UM MUNDO NOVO GOVERNADO POR UM MENINO

Dezembro 7, 2019

(A quem interessar, e para outras latitudes onde esta página é lida, dado que este ano, neste Domingo II do Advento, em Portugal, se celebra a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria).

1. O texto do Evangelho deste Domingo II do Advento (Mateus 3,1-12) apresenta algumas notas salientes: 1) É notória a sintonia de João com Jesus, dado que ambos abrem o seu ministério, dizendo as mesmas palavras: «Convertei-vos, porque se fez próximo o Reino dos Céus» (Mateus 3,2; cf. Mateus 4,17); 2) ambos colocam o seu ministério com referência a Isaías (Mateus 3,3; cf. Isaías 40,3; 4,14-15; 8,23-9,1); 3) ambos abrem no deserto a sua missão, evocando o Êxodo do Egito, o novo Êxodo da Babilónia (Ezequiel 20,33-38) e o Êxodo do noivado de Deus com Israel (Oseias 2,16-23), mas também a febre messiânica que situava no deserto o princípio da renovação escatológica; 4) a indumentária de João Batista (Mateus 3,4) evoca a de Elias (2 Reis 1,8), com o qual é, de resto, identificado por Jesus (Mateus 11,14; 17,12-13).

2. Se é evocada a continuidade dos ministérios de João e de Jesus, não deixa também de ser bem acentuado o confronto entre os dois: 1) vê-se bem que João Batista anuncia um Messias juiz, que traz na mão o machado e a pá de joeirar (3,10-12), enquanto que Jesus assumirá a figura de Servo do Senhor manso e humilde (12,17-21); 2) o apelo à conversão que João faz não é dirigido aos pagãos, mas aos israelitas piedosos (3,7-10): portanto, face ao Messias juiz que vem aí, também os justos se devem converter; não é a raça de Abraão que conta, mas a fé; 3) a conversão manifesta-se em fazer fruto, uma ideia recorrente em Mateus (cf. 7,16-20; 12,33; 13,8; 21,41 e 43; 25,40 e 45…); 4) a conversão, aqui expressa pelo verbo metanoéô, não deve ser vista apenas pelo seu significado etimológico: mudar de mentalidade; seria uma maneira de ver muito intimista, mostraria o homem debruçado sobre si mesmo, sobre os seus pecados; ora, a raiz hebraica shûb, sobretudo depois de Jeremias (Isaías 31,6; 45,22; 55,7; Jeremias 3,7.10.14.22; 4,1; 8,5; 18,11; 24,7; 25,5; 26,3; 35,15; 36,7; 44,5; Lamentações 3,40; Ezequiel 13,22; 14,6; 18,23 e 30; 33,9 e 11; Oseias 11,5; 12,6; 14,1-2; Joel 2,12-13; Zacarias 1,3-4; Malaquias 3,7), não implica o dobrar-se do homem sobre si mesmo, mas o orientar-se para ALGUÉM, para Deus, com quem o ser humano cortou relações, distanciando-se e quebrando a aliança. Esta ideia de conversão como caminho de regresso a Deus estava muito disseminada no judaísmo primitivo, mas era desconhecida na religião grega; 5) à vista de Jesus que vem no meio da multidão, como verdadeiro Servo do Senhor (3,13-14), que assume as faltas da multidão, João fica confuso; na verdade, esperava um Juiz, e não um Servo solidário com o povo no pecado (por isso, vem, no meio do povo, a este batismo de penitência); 6) além disso, e contra todas as expectativas de João, Jesus não vem para batizar, mas para ser batizado (3,11.13-14); 7) o diálogo travado entre João Baptista e Jesus (3,14-15) é exclusivo de Mateus (nenhum outro Evangelho o descreve).

3. Faz-se notório o sonho de um Deus que desce ao nosso meio, não para nos condenar ou derrubar, mas para se tornar solidário connosco.

4. Isaías 11,1-10, que serve hoje de ressonância ao Evangelho, mostra muito mais o tom manso e suave do Servo do Senhor que Jesus incarna do que o martelo do Juiz que João Batista prenuncia. Isaías abre diante de nós um mundo novo, tenro e terno, que, visto desde este nosso mundo escuro e tantas vezes desumano, soa a sonho. Ei-lo desenhado nestes versos imensos: «Então o lobo habitará com o cordeiro,/ o leopardo deitar-se-á com o cabrito,/ o bezerro e o leãozinho andarão juntos,/ e um menino pequeno os conduzirá.// A vaca e o urso pastarão juntos,/ juntas se deitarão as suas crias,/ o leão comerá feno com o boi,/ e a criança de peito brincará com a víbora» (Isaías 11,6-8).

5. Avista-se daqui o Menino de Belém. Uma paz a perder de vista, sem princípio e sem fim. Um mundo novo governado por um menino pequeno. Vê-se bem que este mundo belo e manso não se parece nada com o nosso, cheio de raivas e de ódios, invejas, mentiras, manhas, astúcias, violências e guerras. Nenhum menino poderia governar um mundo assim. E o problema que nos assalta não está no menino; está neste nosso mundo mentiroso, fraudulento e violento.

6. Contra este mundo empedernido e embrutecido embate a ternura do Menino de Belém. Entenda-se bem outra vez: não é o menino que está errado; somos nós que estamos completamente errados. É por isso que somos convidados à conversão.

7. O mundo novo e saboroso que emerge dos textos de hoje é também sublinhado por S. Paulo nas exortações que nos dirige na Carta endereçada aos Romanos 15,4-9. Como seria belo um mundo pautado por uma verdadeira fraternidade em que todos vivêssemos sob o impulso e o alento carinhoso e criador de Deus. Na verdade, todos respiramos o mesmo alento, que o texto grego diz com o belo termo composto homothymadón (Romanos 15,6), que junta homós [= mesma] e thymós [= alma], sendo que thymós deriva de thýô [= soprar]. E que mundo maravilhoso surgiria, rompendo a crosta do egoísmo e da dureza de coração, se «nos acolhêssemos uns aos outros, como Cristo nos acolheu a nós» (Romanos 15,7). Aí está então a comunidade humana irmanada e reunida, porque todos recebemos de Deus o mesmo alento, o mesmo sopro criador (Génesis 2,7), e com uma só boca (en henì stómati) e a uma só voz cantamos os louvores do nosso Deus (Romanos 15,6). Esta linguagem e esta harmonia enchem por inteiro a comunidade primitiva (Atos 1,14; 2,46; 5,12).

8. Também os versos sublimes do Salmo Real 72 cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva.

 

O Senhor do Advento

É Aquele-que-Vem

Nascer em Belém,

Bater à nossa porta,

Pedir ao nosso coração

Um bocadinho de pão.

 

Tão pouco e tanto

Nos pede Jesus,

E para nosso espanto,

E para encanto nosso,

O Filho de Maria

Vem vestido de irmão nosso

De cada dia.

 

Ele anda por aí,

Ao frio e ao calor,

Rico e pobrezinho,

Nosso Senhor.

 

Vem, Menino,

Senhor do mundo,

Do sol e da lua,

Bate à minha porta,

Entra em minha casa,

E que, por graça,

Entre eu também na tua.

 

António Couto


PARA VÓS, SENHOR, ELEVO A MINHA ALMA!

