MISSÃO ESSENCIAL

Julho 12, 2009

 

1. Lê-se exemplamente no Evangelho de Marcos: «13E ELE sobe para a montanha e chama para SI aqueles que ELE queria, e andaram para ELE. 14E ELE fez Doze, para que estivessem com ELE, e para ELE os enviar a pregar 15e ter autoridade para expulsar os demónios» (Marcos 3,13-15).

 2. O centro é claramente Jesus. É Ele que chama quem quer. É para Ele queev2007_07 se dirigem os que são chamados. É Ele que os FAZ (verbo da criação, só usado neste contexto, aqui, em todos os Evangelhos). O seu serviço é PRIMEIRO, PRIMEIRO, PRIMEIRO, estar com Jesus, e só depois serem por Ele enviados numa missão frágil-forte de mostrar sem demonstrar, testemunhar com a vida (é essa a metodologia da pregação, verbo kêrýssô) e limpar ódios e raivas e ciúmes e invejas e mentiras e violências (os demónios de ontem e de sempre) e estabelecer o amor e a paz e a alegria e a concórdia e a verdade.

 3. Hoje, a Igreja Una e Santa proclama e escuta o Evangelho de Marcos 6,6b-13, cujo início soa assim: «7E chamou os doze, e começou a enviá-los dois a dois, e dava-lhes autoridade sobre os espíritos impuros. 8E ordenou-lhes que não levassem para o caminho senão um bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro na cintura; 9que fossem  calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas…».

 4. Salta à vista que este episódio significativo da missão confiada aos Doze (Marcos 6,6b-13) segue o primeiro episódio que transcrevemos (Marcos 3,13-15). Mas é ainda notório que o episódio de hoje se situa, situação não casual, entre o desprezo de Jesus na sua pátria (Marcos 6,1-6) e o martírio de João Baptista (Marcos 6,14-21). Fica claro que, no Evangelho de Marcos, a missão se desenrola entre o desprezo e o martírio.

 5. Mas é ainda claro que a missão dos Doze parte sempre de Jesus, e não deles ou de nós: foi Ele que os começou a enviar. E o facto de os enviar dois a dois é ainda sinal claro de que ninguém vai em nome próprio com uma mensagem própria (na Evangelização não há lugar para franco-atiradores), mas como testemunhas de uma mensagem que receberam de Jesus (Deuteronómio 19,15; João 8,17). «Dois a dois» permite ainda identificar a presença de um terceiro, que é mesmo o fundamental: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu Nome, Eu estarei no meio deles» (Mateus 18,20). Com Jesus no meio: passo fundamental. Mateus 10,10 manda retirar também as sandálias (só Mateus): é outra forma de dizer que o missionário vai sempre acompanhado do Deus santo. Ver a atitude de Moisés e de Josué no Sinai e na Terra Prometida (Êxodo 3,5; Josué 5,15). A intensidade do Evangelho, a santidade, a de Deus e a nossa, «a “medida alta” da vida cristã ordinária» (João Paulo II).

6. É santo o caminho do Evangelho. Sacudir o pó dos pés, ao sair das localidades não acolhedoras (Marcos 6,11), reclama a remoção do pó profano e impuro num caminho santo.

 7. Salta ainda à vista que estes missionários nada devem levar, excepto a mensagem que lhes é confiada. «Nem pão, nem alforge, nem dinheiro, nem duas túnicas» (Marcos 6,8-9). Vão acompanhados e guiados pela providência de Deus que é o seu sustento, conforme a lição de Jesus e do Servo (Isaías 42,1); mas ver também Elias, que bebe da torrente e é alimentado pelos corvos (1 Reis 17,4-6), e o Rei messiânico que, a caminho, bebe da torrente (Salmo 110,7).

8. Mas é ainda de notar que esta primeira missão apareça fora de tempo e lugar: na verdade, não é dito para onde Jesus tenha enviado estes missionários, nem onde e por quanto tempo tenham pregado. Tão-pouco somos informados da reacção dos seus ouvintes, nem da forma como foram recebidos. Parece tudo propositadamente esfumado. Clara e luminosa, ao contrário, é a relação dos Doze com Jesus: é Ele que os escolhe e chama para estarem sempre com Ele (Marcos 3,13-14); é Ele que os envia e lhes dá autoridade (Marcos 6,7), e é a Ele que retornam para lhe relatar o que fizeram (Marcos 6,30: próximo domingo). João Baptista (Marcos 1,2-4) e Jesus (Marcos 9,37) foram enviados por Deus. Os Doze são enviados por Jesus. Modo claro de o Evangelho mostrar que Jesus assume o lugar de Deus, Ele é Deus. Nós somos sempre apenas enviados. Mas não estamos sós. Nem perdidos. Mas amados.

 António Couto


O DIVINO QUE SE PODE VER DO HUMANO!

Julho 5, 2009

 

1. Um Deus humano, muito humano, entra hoje em nossa casa, ao lermos o episódio de Marcos 6,1-6. Visto bem de perto, é um Deus também como nós. Com rosto, coração, mãos de terra e de amor. Deus humanado. Deus humanado, e, todavia, Deus, fazendo maravilhas entre nós, debruçando-se com amor infinito sobre os doentes, os pobres, os pequeninos, os marginalizados. Fazendo a nossa terra produzir novos e insuspeitados frutos. É esta a áurea que rodeia Jesus, quando agora reentra em Nazaré ouBOBHEU~1 em nossa casa.

 2. Mas nós, como eles, queremos sempre ver um Deus espectacular, que faça mirabolâncias incríveis, que nos vençam e convençam. É quase sempre esta concepção (falsa) que fazemos de Deus. Mas é verdade que, para incarnar, Deus teve necessidade de uma mãe autenticamente mãe. Não mudou a condição humana de Maria. Ela permaneceu como era, uma mulher da província, numa casa pobre, numa vida modesta. E Deus deixou estar as coisas como estavam. Não transfigurou nada daquilo em que tocava. Não modificou as leis da natureza. E Maria foi aprendendo a ver o muito de divino que se pode ver no humano: Deus no olhar de uma criança, no seu sorriso puro, num rapaz sentado à mesa ou a brincar. Aprender a escutar a voz de Deus na voz dos homens, por mais desgraçada que ela seja. Maria inaugurou a verdadeira contemplação cristã.

 3. Os seus conterrâneos têm acerca dele um conhecimento anagráfico muito superior ao do leitor. O leitor apenas sabe que Jesus provém de Nazaré, pois foi disso oportunamente informado (Marcos 1,9). Os conterrâneos de Jesus sabem muito mais. Sabem a sua profissão (carpinteiro) e conhecem a sua família (mãe, irmãos, irmãs) e a sua residência (Marcos 6,3). Mas não sabem «DE ONDE» (póthen) vem a sua competência. Os prodígios que faz e as coisas maravilhosas que diz não podem provir daquela carne humilde. A terra impede-nos de ver o céu. Razão tinham os mestres da sabedoria judaica, quando deixaram escrito, no tratado Sukkôt [= Tendas] da Mishna, que as Tendas levantadas no campo ou nos terraços das casas nunca deviam ter um tecto tão espesso, que não deixasse ver o céu! É fundamental podermos ver sempre o céu, e que o céu nos possa sempre ver a nós!

 4. Na verdade, na mentalidade antiga e na nossa mentalidade moderna envelhecida, são as raízes geográficas e familiares que determinam a identidade e a capacidade de alguém. Pois bem, é apontando as humildes e bem conhecidas raízes geográficas e familiares de Jesus, que os seus conterrâneos exclamam acerca dele: «‘DE ONDE’ (póthen) a ESTE estas coisas, e que sabedoria é esta a ESTE dada, e os prodígios que pelas mãos d’ELE vêm?» (Marcos 6,2). Como quem diz: «Não pode ser!». Em nome da terra, negamos o céu. Como se o céu fosse dedutível da terra!

 5. Mas fica lá aquele «DE ONDE» (póthen), que atravessa os Evangelhos, e que aponta sempre para Deus. Aventuremo-nos um pouco nesta travessia: Em pleno deserto, os discípulos de Jesus, cépticos, perguntam: «‘DE ONDE’ (póthen) poderá alguém saciar estas pessoas de pães num lugar deserto?» (Marcos 8,4). Mas Jesus, que bem sabe o que vai fazer (João 6,6), pergunta a Filipe, como se de um teste se tratasse: «‘ONDE’ (póthen) compraremos pão para que eles comam?» (João 6,5). A questão não é apenas sobre comprar. É sobre «ONDE comprar». Esse «ONDE» (póthen) indica a origem divina, e já tinha sido ouvido em João 1,48, quando Natanael pergunta a Jesus: «‘DE ONDE’ (póthen) me conheces?» Será também ouvido em João 2,9, em que o narrador nos informa que o chefe-de-mesa «não sabia ‘DE ONDE’ (póthen) era» a água feita vinho. Da mesma forma, Nicodemos também não sabe, acerca do Espírito, «‘DE ONDE’ (póthen) vem nem para onde vai» (João 3,8). Tal como a mulher samaritana não sabe ‘DE ONDE’ (póthen) Jesus tira a água viva (João 4,11). E as autoridade de Jerusalém confirmam que, «quando vier o Cristo, ninguém saberá ‘DE ONDE’ (póthen) Ele é» (João 7,27). E, mais à frente, em polémica com os fariseus, Jesus afirma: «Eu sei ‘DE ONDE’ (póthen) venho; vós, porém, não sabeis ‘DE ONDE’ (póthen) venho» (João 8,14). E na cena da cura do cego de nascença, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos ‘DE ONDE’ (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso: vós não sabeis ‘DE ONDE’ (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a questão posta por Pilatos: «‘DE ONDE’ (póthen) és TU?» (João 19,9). E, no Evangelho de Lucas, Isabel também exclama: «‘DE ONDE’ (póthen) a mim isto: “Que venha a mãe do meu Senhor ter comigo?”» (Lucas 1,43).

 6. Esta interrogação retórica sistematicamente repetida (DE ONDE?) deve ir abrindo os olhos do leitor. Os conterrâneos de Jesus podem não saber «DE ONDE» a ESTE estas coisas…», mas o leitor do Evangelho hoje, que é o conterrâneo e contemporâneo de Jesus hoje, tem obrigação de o saber, dadas as inúmeras indicações da Escritura e as fissuras da ramagem que cobre as nossas tendas.

