Esperança de um povo, porque precisas de mo pedir? Tu sabes bem que Eu o faço, e é já». E a mãe de Jesus, nunca chamada Maria no IV Evangelho, entendeu bem esta resposta (nós, pelos vistos, é que não). Sinal disso é que diz para os servos: «Fazei tudo o que Ele vos disser!».

9. Como Jesus dirá mais tarde – e diz hoje para nós – também no contexto de um banquete, a Eucaristia, em que somos nós os convidados: «Fazei isto em memória de Mim!».

10. «Estava lá a mãe de Jesus», como «estavam lá seis talhas», grandes e vazias (João 2,6). Mãe e Mulher da esperança, talhas vazias, mas que serão cheias de esperança até ao cimo. Delas jorrará o vinho novo e bom, até agora guardado para nós. Tempo novo e pleno do Amor de Deus. É Ele que servirá o banquete de carnes suculentas e vinhos deliciosos (Isaías 25,6).

11. O banquete Novo, Bom e Último do Reino de Deus, com o Vinho Bom e Último, até agora guardado na esperança, é agora cuidadosamente servido. É sabido que a tradição judaica descrevia com muito vinho o tempo da vinda do Messias, referindo que, nesse tempo, cada videira teria mil ramos, cada ramo mil cachos, cada cacho mil bagos, cada bago daria 460 litros de vinho! Que saber e sabor é o nosso? Sabemos e saboreamos a Alegria do Banquete nupcial? Servimos para servir este Amor, esta Alegria? Não esqueçamos que é este o «terceiro Dia!» (João 2,1), que agrafa esta Alegria à Alegria nova da Ressurreição ao «terceiro Dia», «sinal» para a Glória e para a Fé (João 2,11).

12. A página de hoje do Antigo Testamento é Isaías 62,1-5. Um simples relance de olhos por esta sublime paisagem textual de Isaías é suficiente para fazer ressaltar os acordes com o Evangelho de hoje. A cidade de Jerusalém (personificação de Israel), depois de experimentar o abandono e a desolação do Exílio, é agora olhada como uma noiva, desposada com Deus, seu Criador que, para o efeito, a recria, dando-lhe um nome novo, linguagem genesíaca (Génesis 1,1-4). E a alegria nupcial voltará a iluminar o rosto da cidade. É ainda dito, dentro do mesmo colorido, que a cidade-noiva será uma coroa (ʽatharah) nas mãos do Senhor, como o Livro dos Provérbios refere que «a esposa é a coroa (ʽatharah) do marido» (Provérbios 12,4). Belíssima linguagem nupcial, elevada dignidade para Jerusalém e para nós.

13. A comunidade cristã não pode ser vaidosa, autorreferencial, egoísta e individualista, como parecia ser Corinto, aos olhos de São Paulo (1 Coríntios 12,4-11). A comunidade bela e harmoniosa funciona como um corpo, é composta de irmãos, e todos têm em vista o bem comum. Os dons de cada um são para proveito de todos, e não para própria vanglória. Por isso, os dons são diferentes, é o Espírito que os distribui, e, postos em comum, servem para edificar a comunidade bela e harmoniosa. Como é hoje oportuno fazermos esta verificação nas nossas comunidades.

14. Comunidade bela e harmoniosa. Sujeito adequado e preparado pelo Espírito para cantar o «cântico novo» cujos tons nos dá hoje o Salmo 96, um Salmo que nos põe a cantar a Realeza de YHWH e as suas maravilhas. O melhor antídoto para o nosso culto tantas vezes apenas formal é uma fé coral que nos faz olhar, não tanto para o passado, mas para o futuro, para a notícia boa de um Deus que vem com um grande SIM para o nosso mundo. O «cântico novo» não nos põe a cantar hoje como ontem, mas hoje como amanhã.

 

Há um grande SIM a retinir no universo inteiro,

Na tua criação maravilhosa, verso e reverso,

Obra a obra, tudo bem feito por meio do teu Filho amado,

O Verbo, a Palavra sempre a dizer-se

E para sempre dita, anunciada, bendita.

