DAR A VIDA TODA TODA A VIDA

Novembro 7, 2009

 

1. Um braçado de gravetos, um copo de água, um punhado de farinha, umElias%20poco%20ol%20az%20226 tudo nada de azeite. Juntando as pontas destes fios, a viúva de Sarepta prepara-se para fazer uma última refeição de despedida da vida juntamente com o seu filho único. É nesta terra quase a terminar, onde já mal se tem pé, nesta vida quase a expirar, que surge Elias, o homem de Deus, conduzido por Deus, que atira à pobre mulher mais um fio de voz e de esperança: Deus. Não é a quantidade que importa; o que importa é a totalidade. Pelo fio de voz e de esperança de Elias, Deus não reclama alguma coisa; reclama tudo: o coração todo, a alma toda, a confiança toda, as forças todas! E nem a farinha se esgota na amassadeira, nem o fio de azeite deixa de cair da almotolia! Extraordinária lição para a pobre viúva de Sarepta (Primeiro Livro dos Reis 17,10-16) e para nós, que atravessamos a secura da paisagem desta terra de Novembro.

2. O coração todo, a alma toda, a confiança toda, as forças todas: assim se ouve ou se lê no famoso «Escuta, Israel» de Deuteronómio 6,4-5. E nesse lugar se diz também a Israel que deve formar com essas palavras um fio de luz e de sentido que deve atar ao coração, às mãos, aos pés, aos filhos (Deuteronómio 6,6-9). Este fio é fundamental para segurar as pontas dos podres, pobres fios da nossa vida.

3. Bem, neste contexto, o fio ou a linha poética e melódica do Salmo 146(145), que põe Deus tão perto de nós, a fazer justiça aos oprimidos, a dar pão aos que têm fome, a tomar a seu cuidado o órfão e a viúva, e a atirar-me todo para Deus, com aquele grito repetido: «Ó minha alma, louva o Senhor!»

4. Na verdade, «Deus habita nos louvores de Israel» (Salmo 22(21),4). Habita nos nossos louvores, na nossa dedicação e devotação total a Ele, na nossa vida posta em melodia, fio ou linha melódica que ata o nosso coração ao coração de Deus, a nossa mão à mão de Deus. Foi assim, sacerdotalmente, que Jesus Cristo se ofereceu totalmente ao Pai e a nós e por nós, deixando-nos à espera e a viver dessa espera na esperança da sua Vinda. Um fio tenso de luz e de sentido, a que se chama esperança, nos ata para sempre a esse Senhor-que-Vem. Fio ou linha musical, vital, de cada Domingo, em que cantamos: «Senhor, vem!» (marana tha’), porque sabemos que «o Senhor vem!» (maran ’atta’). O Domingo deve imprimir em nós o «tique» da esperança, deixando-nos com o pescoço esticado para Deus, situação de quem O espera e vive da sua Vinda a todo o momento. É a Lição de Hebreus 9,24-28.

5. O Evangelho de Marcos 12,38-44 põe em cena e em claro destaque umaesmola viúva pobre que dá a Deus a sua vida toda, em contraponto com os escribas e muitos outros, que fazem bom teatro religioso! Excelente inclusão literária no Evangelho de Marcos: da primeira vez que Jesus aparece a ensinar em público, neste Evangelho, o povo exclama: «Este ensina com autoridade, e não como os escribas!» (Marcos 1,22); a terminar a sua actividade pública neste Evangelho, é Jesus que mostra bem que não é como os escribas (Marcos 12,38-40). A cena central passa-se no átrio das mulheres do Templo de Jerusalém, num lugar chamado «Casa do Tesouro» (bêt ha-gazît) (Marcos 12,41-44). Muita gente deitava aí muito do que lhe sobrava, mas a viúva pobre deu «tudo quanto tinha, a sua vida toda!». Fio de sentido que liga este episódio ao que já encontrámos no Primeiro Livro dos Reis 17,10-16.

6. Dar a vida toda toda a vida ou fazer teatro religioso, eis a questão, meu irmão de Domingo.

António Couto


A (PRO)VOCAÇÃO DA SANTIDADE E DA FELICIDADE

Novembro 1, 2009

1. Deus é a Santidade. Santo, Santo, Santo. Santo, na língua hebraica, diz-se 2806116051_e6f0cee048qadôsh, cujo significado mais consistente é «separado». Separado de quê ou de quem, podemos perguntar. Da sua criação? Parece que não, pois o Deus da Bíblia olha para ela e por ela com beleza e bondade. De nós? Obviamente não, pois o Deus da Bíblia bem vê e vê bem os seus filhos queridos, ouve a nossa voz, conhece as nossas alegrias e tristezas, desce ao nosso nível e debruça-se sobre nós com carinho. «Separado» de quê ou de quem, então? «Separado» de si mesmo, eis a surpreendente identidade de Deus. «Separado» de si mesmo, isto é, não agarrado ao seu mundo divino e dourado para o defender ciosamente. Ao contrário, o nosso Deus é um Deus que sai de si por amor, para, por amor, vir ao nosso encontro. É esta realidade que se vê bem em toda a Escritura, Antigo e Novo Testamento. Paulo, na 2 Carta aos Coríntios, resume bem esta realidade ao falar de Jesus Cristo que, «sendo rico se fez pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (8,9).

 2. Só um Deus assim pode e sabe felicitar os pobres. Com um tom carregado de felicidade, não restritivo, mas alargado a toda a humanidade, as «Felicitações» do Rei novo atingem todas as pessoas, chegando às franjas da sociedade, onde estão os pobres de verdade. No meio destas «Felicitações» – é por nove vezes que soa o termo «FELIZES –, note-se a centralidade da MISERICÓRDIA (5.ª felicitação) (5,7). Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS. Notem-se igualmente as inclusões assentes na repetição da locução «reino dos céus» (1.ª e 8.ª) (5,3 e 10) e do termo «justiça» (4.ª e 8.ª) (5,6 e 10). Estas inclusões convidam-nos também ao reconhecimento de duas tábuas de felicitações, a primeira à volta da pobreza evangélica (5,3-6), e a segunda à volta da bondade do coração (5,7-10).

«5,1Vendo as multidões, subiu à montanha.

Tendo-se sentado, vieram ter com ele os seus discípulos.

2Abrindo então a sua boca, ensinava-os dizendo:

3FELIZES (makárioi / ’ashrê) os pobres de espírito (ptôchoì tô pneúmati),

porque deles é o reino dos céus;

4FELIZES os aflitos,

porque serão consolados;

5FELIZES os mansos,

porque herdarão a terra;

6FELIZES os que têm fome e sede de justiça,

porque serão saciados;

7FELIZES os misericordiosos (eleêmones),porque lhes será feita misericórdia (eleêthêsontai);

8FELIZES os puros de coração,

porque verão a Deus;

9FELIZES os fazedores de paz,

porque serão chamados filhos de Deus;

10FELIZES os perseguidos por causa da justiça,

porque deles é o reino dos céus.

11FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem,

e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal

por causa de mim (éneken emoû)» (Mateus 5,1-11).

3. Os «pobres de espírito», aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é «baixa de rûah» (shephal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23), isto é, sem espaço físico, económico, social ou psicológico. Não precisam de se afirmar. São claramente os últimos da sociedade, mas que, na sua humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois os ptochoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Apouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente fechados entre paredes, num círculo restrito, mas uma imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie.

4. Note-se ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «felizes» ouarticle01_02 «bem-aventurados» diz-se (’ashrê), termo que qualifica os pioneiros, aqueles que abrem caminhos novos e bons e de vida nova e boa para o mundo. E é verdade por paradoxal que pareça. Foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente e anestesiado em que vivemos.

5. Aos misericordiosos será feita misericórdia. Belíssimo círculo bem no centro das Bem-Aventuranças.

António Couto


MEU IRMÃO SENTADO ÀS PORTAS DE NOVEMBRO

Outubro 29, 2009

1. Não resisto a deixar aqui registrada, às portas de Novembro, mais esta saborosa história rabínica.

 2. Conta o sábio que um homem tinha três amigos. Dizendo isto, acrescentaearth-globe logo que os tinha classificados: o amigo n.º 1, o amigo n.º 2 e o amigo n.º 3. E explica logo a seguir o que pode parecer óbvio: o amigo n.º 1 era o amigo inseparável daquele homem: andavam sempre juntos; o amigo n. º 2 aparecia lá por casa do nosso homem de vez em quando, bebiam uns copos, punham a conversa em dia; o amigo n.º 3 muito raramente aparecia, talvez uma ou duas vezes por ano, e o encontro era ainda assim mais devido ao acaso do que à amizade.

 3. Diz a história que um dia o nosso homem foi surpreendido por uma intimação do Rei que o instava a comparecer no Palácio Real.

 4. O nosso homem sentiu-se tomado por uma grande angústia e preocupação. Na verdade, nunca tinha entrado num Palácio, não sabia mesmo o que era um Palácio, não imaginava como se devia comportar dentro de um Palácio.

 5. É nestas alturas de aflição que nos lembramos dos amigos. Foi assim que238318075_775453 o nosso homem foi ter com o seu amigo n.º 1, e disse-lhe: «Amigo, nós andamos sempre juntos, preciso da tua ajuda, não me digas que não». «Fala, homem», disse o amigo n.º 1. Então, o nosso homem contou ao seu melhor amigo que tinha de comparecer no Palácio do Rei, que nunca tinha entrado num Palácio, que não sabia como proceder, que se sentia muito preocupado. E adiantou: «Peço-te que me acompanhes nesta viagem». A este pedido, o amigo n. 1 respondeu: «Amigo, de facto somos amigos inseparáveis. Podes contar sempre comigo, mas nesta viagem não posso acompanhar-te».

 6. Então, o nosso homem foi ter com o seu amigo n.º 2, aquele que encontrava de vez em quando para beber uns copos e pôr a conversa em dia. Expôs-lhe o mesmo problema. E o amigo n.º 2 respondeu assim: «Sim, senhor, estou disposto a acompanhar-te, mas com uma condição». «Qual é então a condição?», perguntou com ânsia e curiosidade o nosso homem. «Vou contigo, mas só até à porta do Palácio», disse o amigo n. º 2. E acrescentou: «Da porta para dentro terás de te desenrascar sozinho». Ouvindo isto, o nosso homem insistiu: «Até à porta, também eu consigo ir; o meu problema é dentro do Palácio, pois não percebo nada de Palácios». Rematou o amigo n.º 2: «É como te digo; posso ir contigo só até à porta».

 7. Restava ao nosso homem o amigo n.º 3, aquele que via por mero acaso apenas uma ou duas vezes no ano. Foi ter com ele, e expôs-lhe igualmente o problema, para ele difícil, de ter de comparecer no Palácio do Rei. E pediu-lhe igualmente, ainda que sem grande esperança de ser atendido, que o acompanhasse naquela viagem difícil. Ouvindo atentamente, o amigo n.º 3 respondeu assim: «É claro que te acompanho. Confesso-te mesmo que até ficaria muito triste se viesse a saber dessa tua viagem difícil, e tu não me tivesses dito nada!».

 8. A história termina assim, aparentemente no ar, à boa maneira rabínica. Mas para que tu, meu irmão sentado às portas de Novembro, possas entender melhor, passo a descodificar o essencial: A) o Rei desta história é Deus; B) o nosso homem, o que foi intimado a apresentar-se no Palácio do Rei, é cada um de nós: posso ser eu; podes ser tu; C) o amigo n.º 1 é a nossa própria vida, a minha própria vida; eu e a minha vida, os meus afazeres, os meus negócios, os meus projectos, andamos sempre juntos: somos amigos inseparáveis; mas, quando eu morrer, de facto, nada disso me pode acompanhar!; D) o amigo n.º 2 são os nossos próprios amigos: podem acompanhar-nos só até à porta… do cemitério!; E) o amigo n.º 3, aquele que raramente vemos, é o bem que fazemos ao longo da nossa vida; é o amor que pomos naquilo que humildemente fazemos.

 9. Ainda estás a tempo, meu irmão sentado às portas de Novembro, deflydove pegar na tua lista de amigos, e de a virar do avesso. Verifica bem, e, pelo menos, trata de trazer para primeiro lugar o amigo que tens na lista em 3.º lugar e que tão poucas vezes vês. Afinal, é o único que te acompanhará sempre!

 António Couto


O CEGO DE JERICÓ

Outubro 24, 2009

 

1. Jeremias 31,7-9 põe diante de nós uma grande procissão de alegria e de esperança, vinda do Norte, da Babilónia, em que participam todos os filhos de Deus. Note-se a presença dos cegos, dos aleijados, das grávidas, das parturientes. Procissão maravilhosa em que ninguém fica de fora ou para trás: pura graça e salvação de Deus bem à vista! Verdadeiramente, Deus SALVA (hôshîa‛) o seu Povo (Jeremias 31,7). Não nos esqueçamos Hoje de valorizar o nosso canto do HOSSANA, que é um grito levantado para Deus, e que significa, à letra, “SALVA, POR FAVOR” (hôshîa‛ na’).

 2. O Canto ritmado do Salmo 126(125) serve para nos abrir bem os olhos do coração para vermos bem as inumeráveis maravilhas com que Deus enche os nossos caminhos todos os dias. Entre a sementeira e a ceifa, entre a dor e a alegria, o inverno e a primavera, a semente não erra e não mente. Segue o seu percurso natural. Suavemente. Aí está, portanto, outra vez a jubilosa procissão dos exilados! E nós extasiados como quem sonha, a boca cheia de riso e os lábios de canções.

