PARA VÓS, SENHOR, ELEVO A MINHA ALMA!

Novembro 28, 2009

 

1. «Para vós, Senhor, elevo a minha alma» (Salmo 24,1). Antífona do Cântico de Entrada que inaugura a celebração eucarística do Advento, do Ano litúrgico, do Ano inteiro. Aponta a atitude a assumir pela Assembleia fiel e orante: a oblação permanente. Para que esta atitude não fique esquecida, mas tome verdadeiramente conta de nós, as mesmas palavras são repetidas no refrão do Salmo responsorial. Extraordinário pórtico de entrada no Advento e no novo Ano litúrgico. Belíssima forma de viver, elevando para Deus a nossa vida: a oração é a nossa vida! A nossa vida em oração permanente, sacrifício de suave odor, incenso puro subindo para o nosso Deus. Sempre. O Evangelho dirá com a mesma energia e alegria: «Erguei-vos e levantai a cabeça» (Lucas 21,28). É o gesto do justo justificado por Deus (Job 22,26). Página em branco, Primeira e Última, que podemos apresentar a Deus neste início de Advento e de Ano litúrgico. É de Deus a palavra e a escrita que não passa.

 2. «Orando em todo o tempo», diz, a terminar, a lição do Evangelho deste Primeiro Domingo do Advento (Lucas 21,25-28 e 34-36). «Orar em todo o tempo» significa não se deixar enterrar na lama dos caminhos banais e fúteis deste tempo, de qualquer tempo, e que o Evangelho mostra que a busca desenfreada do sucesso e das falsas soluções da devassidão, da embriaguez e das preocupações da vida é uma teia que nos enreda e não nos deixa ver bem, belo e bom. Andamos sempre tão atarefados com inúmeros afazeres, campos, bois, negócios, casamentos, que ficamos com o «coração pesado» e insensível, incapaz de ver o Filho-do-Homem-que-vem, a qualquer hora, nos nossos irmãos mais pequeninos! Ora, o Advento é o Filho do Homem que vem, para que nós o acolhamos. Se o acolhermos, saímos fora da teia dos nossos afazeres que nos sufoca, o penúltimo, e entramos no mundo maravilhoso do Último, do Amor, da Liberdade, que rompe as nossas cadeias.

 3. O escritor argentino Jorge Luis Borges deixou-nos versos densos como estes, acentuando a importância e a intensidade de cada momento da nossa vida a não desperdiçar: «Não há um instante que não esteja carregado como uma arma»; «Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes»; «Em cada instante a clépsidra deixa cair a última gota». E o poeta brasileiro Vinícius de Moraes escreveu assim num belíssimo poema: «A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais». É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Tudo no Evangelho é decisivo: cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

 4. Átrio de um tempo novo, habitado, «carregado» de justiça e de bondade. Obra de Deus no nosso mundo. E só dele. Obra terna, tenra e nova, como um «rebento» de um jovem casal ou de uma planta. Sinal de Primavera no meio da invernia e da lama em que nos vamos atolando, ensonados e enlatados, sem sequer darmos por isso. É, portanto, mesmo preciso que Ele venha e que nos acorde com novos acordes musicais! E que nos dê nomes novos a nós, às nossas cidades, às nossas escolas, aos nossos hospitais, às nossas ruas! Dar nome é criar e recriar. Obra só de Deus. Que Deus faça nascer um «rebento» novo em cada um de nós e em toda a parte. Jeremias vê sempre bem, belo e bom! (Jeremias 33,14-16).

 5. Paulo passa por Tessalónica, ou pela nossa terra, e ensina-nos a levantar a nossa vida para Deus, para dele acolhermos o alento criador, e a rivalizarmos no pagamento das dívidas de amor que dia-a-dia vamos contraindo uns para com os outros. O exemplo é sempre o amor que Deus nos tem, e de que Paulo é testemunha qualificada.

 6. Vem, Senhor Jesus! Vem, vem, que Te esperamos!

 António Couto


OS NOSSOS REINOS E O REINO DE DEUS

Novembro 21, 2009

1. A «Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei» foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de acção, que já tinha fundado a Acção Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se dos valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós-Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, com o título de «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo».

 2. «O Senhor Reina!» (Salmo 93(92),1). É assim que, no Antigo Testamento, o Deus bíblico se apresenta em acção reinando, isto é, salvando, justificando, perdoando, criando. Na verdade, Reinar é Salvar, isto é, trazer o bem-estar, a alegria e a prosperidade ao seu Povo. É esta a missão do Rei. Salvar é justificar, o que implica a extraordinária acção de transformar um pecador em justo. Justificar é, portanto, Perdoar. Neste profundo sentido, Justificar e Perdoar são acções que só Deus pode fazer, dado que, transformar um pecador em justo é igual a Criar ou Recriar. E da acção de Criar também só Deus é sujeito em toda a Escritura. Já se sabe que o Novo Testamento transforma o activo «Deus Reina» no mais abstracto «Reino de Deus».

 3. Tanta e quase indescritível riqueza a de um Deus, sentado no seu trono de Luz, mas que Vem, como um Filho do Homem, com o domínio novo, frágil e forte, do Amor: «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5). Da lição do Livro de Daniel 7,13-14 e respectivo contexto, vê-se bem que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes (Babilónia, Média, Pérsia, Grécia), por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra do Filho do Homem, que dissolve no Amor as nossas raivas e violências, manifestações das bestas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7), símbolo da confusão e do mal, e que deixará naturalmente de existir (Apocalipse 21,1). Aí está o domínio dos animais, entenda-se, da animalidade, que é confiado ao Homem (à distância surge o Filho do Homem) logo desde o Génesis 1,26-28.

 4. O domínio do Filho do Homem que nos ama, o domínio do Amor é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é de sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso coração. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor frágil, forte, que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa prepotência!

 5. Tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos, e apenas aumentaria a nossa violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, dissolvendo-a. É assim que o Amor Reina, nos Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Judeus e Pilatos representam os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência, orgulho e estupidez. O Reino do Filho do Homem não pode, na verdade, ser daqui (João 18,33-37). Se fosse daqui, apenas aumentaria a espiral da violência. É de Amor novo e subversivo que se trata.

 6. Vem, Senhor Jesus! Ilumina com a tua Luz nova as trevas, as pregas e as pedras do nosso coração empedernido. Reina sobre nós, Salva-nos, Justifica-nos, Perdoa-nos, Recria-nos. Faz-nos outra vez à tua Imagem. Dissolve a besta bravia que há em nós e que, à imagem de Caim, não fala, mas trucida e come o outro. Bem visto por Judas na sua pequena Carta (apenas um Capítulo), infelizmente pouco lida e meditada: «Aqueles que seguem o caminho de Caim são como animais sem palavra» (Judas 10-11).

 António Couto


É OUTRA VEZ NOVEMBRO

Novembro 17, 2009

1. O tempo em que vamos parece o de Thomas Hobbes, quando, em 1651, deixou escrito no seu famoso Leviatã, que «tudo o que existe tem três dimensões, a saber, comprimento, largura e altura, e aquilo que não tem três dimensões não existe nem está em parte alguma». Com este procedimento, Hobbes, e alguns dos nossos contemporâneos com ele, reduzem o homem a um objecto, sem alma nem emoções, sem alegria nem tristeza, sem encanto e sem sonho, sem Deus. É um homem à medida do cadáver, e um mundo à medida do cemitério, tudo formatado e tresandando a amoníaco. É o mundo do «dois vezes dois são quatro», de que fala Dostoievski nos seus Cadernos do Subterrâneo, acrescentando logo, em jeito de confissão: «O homem sempre teve medo deste dois vezes dois são quatro, e eu também tenho».

 2. Na esteira do grande escritor russo, vale a pena mostrar aqui um extracto das recentes e densas análises de O Método, de Edgar Morin: «O dogma da simplificação que contém a morte continua a impor-se por aí como verdade científica (…), e continua a rejeitar para fora do saber aquilo que resiste ao seu controlo. E os defensores deste dogma – continua Edgar Morin – vêem-nos como miseráveis, pedintes, esgadanhando os dejectos das suas lixeiras». E acrescenta depois de forma contundente: «Num sentido, eles têm razão: nós queremos recuperar e reciclar os dejectos que a sua ciência expulsa: não apenas o incerto, o impreciso, o ambíguo, o paradoxal, a contradição, mas também o ser, a existência, o indivíduo, o sujeito. Julgam deitar fora os excrementos do saber: não sabem que atiram para o lixo o ouro do tempo».

