COM JESUS NO CORAÇÃO OU O RETRATO DE SIMEÃO E ANA

Fevereiro 9, 2010

 

1. A Igreja Una e Santa celebra em 2 de Fevereiro, quarenta dias depois do Natal, a Festa da APRESENTAÇÃO do Senhor, que as Igrejas do Oriente conhecem por Festa do ENCONTRO (Hypapantê) e dos Encontros: Encontro de DEUS com o seu POVO agradecido, mas também de MARIA, de JOSÉ e de JESUS com SIMEÃO e ANA. Também connosco.

 2. Quarenta dias depois do seu nascimento, sujeito à Lei (Gálatas 4,4), JESUS, como filho varão primogénito, é APRESENTADO a Deus, a quem, sempre segundo a Lei de Deus, pertence. De facto, o Livro do Êxodo prescreve que todo o filho primogénito, macho, quer dos homens quer dos animais, é pertença de Deus (Êxodo 13,11-13), bem como os primeiros frutos dos campos (Deuteronómio 26,1-10).

 3. É assim que, para cumprir a Lei de Deus, quarenta dias depois do seu nascimento, JESUS é levado pela primeira vez ao Templo, onde, também pela primeira vez, se deixa ver como a Luz do mundo e a nossa esperança.

 4. Compõe a cena um velhinho chamado SIMEÃO, nome que significa «ESCUTADOR», que vive atentamente à escuta, e que o Evangelho apresenta como um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel. Ora, esse velhinho que vivia à espera e à escuta, com premurosa atenção, veio ao Templo, e, ao ver aquele MENINO, pegou nele nos braços (por isso, os Padres gregos dão a SIMEÃO o título belo de Theodóchos = recebedor de Deus), e entoou o canto feliz do entardecer da sua vida, um dos mais belos cantos que a Bíblia registra: «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos, Luz que vem iluminar as nações e glória do teu povo, Israel!»

 5. E, na circunstância, também uma velhinha chegou carregada de esperança. Chamava-se ANA, que significa «GRAÇA»; é dita «Profetisa», isto é, que anda sintonizada em onda curta com a Palavra de Deus; era filha de Fanuel, que significa «Rosto de Deus»; era da tribo de Aser, que significa «Felicidade». Tanta intimidade com Deus! Também esta velhinha serena e feliz –  com 84 anos, número perfeito de números perfeitos (7 x 12) – viu aquele MENINO. E diz o Evangelho que se pôs a falar dele a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém!

 6. Esta é a Festa da Alegria e da Esperança acumulada e realizada. É a Festa da Luz. SIMEÃO e ANA viram a Luz e exultaram de Alegria. HOJE somos nós que nos chamamos SIMEÃO e ANA. Somos nós que recebemos esta Luz nos braços, e que ficamos a fazer parte da família da Felicidade e a viver pertinho de Deus, Rosto a Rosto com Deus, Escutadores atentos do bater do coração de Deus. Felizes sois vós, os pobres! (Lucas 6,20). Felizes os olhos que vêem o que vós vedes e os ouvidos que ouvem o que vós ouvis! (Lucas 10,23).

 7. Fevereiro é um mês de Alegria, de Apresentação e Encontro, de Consagração e Contemplação. Num mundo triste e cansado como o nosso, Maria, José e o Menino, Simeão e Ana são ícones de Felicidade, que nos vêm dizer que se cresce, não apenas em idade, mas em idade, sabedoria e Graça!

 António Couto


QUANDO O DEUS SANTO VEM AO NOSSO ENCONTRO

Fevereiro 5, 2010

 

1. Naquela manhã de há dois mil anos algo de extraordinário aconteceu para que alguns pescadores do lago da Galileia – o Evangelho de Lucas 5,1-11 destaca os nomes de Pedro, Tiago e João – tenham abandonado as barcas, as redes, os peixes acabados de pescar em grande quantidade, enfim, tudo, para seguir mais de perto Jesus.

 2. Pedro, sempre ele, diz-nos o porquê da revolução operada na sua vida: «Por causa da tua Palavra, Mestre, lançarei as redes». Por causa da tua Palavra. Naquela manhã, Jesus ensinava (edídasken) as multidões, sentado (kathísas) na barca de Pedro, que Jesus tinha pedido a Pedro para afastar um pouco da praia para a água. Bela forma encontrada por Jesus de obrigar Pedro a ter de escutar todo o seu ensinamento! E ensinava de forma continuada: assim o indica o imperfeito do verbo grego. Sentado: é a posição do Mestre que ensina na cátedra. É ainda sentado como Mestre na barca que Jesus ordena agora a Pedro: «Afasta (a barca) para o mar profundo, e lançai as vossas redes para a pesca!» Pedro mostrou a sua estupefacção de pescador experimentado: tinham trabalhado toda a noite e nada tinham pescado! Quanto mais agora, de dia, seria inútil fazê-lo! Lançou, porém, as redes, e pouco depois caiu de joelhos aos pés de Jesus, sempre sentado como Mestre na barca, e avançou um pedido: «Distancia-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador». Mas Jesus diz para Pedro: «Não tenhas medo! Doravante serás pescador de homens». E o narrador anota a fechar o episódio que «Tendo conduzido as barcas para terra, tendo deixado tudo, seguiram-no».

 3. Entenda-se bem que Pedro lançou as redes para a pesca, não baseado nas suas capacidades de pescador experimentado, mas por causa da Palavra de Jesus ou sobre a Palavra de Jesus. Palavra aqui diz-se rhêma, que tem o significado fortíssimo de «Palavra que acontece» ou de «Acontecimento que fala». Entenda-se também então que a nova missão de pescador de homens que Jesus lhe confia terá de ser também somente assente nesta Palavra de Jesus. A missão de Pedro e a nossa!

 4. Notem-se os sucessivos «afastamentos» que são, na verdade, «aproximações». Primeiro é Jesus que pede a Pedro que afaste a sua barca um pouco da terra, para poder, dessa cátedra improvisada, ensinar melhor as multidões. Note-se, todavia, que, com este recurso, Jesus põe Pedro bem junto dele! Quando Jesus pronuncia, pela segunda vez, o verbo afastar, fá-lo em imperativo dirigido ainda a Pedro, e é para aquela pesca milagrosa que aproximará ainda mais Pedro de Jesus! A terceira vez é a vez de Pedro. E é para fazer uma profissão de fé, reconhecendo em Jesus o Senhor, isto é, Deus. E decorre deste reconhecimento que Pedro se reconheça como pecador, que não pode estar na presença do Deus Santo. Daí, o grito: «Distancia-te de mim, Senhor… A última palavra é, como tinha de ser, de Jesus, que dá uma nova identidade a Pedro: «pescador de homens». E o episódio termina com o narrador a vincular radicalmente Pedro e os companheiros a Jesus com aquele dizer: tendo deixado tudo, seguiram-no».

 5. Entenda-se ainda bem que este seguimento de Jesus a que Pedro e nós somos convidados, não se destina a aprender uma doutrina ou uma ideia, mas a seguir de perto uma Pessoa, Jesus de Nazaré, e a sua maneira concreta de viver. É a adesão a uma Pessoa que está em causa para Pedro e para nós.

 6. De Pedro e dos seus companheiros é dito que deixaram barcas, redes, peixes, tudo, para seguirem Jesus (5,11), decisão radical que o Evangelho de Lucas continuará a salientar noutras passagens: «Se alguém quiser seguir-me, diga não a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias, e siga-me» (9,23); «Vendei tudo o que tendes e dai-o em esmola» (12,33); «Aquele de vós que não renunciar a todos os seus bens não pode ser meu discípulo» (14,33); «Vende tudo o que tens e distribui-o aos pobres» (18,21).

 7. É assim que Pedro se faz pescador de homens, lançando as redes da Palavra criadora de Deus até à sua morte, com o sangue, na cidade de Roma. Como memória eterna deste «pescador», ainda hoje, em todos os dias 28 de Junho, véspera da Solenidade de S. Pedro e S. Paulo, se coloca simbolicamente sobre a porta da Basílica de S. Pedro, em Roma, uma rede de ramos de buxo. Não uma coroa de louros, mas uma rede de louros!

 8. Em perfeita consonância com a cena do Evangelho, relatando-os o verdadeiro encontro de Pedro com o Deus Santo, o Antigo Testamento oferece-nos, neste Domingo V do Tempo Comum, o majestoso texto da vocação e missão de Isaías (6,1-8). No decurso de uma liturgia no Templo de Jerusalém, Isaías é investido como Profeta. Estamos por volta de 736 a. C., época provável da morte do rei Ozias, referida em Isaías 6,1. Perante a manifestação do Deus três vezes Santo, sentado no trono da graça que é o propiciatório da Arca da Aliança que ocupa o centro do Santo dos Santos do Templo, Isaías não tinha evasivas. Quando o Deus Santo se manifesta ao homem, provoca nele o mais intenso movimento de relação, movimento mortal, fulminante (Êxodo 33,20; Jeremias 30,21). Assim, Isaías, que tinha sido arrastado para um tão intenso movimento relacional, constata que devia estar morto, e, todavia, está vivo, vivificado! Milagre! E Isaías soube receber-se como dado, como filho da Palavra criadora de Deus e não já apenas dos seus pais ou da sua pátria, e doar-se, por sua vez, a Deus de acordo com a sua nova identidade, vocação e missão de Profeta. Como Pedro no Evangelho.

 9. A grande aclamação do «Santo, Santo, Santo» faz parte substancial e central da celebração de todas as Igrejas cristãs. Se virmos bem, também nós hoje e aqui estamos perante o «Santo, Santo, Santo». Exactamente no lugar de Isaías e de Pedro…

 10. A leitura semi-contínua do Apóstolo Paulo prossegue hoje com um texto de fundamental importância (1 Coríntios 15,1-11), um «credo» cujo conteúdo é o Evangelho (euaggélion) fielmente evangelizado (euaggelízomai) pelo Apóstolo e fielmente recebido (paralambánô) e guardado (katéchô) pela comunidade cristã de Corinto. O Apóstolo enuncia os dois grandes elos da genuina cadeia da Tradição: «Transmiti-vos (paradídômi) o que eu recebi (paralambánô)». Transmitir e receber e de novo transmitir sem interrupção. Os conteúdos da Tradição (parádosis) do Evangelho são: a) Cristo morreu pelos nossos pecados «segundo as Escrituras»; b) foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia «segundo as Escrituras»; c) o Senhor Ressuscitado fez-se ver a Cefas e aos Doze, depois a mais de quinhentos irmãos (a maioria dos quais ainda estavam vivos quando Paulo escrevia, podendo, por isso testemunhar), depois a Tiago, depois a todos os discípulos, e, por último, ao próprio Apóstolo Paulo que escreve e no qual opera a graça de Deus. Todos, o Apóstolo e os Apóstolos, anunciam (kêrýssô) este Evangelho, e todos, o Apóstolo, os Apóstolos e os fiéis, nós também, acreditámos (pisteúô) neste Evangelho e vivemos deste Evangelho, que é a nossa vida verdadeira (Gálatas 2,20; Filipenses 3,21).

 António Couto


PARA NUNCA MAIS ESQUECER: MERCI SEIGNEUR!

Janeiro 31, 2010

 

1. Em 12 de Janeiro último, às 16h53, um violento sismo abalou o Haiti e abalou o coração do mundo, desencadeando por toda a parte uma gigantesca onda de solidariedade e compaixão.

 2. «Merci, Seigneur», [= «Obrigado, Senhor»], rezavam vozes jovens logo nos primeiros dias resgatadas dos escombros. Vozes saídas do milagre. Oração saída das entranhas.