 3. Aí está, em pleno ano sacerdotal, o texto da Carta (ou pregação) aos Hebreus 5,1-6, que nos apresenta uma excelente figuração do sacerdote: chamado por Deus, postado a meio caminho entre o coração de Deus e o coração dos homens, para encher este mundo de graça serena e fecunda. Ao jeito da vara sacerdotal de Aarão e por acumulado excesso, de onde brotam ao mesmo tempo folhas verdes, flores em botão, flores abertas e frutos maduros! (Números 17,16-26). Vara de amendoeira. Já ninguém estranhará agora que o candelabro (menôrah) que, noite e dia,/ ardia/ na presença de Deus, estivesse ornamentado com flores de amendoeira (Ex 25,31-35; 37,20-22). E também já ninguém estranhará que a tradição judaica tardia refira que a vara do Messias havia de ser de amendoeira. O excesso divino da primavera e da esperança em pleno inverno humano de dor e de pecado.

 4. E lá está outra vez um Cego no CAMINHO de Jesus. É do grande texto deJesus1 Marcos 10,46-52 que falamos, e que é conhecido como o episódio do Cego de Jericó. Na verdade, está em cena muito mais do que cegueira e geografia. Atente-se em como o narrador nos passa sobre o Cego informação exaustiva, distribuída em seis anotações: é o filho de Timeu (1), chama-se Bartimeu (2), é cego (3), pede esmola (4), está sentado (5) à beira do Caminho (6).

 5. Se revisitarmos com atenção as páginas dos Evangelhos, nomeadamente de Marcos, só encontramos tanta informação pessoal nos relatos de vocação. Veja-se, a propósito, o chamamento de Simão e André (Marcos 1,16-18), de Tiago e João (Marcos 1,19-20) e de Levi (Marcos 2,14). Estes indicadores são importantes, pois é bem provável que, no episódio do Cego de Jericó, estejamos mais perante um relato de vocação do que de cura.

 6. O Cego, excluído, GRITA por duas vezes. Quem grita é porque está longe e se quer fazer ouvir. A distância pode ser física, psicológica, cultural, religiosa… Um Cego sente-se longe de Deus e da comunidade. Dizia assim a tradição religiosa e cultural daquele tempo e daquele espaço. Por isso, o Cego GRITA e volta a GRITAR. O conteúdo do seu GRITO é belo: «Filho de David, Jesus,mother_mary_holding_baby_jesus_md_clr FAZ-ME GRAÇA (eléêsón me). É quanto nós cantamos ainda Hoje, e Hoje devemos valorizar também este dizer: Kýrie eléêson! Significa, na sua letra, pedir ao Senhor que pegue maternalmente em nós ao colo, que maternalmente nos embale, que maternalmente nos olhe e maternalmente sorria para nós!

 7. Ouvindo estes GRITOS, Jesus PÁRA. Parando, fica ao nível do Cego, que estava parado, e parado ia ali ficar. Jesus PÁRA e CHAMA. Um versículo (49) em que o verbo CHAMAR se ouve três vezes. Jesus não exclui, mas inclui e faz que aqueles que antes o mandavam calar, querendo mantê-lo na exclusão, entrem agora neste novo movimento de inclusão. Note-se o agrafo à grande procissão de Jeremias 31,7-9, que incluía cegos, aleijados, grávidas e parturientes. Também Jesus não quer deixar ninguém de fora ou para trás.

 8. Ao sentir-se chamado e incluído, o Cego deixa tudo (atira fora o seu manto, onde recolhia as esmolas), e, num salto (sem qualquer hesitação), fica junto de Jesus. Jesus pergunta-lhe, tal como atrás tinha perguntado aos dois filhos de Zebedeu: «Que queres que Eu te faça?» Naturalmente, o Cego responde: «Que eu veja!» Mas Jesus diz-lhe: «VAI!» Note-se bem o desajuste entre o pedido do Cego (ver) e a resposta de Jesus (ir). E já se vê aqui claramente o teor vocacional do relato.

 9. Lindo ver na conclusão do relato que o Cego viu, ficou iluminado, eD55CAWQA4QJCAQF4315CAW0EKKRCAIHVIZ7CAA4D7QNCA1GH3MTCAZLH18ZCAS4PMLCCADRNV3VCAQBAPD6CAGLNA3XCAPBVBVWCA2H9MDOCAC1RDLNCA54SKM0CAECQMAWCAS0DNSNCA2MWOAY SEGUIA Jesus no CAMINHO. Aí está outra vez a figura bela do verdadeiro discípulo de Jesus. Chamado e iluminado pela Luz que é Jesus, segue Jesus no CAMINHO. Tem de O seguir, temos de O seguir. Ele é a Luz, e a nossa Luz é reflexa.

 10. Senhor Jesus, chama por nós, inclui-nos no teu amor, faz-nos graça,animated_candle ilumina a nossa vida, torna-nos fiéis seguidores teus, sempre atrás de Ti, no teu CAMINHO de LUZ.

 António Couto


HESITAÇÕES E DECISÕES NO CAMINHO

Outubro 17, 2009

 

1. O justo, meu Servo, diz Deus, justificará muitos, diz Deus. Profeta «profetizado»: eis a verdade do profeta-servo. Não fala, mas é falado: fala Deus dele (Isaías 52,13-15; 53,11-12); falamos nós dele (53,1-10). Nós, batendo no peito, reconhecendo que as suas chagas não são o seu castigo merecido, mas cura para a nossa malvadez. De facto, vendo bem aquelas chagas, temos mesmo de reconhecer que foi a nossa violência e malvadez que as produziu. Diagnosticada a doença, podemos lançar mão do remédio. Deus apresenta-o como aquele que, entregando a sua vida à nossa violência, atravessa a nossa violência, sofrendo-a e dissolvendo-a por amor: é assim que nos justifica, isto é, nos transforma de pecadores em justos: milagre do perdão e da recriação do nosso Deus.

 2. Faz-nos bem a seguir cantar demoradamente com o Salmo 33(32): «Desça sobre nós a vossa misericórdia», e contemplar com encanto e emoção o rosto do novo sumo-sacerdote, Jesus, Filho de Deus, posto por escrito diante dos nossos olhos no trono da Cruz (Gálatas 3,1), para o vermos bem e para nos vermos bem: outra vez um rosto desfigurado pela nossa violência e malvadez, e a ternura e daquele olhar de graça, que nos redime e salva. É a extraordinária lição de Hebreus 4,14-16.

 3. E voltamos ao CAMINHO com Marcos 10,35-45. É a vez de Tiago e João,zebedeu os filhos de Zebedeu, que vão no CAMINHO desde o princípio, agora que o CAMINHO se aproxima do seu termo, se aproximarem de Jesus com um estranho pedido. Vão de pé no CAMINHO, mas querem SENTAR-SE em lugares de destaque. O narrador diz-nos que os outros Dez ficaram indignados. Entenda-se: não tanto pelo pedido em si, mas porque também pensavam a mesma coisa, e se viram antecipados.

 4. Jesus chama-os todos para si, para lhes dizer ao coração que há os CHEFES deste mundo que mandam e tiranizam e tiram a vida, e há os SERVOS que servem e dão a vida por amor, isto é, justificam.

 5. E aí está Jesus a apresentar-se de novo como verdadeiro Mestre pró-activo, que sabe o CAMINHO, ensina o CAMINHO e faz o CAMINHO: veio para SERVIR e DAR A VIDA por amor.

 6. Mas tudo ficará mais claro, quando, no próximo próximo Domingo (XXX)bartimeu se vir bem o confronto produzido pelo episódio do Cego de Jericó (Marcos 10,46-52), paradigmaticamente colocado no termo do CAMINHO.

 7. O Cego está sentado (a posição ansiada por João e Tiago e pelos outros Dez) à beira do caminho. Grita porque, sendo cego, é um excluído. Mas aí está o Mestre pró-activo: PÁRA (descendo ao nível do cego) e CHAMA (incluindo o excluído). Sem hesitação, o cego atira logo fora o manto (a sua subsistência, a sua vida), e, com um salto, de forma decidida e enérgica, fica no lugar certo (junto de Jesus). Jesus faz-lhe a mesma pergunta que fez a João e a Tiago: «Que queres que Eu te faça?» Resposta óbvia do cego: «Que eu veja!» Ordem de Jesus: «VAI!»

 8. Poucos se apercebem. Mas «VAI!» não é a resposta adequada ao pedido do cego: «Que eu veja!» A resposta adequada seria: «Vê!», como está, de resto, no episódio paralelo de Lucas 18,42.

 9. Mas, de facto, o cego obedeceu à ordem nova de Jesus. Diz-nos o narrador que SEGUIA JESUS NO CAMINHO! Note-se o SEGUIA (imperfeito de duração). Modelo do discípulo de Jesus.

 10. Vejam-se atentamente os confrontos: 1) o cego está SENTADO, mas põe-se de pé; de pé vão os discípulos de Jesus, mas querem SENTAR-SE; 2) o cego deixa tudo (atira fora o manto), mas os discípulos querem saber o que ganham; 3) o cego está à beira do CAMINHO, mas entra no CAMINHO para seguir Jesus no CAMINHO; o homem rico de Marcos 10,17-22, que encontrámos no Domingo XXVIII, entra no CAMINHO, mas sai logo do CAMINHO…

 11. Tantos desafios e provocações, modelos e contra-modelos, para nós, discípulos que hoje seguimos Jesus no CAMINHO!

 12. Não nos esqueçamos ainda que passa hoje (18 de Outubro) o 83.º Diaglobeanim5b Missionário Mundial. Dia indicado para «CAMINHARMOS à sua LUZ» (tema da Mensagem do Papa), para compreendermos, com o Papa, que «A missão ad gentes deve ser a prioridade dos nossos planos pastorais», «que toda a Igreja se deve empenhar na missão ad gentes» e que «a tarefa de evangelizar todos os homens constitui a missão essencial da Igreja».

 13. Se vejo bem, para cumprirmos estes desideratos que o Papa lança à Igreja e a cada um de nós, temos mesmo de virar quase tudo do avesso! Exactamente como aqueles discípulos de Jesus no CAMINHO!

 António Couto


O HOMEM RICO, EDUCADO E DE BOA PRÁTICA RELIGIOSA

Outubro 10, 2009

 

1. Um punhado de terra, eis quanto é toda a riqueza do mundo comparada com a sabedoria que vem de Deus (Sabedoria 7,9). Pedimos depois, cantando, no Salmo 90(89),12, que Deus nos dê a Sabedoria do coração: entenda-se o bom senso, a sensibilidade e a bondade, e que elas sejam o metro para acertarmos diariamente a medida canónica (cânon, cana de medida) da nossa vida.

 2. Vem depois aquele homem rico, sincero, educado e de boa práticacalma religiosa, que entra subitamente NO CAMINHO de Jesus, pedindo-lhe que lhe aponte o caminho para a vida eterna. Ele não sabia que tinha acabado de entrar nesse CAMINHO e nessa VIDA, e que bastava seguir tranquilamente Jesus até ao fim. Jesus é o Mestre novo, verdadeiro líder pró-activo, que não ensina como os escribas. Ele sabe o caminho, mostra o caminho, faz o caminho. Por isso, passa e chama, dizendo: «Vinde atrás de Mim!»

 3. O homem rico, educado e de boa prática religiosa entra no CAMINHO, e Jesus entra nele, pois olha dentro dele (verbo emblépô) com amor divino. Único verdadeiro olhar de Deus, que vê sempre dentro, vê sempre o coração, sempre com coração.

 4. E aquela imensa, inesquecível rajada de verbos: Vai, vende, dá, vem e segue-me!, que atravessou o coração do homem rico, e ainda hoje nos atravessa a nós. Queira Deus que atravesse verdadeiramente o nosso coração. É, estou convicto, ainda hoje, a «uma coisa» (hén) que nos falta!

 5. E aquele homem rico, educado e de boa prática religiosa, em quem facilmente nos poderemos rever, saiu do CAMINHO, sem caminho e sem horizontes, triste e agarrado ao seu punhado de terra.

 6. Jesus olha agora o coração e com o coração os seus discípulos, a quem trata por «filhos» (única vez no Evangelho de Marcos!), contrapondo a riqueza ao Reino de Deus. Sim, não há maneira de nos salvarmos; há apenas maneira de sermos salvos! A metáfora do camelo e do buraco da agulha é bem expressiva e impressiva, sendo o camelo o animal de maiores dimensões conhecido no mundo de Jesus e dos seus discípulos!

 7. E aquele elenco fantástico apresentado por Jesus: casas, irmãos, irmãs,rosa14 mãe, pai, filhos e terras. Quase ninguém repara nisto, e somos quase sempre levados a pensar que Jesus fornece dois elencos: um das coisas que há que deixar e outro das coisas que há que encontrar! Aí está a velha lógica das coisas materiais versus coisas espirituais! Mas Jesus apresenta apenas um elenco repetido. É a maneira de ver que deve mudar: do ter para o receber! Temos de aprender a ver o coração e com o coração, como Jesus. Podemos admirar a beleza de uma flor, mesmo quando está no jardim do meu vizinho!