 3. Nada de novo. Seis séculos a. C., já o filósofo grego Heraclito deixava escrito, no seu Fragmento 9, que «Os burros preferem a palha ao ouro». E já no nosso tempo, Martin Heidegger, debruçando-se, nos seus Ensaios e Conferências, sobre a referida sentença de Heraclito, pôde lê-la para nós, explicitando que este «ouro» depreciado é «o brilho não visto da claridade, e não se deixa agarrar, porque ele próprio não agarra», porque não é do domínio da posse, não obedece à regra das três dimensões.

 4. Anda hoje outra vez por aí muito badalada a cultura das três dimensões. E é nesse sentido que dos hospitais se pretende retirar os capelães, porque aos doentes, reduzidos a três dimensões, bastam os cuidados técnicos que lhes são prestados por técnicos, da mesma forma que das escolas se pretende retirar os crucifixos, porque às crianças basta o alfabeto, a tabuada e a fita métrica, e a Igreja deve ser marginalizada, silenciada e banida como verdadeira fonte de ignorância, dado que o que diz e faz está para além das três dimensões, e já se decretou que o que não tem três dimensões não existe nem está em parte alguma.

 5. Mas Novembro entra-nos outra vez em casa. E, não se sabe bem porquê, também os defensores da cartilha das três dimensões aparecem a visitar o cemitério e a depor flores nos túmulos dos seus familiares e amigos. E até, muito provavelmente, entrarão em alguma Igreja. Novembro é habitado por um silêncio gritante. Um silêncio que nunca se calou. E as flores, carregadas de sentido, mas silentes, são sempre as últimas a deixar o cemitério. Sim, porque, que se saiba, o sentido nunca fez barulho, nunca faz barulho. Um texto, por exemplo, é letra e som. Mas quando o interpretamos, não é a letra e o som que captamos, mas o sentido que habita essa letra e esse som. Afinal, por mais esforço que se faça, não é possível reduzir o homem a três dimensões. Há sempre uma flor ou uma lágrima, cujo sentido se chama amor, e que não é redutível a três dimensões.

 6. Novembro lembra-nos outra vez que passamos muito tempo e que talvez gastemos até muitas energias a deitar para o lixo o ouro do tempo! Lembra-te, meu irmão de Novembro, que és pó e amor. E o amor não volta ao pó.

 António Couto


«FIM DO MUNDO»: NÃO É DE TERROR QUE SE TRATA, MAS DE AMOR!

Novembro 14, 2009

 

1. O Livro de Daniel terá sido provavelmente escrito no Outono do ano 164 a.C., com o objectivo de encorajar os judeus piedosos a permanecerem firmes na sua fé em plena perseguição anti-judaica desencadeada três anos antes, em 167 a.C., pelo tirano Antíoco IV Epifânio, e cujos ecos se podem ver, por exemplo, no Segundo Livro dos Macabeus 6 e 7, que registra a fidelidade heróica do velho Eleazar e dos sete jovens irmãos Macabeus. Estes são, no dizer do Livro de Daniel 12,1-3, os mestres sábios (maskkilîm) e justificadores (matsddîqîm), isto é, dadores de vida: ensinam, não teorias, mas a vida verdadeira, dando a sua vida por amor: é assim que vencem os violentos, não opondo-se a eles, mas amando, isto é, dando a vida e dando vida, ensinando a viver. Estes novos sábios e justificadores são, diz o Livro de Daniel, as novas estrelas que brilham para sempre!

2. Não são, portanto, as estrelas da moda, da música, do cinema ou do futebol, estrelas cadentes, de brilho efémero e passageiro! São as novas e verdadeiras estrelas de brilho permanente, inscritas no Céu ou no Livro da Vida (ver Daniel 12,1; Salmo 139,16; Isaías 4,3; Lucas 10,20; Apocalipse 20,12). As outras pobres estrelas estão, na verdade, inscritas no chão, no pó da terra (Jeremias 17,13), e lá se perdem e disperdem. Deus sabe escrever no coração (Jeremias 17,1; 31,33), na Cruz (Gálatas 3,1), e, como já vimos, no chão, e no Livro, mas também, num gesto de particular ternura, na palma da sua mão (Isaías 49,16).

3. O cenário do Evangelho deste Domingo (Marcos 13,24-32) não é de2806116051_e6f0cee048 terror, mas de amor! Novos céus e nova terra, saídos das mãos de Deus-Pai, com o Filho-que-Vem, e que está próximo, à porta. É como o noivo do Cântico dos Cânticos 5,2, que bate à porta, descrito pela noiva que dorme, mas escuta com um coração sempre vigilante! Única atitude da Igreja Una e Santa, que Domingo após Domingo, se reúne com emoção e alegria à volta do seu Senhor-que-Vem. Tudo tão suave e tão cheio de maravilha: o nosso Deus revelando ou simplesmente com todo o carinho desvelando, isto é, retirando o véu que encobre a verdadeira realidade, perante os nossos olhos atónitos!

4. Uma parte da Igreja antiga lia este «discurso escatológico» e outros textos similares do Novo Testamento no sentido da chegada iminente do «fim do mundo» (leitura ainda hoje desgraçadamente doentia nas seitas, com ano, dia e hora marcados!). Sim, é do «fim do mundo» que se trata, mas num sentido novo e inaudito: é a Palavra de Deus que não passa, e que é Amor e é Primeira e Última, sempre nova, portanto, que vem pôr fim ao nosso velho mundo de posse e egoísmo sempre em expansão. O Último, que é o Amor, põe fim ao penúltimo, que é a nossa vã maneira de viver. Neste sentido novo, é de desejar que o nosso velho mundo entre em agonia e acabe, para que comece verdadeiramente em nós um mundo novo e belo, cuja matriz é o Amor gratuito e incondicional do nosso Deus por cada um de nós. «Senhor, vem!» (marana tha’).

António Couto


ONDE ESTÁ DEUS, ALI É O CÉU

Novembro 11, 2009

 

1. Em Junho de 2002, D. Alois Kothgasser, então Bispo de Innsbruck (no anodir_povos11 seguinte Arcebispo de Salzburgo), na Áustria, empreendeu uma iniciativa a todos os títulos original: escreveu e assinou juntamente com sete crianças (Pia, Lena, Viktoria, Barbara, Myriam, Nadine e Nina) uma interessantíssima Carta Pastoral. As crianças escolheram o tema: o «Pai Nosso». A reflexão e a redacção foi feita em conjunto. A Carta apareceu em Junho. Esgotou em pouco tempo. Foi lida nas igrejas e nas escolas. Empenhou crianças, jovens e adultos. A Carta terminava com uma parte interactiva, em que as crianças eram convidadas a contribuir com um desenho ou um trabalho manual para a realização de um grande quadro. Eram igualmente convidadas a responder a algumas perguntas sobre o «Pai Nosso». As respostas chegaram aos milhares.

2. A Carta reflecte bem a linguagem directa das crianças, mas mostra também uma notável compreensão da oração do «Pai Nosso». Abba, Ab-ba, dizia Jesus na sua língua materna, o aramaico. Papá, Pap-pa, diz a criança que há nós, em português. Termo de grande ternura e proximidade. Nosso, acentuam as crianças: quer dizer que somos todos irmãos e irmãs, fomamos todos uma grande família. E perguntam: então por que é que os adultos fazem tantas guerras? E as crianças de Innsbruck lembram aos adultos que o termo para dizer «guerra» na sua língua, Krieg, vem de kriegen, que significa «obter», «possuir». Ficamos assim todos a saber onde está a raiz das nossas guerras.

3. Ficamos também a saber com as crianças de Innsbruck que, rezando sinceramente o «Pai Nosso», vamos aprendendo e ensinando a dar pequenos passos para mudar alguma coisa.

4. Novembro faz-nos entrar pelos olhos dentro a verdade e a humildade daborboletas005 nossa humanidade: o húmus, a terra. Mas também o carinho, a familiaridade, a comunhão com os nossos familiares e amigos já falecidos. Verdadeiramente, «aqueles que passam por nós/ não vão sós,/ não nos deixam sós./ deixam um pouco de si,/ levam um pouco de nós» (Saint-Exupéry).

5. E a fé ensina-nos também, nestes dias, de mais perto e de mais fundo, que Deus nunca nos abandona, do mesmo modo que o Papá e a Mamã não abandonam os seus filhos. Novembro traz muitas lições para os nossos olhos. Para quê tantos ódios, invejas, vaidades e orgulhos? Para quê as nossas guerras e guerrinhas?