SIM, o teu Filho Jesus não foi Sim e Não,

Mas unicamente SIM.

E com esse SIM fez-se e mobilou-se o universo inteiro.

SIM, é sintomático

Que nas 452 palavras hebraicas de Génesis Um,

O jardim da tua criação,

Não se encontre um único NÃO.

 

É tudo SIM, portanto,

E é nesse jardim que ecoa também o SIM de Maria,

E que cada lacuna, cada NÃO,

Se vá transformando sintomaticamente em SIM.

 

NÃO têm vinho, diz em Caná Maria para Jesus,

Mas logo terão vinho em excesso.

NÃO tenho marido, confessa a Jesus a mulher da Samaria,

Mas vai ter e está ali mesmo ao lado.

NÃO tenho ninguém que me lance à água,

Replica o paralítico à beira da piscina,

Mas já está ali Jesus mesmo ao lado.

NÃO tendes nada para comer, pois NÃO,

Pergunta e afirma Jesus perante os seus Apóstolos,

Que de madrugada regressam do mar sem nada terem pescado.

E eles respondem: NÃO!

Mas já está ali um banquete novo preparado sobre a praia.

 

Vem, Senhor Jesus,

Vem nascer em Belém

E aqui também,

Que precisamos tanto de Ti e do teu SIM.

 

António Couto


O FILHO DO HOMEM-QUE-VEM TRAZ UM MUNDO NOVO PELA MÃO

Novembro 17, 2018

1. O Livro de Daniel terá sido provavelmente escrito no Outono do ano 164 a.C., com o objetivo de encorajar os judeus piedosos a permanecerem firmes na sua fé em plena perseguição antijudaica desencadeada três anos antes, em 167 a.C., pelo tirano Antíoco IV Epifânio, e cujos ecos se podem ver, por exemplo, no Segundo Livro dos Macabeus 6 e 7, que registra a fidelidade heroica do velho Eleazar e dos sete jovens irmãos Macabeus. Estes são, no dizer do Livro de Daniel 12,1-3, os mestres sábios (maskkilîm) e justificadores (matsddîqîm), isto é, dadores de vida: ensinam, não teorias, mas a vida verdadeira, dando a sua vida por amor: é assim que vencem os violentos, não opondo-se a eles, mas amando, isto é, dando a vida e dando vida, ensinando a viver. Estes novos sábios e justificadores são, diz o Livro de Daniel, as novas estrelas que brilham para sempre! Se brilham para sempre, então estão em comunhão com Deus, que é luz que não se apaga, pois não conhece trevas nem ocaso (1 João 1,5).

2. Não são, portanto, as estrelas da moda, da música, do cinema ou do futebol, estrelas cadentes, de brilho efémero e passageiro! São as novas e verdadeiras estrelas de brilho permanente, inscritas no Céu ou no Livro da Vida (ver Daniel 12,1; Salmo 139,16; Isaías 4,3; Lucas 10,20; Apocalipse 20,12). As outras pobres estrelas estão, na verdade, inscritas no chão, no pó da terra (Jeremias 17,13), e lá se perdem e disperdem. Deus sabe escrever no coração (Jeremias 17,1; 31,33), na Cruz (Gálatas 3,1), e, como já vimos, no chão, e no Livro, mas também, num gesto de particular ternura, na palma da sua mão (Isaías 49,16).

3. O cenário do Evangelho deste Domingo XXXIII do Tempo Comum (Marcos 13,24-32) não é de terror, mas de amor! Novos céus e nova terra, saídos das mãos de Deus-Pai, com o Filho-que-Vem, e que está próximo, à porta. É como o noivo do Cântico dos Cânticos 5,2, que bate à porta, descrito pela noiva que dorme, mas escuta com um coração sempre vigilante! Única atitude da Igreja Una e Santa, que Domingo após Domingo, se reúne com emoção e alegria à volta do seu Senhor-que-Vem. Tudo tão suave e tão cheio de maravilha: o nosso Deus revelando ou simplesmente com todo o carinho desvelando, isto é, retirando o véu que encobre a verdadeira realidade, perante os nossos olhos atónitos!