 8. Pois, argumenta Pedro, também ele homem educado e de boa prática religiosa: «Se é assim, quem é que se salva?» E Jesus: «Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível!» É, portanto, para Deus que nos devemos voltar completamente. E aí está a lição inultrapassável do Mestre pró-activo, que sabe o caminho, mostra o caminho e faz o caminho. Escreve S. Paulo: «Jesus Cristo, sendo rico, fez-se pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (2 Coríntios 8,9).

 9. Entretanto, não esqueçamos o bisturi da Palavra de Deus, que opera a esclerose do nosso coração (Hebreus 4,12).

 António Couto


UMA EUROPA ANESTESIADA E DORMENTE

Outubro 4, 2009

 

1. «A liberdade é o poder de fazer tudo aquilo que não prejudique os outros». É esta a formulação exemplar que encontramos na famosa «Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão» (Art.º 4), saída da Revolução Francesa (1789), depois muitas vezes traduzida no aforismo: «A minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro».

 2. É em nome deste princípio, que se diz habitualmente que a Europa é asamaritan1 terra natal dos direitos do homem. Porém, se não formos míopes, teremos de acrescentar logo que esse nascimento foi muito ambíguo e esses direitos muito restritivos, pois não afectam por igual todos os homens. Por exemplo, aquele «um homem (e todos aqueles que ele representa) que descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos assaltantes que, depois de o roubarem e espancarem, se foram embora deixando-o meio morto», da conhecida parábola do bom samaritano (Lucas 10,30-37), ficaria excluído desses direitos.

 3. De facto, roubado e em estado de coma, aquele homem não é sujeito de nenhum poder nem de nenhum fazer. Ora, a fórmula exemplar da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, atrás referida, assenta, como vimos, no «poder fazer» aquilo que não prejudique os outros. Visto por este prisma, o homem da referida parábola fica duplamente excluído: primeiro, porque não é sujeito de nenhum poder e de nenhum fazer: nada «pode fazer», portanto; segundo, porque, ainda que porventura tivesse o «poder de pedir» auxílio – o que parece que nem é o caso –, é preciso ver que um tal gesto não teria, de facto, qualquer força de direito, pois se dirigiria a liberdades cuja essência consiste, como vimos, em «não prejudicar». Mas se o exercício da liberdade consiste em «não prejudicar», então basta abster-se de fazer o que quer que seja para se cumprir o articulado. É o que fazem, na parábola narrada, o sacerdote e o levita, que, tendo visto o homem em causa, passam simplesmente pelo outro lado da estrada, não se incomodando nem o incomodando.

 4. Ironia da história: a sociedade laica nasce imitando, inconscientemente com certeza, o comportamento das duas figuras clericais (o sacerdote e o levita) da parábola. Nasce assim como novo culto o culto do «eu» como «poder fazer», o culto do «eu» como senhor mais ou menos civilizado, engravatado, que não prejudica directamente os outros por palavras ou por obras, dado que passa simplesmente ao lado deles.

 5. É fácil de ver que este culto laico do «eu» é hoje uma religião com muitos praticantes, todos de bem com a sua consciência. A única obrigação que este culto impõe aos seus crentes é não fazer mal aos outros. É fácil de praticar: basta não se importar com eles. Mas hoje temos todos os dias à nossa porta e à beira das nossas estradas pessoas caídas, doentes, fragilizadas, abandonadas. Será que podemos passar por elas com a consciência tranquila, cientes de que passamos por elas sem as prejudicar?

 6. Entramos em Outubro. Tempo de voltar à escola. Tempo de aprender e de ensinar humanidade e cidadania. Tempo de descobrir que é urgente substituir o velho aforismo burguês e anestesiante, segundo o qual «a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro», pelo implicativo e sempre inquietante «a minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro».

 7. Em vez de continuares a passar tranquilamente e de boa consciência ao lado do outro, experimenta aproximar-te dele. Deixa-te incomodar por ele, meu irmão de Outubro.

 António Couto


MOISÉS VISITA OS APOSENTOS DE DEUS

Setembro 28, 2009

 

1. Ainda estamos dentro da maior Festa de Israel. Celebra-se hoje (28 deimagessss Setembro para nós; 10 de Tishrî para eles) a Festa do yôm kippûr [= Dia do Perdão]. A Mishna dedica-lhe um tratado significativamente intitulado YÔMA, à letra, O DIA. É «o dia» por excelência. É o dia da graça, do perdão, da condescendência. A Festa da brancura. Único Dia em que o sumo-sacerdote entrava antigamente na parte mais santa do Templo, chamada SANTO DOS SANTOS, isto é, SANTÍSSIMO. Acariciava o rosto de Deus com sangue, que tem na Bíblia sentido unitivo e familiar, e implorava o PERDÃO para os seus pecados e para os pecados de todo o povo.

 2. No passado dia 19 de Setembro (1 de Tishrî), os judeus celebraram o Dia de Ano Novo (rosh ha-shanah). Esvaziaram simbolicamente os bolsos do cotão antigo e vestiram de branco, e deram início a dez dias de penitência, que culminaram hoje no Dia Perdão de Deus.

 3. No próximo dia 3 de Outubro (15 de Tishrî), inicia-se a Festa das Tendasdanceroda (Sukkôt), Festa que manifesta a alegria das colheitas abençoadas por Deus. É uma Festa a céu aberto, pois a cobertura das tendas nunca deve ser tão espessa que não nos deixe ver Deus, e que não deixe Deus ver-nos a nós.

 4. Esta forte mancha festiva a abrir o Outono (e o Ano para os judeus) mostra uma intensa familiaridade entre os judeus piedosos e o seu Deus. Esta vincada proximidade pode fazer-nos bem também a nós e a todo o ser humano. Dentro desse espírito, apresento hoje uma visita de Moisés aos aposentos de Deus, narrada no Midrash Tanchuma.

 5. Diz então a história que Deus mostrou a Moisés todos os aposentos dos tesouros do Céu, onde se encontra reunida a recompensa dos justos. Conforme Moisés ia visitando os sucessivos aposentos, repletos de tesouros preciosos, ia ficando cada vez mais extasiado e cheio de curiosidade, como uma criança deslumbrada.

 6. E como tal, perguntava: “Senhor do mundo, a quem está destinada este aposento do tesouro?” Deus respondeu: “Para aqueles que levam uma vida justa”. “E este aposento do tesouro?”, perguntou Moisés. “Esse é para aqueles que prestam ajuda aos órfãos”, disse Deus. E continuaram a percorrer, um após outro, inúmeros aposentos repletos de riqueza, até que chegaram a uma sala imensa, a perder de vista, repleta de bens valiosíssimos. À vista de tal maravilha, Moisés perguntou mais uma vez: “Senhor, a quem se destina este aposento imenso e deslumbrante?” Deus respondeu: “Quando alguém faz uma obra meritória, dou-lhe o que lhe cabe, tirando do respectivo aposento do tesouro. Mas se algém não fez nenhuma obra meritória, então dou-lhe gratuitamente, tirando deste imenso e inesgotável aposento”.

 7. A história quer mostrar que a linguagem que Deus melhor entende é a Graça.

 António Couto


UM SIMPLES COPO DE ÁGUA COM AMOR…

Setembro 24, 2009

 

1. A lição do Livro dos Números deste Domingo XXVI (Números 11,25-29)67 mostra-nos um Moisés, não dono de nada nem de ninguém, nada ciumento ou invejoso, mas livre, cheio de bem e de bondade, completamente a céu aberto, desejoso de ver, com olhos puros, o Espírito de Deus a operar maravilhas em todas as pessoas e através de todas as pessoas. Josué representa, neste texto, a figura sombria do ciumento.

2. O Evangelho deste mesmo Domingo (Marcos 9,38-47) segue o mesmo rumo, e mostra-nos um Jesus feliz por ver que o bem saltou as fronteiras do pequeno grupo que o seguia, sendo praticado também por pessoas de fora. João encarna aqui a figura do Josué do texto supracitado do Livro dos Números, e quer o bem todo para Jesus e o seu grupo, vendo com maus olhos que também outros o possam realizar.

3. Vê-se, no fundo da tela, que não basta querer o bem. Querer o bem nem sempre é bom. Por paradoxal que pareça, querer o bem pode ser mau. É, de facto mau, quando queremos o bem só para nós, ciumenta e invejosamente. Às vezes, os nossos maus olhos levam-nos a retirar o bem do alcance dos outros, e até a destruí-lo. Ora, o bem que divide e exclui nunca é bem. O bem mostra-se tal apenas quando faz comunhão, fraternidade, mesa, pão, água, pura alegria entre irmãos.

4. Um simples copo de água, dado com amor, pode trazer pela mão a eternidade, soberana lição de Jesus. Toda a atenção, portanto, às nossas mão, pés, olhos. A mão, que indica a nossa acção, pode fazer o bem ou o mal. Se faz o mal, é melhor cortá-la, como faz o lavrador cuidadoso aos ramos secos das videiras e das árvores de fruto. O pé, que indica o nosso caminhar, pode levar-nos por e para maus caminhos. Se nos conduz para o abismo, é melhor cortá-lo. O olho, que indica os nossos desejos de bem e de amor ou de cobiça, ódio, raivas e ciúmes, pode levar-nos à mesa da alegria fraterna ou ao ciúme e à inveja. Estas últimas maneiras de ver levam-nos ao mal, e, portanto, ao sentimento venenoso de queremos o bem só para nós. Aí está como querer o bem nem sempre é bom; pode ser mau. E é melhor arrancar este veneno.

5. A lição de Tiago (Tiago 5,1-6), que lemos e abandonamos este Domingo (no próximo começa a ler-se a Carta aos Hebreus) mostra bem que o rico é o que quer o bem só para si, retirando-o (roubando-o!) aos outros. Auto-exclui-se da comunhão, da bondade e da alegria da mesa fraterna. O resultado é a traça, o mofo, a ferrugem, a podridão.

6. Aí está, no ponto e em contraponto, a lição soberana do Evangelho de Jesus: um simples copo de água, dado com amor, pode trazer pela mão a eternidade!

António Couto


LEVA UMA NOTÍCIA FELIZ AOS TEUS AMIGOS

Setembro 16, 2009

 

1. «Evangelizar não é para mim um título de glória, mas uma necessidadel_e36bbd6d18404b23b1d72bf21c4a68c9 que se me impõe desde fora. Ai de mim se não evangelizar!», confessa Paulo à comunidade cristã de Corinto (1 Coríntios 9,16).

 2. Paulo anuncia convictamente a notícia da Ressurreição. E diz que o faz como se de uma necessidade se tratasse. Mas porque é que este anúncio há-de ser, para Paulo, uma necessidade? É uma necessidade porque Paulo considera o acontecimento da Páscoa de Cristo como único, singular e universal, que o afectou radicalmente na sua maneira de ser homem. A prova é que Paulo mudou tudo na sua vida. Mudou, ou foi mudado. É por isso que Paulo anuncia convictamente a força (dýnamis) de Cristo Crucificado e Ressuscitado (Filipenses 3,10).

 3. Mas é claro que este anúncio sempre Primeiro arrasta consigo um longo e lento e belo relato. O relato é o testemunho de como Cristo atravessou a vida do anunciador, transformando-a radicalmente. O anunciador transforma-se assim naturalmente em narrador. O anunciador é audaz e destemido. O narrador é frágil: é um pedinte que mendiga um narratário a quem possa transmitir o seu relato. Ouvindo o anúncio e acolhendo o relato, cabe agora ao narratário decidir se declara o acontecimento da Páscoa de Cristo como único, singular e universal, isto é, como um acontecimento capaz de mudar radicalmente a sua vida e de pôr em andamento uma história nova de Perdão e de Vida para o fim de toda a morte e de todo o pecado. Se o fizer, também ele se porá a caminho, atravessará fronteiras, anunciará a Ressurreição de Cristo e oferecerá como garante o relato da transformação operada na sua própria vida. E assim sucessivamente.

 4. A notícia faz de ponto de união: junta o mensageiro e o destinatário. Mas é o relato que os aproxima, fazendo-os, não só estar juntos, mas nascer juntos como irmãos. Este nascimento, não pelo sangue, mas pela Liberdade, é que é o verdadeiro nascimento, que nos faz saborear a verdadeira fraternidade: «Ide dizer aos meus irmãos que Eu os precedo na Galileia» (Mateus 28,10; cf. João 20,17). Irmãos uns dos outros e irmãos do Ressuscitado, que nos precede e nos preside sempre, referência permanente do nosso quotidiano: «Onde estiverem dois ou três, Eu estarei no meio» (Mateus 18,20).

 5. Enche a tua vida com uma grande notícia. Comunica depois essa notícia aos teus amigos. E relata, isto é, põe em relação, une, reúne, enlaça, entrelaça, com essa notícia a tua vida toda.

6. Em Setembro abre a escola, a igreja, o campo, abre a política e o tribunal. Abre também a vida, meu irmão de Setembro.

 António Couto


E VÓS QUEM DIZEIS QUE EU SOU?

Setembro 12, 2009

 

«8,27E saiu JESUS e os DISCÍPULOS d’ELE (hoi mathêtaì autoû) parajesus as povoações de Cesareia de Filipe. E, NO CAMINHO (en tê hodô), perguntou aos DISCÍPULOS d’ELE, dizendo-lhes: “Quem dizem as pessoas que EU SOU?” 28Eles disseram-LHE, dizendo: “João Baptista; outros, Elias, e outros ainda, um dos profetas”. 29E ELE perguntou-lhes: “E VÓS, quem dizeis que EU SOU?” Respondendo, Pedro diz-LHE: “TU és o CRISTO”. 30E censurou-os (epetímêsen) para não dizerem a ninguém acerca d’ELE.