Novembro 30, 2019

1. «Para vós, Senhor, elevo a minha alma» (Salmo 25,1). Antífona do Cântico de Entrada que inaugura a celebração eucarística do Advento, do Ano litúrgico, do Ano inteiro. Aponta a atitude a assumir pela Assembleia fiel e orante: a oblação permanente, a oração constante. Para que esta atitude não fique esquecida, mas tome verdadeiramente conta de nós, a mesma «subida» espiritual é cantada com esfuziante alegria no Salmo Responsorial (122). Extraordinário pórtico de entrada no Advento e no novo Ano litúrgico. Belíssima forma de viver, elevando para Deus a nossa vida: a oração é a nossa vida! A nossa vida em ascensão e oração permanente, sacrifício de suave odor, incenso puro subindo para o nosso Deus. Sempre. O Evangelho dirá com a mesma energia e alegria: «Estai atentos», «Vigiai», «Compreendei», «Estai preparados», «Sabei o dia», «Não aconteça que não deis por nada!» (Mateus 24,37-44). Vida levantada, rosto erguido para Deus. É o gesto do justo justificado por Deus (Job 22,26). Página em branco, Primeira e Última, que podemos apresentar a Deus neste início de Advento e de Ano litúrgico. É de Deus a palavra e a escrita que não passa.

2. Curiosamente a lição do Evangelho não condena a malvadez e a violência das pessoas, mas a sua indiferença, anestesia e sonolência («não dar por nada»). «Vigiar», «Estar atentos» significa não se deixar enterrar na lama dos caminhos banais e fúteis deste tempo dormente, e S. Paulo mostra que a busca desenfreada do sucesso e das falsas soluções da droga, da devassidão, da embriaguez, das rixas, dos ciúmes é uma teia que nos enreda e não nos deixa ver bem, belo e bom. Não nos deixa, portanto, ver Cristo, o mais belo dos filhos dos homens (Salmo 45,3), «belo a dar a vida e belo a retomá-la, belo na Cruz, belo no sepulcro, belo no céu» (Santo Agostinho). Andamos sempre tão atarefados com inúmeros afazeres, campos, bois, negócios, casamentos, que ficamos com o «coração pesado» e insensível, incapaz de ver o Filho-do-Homem-que-vem, a qualquer hora, nos nossos irmãos mais pequeninos! Ora, o Advento é o Filho do Homem que vem, para que nós o acolhamos. Se o acolhermos, saímos fora da teia dos nossos afazeres que nos sufoca, o penúltimo, e entramos no mundo maravilhoso do Último, do Amor, da Liberdade, que rompe as nossas teias e cadeias.

3. O escritor argentino Jorge Luis Borges deixou-nos versos densos como estes, acentuando a importância e a intensidade de cada momento da nossa vida a não desperdiçar: «Não há um instante que não esteja carregado como uma arma»; «Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes»; «Em cada instante a clépsidra deixa cair a última gota». E o poeta brasileiro Vinícius de Moraes escreveu assim num belíssimo poema: «A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais». É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Tudo no Evangelho é decisivo: cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

4. Átrio de um tempo novo, habitado, «carregado» de justiça e de bondade. Obra de Deus no nosso mundo. E só dele. Obra terna, tenra e nova, como um «rebento» de um jovem casal ou de uma planta. Sinal de Primavera no meio da invernia e da lama em que nos vamos atolando, ensonados e enlatados, sem sequer darmos por isso. É, portanto, mesmo preciso que Ele venha e que nos acorde e nos levante da nossa letargia com novas pautas e novos acordes musicais! E que nos dê nomes novos a nós, às nossas cidades, às nossas escolas, aos nossos hospitais, às nossas ruas! Up! Up! Up! Luz nova lá no alto a atrair os nossos olhos embotados. Instrução nova de Deus para todos os povos, armas transformadas em relhas de arado, flores brancas em mãos ensanguentadas (Isaías 2,1-5).

5. E aí está S. Paulo, no final da sua carreira, a escrever desde Corinto aos Romanos (13,11-14). E aí está também o buscador Agostinho. Na sua intensa busca da verdade, foi de Tagaste para Cartago, para Milão. Homem inquieto, no polo oposto do coktail da tranquilidade e consolo, servido pela New Age ou Next Age, e de acordo com a advertência de Julien Green: «Enquanto estivermos inquietos, podemos estar tranquilos». No princípio do Outono de 386, angustiado e inquieto, Agostinho (Confissões, Livro VIII, 12) sai para o jardim da sua casa, em Milão, e chora amargamente, sentado debaixo de uma figueira. Ouve então uma criança que, na casa vizinha, cantarolava uma estranha letra: «Toma e lê!», «toma e lê!». Agostinho apercebeu-se de que não era normal uma criança trautear uma canção com uma letra assim. Foi, por isso, levado a compreender que bem podia ser um recado de Deus para ele. Entrou em casa, desenrolou à sorte as Cartas de S. Paulo que tinha sobre a mesa, e leu: «Não em orgias e bebedeiras, não em devassidão e libertinagem, não em rixas e ciúmes, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não presteis atenção à carne através da concupiscência» (Romanos 13,13b-14).

6. Nesse dia e nessa hora, nasceu Santo Agostinho. Hoje podes nascer tu também, meu irmão do tempo novo do Advento. Mãos à obra, e conta sempre com a graça de Deus: «Segundo a graça que Deus me deu, como bom arquiteto, lancei o fundamento, mas é outro que constrói por cima. Mas cada um veja como constrói. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diferente do que foi posto: Jesus Cristo. Se alguém, sobre esse fundamento, constrói com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um será posta em evidência» (1 Coríntios 3,10-13).

7. Enfim, ressoa Hoje a voz do Salmo 122, um belíssimo Cântico de Sião, sobrecarregado de uma alegria elementar e de uma emoção visceral e instintiva. Desdobra-se em três vagas: a primeira (vv. 1-2) reúne a alegria incontida da partida e a emoção intensa da chegada; a segunda, vv. 3-5, entoa o louvor de Sião, passeia os olhos pela bela arquitetura dos seus edifícios, mas sobretudo vê Jerusalém como polo de atração e de união das tribos para louvar a pessoa (o Nome) de Deus no seu Templo; a terceira, vv. 6-9, estende uma toalha branca de paz (shalôm), três vezes dita, como vê os seus quatro ângulos, sobre a mais bela cidade, Jerusalém, yerûshalaim, popularmente interpretada como «cidade da paz (shalôm)», ainda que o seu nome signifique «Shalem a edificou», com referência a um deus dos antigos habitantes cananeus. Pouco importa. Ela é a Casa em que entram, felizes e emocionados os filhos de Deus, e experimentam a alegria da fraternidade, põem a mesa e estendem a toalha branca da paz (shalôm) e do bem (tôb), com que franciscanamente se saúdam!

 

Como é fácil, Senhor Jesus,

Daqui, de ao pé da tua Cruz,

Avistar a paisagem do Advento,

Compreender-lhe a mensagem,

Respirar-lhe o alento.

 

Daqui, de ao pé da tua Cruz de Luz,

Sem dúvida o lugar mais alto do mundo,

Mais alto e mais profundo,

Vê-se bem, com toda a claridade,

Que a lonjura do Advento não é horizontal.

Eleva-se em altura.

Como a tua túnica tecida de Alto-a-baixo,

Vertical,

E sem costura.

 

Tu vens do Alto, Senhor.

Tu vens de Deus.

Tu és Deus.

Tu és o Justo

Que chove das alturas

Sobre a nossa humanidade sedenta e às escuras.