 3. Naquela tarde do dia 12 de Janeiro, Ena Zizi, uma senhora de 69 anos, estava na missa quando viu a igreja cair-lhe em cima. Continuou a rezar, e, ao sétimo dia, chegou o auxílio. E Ena saiu a cantar de debaixo dos escombros. Contou uma socorrista mexicana: «Ela agarrou a minha mão com tanta força, que pensei que era Deus que me estava a tocar».

 4. «Deus ajudou-me», respondeu Kiki, aquele menino de sete anos, feliz, de sorriso largo e de braços abertos, quando lhe perguntaram: «Como conseguiste sobreviver sete dias debaixo dos escombros»?

 5. Isabel Jossaint, uma bebé de 15 dias, foi resgatada ao oitavo dia, quando já até os seus pais estavam conformados com a sua morte. Estava sossegada debaixo da mobília da casa e tinha passado metade da sua vida debaixo dos escombros. Disse o avô: «Todos sabiam que a menina estava morta, menos Deus!»

 6. Emmanuel Buso, um jovem de 21 anos, esteve soterrado nos escombros da sua casa durante dez dias. Foi bebendo a própria urina para não se desidratar. Deitado agora na cama do hospital, afirma: «Só estou aqui, porque Deus assim o quis».

 7. «Rezei a Deus», respondeu a menina, de 14 anos, resgatada catorze dias depois da catástrofe, quando lhe perguntaram: «O que fizeste durante este tempo todo?»

8. São histórias vivas, densas, encharcadas de dor, de Deus e de amor. Corações a bater, orações a arder, lições a doer para este mundo sonolento, insípido, amortalhado, esse sim soterrado nos escombros de um egocentrismo sem saída.

 9. Hoje, Domingo, o Apóstolo Paulo aponta-nos o AMOR como o CAMINHO HIPERBÓLICO (kath’ hyperbolèn hodón) (1 Coríntios 12,31), portanto, excessivo e belo e maravilhoso. E dirá na Carta aos Colossenses que o AMOR é o vínculo (sýndesmos) (Colossenses 3,14), portanto, o fio, o cíngulo, o cinto que aperta e ajusta as vestes e os corações. E a Carta aos Hebreus vai até ao ponto de nos exortar a estar atentos uns aos outros «até ao paroxismo do AMOR» (eis paroxysmòn agápês) (Hebreus 10,24).

 10. Tristemente célebre e tragicamente verdadeira é a retranscrição que George Orwell (1903-1950) fez do grande texto do «Hino ao Amor» que o Apóstolo Paulo nos deixou em 1 Coríntios 13, substituindo o AMOR pelo DINHEIRO. Escreveu assim George Orwell: «Ainda que falasse todas as línguas, se não tiver dinheiro, sou como um bronze que retine… Se não tiver dinheiro, nada sou… O dinheiro tudo crê, tudo espera, tudo suporta…».

 11. Não anda longe de Orwell esta nossa sociedade. Mas os pobres, que não têm dinheiro, continuam a dar-nos lições de amor. Como estas vindas do Haiti. Merci, Seigneur!

 António Couto


IMPOSSÍVEL TRAVAR O CAMINHO DO AMOR

Janeiro 29, 2010

 

1. O texto do Evangelho de Lucas proclamado e ouvido no Domingo IV do Tempo Comum (Lucas 4,21-30) retoma e continua o «discurso programático» de Jesus na Sinagoga de Nazaré, iniciado no Domingo III. Neste 1.º SÁBADO da sua vida pública, Jesus entrou na Sinagoga, LEVANTOU-SE para fazer a leitura litúrgica dos Profetas (Isaías) e SENTOU-SE para fazer a instrução com base na Lei (Deuteronómio): «HOJE foi cumprida (passivo divino!) esta Escritura nos vossos ouvidos».

 2. O que Jesus faz é o procedimento tradicional do judeu piedoso em dia de SÁBADO, e as palavras que diz são também antigas. Dizendo as Palavras da Escritura e nada acrescentando de novo, Jesus assume-se como «FILHO DA ESCRITURA». As gentes de Nazaré olham, num primeiro momento, este Jesus com apreço e admiração, mas rapidamente passam a uma atitude hostil para com ele, apontando-lhe outra «paternidade»: «Não é este o “FILHO DE JOSÉ”?»; «o que ouvimos dizer que FIZESTE em Cafarnaum, FAZ também aqui na TUA PÁTRIA».

 3. Mas, neste SÁBADO INICIAL, Jesus NÃO FAZ nada de semelhante àquilo que fará nos outros SÁBADOS. Este SÁBADO INICIAL reclama aquele SÁBADO FINAL em que Jesus também NADA FAZ: passá-lo-á inteiramente deitado no sepulcro! E a própria Paixão é exactamente o contrário de uma manifestação de poder: é antes passividade e impotência de Jesus! Ele, que tinha salvado outros, não se salvará a si mesmo! Mas neste SÁBADO INICIAL Jesus continua também a não dizer nada de novo. Cita dois provérbios: «Médico, cura-te a ti mesmo» e «nenhum profeta é bem aceite na sua pátria», sendo que os provérbios são património de todos e de ninguém. Reclama depois a obra de dois Profetas antigos, Elias e Eliseu, para mostrar que também eles NADA FIZERAM para as gentes da SUA PÁTRIA: Elias sai da sua pátria para socorrer uma viúva de Sídon, e Eliseu cura o sírio Naamã, um estrangeiro que o vem procurar na sua pátria. Também Jesus saltará fronteiras e atenderá estrangeiros. Bem ao contrário, Israel e as gentes de Nazaré: cegos, não acolheram a ESCRITURA de ontem como Palavra para eles «HOJE», do mesmo modo que no FILHO DE JOSÉ não souberam ver o Profeta, aquele que, como a Escritura, traz a Palavra. Quebram dessa maneira o laço de união entre o FILHO e a PÁTRIA, terra dos pais. E para vincar melhor a rejeição desta herança que é o seu FILHO, expulsam-no para fora da cidade. Pior ainda, tramam a sua morte: matando o FILHO, renegam a própria paternidade, perdendo assim a sua própria identidade. Perdendo-se, portanto. Da admiração inicial à rejeição final.

 4. Não surpreende, portanto, que esta herança, rejeitada pela própria família, seja distribuída a outros, aos de fora. Este SÁBADO INICIAL contém em gérmen todos os elementos que o relato do Evangelho vai mostrar: desde logo o SÁBADO FINAL, mas também este FILHO DA ESCRITURA, que abre e lê abundantemente a Escritura aos nossos olhos para que ela se cumpra como Palavra nos nossos ouvidos, tornando-nos FILHOS DA PALAVRA. A oposição dos habitantes de Nazaré não foi suficiente para travar a história de Jesus, como também não o conseguiram fazer aqueles que o crucificaram e o continuam HOJE a crucificar. Mas Ele continua HOJE a passar pelo meio de nós. Resta saber que atitude assumimos nós HOJE. Retê-lo não é possível. Só podemos segui-lo!

5. A citação dos provérbios não é inocente. Mostra Jesus como PROFETA. De facto, ao citar o provérbio «Médico, cura-te a ti mesmo», Jesus está a dizer o que ainda não foi dito, mas será dito no cenário da Paixão: «Salvou os outros, que se salve a si mesmo!» (Lucas 23,35), dirá o povo;  «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,37), dizem os soldados. E ao dizer: «Nenhum Profeta é bem recebido na sua pátria», Jesus está a apresentar-se como Profeta verdadeiro. A Palavra profética faz o caminho, e não é o caminho que faz a Palavra. Na verdade, a perseguição começará logo ali e será uma constante ao longo do seu caminho. É esse caminho profético que ele faz e segue, passando pelo meio deles.

6. Somos HOJE também colocados perante o relato abreviado da vocação profética de Jeremias (1,4-5 e 17-19). O relato abre com a chamada «fórmula de acontecimento» [= «Veio sobre mim a Palavra do Senhor»], que marca um início novo na vida do Profeta, e fecha com a chamada «fórmula de conforto» ou de «assistência» [= «Eu estou contigo»], pela qual Deus garante ao seu Profeta apoio permanente. A missão de Jeremias destina-se às nações pagãs, mas também a Judá, seus reis, sacerdotes e todo o povo. A todos Jeremias deve falar a Palavra do Senhor. Os versículos cortados, por sinal os mais belos, definem a missão de Jeremias como uma missão difícil, marcada por quatro verbos negativos [= arrancar, destruir, exterminar, demolir], a que só depois se seguem dois positivos [= construir, plantar]. Nesta altura, com Jeremias consciente da difícil missão que lhe foi confiada, estabelece-se um dos mais belos e significativos diálogos de toda a Escritura. A Palavra do Senhor vem sobre Jeremias (nova «fórmula de acontecimento») para lhe perguntar: «O que vês, Jeremias?», a que o Profeta responde com a belíssima expressão: «Vejo um ramo de amendoeira!» «Viste bem, Jeremias», confirma o Senhor. A amendoeira é uma das poucas árvores que floresce em pleno inverno. Jeremias vê bem, de forma penetrante que, na invernia da sua difícil missão, nasce já a flor da esperança, que é sempre a última palavra de Deus. E é essa flor-palavra, palavra em flor, que o Profeta vê-ouve-diz sempre, mesmo no meio da tempestade! Extraordinário desafio para nós que estamos ainda com os olhos turvos pelo violento terramoto no Haiti.

 7. Continuamos também, neste Domingo IV do Tempo Comum, com a Leitura semi-contínua do «Apóstolo». Ficamos assim perante o famoso «Hino à caridade» (1 Coríntios 12,31-13,13), uma das páginas mais extraordinárias do epistolário paulino. A uma comunidade em que os membros correm por conta própria, na vã tentativa de se posicionarem à frente uns dos outros, o Apóstolo Paulo aponta o AMOR (agápê) como caminho, testemunho e meta a atingir. É que mesmo que eu possua todos os bens e todos os dons, se não tiver o AMOR, que é o testemunho a transportar e a transmitir, posso estar a correr em vão ou ter já corrido em vão. É que o que é mesmo necessário viver é o AMOR.

 António Couto


ASSEMBLEIA DE ALEGRIA E DE ESPERANÇA (DOMINGO III TEMPO COMUM)

Janeiro 21, 2010

 

1. S. Lucas é o Evangelista do corrente Ano Litúrgico. E embora já tenha sido proclamado e já tenhamos escutado diversos episódios do Evangelho de S. Lucas nos quatro Domingos do Advento, Natal (1.ª e 2.ª missas), Festa da Sagrada Família, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, e Festa do Baptismo do Senhor, é só agora que vamos começar a proclamá-lo e a escutá-lo em leitura contínua. Importa, por isso, inserir neste momento um esquema deste Evangelho, para podermos compreender melhor o ritmo da sua leitura:

 1,1-4 = Prólogo histórico (A)

         1,5-2,52 = Ev da Infância (B)

                     3,1-9,50 = Ministério na Galileia (C)

                                 9,51-19,27 = Partida/subida para Jerusalém (D)

                     19,28-21,36 = Ministério em Jerusalém (C’)

         22,1-23,56 = Paixão – Morte – Sepultura (B’)

24,1-53 = Epílogo: Ressurreição – Aparições – Promessa do Espírito (A’) 

 2. O Evangelho deste Domingo III faz a acostagem do «prólogo» (1,1-4) ao «discurso programático» de Jesus na sinagoga de Nazaré (4,14-21), saltando a pregação e prisão de João Baptista (3,1-20), o Baptismo de Jesus e genealogia (3,21-38), e a sua tentação no deserto, de que sai vitorioso (4,1-13).