 31E COMEÇOU A ENSINÁ-LOS (kaì êrxato didáskein autoús) que é preciso (deî) o FILHO DO HOMEM sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar. 32E abertamente (parrêsía) falava esta palavra. E tomando-O consigo (proslabómenos), Pedro começou a censurá-l’O (epitimân) (cf. 9,31-32; 10,32-34). 33ELE, porém, voltando-SE e vendo os DISCÍPULOS d’ELE, censurou (epetímêsen) Pedro e diz: “Vai para trás de MIM (hypáge opísô mou), satanás, pois não tens em consideração as coisas de Deus, mas as dos homens”.

 34E chamando para SI (proskalesámenos) a MULTIDÃO, juntamente com os DISCÍPULOS d’ELE, disse-lhes: “Se alguém quiser atrás de MIM SEGUIR (opísô mou akoloutheîn), RENEGUE (aparnêsásthô: imp. aor. de aparnéomai) a si mesmo (heautón), TOME A SUA CRUZ e SIGA-ME, 35pois aquele que quiser salvar a própria vida, vai perdê-la, mas o que perder a própria vida por causa de MIM e do Evangelho, vai salvá-la”» (Mc 8,27-35).

 

1. O episódio «NO CAMINHO» de Cesareia de Filipe abre significativamente com o nome «JESUS», abandonado 89 versículos atrás, em Marcos 6,30! Forma clara e enfática de o narrador dizer ao leitor que estamos perante um episódio importante, justamente considerado o centro geométrico e teológico do Evangelho de Marcos. Ao apresentar JESUS e os seus discípulos NO CAMINHO, o narrador abre a secção central deste Evangelho (Marcos 8,27-10,52), normalmente intitulada: «O seguimento de Jesus NO CAMINHO», que é o CAMINHO que conduz da Galileia a Jerusalém, o CAMINHO da formação de Jesus aos seus discípulos. Vamos seguir a par e passo esta importante secção do Evangelho de Marcos durante sete Domingos, desde o Domingo XXIV (13 de Setembro) até ao Domingo XXX (25 de Outubro). Há quem prefira abrir a secção com o episódio de 8,22-26 (o cego de Betsaida Julia) para a encerrar com o episódio de 10,46-52 (o cego de Jericó). Tem a vantagem de colocar um cego a abrir e outro a fechar esta importante secção. Estes cegos têm a função de nos fazer ver a nossa cegueira e de nos indicar o médico e a terapia.

 2. Cesareia de Filipe, tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS. Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Aí construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de Augusto.

 3. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que JESUS põe a questão da sua identidade. Soberanamente JESUS pergunta: «Quem dizem as pessoas que eu sou?» (8,27), para acrescentar logo de seguida: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (8,29). A pergunta é única em todo o arco da Escritura. Ninguém, antes ou depois de Jesus, em toda a Escritura, fez ou fará uma pergunta semelhante.

 4. Para o povo, JESUS é um profeta. Um entre muitos. Mas para Pedro, Jesus não é apenas um entre muitos. Ele é Único e Último (cf. Marcos 12,1-12), o Rei definitivo, o Cristo, o Messias, que traz todo o bem para o seu povo («Fez tudo bem feito»: Marcos 7,37). E assim, à questão directa e enfática – «E vós, quem dizeis que eu sou?» (8,29) – posta por JESUS aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Pedro responde: «Tu és o Cristo!» Note-se bem que JESUS não pergunta simplesmente: «Quem sou Eu?», mas: «Quem dizeis vós que Eu sou?». Dizer é mais do que um saber. Implica o compromisso, a vida, de quem diz.

 5. À primeira vista, parece que Pedro respondeu acertadamente. Mas o contexto mostra que o discípulo não reunia competência sobre a matéria, não estava ainda em condições de fazer as operações mentais e afectivas necessárias para uma resposta correcta que reunisse todos os elementos necessários de modo a implicar na resposta o respondedor. O dizer de Pedro ainda era um dizer antigo, tradicional e convencional, sem implicações pessoais. Pedro ainda não tinha nascido de novo e do alto e do Espírito. Como podia dizer JESUS? «Tu és o Cristo!», respondeu Pedro. Fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de «Cristo», vê-se logo no seguimento do texto, que no «Cristo» de Pedro não entrava o sofrimento, a rejeição, a morte, a ressurreição (8,31-32). Muito menos a adesão pessoal de Pedro a este «Cristo». Na verdade, Pedro recrimina JESUS pelo CAMINHO de rejeição, sofrimento e morte que Ele acaba de mostrar como sendo o verdadeiro CAMINHO de «Cristo» segundo JESUS. O CAMINHO de «Cristo» segundo Pedro só inclui triunfo e sucesso.

 6. Por isso, porque Pedro acertou com a resposta – na verdade, JESUS é o «Cristo» –, mas não é o «Cristo» como Pedro pensa que é, JESUS impõe soberanamente silêncio (8,30). O silêncio imposto por JESUS aos seus discípulos pode passar falsamente a ideia do chamado «segredo messiânico», segundo o qual JESUS não quereria que a sua identidade, uma vez descoberta, fosse divulgada. Trata-se, antes, de impedir que respostas, porventura certas nas palavras, mas erradas nos conteúdos, e elaboradas apenas com base em elementos convencionais e tradicionais (o «Cristo» do jadaísmo), que não implicam um verdadeiro dizer pessoal, um novo nascimento do alto e do Espírito, sejam transmitidas boicotando assim o nascimento do conhecimento profundo e verdadeiro da novidade de JESUS e a implicação pessoal de quem diz JESUS e se diz face a JESUS. O verdadeiro sujeito deste dizer não o pode ser só por fazer parte de alguma instituição que confere credibilidade ao seu dizer já antes de começar a dizer, como, por exemplo, os escribas ou os próprios discípulos de JESUS.

 7. Porque há muita coisa que os discípulos ainda têm de aprender, antes de saberem dizer JESUS, soberanamente JESUS começou a ensinar (8,31). É grandemente sintomático que o narrador empregue a mesma expressão («E começou a ensiná-los») quando JESUS ensina a semente (Mc 4,1-2), quando ensina o pão (Mc 6,34s.), e quando ensina a Paixão, Morte e Ressurreição (Mc 8,31s.). Em boa verdade, JESUS é a semente e é também o pão, linguagem que ilumina e é iluminada pela Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Veja-se o dito condensado de João 12,24: «Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, fica só; mas se morrer dará muito fruto».

 8. Já sabemos que Pedro respondeu antes do tempo com um punhado de palavras convencionais, que vinham na corrente da tradição judaica. Ainda não tinha nascido do alto e do Espírito, como sujeito novo de acção [= dizer e fazer], face à novidade de JESUS. Falta-lhe fazer aquele «caminho» transitivo e intransitivo, longo, gradual e tortuoso, da Galileia até à Cruz, que JESUS aponta logo de seguida aos seus discípulos e ao leitor. Aí nascerá para a Glória a humanidade de JESUS, ao mesmo tempo que nascerá Pedro como sujeito apto para dizer JESUS e se dizer face a JESUS. Por agora, Pedro e os discípulos e a multidão e o leitor devem «dizer energicamente não» (aparnéomai) a si mesmos e ocupar o seu lugar «atrás de» JESUS, para seguir o Mestre ao longo do CAMINHO. Este «dizer não» a si mesmo implica uma forte conotação de rejeição, que Isaías usa para a rejeição dos ídolos: «Naquele dia, Israel rejeitará (aparnéomai) os seus ídolos de prata e os seus ídolos de ouro, trabalho das vossas mãos pecadoras» (Isaías 31,7). Marcos só usa esta expressão aqui e no anúncio feito por Jesus da negação de Pedro (Marcos 14,30-31) e na recordação desse anúncio por parte de Pedro (Marcos 14,72). A lição é clara: ou «dizemos não» a nós mesmos ou acabaremos sempre por «dizer não» a JESUS.

 9. Ocupar o seu lugar «atrás de» JESUS. Note-se a tradução correcta: «Vai para trás de MIM» (hypáge opísô mou) (8,33), e não: «Afasta-te de MIM», como se vê em muitas traduções. «Atrás de MIM» é o lugar do discípulo, que segue o Mestre passo a passo, que deve ter em consideração as coisas de Deus, e não as dos homens. É, de resto, a mesmíssima linguagem posta na boca de JESUS aquando do chamamento de Pedro e André: «Vinde atrás de Mim (deûte ôpísô mou)» (Marcos 1,17).

 10. Seguindo atentamente «atrás de» Jesus neste caminho de formação que constitui a secção central de Marcos (8,27-10,52), estes sete Domingos fazem-nos viver, episódio após episódio, importantes situações pedagógicas.

 António Couto


11 DE SETEMBRO OU O VALOR DA VIDA HUMANA

Setembro 10, 2009

 


1. As imagens brutais de 11 de Setembro (2001), com aqueles dois aviões a embater contra as torres gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, deixaram-nos perplexos. Tanto poder, tanta ostentação, tanta riqueza tão rapidamente destruídos. O Livro do Apocalipse bem nos lembra, com vigorosas imagens, que todos os nossos impérios caem: «Ai, ai, ó grande cidade! Vestias linho puro, púrpura e escarlate, e adornavas-te com ouro, pedras preciosas e pérolas: numa só hora tanta riqueza foi reduzida a nada!» A citação é do Capítulo 18, versículos 16-17, mas todo o Capítulo 18 repete, com ligeiras variantes, este refrão. O Apocalipse fala assim do destino de Roma (a que chama Babilónia) e de todas as Romas de todos os tempos.


 2. Permitam-me que retome aqui o que deixei escrito em Janeiro de 2001, o mês que abria um novo tempo (ano, século, milénio). Escrevi então: «Nós, que agora transpomos o umbral do século XXI, carregamos na memória um grande saco de contradições: por um lado, os fantásticos progressos do século XIX, em todos os âmbitos da vida, da locomotiva ao avião, do telégrafo ao telefone, da física clássica à teoria da relatividade…; por outro lado, as indescritíveis catástrofes do século XX, com lugar marcado em Verdun e Estalinegrado, Auschwitz e Gulag, Hiroshima e Chernobyl… E ficamos com a sensação de que a “razão instrumental”, guiada por interesses perversos e ilimitados de poder, prevaleceu amplamente sobre a “razão como sabedoria” e sensatez ao serviço de todos os homens.


 3. Pelos cálculos de Hegel, o mundo moderno terá nascido em 1492 com a descoberta da América e de outros continentes pela Europa, que passou assim da periferia para o centro do mundo. Antes dessa data, os poderes da Europa eram insignificantes, quando comparados com os impérios Otomano, Mongol ou Chinês. Mas a América não foi apenas descoberta ou conhecida, mas sobretudo tomada pela força e formatada segundo a vontade dos conquistadores. Pouco depois, no século que medeia entre Copérnico (-1543) e Newton (1642-), tem lugar outra conquista significativa: a conquista da natureza pelo poder científico-técnico. Estas duas conquistas constituem as duas pedras-base da “nova ordem mundial”, que ainda hoje perdura, não obstante o centro ter passado entretanto da Europa para os EUA, como significativamente testificam as notas de um dólar, em que se pode ver escrito em latim novus ordo seclorum [= “nova ordem mundial”]. [Foi esta “nova ordem mundial” que, de certa forma, vimos com espanto desabar com as torres de World Trade Center.]


 4. É um pouco como o sonho megalómano de Nabucodonosor, apresentado no Capítulo 2 do Livro de Daniel: uma enorme estátua, com a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, os pés de barro. Mas uma pedrinha desce da montanha e vem embater contra os pés de barro da estátua. Resulta do embate que os pés de barro ficam pulverizados, mas igualmente se pulverizam as pernas de ferro, as coxas e o ventre de bronze, os braços e o peito de prata, a cabeça de ouro! Era assim o mundo de Nabucodonosor, imperador da Babilónia, e parece ser assim também a nossa sociedade pesada, rica, poderosa, técnica e metálica, mas com um grande défice de humanidade.


 5. O certo é que a ambição de poder e riqueza e a pesada indústria dos países ricos continua a explorar brutalmente os pobres da terra e a massacrar a natureza, amontoando assim ódios e buracos de ozono. No dealbar do século XXI, é bom pensar que uma simples pedrinha pode desfazer a pesada máquina das nossas inúteis megalomanias, e que mais vale ter uma cabeça cheia de bom senso do que de ouro, um coração de carne em vez de prata, um ventre de misericórdia em vez de bronze». Termina aqui o que escrevi em Janeiro de 2001, exceptuando apenas as actualizações contidas entre parêntesis quadrados.


 6. Lembra-te, meu irmão de hoje, que todos os impérios caem: os meus e os teus. Inexoravelmente. Porque, em última análise, são fracos. Quer estejam montados sobre o luxo quer sobre o ódio. Forte é o amor. Todos sabemos que qualquer pai ou mãe ou marido ou esposa ou filho ou irmão ou amigo daria de bom grado aquelas duas torres e muito mais para reaver o seu filho ou pai ou mãe ou marido ou esposa ou irmão ou amigo perdidos nos escombros daquelas torres. É tempo de velarmos pela salvaguarda do melhor que há em nós.