 António Couto


OS NOSSOS MUROS E OS NOSSOS MEDOS

Julho 1, 2009

 

1. O muro de Berlim, que separava a Europa de leste da Europa ocidental,GSOCAB1Q2AOCAYJZGIZCAJOZ3CFCAI4M7RFCA7ZKA4RCAA2AK27CADYFBJDCAP9YRK5CAI6DX3DCAZY3K59CAGT0V4UCAFZOO3HCAQ4XJKECAUSBZIQCAF7QOWNCAPM2SZKCAFYWKHDCA9K1Q9J caiu, como é sabido, em finais do século XX. Mas já um novo muro se ergue, neste dealbar do século XXI, para separar Israel dos territórios palestinianos. O muro de Berlim foi construído pelos de leste essencialmente para impedir que de leste alguém fugisse para ocidente. O muro que agora se ergue é obra de Israel, e é para impedir que os palestinianos entrem livremente em Israel. O objectivo é prevenir ataques suicidas e outros.

 2. Mas é bom aprendermos a pensar que estes muros não são só coisas dos outros. Se olharmos atentamente à nossa volta, veremos também os muros que nós mesmos cada vez mais vamos levantando junto das nossas casas na tentativa de barrar o caminho àqueles que consideramos vagabundos e ladrões. E, bem vistas as coisas, não levantamos apenas muros físicos, mas também muros culturais, raciais, ideológicos, religiosos e outros.

 3. A história não se repete nem os seus acontecimentos são simétricos. É, todavia, significativo que, se recuarmos até aos séculos XX e XXI antes de Cristo – o prato da balança que faz pendant com os nossos séculos XX e XXI depois de Cristo –, deparamos aí também com a mania dos muros e dos medos. O grande Egipto civilizado, país do sol e dos deuses, temia então os asiáticos SHASHU [= aqueles que caminham sobre a areia], que deambulavam pelos territórios a oriente do Delta do Nilo (Península do Sinai, Síria-Palestina…), e que os egípcios consideravam como bárbaros. Para impedir que esses bárbaros entrassem no Egipto, o Faraó Amen-em hat I (1991-1962 a. C.) concluiu, junto do istmo de Suez, um sistema de fortificações, que ficou conhecido por «Muros do Príncipe», e que parece que tinha sido iniciado já por Kheti II, no final da X dinastia, por volta de 2100.

 4. Do mesmo modo, na outra extremidade do Crescente Fértil, também os soberanos da Mesopotâmia se mostravam temerosos em relação às hordas do deserto ocidental, que ameaçavam entrar na Mesopotâmia. A sua proveniência do deserto sírio ocidental, fazia com que fossem designados por MAR.TU (sumério) ou Amurru (acádico), que significa «ocidentais». Para tentar impedir a sua entrada na Mesopotâmia, o imperador Shû-Sîn ( 2037-2029), o penúltimo da III dinastia de Ur ( 2112-2004), levou a efeito a construção de um muro de 275 km entre o Eufrates e o Tigre, ligeiramente a noroeste da actual Bagdad.

 5. Quer num caso quer no outro, os muros nada puderam contra os «bárbaros», que acabaram mesmo por entrar no Egipto e na Mesopotâmia. Com o tempo, todos os muros caem. Os muros que construímos significam o nosso medo de perder. Bem vistas as coisas, o medo é que é o muro. E quem tem medo acaba sempre por perder. Começa mesmo já a perder.

 6. Uma sociedade assente em elevados parâmetros de sucesso, poder e lucro, promove com certeza uma pequena elite, mas segrega uma multidão de inaptos e marginalizados, «bárbaros». Os muros que levantamos separam, pensamos nós, a elite da multidão, os civilizados dos incivilizados, os ricos dos pobres, os sãos dos doentes… A pequena elite só tem a perder e tem medo; a multidão não tem nada a perder e não tem medo.

 7. A solução não está nos muros dos nossos medos. A solução está em aprender «a tornarmo-nos capazes de amar e de ser amados, a alegrarmo-nos com a existência dos outros, até ao ponto de amar até aqueles que não nos amam». Tudo somado, «o homem não é prisioneiro nem da natureza nem do fatalismo: o homem é livre». E, no âmbito do viver humano, «se Cristo é um modelo, que nós queiramos imitá-lo não é destituído de sentido, mesmo para aqueles que, como eu, não são crentes».

 8. O que acabo de transcrever entre aspas é um extracto de uma entrevista concedida a Le Figaro Magazine, de 6.ª feira, 17 de Maio de 2002, pelo então ministro francês da Juventude e da Educação, o filósofo Luc Ferry. É notável que este jovem filósofo e ministro, declaradamente não crente, face a uma sociedade cada vez mais egoísta, coisista, consumista e hedonista, se atreva a pôr Cristo e a sua maneira de viver como modelo para a Juventude e norma para a Educação! Se aprendermos a viver como Cristo, livres e abertos aos outros, a todos os outros, haverá ainda lugar para o medo? E para que servirão então os muros? Não tenhas medo, meu irmão de Julho.

 António Couto


LÁGRIMAS DE AMOR

Junho 28, 2009

 

1. Aí está outra vez Jesus no meio da multidão, em dia de Domingo, nocaminhos Evangelho de Marcos 5,21-43. E, para a mulher que sofria de um fluxo de sangue, que há doze anos a tornava impura e distante de Deus e das pessoas, e que acaba de ser curada pela sua ousadia e fé e confiança, Jesus diz uma palavra única – única vez dita no Evangelho no feminino! –, carregada de imensa ternura, proximidade e familiaridade: «Minha filha!» (Marcos 5,34). Esta pobre mulher sofredora e humilhada é agraciada por Jesus e passa a fazer parte da sua família: «Minha filha!».

 2. Mas estava uma menina de doze anos, moribunda, à espera da morte… ou de Jesus. O seu pai, Jairo, luta pela vida da sua filhinha, e veio buscar Jesus para ir a sua casa impor as suas mãos de bênção, portanto, de bem e de cura, sobre a sua filhinha. Todavia, enquanto caminham, chegam os seus criados, que trazem a triste notícia de que a morte chegou a casa da menina antes de Jesus. Aquele pai fica certamente destroçado, como o estavam também os demais familiares e os vizinhos, que, em tais circunstâncias, apenas sabiam chorar.

 3. Mas Jesus nunca chega atrasado. Ele é o Senhor. Entra naquela casa e pega terna e soberanamente na mão da menina. Note-se o número pleno de sete pessoas presentes: Jesus, Pedro, Tiago e João, o pai e a mãe da menina, e a menina. A plenitude quebra a nossa planitude! Pegando ternamente na mão da menina, Jesus diz, em aramaico, língua materna de Jesus e da menina: «Talitha, qûm!» [= menina, filha, irmã, levanta-te!] (Marcos 5,41). Não passa despercebido que Jesus trata aquela menina ternamente por irmã, irmãzinha, sua irmã querida. Na verdade, o aramaico Talitha é o feminino de Talya. E o aramaico Talya é a mais bela e significativa palavra para dizer Jesus, pois significa «filho», «servo», «cordeiro», «pão». Como se vê, Talya diz o Jesus todo. E Ele é a vida verdadeira, ressuscitada, levantada, que ressuscita e que levanta.

 4. Como se vê, trata-se de duas cenas únicas e belíssimas, cheias, plenas de humanidade e divindade. Passa, Senhor Jesus, à nossa porta, entra em nossa casa, veste o nosso dorido coração de festa. Faz-nos sentir que somos teus filhos e irmãos queridos. E que as nossas lágrimas de dor podem transformar-se em lágrimas de amor!

 António Couto


A LIÇÃO DA SERENIDADE

Junho 21, 2009

1. Um luxo. Em pleno mar da Galileia, Os seus discípulos/apóstolos lutam, jesus_tempestadeaflitos, contra a tempestade que ameaça desfazer a pequena embarcação no meio do mar encapelado (Mc 35-41). E em claro contraponto, «Jesus, à POPA, dormia deitado sobre uma almofada» (Mc 4,38). Não nos esqueçamos que a POPA é a parte traseira e o lugar de comando da pobre embarcação (a parte da frente é a proa). Jesus permanece no comando da nossa barca, da nossa vida, ainda que muitas vezes nem nos apercebamos da serenidade da sua condução. A presença da almofada na pobre embarcação e do sono sereno de Jesus marcam bem o tom doce e tranquilo deste condutor diferente da nossa vida agitada. Não é a nossa agitação que conta. É o seu sono tranquilo.

 

2. Canta bem a Liturgia das Horas da Igreja:

«Se me colhe a tempestade,

E Jesus vai a dormir na minha barca,

Nada temo porque a Paz está comigo».

 

3. Tu falas, tu fazes, tu chamas, tu ordenas. Todos os caminhos vêm de ti, vão para ti. És tu o Senhor de todos os chamados, de todos os reunidos, de todos os enviados. Tu és a casa, a mesa, o caminho, o vinho, o pão, o peixe. Velas por todos: pelos pais, pelos filhos, pelos irmãos, pelos desfilhados, pelos órfãos, pelos desirmanados. Vela por nós, Senhor, orienta a nossa barca, deita-te tranquilamente à popa (Mc 4,38): o teu sono sereno há-de serenar as nossas tempestades.

 4. A tua palavra faz-se mansamente em nós (Lc 1,38), a nossa tenda alarga-se, invade-nos o espanto: quem são e de onde vêm todos estes? (Is 49,20-21). Sim, a nossa terra é bela e jovem (Sl 144,12), a nossa casa tem luzes em todas as janelas (Ez 36,33), os nossos campos cobrem-se de frutos (Lv 26,4; Sl 67,7; 85,13; Ez 36,29-30), as árvores de pássaros (Mc 4,32), aumenta o tempo da debulha, do canto, da vindima (Lv 26,5; Sl 126,6), multiplicam-se os nossos rebanhos, chegam carregados os nossos bois, estão repletos os nossos celeiros (Sl 144,13-14; Pr 3,10; Jl 2,24), cheios de vinho novo os nossos odres (Jl 2,24; Pr 3,10; Mc 2,22), a transbordar de azeite as nossas almotolias (1 Rs 17,14-16; 2 Rs 4,1-6; Jl 2,24; Mt 25,1-13), são de alegria os nossos dias (Dt 16,15; Sl 63,6; 126,2-3; Is 9,2; 65,18; Fl 4,4).

 António Couto


SANTO ANTÓNIO DE LISBOA

Junho 19, 2009

santo-antonio

1. Maria aparece muitas vezes, na iconografia, com o Menino nos braços e um olhar de graça suavemente iluminado. O movimento dos braços mostra a ternura maternal de quem embala e segura o Menino Jesus, ou a alegria evangelizadora de quem apresenta e oferece Jesus a este mundo, reclamando de cada um de nós mãos carinhosas e seguras, coração maternal, olhar de graça.