 

Vem, Senhor Jesus,

Alumia e rega a nossa terra dura,

Acaricia o nosso humilde chão

E modela com as tuas mãos de amor

Em cada um de nós

Um novo coração

Capaz de ver.

Capaz de Te ver

Nascer

Em cada irmão.

 

António Couto


A VERDADEIRA SOBERANIA DO AMOR

Novembro 23, 2019

1. A «Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei» foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de ação, que já tinha fundado a Ação Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se de valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, com o título de «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo».

2. Antes de mais, o título de Rei, com que hoje celebramos o único Senhor da nossa vida. Pode parecer um título ultrapassado e com forte conotação ideológica, que poria Jesus ao nível dos senhores ricos e poderosos deste mundo. Para não resvalarmos para equívocos e terrenos movediços, convém anotar desde já a descrição que o próprio Jesus faz dos Reis: «Os Reis das nações, diz Jesus, dominam sobre elas» (Lucas 22,25). E a sua advertência: «Não seja assim entre vós» (Lucas 22,26). E, todavia, Jesus diz-se Rei, confirmando, neste domínio, as suspeitas de Pilatos (Marcos 15,2; João 18,37).

3. Para sabermos o que é que Jesus tem em vista quando se afirma como Rei, é preciso saber como é que a Escritura traça o perfil do Rei. É como quem pinta um quadro, ou melhor, dois: um díptico. No primeiro quadro, o Rei é alguém muito próximo de Deus, completamente nas mãos de Deus, sempre atento à sua Palavra, de modo que deve ter, para seu uso pessoal, uma cópia da Lei de Deus, feita pela sua própria mão, para não poder dizer que não entende a letra, e deve lê-la todos os dias, nada fazendo por sua conta, mas sempre e só de acordo com a Palavra de Deus (Deuteronómio 17,18-19). No segundo quadro, que completa o primeiro, formando um díptico, o Rei é alguém muito próximo do seu povo, sempre atento ao seu povo, em ordem a poder levar-lhe a prosperidade, o bem-estar, a saúde, a paz, a alegria, a felicidade, a salvação. Aí está, então, o retrato completo de Jesus Cristo como Rei: sempre pertinho de Deus, sempre pertinho de nós.

4. Tanta e quase indescritível riqueza a de um Deus, sentado no seu trono de Luz, mas que Vem, como um Filho do Homem, com o domínio novo, frágil e forte, do Amor: «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5). Da lição do Livro de Daniel 7,13-14 e respetivo contexto, vê-se bem que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra do Filho do Homem, que dissolve no Amor as nossas raivas e violências, manifestações das bestas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7), ele mesmo símbolo da confusão e do mal, que deixará naturalmente de existir (Apocalipse 21,1).

5. O domínio do Filho do Homem que nos ama, o domínio do Amor é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é de sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania e prepotência!

6. Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos, e apenas aumentaria a violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a, e, portanto, dissolvendo-a e absorvendo-a, e é só assim que a absolve. É assim que o Amor Reina, Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Chefes dos Judeus, os Soldados e Pilatos representam os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência e estupidez. O Reino do Filho do Homem não pode, na verdade, ser daqui (João 18,33-37). Se fosse daqui, apenas aumentaria a espiral da mentira e da violência. É de Amor novo e subversivo que se trata.

7. Aí está a página divina deste Último Domingo do Ano Litúrgico, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo: Lucas 23,35-43. Texto espantoso. É preciso vir um pouco atrás buscar o fio de sentido deste imenso texto. Diz, na verdade, Lucas 23,32 que «Eram conduzidos também com Ele outros dois malfeitores para serem executados». Sim, o texto diz, com espantosa precisão teológica, «outros dois malfeitores». Ao dizer «outros dois malfeitores», o texto está a dizer que Jesus, o Justo, é também um malfeitor! Aí está o Livro a abrir-se perante os nossos olhos atónitos! O quarto Canto do Servo do Senhor já dizia que o Servo Justo «Foi contado entre os malfeitores» (Isaías 53,12). Sim, Ele é um de nós! Não passa ao nosso lado ou por cima de nós, mas desce ao nosso chão, abraça-nos e absorve os nossos males.

8. Ouve-se depois um tema por três vezes repetido e martelado: «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,35.37.39), na boca dos chefes, dos soldados, de um dos malfeitores. Os chefes veem um falso deus, os soldados um falso rei, o malfeitor um falso messias. Tudo ídolos que vamos usando a nosso bel-prazer, sem sequer repararmos nisso. O outro malfeitor é o primeiro teólogo da Cruz. Não interroga aquela Cruz; deixa-se interrogar por ela. E avança um pedido imenso: «Jesus, lembra-te de mim quando vieres com o teu Reino!» (Lucas 23,42). De notar que estas palavras imensas, que devíamos repetir muitas vezes, são cantadas pelo povo no momento da Comunhão, no Rito grego. E Jesus responde, para imenso espanto nosso: «Hoje estarás comigo no paraíso» (Lucas 23,43). Aos sarcásticos interrogadores da Cruz, Jesus não deu qualquer resposta. Mas a este pedido, respondeu. Este Hoje entala-nos no tempo, sendo uma permanente provocação que nos faz o Evangelho de Lucas. Este é o oitavo Hoje que encontramos neste Evangelho. Eis a sequência: Lucas 2,11; 4,21; 5,26; 19,5; 19,9; 22,34; 22,61; 23,43.

9. Vale a pena, neste momento, dar a palavra a um dos grandes pregadores dos primeiros séculos cristãos, São João Crisóstomo (349-407). Disse ele: «Este ladrão roubou o paraíso. Ninguém antes dele ouviu uma promessa semelhante: nem Abraão nem Isaac nem Jacob nem Moisés nem os profetas nem os apóstolos. O ladrão entrou à frente deles todos. Mas também a sua fé ultrapassou a deles. Ele viu Jesus atormentado, e adorou-o como se estivesse na glória. Viu-o pregado a uma cruz, e suplicou-lhe como se o tivesse visto no trono. Viu-o condenado, e pediu-lhe uma graça como se faz a um rei. Ó admirável malfeitor! Viste um homem crucificado, e proclamaste-o Deus!».

10. Entenda-se ainda que este tempo escandaloso da Cruz é o tempo da Graça deixado em suspenso em Lucas 4,13b, no final do grande texto das tentações de Jesus na sua condição filial, batismal, em que o diabo, também por três vezes, ia dizendo: «Se és o Filho de Deus…». O narrador termina o episódio, dizendo que «o diabo se afastou dele até ao kairós, o tempo estabelecido» por Deus. Sem equívocos agora: o kairós de Deus, a torrente da Palavra de Deus que solicita a nossa resposta, e a torna imperiosa, sob pena de afogamento, é a Cruz!

11. Entenda-se melhor. Um «malfeitor» é alguém cuja profissão é, como o nome diz, «fazer o mal». Uma sociedade em que o usual é «fazer o mal» é uma sociedade violenta. E numa sociedade assente sobre a violência, a alternativa é: vencer ou ser vencido, matar ou ser morto. Neste tipo de sociedade, todos nós escolhemos preventivamente a primeira opção. Nem sequer será por mal, mas para nos salvarmos a nós mesmos, cada um de nós faz preventivamente o mal que pode: o ladrão e o banqueiro, o comerciante e o operário, o médico e o barbeiro, o patrão e o empregado, o padre e o assaltante, o benfeitor e o delinquente. Cada um, com os meios que tem, pensa e põe em primeiro lugar o seu caso particular. Mas vai saltando à vista que, se Jesus seguisse a nossa lógica de se salvar a si mesmo, não nos salvaria a nós, porque teria, não de assumir, abraçar, sorver e sofrer a nossa violência e o nosso pecado, mas de se ver livre de nós!