 3. O prólogo (Lucas 1,1-4) é importante para se compreender a solidez de todo o Evangelho. Lucas, da segunda geração cristã, não fez obra por conta própria. Faz questão de dizer que escreveu de forma ordenada e com acribia e controlando desde o começo os factos (prágmata) de Jesus, aqueles que foram cumpridos (passivo divino!) entre nós, e que já foram recebidos com carinho na mão (epicheiréô) e postos em narração (diêgêsis) por muitos, conforme nos foram transmitidos (paradídômi) por aqueles que foram testemunhas oculares (autóptai) desde o princípio (ap’ archês). Factos de Jesus, testemunhas oculares, transmissão-recepção mão na mão, narração, controlo desde as fontes. Lucas escreve para que o seu Leitor tenha um conhecimento pofundo e pessoal (epiginôskô) dos factos de Jesus, sobre os quais se faz a instrução da catequese (katêchéô), que forma a nossa consciência cristã.

 4. O episódio de Nazaré (4,14-21) é importante. Antes de mais é dito que Jesus procede na força do Espírito, inciso próprio de Lucas, que salienta a plena identificação somática de Jesus com o Espírito. Já antes, desde o Baptismo, Jesus é dito plêrês [= cheio] do Espírito (4,1), e plêrês indica, não a passividade de quem está cheio, mas a condição natural, activa, de quem possui a plenitude do Espírito Santo. Sempre na força do Espírito, entrou em dia de sábado na sinagoga, e LEVANTOU-SE (anístêmi) para fazer a leitura litúrgica (anaginôskô).

 5. Em João 7,15, ao verem Jesus a ensinar no Templo, os judeus ficam admirados e interrogam-se: «Como é que ele entende de letras sem ter estudado?» Lucas 4,16 informa-nos que sabia pelo menos ler! Jesus lê um texto composto de Isaías 61,1-3; 58,1-11; 35,1-3, mas Lucas compendia-o na citação de Is 61,1-2.

 6. Os conteúdos são decisivos, e Jesus aplica-os soberanamente a si mesmo, com a consciência de ser o Realizador da Promessa antiga: o Espírito do Senhor sobre mim porque me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me e eis-me a anunciar (kêrýssô) aos prisioneiros a «remissão» (áphesis) [= amnistia], aos cegos o retorno da vista, a restituir aos oprimidos a liberdade, a anunciar (kêrýssô) o ano da graça [= jubileu] do Senhor. Trata-se de funções reais, sacerdotais e proféticas. Actos 10,38 confirmará que Jesus, ungido com o Espírito, passou cumprindo todas estas funções.

 7. Terminada a leitura, Jesus SENTOU-SE para ensinar, para fazer a tradicional homilia. E o narrador informa-nos, de maneira admirável, que «Os olhos de todos estavam fixos nele!», apontando já para o grande ensinamento da Cruz, quando Jesus diz: «Quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a mim» (João 12,32), anotando depois o narrador: «Olharão para Aquele que transpassaram» (João 19,37). Em Nazaré, Jesus começou assim a sua homilia: «HOJE foi cumprida (passivo divino!) esta Escritura nos vossos ouvidos».

 8. O texto, muito denso, bem diferente das débeis versões oficiais, salienta a força da Palavra de Deus quando é objecto de escuta qualificada. Este «HOJE» (sêmeron) tornou-se clássico nas homilias dos Padres gregos. Neste seu primeiro ensinamento, Jesus como que não diz nada de novo! Na sua boca estão só palavras antigas! Excelente maneira de Jesus se apresentar como «Filho da Escritura», Leitor e conhecedor da Escritura: lê os Profetas (Isaías) e aponta para a Lei (Deuteronómio), o Livro do «Hoje» (70 vezes) e do «Escuta, Israel!».

 9. Em perfeita consonância com o Evangelho (Assembleia reunida, Leitura da Palavra, olhos fixos), aí está o belo texto de Neemias 8,2-10. Grande texto do tardio pós-exílio que mostra a Assembleia, composta por homens, mulheres e crianças desde a idade da razão, reunida, de pé, no 1.º Dia do Ano (Dia de Ano Novo), para escutar com atenção e compreender até às lágrimas a Palavra do Senhor. Esdras, o sacerdote, está também de pé num estrado de madeira feito de propósito, e todos levantam os olhos para ele. A liturgia começa, como é usual, com a «bênção sacerdotal» (Números 6,23-26), a que o povo responde «Amen» com as mãos levantadas, gesto fundamental que indica plena compreensão e total adesão.

 10. O Novo Testamento mostrará o novo Sacerdote, que é Cristo, no novo estrado de madeira, que é a Cruz, novo Livro da Escritura de Deus, onde S. Paulo lê para nós: «Jesus Cristo exposto por escrito (proegráphê), crucificado (estaurôménos» (Gálatas 3,1), que atrai, como já atrás referimos, os olhos de todos (João 19,37).

 11. Em pleno Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos, são oportuníssimas as palavras que o Apóstolo Paulo, Apóstolo da Unidade, dirige aos cristãos de Corinto (1 Coríntios 12,12-30) e a nós também. Diz ele que as nossas diferenças não são uma praga, mas uma graça para partilhar com alegria em vista da utilidade comum. Não nos podemos, portanto, habituar à separação! Temos de compreender o escândalo que constitui a separação (também das Igrejas Cristãs): qual de nós aceitaria de bom grado que o seu próprio corpo fosse amputado? Então como podemos aceitar que o seja o Corpo de Cristo?

 12. Neste Domingo, é a Assembleia unida porque reunida pela Palavra que está no centro das atenções: é a Assembleia de Nazaré, é a Assembleia que nos mostra o Livro de Neemias, é também a nossa Assembleia Dominical, que HOJE se reúne à volta do Senhor Ressuscitado, nossa Alegria e nossa Esperança. «Não abandonemos, então, a nossa Assembleia, como alguns costumam fazer», oportuníssima exortação da Carta aos Hebreus (10,25).

 13. Refere, a propósito, um antigo conto judaico: «Vira e revira a Palavra de Deus, porque nela está tudo. Contempla-a, envelhece e consome-te nela. Não te afastes dela, porque não há coisa melhor do que ela».

 António Couto


O EVANGELHO DA ALEGRIA

Janeiro 20, 2010

 

1. O Evangelho do Ano Litúrgico que estamos a celebrar (Ano C) é o Evangelho de Lucas. E o Evangelho de Lucas é atravessado, entre outras estradas importantes, como a abertura Missionária a todos os povos e o contacto de Jesus com todas as classes de pessoas (pobres, ricos, doentes, pecadores, idosos, crianças, mulheres, viúvas…), o Hoje, a Bondade, a Graça (termo que, nos Evangelhos Sinópticos, só Lucas usa), também pela estrada ou auto-estrada da Alegria. Nenhum outro Evangelho dá tanto espaço à Alegria e desenha tantos rostos felizes e tantas ocasiões de Alegria.

 2. Desde logo, o nascimento de João Baptista será ocasião de ALEGRIA e REGOZIJO (1,14), e foi ocasião para os vizinhos e parentes se ALEGRAREM com Isabel, sua mãe (1,58). Também Maria ouve a saudação de Gabriel, que soa: «ALEGRA-TE, cheia de graça, o Senhor está contigo!» (1,28). E quando Maria saúda Isabel, esta exclama que o menino (João Baptista) dançou de REGOZIJO no seu ventre (1,44). E no Magnificat, Maria canta o seu REGOZIJO em Deus seu Salvador (1,47). E aos pastores o anjo anuncia uma grande ALEGRIA, para eles e para todo o povo (2,10).

 3. E aos bem-aventurados, Jesus declara: «ALEGRAI-VOS naquele dia, porque será grande no céu a vossa recompensa» (6,23). Também os 72, enviados dois a dois, regressaram com ALEGRIA (10,17), e ouvem a recomendação de Jesus para não se ALEGRAREM porque os espíritos se lhes submeteram, mas para se ALEGRAREM porque os seus nomes estavam escritos nos céus (10,20). E informa-nos o narrador que nessa mesma hora Jesus se REGOZIJOU no Espírito Santo, e exclamou: «Eu te bendigo, ó Pai…» (10,21). E um pouco mais à frente, é outra vez o narrador que nos informa que toda a gente se ALEGRAVA com as maravilhas que Jesus realizava (13,17).

 4. A parábola chamada do «Filho pródigo» ou do «Pai das misericórdias» é, toda ela, um hino à alegria. Verificação: tendo encontrado a ovelha perdida, o pastor põe-na aos ombros, ALEGRANDO-SE, e convida os amigos e os vizinhos a ALEGRAREM-SE com ele (15,5-6), e o narrador acrescenta logo que haverá mais ALEGRIA no céu por um só pecador que se arrepende… (15,7). Do mesmo modo, a mulher que encontra a sua dracma perdida, chama as amigas e as vizinhas e convida-as a ALEGRAREM-SE com ela (15,9), dando a Jesus a oportunidade para dizer que há ALEGRIA para os anjos de Deus por um só pecador que se arrepende (15,10). Pouco depois, e na mesma linha de ideias, o encontro do filho perdido dá oportunidade ao pai para FAZER FESTA (15,23-24), enquanto o filho que sempre esteve em casa critica o seu pai por nunca lhe ter dado oportunidade de FAZER FESTA (15,29), insistindo o pai que agora, com o encontro do filho perdido era mesmo necessário FAZER FESTA e ALEGRAR-SE (15,32).

 5. Um pouco adiante, é Zaqueu que desce depressa do sicómoro, para receber Jesus com ALEGRIA (19,6). E pouco depois, quando Jesus se prepara para entrar triunfalmente na sua cidade de Jerusalém, o narrador diz-nos que toda a multidão dos discípulos começou a louvar a Deus com ALEGRIA por todos os prodígios que tinham visto (19,37).

 6. Finalmente, quando Jesus Ressuscitado se faz ver aos seus discípulos, o narrador diz-nos que, por causa da ALEGRIA irreprimível, nem conseguiam acreditar (24,41), para, pouco depois, com a Ascensão de Jesus, voltarem para Jerusalém com grande ALEGRIA (24,52).

 7. Devemos, portanto, ficar atentos e preparados, uma vez que a leitura do Evangelho de Lucas fará abrir, mesmo ali à nossa porta, uma auto-estrada de ALEGRIA. Por outras palavras, neste Ano Litúrgico (Ano C), em que se lê o Evangelho de Lucas, todos os caminhos vão dar à ALEGRIA. ALEGRAI-VOS, portanto, sempre no Senhor! (Filipenses 3,1)

 António Couto


COMO NAS BODAS DE CANÁ

Janeiro 16, 2010

 

1. A Igreja Una e Santa é hoje de novo convidada e, por isso, se reúne (é reunida) num banquete de espanto e de alegria, para saborear o Vinho Bom e Último, cuidadosamente guardado até Agora, mas Agora oferecido pelo Esposo verdadeiro, que é Jesus (João 2,1-11). O segredo deste vinho Bom e Último é conhecido dos que servem, mas o chefe-de-mesa «não sabia DE ONDE (póthen) era».