 2. É fácil ler, no contexto da iconografia, uma grande cumplicidade entre Maria e Santo António de Lisboa, de Pádua ou de todo o mundo. Vê-se bem que também Santo António aparece com o Menino nos braços: umas vezes, segurando Jesus com os dois braços; outras vezes, com um braço segurando Jesus, e no outro ostentando um livro, o Livro, o Livro da Palavra de Deus, que tão bem viveu e tão bem soube dizer; outras vezes ainda, ostentando Jesus sentado sobre o Livro, Senhor do Livro, como o Anjo de Mateus sentado sobre a pedra do sepulcro (Mt 28,2). Belíssimas figurações de amor e luz. Maria olhando pelo Menino Jesus ou convidando-nos a olhar pelo Menino Jesus. Santo António de Lisboa ostentando o Menino Jesus e o Livro, mostrando bem com que amor soube ler a Escritura, e convidando-nos a acolher o Menino que atravessa em contraluz toda a Escritura, e a ler a Escritura em contraluz acolhendo em cada página, não apenas sons e sílabas e palavras e frases, mas um Rosto e um Nome, JESUS.

 3. Maria e Santo António de Lisboa. Os dois com o Menino Jesus nos braços e no coração, nos lábios, na vida. Eles tomaram conta de Jesus com amor, tomaram conta do amor. Ou foi o amor que tomou conta deles? Na verdade, são eles que seguram Jesus, ou é Jesus que os segura a eles? Somos nós que seguramos a Palavra de Deus, ou é a Palavra de Deus que nos segura a nós? Frágil, forte segurança, a segurança-confiança do amor, forte como a morte o amor (Ct 8,6).

 4. É por esta imagem de um Menino ao colo de uma Mãe, seguro-confiante na força do amor maternal que cuida dele sempre, que, em termos bíblicos, entramos no caminho da Verdade (J. GOLDSTAIN, Le monde des psaumes, Paris, Source, 1964, p. 391 e 393. Verdade, na Bíblia hebraica, diz-se ’emet, cuja etimologia remete para segurança, firmeza, confiança (’emunah, ’aman, ’amen). Diz então o Livro que Santo António segura no braço com o Menino em cima que o lugar mais verdadeiro do mundo, portanto, a maior fonte de segurança do mundo, são os braços de uma Mãe ou de um Pai que ternamente seguram um bebé.

 5. A verdade é, portanto, a verdade do Amor que não engana, o mais puro amor que existe. A analogia do amor materno e paterno abre para Deus, que o mesmo Livro diz que ama com amor perfeito. S. Paulo dirige-se a nós desta maneira, ao escrever as primeiras linhas da primeira página do Novo Testamento:

 «1,4(…) Irmãos AMADOS por Deus (êgapêménoi hypò [toû] theoû)» (1 Ts 1,4).

 A locução «AMADOS» apresenta-se no tempo perfeito passivo (êgapêménoi: part. perf. passivo de agapáô), e traduz, portanto, um amor novo, vindo de Deus, que começou a amar e a amar continua ainda hoje, pois é esse o sentido do perfeito grego.

 6. É por isso que Deus, amor perfeito e permanente – o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13,8) –, não mente, não engana, não seduz. Ele é a Sabedoria, Ele é a luz. Ele chama, Ele ama, Ele dá a Sabedoria, Ele alumia. A nossa luz é reflexa, a nossa sabedoria é recebida, recebido é o amor com que amamos. Não o amor da sabedoria. Mas a sabedoria do amor. «Deus governa o mundo com as palmas das suas mãos» (Sir 18,3), em que está tatuado o nosso rosto e o nosso nome (Is 49,16), e tem sempre as suas «mãos abertas sobre nós» (Sl 139,5). Mãos de amor.

 7. Como Maria e como Santo António, experimentemos também viver de coração aberto e de mãos abertas para acolher e saborear o dom de Deus (Hb 6,4) e experimentar a beleza da Palavra de Deus (Hb 6,5). Maria e Santo António, com o Livro e o Menino, representam uma nova cultura, não assente na mentira, na esclerose ou dureza do coração, no poder e na violência, mas na ternura, no amor, na suavidade e na verdade.

 8. Santo António de Lisboa, Nossa Senhora do Rosário de Fátima, ensinai-nos a viver com o Livro da Palavra de Deus e o Menino nos braços e no coração. Ámen.

 António Couto


FESTAS DO SOLSTÍCIO DE VERÃO

Junho 12, 2009

 

1. Com excepção (honrosa) da língua portuguesa, os nomes dos dias da semana das principais línguas vivas europeias estão marcados pelos astros: sol, lua, marte, mercúrio, júpiter, vénus, saturno. Esta maneira de dizer salienta a nossa dependência dos astros, que o mesmo é dizer, das forças da natureza que os astros representam. Exceptuam-se, nalguns casos, o sábado e o domingo, que trazem a marca das tradições hebraica e cristã.

 2. Mas, mesmo no caso português, é fácil verificar como o nosso paganismo convive amenamente com o nosso cristianismo. Basta um olhar atento a esta época do ano (solstício de verão), e às celebrações que fazemos à volta dos santos populares: Santo António, São João e São Pedro.

 3. Embora o fenómeno seja o mesmo, detenhamo-nos na festa de S. João, por ser a mais afecta a esta zona norte do país. A tradição bíblica faz de João Baptista um homem austero, que anda pelo silêncio do deserto para melhor escutar a Palavra de Deus, e que, a quantos o procuram, prega penitência e conversão. Mas nós festejamo-lo com esfuziante folia, no meio de barulho e muita música, abundância de vinho e danças…

 4. Entre os anos 117 e 135, o imperador Adriano, com o intuito de paganizar a Palestina, deitou por terra todos os lugares de culto cristão que lá havia, entre os quais se contava a «casa-igreja» de Ain Karem [= nascente do jardim], lugar do nascimento de João Baptista, a uns 8 Km a SO de Jerusalém, extinguindo assim o nascente culto cristão a João Baptista, e implantando no seu lugar o culto pagão de Adónis. O culto de Adónis é o culto da natureza. Filho do incesto de Ciniras com Esmirna ou Mirra, a beleza de Adónis seduziu a deusa Afrodite ou Vénus, deusa do amor, da beleza, da vegetação e da fertilidade. Ciúmes de outras deusas, entre as quais Perséfone, deusa da morte, fizeram que Adónis fosse morto por um javali, indo assim parar aos braços de Perséfone. O facto deu origem a intrigas entre as duas deusas (Afrodite e Perséfone), só sanadas pelo decreto de Júpiter, que decidiu que Adónis ficasse com Perséfone um terço do ano, com Afrodite outro terço, e que ficasse livre no último terço do ano. Mas Adónis ofereceu este último terço também a Afrodite. O tempo que passa com Perséfone é o Inverno, o tempo triste em que a natureza parece que morre. O tempo que passa com Afrodite é o tempo da Primavera e do Verão, o tempo da explosão da vida e da alegria. As festas em honra de Adónis têm assim um tempo de choro e de lágrimas, que equivale à morte de Adónis e ao tempo que passa com Perséfone, e um tempo mais intenso de folia, que equivale como que à «ressurreição» de Adónis e ao tempo que passa com Afrodite. Como se vê, Adónis não é mais do que natureza, e aquilo que nós festejamos no solstício de verão não é mais do que a exuberância da natureza.

 5. É esta paganização de João Baptista por Adónis que permanece ainda hoje nas nossas festas populares do solstício de verão.

 6. Voltemos aos astros. A língua latina fornece-nos duas palavras para dizer «astro»: aster (plural astra) e sidus (plural sidera). Na sua brilhante L’Écriture du désastre (Gallimard, 1980), Maurice Blanchot, recentemene desaparecido, mostrou magistralmente que se as pessoas vivem ligadas aos astros e se o seu comportamento depende deles sem qualquer possibilidade de liberdade, então a vida é com certeza um «des-astre»! E é esta a compreensão que expressamos do «desastre», quando lemos num acontecimento dramático da nossa vida ou da vida dos outros, não o resultado da nossa vontade, mas a influência perniciosa de qualquer astro, o velho destino. Do mesmo modo, dizemos hoje vulgarmente que alguém está siderado, quando está de tal modo fascinado por um objecto ou por um acontecimento, que já não consegue dar um passo por conta própria.

 7. Viver ligado aos astros e ao que eles dizem é, portanto, um desastre: se não nos conseguimos libertar deles, ficamos como que siderados, prisioneiros nas mãos de um destino qualquer. Mas se nos separarmos deles, então ficamos de-siderados, do latim desiderare, que deu o nosso desejar. Ao sabor do nosso desejo. É, portanto, a libertação dos astros, a saída da sideração, que dá acesso ao desejo, que nasce da separação do astral e do regresso à vida e ao movimento, à liberdade e à história, a um tempo que seja nosso.

 8. Mas será ainda necessário quebrar este arco desiderativo a que andamos presos e que apenas molda em nós um «eu» identitário e patronal sempre em expansão, e que apenas sabe rejeitar ou absorver o outro, num processo cego de auto-realização ou auto-satisfação. É necessário abrir-se ao extra, ao sentido objectivo, ao éschaton, ao dom que vem de fora, e que ninguém pode produzir por si mesmo. Temos todos de aprender a recebê-lo, abrindo as mãos e o coração. Lições de Junho.

 António Couto


TRINDADE: A CHAVE É O AMOR

Junho 6, 2009

 

1. Na Triadologia do NT, preparada pelo AT, Deus, enquanto dádiva suprema fundante, é o Pai. Mas a dádiva suprema do Pai, infinita riqueza, constitui o Filho, infinita pobreza, que tudo recebe[1]. Mas, ao receber tudo, infinita recepção, o Filho volta a dar tudo numa infinita doação sem defesa e sem limites. E esta comunhão-comunicação-vida-amor de si a si, circular, vertiginosa, tranquila e imperecível, constitui o Espírito Santo[2], a Pessoa-Dom incriado[3], o Dom que vem de si mesmo a si mesmo, Dom de si a si, o Dom absolutamente um com ele mesmo, o Dom idêntico ao Ser[4].

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O MODO NOVO DO ESPÍRITO

Maio 30, 2009

A expressão «O Espírito Santo, protagonista da evangelização» encontra-se na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975[1], e é depois retomada na Carta Apostólica Redemptoris Missio, de 7 de Dezembro de 1990, com uma ligeira alteração: «O Espírito Santo, protagonista da missão»[2]. Neste último Documento, João Paulo II faz expressamente a colagem desta expressão ao Livro dos Actos, quando refere que a expressão tem o seu berço em S. Lucas, sobretudo no Livro dos Actos dos Apóstolos[3]. O bem fundado desta afirmação do protagonismo do Espírito Santo na missão e da sua ligação com o Livro dos Actos dos Apóstolos, foram já, de resto, verificadas e confirmadas por um exegeta atento e perspicaz como Rinaldo Fabris, que, no seu conceituado Comentário ao Livro dos Actos dos Apóstolos, pôde afirmar que, nesse Livro, «desde o início, o verdadeiro protagonista da missão é o Espírito Santo»[4].