12. Vem, Senhor Jesus! Ilumina com a tua Luz nova as trevas, as pregas e as pedras da calçada do nosso coração empedernido. Reina sobre nós, Salva-nos, Justifica-nos, Perdoa-nos, Recria-nos. Faz-nos outra vez à tua Imagem. Dissolve a besta brava que há em nós e que, à imagem de Caim, não fala, mas trucida e come o outro (Génesis 4,8). Bem visto por Judas na sua pequena Carta, infelizmente pouco lida e meditada: «Aqueles que seguem o caminho de Caim são como animais sem palavra» (Judas 10-11).

13. «Jesus, lembra-te de mim quando vieres com o teu Reino».

14. Ilumina o Evangelho de hoje a página de 2 Samuel 5,1-3. Depois de ter sido ungido Rei no Hebron sobre Judá, pelos homens de Judá (2 Samuel 2,4), David é agora ungido Rei também sobre Israel, pelos anciãos de Israel que, para o efeito, se deslocam ao Hebron (2 Samuel 5,3). Não sem que antes o tenham reconhecido como membro da sua família: «Vê! Nós somos teus ossos e tua carne» (v. 1), e tenham lembrado que era desígnio de Deus que ele reinasse sobre Israel e sobre Judá (v. 2; cf. 2 Samuel 3,10). Tudo isto tem a ver com Cristo. Antes de mais, é o novo David, que reúne todo o povo e sobre ele Reina. Mas, para isso, fez-se também igual a nós, é membro da nossa família.

15. Temos Hoje também a graça de poder escutar um antigo hino sobre o primado de Jesus, provavelmente de língua aramaica, que Paulo incrustou na sua Carta aos Colossenses (1,15-20), mas que tem como prólogo os vv. 12-14, a inteireza da lição de Hoje. O hino é belo, teológico, denso, produzido com rima e metro, como é normal nos hinos antigos. Tudo começa com o convite à ação de graças, isto é, a fazer eucaristia ao Pai por nos ter dado a herança dos santos na luz (v. 12), arrancando-nos do poder das trevas, e transportando-nos para o Reino do «Filho do seu amor» (hyiós tês agápês autoû) (v. 13), em quem temos a redenção, a remissão dos pecados (v. 14). Este Filho do seu amor é Jesus Cristo, «Imagem (eikôn) do Deus invisível», «Primogénito (prôtótokos) de toda a criatura» (v. 15) e também «Primogénito dos mortos» e «Cabeça do corpo que é a Igreja» (v. 18). E é «n’Ele» (en autô), «através d’Ele» (di’ autoû) e «para Ele» (eis autón) que tudo foi criado (v. 16). Ele, o Senhor Jesus, é absolutamente o centro de tudo e o primeiro em tudo, desde a criação, à propiciação pelo sangue da sua Cruz (v. 20), à vida da Igreja, à Ressurreição. É sempre n’Ele e através d’Ele e para Ele, que tudo quanto existe encontra o seu caminho, sentido, enlevo (eudokía) e plenitude (plêrôma).

16. Enfim, ressoa Hoje a voz do Salmo 122, um belíssimo Cântico de Sião, sobrecarregado de uma alegria elementar e de uma emoção visceral e instintiva. Desdobra-se em três vagas: a primeira, vv. 1-2), reúne a alegria incontida da partida e a emoção intensa da chegada; a segunda, vv. 3-5, entoa o louvor de Sião, passeia os olhos pela bela arquitetura dos seus edifícios, mas sobretudo vê Jerusalém como polo de atração e de união das tribos para louvar a pessoa (o Nome) de Deus no seu Templo; a terceira, vv. 6-9, estende uma toalha branca de paz (shalôm), três vezes dita, como vê os seus quatro ângulos, sobre a mais bela cidade, Jerusalém, yerûshalaim, popularmente interpretada como «cidade da paz (shalôm)», ainda que o seu nome signifique «Shalem a edificou», com referência a um deus dos antigos habitantes cananeus. Pouco importa. Ela é a Casa em que entram, felizes e emocionados os filhos de Deus, e experimentam a alegria da fraternidade, põem a mesa e estendem a toalha branca da paz (shalôm) e do bem (tôb), com que franciscanamente se saúdam!

António Couto


É O AMOR O QUE FICA DO QUE PASSA

Novembro 16, 2019

1. Eis-nos aqui, neste caminho e neste hoje. Passamos, vemos e somos vistos. Entramos no Templo ou na Igreja da nossa terra, cheia de belas pedras, painéis, lustres, imagens, talhas douradas, toalhas de linho, música e flores. Também de gente bem vestida e perfumada.

2. Cá fora, lá fora, as guerras continuam, como continuam as catástrofes, as crises, as riquezas, as pobrezas, os impérios, os imperadores e as tiranias, os turistas que tiram fotografias, filmam pedras que julgam interessantes, a canalha, os pardais, os pares de namorados, os velhinhos sentados na soleira da sua porta, os vendedores fanáticos de qualquer seita, que tão depressa vaticinam desastres, como fabricam e vendem mezinhas e remédios, sonhos e futuros fáceis, enlatados, prefabricados, à medida, prontos a vestir ou a viver, mas também continuam as falências, as insolvências, as dores, as doenças, as desavenças, os desentendimentos familiares.

3. Dentro do Templo, e não fora dele, à saída, como narram os Evangelhos de Mateus e Marcos, o Jesus de Lucas 21,5-19, que temos a graça de ouvir neste Domingo XXXIII do Tempo Comum, faz ver e compreender aos seus discípulos de ontem e de hoje como tudo é passageiro e efémero, «tão cedo passa tudo quanto passa»! Passam as belas pedras e as flores, os perfumes, os impérios, as palavras, as guerras, as tragédias!

4. Nós fazemos quase sempre perguntas superficiais e epidérmicas, sem sentido: «Quando, e como se poderá saber quando será o fim destas coisas, deste mundo, deste tempo?!». É evidente que Jesus não nos responde diretamente, mas adverte-nos: «Não vos deixeis enganar, nem perturbar!». E aproveita a embalagem para orientar o nosso olhar e o nosso coração para o essencial: o fim não deve desviar-nos e distrair-nos do Presente, da Presença, d’Aquele que não passa, e em Quem devemos sempre saber pôr o coração, biblicamente falando, pôr a nossa atenção.

5. É esta Presença, esta Voz, que Hoje nos chama e diz que nos ama, que deve reclamar toda a nossa atenção, o nosso inteiro coração. Portanto, silêncio em nós. Pausa e bemol. Tempo novo de deixar falar o Espírito (Lucas 12,12) e Jesus (Lucas 21,15). Não há lugar para atitudes de autodefesa («não prepareis a vossa defesa»), mas para «o testemunho».

6. No Templo ardia o fogo perpétuo no altar do incenso, cuidado e renovado duas vezes ao dia, nove da manhã e três da tarde, pelo sacerdote de turno. Esse fogo era o sinal desta Presença amante e interpelante. Nas nossas Igrejas arde permanentemente aquela frágil lamparina, luzinha acesa junto do Sacrário, que assinala esta Presença, este Presente. Não nos deixemos distrair ou perturbar com o acidental. Velemos por esta Presença essencial, que vela por nós sempre. Afinal, é «Na tua Luz que veremos a Luz» (Salmo 36,10).