 António Couto


A ESTRELA DA ESPERANÇA

Setembro 3, 2009

 

1. Para muitos já as férias acabaram, e está de volta o trabalho, as aulas, aPERTO+DAS+ESTRELAS rotina. Portanto, vou hoje contar uma história tirada do baú da grande tradição hebraica. É uma história que fala de estrelas e de esperança, e daquilo que as estrelas e a esperança têm a ver connosco. Somos frágeis e pequenos, e é sempre bom aprender a levantar os olhos para o céu e a baixá-los sobre o coração.

 2. Era uma vez milhões e milhões de estrelas espalhadas pelo céu. Havia estrelas de todas as cores: brancas, amarelas, prateadas, cor-de-rosa, vermelhas, azuis… Um dia foram à procura de Deus, Senhor de todo o universo, e disseram-lhe: «Senhor, gostaríamos de viver na terra, no meio dos homens». «Seja como quereis», respondeu Deus. «Podeis descer à terra. Conservar-vos-ei pequeninas, como sois vistas pelos homens».

 3. Conta-se que, naquela noite, houve uma deslumbrante chuva de estrelas. Acoitaram-se umas nas montanhas, enquanto outras se instalaram no meio dos brinquedos das crianças. Certo é que a terra ficou maravilhosamente iluminada.

 4. Algum tempo depois, porém, as estrelas resolveram abandonar a terra, e voltaram para o céu. A terra ficou outra vez escura e triste. «Por que voltastes?», perguntou Deus. Então as estrelas responderam: «Senhor, não aguentámos permanecer no meio de tanta miséria, violência, guerra, fome, doença, morte». Ao que Deus terá retorquido: «Tendes razão, estais melhor aqui no céu, em que tudo é sossego e perfeição, ao contrário da terra em que tudo é transitório e mortal».

 5. Depois de todas as estrelas se terem apresentado e de ter conferido o seu número, Deus anotou: «Mas falta aqui uma estrela; ter-se-á perdido no caminho?» Ao que um anjo, que estava por perto, respondeu: «Houve uma estrela que resolveu ficar na terra, porque pensa que o seu lugar é exactamente no meio da imperfeição, onde as coisas não correm bem». «Mas que estrela é essa?», perguntou novamente Deus. E o anjo respondeu: «por coincidência, Senhor, era a única estrela daquela cor». «Qual é a cor dessa estrela?», insistiu Deus. O anjo respondeu: «Essa estrela é verde, da cor da esperança».

 6. Olharam então para a terra, mas a estrela verde, da esperança, já não estava só. A terra estava outra vez iluminada, com luzes em todas as janelas, porque ardia uma estrela no coração de cada ser humano. A esperança, diz a tradição hebraica, é o único sentimento que o ser humano possui, e Deus não, porque, conhecendo o futuro, Deus já não espera. A esperança é própria do ser humano, que é imperfeito, que erra e que não sabe como será o dia de amanhã.

 7. Meu irmão de Setembro, rezo para que brilhe cada vez mais a estrela da esperança que arde em ti e na tua casa. E a nossa terra pode ser mais céu.

 António Couto


I HAVE A DREAM (28 de Agosto de 1963)

Agosto 28, 2009

 

1. Sentado à porta de Setembro ou de um novo ano de trabalho (na verdade,188 em termos agrícolas, escolares, pastorais, políticos e outros, o ano começa em Setembro), tenho ainda nos ouvidos a música e a letra do sonho de Martin Luther King, dito em Washington há 46 anos, em 28 de Agosto de 1963, perante 250 mil pessoas, no final de uma grande marcha cívica pelos mais belos ideais do ser humano: a igualdade, a liberdade, a fraternidade. Não posso também deixar de ter diante de mim o sonho corajoso de Sérgio Vieira de Melo, que um atentado vitimou em Bagdad, em 19 de Agosto de 2003, e de tantos homens e mulheres, a maioria anónimos, que lutaram e lutam por um mundo menos violento e mais fraterno.

 2. No seu belo sonho, Martin Luther King ousava antever a América e todos os povos da terra sentados à volta da mesa comum da fraternidade. Porém, no dia 4 de Abril de 1968, uma bala atravessou Martin Luther King. Mas não atravessou o sonho, que já, entretanto, ardia em muitos corações benevolentes. O mesmo se diga de Sérgio Vieira de Melo e de todos os homens e mulheres de boa vontade.

 3. O sonho continua certamente. Mas as primeiras páginas deste século XXI, escritas em doses elevadas, letais, de ódios e vinganças, trouxeram à tona o que de pior há no ser humano, e constituem uma forte machadada no sonho da fraternidade.

 4. Temos de ser pacientes e persistentes. Um sonho assim sempre ardeu no coração humano, mas também sempre foi fustigado pelos tiranos de ontem e de hoje que, com tempestades de ódios e de armas, pretendem impor aos outros o pesadelo dos seus interesses.

 5. Nesse sentido, o livro de Daniel apresenta, no Capítulo 2, o sonho-pesadelo paradigmático do tirano Nabucodonosor, que em sonhos viu uma estátua enorme, que tinha a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coixas de bronze, as pernas de ferro e os pés de barro. E depois de ter a visão desta estátua imponente e rica, mas pesada e imóvel como todas as estátuas, viu logo uma pedrinha que, deslocando-se da montanha e rebolando, veio embater contra os pés de barro da imponente estátua. O resultado foi que logo se pulverizaram os seus pés de barro, pulverizando-se de seguida, para espanto medonho do tirano Nabucodonosor, também o ferro, o bronze, a prata e o ouro.

 6. O tirano percebeu que era ele próprio que se estava a desmoronar. E já nem conseguia dormir durante a noite com um tal pesadelo na cabeça. O profeta confirmou que todos os ódios e prepotências se desmoronam. É só uma questão de dias. Não duram sempre os luxos e os lucros, os ódios, o poder e a ganância. Virá sempre um dia em que serão declarados inúteis os instrumentos de guerra e de poder. Como igualmente inúteis são (nós é que pensamos pouco nisso) a nossa pretensa importância, os títulos que ostentamos, o ouro e a prata que amealhamos. E, por isso, diz outra vez o profeta, «das espadas forjarão arados, e das lanças tesouras para podar» (Miqueias 4,3). E que será feito dos dólares e dos euros?

 7. Este sonho-pesadelo representa bem esta sociedade rica e pesada, luxuosa e luxuriosa, com a cabeça cheia de megalomanias de poder e de ganância, e que aperta nos seus braços prateados o mais que pode. O bronze e o ferro retratam as armaduras com que nos equipamos para as nossas pequenas-grandes guerras de todos os dias.

 8. Oh quanto vale uma cabeça cheia de bom senso, um coração de carne, um ventre de misericórdia! Não pensamos suficientemente nisso, mas chega a ser de uma comicidade extrema a seriedade com que nos agarramos às coisas deste mundo! Se, como diz o poeta, «o sonho comanda a vida», então, entre sonho e sonho, escolhe o sonho certo, meu irmão sentado à porta de Setembro!

 António Couto


O IMPÉRIO DE NARCISO OU A CENA TODA PARA MIM E EU SEMPRE EM CENA

Agosto 20, 2009

 

1. Sim, Don Juan morreu. E o nosso tempo está agora marcado pela figura muito mais preocupante de Narciso. Segundo a mitologia grega, Narciso, filho do rio Céfiso e da ninfa Liríope (lírio), era um jovem de tão extraordinária beleza, que todas as ninfas se apaixonavam por ele. Ele, porém, não atendia ao amor de nenhuma delas. Foi assim que a ninfa Eco, por não o conseguir seduzir, morreu de fome e inanição, ficando transformada numa pedra, contra a qual esbarram os sons que emitimos de que ouvimos um simples eco. Tirésias, o adivinho cego, tinha predito que Narciso viveria enquanto não visse a sua própria imagem. E foi assim que Narciso, um dia em que voltava da caça e se debruçou sobre um poço de águas límpidas para beber, ficou de tal modo apaixonado pela sua própria imagem reflectida na água, que se consumiu de amor por si próprio, acabando também ele por morrer ali de inanição, ficando transformado na flor que tem o seu nome.

 2. Mas não vamos agora entrar pelo lado meramente psicológico ou psiquiátrico de Narciso, mas pela própria cultura de Narciso que gerou esta «era do vazio» ou da «globalização», também conhecida como «civilização das redes», que é a era da internet, do telemóvel, dos hipermercados, da proliferação de rádios, televisões, reality shows, telenovelas da vida real.

 3. É assim que a internet e o telemóvel nos prendem e fazem de nós verdadeiros senhores e senhoras; é assim que, ao entrar no hipermercado, nós somos habilmente estimulados a ocupar o centro da cena: ao proporem-nos coisas demais (tanta coisa por onde escolher), colocam-nos habilmente na situação de decidir mais, de sermos mais nós, de nos darmos mais importância. É natural que nos sintamos lá bem.

 4. E por detrás da proliferação de rádios e televisões, big brothers e toda a espécie de «directos» que permanentemente reclamam a nossa opinião via SMS ou outra, está a habilidade de nos transformarem todos em actores e espectadores de nós mesmos – muitas vezes o destinador torna-se o seu principal destinatário –, e em que o que importa é o próprio acto de comunicação e não a natureza ou o conteúdo do que se comunica. Cria-se assim a «consciência telespectadora», captada por tudo e por nada, ao mesmo tempo excitada e indiferente e vazia, e habilmente estimulada a tornar-se interveniente e interactiva, emitindo opiniões que somos sempre habilmente levados a pensar que podem ser geniais, decisivas e premiadas!

 5. Na escola de hoje, a consciência do aluno é em tudo análoga à «consciência telespectadora», programada para a dispersão e não para a concentração, para o temporário e não para o voluntário. O aluno não é mais um sujeito passivo, a quem o professor (antiquado) debita os conteúdos adequados. É, antes, sujeito activo e interactivo, que deve ser habilmente estimulado (e esta é agora a tarefa do professor competente) a escrever ele mesmo o livro com os conteúdos que deve aprender. É por isso que o livro, dito verdadeiramente pós-moderno, já não tem texto nem autor. Contém apenas as notas de rodapé, e, no corpo da página, à maneira de texto, as chamadas de nota: «1, 2, 3, 4, 5…». A ideia é clara: entrámos no tempo da literatura interactiva, em que o livro não vem já escrito, mas é para escrever, reescrever, completar… pelo leitor.

 6. Nesta «era do vazio» (Gilles Lipovetsky) e do «fragmento» (Jean-François Lyotard), nesta «modernidade líquida» (Zygmunt Bauman), é o mundo do «eu» que sai vitorioso, e tudo se traduz em zelar pela própria saúde, beleza e forma física, preservar o poder económico ou a imagem dele, perder os complexos, esperar que chegue o fim-de-semana ou as férias. Eu debruçado sobre mim mesmo, fascinado pela minha imagem por mim fabricada (é o chamado «amor curvus», com que na Idade Média se designava o pecado!). Uma vaga de apatia assola as instituições, desde a família, à escola, à política, à igreja. Narciso impera seduzido pelo seu próprio ídolo. Mal nos apercebemos disto, tão ocupado anda cada um de nós consigo mesmo e a sua imagem.

 António Couto


ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA

Agosto 14, 2009

 

1. Ainda que com títulos diferentes, mas com temas e conteúdos assunçãoidênticos, as Igrejas do Oriente e do Ocidente, portanto a Igreja toda, a Una e Santa, celebra no dia 15 de Agosto a maior e mais antiga festa da Mãe de Deus, a Virgem Santa Maria. No Oriente, é a festa da «Dormição» (koímêsis), enquanto que, no Ocidente, prevalece a tonalidade da «Assunção» (análêmpsis).

 2. O Evangelho deste grande Dia relata o belíssimo episódio da «Visitação» (Lucas 1,39-45) seguido do cântico da «Exultação» ou «Magnificat» (Lucas 1,46-56). Note-se outra vez uma pequena diferença de tonalidade: o episódio que o Ocidente conhece por «Visitação», recebe no Oriente o nome de «Saudação» (aspasmós). E o episódio que precede e motiva esta «Visitação» ou «Saudação» recebe no Ocidente o nome de «Anunciação» e no Oriente o nome de «Evangelização» (euangelismós) (Lucas 1,26-38). Verdadeiramente é a Leveza e a Alegria em trânsito, a caminho, ao ritmo do vento do Espírito, música nova, inefável. Vinda de Deus até Maria, até Isabel, até João Baptista, outra vez até Deus. Lembra uma pequena parábola rabínica que, quando David andava fugido de Saul, buscando refúgio nas montanhas (1 Samuel 22 e seguintes), um dia dependurou a sua harpa numa árvore, e adormeceu. Mas o vento, passando, fez as cordas da harpa exalar uma suave melodia. Verdadeira música do Espírito.

 3. É igualmente sugestiva a intuição dos Mestres judaicos, registrada por Martin Buber nos seus «Contos dos Justos». Citando o Salmo 147,1, em que se lê: «É bom cantar ao nosso Deus», Buber apresenta logo a bela interpretação que Rabbí Elimelek dava deste versículo: «É bom se o homem faz cantar Deus nele». Assim Maria correndo sobre os montes e saudando Isabel e cantando as maravilhas de Deus, assim Isabel bendizendo Maria e bendizendo Deus, assim João Baptista, dançando ao som dessa nova música inefável, no ventre de Isabel.