Mas também o leitor o pode verificar e confirmar facilmente, dado que, no plano narrativo do Livro dos Actos dos Apóstolos, o Espírito Santo se faz presente por 56 vezes, assim distribuídas ao nível do vocabulário: 41 vezes «Espírito Santo», com ou sem artigo; 10 vezes «o Espírito»; 2 vezes «o meu Espírito»; 2 vezes «o Espírito do Senhor»; 1 vez «o Espírito de Jesus». Como a seguir se pode ver.

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ASCENSÃO DO SENHOR: TANTO VER!

Maio 23, 2009

 

Aquando da escolha de Matias para «a diaconia (ou serviço) do apostolado» (hê diakonía tês apostolês) abandonada por Judas (Act 1,25), Pedro pronuncia estas palavras indicativas:

 «1,21É necessário (deî), pois, que, dos homens que vieram connosco (synérchomai) durante todo o tempo em que entrou e saiu à nossa frente o SENHOR JESUS, 22tendo começado desde o Baptismo de João até ao dia em que ELE foi arrebatado (anelêmphthê)[1] diante de nós, um destes se torne connosco testemunha da sua Ressurreição» (Act 1,21-22).

 Nas palavras de Pedro, «o serviço do apostolado», que consiste em tornar-se testemunha da Ressurreição do SENHOR JESUS, requer, de todos aqueles que a ele se venham a dedicar, três condições fundamentais: 1) ter feito todo o caminho connosco, e sempre atrás do SENHOR JESUS; 2) atrás do SENHOR JESUS traduz a atitude do discípulo: sempre com o Mestre; nunca, porém, à frente do Mestre, mas seguindo-O sempre de perto no caminho; 3) o caminho tem um começo e um termo assinalados, sempre com referência ao Mestre: desde o Baptismo d’Ele até ao dia do Arrebatamento d’Ele diante de nós.

 Fixemo-nos no termo do caminho, na Ascensão do SENHOR JESUS diante de nós. O texto, sóbrio e limpo, do Livro dos Actos, diz assim:

 «1,9E estas coisas tendo dito, vendo (blépô) eles, ELE foi Elevado (epêrthê)[2], e uma nuvem O subtraiu (hypolambáno) dos olhos deles (apò tôn ophthalmôn autôn). 10E como tinham o olhar fixo (atenízontes) no céu para onde ELE ia, eis (idoú)[3] dois homens que estavam ao lado deles, em vestes brancas, 11e DISSERAM: “Homens Galileus, por que estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís)[4] diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu”» (Act 1,9-11).

 Impressionante condensado de OLHARES. Seis notas visuais soam no texto. Tanto VER sucede a um telegráfico aceno ao dizer: «Estas coisas tendo dito». Referia-se o narrador àquilo que o SENHOR JESUS lhes tinha dito durante uma refeição: que não se afastassem de Jerusalém, que esperassem a promessa do Pai, o Baptismo do Espírito Santo (Act 1,4-5), e assim seriam testemunhas d’Ele em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra (Act 1,8). Dizer testamentário e programático numa refeição testamentária e programática[5].

 Tanto VER. Da panóplia de verbos registrados (blépô, atenízô, horáô, emblépô, theáomai), os mais fortes e intensos são, com certeza, atenízô [= «olhar fixamente»][6] e emblépô [= «perscrutar», «ver dentro»]. Ambos exprimem a observação profunda e prolongada, para além das aparências: VER o invisível (cf. Hb 11,27), VER o céu, VER a glória de Deus[7]. Mas mais ainda do que o que se vê, estes verbos acentuam o modo como se vê[8].

É para aí que apontam os dois homens vestidos de branco, de rompante surgidos na cena, para entregar um importante DIZER que interpreta e orienta tanto VER. Já os tínhamos encontrado no túmulo reorientando os olhos entristecidos das mulheres: «Por que () procurais entre os mortos Aquele que está Vivo? Não está aqui. Ressuscitou!» (Lc 24,5-6). Dizem agora: «Por que () estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu» (Act 1,11).

Ao Arrebatamento de JESUS para o céu, os dois homens vestidos de branco agrafam a Vinda de JESUS. Importante colagem da Ascensão com a Vinda. E importante passo em frente para quem estava ali simplesmente especado. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Sim, Ver. Porque ELE Virá do mesmo modo que O Vistes IR. Importante guardar este Ver, viver este Ver, Ver com este Ver. Porque é Vendo assim que o SENHOR Virá. Vinda que não tem de ser relegada para uma Parusia distante e espectacular, mas que começa, hic et nunc, neste Olhar novo e significativo de quem Vê o SENHOR JESUS. Vinda que não é tanto um regresso, mas o desvelamento de uma presença permanente[9]. Vinda já em curso, portanto, ainda que não plenamente realizada[10].

Quando atrás Pedro elencava as condições requeridas e necessárias para alguém se poder dedicar ao «serviço do apostolado», tornando-se connosco testemunha da Ressurreição do SENHOR JESUS, víamos que era preciso ter feito connosco e atrás do Mestre o caminho que vai desde o Baptismo d’ELE até ao dia do Arrebatamento d’ELE diante de nós. Podemos ser agora mais precisos naquilo que ao termo deste caminho diz respeito. Já não se trata apenas de dar testemunho do Senhor Ressuscitado e Elevado ao céu, mas de dar testemunho do Senhor Ressuscitado e Elevado ao céu e que Vem no mistério do Olhar dos seus Apóstolos[11].

 Guardemos este Olhar e prossigamos. Eis-nos no primeiro ACTO propriamente dito dos Actos dos Apóstolos depois do Pentecostes: a cura de um coxo de nascença descrita em Act 3,1-10:

 «3,1Então Pedro e João subiam ao Templo para a oração da hora nona[12]. 2E um certo homem, que era coxo (chôlós) desde o ventre da sua mãe, era trazido e posto todos os dias diante da Porta do Templo, dita a Bela[13], para pedir esmola àqueles que entravam no Templo. 3Vendo (idôn) Pedro e João, que estavam a entrar no Templo, pedia esmola para receber. 4Então, fixando o olhar (atenísas) nele, Pedro, com João, disse: “Olha para nós” (blépson eis hemâs). 5Então ele observava-os (epeîchen), esperando receber deles alguma coisa. 6Disse então Pedro: “Prata e ouro não tenho, mas o que tenho, isso te dou: no nome de JESUS CRISTO, o Nazareno, [levanta-te e] caminha. 7E, tomando-o pela mão direita, levantou-o. Imediatamente se firmaram os seus pés e os calcanhares. 8Com um salto, pôs-se em pé, e caminhava, e entrou com eles no Templo caminhando e saltando e louvando a Deus. 9E todo o povo o viu (eîden) a caminhar e a louvar a Deus. 10E reconheciam que era aquele que, sentado, pedia esmola à Porta Bela do Templo, e ficaram cheios de admiração e de assombro por aquilo que lhe aconteceu» (Act 3,1-10).

 Outro impressionante condensado de olhares marca este primeiro ACTO dos Actos dos Apóstolos. Soam no texto cinco notas visuais, servidas por quatro verbos: horáô, atenízô, blépô, epéchô. Atenízô desenha o Olhar de Pedro e João fixado no coxo de nascença. Blépô retrata o Ver com que o coxo é mandado olhar o Olhar dos Apóstolos.

Significativo agrafo: estes dois Olhares, com atenízô e blépô, só tinham sido usados antes, no Livro dos Actos dos Apóstolos, uma única vez, precisamente no relato da Ascensão (Act 1,9-10)[14]. De resto, blépô conhecerá apenas mais quatro menções no Livro dos Actos dos Apóstolos: duas no relato da vocação de Paulo (Act 9,8-9), a terceira no discurso de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (Act 13,41; cit. de Hab 1,5), e a quarta e última no decurso da viagem marítima de Paulo para Roma (Act 27,12). Atenízô, por sua vez, far-se-á notar em lugares de relevo, sempre para expressar um Ver novo e significativo, um Ver sem haver: os membros do Sinédrio fixam os olhos (atenízô) em Estêvão, e vêem-no semelhante a um anjo (Act 6,15); Estêvão, por sua vez, fixa os olhos (atenízô) no céu, e vê a glória de Deus e JESUS, de pé, à direita de Deus (Act 7,55); Cornélio fixa os olhos (atenízô) no anjo do Senhor, que o interpela (Act 10,4); Pedro fixa os olhos (atenízô) na visão, vinda do céu, dos animais impuros (Act 11,6); Paulo fixa os olhos (atenízô) no mago Elimas, de Chipre, para o fulminar pela sua falsidade e malícia (Act 13,9), e o mesmo faz no Sinédrio, dando testemunho de JESUS (Act 23,1).

É este Ver JESUS, Ver sem haver, sem poder, sem ouro nem prata (Act 3,6), que se fixa sobre o coxo de nascença, mandado, por sua vez, olhar para este Olhar, Ver desta maneira. Como Abraão e Moisés, convidados a Ver para receber, e não para haver[15], a Terra Prometida: «a terra que Eu te farei Ver» (Gn 12,1), «que YHWH lhe fez Ver» (Dt 34,1), «Eu a fiz Ver aos teus olhos» (Dt 34,4). O narrador anota mais à frente que o coxo de nascença, agora curado, tinha mais de 40 anos (Act 4,22), tipologia do povo perdido no deserto antes de entrar na Terra Prometida[16]. Como o homem doente havia 38 anos, que Jesus encontra junto da piscina de Bezetha, e que será curado (Jo 5,1-9)[17].

Um Olhar cheio de JESUS faz Ver JESUS. É este o Ver dos Apóstolos. Sem poder, sem ouro nem prata. É neste novo Ver que o coxo de nascença entra. Mas ali mesmo ao lado, o povo disperdia o olhar. Fixava os olhos (atenízô) nos pretensos poderes de Pedro e João (Act 3,12), não em JESUS. Pedro corrige esses olhares, apontando JESUS como Aquele que curou o coxo de nascença (Act 3,12-16).

António Couto

 


[1] Aoristo passivo de analambánô.

[2] Aoristo passivo de epaírô.

[3] Imperativo aoristo médio de horáô, usado como partícula demonstrativa. E. G. JAY, New Testament Greek. An Introductory Grammar, Londres, 11.ª impressão da primeira edição (1958), 1983, p. 246.

[4] Particípio aoristo de analambánô.

[5] Ph. BOSSUYT, J. RADERMAKERS, Témoins de la Parole de la Grâce. Lecture des Actes des Apôtres. 2. Lecture continue, Bruxelas, Éditions de l’Institut d’Études Théologiques, 1995, p. 109; J. ROCHETTE, Regard et guérison, présence nouvelle du Christ à son Église dans la «diaconie de l’apostolat» (Act 1,25), in Nouvelle Revue Théologique, 125, 2003, p. 211.