4. Uma parte da Igreja antiga lia este «discurso escatológico» e outros textos similares do Novo Testamento no sentido da chegada iminente do «fim do mundo» (leitura ainda hoje desgraçadamente doentia nas seitas, com ano, dia e hora marcados!). Sim, é do «fim do mundo» que se trata, mas num sentido novo e inaudito: é a Palavra de Deus que não passa, e que é Amor e é Primeira e Última, sempre nova, portanto, que vem «pôr fim ao nosso mundo» de posse e egoísmo, autossatisfação e auto expansão ilimitada. É o Último, que é o Amor gratuito e desinteressado, que põe fim ao penúltimo, que é a nossa vã maneira de viver. Neste sentido novo, é de desejar que o nosso mundo velho e caduco entre em agonia e acabe já, para que comece verdadeiramente em nós e já um mundo novo e belo, cuja matriz é o Amor gratuito e incondicional. Neste sentido intenso e belo, vale a oração «Senhor, vem!» (marana tha’), porque, com sabedoria serena, sabemos que «o Senhor vem!» (maran ’atta’).

5. O discurso de Jesus no inteiro Capítulo 13 de Marcos não é atravessado por nenhuma angústia nem sugere qualquer corrida desenfreada e frenética. Pelo contrário, por quatro vezes, Jesus interpela os seus discípulos a um comportamento atento: «vede bem», «estai atentos», «prestai atenção», grego blépete (Marcos 13,5.9.23.33), e igualmente por quatro vezes se faz ouvir a vigilância: «estai acordados», «vigiai», grego agrypnéô e grêgoréô (Marcos 13,33.34.35.37). Depois da admirável introdução deste Capítulo (Marcos 13,1-4), com um discípulo a comunicar a Jesus o seu espanto perante as belas pedras das construções herodianas do Templo (Marcos 13,1), Jesus volta-o para outro lado, dizendo: «Vês estas grandes construções? Não ficará pedra sobre pedra que não seja destruída» (Marcos 13,2). E, sentando-se (como quem ensina) no Monte das Oliveiras, voltado para o majestoso Templo, e interrogado por Pedro, Tiago, João e André sobre o «quando» e «qual o sinal» (Marcos 13,3-4), Jesus profere então o inteiro ensinamento deste grande Capítulo 13, que aparece organizado em três Partes: 1) em Marcos 13,5-23, Jesus fala de um tempo de tribulação, em que pulularão enganadores (Marcos 13,5-6), guerras (Marcos 7-8), perseguições (Marcos 13,9-13), e outra vez guerras (Marcos 13,14-20), enganadores (Marcos 13,21-23, e uma chamada de atenção (Marcos 13,23); 2) em Marcos 13,24-27, parte central, Jesus anuncia a vinda do Filho do Homem para reunir os seus eleitos; 3) em Marcos 13,28-37, intercalam-se informações e advertências.

6. Note-se, colocada no centro da estrutura, que é sempre a Parte mais importante, a vinda do Filho do Homem. Não é informação nem enumeração. É anúncio, que põe fim ao penúltimo, à luz do sol, da lua e das estrelas (Génesis 1,14-19), obra do quarto dia da criação, e faz retornar tudo à luz primeira de Deus (Génesis 1,3), obra do primeiro dia da criação. Note-se ainda a importante instrução sapiencial da parábola da figueira (Marcos 13,28-29), imediatamente colocada após o anúncio da vinda do Filho do Homem: a atenção dos discípulos não deve centrar-se tanto naquilo que se vê (o verde das folhas na primavera), mas naquilo que não se vê (o verão e o Filho do Homem). Não se veem ainda, mas estão próximos. Note-se este «próximo» (eggýs) do Filho do Homem (Marcos 13,28.29) a fazer inclusão com o anúncio do Reino de Deus, igualmente próximo (eggýs), em Marcos 1,15.