6. Onde está Deus, ali está o céu, lembram-nos as crianças de Innsbruck. Quer dizer que a nossa terra pode sempre ter um bocadinho mais de céu. Depende também de ti, meu irmão de Novembro.

António Couto


DAR A VIDA TODA TODA A VIDA

Novembro 7, 2009

 

1. Um braçado de gravetos, um copo de água, um punhado de farinha, umElias%20poco%20ol%20az%20226 tudo nada de azeite. Juntando as pontas destes fios, a viúva de Sarepta prepara-se para fazer uma última refeição de despedida da vida juntamente com o seu filho único. É nesta terra quase a terminar, onde já mal se tem pé, nesta vida quase a expirar, que surge Elias, o homem de Deus, conduzido por Deus, que atira à pobre mulher mais um fio de voz e de esperança: Deus. Não é a quantidade que conta; o que conta é a totalidade. Pelo fio de voz e de esperança de Elias, Deus não reclama alguma coisa; reclama tudo: o coração todo, a alma toda, a confiança toda, as forças todas! E nem a farinha se esgota na amassadeira, nem o fio de azeite deixa de cair da almotolia! Extraordinária lição para a pobre viúva de Sarepta (Primeiro Livro dos Reis 17,10-16) e para nós, que atravessamos a secura da paisagem desta terra de Novembro.

2. O coração todo, a alma toda, a confiança toda, as forças todas: assim se ouve ou se lê no famoso «Escuta, Israel» de Deuteronómio 6,4-5. E nesse lugar se diz também a Israel que deve formar com essas palavras um fio de luz e de sentido que deve atar ao coração, às mãos, aos pés, aos filhos (Deuteronómio 6,6-9). Este fio é fundamental para segurar as pontas dos podres, pobres fios da nossa vida.

3. Bem, neste contexto, o fio ou a linha poética e melódica do Salmo 146(145), que põe Deus tão perto de nós, a fazer justiça aos oprimidos, a dar pão aos que têm fome, a tomar a seu cuidado o órfão e a viúva, e a atirar-me todo para Deus, com aquele grito repetido: «Ó minha alma, louva o Senhor!»

4. Na verdade, «Deus habita nos louvores de Israel» (Salmo 22(21),4). Habita nos nossos louvores, na nossa dedicação e devotação total a Ele, na nossa vida posta em melodia, fio ou linha melódica que ata o nosso coração ao coração de Deus, a nossa mão à mão de Deus. Foi assim, sacerdotalmente, que Jesus Cristo se ofereceu totalmente ao Pai e a nós e por nós, deixando-nos à espera e a viver dessa espera na esperança da sua Vinda. Um fio tenso de luz e de sentido, a que se chama esperança, nos ata para sempre a esse Senhor-que-Vem. Fio ou linha musical, vital, de cada Domingo, em que cantamos: «Senhor, vem!» (marana tha’), porque sabemos que «o Senhor vem!» (maran ’atta’). O Domingo deve imprimir em nós o «tique» da esperança, deixando-nos com o pescoço esticado para Deus, situação de quem O espera e vive da sua Vinda a todo o momento. É a Lição de Hebreus 9,24-28.

5. O Evangelho de Marcos 12,38-44 põe em cena e em claro destaque umaesmola viúva pobre que dá a Deus a sua vida toda, em contraponto com os escribas e muitos outros, que fazem bom teatro religioso! Excelente inclusão literária no Evangelho de Marcos: da primeira vez que Jesus aparece a ensinar em público, neste Evangelho, o povo exclama: «Este ensina com autoridade, e não como os escribas!» (Marcos 1,22); a terminar a sua actividade pública neste Evangelho, é Jesus que mostra bem que não é como os escribas (Marcos 12,38-40). A cena central passa-se no átrio das mulheres do Templo de Jerusalém, num lugar chamado «Casa do Tesouro» (bêt ha-gazît) (Marcos 12,41-44). Muita gente deitava aí muito do que lhe sobrava, mas a viúva pobre deu «tudo quanto tinha, a sua vida toda!». Fio de sentido que liga este episódio ao que já encontrámos no Primeiro Livro dos Reis 17,10-16.

6. Dar a vida toda toda a vida ou fazer teatro religioso, eis a questão, meu irmão de Domingo.

António Couto


A (PRO)VOCAÇÃO DA SANTIDADE E DA FELICIDADE

Novembro 1, 2009

1. Deus é a Santidade. Santo, Santo, Santo. Santo, na língua hebraica, diz-se 2806116051_e6f0cee048qadôsh, cujo significado mais consistente é «separado». Separado de quê ou de quem, podemos perguntar. Da sua criação? Parece que não, pois o Deus da Bíblia olha para ela e por ela com beleza e bondade. De nós? Obviamente não, pois o Deus da Bíblia bem vê e vê bem os seus filhos queridos, ouve a nossa voz, conhece as nossas alegrias e tristezas, desce ao nosso nível e debruça-se sobre nós com carinho. «Separado» de quê ou de quem, então? «Separado» de si mesmo, eis a surpreendente identidade de Deus. «Separado» de si mesmo, isto é, não agarrado ao seu mundo divino e dourado para o defender ciosamente. Ao contrário, o nosso Deus é um Deus que sai de si por amor, para, por amor, vir ao nosso encontro. É esta realidade que se vê bem em toda a Escritura, Antigo e Novo Testamento. Paulo, na 2 Carta aos Coríntios, resume bem esta realidade ao falar de Jesus Cristo que, «sendo rico se fez pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (8,9).

 2. Só um Deus assim pode e sabe felicitar os pobres. Com um tom carregado de felicidade, não restritivo, mas alargado a toda a humanidade, as «Felicitações» do Rei novo atingem todas as pessoas, chegando às franjas da sociedade, onde estão os pobres de verdade. No meio destas «Felicitações» – é por nove vezes que soa o termo «FELIZES –, note-se a centralidade da MISERICÓRDIA (5.ª felicitação) (5,7). Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS. Notem-se igualmente as inclusões assentes na repetição da locução «reino dos céus» (1.ª e 8.ª) (5,3 e 10) e do termo «justiça» (4.ª e 8.ª) (5,6 e 10). Estas inclusões convidam-nos também ao reconhecimento de duas tábuas de felicitações, a primeira à volta da pobreza evangélica (5,3-6), e a segunda à volta da bondade do coração (5,7-10).

«5,1Vendo as multidões, subiu à montanha.

Tendo-se sentado, vieram ter com ele os seus discípulos.

2Abrindo então a sua boca, ensinava-os dizendo:

3FELIZES (makárioi / ’ashrê) os pobres de espírito (ptôchoì tô pneúmati),

porque deles é o reino dos céus;

4FELIZES os aflitos,

porque serão consolados;

5FELIZES os mansos,

porque herdarão a terra;

6FELIZES os que têm fome e sede de justiça,

porque serão saciados;

7FELIZES os misericordiosos (eleêmones),porque lhes será feita misericórdia (eleêthêsontai);

8FELIZES os puros de coração,

porque verão a Deus;

9FELIZES os fazedores de paz,

porque serão chamados filhos de Deus;

10FELIZES os perseguidos por causa da justiça,

porque deles é o reino dos céus.

11FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem,

e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal

por causa de mim (éneken emoû)» (Mateus 5,1-11).

3. Os «pobres de espírito», aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é «baixa de rûah» (shephal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23), isto é, sem espaço físico, económico, social ou psicológico. Não precisam de se afirmar. São claramente os últimos da sociedade, mas que, na sua humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois os ptochoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Apouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente fechados entre paredes, num círculo restrito, mas uma imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie.

4. Note-se ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «felizes» ouarticle01_02 «bem-aventurados» diz-se (’ashrê), termo que qualifica os pioneiros, aqueles que abrem caminhos novos e bons e de vida nova e boa para o mundo. E é verdade por paradoxal que pareça. Foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente e anestesiado em que vivemos.

5. Aos misericordiosos será feita misericórdia. Belíssimo círculo bem no centro das Bem-Aventuranças.

António Couto


MEU IRMÃO SENTADO ÀS PORTAS DE NOVEMBRO

Outubro 29, 2009

1. Não resisto a deixar aqui registrada, às portas de Novembro, mais esta saborosa história rabínica.

 2. Conta o sábio que um homem tinha três amigos. Dizendo isto, acrescentaearth-globe logo que os tinha classificados: o amigo n.º 1, o amigo n.º 2 e o amigo n.º 3. E explica logo a seguir o que pode parecer óbvio: o amigo n.º 1 era o amigo inseparável daquele homem: andavam sempre juntos; o amigo n. º 2 aparecia lá por casa do nosso homem de vez em quando, bebiam uns copos, punham a conversa em dia; o amigo n.º 3 muito raramente aparecia, talvez uma ou duas vezes por ano, e o encontro era ainda assim mais devido ao acaso do que à amizade.