[6] O verbo atenízô é de cariz muito lucano. De facto, encontra-se 14 vezes no NT, das quais 12 vezes em Lucas, 02 no Evangelho e 10 nos Actos dos Apóstolos. G. ROSSÉ, Atti degli Apostoli. Commento esegetico e teologico, Roma, Città Nuova, 1998, p. 176, nota 25.

[7] D. ELLUL, Actes 3/1-11, in Études Théologiques et Religieuses, 64, 1989, p. 97; R. STRELAN, Strange Stares: atenizeîn in Acts, in Novum Testamentum, 41, 1999, p. 235-255.

[8] J. ROCHETTE, Regard et guérison, p. 212.

[9] Ph. BOSSUYT, J. RADERMAKERS, Témoins de la Parole de la Grâce, II, p. 121.

[10] Ph. BOSSUYT, J. RADERMAKERS, Témoins de la Parole de la Grâce, II, p. 123-124.

[11] J. ROCHETTE, Regard et guérison, p. 213.

[12] 15 horas. Hora da Morte de Jesus (Lc 23,44) e do “holocausto perpétuo” (tamîd) da tarde (Ex 29,39-42), em que se faz a oração da “oferta” (minhah). Ph. BOSSUYT, J. RADERMAKERS, Témoins de la Parole de la Grâce, II, p. 163, e nota 149.

[13] Trata-se certamente da porta que dava acesso do átrio dos gentios para o átrio das mulheres, e não da chamada porta de Nicanor, que dava acesso do átrio das mulheres para o átrio de Israel. Ph. BOSSUYT, J. RADERMAKERS, Témoins de la Parole de la Grâce, II, p. 163.

[14] J. ROCHETTE, Regard et guérison, p. 215.

[15] A. WÉNIN, Abraham: élection et salut. Réflexions exégétiques et théologiques sur Genèse 12 dans son contexte narratif, in Revue théologique de Louvain, 27, 1996, p. 10-11.

[16] Ph. BOSSUYT, J. RADERMAKERS, Témoins de la Parole de la Grâce, II, p. 164.

[17] J. L. SKA, La strada e la casa. Itinerari biblici, Bolonha, Dehoniane, 2001, p. 190-191.


LA PETITE ESPÉRANCE

Maio 19, 2009

sorrisos_pulando_cordaChamava-se esperança

era pequenina

saltava à corda

com a força que tinha

 

A corda tensa

a corda abaulada

tornava-se imensa

nas mãos da menina

 

Entre o céu e a terra

baloiçando a corda

pulava o horizonte

de borda em borda

 

Sobre o vau da vida

sobre o vau da morte

a corda tendida

era o passaporte

 

Frágil, forte,

o fio da esperança

salta o vau da morte

com um pé de dança

 

Assim vai o caixão

descendo pela corda

mas sobe o coração

sursum corda

 

De Deus descia

a escada de corda

a menina tecia

o seu céu de corda

 

António Couto


COM DEUS NO CORAÇÃO

Maio 14, 2009

1. «Tu me seduziste, Senhor,/ e eu deixei-me seduzir;/ Tu foste mais forte» (Jeremias 20,7). «O Senhor é um guerreiro», diz o cântico de Moisés (Êxodo 15,3). Jeremias também o é. Tem de o ser. Que outro modo há de lidar com Deus,/ ou com o amor? Não é o amor «terrível como um exército em ordem de batalha»? (Cântico dos Cânticos 6,4). Que o digam também Moisés, Paulo de Tarso, Agostinho de Tagaste, Francisco de Xavier. Todos travam lutas intensas com Deus. Todos saem derrotados, mas não frustrados; antes apaziguados e tranquilos. Eu também. Confesso que já perdi várias lutas com Deus. Luto com Ele, e tenho perdido sempre, e ainda bem. Já são muitos a zero. Ando nisto desde os 10 anos. O que se passou hoje, aqui, é mais uma vitória d’Ele. Assumo publicamente a derrota. Mas compreendo cada vez melhor que a verdadeira vocação do homem é lutar com Deus mil vezes por amor, e mil vezes sair derrotado por amor.

2. Senhor, que eu diga sempre «Sim»:/ contigo não me importo de perder até ao fim.// Bem se vê que é de amor que falo,/ ou calo./ Importa ouvir sempre a voz do galo,/ e não perder o rumor dos teus passos no jardim,/ ou já dentro de mim,/ suave Senhor de la Sonrisa,/ fina brisa à flor dos lábios,/ alento,/ encanto.// Atento,/ que pode a semente germinar antes do tempo,/ e a espiga amadurar antes do campo!// O tempo que me dás é todo ceifa./ Quatro meses para Ti, que coisa são?/ Apenas o tempo de erguer e poisar os olhos neste chão,/ João 4,35./ Assim nos fazes passar do inverno para o verão,/ e nos deixas no tempo da missão.

António Couto


REINO DESCONCERTANTE

Maio 8, 2009

 

Diz uma história rabínica que, quando Alexandre Magno chegou ao norte de África, viu as populações locais virem oferecer-lhe os produtos da região. Mas ele disse-lhes: – «Não vim aqui para ver o que produzis, mas para ver as vossas leis». Nessa altura, dois homens foram ter com o rei de Qets [Qets significa «fim», «fim do mundo», um reino muito bíblico], e pediram-lhe que julgasse a sua contenda. Um disse: – «Majestade, comprei um campo a este homem, e, quando o lavrei, encontrei lá um tesouro. Então insisti com este homem que ficasse com o tesouro, uma vez que eu comprei apenas o campo, e não o tesouro. Mas ele recusa-se a aceitar o tesouro». Então o outro homem replicou: – «Eu temo a punição, exactamente como tu. Porque, quando eu te vendi o campo, vendi-to com tudo aquilo que ele continha». Então o rei perguntou ao primeiro homem: – «Tu tens um filho?» – «Sim», respondeu o homem. Depois, perguntou ao outro: – «Tu tens uma filha?» – «Sim», respondeu ele. – «Então casai os vossos filhos e dai-lhes o tesouro como dote», sentenciou o rei.                                                                                  

Alexandre Magno manifestou imensa surpresa. – «Por que ficaste surpreendido?», perguntou o rei de Qets. – «Não julguei bem?» – «Com certeza», respondeu Alexandre. Insistiu o rei de Qets: – «Se isto se passasse no teu reino, qual teria sido a tua sentença?» Alexandre respondeu: – «Eu tê-los-ia matado aos dois, e ficava com o tesouro». Então o rei de Qets perguntou a Alexandre Magno: – «Brilha o sol no teu país?» – «Sim», respondeu Alexandre. – «E cai chuva no teu país?», continuou o rei de Qets. – «Sim», retorquiu Alexandre. – «No teu país há animais e rebanhos?», continuou a perguntar o rei de Qets. – «Com certeza», respondeu Alexandre. Disse então o rei de Qets: – «Agora compreendo porque é que no teu país brilha o sol e cai a chuva. Não é por mérito vosso, mas dos animais, pois está escrito: «O homem e o animal tu salvas, Senhor» (Salmo 36,7).

 António Couto


MÃE DE MAIO

Maio 3, 2009

Mãe de Maio

Senhora da alegria

Mãe igual ao diamary_holding_baby_jesus_md_wht

Ave-Maria

 

Canto para ti

Ao correr da pena

A tinta é de açucena

A minha mão pequena

 

Pega em mim ao colo

Minha mãe de Maio

Olha que desmaio

Pega em mim ao colo

 

Pega em mim ao colo

O meu rosto afaga

Depois apaga a luz

Sou eu ou Jesus?

 

António Couto


MAIO E AMOR DE MÃE

Abril 30, 2009

 

1. No dizer do n.º 6 da Constituição Dogmática A Revelação Divina, do Concílio Vaticano II, a Revelação de Deus ao homem não consiste, da parte de Deus, numa coisa que ele entrega, num ditado que dita, numa lição que dá; nem, da parte do homem, numa coisa que recebe, num ditado que escreve, numa lição que aprende. Muito mais do que isso, a Revelação é Deus que a si mesmo se entrega ao homem em dádiva total.

 

2. Nesse sentido, e segundo a mesma Constituição Dogmática, n.º 5, a resposta correcta por parte do homem a esta entrega pessoal de Deus, não pode consistir, antes de mais, em aprender o que quer que seja, mas em acolher este Deus que a ele se entrega, e em entregar-se, por sua vez, livremente a Deus. E esta atitude de entrega pessoal, total, psicobiológica, do homem a Deus, que já antes se tinha entregado ao homem, chama-se .

 

3. Fé ou fidelidade diz-se em hebraico emunah. Emunah deriva do verbo aman, cujo significado primeiro é «segurar», «firmar», mas também significa «fiar-se», «confiar», «ser fiel». É, de resto, fácil entender que a confiança ou a fidelidade entre amigos, namorados ou esposos, e de nós mesmos uns com os outros, gera segurança e firmeza, enquanto que a desconfiança gera insegurança. Andamos mais seguros quando confiamos uns nos outros. Quando desconfiamos, instala-se a insegurança.

 

4. Indo um pouco mais fundo, podemos ainda verificar que o verbo aman pode assentar numa etimologia tipicamente maternal: pode derivar de omen, que significa mãe ou ama, e de amûn, que significa bebé. É sabido que o bebé se agarra [= segura-se] com todas as suas forças à sua mãe, sendo o colo da mãe o lugar mais seguro do mundo para o bebé. E o mesmo se passa do lado da mãe, que por nada deste mundo abandona o seu bebé.

 

5. Significativamente foi a esta relação pessoal fortíssima entre a mãe e o bebé, traduzida em confiança e segurança e felicidade, que a Bíblia foi buscar o termo para dizer fé. Isto é, a relação feliz, segura e de radical confiança que nós vemos existir entre a mãe e o seu bebé é, para a Bíblia, a melhor analogia para traduzir a relação, igualmente feliz, segura e de pessoalíssima confiança que deve existir entre nós e Deus. Esta relação seguríssima chama-se fé.

 

6. Eis um belíssimo solilóquio em que Deus se expressa com traços maternos e paternos, mais maternos que paternos: «Fui eu que ensinei a andar Efraim,/ que os ergui nos meus braços,/ mas não conheceram que era eu que cuidava deles!/ Com vínculos humanos eu os atraía./ Com laços de amor,/ eu era para eles como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face,/ e me debruçava sobre ela para a alimentar» (Oseias 11,3-4).

 

7. Até Deus se revê no amor de mãe. Maio pode ser mais belo, se os nossos gestos forem um pouco mais maternos.

 

António Couto


A METÁFORA DA TARTARUGA

Abril 26, 2009

 

A tartaruga acaba de deixar o seu esconderijo para um passeio nocturno. O sapo vê-a sair de casa àquela hora, e adverte-a: «A esta hora não é muito aconselhável sair, tartaruga». Mas a tartaruga continua, e, arriscando um passo mais longo, vê-se virada de patas para o ar, sobre a sua própria couraça. O sapo exclama: «Eu bem te avisei, tartaruga; é uma imprudência sair a esta hora; morrerás aí!» «Bem sei», respondeu a tartaruga com um olhar entre a malícia e a delícia; «Bem sei, mas é a primeira vez que estou a ver o céu estrelado!»