7. Esta Luz pequenina, vou deixá-la brilhar! Está acesa no mundo para alumiar e aquecer a nossa vida, purificar o nosso coração esclerosado, empedernido, atulhado de impurezas e asperezas, e sinalizar rumos novos, tenros, ternos, verdadeiros. Cuidado convosco! Não suceda que essa luzinha, essa chamazinha que arde mansamente, se transforme num fogo ardente, incontrolável, que queima a vossa palha (Malaquias 3,19). Diz-nos Malaquias, na lição de hoje (3,19-20), que o fogo tanto pode queimar como alumiar. O problema não está no fogo. Está na palha. Deixai-vos então alumiar, e limpai já o vosso coração de toda a tralha que possa fazer com que aquela luzinha, aquela chamazinha, em vez de alumiar, se venha a transformar num fogo inextinguível. Bem nos exorta São Paulo: «Veja cada um como constrói: com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha. A obra de cada um será posta em evidência. O Dia que há de vir torná-la-á conhecida, pois ele manifestar-se-á pelo fogo, e o fogo provará o que vale a obra de cada um» (cf. 1 Coríntios 3,10-13).

8. Trabalhai com diligência e amor. Semeai o vosso trigo, tratai-o com carinho, limpai-o da palha que o possa afogar, regai-o, colhei-o com alegria, moei-o, amassai a farinha com as vossas mãos limpas e carinhosas, acendei o forno com cuidado, cozei o vosso pão, parti-o e comei-o à vossa mesa, com uma vela acesa! Chamai o pobre, fazei-o entrar e sentar, alumiai-o e alimentai-o. Agasalhai-o. É a lição de São Paulo na Segunda Carta aos Tessalonicenses 3,7-12. Mesmo a propósito: passa hoje o Dia Mundial dos Pobres.

9. Sim, meus irmãos, o fio de ouro, a filigrana, que atravessa a história, é o amor. É o que fica do que passa. É, portanto, o amor que julga, isto é, que põe em crise, a nossa história e a nossa vida vã e banal. O fim do mundo é o amor que ama. O fim de um mundo. O fim do meu mundo egoísta, egocêntrico e egolátrico, assente apenas nos meus instintos e interesses. Quero dizer: aquilo que põe fim a este meu mundo vão e banal é o amor que ama, e, porque ama, é pessoal, é uma pessoa, é Deus que vem, amando, e me faz ver, amando-me, como eu tenho andado distraído e enganado, que nem tenho reparado no seu amor!

10. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra do nosso coração. E levantar-se-á então, desde o santuário do nosso emocionado coração, o hino coral e universal, que é o belo Salmo 98. Tudo e todos são chamados a formar uma bela orquestra, que nunca deixe de cantar os louvores de Deus. Desde o Templo (harpa, cítara, shôphar) até à inteira criação: mar e terra, rios (que são os braços e as mãos do mar, e, por isso, batem palmas), montes e colinas. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar, amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra, às vezes dura, do nosso coração.

 

No meio da bruma e da esperança

Que envolve os passos de tanta gente

Nestes dias toldados de novembro,

Há sempre uma mãozinha que se sente,

Uma luzinha que se acende,

Nos alumia, nos acolhe e nos atende.

 

Guia-me sempre, Luz amável,

No meio do nevoeiro que me envolve:

Sê Tu a guiar-me no caminho!

 

A noite é escura,

A casa é distante:

Sê Tu a guiar-me no caminho!

 

Guarda Tu os meus passos!

Eu não peço para ver o horizonte distante:

Um passo de cada vez

É para mim o bastante!

 

Obrigado, Senhor Jesus!

Tu és a Luz que me alumia

A cada instante!

 

Alumia também

Cada viandante,

Que na penumbra dos dias,

Tenha perdido a fé ou o volante.

 

António Couto


VAI COM DEUS

Novembro 9, 2019

1. Tendo atravessado Jericó e também o coração de Zaqueu, como vimos no Domingo passado (Lucas 19,1-10), Jesus sobe para Jerusalém, «chora sobre ela» (Lucas 19,41), entra no Templo (Lucas 19,45), e nele começa a ensinar o povo demoradamente (Lucas 20,1), última etapa do seu ministério público. É a ensinar no Templo que os saduceus o encontram e pretendem «tramá-lo» avançando com a estranhíssima história da mulher casada sucessivamente com sete irmãos, porque um a um iam morrendo sem deixar descendência, quadro evangélico posto diante dos nossos olhos neste Domingo XXXII do Tempo Comum (Lucas 20,27-38). Esta estranha história assenta na chamada «Lei do levirato» [do latim levir = cunhado], que manda que, se a uma mulher casada morrer o marido sem deixar descendência, o irmão do marido deve desposar a mulher para dar uma descendência ao seu irmão (ver Deuteronómio 25,5-10). O tema da mulher que, por este processo, desposa sete maridos era também um lugar comum no folclore judaico, como se pode ver em Tobias 6,14.

2. Os saduceus, descendentes do sumo-sacerdote Sadoq, constituíam a alta burguesia sacerdotal e liberal de Jerusalém. A religiosidade conservadora que defendiam assentava apenas na Tôrah de Moisés escrita, constituída pelos Livros do Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. Não reconheciam autoridade a nenhuma tradição oral, ao contrário dos fariseus. Também ao contrário dos fariseus, os saduceus não acreditavam na ressurreição. E é este ponto preciso que pretendem atacar e pôr a ridículo, quando contam a Jesus a história da mulher e dos seus sete maridos, para no final lhe deixarem a pergunta sarcástica: «Na ressurreição, de qual dos sete será esposa, uma vez que, nesta vida, os sete a tiveram por mulher?» (Lucas 20,33). Claro que a pergunta visa desacreditar e pôr a ridículo a mentalidade popular, cultivada por algumas correntes farisaicas, que passava da ressurreição uma imagem demasiado materialista, segundo a qual os defuntos ressuscitariam tal como foram sepultados, com o mesmo aspeto, com as mesmas roupas e com as mesmas enfermidades. Assim, cegos, surdos, mudos, coxos ressuscitariam igualmente cegos, surdos, mudos, coxos, para que pudessem ser reconhecidos, e apenas mais tarde seriam curados.

3. A resposta de Jesus é original no método e nos conteúdos. Claro que afirma a ressurreição. Opera, porém, uma clara distinção entre «este mundo» e o «mundo que há de vir», mostrando que este não é um decalque do primeiro, e mostrando também a nossa inaptidão e inabilidade para passar de um mundo para o outro. Este «outro» não é, na verdade, regido por nós, seja qual for a nossa maneira de pensar. É regido por Deus, de quem somos «filhos» (Lucas 20,36), isto é, recebedores de vida. Belíssima janela aberta para a grande teologia da divinização por graça. Na sua resposta, Jesus não cita nenhum texto bíblico que fale explicitamente de ressurreição, evitando assim as infindáveis discussões académicas. De forma surpreendente e inesperada, cita Êxodo 3,6, em que Deus se revela a Moisés como «Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob» (Lucas 20,37).