 2. E, na verdade, aquele saber ou não ‘DE ONDE’ (póthen) era, aqui anotado pelo narrador é a questão fundamental que atravessa o IV Evangelho, e aponta permanentemente para Deus. Provocação para uma sociedade indiferente, com saber, mas sem sabor, sem frio e sem calor, sem calafrios, sem Deus. E, todavia, já Nietzsche o dizia: «Ao homem que te pede lume para acender o cigarro,/ se o deixares falar,/ dez minutos depois pedir-te-á Deus». Entremos nesta auto-estrada repleta de sinalizações para Deus:

 3. Em João 1,48, é Natanael que, atónito, pergunta a Jesus «‘DE ONDE’ (póthen) me conheces?» Em João 2,9, é o narrador que nos informa que o chefe-de-mesa «não sabia ‘DE ONDE’ (póthen) era» a água feita vinho. Em João 3,8, é Nicodemos que não sabe, acerca do Espírito, «‘DE ONDE’ (póthen) vem nem para onde vai». Em João 4,11, é a mulher samaritana que não sabe ‘DE ONDE’ (póthen) tira Jesus a água viva. Em João 7,27, as autoridades de Jerusalém confirmam que, «quando vier o Cristo, ninguém saberá ‘DE ONDE’ (póthen) Ele é». Em João 8,14, Jesus afirma, em polémica com os fariseus: «Eu sei ‘DE ONDE’ (póthen) venho; vós, porém, não sabeis ‘DE ONDE’ (póthen) venho». Em João 9,29, na cena da cura do cego de nascença, os fariseus afirmam acerca de Jesus: «Esse não sabemos ‘DE ONDE’ (póthen) é», ao que, no versículo seguinte (João 9,30), com viva ironia, o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso: vós não sabeis ‘DE ONDE’ (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!». Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a questão posta por Pilatos em João 19,9: «‘DE ONDE’ (póthen) és Tu?».

 4. Fica claro, também no nosso texto, que não se trata de um conhecimento de saber, mas de servir, não de poder, mas de amor, de atenção premurosa de mãe e serva. «Não têm vinho!», é uma observação de mãe atenta e de serva feliz, que está ali para amar e servir! «O que há entre mim e ti, mulher?» é muitas vezes vista como uma resposta ríspida de Jesus à sua mãe. É uma daquelas frases que pode assumir duas valências opostas, conforme o tom com que é dita. Tanto pode ser uma resposta ríspida e de ruptura, como pode ser uma resposta de grande deferência e carinho. É óbvio que aqui é uma resposta de grande deferência e terno amor filial. Como se Jesus dissesse: «Mulher, grande mulher, mulher messiânica, que atravessa em filigrana a Escritura Santa, que trouxeste até aqui a Esperança de um povo, porque precisas de mo pedir? Tu bem sabes que Eu o faço, e é já». E a mãe de Jesus (nunca chamada Maria no IV Evangelho) entendeu bem esta resposta. Sinal disso é que diz para os servos: «Fazei tudo o que Ele vos disser!»

 5. Como Jesus dirá mais tarde – e diz hoje para nós – também no contexto de um banquete (a Eucaristia) em que somos nós os convidados: – «Fazei isto em memória de Mim!»

 6. O banquete novo, Bom e Último do Reino de Deus, com o Vinho Bom e Último, até agora guardado na esperança, é agora cuidadosamente servido. Que saber e sabor é o nosso? Sabemos e saboreamos a Alegria do Banquete nupcial? Servimos para servir este Amor, esta Alegria? É que é este o «terceiro Dia!» (João 2,1), que agrafa esta Alegria à Alegria nova da Ressurreição ao «terceiro Dia», «sinal» para a Glória e para a Fé (João 2,11).

 7. E aí estão também os extraordinários acordes musicais de Isaías 62,1-5, que cantam Jerusalém personificada, como esposa amada, Enlevo e Alegria de Deus. Pouco antes, em Isaías 60,1-4, Jerusalém tinha sido cantada como mãe. Aí está o júbilo da cidade esposa e mãe: esposa de Deus e mãe dos filhos de Deus.

 8. E o Apóstolo Paulo (1 Coríntios 12,4-11) continua a trautear esta intensa e imensa melodia, vinda, pelos vistos, já lá muito de trás. Mas é o Espírito, diz ele, que sopra em todos nós e nos enche de Amor e de Alegria. E todos reunidos nesta Igreja Amada, Esposa e Mãe, plenificada com tantos dons de Deus, cantamos. É, na verdade, forçoso (com a força do Espírito) que juntemos as nossas vozes todas. Única maneira de o cântico ser novo! A letra pode ser a que está escrita no Salmo 96(95), ou no pergaminho e pauta musical do nosso coração em festa.

 9. Pegou depois numa criança, num pedaço de pão e numa taça. Levantou os olhos e as mãos onde nitidamente pulsava um coração. E ergueu um brinde ao céu. Baixou depois os olhos e as mãos, ungidos já para a dádiva suprema. E ardentemente desejou o vinho novo do reino a chegar. Requisitou, por isso, para isso, o coração, as mãos, a boca, de quantos o estavam a escutar. E antes de partir e de ficar, definitivamente Deus Connosco, abriu ainda à multidão novos caminhos, diurnos, matutinos: «Já sei que não sabeis pedir o pão; tereis de aprender com os meninos».

 10. «Traz as tuas mãos pequenas e abertas, onde caiba só o coração. Sabes? O coração é uma cidade. Ou se preferes: o coração é a última cidade. Ou ainda: no coração começa a liberdade. Ou se preferes: no coração começa a tempestade».

 11. A multidão levou as mãos à boca, ao coração. Restaram doze cestos de palavras. Oh música divina tão humana!

 António Couto


FESTA DO BAPTISMO DO SENHOR

Janeiro 8, 2010

 

1. Passado o Advento e as Festas Natalícias, estamos agora no umbral do chamado «Tempo Comum» do Ano Litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um «Tempo secundário», mas fundamental na vida celebrativa da Igreja Una e Santa. Na verdade, ao longo deste «Tempo Comum», Domingo após Domingo, a Igreja Una e Santa, Baptizada e Confirmada, Esposa Amada de Cristo, é chamada a contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Baptismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição.

 2. Esta apresentação só é possível porque, em cada um dos Anos Litúrgicos, é proclamado, Domingo após Domingo, praticamente em lição contínua, um Evangelho inteiro. Neste Ano C, é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho de Lucas, que tem uma vincada identidade e personalidade missionária, mas que é apresentado ainda como sendo o Evangelho do Espírito Santo, o Evangelho da Oração, o Evangelho da Graça (único dos Evangelhos Sinópticos a empregar este termo) e da Alegria, e o Evangelho onde Jesus «visita» e se encontra HOJE (8 vezes no Evangelho de Lucas) com o mais alargado leque de pessoas: pobres, ricos, pecadores, doentes, idosos, mulheres, viúvas, crianças…

  3. O Primeiro Domingo do «Tempo Comum» coloca então diante de nós o episódio do Baptismo de Jesus no Jordão (Lucas 3,15-22).

 4. Aqui ficam algumas notas características deste episódio de Lucas:

A) Neste dealbar da vida pública de Jesus, é dito que todo o povo está em febril expectativa e se pergunta se João não será o Messias esperado.

B) João responde claramente que não é o Messias, mas aquele que prepara a Vinda do Messias, reunindo o povo e voltando-o para o Senhor, cumprindo quanto disse o Anjo a Zacarias: «fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais (…), para preparar para o Senhor um povo pronto a recebê-lo» (Lucas 1,17; cf. Malaquias 3,24 acerca de Elias).

C) Cumprida esta sua missão, João sai de cena, pois é metido na prisão por Herodes (Antipas) (Lucas 3,19-20), não estando, portanto, presente na cena do Baptismo de Jesus.

D) Em Lucas, João não entra nas praias do Novo Testamento («A Lei e os Profetas até João; daí para a frente, é evangelizado o Reino de Deus» (Lucas 16,16). Por isso, e ao contrário do que sucede em Mateus e Marcos, que dão a notícia da prisão de João depois do Baptismo de Jesus (Mateus 4,12; Marcos 1,14), Lucas fá-lo prender antes do Baptismo de Jesus, para que seja o Espírito Santo a baptizar Jesus.

E) O narrador faz-nos ver outra vez o povo todo reunido e baptizado, antes de nos pôr a todos a contemplar a primeira acção de Jesus baptizado com o Espírito: Jesus em ORAÇÃO (tema caro e, neste contexto, exclusivo de Lucas).

F) O narrador desenha logo a seguir uma verdadeira «coreografia celeste»: o céu aberto, o Espírito Santo que desce como uma pomba (tempo novo), uma voz vinda do céu, isto é, de Deus, declarando, de acordo com o Salmo 102,7: «Tu és o meu Filho, o Amado, em Ti pus o meu enlevo» (Lucas 3,21-22).

 5. A partir do Baptismo de Jesus no Jordão, é missão da Igreja Una e Santa, toda Baptizada e Confirmada, viver esta intimidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e seguir o seu Senhor, passo a passo, ao longo do inteiro Ano Litúrgico, para ver bem como faz Jesus, o Filho Amado, Baptizado com o Espírito Santo. O que faz Jesus e como faz Jesus, é quanto devemos fazer nós também, dado que também nós fomos Baptizados com o Espírito Santo e elevados à condição de filhos adoptivos (Gálatas 4,4-7).

 6. Pelos motivos expostos, O Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos. E, por esta razão, muitas Igrejas Orientais chamam «Jordão» à água da fonte baptismal, que todos os anos é benzida precisamente neste Dia da Festa do Baptismo do Senhor.

 7. Ilustra bem o episódio do Baptismo de Jesus no Jordão o chamado «Primeiro Canto do Servo do Senhor» (Isaías 42,1-7), que põe em cena Deus e o seu Servo. Deus chama este Servo «meu Servo», diz que o segura e sustenta e que lhe dá o seu Espírito, e confia-lhe uma missão em ordem à verdade e à justiça, à mansidão e ao ensino, à libertação e à iluminação, entenda-se, à vida em plenitude, de todas as nações.

 8. Verdadeiramente, Deus é a vida deste Servo, que Ele ampara, leva pela mão e modela. Linguagem de criação, confidência e providência.

 9. Há ainda a registrar uma expressão forte para dizer a missão de mansidão confiada por Deus a este seu Servo: «Não fará ouvir desde fora a sua voz». Ora, se não faz ouvir a sua voz desde fora, só a pode fazer ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, dizendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, armas ou decretos. Se não reina desde fora, reina desde dentro, desde o coração, falando baixinho, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas. Jesus vai assumir a identidade deste Servo e vai cumprir por inteiro a sua bela missão.

 10. E não nos esqueçamos que a sua bela missão de Filho e de Servo terá de ser também a nossa bela missão de filhos e de servos.

 11. O discurso de Pedro em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio, conforme a descrição do Livro dos Actos 10,34-38, dá testemunho da largueza da bondade de Deus, que faz chegar o seu amor de Pai a todas as pessoas de todas as nações, fazendo de nós um povo de filhos, irmãos e servos que seguem um único Senhor: Jesus Cristo. Seguindo este único Senhor, a mais nada e a mais ninguém reconhecemos como Senhor. Somos, portanto, chamados a ser livres e a testemunhar, empenhando toda a nossa vida, dia após dia, que, após o Baptismo no Jordão, Jesus passou fazendo o bem e curando todas as pessoas necessitadas.

 12. Para não esquecer: esta bela missão de Jesus, Baptizado com o Espírito no Jordão e declarado Filho Amado, deve ser a nossa bela missão de Baptizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus.

 António Couto


O EVANGELHO VIAJA SEM PASSAPORTE!

Janeiro 2, 2010

 

1. «Eu o vejo, mas não agora,/ eu o contemplo, mas não de perto:/ uma estrela desponta (anateleî) de Jacob,/ um ceptro se levanta de Israel» (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, que o Livro dos Números diz ser oriundo das margens do rio Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7).