 

António Couto


A RESPOSTA ESTÁ NAS TUAS MÃOS E NO TEU CORAÇÃO!

Abril 25, 2009

 

1. Ontem uma criança morreu em Auschwitz. Ontem uma criança morreu em Gaza ou em Timor. Um judeu não é pior do que um alemão, nem um alemão melhor do que um judeu. Um timorense não é pior do que um indonésio, nem um indonésio melhor do que um timorense. Nem tu nem eu somos melhores ou piores do que eles. Simplesmente, meu irmão de Abril, guarda na memória – e não esqueças nunca mais – que ontem uma criança morreu em Auschwitz, que ontem uma criança morreu em Gaza ou em Timor.

 

2. A cultura ocidental é conceptual e lógica, expressa-se em conceitos, e, como bem viu Hegel, o conceito ocupa-se apenas do geral, e não do concreto e temporal. O concreto e temporal são apanágio de uma cultura dita anamnética ou da memória, que é preciso urgentemente cultivar. A consciência conceptual sabe que existe a fome, como existe o sofrimento e a morte em geral. Mas nada se preocupa com isso. Existem, sempre existiram e existirão. São o preço da história. A consciência anamnética vê e preocupa-se com aquele homem concreto que tem fome agora, que sofre agora e que está a morrer agora em Auschwitz, na faixa de Gaza, nas montanhas de Timor, ou à tua porta; que tem os olhos cravados em ti e as mão estendidas para ti. Não, Auschwitz, Gaza e Timor não foram meros deslizes da consciência ocidental, mas suas consequências lógicas.

 

3. Uma cultura da memória registra, emociona-se e é interpelada por cada grito concreto que se ouve, por cada lágrima concreta que se chora, por cada mão estendida que procura a nossa mão. Numa cultura da memória, os gritos das vítimas continuam presentes e interpelantes, enquanto que, numa cultura conceptual, as vítimas são apenas o preço da história.

 

4. Elie Wiesel, judeu, sobrevivente de Auschwitz, prémio Nobel da Paz em 1986, autor de inúmeros escritos, tem lutado toda a sua vida por gravar em cada consciência esta cultura da memória, sempre atenta ao concreto e temporal. E gosta de provocar os seus leitores e ouvintes com uma velha história da literatura talmúdica, que passo a transcrever.

 

5. «Um rei ouviu dizer que no seu reino vivia um sábio que falava todas as línguas do mundo. Sabia escutar e compreender o chilrear dos pássaros. Sabia interpretar o aspecto das nuvens. Sabia ler o pensamento das outras pessoas. O rei deu ordens para que o trouxessem ao seu palácio. O sábio chegou.

 

6. Disse então o rei: «É verdade que sabes todas as línguas?» «Sim, majestade», respondeu o sábio. «É verdade que sabes escutar e compreender o chilrear dos pássaros?», perguntou o rei. «Sim, majestade», respondeu o sábio. O rei prosseguiu: «É verdade que sabes interpretar o aspecto das nuvens?» «Sim, majestade», voltou a responder o sábio. O rei perguntou ainda: «É verdade que sabes ler o pensamento das outras pessoas?» «Sim, majestade», respondeu novamente o sábio. Disse então o rei: «Nas minhas mãos, atrás das costas, tenho um pássaro. Diz-me: está vivo ou morto?» O sábio sentiu medo, pois deu-se conta de que, fosse qual fosse a resposta que desse, o rei podia sempre matar o pássaro. Olhou para o rei, e permaneceu em silêncio um bom bocado. Por fim, respondeu: «A resposta está nas tuas mãos!»

 

7. Face às encruzilhadas que atravessamos, deixa que te diga também a ti, meu irmão de Abril: «A resposta está nas tuas mãos e no teu coração!» E nunca esqueças, meu irmão de Abril, que ontem uma criança morreu em Auschwitz, que ontem uma criança morreu em Gaza ou em Timor, ou aí mesmo à tua porta.

 

António Couto


OLHA COM OS OLHOS FECHADOS!

Abril 21, 2009

 

1. Toda a palavra,/ o dizer inteiro,/ é som e ritmo./ Como o coração,/ a respiração,/ a pulsação,/ a lalação,/ a aleitação./ Vida recebida,/ amada,/ mimada,/ acariciada./ Nunca enlatada./ Eu penso, logo existo,/ é o moderno disparate de Descartes,/ que pensava que se punha no ser pelo seu pensamento./ Notoriamente Descartes esqueceu a sua mãe./ Dono de si,/ senhor de si,/ é o homem deste tempo enlatado,/ habitado pelo ritmo metálico da marcha militar,/ fúnebre,/ fatal,/ mortal,/ com morte, mas sem nascimento,/ sem coração,/ sem embalação,/ sem lalação.

 

2. Como escreveste isto?[1],/ perguntam os senhores,/ os donos,/ de ontem e de hoje./ Eu?,/ com tinta[2],/ responde o servo,/ e só o servo sabe dizer tanto./ A palavra não é minha,/ vem de fora./ Palavra criadora,/ não faz vibrar o ar,/ o mar,/ não lhe captamos o som,/ só lhe captamos o sentido.

 

3. Som que nunca se ouviu,/ silêncio que nunca se calou./ As palavras que alinhamos,/ que embalamos,/ que aleitamos,/ uma a uma,/ cada uma depois de outra, antes de outra,/ ocupam o seu lugar, pequeno e frágil,/ certificado de que não mancharam as mãos com a totalidade./ Mas são sentinelas do sentido,/ coração,/ respiração,/ pulsação,/ pontes para outras fontes,/ que não as do consumo ou do fumo…

 

4. Com tinta,/ diz o servo./ Aí está a página,/ o vinco na página,/ a pulsação,/ a lalação,/ de mão para mão,/ de coração a coração.

 

António Couto


[1] Evocação de Jeremias 36,17. A pergunta é feita a Baruc, servo de Jeremias, pelos senhores da corte de Jerusalém.

[2] Evocação de Jeremias 36,18. Resposta de Baruc à pergunta dos senhores.


DAQUI, DESTA PLANURA: LEITURA DO TEMPO EM QUE VAMOS

Abril 15, 2009

1. A Sabedoria do Amor e do Sentido

A teologia é Sabedoria. Sabedoria do Amor, e não amor da sabedoria. A teologia é a Sabedoria de um Amor «crucificado», e só faz boa teologia «aquele que sabe que Outro morreu por ele», para usar a expressão forte do filósofo e teólogo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1865), e fazer memória dos mais firmes fundamentos paulinos de um amor condescendente e oblativo que nos preside e nos precede: «o Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim» (Gl 2,20); «o Senhor Nosso Jesus Cristo, que morreu por nós» (1 Ts 5,9-10). Assim, porque transporta consigo esta intensa e dorida história de Amor, o teólogo fala calando e cala falando, rezando, amando, escutando, sempre em bicos de pés, no limiar do silêncio, sempre à escuta da Palavra criadora de Deus, som que nunca se ouviu, silêncio que nunca se calou (Paul Beauchamp). Premurosa teia de sentido por debaixo da rumorosa espuma das palavras. O Verbo de Deus não anda na crista da onda de sons e de sílabas, sintaxe e fonética. O Verbo de Deus não faz vibrar o ar. É sem som e sem sombra. Não sendo nem a letra nem o som, Ele é o sentido dessa letra e desse som (Paul Beauchamp). E, de modo diferente da letra e do som, o sentido, que se recebe depois de um longo, lento e paciente trabalho de interpretação, ou de rajada, como uma iluminação, o sentido – dizia – não faz barulho. O sentido nunca fez barulho, nunca faz barulho. É um rumo, um rastro, um rosto, um «e-vento», plenitude a incidir na planitude inabitada e inóspita da tábua rasa da mesa do escritório ou do conclave ou do deserto: «Por mais planos que façais,/ eles serão frustrados» (Is 8,10);/ «Eis que vou fazer um coisa nova;/ ela já desponta:/ não vos apercebeis?/ Abrirei um caminho no deserto,/ e rios em lugares ermos» (Is 43,19). Deserto era o caminho entre Jerusalém e Gaza, por onde descia o etíope ilustre (Act 8,26), lendo Isaías, e em quem já despontava uma coisa nova: «Entendes o que Lês?», pergunta-lhe Filipe (Act 8,30). Pergunta-lhe e explica-lhe, e nasce o sentido e a água (Act 8,36-37).

 

2. A metáfora da Luz ou a modernidade

A metáfora da Luz – iluminismo – enche a modernidade. A luz da modernidade é a razão que quer iluminar todas as coisas, querendo assim compreender, com o que há de «prender» no compreender (Emmanuel Levinas), toda a realidade. Esta luz da razão produz identificação (redução do outro à esfera do «eu») e emancipação. Diz Karl Marx, em A Questão Judaica: «A emancipação é a recondução do mundo e de todas as coisas ao homem, para fazer do homem, não mais o objecto, mas o sujeito da sua própria história, do seu próprio destino». É assim que o homem se faz senhor, e não pastor (o pastor é frágil) (Martin Heidegger), e, como senhor, pode dizer: «Eu, eu, e mais ninguém» (Sf 2,15), ou «Eu, eu, e fora de mim não há ninguém» (Is 47,7 e 9), ou ainda «Eu fiz-me a mim mesmo» (Ez 29,3), e também «Sou rico, enriqueci, e não preciso de nada» (Ap 3,17), e mais recentemente «Eu penso, logo existo» («Cogito, ergo sum») (Descartes). Como se vê, este homem que se arvora em senhor absoluto, liquida ao mesmo tempo a ideia de criação (Deus) e a ideia de geração (mãe), pondo Deus de lado e esquecendo a sua mãe, e pensando que se põe sozinho no ser pelo seu próprio pensamento, mais ou menos homossexual (Adriana Cavarero). Este triunfo da identidade sobre a alteridade, com o normal corolário da desmedida «identificação», redução de tudo ao «eu» e ao «mesmo», produz a solidão, que sou «eu» sozinho no meio de objectos, depois de reduzir também os outros a objectos (Gn 2,18) (Abraham Joshua Heschel), e faz aparecer, pela primeira vez na história da humanidade, o ateísmo, e torna-se fonte de totalitarismos e violências inauditas. É o tempo da razão forte, do discurso lógico e ideológico, do logocentrismo, do sermão inflamado, do compêndio único. Em A Gaia Ciência, aforismo 125, Nietzsche descreve plasticamente esta realidade, quando faz sair, para a praça da cidade, em plena luz do dia, um homem louco, que leva na mão uma lanterna acesa, enquanto grita pela cidade: «Deus morreu; nós matámo-lo!» Foi assim que nos tornámos os senhores do mundo. Mas começa, entretanto, a cair a noite e a fazer frio. Não é o assassinato de Deus que apoquenta Nietzsche. Apoquenta-o a orfandade em que, com esse acto desmedido e de tresloucada audácia, caiu a humanidade. A frouxa luz da lanterna que exibe e com que em plena luz do dia pretende iluminar o mundo representa ironicamente a luz da razão, da nossa pequena razão, que quer sempre dominar o mundo, retê-lo na sua mão fechada.