4. Com este procedimento, Jesus vai diretamente ao coração das Escrituras, à Revelação do Deus vivo. A história contada pelos saduceus era a história de uma paternidade sete vezes falhada, de vida não transmitida que, por oito vezes, desemboca na morte. A história que Jesus conta é a história da vida verdadeira de Deus, vida transmitida, dada pelo Deus vivo, e Deus dos vivos, Paternidade não falhada, mas realizada. A ressurreição, como a mostra Jesus, não é a reanimação de um cadáver ou um simples prolongamento desta vida. Os «filhos da ressurreição» e «filhos de Deus» são aqueles que põem toda a sua esperança em Deus, o único verdadeiro vivente. Os que vivem como «filhos do Deus vivente» recebem de Deus a vida que não morre. A não ser assim, terá que se dizer que Deus não é o Deus da vida, o que até para os saduceus seria um absurdo.

5. Portanto, negar a ressurreição é negar a vida, e equivale a negar a própria existência de Deus. Se Abraão, Isaac e Jacob estão vivos, não é pelo facto de terem desposado mulheres e gerado filhos, mas pelo facto de serem eles mesmos «filhos» de Deus, para sempre recebedores da vida de Deus. Na ressurreição, isto é, na ordem nova da vida de Deus, o marido, a mulher e os filhos gerados não são identificados pela sua relação esponsal, paternal, maternal ou filial, mas apenas pela sua relação de filiação divina (hyiothesía) (cf. Romanos 8,15-16; Gálatas 4,5), a única verdadeira relação originária e que não pode ser abolida, a mesma que define e identifica os anjos.

6. Vida em plenitude, apenas dada e recebida da única fonte da vida, nunca falhada, nunca terminada, vida sem ocaso. Vida grande e bela, musical, angélica música da água a jorrar da fonte divina inesgotável. «Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, não de mortos, mas de vivos». Com o estupendo testemunho do filósofo francês Blaise Pascal que, desde 1654 até à sua morte, ocorrida em 1662, trazia, cosido no forro do seu manto (na verdade, cosia e descosia, consoante mudava de roupa), um pergaminho escrito, que começava com a parte final do Evangelho de hoje: «Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob./ Não dos filósofos e sábios./ Certeza, Certeza. Sentimento, Alegria, Paz./ Deus de Jesus Cristo./ Deum meum et Deum vestrum (João 20,17)./ O teu Deus será o meu Deus./ Esquecimento do mundo e de tudo, exceto Deus./ Ele não se encontra senão pelos caminhos ensinados no Evangelho…». Este pessoalíssimo testemunho constitui o chamado Mémoriale de Pascal, escrito em 1654, segunda-feira, 23 de Novembro, entre as dez e meia da noite e a meia noite e meia. Após a sua morte, um criado encontrou o pergaminho com os dizeres mencionados cosido no forro do seu manto.

7 No ano 167 a.C., o selêucida Antíoco IV Epifânio desencadeou uma violenta perseguição antijudaica, cujos ecos se podem ver, por exemplo, no Segundo Livro dos Macabeus, Capítulos 6 e 7, um extraordinário díptico que mostra no Capítulo 6 a fidelidade heroica do velho Eleazar, e no Capítulo 7 a mesma atitude por parte dos sete jovens irmãos Macabeus. É este segundo episódio (2 Macabeus 7,1-2.9-14) que hoje escutamos e que faz eco ao Evangelho. A narrativa está cheia de heroicidade e de fé no Deus vivo. Estes sete jovens e a sua mãe afirmam aqui, de forma clara, a Ressurreição, aludida em muitas outras passagens do Antigo Testamento. Mas vale sempre a pena recuperar o quadro de Eleazar, um ancião de 90 anos, que também afirma e defende corajosamente a sua fé perante os perseguidores pagãos. Os dois quadros, do velho ancião e dos sete jovens e sua mãe, formam um belíssimo díptico que devemos colocar em lugar bem visível para os olhos do nosso coração, como se fosse, e é, um quadro de família. A tinta dos quadros ou das narrativas do Livro dos Macabeus, citando nomes e acontecimentos verdadeiros, é também de teor edificante. O Livro de Daniel, escrito provavelmente no Outono do ano 164 a.C., lê os mesmos acontecimentos também com o objetivo de encorajar os judeus piedosos a permanecerem firmes na sua fé durante a perseguição do tirano Antíoco IV Epifânio. No dizer deste Livro (12,1-3), pessoas como Eleazar ou os sete jovens irmãos Macabeus e sua mãe são os mestres sábios (maskkilîm) e justificadores (matsddîqîm), isto é, dadores de vida: ensinam, não teorias, mas a vida verdadeira, dando a sua vida por amor: é assim que vencem os violentos, não opondo-se a eles, mas amando, isto é, dando a vida e dando vida, ensinando a viver. Estes novos sábios e justificadores são, diz o Livro de Daniel, as novas estrelas que brilham para sempre! Todas as outras (do cinema, da canção, do futebol) são cadentes e decadentes.

8. Belo podermos ver hoje Paulo a rezar (2 Tessalonicenses 2,16-3,5), juntando, com um verbo no singular, «Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu consolação eterna e esperança boa na graça, console os vossos corações» (vv. 16-17). A oração de Paulo é de intercessão a favor dos Tessalonicenses. Depois pede aos Tessalonicenses que rezem por ele, para que a palavra do Senhor corra pelo mundo inteiro e seja por todos acolhida e suavize todos os corações.

9. O Salmo 17 está em perfeita harmonia com a liturgia que hoje celebramos. Levanta-se um justo perseguido e apresenta a Deus o seu atestado de inocência (vv. 1-5). Desde o coração (pensamento), passando pela boca (palavra), continuando pelos pés (caminhos, passos), o orante expõe-se todo diante de Deus, para que Ele possa verificar a retidão da sua vida. A um cristão que reza atentamente o Salmo, pode esta confissão parecer um pouco farisaica, mas pretende tão só afirmar a adesão a Deus e ao bem por parte do orante. A segunda parte (vv. 6-15) é uma súplica vigorosa e apaixonada em que o orante perseguido pede a Deus que, do armazém da sua ira, tire a espada da vingança e abata os seus inimigos, cujo coração, boca e olhos estão cheios de maldade e violência. Mas vai mais longe o orante na sua súplica intensa, e pede que Deus espalhe o terror e faça beber a taça da sua ira também aos filhos dos seus adversários e aos filhos dos seus filhos. E, assim como pede que sejam saciados de fel os seus inimigos, pede também que ele próprio seja saciado de doçura (v. 15). Também este intenso e alargado pedido de vingança pode soar mal a ouvidos cristãos. Trata-se, porém, do realismo bíblico da oração. O orante sente o que sente, e diz a sua amargura a Deus, rezando. Rezando, desinstala da sua alma aqueles sentimentos, e entrega-os a Deus. E é óbvio que Deus não pensa, diz e age como nós: «Na verdade, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos» (Isaías 55,9).

António Couto


HOJE NA TUA CASA É PRECISO QUE EU FIQUE

Novembro 2, 2019

1. É preciso vir atrás, ao Domingo XIII do Tempo Comum, que celebrámos no dia 30 de Junho, para assistirmos ao início do caminho de Jesus da Galileia para Jerusalém. Foi nesse Domingo proclamado o Evangelho de Lucas 9,51-62. Aí começava também o caminho longo e intenso da formação de Jesus aos seus discípulos de todos os tempos.

2. Estamos agora, quatro meses depois, no Domingo XXXI do Tempo Comum, dia 3 de novembro, e Jesus atravessa a cidade de Jericó, antes de entrar na última etapa do seu percurso, 27 km de uma longa subida que o levará a Jerusalém. Jericó é um belo e aprazível oásis que se estende por cinco quilómetros, situado a cerca de 300 metros abaixo do nível do mar. Jerusalém situa-se a cerca de 800 metros acima do nível do mar. O caminho de Jesus, e dos seus discípulos com Ele, torna-se agora, portanto, uma intensa subida física e espiritual.