 4. O que verdadeiramente me extasia e inebria é esta música outra, ventilando as cordas do nosso humano, e quase sempre orgulhoso, coração. Vem outra vez a propósito a velha sabedoria judaica, que nos legou esta bela pequena história: «Conta-se que, quando David terminou o Livro dos Salmos, se sentiu muito orgulhoso. Então disse a Deus: “Senhor do mundo, quem de entre todos os seres que criaste, canta melhor do que eu a tua glória?” Naquele momento, apareceu uma rã que lhe disse: “David, não te envaideças. Eu canto melhor do que tu a glória de Deus”» (Sefer ha-Haggadah, 89b).

 5. Pela Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1 de Novembro de 1950, o Papa Pio XII proclamava a Assunção da Virgem Maria como dogma de fé. Mas é desde os primeiros séculos do Cristianismo que o Povo de Deus proclama e vive com amor esta realidade. Quantas igrejas, paróquias e dioceses a têm como Padroeira! E, neste particular, este recanto Peninsular, terra de Santa Maria, não podia ser excepção. O Povo de Deus desde muito cedo aclamou a Assunção de Maria, Mãe de Deus e esperança da nossa frágil humanidade.

 6. No seguimento lógico da Assunção de Maria, a Igreja celebra oito dias depois, em 22 de Agosto, a Memória da Virgem Santa Maria, Rainha. Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos. O Rei e a Rainha não são, na Bíblia, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo dos homens. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar e a felicidade. Tal é a função do Rei e da Rainha.

 

7. Senhora da Visitação ou da Saudação,

que corres ligeira sobre os montes,

Senhora da Assunção ou da Dormição,

Santa Maria Rainha,

vela por nós, fica à nossa beira.

É bom ter a esperança como companheira.

 

 António Couto


RECEPTORES E RECITADORES

Agosto 13, 2009

 

1. Assiste-se hoje à recuperação do pré-racional (pré-temático, pré-conceptual, pré-lógico, pré-sistemático), que não quer dizer irracional nem sequer menos racional, mas uma nova e mais profunda racionalidade, anterior e fundamento de qualquer outra racionalidade, seja a teórico-sistemática, seja a científico-técnica. De facto, o século XX levou a tribunal o saber filosófico e científico que orgulhosa e ilusoriamente se dizia sem filiação, afirmando-se antes incestuosa e tautologicamente filho de si mesmo, como requer o célebre cogito ergo sum [= eu penso, logo existo] cartesiano. Não, eu não sou a origem, o senhor e o centro do mundo. Quando dou por mim a pensar, já tenho coisas atrás, já estou sempre depois do meu nascimento, já tenho um pai e uma mãe, já sou filho. E reconhecer-me filho é descobrir-me como recepção originária da vida, proveniente de um amor que me precede.

 2. Neste sentido, eu sou fundamentalmente e originariamente recepção, dom, e não acção, dono. O «novo pensamento», assim denominado pela primeira vez por Franz Rosenzweig (1925), e que junta nomes como Ebner, Buber, Guardini, Levinas e outros, opera no sujeito humano uma alteração fundamental, de modo a mostrá-lo, não já como protagonista, dono e senhor, mas como submetido, segundo o étimo originário de sujeito [de sub-jectum = posto debaixo], como «eis-me aqui» passivo e receptivo, que descobre a realidade, não já como objecto de posse para «prender» e «com-preender», mas como dom que outras mãos amorosamente estendem para si.

 3. É a maneira de dizer que, antes de eu dar por mim a pensar e a dizer, já o Outro e os outros cuidam de mim e me dizem. Sou verdadeiramente filho e sou dito. Sou afectado (de afecto, afectividade) pela alteridade. Ser eu, identificar-me, não é autoconstituir-me como fundamento único de tudo. Ser eu é fundamentalmente receber-me. Eu, não a partir de mim, mas a partir do Outro e dos outros. «Ser eu é ser afectado» (Julia Kristeva, Emmanuel Levinas), «ser pensado»: de cogito ergo sum para cogitor ergo sum (Karl Barth), «ser dito» (Romano Guardini), «ser visitado» (Adolphe Gesché), «ser encontrado» (Ferdinand Ebner), «ser dado» (Claude Bruaire), «ser amado» (Carlos Díaz). Está em cena, portanto, um «novo saber». Não o saber de quem conhece o sal só pela via racional, através da sua definição conceptual, em que o sujeito exerce em relação ao objecto-sal a sua soberania de «com-preensão», mas o saber de quem passivamente sofre a acção do sal, saboreando-o, isto é, deixando-o saber. Novo pensamento, novo saber, novo conhecimento ou reconhecimento no duplo sentido de conhecimento novo e de eu me mostrar reconhecido, isto é, agradecido face ao dom que me precede e me institui, e em virtude do qual e por causa do qual eu existo.

 4. Outra vez o confronto sadio. Nós, ocidentais e modernos, descartamos facilmente o passado (não queremos ter velharias em casa, quer se trate de pessoas quer de coisas), e gostamos de nos ver mais voltados para o futuro. E quando dizemos «futuro», é à nossa frente que o vemos. Vivemos voltados para a frente e para o futuro. Somos modernos e ocidentais. Significativa e paradoxalmente, na língua hebraica, que é a língua do povo bíblico, «futuro» diz-se ’aharît, termo que etimologicamente significa «costas» ou «o que está atrás», e «passado» diz-se qedem, que significa também o «oriente», donde nasce o sol por onde nos orientamos. Quer isto dizer que, enquanto que nós vivemos voltados para o futuro e viramos completamente as costas ao passado, o povo bíblico, de língua e mentalidade hebraicas, vive voltado para o passado que é o oriente por onde continuamente se orienta, caminhando, portanto, para o futuro, de costas. Neste sentido bíblico genuíno, o futuro não é o que está à nossa frente, mas o que está atrás de nós. Não o vemos, portanto. Temos de caminhar com todos os cuidados. E como é que se caminha para o futuro, isto é, para trás, literalmente «às arrecuas», de forma cautelosa e segura? Só guiando-nos pelo fio do passado, que devemos ter sempre na mão e que nunca podemos perder de vista!

 5. Nós desprezamos e descartamos o passado. O povo bíblico ama o passado e recita-o com amor, pois ele apresenta-se carregado de dons que outras mãos carinhosamente estendem para nós. Somos, de facto, fundamentalmente receptores e recitadores! Recompõe-te, refaz-te, pacifica-te, renova-te, isto é, recebe-te e recita-te com amor, meu irmão de Agosto. Boas férias!

 António Couto


FÉRIAS DIFERENTES: VAI PARA TI!

Agosto 2, 2009

 

1. Há uma temática que atravessa em filigrana a inteira Escritura: a temática do eleito, abençoado e portador de bênção para todos os povos, peregrino da liberdade, chamado a deixar-se transformar em «outro homem». É nesse sentido que lemos habitualmente o início do extraordinário relato de Abraão em Génesis 12:

 «12,1Disse o Senhor a Abrão: “Vai para ti (lek-leka) do teu país, da tua parentela e da casa do teu pai, para o país que eu te farei ver. 2E eu farei de ti um grande povo e te abençoarei e engrandecerei o teu nome. Sê uma bênção! 3Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. E serão abençoadas em ti todas as famílias da terra”» (Génesis 12,1-3).

 2. Movido pela Palavra de Deus, único verdadeiro motor da sua vida, Abraão parte do seu país e da casa do seu pai. Mas não se trata de uma viagem no mapa. Não é meramente da ordem da geografia. É da ordem suprema da pessoa e da liberdade. Note-se bem que o texto não diz simplesmente: «Vai (lek) do teu país», mas «Vai para ti (lek-leka) do teu país», especialíssima locução que a gramática hebraica classifica como «dativo ético». Viagem diferente, que implica um trabalho de casa, dentro da própria casa, dentro da própria pessoa, trabalho de libertação para a liberdade, até nos fazermos verdadeiramente livres, abertos, disponíveis, acolhidos, acolhedores, abençoados, abençoadores.

 3. É ainda nesse sentido que Abraão é chamado «o hebreu» (ha-‘ibrî) (Génesis 14,13). ‘ibrî reporta-se a ‘eber, que significa «margem». Ele vem do «outra margem do Rio» (Josué 24,3). Mas reporta-se também a ‘abar, que significa «passar», «atravessar», «ir além de», «converter-se», «abrir uma passagem», «transferir», o que implica um movimento ao mesmo tempo objectivo e subjectivo, activo e passivo. Abraão é o homem que atravessa fronteiras, mas é sobretudo o homem que se atravessa a si mesmo.

 4. Partir do haver para o a-ver. Do país havido (podemos haver terra, coisas e pessoas) para o país prometido, país a-ver. Não para o nosso ver cobiçoso e invejoso, bem documentado em Génesis 3,6, naquele paratáctico e fatal: «e viu a mulher que era boa a árvore para comer, e um desejo ardente para os olhos, e era desejável a árvore para obter inteligência, e tomou do seu fruto, e comeu, e deu também ao seu marido, que estava com ela, e ele comeu», mas para o como Deus nos faz ver, documentado também em Moisés (Deuteronómio 34,1 e 4), a quem Deus faz ver a Terra Prometida, não para a possuir (haver), mas para a receber como um dom, não com olhos cobiçosos e invejosos, mas de bondade e benevolência, não com mãos que se fecham e retêm, mas com mãos que se abrem e recebem e dão. Explorando bem esta dupla simbologia das mãos, a língua hebraica tem mesmo duas palavras para dizer mão: yad = mão fechada, e kaf = mão aberta (palma da mão).

 5. Do país das «coisas-em-si» para o país das coisas através de Deus. Do país sem bênção e sem dom para o país com bênção e com dom. A diferença entre um hebreu ou um cristão e um pagão, é que o pagão [do latim pagus = estaca que fixamos na terra para demarcar o nosso terreno] usa o mundo como coisa sua, sem bênção, enquanto o hebreu e o cristão vêem o mundo não como «uma-coisa-em-si», mas «através de Deus», com bênção. Um objecto não é a sua forma, dimensão, preço, cor, força e movimento, mas um acto intencional de Deus. É sintomático que o hebraico bíblico não conheça um equivalente do nosso termo «coisa». De facto, a palavra dabar, que, no hebraico posterior veio também a significar «coisa», no hebraico bíblico aparece a significar: discurso, palavra, mensagem, relato, notícia, conselho, pedido, promessa, decisão, sentença, tema, história, dito, expressão, afazer, ocupação, accões, boas acções, acontecimentos, modo, maneira, razão, causa, mas nunca «coisa».

 6. O eleito é libertado e abençoado pela Palavra que liberta e abençoa. Livre e abençoado, pode libertar e abençoar. É ainda nesse sentido que Saul vai da casa do seu pai à procura das jumentas perdidas (1 Samuel 9,3), e acaba por ser ungido Rei (1 Samuel 10,1), sendo nessa operação transformado em «outro homem» (’îsh ’aher) (1 Samuel 10,6), com «outro coração» (leb ’aher) (1 Samuel 10,9), isto é, com outra compreensão da vida, dado que, na Bíblia, o coração é o centro da vida espiritual e racional. A viagem de Saul à procura das jumentas perdidas não é uma história inocente. O Rei é o eleito de Deus, abençoado por Deus. Compete-lhe fazer chegar ao seu povo a bênção recebida. Saul, paradigma dos Reis, porque era o primeiro, tinha, pois, uma importante viagem a fazer, na linha de Abraão. Tinha de entrar na rota de Abraão.

 7. Para bom entendedor, esta viagem ao coração, na linha do hóspede e peregrino Abraão, pervade a Bíblia inteira. Ei-la insinuada já no relato que abre o Livro do Génesis, quando o narrador anota que «o homem deixará o seu pai e a sua mãe…» (Génesis 2,24). A não ser assim, nem o texto faz sentido, pois não se vê bem como é que este primeiro homem, modelado da terra (Génesis 2,7), possa deixar o seu pai e a sua mãe!

 8. Mas ei-la também a marcar a viagem da liberdade e do amor verdadeiro da noiva do Cântico dos Cânticos. Para espanto nosso, lemos assim o dizer do noivo para a noiva: «Levanta-te, amada minha,/ formosa minha,/ vai para ti!» (Cântico dos Cânticos 2,10). Também o amor tem de andar na rota de Abraão.

 9. Vê-se bem que o cristão verdadeiro não deixa nada nem ninguém. Vê é as coisas e as pessoas com olhos diferentes, com «outro coração», com bênção, através de Deus. Libertado e abençoado, pode libertar e abençoar. Faz-nos, Senhor, viajar na nova estrada que rasgas, com a Tua Palavra, rumo ao nosso coração, rumo a Ti!

 10. «Vai para ti do teu país» implica receber-se de Deus, implica ser homem, homem livre, feliz e responsável. Já sei que é tempo de férias, e de viagens. Para dizer que se pode passar férias em Portugal, sem necessidade de viajar para o estranjeiro, anda por aí o slogan: «Vá para fora cá dentro». A minha proposta é de outra ordem, da ordem da pessoa e da liberdade: andes por onde andares, estejas onde estiveres, «vai para ti», meu irmão de Agosto!

 António Couto


TEMPO DE VERIFICAÇÃO: EU ACREDITO!