 3. Diz a história que um dia o nosso homem foi surpreendido por uma intimação do Rei que o instava a comparecer no Palácio Real.

 4. O nosso homem sentiu-se tomado por uma grande angústia e preocupação. Na verdade, nunca tinha entrado num Palácio, não sabia mesmo o que era um Palácio, não imaginava como se devia comportar dentro de um Palácio.

 5. É nestas alturas de aflição que nos lembramos dos amigos. Foi assim que238318075_775453 o nosso homem foi ter com o seu amigo n.º 1, e disse-lhe: «Amigo, nós andamos sempre juntos, preciso da tua ajuda, não me digas que não». «Fala, homem», disse o amigo n.º 1. Então, o nosso homem contou ao seu melhor amigo que tinha de comparecer no Palácio do Rei, que nunca tinha entrado num Palácio, que não sabia como proceder, que se sentia muito preocupado. E adiantou: «Peço-te que me acompanhes nesta viagem». A este pedido, o amigo n. 1 respondeu: «Amigo, de facto somos amigos inseparáveis. Podes contar sempre comigo, mas nesta viagem não posso acompanhar-te».

 6. Então, o nosso homem foi ter com o seu amigo n.º 2, aquele que encontrava de vez em quando para beber uns copos e pôr a conversa em dia. Expôs-lhe o mesmo problema. E o amigo n.º 2 respondeu assim: «Sim, senhor, estou disposto a acompanhar-te, mas com uma condição». «Qual é então a condição?», perguntou com ânsia e curiosidade o nosso homem. «Vou contigo, mas só até à porta do Palácio», disse o amigo n. º 2. E acrescentou: «Da porta para dentro terás de te desenrascar sozinho». Ouvindo isto, o nosso homem insistiu: «Até à porta, também eu consigo ir; o meu problema é dentro do Palácio, pois não percebo nada de Palácios». Rematou o amigo n.º 2: «É como te digo; posso ir contigo só até à porta».

 7. Restava ao nosso homem o amigo n.º 3, aquele que via por mero acaso apenas uma ou duas vezes no ano. Foi ter com ele, e expôs-lhe igualmente o problema, para ele difícil, de ter de comparecer no Palácio do Rei. E pediu-lhe igualmente, ainda que sem grande esperança de ser atendido, que o acompanhasse naquela viagem difícil. Ouvindo atentamente, o amigo n.º 3 respondeu assim: «É claro que te acompanho. Confesso-te mesmo que até ficaria muito triste se viesse a saber dessa tua viagem difícil, e tu não me tivesses dito nada!».

 8. A história termina assim, aparentemente no ar, à boa maneira rabínica. Mas para que tu, meu irmão sentado às portas de Novembro, possas entender melhor, passo a descodificar o essencial: A) o Rei desta história é Deus; B) o nosso homem, o que foi intimado a apresentar-se no Palácio do Rei, é cada um de nós: posso ser eu; podes ser tu; C) o amigo n.º 1 é a nossa própria vida, a minha própria vida; eu e a minha vida, os meus afazeres, os meus negócios, os meus projectos, andamos sempre juntos: somos amigos inseparáveis; mas, quando eu morrer, de facto, nada disso me pode acompanhar!; D) o amigo n.º 2 são os nossos próprios amigos: podem acompanhar-nos só até à porta… do cemitério!; E) o amigo n.º 3, aquele que raramente vemos, é o bem que fazemos ao longo da nossa vida; é o amor que pomos naquilo que humildemente fazemos.

 9. Ainda estás a tempo, meu irmão sentado às portas de Novembro, deflydove pegar na tua lista de amigos, e de a virar do avesso. Verifica bem, e, pelo menos, trata de trazer para primeiro lugar o amigo que tens na lista em 3.º lugar e que tão poucas vezes vês. Afinal, é o único que te acompanhará sempre!

 António Couto


O CEGO DE JERICÓ

Outubro 24, 2009

 

1. Jeremias 31,7-9 põe diante de nós uma grande procissão de alegria e de esperança, vinda do Norte, da Babilónia, em que participam todos os filhos de Deus. Note-se a presença dos cegos, dos aleijados, das grávidas, das parturientes. Procissão maravilhosa em que ninguém fica de fora ou para trás: pura graça e salvação de Deus bem à vista! Verdadeiramente, Deus SALVA (hôshîa‛) o seu Povo (Jeremias 31,7). Não nos esqueçamos Hoje de valorizar o nosso canto do HOSSANA, que é um grito levantado para Deus, e que significa, à letra, “SALVA, POR FAVOR” (hôshîa‛ na’).

 2. O Canto ritmado do Salmo 126(125) serve para nos abrir bem os olhos do coração para vermos bem as inumeráveis maravilhas com que Deus enche os nossos caminhos todos os dias. Entre a sementeira e a ceifa, entre a dor e a alegria, o inverno e a primavera, a semente não erra e não mente. Segue o seu percurso natural. Suavemente. Aí está, portanto, outra vez a jubilosa procissão dos exilados! E nós extasiados como quem sonha, a boca cheia de riso e os lábios de canções.

 3. Aí está, em pleno ano sacerdotal, o texto da Carta (ou pregação) aos Hebreus 5,1-6, que nos apresenta uma excelente figuração do sacerdote: chamado por Deus, postado a meio caminho entre o coração de Deus e o coração dos homens, para encher este mundo de graça serena e fecunda. Ao jeito da vara sacerdotal de Aarão e por acumulado excesso, de onde brotam ao mesmo tempo folhas verdes, flores em botão, flores abertas e frutos maduros! (Números 17,16-26). Vara de amendoeira. Já ninguém estranhará agora que o candelabro (menôrah) que, noite e dia,/ ardia/ na presença de Deus, estivesse ornamentado com flores de amendoeira (Ex 25,31-35; 37,20-22). E também já ninguém estranhará que a tradição judaica tardia refira que a vara do Messias havia de ser de amendoeira. O excesso divino da primavera e da esperança em pleno inverno humano de dor e de pecado.

 4. E lá está outra vez um Cego no CAMINHO de Jesus. É do grande texto deJesus1 Marcos 10,46-52 que falamos, e que é conhecido como o episódio do Cego de Jericó. Na verdade, está em cena muito mais do que cegueira e geografia. Atente-se em como o narrador nos passa sobre o Cego informação exaustiva, distribuída em seis anotações: é o filho de Timeu (1), chama-se Bartimeu (2), é cego (3), pede esmola (4), está sentado (5) à beira do Caminho (6).

 5. Se revisitarmos com atenção as páginas dos Evangelhos, nomeadamente de Marcos, só encontramos tanta informação pessoal nos relatos de vocação. Veja-se, a propósito, o chamamento de Simão e André (Marcos 1,16-18), de Tiago e João (Marcos 1,19-20) e de Levi (Marcos 2,14). Estes indicadores são importantes, pois é bem provável que, no episódio do Cego de Jericó, estejamos mais perante um relato de vocação do que de cura.

 6. O Cego, excluído, GRITA por duas vezes. Quem grita é porque está longe e se quer fazer ouvir. A distância pode ser física, psicológica, cultural, religiosa… Um Cego sente-se longe de Deus e da comunidade. Dizia assim a tradição religiosa e cultural daquele tempo e daquele espaço. Por isso, o Cego GRITA e volta a GRITAR. O conteúdo do seu GRITO é belo: «Filho de David, Jesus,mother_mary_holding_baby_jesus_md_clr FAZ-ME GRAÇA (eléêsón me). É quanto nós cantamos ainda Hoje, e Hoje devemos valorizar também este dizer: Kýrie eléêson! Significa, na sua letra, pedir ao Senhor que pegue maternalmente em nós ao colo, que maternalmente nos embale, que maternalmente nos olhe e maternalmente sorria para nós!

 7. Ouvindo estes GRITOS, Jesus PÁRA. Parando, fica ao nível do Cego, que estava parado, e parado ia ali ficar. Jesus PÁRA e CHAMA. Um versículo (49) em que o verbo CHAMAR se ouve três vezes. Jesus não exclui, mas inclui e faz que aqueles que antes o mandavam calar, querendo mantê-lo na exclusão, entrem agora neste novo movimento de inclusão. Note-se o agrafo à grande procissão de Jeremias 31,7-9, que incluía cegos, aleijados, grávidas e parturientes. Também Jesus não quer deixar ninguém de fora ou para trás.