 2. Do Oriente são também os Magos, que enchem o Evangelho da Epifania do Senhor(Mateus 2,1-12), e que representam a humanidade de coração puro e de olhar puro que, agora e de perto, sabe ler os sinais de Deus, sejam eles a estrela que desponta (anateleî) (2,2 e 9) ou o sonho (2,12), uma e outro indicadores de caminhos novos, insuspeitados. Surpresa das surpresas: até para casa precisamos de aprender o caminho, pois é, na verdade, um caminho novo! (2,12). Excelente, inteligente, o grande texto bíblico: Balaão vem do Oriente, e os Magos também. O texto grego diz bem, no plural, «dos Orientes» (ap’anatolôn). Só a estrela que desponta, no singular, pode orientar a nossa humanidade perdida no meio da confusão do plural.

 3. De resto, já sabemos que, na Escritura Santa, a Luz nova que no céu desponta (Lucas 1,78; 2,2 e 9; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20) e o Rebento tenro que entre nós germina (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12) apontam e são figura do Messias e dizem-se com o mesmo nome grego anatolê ou forma verbal anatéllô. Esta estrela (anatolê) que arde nos olhos e no coração dos Magos está, portanto, longe de ser uma história infantil. Orienta os passos dos Magos e, neles, os de toda humanidade para a verdadeira ESTRELA que desponta e para o REBENTO que germina, que é o MENINO. E os Magos e, com eles, a inteira humanidade orientam para aquele MENINO toda a sua vida, que é o que significa o verbo «ADORAR» (proskynéô). Esta «adoração» pessoal é o verdadeiro presente a oferecer ao MENINO.

 4. Note-se bem, neste contexto, o contraponto bem vincado de Herodes, e de todos os Herodes deste nosso tempo e de todos os tempos.

 5. Mas, para juntar aqui outra vez os fios de ouro da Escritura Santa, nomeadamente 1 Reis 10,1-10, Isaías 60 e o Salmo 72(71), diz o belo texto de Mateus que os Magos ofereceram ao MENINO ouro, incenso e mirra. Já sabemos que, desde Ireneu de Lion (130-203), mas entenda-se bem que isto é secundário, o ouro simboliza a realeza, o incenso a divindade, e a mirra a morte e o sepultamento.

 6. Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrónomos e historiadores se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis: a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a. C.; b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a. C.; c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a. C. Esta última está registada nos observatórios astronómicos chineses. A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registada nos observatórios da Babilónia e do Egipto. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registrados em b) e c).

 7. Ilustra bem o grandioso texto do Evangelho de Mateus o soberbo texto de Isaías 60,1-6, que canta Jerusalém personificada como mãe extremosa que vê chegar dos quatro pontos cardeais os seus filhos e filhas perdidos nos exílios de todos os tempos e lugares. Também não falta a luz que desponta (anateleî) (60,1) e os muitos presentes, os tais fios que se vão juntar no Evangelho de  hoje de Mateus.

 8. Também os versos sublimes do Salmo Real 72(71) cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva.

 9. E o Apóstolo Paulo (Efésios 3,2-3 e 5-6) faz saber, para espanto, maravilha e alegria nossa, que os pagãos são co-herdeiros e comparticipantes da Promessa de Deus em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.

 10. Sim. Falta dizer que, no meio de tanta Luz, Presentes e Alegria para todos, vinda da Epifania, que significa manifestação, de Deus entre nós e para nós, não podemos hoje esquecer as crianças e a missão. Hoje celebra-se o dia da «Infância Missionária», que tem este ano o belo lema: «O Evangelho viaja sem passaporte». Para significar que o Evangelho nos faz verdadeiramente filhos e irmãos. E entre filhos e irmãos não há fronteiras nem barreiras nem muros ou qualquer separação.

 11. Sonho um mundo assim. E parece-me que só as crianças nos podem ensinar esta lição maravilhosa.

 António Couto


SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, RAINHA DA PAZ

Dezembro 31, 2009

 

Vem pelo cais uma criança a correr                                                    

Traz uma pomba branca pela mão

Uma criança não tem onde morrer

O seu único haver é o coração.

 

1. Sobre esta terra térrea e escura há-de haver sempre uma fonte de água pura, uma mulher «no seu ventre concebendo» o céu (Lucas 1,31; 2,21), fruto maduro, acorde seguro, das entranhas misericordiosas do nosso Deus (Lucas 1,78), Luz nova no céu se alevantando (Lucas 1,78; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20), Rebento tenro na terra germinando (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12), luminosa sinfonia de Deus e de Maria, o céu ao léu, enchendo de luz os nossos corações escuros como o breu.

  2. «Conceber no ventre» é um pleonasmo evidente, mas é dito duas vezes de Maria, e apenas de Maria[1]. Certamente para a mostrar dependente das entranhas misericordiosas do nosso Deus omnipotente, causa da Luz que nas alturas se alevanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na terra germina, que a terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria.

 3. E tem de ser dito agora que, na Escritura Santa, aquela Luz que no céu se alevanta e o Rebento que na nossa terra germina são ditos com o mesmo nome grego: anatolê, forma verbal: anatéllô, que é como quem diz ainda que a Luz germina e o Rebento ilumina, orientando os nossos passos para os braços de Deus e de Maria, causa da nossa alegria.

 4. A nossa terra sombria precisa de Deus e de Maria, e dessa Luz que suavemente Rebenta e Orienta, aquece e alumia o nosso dia-a-dia. Conceber no ventre, conservar no coração as palavras que acontecem, os acontecimentos que falam e não esquecem, estender a mão de irmão à inteira criação, olhar com ternura para cada criatura, por cada criatura. É assim que Deus faz a Bênção e a Paz (Números 6,22-27).

 5. Chegou, meu irmão, a hora de acordar do sono, de encher de amor cada buraco de ozono. Põe fim ao fumo e ao consumo. Dia Mundial da Paz. Dia de Paz. Alarga o coração. Saúda a criação. Leva uma criança a passear com uma pomba branca pela mão.

 António Couto


[1] O verbo grego syllambánô significa «conceber», e é empregado, com esse sentido, acerca de Isabel por duas vezes (Lucas 1,24 e 36). Mas, de Maria, o texto diz também por duas vezes, mas pleonasticamente, que «conceberá no ventre» (syllambánô en gastrí) (Lucas 1,31) ou que «concebeu no ventre» (syllambánô en tê koilía) (Lucas 2,21). Esta locução redundante, que se verifica apenas acerca de Maria, tem certamente a ver com as «entranhas de misericórdia do nosso Deus, com que nos visitará a luz que desponta das alturas», tradução literal de «splágchna eléous theoû hêmôn, en hoîs episképsetai hêmâs anatolê ex hýpsous» (Lucas 1,78), e que é vulgarmente traduzido por «coração misericordioso do nosso Deus, que das alturas nos visita como sol nascente», como cantamos diariamente no Benedictus. É, de resto, sabido que a língua hebraica liga a misericórdia  ao ventre materno (rehem) e às entranhas (rahamîm).


SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ

Dezembro 25, 2009

 

1. Atravessamos ainda a Solenidade do Natal do Senhor, dado que esta Solenidade se prolonga durante oito dias (Oitava) até à Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, que se celebra no primeiro Dia de Janeiro.

 2. O Natal do Senhor põe diante do nosso olhar contemplativo uma Família humilde e bela – Jesus, Maria e José –, mas traz também consigo uma forte sensibilidade Familiar, tornando-se o tempo forte da reunião festiva das nossas Famílias. Estes dois acertos são importantes para se compreender a razão por que, no Domingo dentro da Oitava do Natal, a Igreja celebre a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.

 3. Os textos da Liturgia são outra vez preciosos. O Evangelho põe no nosso coração o último episódio do Evangelho da Infância de S. Lucas, conhecido por «Encontro de Jesus no Templo» (2,41-52). Na verdade, o texto refere, logo a abrir, que «os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém pela Festa da Páscoa», certamente envoltos na intensa alegria com que os judeus piedosos acorriam ao Templo do Senhor nas três Festas de Peregrinação – Páscoa, Semanas e Tendas –, cantando: «Que alegria quando me disseram: vamos para a Casa do Senhor!» (Salmo 122(121),1). Eram oito dias de alegria filial e fraternal, uma vez que, na Casa do Senhor todos eram filhos e irmãos.

 4. Mas este belíssimo episódio guarda ainda mais alguns sabores requintados. Primeira nota: diz-nos o texto que, nessa Páscoa, Jesus já tinha completado doze anos, que o mesmo é dizer que tinha passado da infância à idade adulta, e que, portanto, sobre ele incumbia agora também o dever de subir três vezes por ano a Jerusalém e de responder pessoalmente, sem a mediação dos pais, pelo cumprimento dos mandamentos de Deus, como ainda hoje se verifica na cerimónia pública chamada «bar mitswah» [= filho do mandamento], que os rapazes judeus piedosos realizam aos 12 anos.

 5. Segunda nota: no regresso a Nazaré, após um dia de viagem, Maria e José aperceberam-se de que Jesus «não fazia caminho com eles», e ficaram preocupados e foram procurá-lo. Sinal importante para as restantes páginas do Evangelho e para nós: quando nos apercebermos de que Jesus não está a fazer caminho connosco, devemos ficar preocupados e ir à procura dele.

 6. Terceira nota: não o encontram onde e como seria de esperar, entre os parentes e conhecidos. Quarta nota: Jesus é encontrado três dias depois no Templo (Casa de Deus), num claríssimo aceno à Ressurreição (três dias) e ao verdadeiro parentesco e identidade de Jesus (Casa de Deus). Quinta nota: está sentado na cátedra (kathezómenos) no meio dos mestres. Então ele é o Mestre, e o seu lugar é sempre no meio de nós.

 7. Sexta nota: a resposta serena de Jesus à sua mãe preocupada («Olha que o teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura», diz Maria): «Não sabíeis que é para mim necessário estar nas coisas do meu Pai?», responde Jesus. Mas era óbvio que, depois da cerimónia do «bar mitswah», competia a Jesus responder pessoalmente a Deus. Note-se ainda o confronto do «teu pai», de Maria, com o «meu Pai», de Jesus. E note-se também que Jesus não se ocupa simplesmente das coisas do Pai, mas está nas coisas do Pai. Expressão fortíssima, de intimidade, que implica a própria vida, e não um mero negócio qualquer.

 8. Sétima nota: embora não compreendendo, Maria guardava todas estas palavras e acontecimentos no seu coração. Expressão belíssima que mostra bem a altura do crente verdadeiro, que não tem de compreender tudo já.

 9. Dentro da temática da Família, o Antigo Testamento traz-nos hoje um extracto sapiencial retirado do Livro de Ben-Sirá (ou Eclesiástico) 3,2-6.12-14, e que nos convida ao amor dedicado aos nossos pais sempre, para que o Senhor ponha sobre nós o seu olhar de bondade.

 10. O Salmo 128(127) é a música suave, de teor didático-sapiencial, que canta uma família feliz e nos mostra a fonte dessa felicidade: a bênção paternal do Senhor. «Felizes os que esperam no Senhor,/ e seguem os seus caminhos» é a bela litania em que o refrão nos faz entrar.