Julho 30, 2009

 

Publico hoje uma carta de uma jovem mãe de três filhos e catequista, de seu nome Maria Pia Fontes, de origem espanhola, mas há muito a residir em Portugal, que narra a bela aventura que foi percorrer os caminhos transitivos e intransitivos de S. Paulo, com outros catequistas e muitos jovens formandos, que se foram deslumbrando com o Apóstolo e aprendendo com alegria e paixão a dizer e a viver de outra maneira a sua fé. A carta, chegada por e-mail, vem seguida de uma série de fotografias, que aqui não incluo para não tornar a página demasiado pesada. Dou-lhe aqui o devido relevo, porque penso que é este o caminho de levar a juventude a enamorar-se por Cristo. Porque penso que este tipo de experiências pode ser muito enriquecedor para outras escolas de pedagogia da fé, e para alguém que queira entrar em contacto com ela, deixo aqui, pedindo-lhe desculpa, o endereço electrónico da Dr.ª Maria Pia Fontes: piafontes@gmail.com. Quem preferir, também pode responder para este site, no sítio habitualmente destinado a comentários.

António Couto

 «Caro Dom António,

Acabada de chegar dos “campos de descoberta” da paróquia, não podia deixar de agradecer tudo aquilo que recebi.

Depois de “rezar as suas aulas”, a equipa de cooperadores embarcou, com mais uns 150 jovens (dos 12 aos 18 anos), numa aventura cheia de peripécias, num inter-rail especial e espiritual por Tessalónica, Roma, Filipos, Corinto, Galácia. Encontrámos também o amigo Filémon… O objectivo era “não dissecar São Paulo em tranquilas ideias teológicas, seguramente redutoras, mas acompanhá-lo pelos caminhos poeirentos da sua vida”.

Não imagina o espanto que foi nascendo naqueles jovens à medida que iam construindo o seu dicionário com Deus, encontrando uma nova gramática para narrar a sua vida de cristãos! Pela mão de São Paulo encontraram novos significados para palavras que utilizavam, e lhes eram de todo indiferentes, como fé, graça, misericórdia, liberdade, esperança, o caminho que ultrapassa todos… Todos os dias o amigo Paulo enviava uma carta endereçada a cada um deles com o seu nome…

Aprenderam a ler e a ouvir a Cruz, e isso foi uma grande reviravolta para muitos… Aprenderam a ser filhos. Aqui vai um pequeno excerto da oração preparada por eles:

 “Ser filho é reconhecer que a vida é um presente enorme e que não podemos guardá-la para nós. Há muitos egoísmos por vencer, muitos livros que enchemos de reclamações a rasgar, para que possamos aprender a ser filhos. Aprender a ser filho é passar da reclamação à entrega, do acumular ao dar-se. Num mundo que vive a crise do excesso, do desejo de acumular, é um enorme desafio aprender a gratuidade, é um enorme desafio ser mãe, ser pai e ensinar a ser filho.

Jesus ouviu a voz do Pai. Experimentou o Seu amor gratuito. Reconheceu que a vida é um enorme presente e não a guardou para Ele. Deu-a até ao fim, soberanamente, para todos e para sempre.

É assim que nos salva. Por isso, para nós, cristãos, a Cruz é também uma festa, uma oportunidade de regresso a casa. Por isso, tanto balão, um por cada animado e animador que está neste campo. Por isso também o “Cristo do Sorriso!”.

Dom António, por tudo aquilo que me ajudou a descobrir, MUITO OBRIGADA!»

mpiafontes


«ONDE COMPRAREMOS PÃO…»

Julho 25, 2009

1. Configuração do texto

«6,1Depois disto, partiu (apêlthen: aor2 de apérchomai) JESUS para anuevo12 outra margem do mar (péran tês thalássês) da Galileia ou de Tiberíades. 2Seguia-o (êkoloúthei: impf. de akolouthéô) agora uma MULTIDÃO GRANDE (óchlos polýs), porque VIAM (etheôroun: impf. de theôréô) os sinais (tà sêmeîa) que fazia (epoíei: impf. de poiéô) nos doentes. 3Partiu então JESUS para a montanha, e lá se sentava (ekáthêto: impf. de káthêmai) com os seus DISCÍPULOS.

                                  4Estava próxima a Páscoa, a festa dos JUDEUS.

 5Levantando então JESUS os olhos, e VENDO (theasámenos: part. aor. de theáomai) que uma MULTIDÃO GRANDE vem para ele, diz a FILIPE:

               “ONDE (póthen) COMPRAREMOS (agorázô) pão para que eles comam?”

 6Isto, porém, dizia, para o pôr à prova, pois, na verdade, ELE sabia o que ia fazer.

7Respondeu-lhe FILIPE: “Duzentos denários de pão não são suficientes para que cada um deles receba (lambánô) um bocadinho”.

8Diz-lhe um dos seus DISCÍPULOS, ANDRÉ, o irmão de Simão Pedro: 9“Está aqui um RAPAZITO (paidárion) que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos (opsária); mas o que é isto para tanta gente?”

10Disse JESUS:

               “Fazei as PESSOAS (ánthrôpoi) reclinar-se (anapíptô)”.

 Havia MUITA ERVA (chórtos) naquele lugar. Reclinaram-se então os HOMENS (ándres) em número de cerca de cinco mil. 11RECEBEU (élaben: aor2 de lambánô) então JESUS os pães, e, TENDO DADO GRAÇAS (eucharistêsas: part. aor. de eucharistéô), DISTRIBUIU (diédôken: aor. de diadídômi) aos que estavam reclinados, e o mesmo fez com os peixinhos, tanto quanto queriam.

12E quando foram saciados (eneplêsthêsan: aor. pass. de empímplêmi), diz aos seus DISCÍPULOS:

 “Recolhei (synágô) os pedaços que sobraram (perisseúô), para que não se perca nenhum”.

 13Recolheram então e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada que sobraram (perisseúô) dos que tinham comido.

14Então as PESSOAS (ánthrôpoi), VENDO (idóntes: part. aor2 de horáô) o sinal (sêmeîon) que ele tinha feito, diziam: “Este é verdadeiramente o profeta, o-que-vem-ao-mundo (ho erchómenos: part. pres. de érchomai) eîs tòn kósmon”.

15Então JESUS, sabendo que estavam para vir buscá-lo para o fazer rei, retirou-se novamente, só (mónos), para a montanha» (Jo 6,1-15).

 2. Tempo de leitura

Como dissemos no último Comentário a Marcos 6,30-34, durante os próximos cinco Domingos (desde o Domingo XVII ao Domingo XXI) proclama-se no Evangelho (sempre proclamado; nunca lido) da liturgia dominical o grande texto de João 6. Marcos só será retomado no Domingo XXII, em 30 de Agosto. Para efeitos práticos e para uma melhor articulação e compreensão, aperesentamos aqui uma leitura do inteiro texto de João 6, que iremos saboreando ao longo destes cinco Domingos. O texto de João 6 pode dividir-se em seis Partes: a primeira Parte, que funciona como Introdução ou preparação do cenário, engloba os vv. 1-4 e apresenta as personagens (Jesus, uma grande multidão, os discípulos), o lugar (na «outra margem do mar da Galileia», na «montanha») e o tempo («estava próxima a Páscoa dos judeus»); a segunda Parte, que se estende pelos vv. 5-15, abre com uma pergunta pedagógica de Jesus dirigida a Filipe («Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?»), não correctamente respondida por Filipe e André, mas resolvida por Jesus; a terceira Parte, que compreende os vv. 16-21, mostra-nos os discípulos a atravessar, no escuro, o mar encapelado, e Jesus vindo ao seu encontro caminhando sobre o mar; a quarta Parte, entre os vv. 16-22, apresenta-nos um novo começo, no dia seguinte, mostrando-nos a multidão que nota a ausência de Jesus e parte à sua procura para Cafarnaum; a quinta Parte, que compreende a longa extensão de texto entre os vv. 25-59, traz para a cena a importante discussão, travada entre Jesus e a multidão ou os judeus, sobre o pão vindo do céu; a sexta Parte, que contempla os últimos versículos (vv. 60-71), estende a discussão aos discípulos, mostrando a deserção de muitos (vv. 60-66), em contraponto com a confissão de fé de Pedro (vv. 67-71)[1].

 Dois Capítulos à frente de Jo 4, em Jo 6[2], diz-nos o narrador que Jesus subiu à montanha, que se sentou lá com os seus discípulos, e que uma grande multidão acorria a Jesus (Jo 6,3 e 5). É nessas circunstâncias que Jesus retoma o tema do alimento. Descendo agora ao nível dos discípulos, Jesus diz a Filipe: «Onde (póthen) compraremos (agorázô) pão para que eles comam?» (Jo 6,5). De facto, o verbo «comprar» é corrente nos lábios dos discípulos, mas é estranho na boca de Jesus. No cenário anterior, de Jesus e da Samaritana, os discípulos passam quase o tempo todo a comprar, enquanto Jesus fala de dar e dá-se mesmo.

Na chamada «primeira multiplicação dos pães», que podemos ler nos Evangelhos de Mateus e de Marcos, Jesus recusa mesmo a solução de «comprar» (agorázô), avançada pelos discípulos, e propõe a de «dar» (dídômi) (Mt 14,15-16; Mc 6,36-37)[3]. Por que será, então, que Jesus fala agora de «comprar», ainda para mais conjugando o verbo na 1.ª pessoa do plural, Ele incluído: «Onde compraremos»? Mas a questão não é apenas sobre comprar. É sobre «Onde comprar». Face à lógica da misericórdia, da condivisão e da partilha proposta por Jesus, já os discípulos, cépticos, se tinham perguntado: «‘De onde’ (póthen) poderá alguém saciar estas pessoas de pães num lugar deserto?» (Mc 8,4). Esse «Onde» (póthen) já tinha sido ouvido em Jo 1,48, quando Natanael pergunta a JESUS «‘De onde’ (póthen) me conheces?» Será também ouvido em Jo 2,9, em que o narrador nos informa que o chefe-de-mesa «não sabia ‘de onde’ (póthen) era» a água feita vinho. Da mesma forma, Nicodemos também não sabe, acerca do Espírito, «‘de onde’ (póthen) vem nem para onde vai» (Jo 3,8). Tal como a mulher samaritana não sabe ‘de onde’ (póthen) Jesus tira a água viva (Jo 4,11). E as autoridades de Jerusalém confirmam que, «quando vier o Cristo, ninguém saberá ‘de onde’ (póthen) Ele é» (Jo 7,27). E, mais à frente, em polémica com os fariseus, Jesus afirma: «Eu sei ‘de onde’ (póthen) venho; vós, porém, não sabeis ‘de onde’ (póthen) venho» (Jo 8,14). E na cena da cura do cego de nascença, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos ‘de onde’ (póthen) é» (Jo 9,29), ao que o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso: vós não sabeis ‘de onde’ (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (Jo 9,30). Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a questão posta por Pilatos: «‘De onde’ (póthen) és TU?» (Jo 19,9)[4]. E, no Evangelho de Lucas,  Isabel também exclama: «‘De onde’ (póthen) a mim isto: “Que venha a mãe do meu Senhor ter comigo?”» (Lc 1,43). E, no Evangelho de Marcos, como no de Mateus, os conterrâneos de JESUS, apontando as Suas humildes e bem conhecidas raízes geográficas e familiares[5] que, na mentalidade antiga, determinam a identidade e a capacidade da pessoa[6], exclamam acerca d’ELE: «‘De onde’ (póthen) a ESTE estas coisas, e que sabedoria é esta a ESTE dada, e os prodígios que pelas mãos d’ELE vêm?» (Mc 6,2; cf. Mt 13,54.56).

Retornando à pergunta feita a Filipe: «Onde comparemos pão para que eles comam?» (Jo 6,5), o narrador anota outra vez com perspicácia que Jesus disse isto para pôr Filipe à prova, pois bem sabia o que havia de fazer (Jo 6,6). Com esta anotação, o narrador deixa-nos declaradamente perante uma pergunta pedagógica, pelo que ficamos à espera de saber se Filipe reúne ou não competência para resolver o problema.

Não temos de esperar muito tempo. Filipe é rápido a fazer contas, e diz logo que duzentos denários[7] de pão não chegam para que cada um receba ainda que seja só uma migalhinha (Jo 6,7). O leitor atento, mas incauto, é com certeza levado a concordar com Filipe. Se a pergunta é: «Onde comprar pão», o leitor pensará logo certamente como Filipe no dinheiro e no shopping. E será também levado a concluir que, para tanta gente, feitas as contas em termos de mercado, pouco ou nada haverá a fazer. Mas o «leitor implícito» ou «leitor modelo», que a análise narrativa ou narratologia define como aquele que está apto a fazer as operações mentais e afectivas que o mundo do relato dele requer, terá certamente estranhado que Filipe se tenha deixado levar tão depressa pelo verbo «comprar» da pergunta de Jesus[8], dado que se trata de um verbo que Jesus não só não usa, como até recusa.

André, que estava ali ao lado e que também terá ouvido a pergunta, passa a Jesus a informação preciosa de que havia ali um rapazito (paidárion)[9] que tinha cinco pães de cevada e dois peixinhos, mas apressou-se logo a minar a utilidade do achado, dada a imensa desproporção entre tão pouco alimento e tanta gente (Jo 6,8-9). Se a lógica de mercado de Filipe o levou – e a nós com ele – a desistir rapidamente de apresentar uma solução positiva à pergunta de Jesus, a lógica de André levou-o – e a nós outra vez também com ele – a desvalorizar os dons que descobrimos nos outros, nomeadamente nos nossos irmãos mais pequeninos.