3. A assinalar esta passagem de Jesus por Jericó, aí está mais um encontro decisivo, instrutivo e salvador de Jesus (Lucas 19,1-10), «que veio PROCURAR e SALVAR o que estava perdido», como Jesus diz de si mesmo no final da narrativa (Lucas 19,10). No início da narrativa é-nos apresentado um homem, de nome Zaqueu, que era rico e chefe de publicanos, e que PROCURAVA VER (ezêtei ideîn) QUEM É (tís estin) Jesus (Lucas 19,2-3a).

4. Cruzam-se o início e o final da narrativa, cruzando estas duas PROCURAS: Jesus PROCURA salvar o que está perdido; Zaqueu PROCURA ver quem é Jesus. Note-se bem que a narrativa não diz que Zaqueu PROCURAVA ver Jesus, o que equivaleria a ver o seu rosto, o seu aspeto, a roupa que vestia… Diz, antes, que Zaqueu PROCURAVA ver quem era Jesus. Entenda-se, portanto, que o que Zaqueu PROCURAVA ver não era o rosto, o aspeto, o exterior de Jesus, mas a sua identidade, a sua intimidade, o seu modo de ser e de viver.

5. Diz ainda o nosso belo texto que Zaqueu não conseguia ver quem era Jesus por causa da multidão, por ser de pequena estatura (Lucas 19,3b). Numa primeira vaga de leitura, fica-se com a impressão de que Zaqueu era um homem baixo e que, por esse motivo, atolado no meio da multidão, não conseguia realizar o seu objetivo de ver quem era Jesus. Numa segunda vaga de leitura, percebemos melhor por que razão Zaqueu não podia ver quem era Jesus por causa da multidão. É que, sendo ele chefe de publicanos, então era um traidor à sua pátria judaica, colaboracionista com os ocupantes romanos, cobrando impostos aos seus irmãos de raça e levando-os aos romanos. Traidor, colaboracionista, explorador e ladrão, Zaqueu era o odiado Zaqueu. Salta à vista que não podia estar no meio da multidão, que, se o descobrisse, o cobriria de insultos, cuspidelas, pontapés…

6. É esta a verdadeira razão que o faz correr adiante (onde não estava a multidão), e subir a um sicómoro (Lucas 19,4), para, daí, escondido na densa copa do sicómoro, poder ver e não ser visto, ficando, portanto, a coberto da multidão.

7. Mas também fica claro que, de dentro da copa do sicómoro, Zaqueu conseguiria certamente ver Jesus, mas não quem era Jesus. Para ver quem é Jesus, a sua identidade e intimidade, a sua maneira de ser e de viver, é preciso um encontro com Jesus. É aqui que entra o outro PROCURADOR, que é Jesus. Levanta os olhos, vê Zaqueu escondido na copa do sicómoro, e diz-lhe de imediato: «Zaqueu, desce depressa: HOJE na tua casa é preciso que eu fique!» (Lucas 19,5).

8. Zaqueu desceu depressa e recebeu Jesus com ALEGRIA (Lucas 19,6). Zaqueu começa aqui a ver quem é Jesus: não o insulta, não o exclui, não o empurra. Chama-o, acolhe-o, inclui-o! Em contraponto, a multidão viu e reprovou, dizendo: «Foi hospedar-se em casa de um pecador» (Lucas 19,7). Mas em casa, tu a tu, Zaqueu pode continuar a ver quem é Jesus, e vai virar do avesso a sua vida toda, DANDO, DANDO, DANDO. Aos pobres e àqueles (muitos) a quem roubou. E Jesus pode dizer com verdade: «HOJE veio a salvação a esta casa!» (Lucas 19,9). É o HOJE, que se ouve por oito vezes no Evangelho de Lucas (2,11; 4,21; 5,26; 19,5; 19,9; 22,34; 22,61; 23,43), que é o Evangelho aberto ao meio, rasgando também o tempo ao meio, deixando-nos sempre num HOJE que nos compromete.

9. Conclusão sempre nova para Zaqueu e para nós: Zaqueu não dá aos pobres para ser salvo, mas porque foi salvo!

10. A lição do Livro da Sabedoria 11,22-12,2 constitui um belíssimo contraponto musical e poético com o Evangelho de hoje. Deus e o mundo. Diante de Deus, e está sempre diante de Deus, o mundo é como uma gota de orvalho que cai de manhã sobre a terra e se evapora (v. 22). E o homem é como a flor da erva, bela mas frágil, e, por isso, seca. Mas já o teu Espírito trabalha o nosso barro (12,1). Tu és o Senhor do Sim, amas e sustentas tudo o que criaste (v. 24), corriges com lentidão, tens a paixão da educação pelo perdão (12,2). A todos fazes graça e repartes misericórdia, esqueces os pecados, em ordem à conversão (v. 23). Tu és primeiro, a tua Palavra é primeira, o teu amor é primeiro, o teu perdão é primeiro, o teu chamamento é primeiro. Nossa é a resposta, a conversão e a gratidão.

11. No pequeno extrato da sua 2 Carta aos Tessalonicenses 1,11-2,2, hoje também lida, Paulo afirma a sua oração sem cessar para que os cristãos de Tessalónica permaneçam firmes na sua vocação para que seja glorificado neles o Nome do Senhor Jesus, e n’Ele sejam eles também glorificados pela sua graça. Paulo adverte de seguida que ninguém se impaciente nem perturbe no que diz respeito à Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não está iminente, mas requer uma espera, não preguiçosa, mas operosa, como advertirá adiante (3,6-15).

12. Para saborearmos melhor todos os sabores da liturgia deste Domingo, fica bem cantar com alegria renovada o grande hino alfabético que é o Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração. Orígenes classificava este Salmo como «o supremo cântico de ação de graças», e Agostinho viu-o como «a oração perfeita de Cristo, uma oração para todas as circunstâncias e acontecimentos da vida». E enquanto saboreamos as imensas riquezas que nos vêm de Deus: a sua graça, misericórdia, amor e bondade (Salmo 145,8-9), usando, para o efeito, toda a gama de sabores e todas as letras do alfabeto, continuemos a cantar: «Quero louvar para sempre o vosso Nome» (Salmo 145,1).

António Couto


A FORÇA DA SUA RESSURREIÇÃO

Novembro 1, 2019

1. Seja qual for o texto de Paulo hoje lido e escutado, é sempre de uma enxurrada de vida nova que se trata, mas que, a fazer fé no que se sente, ouve e vê, já não nos diz nada, não fala para nós, nenhuma fome nos mata, nenhuma sede nos apaga, não responde a nenhuma inquietação nossa. E, todavia, os textos de Paulo que hoje lemos, quer provenham das Cartas aos Coríntios ou aos Tessalonicenses, eram ansiosa e atentamente recebidos e respondiam às questões que se punham os cristãos das comunidades dos anos 50: o que acontece com a nossa morte? O que vai acontecer quando Cristo Ressuscitado vier ao nosso encontro? E como pode a humanidade das gerações que viveram e morreram antes de Jesus ter aparecido a calcorrear os caminhos da Palestina beneficiar da salvação por Ele trazida e oferecida?