 8. Ao sentir-se chamado e incluído, o Cego deixa tudo (atira fora o seu manto, onde recolhia as esmolas), e, num salto (sem qualquer hesitação), fica junto de Jesus. Jesus pergunta-lhe, tal como atrás tinha perguntado aos dois filhos de Zebedeu: «Que queres que Eu te faça?» Naturalmente, o Cego responde: «Que eu veja!» Mas Jesus diz-lhe: «VAI!» Note-se bem o desajuste entre o pedido do Cego (ver) e a resposta de Jesus (ir). E já se vê aqui claramente o teor vocacional do relato.

 9. Lindo ver na conclusão do relato que o Cego viu, ficou iluminado, eD55CAWQA4QJCAQF4315CAW0EKKRCAIHVIZ7CAA4D7QNCA1GH3MTCAZLH18ZCAS4PMLCCADRNV3VCAQBAPD6CAGLNA3XCAPBVBVWCA2H9MDOCAC1RDLNCA54SKM0CAECQMAWCAS0DNSNCA2MWOAY SEGUIA Jesus no CAMINHO. Aí está outra vez a figura bela do verdadeiro discípulo de Jesus. Chamado e iluminado pela Luz que é Jesus, segue Jesus no CAMINHO. Tem de O seguir, temos de O seguir. Ele é a Luz, e a nossa Luz é reflexa.

 10. Senhor Jesus, chama por nós, inclui-nos no teu amor, faz-nos graça,animated_candle ilumina a nossa vida, torna-nos fiéis seguidores teus, sempre atrás de Ti, no teu CAMINHO de LUZ.

 António Couto


HESITAÇÕES E DECISÕES NO CAMINHO

Outubro 17, 2009

 

1. O justo, meu Servo, diz Deus, justificará muitos, diz Deus. Profeta «profetizado»: eis a verdade do profeta-servo. Não fala, mas é falado: fala Deus dele (Isaías 52,13-15; 53,11-12); falamos nós dele (53,1-10). Nós, batendo no peito, reconhecendo que as suas chagas não são o seu castigo merecido, mas cura para a nossa malvadez. De facto, vendo bem aquelas chagas, temos mesmo de reconhecer que foi a nossa violência e malvadez que as produziu. Diagnosticada a doença, podemos lançar mão do remédio. Deus apresenta-o como aquele que, entregando a sua vida à nossa violência, atravessa a nossa violência, sofrendo-a e dissolvendo-a por amor: é assim que nos justifica, isto é, nos transforma de pecadores em justos: milagre do perdão e da recriação do nosso Deus.

 2. Faz-nos bem a seguir cantar demoradamente com o Salmo 33(32): «Desça sobre nós a vossa misericórdia», e contemplar com encanto e emoção o rosto do novo sumo-sacerdote, Jesus, Filho de Deus, posto por escrito diante dos nossos olhos no trono da Cruz (Gálatas 3,1), para o vermos bem e para nos vermos bem: outra vez um rosto desfigurado pela nossa violência e malvadez, e a ternura e daquele olhar de graça, que nos redime e salva. É a extraordinária lição de Hebreus 4,14-16.

 3. E voltamos ao CAMINHO com Marcos 10,35-45. É a vez de Tiago e João,zebedeu os filhos de Zebedeu, que vão no CAMINHO desde o princípio, agora que o CAMINHO se aproxima do seu termo, se aproximarem de Jesus com um estranho pedido. Vão de pé no CAMINHO, mas querem SENTAR-SE em lugares de destaque. O narrador diz-nos que os outros Dez ficaram indignados. Entenda-se: não tanto pelo pedido em si, mas porque também pensavam a mesma coisa, e se viram antecipados.

 4. Jesus chama-os todos para si, para lhes dizer ao coração que há os CHEFES deste mundo que mandam e tiranizam e tiram a vida, e há os SERVOS que servem e dão a vida por amor, isto é, justificam.

 5. E aí está Jesus a apresentar-se de novo como verdadeiro Mestre pró-activo, que sabe o CAMINHO, ensina o CAMINHO e faz o CAMINHO: veio para SERVIR e DAR A VIDA por amor.

 6. Mas tudo ficará mais claro, quando, no próximo próximo Domingo (XXX)bartimeu se vir bem o confronto produzido pelo episódio do Cego de Jericó (Marcos 10,46-52), paradigmaticamente colocado no termo do CAMINHO.

 7. O Cego está sentado (a posição ansiada por João e Tiago e pelos outros Dez) à beira do caminho. Grita porque, sendo cego, é um excluído. Mas aí está o Mestre pró-activo: PÁRA (descendo ao nível do cego) e CHAMA (incluindo o excluído). Sem hesitação, o cego atira logo fora o manto (a sua subsistência, a sua vida), e, com um salto, de forma decidida e enérgica, fica no lugar certo (junto de Jesus). Jesus faz-lhe a mesma pergunta que fez a João e a Tiago: «Que queres que Eu te faça?» Resposta óbvia do cego: «Que eu veja!» Ordem de Jesus: «VAI!»

 8. Poucos se apercebem. Mas «VAI!» não é a resposta adequada ao pedido do cego: «Que eu veja!» A resposta adequada seria: «Vê!», como está, de resto, no episódio paralelo de Lucas 18,42.

 9. Mas, de facto, o cego obedeceu à ordem nova de Jesus. Diz-nos o narrador que SEGUIA JESUS NO CAMINHO! Note-se o SEGUIA (imperfeito de duração). Modelo do discípulo de Jesus.

 10. Vejam-se atentamente os confrontos: 1) o cego está SENTADO, mas põe-se de pé; de pé vão os discípulos de Jesus, mas querem SENTAR-SE; 2) o cego deixa tudo (atira fora o manto), mas os discípulos querem saber o que ganham; 3) o cego está à beira do CAMINHO, mas entra no CAMINHO para seguir Jesus no CAMINHO; o homem rico de Marcos 10,17-22, que encontrámos no Domingo XXVIII, entra no CAMINHO, mas sai logo do CAMINHO…

 11. Tantos desafios e provocações, modelos e contra-modelos, para nós, discípulos que hoje seguimos Jesus no CAMINHO!

 12. Não nos esqueçamos ainda que passa hoje (18 de Outubro) o 83.º Diaglobeanim5b Missionário Mundial. Dia indicado para «CAMINHARMOS à sua LUZ» (tema da Mensagem do Papa), para compreendermos, com o Papa, que «A missão ad gentes deve ser a prioridade dos nossos planos pastorais», «que toda a Igreja se deve empenhar na missão ad gentes» e que «a tarefa de evangelizar todos os homens constitui a missão essencial da Igreja».

 13. Se vejo bem, para cumprirmos estes desideratos que o Papa lança à Igreja e a cada um de nós, temos mesmo de virar quase tudo do avesso! Exactamente como aqueles discípulos de Jesus no CAMINHO!

 António Couto


O HOMEM RICO, EDUCADO E DE BOA PRÁTICA RELIGIOSA

Outubro 10, 2009

 

1. Um punhado de terra, eis quanto é toda a riqueza do mundo comparada com a sabedoria que vem de Deus (Sabedoria 7,9). Pedimos depois, cantando, no Salmo 90(89),12, que Deus nos dê a Sabedoria do coração: entenda-se o bom senso, a sensibilidade e a bondade, e que elas sejam o metro para acertarmos diariamente a medida canónica (cânon, cana de medida) da nossa vida.

 2. Vem depois aquele homem rico, sincero, educado e de boa práticacalma religiosa, que entra subitamente NO CAMINHO de Jesus, pedindo-lhe que lhe aponte o caminho para a vida eterna. Ele não sabia que tinha acabado de entrar nesse CAMINHO e nessa VIDA, e que bastava seguir tranquilamente Jesus até ao fim. Jesus é o Mestre novo, verdadeiro líder pró-activo, que não ensina como os escribas. Ele sabe o caminho, mostra o caminho, faz o caminho. Por isso, passa e chama, dizendo: «Vinde atrás de Mim!»

 3. O homem rico, educado e de boa prática religiosa entra no CAMINHO, e Jesus entra nele, pois olha dentro dele (verbo emblépô) com amor divino. Único verdadeiro olhar de Deus, que vê sempre dentro, vê sempre o coração, sempre com coração.