 

3. A metáfora da Noite ou a pós-modernidade

A metáfora da Noite traduz a pós-modernidade, tempo em que a razão forte da modernidade se descobre como razão frágil e fragmentada, incerta e inquieta, ao sabor do slogan rápido e afectado. A democracia cede terreno à mediocracia. O sucesso não tem a ver com a razão e o discurso bem elaborado, mas com o dizer mais afectado, mais alto e mais rápido. A noite é um tempo de naufrágio. Partindo de uma cena do De Rerum Natura, de Lucrécio, escritor latino do século I a. C., que narra os sentimentos de dor e de angústia, mas ao mesmo tempo de tranquilizante conforto, de um observador que, na praia, com os pés em terra firme, assiste a um navio que se afunda, lá longe, no mar, o filósofo alemão Hans Blumenberg (1920-1996) define a modernidade como «naufrágio com espectador». Neste sentido, o homem moderno ainda pensava que tinha um pedaço de terra firme debaixo dos pés: a sua razão. Ao contrário, o homem pós-moderno perdeu já esse naco de terra e de razão e está dentro do navio que se afunda, sendo ao mesmo tempo náufrago e espectador. A única coisa que lhe resta é tentar construir, com os restos do navio desconstruído, um jangada que lhe permita sobreviver por algum tempo. A pós-modernidade, como a noite, é um tempo sem horizontes, em que cada um se fecha na concha da sua própria solidão, no seu pequeno grupo de amigos, no seu mundo fechado, à volta de umas quantas latas de cerveja, de pequenos rituais herméticos e esotéricos e correspondente vocabulário, à mistura com uns kicks emocionais, para logo resvalar outra vez cada um para o seu naco insensato de solidão, escuridão e indiferença. A questão já nem sequer é a falta de sentido. A questão é a ausência de perguntas pelo sentido. Estamos na «noite do mundo» (Weltnacht), diz Martin Heidegger, no tempo do exílio. E diz uma velha história rabínica que «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o arguto rabino respondeu que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas. Os límpidos versos do poeta espanhol Antonio Machado dizem a mesma coisa de outra maneira: «En el corazón tenía/ la espina de una pasión;/ logré arrancármela un dia:/ ya no siento el corazón». A noite da pós-modernidade deixa-nos na indiferença e na insensibilidade, sem amor nem dor nem alegria, sem grandes sonhos, sem grandes causas, sem perguntas e sem esperas, perdidos no meio de fragmentos, agarrados ao nosso bocado de tempo, sem passado nem futuro, nem presente, bocado de tempo atomizado, a que se chama momento, tábua solta e à deriva, sem salvação, momento que há prolongar o mais possível e fruir enquanto é tempo (Gianni Vattimo), de acordo com o horaciano carpe diem, documentado também na Sb 2,6-9, em Is 22,13 e em 1 Cor 15,32.

 

4. A metáfora da Aurora ou a Luz que vem de fora

Depois da luz e da noite, já se vislumbra no horizonte a metáfora da Aurora, luz que vem de fora. O canto de um galo rasga a noite, e Pedro sai para fora. E chora (Mt 26,74-75). O mais querigmático dos animais anuncia a Pedro que está a nascer o dia. O dia mesmo. O dia sem noite e sem série (Zc 14,7; Ap 21,23). É o que assinala o galo presente nos sarcófagos dos primeiros cristãos, donde passa para os campanários das Igrejas. O galo não se rege pelas horas do relógio, nem o seu canto pelas notas musicais. São partituras de sentido que trauteia, música nova, que vem de fora, e não entra pelo ouvido. Rombo na totalidade. Evento-Advento (Ereignis). O tudo, pelo simples facto de ser tudo, tem necessariamente de ser limitado, limitado com limite, mas sem limiar, porque o tudo, se é tudo, como é que pode ter ainda janelas para outra coisa?! A aurora é luz que vem de fora, rebenta o limite com a graça de um novo limiar. Claro convite a trans-gredir, de trans-gredior, dar um passo para além de. Transformar o limite num novo limiar. Evento-Advento para um novo Êxodo. A nova ordem é sair para fora de si, pois é de fora de ti que vem o sentido da vida. O rosto do Outro, incontrolável e inviolável, é a ordem nova e o sentido até agora insuspeitado (Emmanuel Levinas). Deus deixa-se encontrar por aqueles que não o procuram,/ manifesta-se àqueles que não se dirigem a Ele (Is 65,1; cf. Rm 10,20). Deus vem, portanto. Evento-Advento, Êxodo, escuta, encontro, espanto. «De outro modo que ser» (Autrement qu’être), formula Emmanuel Levinas. Cogitor, ergo sum: com um simples r, Karl Barth subverte Descartes. Amor, ergo sum. «Sou pensado, logo existo». «Sou amado, logo existo». Eu não sou incestuosa e tautologicamente filho de mim mesmo, como sugeria o cogito cartesiano. Um Amor me precede. Outras mãos me acolhem. Outras mãos se estendem para mim. Sair de mim. Do meu mundo, dos meus projectos, dos meus domínios e afazeres, do meu «eu» patronal, do meu esforço para permanecer no ser, o espinoziano conatus essendi. «Sair (yasa’) é o verbo emblemático do êxodo. Exprime uma saída sem retorno, que reclama a saída do bebé do ventre materno» (Ubaldo Terrinoni). Saída para uma radical confiança no outro que me precede e me acolhe. «A primeira experiência da pessoa é a experiência da 2.ª pessoa: o tu, e, portanto, o nós, vem antes do eu» (Emmanuel Mounier). Pensar depois do Evento-Advento e do Êxodo significa, na verdade, «ser pensado», «ser amado», «ser dito».

 

5. Um percurso paradigmático

Recordamos aqui o caso sério de Martin Heidegger (1889-1976). Começou como estudante de teologia. A teologia é, no seu dizer, a disciplina da escuta humilde do silêncio de Deus. Decorridos dois anos, passou-se para a filosofia, que é a disciplina da interrogação radical («Por que há o ser e não o nada?»), da compreensão e do domínio da realidade. Fruto desta sua postura é o «Ser e o Tempo» (Sein und Zeit), obra aparecida em 1926, que tem a sua tradução prática na sua adesão, em 1933, ao nacional-socialismo, como ideologia de domínio da realidade pela violência. O mundo esperou pela segunda Parte desta Obra, que nunca chegou a aparecer. Na verdade, Heidegger, reconhecendo a tragédia do projecto nacional-socialista, que quanto mais tentava subjugar o mundo, mais este lhe escorregava das mãos, reconheceu também o fracasso da sua filosofia, ao verificar que, se era possível dizer o ser das coisas (Dasein), já não era possível dizer o Ser (Sein) que está por detrás das coisas, pois não é possível dizer o Ser com as palavras da nossa linguagem, sempre demasiado frágeis e pequenas, capazes de dizer o fragmento, mas incapazes de dizer o abismo que sustenta e em que navega o fragmento. Por outras palavras: como dizer o «de outro modo que ser» (Autrement qu’être) com a linguagem do ser? Surge então, nos anos 1936-1938, em que escreve Beiträge zur Philosophie (Vom Ereignis) [Contributos para a Filosofia (do Evento)] – obra publicada postumamente, em 1989 –, a chamada «reviravolta» (Kehre) heideggeriana, em que Heidegger se apercebe que pensar não consiste no orgulhoso exercício de interrogar, compreender e dominar o ser, mas na atitude humilde de escutar o Ser – passagem da interrogação para a escuta –, sendo que «escutar é deixar-se dizer», e falar não é dominar, mas simplesmente re-dizer o Dizer que escutámos. Imensa mudança de perspectiva e atitude. Da luz da nossa pequena razão, que em nós mora, que tudo pretende dominar para aprisionar, à luz da aurora, que vem de fora, para nos libertar.

 

6. «Na tua luz veremos a luz»

É o dizer luminoso do Sl 36,10. E Paulo pode ser o ícone do homem novo nascido dessa torrente de luz que nos cega e nos acende os olhos (Act 9,1-18; 22,6-16; 26,12-23). Um vasto mar de amor me precede, me envolve, me revolve e me devolve a mim. Eu dado a mim, pedra-base do pensamento do filósofo francês Claude Bruaire (1937-1986). O homem bíblico tem de viver de mãos abertas (kaph). Só assim se recebe das mãos de Deus para ele estendidas (Is 65,2), das palmas das mãos de Deus em que está carinhosamente tatuado (Is 49,16). É de mãos abertas que Deus governa o mundo (Ecli 18,3). O Talmud, que é a sabedoria hebraica condensada em cinco milhões de palavras, refere exemplarmente que o punho cerrado representa a sabedoria do imbecil, que pensa que detém o mundo nas malhas da sua rede. E refere depois que, quando a mão inicia o movimento de se abrir, é como as pétalas de uma flor que se abre à vida. E acrescenta: é assim que floresce a inteligência. E, quando a mão se abre completamente, é a mão do sábio, que não retém nada, mas conhece o valor do encontro e do dom. E, cruzando agora as duas mãos abertas, ficamos com a imagem do «pássaro, livre, que voa». Processo inverso ao da filosofia, desde Zenão a Platão, Descartes, Fichte e Nietzsche, que apresentam o conhecimento como a captura ou compreensão que o sujeito faz do objecto. A verdade (a-lêtheia) é assim o desvelamento ou desocultação, violação ou violentação a que o sujeito submete o objecto, para dele se apoderar, representando-o e reproduzindo-o na mente, «adequação entre a coisa e a mente» (adequatio rei et intellectus), como referem Aristóteles e Tomás de Aquino. O último Heidegger, a que já aludimos, considera que esta concepção de verdade é a matriz da violência do Ocidente, e diz as coisas de outra maneira: não é o sujeito que captura e desoculta o objecto, mas é o objecto que sai do seu esconderijo e se oferece ao homem como dom, como evento (Ereignis). Por isso, a função do sujeito já não é capturar e dominar com o que há de «prender» no compreender, mas acolher com espanto, alegria e reconhecimento. A Bíblia e a teologia estão claramente do lado do último Heidegger. Mas vão muito mais longe, trans-gredindo-o, pois não se trata de objectos que se entregam ao homem, mas de um Tu, o Tu de Deus, que, por amor, vem até ao homem e a ele se entrega por amor, debruçando-se sobre ele e abaixando-se até ao ponto de lhe lavar os pés e a alma (Von Balthasar), de cuidar dele, de o alimentar, de lhe afagar o rosto, de o ensinar a andar: «Fui Eu que ensinei a andar Efraim,/ que os ergui nos meus braços,/ mas não conheceram que era Eu que cuidava deles!/ Com vínculos humanos Eu os atraía./ Com laços de amor,/ Eu era para eles como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face,/ e me debruçava sobre ela para a alimentar» (Os 11,3-4). Aí está a verdade (’emet) como confiança (’emunah), derivados de ’aman, que significa segurar, firmar, fiar-se. É o mundo da mãe (’omen) e do bebé (’amûn), da confiança radical, da aleitação, da embalação, da lalação, da palavra antes das palavras, como cantavam há séculos os hasidîm na Europa Central: «Vá eu para onde for, Tu;/ Onde eu parar, Tu:/ somente Tu,/ ainda Tu,/ sempre Tu./ Céu, Tu;/ terra, Tu./ Para onde eu me voltar,/ para onde olhar,/ Tu, Tu, Tu».