2. Em boa verdade, não parece credível que as questões acima formuladas façam parte das preocupações das pessoas que hoje frequentam as igrejas ou visitam os cemitérios das nossas comunidades paroquiais. Tanto quanto nos podemos aperceber, as questões que as gentes de hoje transportam têm mais a ver com a situação daqueles que a morte separou de nós: o que permanece da relação que tínhamos com eles? O que permanece sobretudo da amizade, do amor, do carinho que se partilhava quando eles ainda estavam connosco? Haverá alguma maneira, alguma possibilidade de lhes permanecermos fiéis? Poderemos, porventura, fazer algo mais do que colocar estas flores sobre a sua campa?

3. Podemos, com certeza, pôr tranquilamente de parte a imagem do toque da trombeta e dos restos mortais a saírem dos túmulos. Mas também podemos abandonar sem medo o medo quotidiano da morte que uma certa pregação medieval e moderna incutia nas pessoas. É sabido, de resto, que esta comemoração de todos os fiéis defuntos é de origem medieval e monástica, e acusa, por vezes, traços de piedade duvidosa e supersticiosa, acentuados ainda por outras estranhas ideologias que, de forma difusa, dissimulada e até violenta, invadem hoje o nosso quotidiano.

4. Estranha Boa Nova que amedrontava para levar à conversão. Conversão a que deus?, temos de nos perguntar. Porque não era seguramente àquele Deus a quem Jesus tratava e nos ensinou a tratar por Pai. E a força explosiva dos textos de Paulo hoje lidos não está nos acessórios, mas reside toda no nosso conhecimento pessoal, experimental (ginôskô / yadaʽ), de Jesus Cristo e da força (dýnamis) da sua Ressurreição (Filipenses 3,8 e 10). «Em verdade, em verdade, vos digo: “Quem escuta a minha palavra e acredita naquele que me enviou, tem a vida eterna, e passou da morte para a vida”» (João 5,24).

5. Sim, esta Palavra nova que Jesus faz irromper na nossa vida faz-nos saber que o peso e o medo da morte já passou, afinal, para trás de nós, de tal modo que já não pode ameaçar apagar, mais dia, menos dia, como uma esponja, a vida que vamos construindo com o amor novo que nos vem do Ressuscitado, pois é este amor que nos faz passar da morte para a vida (1 João 3,14). E mesmo quando o sofrimento cai sobre nós como uma avalanche, transformando a nossa vida num insuportável pesadelo, como sucede com Job, seremos ainda levados a descobrir que não é Deus que nos persegue e fustiga, pois Ele permanece ao nosso lado, dado que é Ele o nosso «familiar mais próximo», que é o nosso «redentor» (goʼel) (Job 19,25), aquele a quem cabe o dever, a obrigação, de velar sempre por nós em todas as situações difíceis da nossa vida. Os pretensos e falsos amigos de Job tudo fazem para o fazer calar. Vão de argumento em argumento. Só Deus se vem verdadeiramente sentar ao nosso lado, põe a sua mão de Pai sobre o nosso ombro (Job 9,33), carrega sobre si as nossas dores e a nossa morte (Isaías 53,4; Mateus 8,17; Hebreus 2,14-15), limpa os nossos olhos e o terreno todo à nossa frente, dá-nos a mão para a liberdade, libertando-nos também do temor da morte (Hebreus 2,15).

6. Estranha aberração que a Igreja tenha durante tanto tempo pregado a resignação, a aceitação do sofrimento, mas também da injustiça e da desigualdade. Sim, mas a fé na ressurreição é esta força (dýnamis), esta alavanca, que mantém Job de pé, e o leva a recusar até ao fim a resignação, a demissão, a ideia de um Deus que ficaria satisfeito com a injustiça.

7. Faz-nos bem sentar hoje com tempo na página do Evangelho (Mateus 11,25-30). As poucas linhas que a atravessam guardam o segredo mais inteiro de Jesus. Há quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente à popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (Marcos 4,38). Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos, os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!».

8. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (népioi)» (Mateus 11,25). Sim, aos pequeninos, grego népioi, que em sonoridade portuguesa daria «népias», nada, nenhuma ciência, nenhum poder, nenhum valor autónomo. Ó abismo da sabedoria dos pequeninos, daqueles que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem podem confiar (2 Timóteo 2,12). É sobre os pequeninos que recai toda a atenção de Jesus, que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45). E, no ritual do Batismo, são estes os dizeres que acompanham a entrega da vela acesa aos pais e padrinhos das crianças batizadas: «a vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que estes pequeninos, iluminados por Cristo…».

9. Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897) exalta na sua História de uma alma, que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que é o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança desmamada (gamul). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

10. Os pequeninos, os népioi, népias, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de alguém que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira página, temos então de perguntar: o que é que são então cristãos adultos, maduros na sua fé? Serão aqueles que sabem tudo, que estão seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que têm tudo na mão, que já não são dependentes porque já não precisam de ninguém que cuide deles? Seguramente não. Cristãos adultos na sua fé são aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, e que sabem debruçar-se sobre os pequeninos com amor. Cristãos adultos na fé não somos nós que pensamos que temos as chaves de tudo e de todos, mas somos nós como filhos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI (ʼAbbaʼ), em quem depositamos toda a nossa confiança, somos nós como filhos e irmãos, carinhosamente atentos uns aos outros, até ao ponto sem retorno de já não sabermos viver senão repartindo o pão e o coração.

11. «Eu Te bendigo, ó PAI, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da oração de Jesus [além desta vez, só no Getsémani: «PAI, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mateus 27,46); «PAI, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «PAI, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)]. Note-se que a belíssima oração do «PAI Nosso» (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) é-nos ensinada por Jesus, mas não o ouvimos a rezá-la. Um cristão adulto na sua fé, isto é, na sua confiança, tem de se pôr, como Jesus, totalmente nas mãos seguras e carinhosas do PAI, única direção da sua e da nossa vida.

12. É assim que o Evangelho deste Dia entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi. Nenhum arrogante raciocínio, nenhum orgulho, nenhuma escada por nós construída, conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Ensina-se a si mesmo, dando-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (Mateus 10,8-9). Nenhum acessório nos faz falta. Nenhuma estratégia dá certo. Basta-nos Cristo no coração, e a vida, sim, a nossa vida, para dar.

13. O Salmo 27 pode deixar-nos nos braços de Deus, cantando e decantando a luz e a confiança que de Deus recebemos. Mas também a suavidade, a bondade e a beleza nos encantam. Corolário normal, ainda que sempre de excecional elevação, para este dia e para esta liturgia, que nos deixa sempre tranquilos a brincar à porta da Casa de Deus.

 

Senhor,

Tu firmaste a terra há muito tempo,

O céu é obra das tuas mãos.

Eles perecem, mas Tu permaneces.

Eles ficam gastos como a roupa.

 

Sim,

Tu os mudarás como um vestido,

E eles ficarão mudados.

Mas tu permaneces sempre o mesmo,

E os teus anos jamais findarão.

 

O homem é como a erva,

E toda a sua glória como a flor do campo.

Seca a erva e murcha a flor,

Mas a tua Palavra, Senhor, permanece para sempre.

 

Neste mês em que a paisagem muda,

As folhas caem,

As árvores choram,

E nós verificamos que a nossa vida é breve e frágil,

Como a lançadeira no tear,

Assiste-nos, Senhor, mais de perto, com a tua bondade,

Sustém os nossos passos vacilantes,

Alumia os olhos do nosso coração titubeante,

Faz-nos sentir a alegria da tua presença carinhosa,

Senta-nos à mesa da certeza da tua salvação.

 

António Couto