 4. E aquela imensa, inesquecível rajada de verbos: Vai, vende, dá, vem e segue-me!, que atravessou o coração do homem rico, e ainda hoje nos atravessa a nós. Queira Deus que atravesse verdadeiramente o nosso coração. É, estou convicto, ainda hoje, a «uma coisa» (hén) que nos falta!

 5. E aquele homem rico, educado e de boa prática religiosa, em quem facilmente nos poderemos rever, saiu do CAMINHO, sem caminho e sem horizontes, triste e agarrado ao seu punhado de terra.

 6. Jesus olha agora o coração e com o coração os seus discípulos, a quem trata por «filhos» (única vez no Evangelho de Marcos!), contrapondo a riqueza ao Reino de Deus. Sim, não há maneira de nos salvarmos; há apenas maneira de sermos salvos! A metáfora do camelo e do buraco da agulha é bem expressiva e impressiva, sendo o camelo o animal de maiores dimensões conhecido no mundo de Jesus e dos seus discípulos!

 7. E aquele elenco fantástico apresentado por Jesus: casas, irmãos, irmãs,rosa14 mãe, pai, filhos e terras. Quase ninguém repara nisto, e somos quase sempre levados a pensar que Jesus fornece dois elencos: um das coisas que há que deixar e outro das coisas que há que encontrar! Aí está a velha lógica das coisas materiais versus coisas espirituais! Mas Jesus apresenta apenas um elenco repetido. É a maneira de ver que deve mudar: do ter para o receber! Temos de aprender a ver o coração e com o coração, como Jesus. Podemos admirar a beleza de uma flor, mesmo quando está no jardim do meu vizinho!

 8. Pois, argumenta Pedro, também ele homem educado e de boa prática religiosa: «Se é assim, quem é que se salva?» E Jesus: «Aos homens é impossível, mas a Deus tudo é possível!» É, portanto, para Deus que nos devemos voltar completamente. E aí está a lição inultrapassável do Mestre pró-activo, que sabe o caminho, mostra o caminho e faz o caminho. Escreve S. Paulo: «Jesus Cristo, sendo rico, fez-se pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (2 Coríntios 8,9).

 9. Entretanto, não esqueçamos o bisturi da Palavra de Deus, que opera a esclerose do nosso coração (Hebreus 4,12).

 António Couto


UMA EUROPA ANESTESIADA E DORMENTE

Outubro 4, 2009

 

1. «A liberdade é o poder de fazer tudo aquilo que não prejudique os outros». É esta a formulação exemplar que encontramos na famosa «Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão» (Art.º 4), saída da Revolução Francesa (1789), depois muitas vezes traduzida no aforismo: «A minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro».

 2. É em nome deste princípio, que se diz habitualmente que a Europa é asamaritan1 terra natal dos direitos do homem. Porém, se não formos míopes, teremos de acrescentar logo que esse nascimento foi muito ambíguo e esses direitos muito restritivos, pois não afectam por igual todos os homens. Por exemplo, aquele «um homem (e todos aqueles que ele representa) que descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos assaltantes que, depois de o roubarem e espancarem, se foram embora deixando-o meio morto», da conhecida parábola do bom samaritano (Lucas 10,30-37), ficaria excluído desses direitos.

 3. De facto, roubado e em estado de coma, aquele homem não é sujeito de nenhum poder nem de nenhum fazer. Ora, a fórmula exemplar da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, atrás referida, assenta, como vimos, no «poder fazer» aquilo que não prejudique os outros. Visto por este prisma, o homem da referida parábola fica duplamente excluído: primeiro, porque não é sujeito de nenhum poder e de nenhum fazer: nada «pode fazer», portanto; segundo, porque, ainda que porventura tivesse o «poder de pedir» auxílio – o que parece que nem é o caso –, é preciso ver que um tal gesto não teria, de facto, qualquer força de direito, pois se dirigiria a liberdades cuja essência consiste, como vimos, em «não prejudicar». Mas se o exercício da liberdade consiste em «não prejudicar», então basta abster-se de fazer o que quer que seja para se cumprir o articulado. É o que fazem, na parábola narrada, o sacerdote e o levita, que, tendo visto o homem em causa, passam simplesmente pelo outro lado da estrada, não se incomodando nem o incomodando.

 4. Ironia da história: a sociedade laica nasce imitando, inconscientemente com certeza, o comportamento das duas figuras clericais (o sacerdote e o levita) da parábola. Nasce assim como novo culto o culto do «eu» como «poder fazer», o culto do «eu» como senhor mais ou menos civilizado, engravatado, que não prejudica directamente os outros por palavras ou por obras, dado que passa simplesmente ao lado deles.

 5. É fácil de ver que este culto laico do «eu» é hoje uma religião com muitos praticantes, todos de bem com a sua consciência. A única obrigação que este culto impõe aos seus crentes é não fazer mal aos outros. É fácil de praticar: basta não se importar com eles. Mas hoje temos todos os dias à nossa porta e à beira das nossas estradas pessoas caídas, doentes, fragilizadas, abandonadas. Será que podemos passar por elas com a consciência tranquila, cientes de que passamos por elas sem as prejudicar?

 6. Entramos em Outubro. Tempo de voltar à escola. Tempo de aprender e de ensinar humanidade e cidadania. Tempo de descobrir que é urgente substituir o velho aforismo burguês e anestesiante, segundo o qual «a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro», pelo implicativo e sempre inquietante «a minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro».

 7. Em vez de continuares a passar tranquilamente e de boa consciência ao lado do outro, experimenta aproximar-te dele. Deixa-te incomodar por ele, meu irmão de Outubro.

 António Couto


MOISÉS VISITA OS APOSENTOS DE DEUS

Setembro 28, 2009

 

1. Ainda estamos dentro da maior Festa de Israel. Celebra-se hoje (28 deimagessss Setembro para nós; 10 de Tishrî para eles) a Festa do yôm kippûr [= Dia do Perdão]. A Mishna dedica-lhe um tratado significativamente intitulado YÔMA, à letra, O DIA. É «o dia» por excelência. É o dia da graça, do perdão, da condescendência. A Festa da brancura. Único Dia em que o sumo-sacerdote entrava antigamente na parte mais santa do Templo, chamada SANTO DOS SANTOS, isto é, SANTÍSSIMO. Acariciava o rosto de Deus com sangue, que tem na Bíblia sentido unitivo e familiar, e implorava o PERDÃO para os seus pecados e para os pecados de todo o povo.

 2. No passado dia 19 de Setembro (1 de Tishrî), os judeus celebraram o Dia de Ano Novo (rosh ha-shanah). Esvaziaram simbolicamente os bolsos do cotão antigo e vestiram de branco, e deram início a dez dias de penitência, que culminaram hoje no Dia Perdão de Deus.

 3. No próximo dia 3 de Outubro (15 de Tishrî), inicia-se a Festa das Tendasdanceroda (Sukkôt), Festa que manifesta a alegria das colheitas abençoadas por Deus. É uma Festa a céu aberto, pois a cobertura das tendas nunca deve ser tão espessa que não nos deixe ver Deus, e que não deixe Deus ver-nos a nós.

 4. Esta forte mancha festiva a abrir o Outono (e o Ano para os judeus) mostra uma intensa familiaridade entre os judeus piedosos e o seu Deus. Esta vincada proximidade pode fazer-nos bem também a nós e a todo o ser humano. Dentro desse espírito, apresento hoje uma visita de Moisés aos aposentos de Deus, narrada no Midrash Tanchuma.

 5. Diz então a história que Deus mostrou a Moisés todos os aposentos dos tesouros do Céu, onde se encontra reunida a recompensa dos justos. Conforme Moisés ia visitando os sucessivos aposentos, repletos de tesouros preciosos, ia ficando cada vez mais extasiado e cheio de curiosidade, como uma criança deslumbrada.

 6. E como tal, perguntava: “Senhor do mundo, a quem está destinada este aposento do tesouro?” Deus respondeu: “Para aqueles que levam uma vida justa”. “E este aposento do tesouro?”, perguntou Moisés. “Esse é para aqueles que prestam ajuda aos órfãos”, disse Deus. E continuaram a percorrer, um após outro, inúmeros aposentos repletos de riqueza, até que chegaram a uma sala imensa, a perder de vista, repleta de bens valiosíssimos. À vista de tal maravilha, Moisés perguntou mais uma vez: “Senhor, a quem se destina este aposento imenso e deslumbrante?” Deus respondeu: “Quando alguém faz uma obra meritória, dou-lhe o que lhe cabe, tirando do respectivo aposento do tesouro. Mas se algém não fez nenhuma obra meritória, então dou-lhe gratuitamente, tirando deste imenso e inesgotável aposento”.