 

7. A metáfora da tartaruga ou a transgressão

A tartaruga acaba de deixar o seu esconderijo para um passeio nocturno. O sapo vê-a sair de casa àquela hora, e adverte-a: «A esta hora não é muito aconselhável sair, tartaruga». Mas a tartaruga continua, e, arriscando um passo mais longo, vê-se virada de patas para o ar, sobre a sua própria couraça. O sapo exclama: «Eu bem te avisei, tartaruga; é uma imprudência sair a esta hora; morrerás aí!» «Bem sei», respondeu a tartaruga com um olhar entre a malícia e a delícia; «Bem sei, mas é a primeira vez que estou a ver o céu estrelado!» A tartaruga ensina que não nos podemos contentar em viver mais ou menos tranquilamente com a cabeça enterrada na areia do céu ou da terra. Deduzir o céu da terra, ou o Último do penúltimo, é apenas areia. Areia é trocar o Último pelo penúltimo. O penúltimo é o mundo dos meios sem fins, «excesso de meios, míngua de fins», como bem refere o médico e filósofo da medicina Edmund Pellegrino, o mundo da «razão instrumental», locução cunhada pelo filósofo e sociólogo Max Horkheimer (1895-1973), para mostrar o que acontece quando o sujeito do conhecimento toma a decisão de que conhecer e saber é dominar e controlar tudo e todos, tornando-se a ciência um instrumento de domínio, poder e exploração. É o mundo das pessoas como objectos, que se movem no tempo como os objectos se movem no espaço. Um passo em frente. É imperioso e urgente pensar. Trans-gredir. «Pensar é trans-gredir» (Denken heisst überschreiten), palavras gravadas na pedra tumular de Ernst Bloch (1885-1977). Sair de casa como a tartaruga, extasiar-se e desviar-se do caminho como Moisés (Ex 3,3-4). É o céu que vem interromper curso e percurso. O Último interrompe o penúltimo, mundo desencantado (Max Weber), outra vez visitado, amado, encantado. Pensar é trans-gredir, pensar é ser pensado, amado. A luta e o amor. «Tu és bela, minha amada,/ terrível como um exército em ordem de batalha» (Ct 6,4). Para além dos meios. Amor sem luta é posse de um objecto. O amor verdadeiro é agónico. Não é por acaso que agápê (amor) e agôn (luta) têm a mesma etimologia. Paradoxo do amor: o amor faz-te feliz, matando-te! Quanto mais amas, lutas, e te matas a amar, mais te encontras: «Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; ao contrário, quem perder a sua vida por causa de mim, salvá-la-á» (Lc 9,24). Aí está o verdadeiro ícone do amor, Cristo, que não se salvou a si mesmo para me salvar a mim, morrendo por amor de mim, trans-gredindo assim a morte. Ícone do amor. Ícone também da trans-gressão, do advento e do êxodo: sai de Deus, sai de si, sai para Deus.

 

8. A partir da esperança

Paulo diz aos cristãos de Éfeso que, antes de terem sido encontrados por Cristo, viviam «sem esperança e sem Deus no mundo (elpída mê échontes kaì átheoi en tô kósmô)» (Ef 2,12). Este marcador Paulino atravessa a Encíclica Spe salvi, de Bento XVI, de 30 de Novembro de 2007. Vejam-se os números 2, 3, 23, 27 e 44. Sem Deus no mundo, habitação desabitada, não há esperança. Pode haver apenas pequenas deduções, como quem deduz o céu da terra ou o Último do penúltimo. No mundo grego, esperança é elpís, e tem o significado de «previsão», «lícita expectativa», sempre assente nos nossos calculismos e exercícios racionais, pequenas deduções. Ao contrário, a esperança bíblica e cristã, de que fala Paulo (e Bento XVI), é sem medida, tem a ver com o nunca antes visto, aponta para além das leis da natureza, está em luta aberta contra as evidências. Trata-se de «esperar contra a esperança» (par’ elpída ep’ elpídi = contra a esperança na esperança) (Rm 4,18). É assim que Paulo define a atitude de Abraão. No mundo hebraico, esperança é tiqwah, e deriva de qaw, que pode significar «fio», «fita métrica», «cordel para medir». Percebe-se que tem a ver com o «fio» que se estica para medir, até chegar à medida ainda sem medida e sem solução à vista – «esperança vista não é esperança» (Rm 8,24) –, mas que tem solução recebida de Deus. É como o «fio», a «corda», o «arame» estendido entre a dor e a consolação esperada, entre a humanidade e Deus, fio tenso, não abaulado – veja-se Jb 7,6 («Os meus dias correm mais depressa do que a lançadeira,/ e consomem-se sem esperança») e Rm 4,20 («Não ficou abaulado na incredulidade / desconfiança (apistía)») –, e seguro entre duas mãos, a de Deus e a nossa. Única maneira de se poder atravessar, com segurança e confiança, o vau da vida e da morte. Paulo transfere esta imagem do «fio» ou da «corda» para o mundo e para o homem, e coloca-os nesta tensão esperante, através do recurso ao nome apokaradokía (Rm 8,19; Fl 1,20), de apó + kára + dokéô [= fora de + cara (rosto) + esperar/olhar atentamente] que só ele usa no NT, e que é desconhecido no grego antes do Cristianismo. Apokaradokía traduz a atitude de quem se coloca em bicos de pés, alongando o pescoço o mais que pode com ânsia extrema e intensa para tentar ver o que ainda não se vê – assim se apanha o tique da esperança –, atitude muito próxima da traduzida por apekdéchomai (Rm 8,25), de apó-ek-déchomai [= fora de + desde + receber], que implica uma forte conotação de recepção, tensão para receber a salvação de Deus, tensão para o dom, pois um dom, não o podemos produzir com as nossas mãos; só o podemos receber de outras mãos. A esperança bíblica e cristã consiste na dupla atitude amante de estarmos sempre à espera de alguém, e de sabermos bem que Alguém espera por nós.

 

9. A casa e o hábito

Habitação habitada, êthos e éthos. É Deus que constrói a casa, a habitação (êthos) (Sl 127,1); é dele que recebemos o hábito, a ética (éthos), o mandamento que interrompe e põe em crise a nossa espontânea luta para permanecer no ser, abrindo-nos a porta da liberdade. A belíssima temática da habitação e do vestido atravessa, de lés a lés, a inteira Escritura: o coração da Tôrah ou Pentateuco ocupa-se de um Deus que quer vir habitar no meio de nós, na Tenda do Encontro, donde decorre toda a teologia do Santuário, até Cristo, que «estabeleceu a sua tenda no meio de nós» (Jo 1,14); é desde o Génesis que está presente o vestido de misericórdia (Gn 3,21), assomando depois o vestido de festa e de salvação (Is 61,3 e 10), passando pelo paulino revestimento de Cristo (Rm 13,14; Gl 3,27; Cl 3,12-17), até ao vestido definitivo da esposa (Ap 21). Sem Deus no mundo, habitação desabitada, não há esperança nem ética. Neste mundo em que impera o «eu», o outro, seja com letra pequena ou maiúscula, está quase sempre a mais, e não lhe é permitido ocupar senão três posições: uma coisa a possuir ou a deitar fora, um meio a utilizar para eu atingir os meus fins ou um rival a eliminar. É aqui que podemos ainda compreender os idosos que atiramos lá para longe como coisas já sem nenhum valor; as crianças que não queremos que nasçam, porque são um empecilho ao nosso conforto e bem-estar, alguém que vem desarranjar o nosso mundo, tempo, horários, e até os nossos móveis e imóveis; os empregados que pomos na rua porque já não são suficientemente rentáveis: não são mais meio para os nossos fins; enfim os países ou as pessoas a quem fazemos guerra, porque estorvam a nossa vontade de poder, a nossa ambição e expansão ilimitadas. O que se diz dos outros, pode dizer-se de Deus, que podemos também ser tentados a utilizar em nosso proveito, a pôr de lado ou a eliminar. E assim ficamos sós, completamente sós, senhores absolutos da planura (Gn 11,2), que nada sabemos construir em altura. Veja-se a família, a política, a escola, o tribunal, o hospital, a igreja. Tudo tão plano e chato,/ com casas, mas sem casa,/ com mesas, mas sem mesa,/ com fardas, mas sem vestido,/ sem hábito,/ nu por dentro. Pautas enlatadas, marchas militares ou fúnebres. Só o Rosto ou o mandamento verdadeiro, vindo de fora e acolhido à porta com amor, surpresa e maravilha, dom, evento, advento, pode romper e fecundar este areal espesso como o gesso. Falo do alento de Deus, beijo de Deus, no pó que somos (Gn 2,7). Só ele pode transformar estátuas em filhos e irmãos.

 

António Couto


SENHOR DA MINHA VIDA

Abril 11, 2009

 

Tu, Senhor, Tu falas

E um caminho novo se abre a nossos pés,

Uma luz nova em nossos olhos arde,

Átrio de luminosidade,animated_fire

Pão

De trigo e de liberdade,

Claridade que se ateia ao coração.

 

Lume novo, lareira acesa na cidade,   

És Tu, Senhor, o clarão da tarde,

A notícia, a carícia, a ressurreição.

 

Passa outra vez, Senhor, dá-nos a mão,

Levanta-nos,

Não nos deixes ociosos nas praças,

Sentados à beira dos caminhos,

Sonolentos,

Desavindos,

A remendar bolsas ou redes.

 

Sacia-nos.

Envia-nos, Senhor,

E partiremos

O pão,

O perdão,

Até que em cada um de nós nasça um irmão.

 

António Couto