7. O mundo-que-vem é a luz pura de Deus, obra nova e boa de Deus, e não é construído sobre as cinzas do nosso velho mundo. A homilia da Carta aos Hebreus, que hoje tivemos a graça de continuar a ouvir (10,11-14.18), faz-nos compreender que nós estamos totalmente afetados por Jesus Cristo, que nos trouxe o perdão, entregando-se por nós uma única vez, ao contrário dos sacerdotes da antiga lei, que todos os dias tinham de oferecer sacrifícios pelo pecado. Mas agora, que é o tempo do perdão, o sacrifício pelo pecado deixa de existir (v. 18).

8. Portanto, as pedras e as coisas, as casas e as terras nunca devem ocupar, muito menos encher, o nosso coração. Os sacerdotes, descendentes de Aarão não tinham terra distribuída em Israel. A sua herança era o Senhor (cf. Números 18,20), como cantamos hoje no Salmo 16. No seu Sermão 344, Santo Agostinho comenta assim: «O salmista não diz: “Ó Deus, dá-me uma herança”. Diz antes: “Tudo o que me podes dar fora de Ti, é vil. Sê Tu a minha herança. É a Ti que eu amo… Esperar Deus de Deus, estar cheio de Deus. Basta-te Ele; fora dele, nada te pode bastar». Esta melodia deve encher o nosso coração e este Dia de Domingo, Dia do Senhor, de doação radical, total, ao Senhor. Entenda-se: é um caminho novo que se abre à nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distrações, sem nostalgias, sem saídas de emergência ou de segurança!

António Couto


DAR O QUE SOBRA NÃO TEM A MARCA DE DEUS

Novembro 10, 2018

1. Um braçado de gravetos, um copo de água, um punhado de farinha, um tudo nada de azeite. Juntando as pontas destes fios soltos, a viúva de Sarepta prepara-se para fazer uma última refeição de despedida da vida juntamente com o seu filho único. É nesta terra quase a terminar, onde já mal se tem pé, nesta vida quase a expirar, que surge Elias, o homem de Deus, conduzido por Deus, que atira à pobre mulher mais um fio de voz e de esperança a que se agarrar: Deus. Não é a quantidade que importa; o que importa é a totalidade. Pelo fio de voz e de esperança de Elias, Deus não reclama alguma coisa; reclama tudo: o coração todo, a alma toda, a confiança toda, as forças todas! E nem a farinha se esgota na amassadeira, nem o fio de azeite deixa de cair da almotolia! Extraordinária lição para a pobre viúva de Sarepta (Primeiro Livro dos Reis 17,10-16) e para nós, que atravessamos a secura da paisagem desta terra de Novembro.

2. O coração todo, a alma toda, a confiança toda, as forças todas: assim se ouve ou se lê no famoso Shemaʽ Yisraʼel [= «Escuta, Israel], de Deuteronómio 6,4-5, que tivemos a graça de ouvir no Domingo passado. E nesse lugar se diz também a Israel que deve formar com essas palavras um fio de luz e de sentido que deve atar ao coração, às mãos, aos pés, aos filhos (Deuteronómio 6,6-9). Este fio é fundamental para segurar as pontas soltas dos podres, pobres fios da nossa vida.

3. Bem, neste contexto, o fio ou a linha poética e melódica do Salmo 146, que põe Deus tão perto de nós, a fazer justiça aos oprimidos, a dar pão aos que têm fome, a tomar a seu cuidado o órfão e a viúva, e a atirar-me todo para Deus, com aquele grito repetido: «Ó minha alma, louva o Senhor!». O Salmo 146 é uma espécie de carrilhão musical, e convida-nos a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua acção em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