 11. Finalmente, o Apóstolo Paulo, na Carta aos Colossenses 3,12-21, exorta esposos, pais e filhos ao amor mútuo, mostrando ainda de que sentimentos nos devemos vestir por dentro e de que música devemos encher o nosso coração. Salta à vista que a bondade, a humildade, a mansidão, a longanimidade, o amor, o perdão são vestidos importantes para a festa, mas não se compram nem vendem por aí em nenhum pronto-a-vestir. Nesta época de bastante consumismo, convém que nunca nos esqueçamos de Deus, pois é Ele que veste carinhosamente o coração dos seus filhos.

 António Couto


MEU IRMÃO DESTA NOITE DE NATAL

Dezembro 24, 2009

 

1. Era a noite de 24 para 25 de Dezembro de 2002. Noite de Natal. E eu estava a caminho de Moçambique, a cerca de doze mil metros de altitude. Uma forma diferente de atravessar essa bela noite. Chovia muito em Lisboa. Atravessei a chuva. A minha velha avó diria, sem hesitação, que passei o Natal mais perto do céu, mais perto de Deus.

 2. Seja como for, eu, que não durmo sentado, passei mais de dez horas nas alturas a pensar na terra. Pensei na família e na lareira, pensei nos amigos, mas perdi-me muito mais à beira dos deserdados, dos sem abrigo, dos famintos, dos doentes, dos órfãos, dos mais pobres de entre os pobres. Deus humanado, nascido sobre as palhas estremes e agrestes de um estábulo circundado de um silêncio nocturno e estrelado.

 3. É verdade que, para incarnar, Deus teve necessidade de uma mãe autenticamente mãe. Não mudou a condição humana de Maria. Ela permaneceu como era, uma mulher da província, numa casa pobre, numa vida modesta. E Deus deixou estar as coisas como estavam. Não transfigurou nada daquilo em que tocava. Não modificou as leis da natureza. E Maria foi aprendendo a ver o muito de divino que se pode ver no humano: Deus no olhar de uma criança, no seu sorriso puro, num rapaz sentado à mesa ou a brincar. Aprender a escutar a voz de Deus na voz dos homens, por mais desgraçada que ela seja. Maria inaugurou a verdadeira contemplação cristã.

 4. Assim eu contemplava o divino no humano. Quando o avião poisou em solo moçambicano, já o sol ia alto, em pleno Dia de Natal. Pouco depois, eram só vozes de crianças que brincavam, pobres e esfarrapadas, mas felizes. E assim passei sobre o chão de Moçambique bem oito dias. E compreendi melhor que o melhor exercício cristão é decifrar Deus na nossa humana realidade.

 5. Não obstante, cruzei diversas vezes a auto-estrada que liga Maputo à cidade-satélite da Matola. E até se pagava portagem! Que ocidental descoberta! Quanto progresso! Em 2000, havia ali uns caminhos esburacados e poeirentos. E no Maputo já não foi difícil entrar em centros comerciais ou em cafés requintados. No dia de Ano Novo, fomos a um desses cafés apresentáveis. Fizemos o lanço da auto-estrada Matola-Maputo, pagámos a portagem. Estacionámos o carro na berma da avenida, de que já não recordo o nome. Logo uma criança se anichou junto do carro. Não disse uma palavra. Nós já sabíamos que o menino ficaria ali sentado, tranquilo, a guardar o carro, o tempo que fosse necessário, até que nós voltássemos e lhe depuséssemos na mão uma moeda. Nada de arrumadores resmungões, mas guardadores tranquilos, a quem uma pequena moedinha faz felizes. É evidente que fizemos uma festa àquele menino pobre.

 6. E eu dava outra vez comigo a decifrar o muito de divino que se pode ver no humano. No verdadeiramente humano. Num simples gesto de esperar ali o dia inteiro. E numa pequena moedinha que se dá. Numa festa que se faz. Numa lágrima de sofrimento ou de alegria.

 7. Vê também mais fundo e mais longe, meu irmão desta Noite de Natal.

 António Couto


A NOTÍCIA DO NATAL

Dezembro 20, 2009

 

Chega uma criança

À madrugada

Desarmada

Traz mãos e pés e uns olhos tão bonitos

Traz um rasto de lume e de esperança

E uma espada

Apontada

À raiz dos nossos conflitos.

 

1. É assim que vem Jesus em filigrana pura, em contra-luz coada de alegria, e atravessa ao colo de Maria as páginas arenosas da Escritura. Ei-lo que vem rosado de ternura, acorda, esfrega os olhos azulados de lonjura, salta para o chão, vê-se que procura a minha mão, sabe o meu nome e o de toda a criatura.

 2. Conta-me histórias, a dele e a minha, mas conta também as estrelas uma a uma, apresenta-me Abraão, Moisés, David, demora-se um pouco no caminho com Elias, Isaías, Miqueias, Jeremias, recebe os pastores dos campos de Belém, canta com eles, acena aos anjos nas alturas, fica longamente extasiado a abrir os presentes trazidos pelos magos.

 3. O espaço que habita é um curral que os animais gratuitamente acederam partilhar com ele, com ele brincam, vê-se que sabem de cor a partitura de Génesis um e de Isaías onze.

 4. Maria e José também conhecem e jogam esse jogo, esfuziante corre-corre de alegria, até eu dou por mim a fazer casinhas num prato de aletria, mas na sala ao lado há gente a dormir longe dali, refastelada e dormente, indiferente, trocando a luz do dia pela romaria.

 5. Oh humanidade sem sal, sem sol e sem sonho, só com sono, acorda que já a luz desponta, todo o tempo é pouco porque o tempo é graça, não fiques atolada na desgraça, desconsolada e triste, como quem tem sempre que pagar a conta.

 6. Levanta-te, olha em redor e vê que já nasceu o dia, e há-de andar por aí uma roda de alegria. Se não souberes a letra, a música ou a dança, não te admires, porque tudo é novo. Olha com mais atenção. Se mesmo assim ainda nada vires, então olha com os olhos fechados, olha apenas com o coração, que há-de bater à tua porta uma criança. Deixa-a entrar. Faz-lhe uma carícia. É ela que traz a música e a letra da canção. Ela é a Notícia.

 António Couto


SENHORA DA VISITAÇÃO E DA SAUDAÇÃO

Dezembro 18, 2009

 

1. A liturgia deste Domingo quarto do Advento, já quase em cima do Natal do Senhor, convida-nos a contemplar com amor emocionado algumas jóias da Escritura Santa.

 2. Em Primeiro lugar – porque o Evangelho ocupa sempre o primeiro lugar –, o Evangelho de Lucas 1,39-45. As Igrejas do Ocidente conhecem este episódio por «Visitação» de Maria a Isabel, enquanto que os nossos irmãos do Oriente preferem denominá-lo «Saudação» de Maria a Isabel. O episódio é deslumbrante, e começa por nos mostrar Maria a correr sobre os montes para ir ao encontro de Isabel. Ao correr sobre os montes, Maria reveste-se dos traços sublimes do mensageiro de Isaías 52,7, que diz: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a Paz, que leva Boas Novas a Sião!» Claramente, Maria aparece como portadora de Notícias Felizes. Mas, ao correr sobre os montes, Maria reveste-se também do perfume do amor novo do Cântico dos Cânticos 2,8, onde se ouve a amada a dizer: «A voz do meu amado, ei-lo que vem correndo sobre os montes!» Assim, com esta simples nota narrativa, Maria aparece-nos como uma Mulher Bela, Encantada, cheia de Alegria, Esposa Amada e habitada por Notícias Felizes, pela Notícia Feliz, isto é, pelo Evangelho em pessoa, Jesus, que Maria humildemente serve e ternamente apresenta, mais tarde a Senhora Odighítria, venerada nas Igrejas do Oriente, que com a mão aponta o caminho verdadeiro, o seu Filho Jesus, que leva ternamente ao colo.

 3. Seria bom que nos demorássemos longamente a contemplar esta figura de Maria, bela, leve e feliz. Contemplando esta figura cheia de beleza e de leveza, estamos já a ver, em contra-luz, o retrato dos Evangelizadores do Evangelho, também belos, leves e felizes e habitados por um amor novo: sem ouro nem prata nem cobre nem alforge nem duas túnicas. E, se olharmos agora um bocadinho para nós, verificaremos logo, em contraponto, que talvez levemos peso a mais!

 4. Esta Mulher Bela, Esposa Amada e Feliz saúda Isabel. Não pode senão encher de Alegria o mundo de Isabel, que irrompe naturalmente num hino de louvor, acrescentando mais umas palavras à oração da «Ave Maria», iniciada pelo Anjo: «Ave [Maria], cheia de graça, o Senhor é contigo», disse o Anjo (Lucas 1,28). Acrescenta Isabel: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre [Jesus]» (Lucas 1,42), e aponta logo a seguir Maria como «Mãe do meu Senhor» (Lucas 1,43), desvelando o seu nome grande de «Mãe de Deus», começo da «[Santa Maria], Mãe de Deus».

 5. A segunda jóia da Escritura Santa, que hoje nos é dado contemplar, é o texto ilustre da profecia de Miqueias 5,1-4, que começa: «E tu, Belém de Éfrata, pequena entre os clãs de Judá, de ti sairá para mim aquele que será o governador (môshel) de Israel» (Miqueias 5,1). E termina, afirmando: «E ele será a Paz!» (Miqueias 5,4).

 6. Postando-se na esteira de luz de Isaías, Miqueias vê também que vai nascer um mundo novo. Mas de forma diferente do citadino Isaías, o camponês Miqueias não vê o mundo novo provir do Palácio ou do Templo da capital. Do Palácio e do Templo, do Rei e dos Sacerdotes, o humilde Miqueias apenas vê sair exploração, opressão, opulência, mentira e violência. É por isso que Miqueias critica asperamente os grandes da Capital que esbulham o povo, cortando a sua carne aos pedaços, e metendo-a na panela (Miqueias 3). Por isso, quando Miqueias ousa sonhar e vislumbrar um mundo novo, não é para a Capital que ele olha, mas para a província. E o condutor deste mundo novo não é um Rei nem um filho de Rei, mas um môshel, um governador sábio, simples e sensato, que governará o mundo com o sal da sua humilde sabedoria e da tradição. É por isso que evita Jerusalém, e se volta para Belém. Os Evangelistas Mateus e Lucas saberão ler muito bem esta preciosa indicação de Miqueias.

 7. A terceira jóia é o texto da Carta aos Hebreus 10,5-10, em que Cristo supera ao mesmo tempo o sacerdócio antigo e os sacrifícios rituais da antiga liturgia do Templo. Cristo é o novo Sumo Sacerdote que inaugura um culto novo, oferecendo-se a si mesmo ao Pai, por nós, para nós. Nós somos do tempo, não coisas e dos animais, mas da pessoa.

 8. Enfim, o Salmo 80(79), com o nosso desejo expresso de ver o rosto de Deus: «Mostrai-nos, Senhor, o vosso rosto, e seremos salvos!» E o Natal do Senhor ali mesmo à nossa beira!

 António Couto


ALEGRAI-VOS SEMPRE NO SENHOR!

Dezembro 9, 2009

 

1. O Evangelho do Domingo II do Advento (Lucas 3,1-6) rasga este mundo ao meio de forma clara e impiedosa. Diz o narrador, com a precisão do bisturi, que a Palavra de Deus passa ao lado dos senhores deste mundo, e cita Tibério César, Herodes Antipas, Filipe, Lisânias, Anás e Caifás, e nós podemos sempre actualizar esta lista, incluindo nela outros nomes e o nosso também. Aí está o golpe a sangrar do bisturi de dois gumes que é a Palavra de Deus (Salmo 149,6; Juízes 3,16-22; Hebreus 4,12): a Palavra de Deus passa ao lado deste mundo rico e poderoso, impiedoso e insensível, e, para espanto nosso, vai cair sobre um pobre, João Baptista, que não habita em palácios, mas no deserto! Com esse bisturi da Palavra, João Baptista pode sempre limpar (João 15,3) o silvado que nos enche os ouvidos e as gorduras que embotam o nosso coração.