 7. A história quer mostrar que a linguagem que Deus melhor entende é a Graça.

 António Couto


UM SIMPLES COPO DE ÁGUA COM AMOR…

Setembro 24, 2009

 

1. A lição do Livro dos Números deste Domingo XXVI (Números 11,25-29)67 mostra-nos um Moisés, não dono de nada nem de ninguém, nada ciumento ou invejoso, mas livre, cheio de bem e de bondade, completamente a céu aberto, desejoso de ver, com olhos puros, o Espírito de Deus a operar maravilhas em todas as pessoas e através de todas as pessoas. Josué representa, neste texto, a figura sombria do ciumento.

2. O Evangelho deste mesmo Domingo (Marcos 9,38-47) segue o mesmo rumo, e mostra-nos um Jesus feliz por ver que o bem saltou as fronteiras do pequeno grupo que o seguia, sendo praticado também por pessoas de fora. João encarna aqui a figura do Josué do texto supracitado do Livro dos Números, e quer o bem todo para Jesus e o seu grupo, vendo com maus olhos que também outros o possam realizar.

3. Vê-se, no fundo da tela, que não basta querer o bem. Querer o bem nem sempre é bom. Por paradoxal que pareça, querer o bem pode ser mau. É, de facto mau, quando queremos o bem só para nós, ciumenta e invejosamente. Às vezes, os nossos maus olhos levam-nos a retirar o bem do alcance dos outros, e até a destruí-lo. Ora, o bem que divide e exclui nunca é bem. O bem mostra-se tal apenas quando faz comunhão, fraternidade, mesa, pão, água, pura alegria entre irmãos.

4. Um simples copo de água, dado com amor, pode trazer pela mão a eternidade, soberana lição de Jesus. Toda a atenção, portanto, às nossas mão, pés, olhos. A mão, que indica a nossa acção, pode fazer o bem ou o mal. Se faz o mal, é melhor cortá-la, como faz o lavrador cuidadoso aos ramos secos das videiras e das árvores de fruto. O pé, que indica o nosso caminhar, pode levar-nos por e para maus caminhos. Se nos conduz para o abismo, é melhor cortá-lo. O olho, que indica os nossos desejos de bem e de amor ou de cobiça, ódio, raivas e ciúmes, pode levar-nos à mesa da alegria fraterna ou ao ciúme e à inveja. Estas últimas maneiras de ver levam-nos ao mal, e, portanto, ao sentimento venenoso de queremos o bem só para nós. Aí está como querer o bem nem sempre é bom; pode ser mau. E é melhor arrancar este veneno.

5. A lição de Tiago (Tiago 5,1-6), que lemos e abandonamos este Domingo (no próximo começa a ler-se a Carta aos Hebreus) mostra bem que o rico é o que quer o bem só para si, retirando-o (roubando-o!) aos outros. Auto-exclui-se da comunhão, da bondade e da alegria da mesa fraterna. O resultado é a traça, o mofo, a ferrugem, a podridão.

6. Aí está, no ponto e em contraponto, a lição soberana do Evangelho de Jesus: um simples copo de água, dado com amor, pode trazer pela mão a eternidade!

António Couto


LEVA UMA NOTÍCIA FELIZ AOS TEUS AMIGOS

Setembro 16, 2009

 

1. «Evangelizar não é para mim um título de glória, mas uma necessidadel_e36bbd6d18404b23b1d72bf21c4a68c9 que se me impõe desde fora. Ai de mim se não evangelizar!», confessa Paulo à comunidade cristã de Corinto (1 Coríntios 9,16).

 2. Paulo anuncia convictamente a notícia da Ressurreição. E diz que o faz como se de uma necessidade se tratasse. Mas porque é que este anúncio há-de ser, para Paulo, uma necessidade? É uma necessidade porque Paulo considera o acontecimento da Páscoa de Cristo como único, singular e universal, que o afectou radicalmente na sua maneira de ser homem. A prova é que Paulo mudou tudo na sua vida. Mudou, ou foi mudado. É por isso que Paulo anuncia convictamente a força (dýnamis) de Cristo Crucificado e Ressuscitado (Filipenses 3,10).

 3. Mas é claro que este anúncio sempre Primeiro arrasta consigo um longo e lento e belo relato. O relato é o testemunho de como Cristo atravessou a vida do anunciador, transformando-a radicalmente. O anunciador transforma-se assim naturalmente em narrador. O anunciador é audaz e destemido. O narrador é frágil: é um pedinte que mendiga um narratário a quem possa transmitir o seu relato. Ouvindo o anúncio e acolhendo o relato, cabe agora ao narratário decidir se declara o acontecimento da Páscoa de Cristo como único, singular e universal, isto é, como um acontecimento capaz de mudar radicalmente a sua vida e de pôr em andamento uma história nova de Perdão e de Vida para o fim de toda a morte e de todo o pecado. Se o fizer, também ele se porá a caminho, atravessará fronteiras, anunciará a Ressurreição de Cristo e oferecerá como garante o relato da transformação operada na sua própria vida. E assim sucessivamente.

 4. A notícia faz de ponto de união: junta o mensageiro e o destinatário. Mas é o relato que os aproxima, fazendo-os, não só estar juntos, mas nascer juntos como irmãos. Este nascimento, não pelo sangue, mas pela Liberdade, é que é o verdadeiro nascimento, que nos faz saborear a verdadeira fraternidade: «Ide dizer aos meus irmãos que Eu os precedo na Galileia» (Mateus 28,10; cf. João 20,17). Irmãos uns dos outros e irmãos do Ressuscitado, que nos precede e nos preside sempre, referência permanente do nosso quotidiano: «Onde estiverem dois ou três, Eu estarei no meio» (Mateus 18,20).

 5. Enche a tua vida com uma grande notícia. Comunica depois essa notícia aos teus amigos. E relata, isto é, põe em relação, une, reúne, enlaça, entrelaça, com essa notícia a tua vida toda.

6. Em Setembro abre a escola, a igreja, o campo, abre a política e o tribunal. Abre também a vida, meu irmão de Setembro.

 António Couto


E VÓS QUEM DIZEIS QUE EU SOU?

Setembro 12, 2009

 

«8,27E saiu JESUS e os DISCÍPULOS d’ELE (hoi mathêtaì autoû) parajesus as povoações de Cesareia de Filipe. E, NO CAMINHO (en tê hodô), perguntou aos DISCÍPULOS d’ELE, dizendo-lhes: “Quem dizem as pessoas que EU SOU?” 28Eles disseram-LHE, dizendo: “João Baptista; outros, Elias, e outros ainda, um dos profetas”. 29E ELE perguntou-lhes: “E VÓS, quem dizeis que EU SOU?” Respondendo, Pedro diz-LHE: “TU és o CRISTO”. 30E censurou-os (epetímêsen) para não dizerem a ninguém acerca d’ELE.

 31E COMEÇOU A ENSINÁ-LOS (kaì êrxato didáskein autoús) que é preciso (deî) o FILHO DO HOMEM sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar. 32E abertamente (parrêsía) falava esta palavra. E tomando-O consigo (proslabómenos), Pedro começou a censurá-l’O (epitimân) (cf. 9,31-32; 10,32-34). 33ELE, porém, voltando-SE e vendo os DISCÍPULOS d’ELE, censurou (epetímêsen) Pedro e diz: “Vai para trás de MIM (hypáge opísô mou), satanás, pois não tens em consideração as coisas de Deus, mas as dos homens”.

 34E chamando para SI (proskalesámenos) a MULTIDÃO, juntamente com os DISCÍPULOS d’ELE, disse-lhes: “Se alguém quiser atrás de MIM SEGUIR (opísô mou akoloutheîn), RENEGUE (aparnêsásthô: imp. aor. de aparnéomai) a si mesmo (heautón), TOME A SUA CRUZ e SIGA-ME, 35pois aquele que quiser salvar a própria vida, vai perdê-la, mas o que perder a própria vida por causa de MIM e do Evangelho, vai salvá-la”» (Mc 8,27-35).