Parece agora claro para o leitor que a pergunta de Jesus: «Onde compraremos pão para que eles comam?», não obteve de Filipe a resposta adequada, e que a ajuda de André tão-pouco se terá revelado satisfatória.

Filipe ouviu a pergunta de Jesus. E André, pelos vistos, também a ouviu. Mas nem Filipe nem André sabiam que se tratava de uma prova. Só o leitor o sabe, porque foi disso informado pelo narrador. E então a pergunta agora é: e eu e tu, leitores informados, será que sabemos resolver a questão que Filipe e André deixaram sem resposta? Ou será que preferimos prestar toda a nossa atenção ao desempenho de Jesus, dado que também fomos informados de que ele sabia bem o que havia de fazer? A acção de Jesus reclama a nossa atenção.

 Soberanamente, Jesus, que bem sabia o que havia de fazer, ordenou àqueles discípulos, com certeza estupefactos, que fizessem reclinar (anapíptô) as pessoas (ánthrôpoi) para comer (Jo 6,10). O verbo usado, anapíptô, implica mesmo dispor-se à mesa para comer[10]. O narrador anota agora que «os homens (ándres) eram em número de cerca cinco mil», a que acrescenta a sugestiva anotação de que «havia muita erva (chórtos) naquele lugar» (Jo 6,10). Depois, Jesus, que preside à mesa, RECEBEU (lambánô) os pães, e TENDO DADO GRAÇAS (eucharistéô), DISTRIBUIU-OS (diadídômi) ele mesmo[11] aos que estavam reclinados à mesa (anakeiménois), e o mesmo fez com os peixinhos, tanto quanto queriam (Jo 6,11). Ficámos a saber que Jesus recolheu a informação preciosa de André acerca dos pães e dos peixinhos do rapazito, e que, ao contrário de André, não os depreciou. E quando todos foram saciados (eneplêsthêsan)[12], Jesus, que preside à mesa, deu ordens aos seus discípulos para que reunissem (synágô) os pedaços que sobraram (perisseúô). Note-se que o verbo usado para dizer «sobrar» é o verbo perisseúô, que implica o excesso que ultrapassa toda a medida e a abundância que transborda, tornando curtas todas as normas e regras[13]. É assim normal que o narrador nos informe de que, com os pedaços que sobraram, os discípulos encheram doze cestos (Jo 6,12-13), símbolo da plenitude transbordante e inesgotável[14].

De notar que, aos olhos atónitos dos discípulos e dos nossos, Jesus não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas de «divisão» e «com-divisão», «partilha» dos pães! O milagre de Jesus – aquilo que suscita surpresa e maravilha – não consiste em aumentar a quantidade do pão (que permanece a mesma), mas em abrir os olhos aos seus discípulos e a nós que, como cegos, só conhecemos e pensamos na lógica do vender e do comprar, e não chegamos a saborear a lógica da gratuidade, que é a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus. Entrar nesta lógica é acreditar na força do dom, e ir por este mundo consumista, partindo o pão e dividindo-o, com a clara consciência de que onde isto acontecer, não só se instaura o necessário para todos («todos comeram e foram saciados»), mas instaura-se igualmente o «excesso», a superabundância da graça («os discípulos encheram doze cestos»)[15].

A multidão, porém, face ao sucedido, não viu o «excesso», a superabundância da graça (Rm 5,20; 1 Tm 1,14), mas tornou-se apenas materialmente dependente de Jesus, procurando-o por toda a parte (Jo 6,24), como se de verdadeira fonte de rendimento se tratasse (velha lógica consumista). E, quando o encontra no «outro lado do mar» (Jo 6,25)[16], é duramente recriminada por Jesus, com estas palavras solenes: «Em verdade, em verdade, vos digo: “vós procurais-me, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos enchestes (chortázô)”» (Jo 6,26)[17]. E continua: «Trabalhai, não pelo alimento que perece, mas pelo que permanece até à vida eterna» (Jo 6,27).

Pouco depois, Jesus revelará: «Eu sou o pão da vida» (Jo 6,35.48) e «Eu sou o pão vivo descido do céu» (Jo 6,41.51), e retirará daí um rol de consequências em termos da sua carne e do seu sangue dados para a vida do mundo. Jesus compreende então que os judeus e os seus discípulos murmuravam por causa disso (Jo 6,61), e o narrador informa-nos que muitos deles se afastaram de Jesus (Jo 6,66). É então a hora decisiva de Jesus perguntar aos Doze: «Vós também quereis ir embora?» (Jo 6,67), ao que Simão Pedro responderá exemplarmente: «Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6,68).

 O leitor que seguiu atentamente tudo desde o princípio, desde a primeira pergunta pedagógica de Jesus: «Onde compraremos pão para que eles comam?», e que assistiu ao falhanço das respostas dos discípulos, e que terá, porventura, verificado a sua própria incapacidade para responder, e que prestou depois toda a atenção ao desempenho de Jesus, e que viu entretanto a deserção de judeus e discípulos decepcionados, terá com certeza compreendido a última resposta de Simão Pedro: «Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna», como a verdadeira resposta à primeira pergunta pedagógica de Jesus[18]. Com a resposta de Pedro, fica estabelecida a conjunção entre palavra e alimento[19]. Mas falta ainda um agrafo que explique aquele estranho verbo «comprar», estranhamente usado por Jesus. É um trabalho de casa que o leitor competente tem de fazer sozinho. E nem é difícil, pois ele sabe que é preciso conhecer as Escrituras. Percorrendo-as, encontrará esta passagem de Isaías:

 «55,1Todos vós que tendes sede, vinde às águas!/ Vós, que não tendes dinheiro, vinde!/ Comprai (agorázô LXX) cereal e comei!/ Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ 2(…) Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Is 55,1-2).

 Está aqui o elo que faltava: o verbo comprar, significativamente não agrafado com dinheiro[20]. Comprar cereal sem dinheiro. Mas esta lição de Isaías reforça ainda a conjunção entre palavra e alimento, com aquela proposta: «Ouvi-me, ouvi-me, e comei!», que soa também a abrir o Livro do grande profeta: «Se vierdes e escutardes, o melhor da terra (tûb ha’arets) comereis» (Is 1,19), clarificada pelo confronto: «Mas se vos recusardes (ma’na) e vos rebelardes (marah), será a espada que vos comerá» (Is 1,20)[21]. Mas também sai esclarecida ainda aquela disjunção mostrada por Jesus entre «o alimento que perece» e «o que permanece até à vida eterna» (Jo 6,27). O que perece é a «erva» (ou «feno») (chórtos) que compramos com dinheiro e nos cala a boca e enche (chortázô) o estômago (cf. Jo 6,26). O que permanece é a palavra que Deus diz, e que é por nós ouvida, recebida e respondida. Mas esta disjunção, a que podemos agora acrescentar a sugestiva anotação de que «havia muita erva (chórtos) naquele lugar» (Jo 6,10), pode ainda ser melhor explicitada se lermos outro texto de Isaías:

 «40,6(…) Toda a carne é erva (chórtos LXX),/ e toda a sua graça como a flor do campo./ 8Seca a erva (chórtos LXX) e murcha a flor,/ mas a palavra do Senhor permanece para sempre» (Is 40,6.8).

 Os leitores super-competentes, vulgo exegetas, gostam de ver na anotação de que «havia muita erva naquele lugar» a evocação do Sl 23(22),2[22]:

 «23(22),2O Senhor é meu pastor, nada me falta:/ num lugar de ‘erva verde’ (tópos chlóês LXX) me faz repousar».

 Nem reparam que o vocabulário não é o do Salmo.

O leitor instruído nas Escrituras saberá agora responder à estranha pergunta de Jesus: «Onde compraremos pão para que eles comam?» É claramente em Deus.

 Também este cenário transborda de pedagogia. Jesus que, no cenário da Samaritana, desceu ao nível da mulher da Samaria para ganhar a mulher da Samaria, desce agora ao nível dos discípulos para ganhar os discípulos. A iniciativa é sempre de Jesus. Os discípulos tinham ficado na linha do comprar. É aí que Jesus os vai buscar, formulando a pergunta: «Onde compraremos pão, para que eles comam?» Vimos atrás que o verbo «comprar» é estranho na boca de Jesus, mas usual na dos discípulos. Usando agora o verbo «comprar», Jesus desce ao nível dos discípulos. Não, porém, simplesmente para dizer com eles, mas para os levar a dizer com ele. Depois de muitos mal-entendidos e deserções, uma última interpelação de Jesus acaba por lhes dar a oportunidade de se dizerem com Jesus. A multidão é levada pelo interesse meramente material, tornando-se dependente, no mau sentido, de Jesus. É duramente recriminada por Jesus. O leitor encontra, neste cenário, um jogo de muitas surpresas, de muitos olhares. E é o leitor o que mais tem a ganhar, se verdadeiramente entrar no jogo do relato.

 António Couto

 


[1] Para esta organização deste longo texto, ver F. J. MOLONEY, The Gospel of John. Collegeville, Minnesota, The Liturgical Press, 1998, p. 194.

[2] Tendo em conta o cenário geográfico (Jo 4 e 6 passam-se na Samaria e Galileia, enquanto que Jo 5, 7, 9 e 10 têm lugar em Jerusalém), não faltam exegetas que queiram colocar Jo 6 imediatamente após Jo 4. Ver, por exemplo, F. J. MOLONEY, The Gospel of John, p. 193.

[3] X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, Salamanca, Sígueme, 2.ª ed., 1995, p.85.

[4] Ver J. P. HEIL, Blood and Water. The Death and Ressurrection of Jesus in John 17-21, Washington, The Catholic Biblical Association of America, 1995, p. 69-70.

[5] Os conterrâneos de Jesus têm acerca dele um conhecimento anagráfico muito superior ao do leitor. Este só sabe que Jesus provém de Nazaré (Mc 1,9). Os conterrâneos de Jesus sabem a sua profissão e conhecem a sua família (mãe, irmãos, irmãs) e a sua residência (Mc 6,3). Mas não sabem «de onde» (póthen) vem a sua competência. Ver M. VIRONDA, Gesù nel Vangelo di Marco. Narratologia e cristologia, Bolonha, EDB, p. 168-169.

[6] B. WITHERINGTON III, The Gospel of Mark. A Socio-Rhetorical Commentary, Grand Rapids, Eerdmans, 2001, p. 192; É. TROCMÉ, L’Évangile selon Saint Marc, Genebra, Labor et Fides, 2000, p.158-159 e 200; C. S. KEENER, A Commentary on the Gospel of Mathew, Grand Rapids, Eerdmans, 1999, p. 395-396.

[7] Um denário corresponde ao salário de um dia. Duzentos denários ultrapassa o salário de seis meses. J. MATEOS, J. BARRETO, Il Vangelo di Giovanni. Analisi linguistica e commento esegetico, Assis, Cittadella, 5.ª ed., 1995, p. 291.

[8] X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 85-86. 

[9] Diminuitivo de paîs.

[10] X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 87; Y. SIMOENS, Secondo Giovanni. Una traduzione e un’interpretazione, Bolonha, Dehoniane, 2000, p. 317.

[11] Note-se o cunho muito pessoal do presidente desta mesa, que distribui pessoalmente a comida. Nos Sinópticos (Mt 14,19; Mc 6,41; Lc 9,16), são os discípulos que procedem à distribuição. X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 88-89.

[12] Aoristo passivo de empímplêmi.

[13] Th. BRANDT, Plenitud, sobreabundancia (perisseúô), in L. COENEN, E. BEYREUTHER, H. BIETENHARD (eds.), Diccionario Teologico del Nuevo Testamento, III, Salamanca, Sígueme, 1983, p. 367-370.

[14] X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 89-90.

[15] Ver a inteligente reflexão de C. DI SANTE, L’Eucaristia terra di benedizione. Saggi di antropologia bíblica, Bolonha, EDB, 1987; C. DI SANTE, Eucaristia. L’amore estremo, Villa Verucchio, Pazzini, 2005, p. 110-112; C. DI SANTE, Risponsabilità. L’io-per-l’altro, Roma – Fossano, Lavoro – Esperienze, 1996, p. 154-157; G. PERINI, Le domande di Gesù nel Vangelo di Marco. Approccio pragmatico: ricorrenze, uso e funzioni, Roma – Milão, Pontificio Seminario Lombardo – Glossa, 1998, p. 75.

[16] Expressão recorrente no texto (vv. 1.17.22.25). Atravessar para a outra margem é sinal de vida nova.

[17] Termo depreciativo formado de chórtos [= erva, feno] (1 Cor 3,12). M. ZERWICK, M. GROSVENOR, A grammatical analysis of the greek New Testament, Roma, Biblical Institute Press, 1981, p. 304; X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 105.

[18] X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 86.

[19] A. WÉNIN, Pas seulement de pain… Violence et Alliance dans la Bible, Paris, Cerf, 1998, p. 236-237.

[20] X. LÉON-DUFOUR, Lectura del Evangelio de Juan (Jn 5-12), II, p. 86.

[21] A. WÉNIN, Pas seulement de pain…, p. 234.

[22] Ver, por exemplo, F. J. MOLONEY, The Gospel of John, p. 198.