 2. Aí está, então, no Evangelho do Domingo III do Advento (Lucas 3,10-18), outra vez João Baptista em cena, irrompendo agora com o bisturi da Palavra directo aos ouvidos dos homens deste tempo, ouvidos obstruídos por mato e por silvas, anunciando que o tempo está maduro, que a hora é de frutos novos!

 3. «E nós que devemos fazer?», perguntam as multidões, os publicanos, os soldados. Perguntamos nós também. Responde João Baptista, que acaba de abrir caminho por entre o mato e as silvas que obstruem os nossos ouvidos, até ao nosso coração empedernido: vós não vos canseis de dar, não roubeis, não pratiqueis a injustiça, não façais violência! Amai! E anuncia uma Presença nova, a d’Aquele-Que-Vem, Deus: ei-lo que vem, o noivo, o esposo, aquele de quem eu, diz João Baptista, não tenho o direito nem o poder de desatar a correia da sandália!

 4. Desatar a correia da sandália. Não é de um simples gesto de humildade que se trata. A sandália leva-nos para o campo do direito de posse e também do direito matrimonial. Basta ler o Livro do Deuteronómio 25,5-9 sobre a Lei do Levirato e o Livro de Rute 4,7-10 acerca do casamento de Booz com Rute. João Baptista não é o noivo, o esposo. Mas indica-o. Ei-lo que está a chegar! O esposo é Cristo. E a esposa é do esposo. A hora é de alegria, é de amor, é de frutos de alegria e de amor!

 5. Portanto, «Alegrai-vos sempre no Senhor!», porque «o Senhor está próximo!», grita de alegria o Apóstolo Paulo aos ouvidos dos cristãos de Filipos (Filipenses 4,4-7). E a lição é para nós também.

 6. E o Profeta Sofonias (3,14-18) mantém alta a tonalidade festiva: «Rejubila, filha de Sião!,/ Solta gritos de alegria, Israel!»,/ «porque o Senhor está no meio de Ti!». Também este intenso convite é para nós, hoje, e deve ser vivido por nós, hoje e aqui, reunidos em assembleia litúrgica festiva, que confessamos uma e outra vez: «Ele está no meio de nós!»

 7. Sempre em tom de festa e de alegria, o Salmo Responsorial, hoje um hino de louvor retirado de Isaías 12,3-6, deixa a nossa alma cheia de canções, fazendo-nos repetir (e nós repetimos o que amamos): «Povo do Senhor, exulta e canta de alegria!», ou «Exultai de alegria, porque está no meio de vós o Santo de Israel!». Sim, o povo de Deus, a sua Igreja Una e Santa, vive da música de Deus, cantando com um dos mais belos versos da inteira Escritura: «Minha força e meu canto Yah!» (Isaías 12,2; cf. Êxodo 15,2). Yah de Yahveh, como quando cantamos «Alelu-yah!» [= Louvai Yah], louvai Deus, o nosso Deus, Aquele que está no meio de nós, hoje e sempre, operando maravilhas.

 8. Por tudo isto, e não é pouco, este Domingo III do Advento é chamado «Domingo laetare», «Domingo da alegria». Que o seja de verdade nos nossos corações.

 António Couto


IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA

Dezembro 8, 2009

 

1. «Fazendo memória da Toda Santa, imaculada, sobrebendita, gloriosa Senhora nossa, Mãe de Deus e Sempre Virgem Maria, juntamente com todos os santos, consagramo-nos a nós mesmos e toda a nossa vida a Cristo Deus». Assim se conclui, no rito bizantino, a oração que abre a celebração deste Dia, à qual a assembleia responde: «a Ti, Senhor!»

 2. É bom sabermos e sentirmos que as Igrejas do Oriente e do Ocidente, embora divididas entre si, nos dias 8 e 9 de Dezembro (8 no Ocidente e 9 no Oriente) juntam as suas vozes em maravilhosa harmonia para celebrar a Mãe de Deus no privilégio da Conceição Imaculada da sua humanidade.

 3. Bem sabemos, além disso, que os Coptos dedicam a Maria o inteiro mês de Kiahq, que coincide mais ou menos com o nosso mês de Dezembro, e os Caldeus, os Antioquenos e os Maronitas celebram, também nesta altura do ano, e durante pelo menos quatro Domingos, o tempo do chamado Sûbbarâ ou «Anunciação», Vinda de Deus ao nosso mundo, notícia após notícia, para abrir as nossas trincheiras e fazer nascer em nós um mundo novo.

 4. «Onde estás?», pergunta o Deus-Que-Vem por amor ao encontro da sua criatura. «Tive medo e escondi-me», respondemos nós, amedrontados. A narrativa exemplar de Génesis 3, que hoje lemos, desvenda todas as nossas inúteis estratégias de defesa: faz-nos ver como nós nos escondemos de nós mesmos e de Deus, e como alijamos facilmente as nossas culpas sobre os outros. Correcto, limpo, terapêutico, salvador, era assumirmos e confessarmos humildemente as nossas culpas. Mas não. Fugimos, escondemo-nos de nós, e respondemos: «Foi a mulher», e, em última análise, «foste Tu», porque foste Tu que me deste a mulher que me deu a comer aquele fruto! Aí estamos nós a fugir de nós mesmos, e a acusar os outros. E se não assumimos as nossas culpas, como podemos corrigir os nossos erros, e como podemos chegar a descobrir a realidade humana e divina do perdão? Sim, porque quando nos escondemos de Deus, também escondemos Deus.

 5. É usual dizer-se que esta conhecida página do Livro do Génesis narra a entrada do mal no coração do homem e no mundo. Mas do que se trata mesmo é da importância da relação do homem com Deus, e diz-nos que o mal entra no mundo quando o homem quebra esta relação e se desliga de Deus. Por isso também, daí para a frente, a Escritura Santa ocupa-se em mostrar que a resposta a dar ao mal não é o bem, mas o santo.

 6. Em perfeita consonância, aí está o Apóstolo a dizer o fundamental: «que Deus nos escolheu para sermos santos» (Efésios 1,4), isto é, para andarmos sempre na presença do Deus Santo. Ele é o Santo, Santo, Santo, que nos santifica.

 7. O ícone desta santidade, neste mundo, é Maria. Vale a pena contemplá-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus toda a sua vida, a sua virgindade. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver está, porém, suficientemente documentado por parte de homens e mulheres. Ao contrário do homem do Génesis e desta sociedade em que vivemos, Maria não se esconde de Deus nem esconde Deus. Expõe-se, na sua simplicidade, ao imenso clarão de Deus. É assim que se expõe a Deus e que expõe Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Vocação que lhe vem de Deus. Maria vai ser a Mãe, não de um filho, mas do Filho há muito ansiado, esperado e anunciado nas páginas da Escritura Santa Antiga. É o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e é o Filho de Maria, totalmente consubstancial à sua Mãe. Santa Maria, Mãe de Deus.

 8. Por isso, «Alegra-te, Maria», «não tenhas medo», «o Senhor está contigo». Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos», «não tenhais medo». E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, também estamos permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

 9. «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra». Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós, compete aceitar Deus ou esconder-se de Deus. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada. É o que estamos hoje aqui a fazer: Bendita és tu, Maria, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor! Bendito aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática!

 10. Esta celebração da nossa Mãe e Padroeira é um desafio imenso para o homem «em fuga» deste tempo, que se esconde de si mesmo, que continua a esconder-se de Deus, e que pretende esconder Deus, retirando-o da vida pública. Atravessamos verdadeiramente a «noite do mundo», onde «Cada um está sozinho no coração da terra/ atravessado por um raio de sol:/ e é logo noite», como bem escreve Salvatore Quasimodo. Homem deste tempo às escuras, engessado, exilado, escondido, volta para a Luz, reentra em tua casa, no teu coração despedaçado. Há-de por lá haver ainda, caída no fundo da alma, uma lágrima dorida e uma mão de Mãe à tua espera!

 António Couto


UM CAMINHO DIRECTO AO CORAÇÃO

Dezembro 5, 2009

 

1. O Evangelho do Domingo II do Advento (Lucas 3,1-6) rasga este mundo ao meio de forma clara e impiedosa. Diz o narrador, com a precisão do bisturi, que a Palavra de Deus passa ao lado dos senhores deste mundo, e cita Tibério César, Herodes Antipas, Filipe, Lisânias, Anás e Caifás, e nós podemos sempre actualizar esta lista, incluindo nela outros nomes e o nosso também. Aí está o golpe a sangrar do bisturi de dois gumes que é a Palavra de Deus (Salmo 149,6; Hebreus 4,12): a Palavra de Deus passa ao lado deste mundo rico e poderoso, impiedoso e insensível, e, para espanto nosso, vai cair sobre um pobre, João Baptista, que não habita em palácios, mas no deserto!

 2. No deserto nada é obra das mãos do homem. Nada é idolátrico, portanto. É tudo obra das mãos de Deus. Nova criação à vista, onde irrompe outra vez a voz de Deus: uma voz que nunca se ouviu, um silêncio que nunca se calou! Caminhos novos, rectificados, plenificados. Pura engenharia divina. A salvação de Deus ao alcance de todos. Universalidade. É significativo que, ao contrário de Mateus 3,3, de Marcos 1,3 e de João 1,23, que citam apenas Isaías 40,3, Lucas cita Isaías 40,3-5, para incluir que «toda a carne verá a salvação de Deus». «Toda a carne», isto é, toda a humanidade. Como habitualmente, Lucas é universalista e missionário (Evangelho missionário), e quer que a voz criadora de Deus desenhe caminhos novos para todos, retina em todos os ouvidos e leve a salvação a todos os corações.

 3. Este Domingo II do Advento serve-nos também a delícia de Baruc 5,1-9, isto é, todo o Capítulo 5 do Livro deuterocanónico de Baruc. Baruc passa por ser o secretário de Jeremias. Mas o Livro de Baruc, só conhecido em grego, é tardio. E canta, de forma esplendorosa, a cidade de Jerusalém personificada como Esposa e como Mãe. Esposa de Deus, e como tal maravilhosamente vestida e adornada, e como Mãe dos filhos de Deus, que regressam festivamente a Casa, vindos dos quatro cantos do mundo, unidos e reunidos, livres e felizes, saídos de todas as opressões.

 4. Por detrás desta Esposa bela e Mãe radiante, aí está a Noiva do Apocalipse, bela como uma Esposa adornada para o seu Esposo, a Igreja nossa Mãe. No texto de Baruc, esta Esposa-Mãe recebe um nome novo, dado por Deus. Quando é Deus a dar o nome, isso significa criar: nova criatura, dilecta, imagem perfeita de Deus, filha do amor, mãe do amor. Nós, que formamos esta Igreja, Esposa bela e Mãe radiante, não podemos hoje deixar de cantar bem alto a nossa gratidão e a nossa alegria. Impõe-se ainda que façamos da nossa Igreja local, da nossa Paróquia, onde nos reunimos, a Casa carinhosa e acolhedora de Deus no meio das casas dos seus filhos e das filhas.

 5. Para dizer esta alegria baptismal, temos de cantar que «o Senhor fez maravilhas em favor do seu povo». É o Salmo 126(125), o canto do regresso a Casa, de um sonho feliz, da estação das canções e das colheitas. Verdadeiramente Deus cuida de nós.