4. Na verdade, «Deus habita nos louvores de Israel» (Salmo 22,4). Habita nos nossos louvores, na nossa dedicação e devotação total a Ele, na nossa vida posta em melodia, fio ou linha melódica que ata o nosso coração ao coração de Deus, a nossa mão à mão de Deus. Foi assim, sacerdotalmente, que Jesus Cristo se ofereceu totalmente ao Pai e a nós e por nós, deixando-nos à espera e a viver dessa espera na esperança da sua Vinda. Um fio tenso de luz e de sentido, a que se chama esperança, nos ata para sempre a esse Senhor-que-Vem. Fio ou linha musical, vital, de cada Domingo, em que cantamos: «Senhor, vem!» (marana tha’), porque sabemos que «o Senhor vem!» (maran ’atta’). O Dia de Domingo deve imprimir em nós o «tique» da esperança, deixando-nos com o pescoço esticado para Deus, situação de quem O espera e vive da sua Vinda a todo o momento. É a Lição de Hebreus 9,24-28.

5. O Evangelho deste Domingo XXXII do Tempo Comum, Marcos 12,38-44, põe em cena e em claro destaque uma viúva pobre que dá a Deus a sua vida toda, em contraponto com os escribas e muitos outros, que fazem bom teatro religioso (não é o caso do escriba do Domingo passado). Excelente inclusão literária no Evangelho de Marcos: da primeira vez que Jesus aparece a ensinar em público, neste Evangelho, o povo exclama: «Este ensina com autoridade, e não como os escribas!» (Marcos 1,22); a terminar a sua atividade pública neste Evangelho, é Jesus que mostra bem que não é como os escribas (Marcos 12,38-40). A cena central passa-se no átrio das mulheres do Templo de Jerusalém, num lugar chamado «Casa do Tesouro» (bêt ha-gazît) (Marcos 12,41-44). Muita gente deitava aí muito do que lhe sobrava, mas a viúva pobre deu «tudo quanto tinha, a sua vida toda!». Fio de sentido que liga este episódio ao que já encontrámos no Primeiro Livro dos Reis 17,10-16.

6. O Evangelho refere que a viúva é pobre. Duplamente desfavorecida, portanto. Enquanto viúva e enquanto pobre. Mas a tecla que soa mais forte, é que deu tudo, ainda que tenha dado pouco: duas pequenas moedas (leptà dýo), ou seja, um quadrante (kodrántês). O quadrante é uma coisa insignificante: é a sexagésima quarta parte de um denário! A pobre viúva recuperá-lo-ia rapidamente, mal se pusesse a pedir! O acento não está posto na quantidade, mas na totalidade. É bom que, observando bem esta cena exemplar, aprendamos a passar da mera ajuda para o dom de nós mesmos. Dom total. O discípulo de Jesus, à maneira de Jesus, deve pôr em jogo a própria vida, e não simplesmente os adereços. Tudo, e não apenas o supérfluo. Dar o que sobra não tem a marca de Deus, não é fazer a verdadeira memória de Jesus, que se entregou a si mesmo por nós (Efésios 5,2), por mim (Gálatas 2,20). O supérfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo transforma a vida para sempre. A marca deste dom é a totalidade e a definitividade.

7. Dar a vida toda ou entreter-se com os adereços, eis a verdadeira questão, meu irmão deste Domingo de novembro.

 

Uma nuvenzinha,

Que o criado de Elias avista lá ao longe,

Acende de esperança o horizonte,

Como uma cidade iluminada sobre um monte,

Uma avezinha que se dessedenta numa fonte,

Uma velhinha que recolhe um braçado de gravetos,

Para acender o lume

E cozer apenas um pãozinho

Para comer com o seu filho

Antes de rezar e de morrer.

 

Elias anda ao sabor de Deus,

Como um moinho ao vento,

Como um pássaro ao relento,

Como a voz de um fino silêncio,

A amadurar no coração de um grão de trigo

Ou de um amigo.

 

Tudo é tão frágil e tão belo,

Belo porque frágil

E ágil.

 

Anda tanto Deus à nossa volta,

Que não precisamos de guarda

Nem de escolta.

 

Concede-nos hoje, Senhor,

Sentir a tua voz bater em nós,

E o teu amor sempre ao redor,

Sempre ao redor,

Como Tu achares melhor.

 

António Couto