 6. E aí está o princípio da Carta de S. Paulo aos Filipenses (1,4-6.8-11). Filipos foi a primeira comunidade cristã fundada por Paulo em solo europeu, aí pelo ano 49 ou 50. Quanta alegria, quanta ternura, quanto amor, quanta sensibilidade cristã perpassa esta bela página de S. Paulo. Deliciemo-nos. Ser cristão, filho de Deus, membro desta Igreja Esposa e Mãe, é ser delicioso. Este é o caminho novo que urge abrir direitinho ao nosso coração e ao coração da humanidade.

 António Couto


A CUMPLICIDADE DO SORRISO

Dezembro 3, 2009

 

1. Amigo FRANCISCO, hoje é o teu DIA, a tua FESTA. Deixa que me alegre contigo, e que peça a tua LUZ de Mestre e Padroeiro para esta Europa rica, ensonada, atracada, sem mar, sem barco, sem farol e sem ideais.

2. S. Francisco Xavier, proclamado «Padroeiro Universal das Missões» (Pio X) e apontado como «Apóstolo mundial dos tempos modernos» (João Paulo II), de quem celebrámos há três anos os quinhentos anos do seu nascimento (07.04.1506 – 07.04.2006), postou-se, na esteira de Paulo, no humilde e fiel seguimento de Cristo, vivendo de Cristo (Fl 1,21), impelido pelo AMOR de Cristo (2 Cor 5,14) e pelo SIM de Cristo – que «não foi SIM e não, mas unicamente SIM» (2 Cor 1,19) –, testemunha da ALEGRIA nova de Cristo (Lc 10,21; 1 Pe 1,8) e cooperador dessa ALEGRIA (2 Cor 1,24).

3. Viveu apenas 46 anos sobre esta terra (07.04.1506 – 03.12.1552). 46 anos anos plenos de CRISTO, de AMOR e de ALEGRIA.

4. Partiu de Lisboa em 07 de Abril de 1541, dia em que completava 35 anos, para uma viagem de 20.000 km, rumo a Goa, onde desembarcou mais de um ano depois, em 06 de Maio de 1542, após paragem de quase meio ano (Setembro de 1541 até Fevereiro de 1542) na Ilha de Moçambique para o restabelecimento dos doentes, enquanto se esperava por ventos favoráveis à navegação.

5. Desde essa data até à sua morte, ocorrida na Ilha de Sanchoão, às portas da China, na madrugada do dia 03 de Dezembro de 1552, vão 10 anos e quase 07 meses de uma desmedida dedicação aos outros, sobretudo aos pobres e doentes, testemunhando com a sua vida humilde e dedicada a BONDADE, a PAZ e a ALEGRIA do EVANGELHO. o CRISTO «de la SONRISA», que muitas vezes contemplou Xavier e que muitas vezes Xavier contemplou.

6. Cumplicidade.  O Cristo daquele sorriso gravou-se no coração e nos lábios de Xavier, tomou conta dele, configurou-se nele, transvasou dele.

7. São, na verdade, muitas as testemunhas que descrevem Xavier «com a boca sempre cheia de riso e da graça de Deus» (Monumenta Xaveriana, tomo 2, Madrid, 1912, p. 291 e 306). É também de salientar a sua ilimitada CONFIANÇA em Deus, como transparece de uma sua carta, datada de 05 de Novembro de 1549, escrita de Kagoshima, no Japão, e dirigida aos seus companheiros de Goa:

 «Sei de uma pessoa a quem Deus concedeu muitas graças, que se ocupava muitas vezes, tanto nos perigos como fora deles, em pôr toda a sua ESPERANÇA e CONFIANÇA n’Ele, e o proveito que daí lhe adveio levaria muito tempo a descrever».

 8. Aquele «Sei de uma pessoa» lembra Paulo (2 Cor 12,2). Pôr toda a sua confiança em Deus é firmar-se em Deus, viver de Deus e desde Deus. A tanto nos desafia também a nós, hoje, o nosso «Padroeiro Universal das Missões».

9. E aquele SORRISO nos lábios do Crucificado e de Xavier é outro impressionante desafio para nós. Na verdade, que EVANGELHO podemos nós viver e testemunhar sem CRISTO, sem CONFIANÇA e ALEGRIA?

10. Obrigado, amigo Francisco. Celebrarei gozosamente a tua Festa. Mas confesso que me sentirei muito mais FELIZ quando a nossa Igreja viver com ALEGRIA essa PAIXÃO de AMOR que tu viveste pelo CRISTO e pelos teus IRMÃOS.

11. E se aprendêssemos todos essa tua cumplicidade com CRISTO?!

António Couto


A PRIORIDADE DA PASSIVIDADE E DA RECEPTIVIDADE

Dezembro 1, 2009

 

1. Pelo nascimento, escrevia Paul Ricoeur já em 1950, «fui posto no mundo de uma vez por todas e fui posto no ser antes de poder pôr voluntariamente algum acto [...]. Eu sou sempre depois do meu nascimento». Trata-se de um dado iniludível: quando tomamos consciência de nós (o célebre cogito de Descartes), já temos um pai e uma mãe, já somos filhos. E ser filho, antes de implicar qualquer encargo ou função, significa reconhecer ter recebido a vida através de um acto que precedeu a nossa vontade. Temos atrás de nós uma origem e um nascimento que não tivemos ocasião de querer ou não querer: está fora do âmbito da nossa vontade. Nesse sentido, reconhecermo-nos como filhos, é descobrirmo-nos como recepção originária da vida proveniente de um amor (ou não) que nos precede.

 2. Muitas vezes, só quando somos seriamente abanados pela doença, é que tomamos consciência desta nossa condição passiva originária, dado que a doença mostra violentamente que o corpo precede a vontade e o desejo, sendo já dado antes que se possa querê-lo.

 3. A filósofa espanhola María Zambrano, que foi aluna de Ortega e de Zubiri, e que faleceu em Madrid em 1991, mostrou de maneira clara esta nossa passiva e receptiva condição originária inscrita na nossa própria fisiologia. Basta saber ler a simbologia inscrita nos nossos órgãos fundamentais, tais como o coração, os pulmões, o estômago, os intestinos, o cérebro. Todos sabemos que é o seu bom funcionamento que nos mantém vivos, mas tal funcionamento deriva do facto de serem cavos, ocos, receptivos. Claramente: se nada receberem, não funcionam. São passivos e receptivos antes de serem activos. A sua passividade e receptividade é mesmo condição necessária para a sua actividade.

 4. O que acabámos de mostrar contrasta de maneira séria e significativa com o estilo muito executivo, super-activo e super-produtivo do homem de hoje, sempre a correr e com horas marcadas para tudo. Se somos prioritariamente passividade e receptividade, é então fundamental – até para a saúde – adoptar um novo estilo de vida, marcado também e mesmo prioritariamente pela recepção [de si mesmo e do Outro/outro], meditação, oração, silêncio, tranquilidade, serenidade. Por outras palavras: é necessário viver mais na forma passiva e menos na activa.

 5. Neste sentido, a Bíblia dá-nos uma ajuda. De facto, as principais personagens aí apresentadas – como o «Messias» (mashîah), o «profeta» (nabî), o «príncipe» (nasî), o «consagrado» (nazîr), o «líder» (nagîd), o homem «bom» (hasîd), até o «pobre» (anî) – são pessoas que vivem na passiva, sempre dependentes de Deus e por conta de Deus, e não na activa e por conta própria. Gramaticalmente, os nomes hebraicos referidos são mesmo formas nominais passivas, chamadas qatîl.

 6. Temos necessariamente de continuar a aprender a ser homens, meu irmão sentado às portas de Dezembro, do frio e da neve, do lume a arder no coração, das crianças felizes, do sentido em brasa do Natal!

 António Couto


PARA VÓS, SENHOR, ELEVO A MINHA ALMA!

Novembro 28, 2009

 

1. «Para vós, Senhor, elevo a minha alma» (Salmo 24,1). Antífona do Cântico de Entrada que inaugura a celebração eucarística do Advento, do Ano litúrgico, do Ano inteiro. Aponta a atitude a assumir pela Assembleia fiel e orante: a oblação permanente. Para que esta atitude não fique esquecida, mas tome verdadeiramente conta de nós, as mesmas palavras são repetidas no refrão do Salmo responsorial. Extraordinário pórtico de entrada no Advento e no novo Ano litúrgico. Belíssima forma de viver, elevando para Deus a nossa vida: a oração é a nossa vida! A nossa vida em oração permanente, sacrifício de suave odor, incenso puro subindo para o nosso Deus. Sempre. O Evangelho dirá com a mesma energia e alegria: «Erguei-vos e levantai a cabeça» (Lucas 21,28). É o gesto do justo justificado por Deus (Job 22,26). Página em branco, Primeira e Última, que podemos apresentar a Deus neste início de Advento e de Ano litúrgico. É de Deus a palavra e a escrita que não passa.

 2. «Orando em todo o tempo», diz, a terminar, a lição do Evangelho deste Primeiro Domingo do Advento (Lucas 21,25-28 e 34-36). «Orar em todo o tempo» significa não se deixar enterrar na lama dos caminhos banais e fúteis deste tempo, de qualquer tempo, e que o Evangelho mostra que a busca desenfreada do sucesso e das falsas soluções da devassidão, da embriaguez e das preocupações da vida é uma teia que nos enreda e não nos deixa ver bem, belo e bom. Andamos sempre tão atarefados com inúmeros afazeres, campos, bois, negócios, casamentos, que ficamos com o «coração pesado» e insensível, incapaz de ver o Filho-do-Homem-que-vem, a qualquer hora, nos nossos irmãos mais pequeninos! Ora, o Advento é o Filho do Homem que vem, para que nós o acolhamos. Se o acolhermos, saímos fora da teia dos nossos afazeres que nos sufoca, o penúltimo, e entramos no mundo maravilhoso do Último, do Amor, da Liberdade, que rompe as nossas cadeias.

 3. O escritor argentino Jorge Luis Borges deixou-nos versos densos como estes, acentuando a importância e a intensidade de cada momento da nossa vida a não desperdiçar: «Não há um instante que não esteja carregado como uma arma»; «Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes»; «Em cada instante a clépsidra deixa cair a última gota». E o poeta brasileiro Vinícius de Moraes escreveu assim num belíssimo poema: «A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais». É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Tudo no Evangelho é decisivo: cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

 4. Átrio de um tempo novo, habitado, «carregado» de justiça e de bondade. Obra de Deus no nosso mundo. E só dele. Obra terna, tenra e nova, como um «rebento» de um jovem casal ou de uma planta. Sinal de Primavera no meio da invernia e da lama em que nos vamos atolando, ensonados e enlatados, sem sequer darmos por isso. É, portanto, mesmo preciso que Ele venha e que nos acorde com novos acordes musicais! E que nos dê nomes novos a nós, às nossas cidades, às nossas escolas, aos nossos hospitais, às nossas ruas! Dar nome é criar e recriar. Obra só de Deus. Que Deus faça nascer um «rebento» novo em cada um de nós e em toda a parte. Jeremias vê sempre bem, belo e bom! (Jeremias 33,14-16).

 5. Paulo passa por Tessalónica, ou pela nossa terra, e ensina-nos a levantar a nossa vida para Deus, para dele acolhermos o alento criador, e a rivalizarmos no pagamento das dívidas de amor que dia-a-dia vamos contraindo uns para com os outros. O exemplo é sempre o amor que Deus nos tem, e de que Paulo é testemunha qualificada.

 6. Vem, Senhor Jesus! Vem, vem, que Te esperamos!

 António Couto