 

1. O episódio «NO CAMINHO» de Cesareia de Filipe abre significativamente com o nome «JESUS», abandonado 89 versículos atrás, em Marcos 6,30! Forma clara e enfática de o narrador dizer ao leitor que estamos perante um episódio importante, justamente considerado o centro geométrico e teológico do Evangelho de Marcos. Ao apresentar JESUS e os seus discípulos NO CAMINHO, o narrador abre a secção central deste Evangelho (Marcos 8,27-10,52), normalmente intitulada: «O seguimento de Jesus NO CAMINHO», que é o CAMINHO que conduz da Galileia a Jerusalém, o CAMINHO da formação de Jesus aos seus discípulos. Vamos seguir a par e passo esta importante secção do Evangelho de Marcos durante sete Domingos, desde o Domingo XXIV (13 de Setembro) até ao Domingo XXX (25 de Outubro). Há quem prefira abrir a secção com o episódio de 8,22-26 (o cego de Betsaida Julia) para a encerrar com o episódio de 10,46-52 (o cego de Jericó). Tem a vantagem de colocar um cego a abrir e outro a fechar esta importante secção. Estes cegos têm a função de nos fazer ver a nossa cegueira e de nos indicar o médico e a terapia.

 2. Cesareia de Filipe, tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS. Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Aí construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de Augusto.

 3. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que JESUS põe a questão da sua identidade. Soberanamente JESUS pergunta: «Quem dizem as pessoas que eu sou?» (8,27), para acrescentar logo de seguida: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (8,29). A pergunta é única em todo o arco da Escritura. Ninguém, antes ou depois de Jesus, em toda a Escritura, fez ou fará uma pergunta semelhante.

 4. Para o povo, JESUS é um profeta. Um entre muitos. Mas para Pedro, Jesus não é apenas um entre muitos. Ele é Único e Último (cf. Marcos 12,1-12), o Rei definitivo, o Cristo, o Messias, que traz todo o bem para o seu povo («Fez tudo bem feito»: Marcos 7,37). E assim, à questão directa e enfática – «E vós, quem dizeis que eu sou?» (8,29) – posta por JESUS aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Pedro responde: «Tu és o Cristo!» Note-se bem que JESUS não pergunta simplesmente: «Quem sou Eu?», mas: «Quem dizeis vós que Eu sou?». Dizer é mais do que um saber. Implica o compromisso, a vida, de quem diz.

 5. À primeira vista, parece que Pedro respondeu acertadamente. Mas o contexto mostra que o discípulo não reunia competência sobre a matéria, não estava ainda em condições de fazer as operações mentais e afectivas necessárias para uma resposta correcta que reunisse todos os elementos necessários de modo a implicar na resposta o respondedor. O dizer de Pedro ainda era um dizer antigo, tradicional e convencional, sem implicações pessoais. Pedro ainda não tinha nascido de novo e do alto e do Espírito. Como podia dizer JESUS? «Tu és o Cristo!», respondeu Pedro. Fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de «Cristo», vê-se logo no seguimento do texto, que no «Cristo» de Pedro não entrava o sofrimento, a rejeição, a morte, a ressurreição (8,31-32). Muito menos a adesão pessoal de Pedro a este «Cristo». Na verdade, Pedro recrimina JESUS pelo CAMINHO de rejeição, sofrimento e morte que Ele acaba de mostrar como sendo o verdadeiro CAMINHO de «Cristo» segundo JESUS. O CAMINHO de «Cristo» segundo Pedro só inclui triunfo e sucesso.

 6. Por isso, porque Pedro acertou com a resposta – na verdade, JESUS é o «Cristo» –, mas não é o «Cristo» como Pedro pensa que é, JESUS impõe soberanamente silêncio (8,30). O silêncio imposto por JESUS aos seus discípulos pode passar falsamente a ideia do chamado «segredo messiânico», segundo o qual JESUS não quereria que a sua identidade, uma vez descoberta, fosse divulgada. Trata-se, antes, de impedir que respostas, porventura certas nas palavras, mas erradas nos conteúdos, e elaboradas apenas com base em elementos convencionais e tradicionais (o «Cristo» do jadaísmo), que não implicam um verdadeiro dizer pessoal, um novo nascimento do alto e do Espírito, sejam transmitidas boicotando assim o nascimento do conhecimento profundo e verdadeiro da novidade de JESUS e a implicação pessoal de quem diz JESUS e se diz face a JESUS. O verdadeiro sujeito deste dizer não o pode ser só por fazer parte de alguma instituição que confere credibilidade ao seu dizer já antes de começar a dizer, como, por exemplo, os escribas ou os próprios discípulos de JESUS.

 7. Porque há muita coisa que os discípulos ainda têm de aprender, antes de saberem dizer JESUS, soberanamente JESUS começou a ensinar (8,31). É grandemente sintomático que o narrador empregue a mesma expressão («E começou a ensiná-los») quando JESUS ensina a semente (Mc 4,1-2), quando ensina o pão (Mc 6,34s.), e quando ensina a Paixão, Morte e Ressurreição (Mc 8,31s.). Em boa verdade, JESUS é a semente e é também o pão, linguagem que ilumina e é iluminada pela Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Veja-se o dito condensado de João 12,24: «Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, fica só; mas se morrer dará muito fruto».

 8. Já sabemos que Pedro respondeu antes do tempo com um punhado de palavras convencionais, que vinham na corrente da tradição judaica. Ainda não tinha nascido do alto e do Espírito, como sujeito novo de acção [= dizer e fazer], face à novidade de JESUS. Falta-lhe fazer aquele «caminho» transitivo e intransitivo, longo, gradual e tortuoso, da Galileia até à Cruz, que JESUS aponta logo de seguida aos seus discípulos e ao leitor. Aí nascerá para a Glória a humanidade de JESUS, ao mesmo tempo que nascerá Pedro como sujeito apto para dizer JESUS e se dizer face a JESUS. Por agora, Pedro e os discípulos e a multidão e o leitor devem «dizer energicamente não» (aparnéomai) a si mesmos e ocupar o seu lugar «atrás de» JESUS, para seguir o Mestre ao longo do CAMINHO. Este «dizer não» a si mesmo implica uma forte conotação de rejeição, que Isaías usa para a rejeição dos ídolos: «Naquele dia, Israel rejeitará (aparnéomai) os seus ídolos de prata e os seus ídolos de ouro, trabalho das vossas mãos pecadoras» (Isaías 31,7). Marcos só usa esta expressão aqui e no anúncio feito por Jesus da negação de Pedro (Marcos 14,30-31) e na recordação desse anúncio por parte de Pedro (Marcos 14,72). A lição é clara: ou «dizemos não» a nós mesmos ou acabaremos sempre por «dizer não» a JESUS.

 9. Ocupar o seu lugar «atrás de» JESUS. Note-se a tradução correcta: «Vai para trás de MIM» (hypáge opísô mou) (8,33), e não: «Afasta-te de MIM», como se vê em muitas traduções. «Atrás de MIM» é o lugar do discípulo, que segue o Mestre passo a passo, que deve ter em consideração as coisas de Deus, e não as dos homens. É, de resto, a mesmíssima linguagem posta na boca de JESUS aquando do chamamento de Pedro e André: «Vinde atrás de Mim (deûte ôpísô mou)» (Marcos 1,17).

 10. Seguindo atentamente «atrás de» Jesus neste caminho de formação que constitui a secção central de Marcos (8,27-10,52), estes sete Domingos fazem-nos viver, episódio após episódio, importantes situações pedagógicas.

 António Couto


11 DE SETEMBRO OU O VALOR DA VIDA HUMANA

Setembro 10, 2009

 


1. As imagens brutais de 11 de Setembro (2001), com aqueles dois aviões a embater contra as torres gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, deixaram-nos perplexos. Tanto poder, tanta ostentação, tanta riqueza tão rapidamente destruídos. O Livro do Apocalipse bem nos lembra, com vigorosas imagens, que todos os nossos impérios caem: «Ai, ai, ó grande cidade! Vestias linho puro, púrpura e escarlate, e adornavas-te com ouro, pedras preciosas e pérolas: numa só hora tanta riqueza foi reduzida a nada!» A citação é do Capítulo 18, versículos 16-17, mas todo o Capítulo 18 repete, com ligeiras variantes, este refrão. O Apocalipse fala assim do destino de Roma (a que chama Babilónia) e de todas as Romas de todos os tempos.


 2. Permitam-me que retome aqui o que deixei escrito em Janeiro de 2001, o mês que abria um novo tempo (ano, século, milénio). Escrevi então: «Nós, que agora transpomos o umbral do século XXI, carregamos na memória um grande saco de contradições: por um lado, os fantásticos progressos do século XIX, em todos os âmbitos da vida, da locomotiva ao avião, do telégrafo ao telefone, da física clássica à teoria da relatividade…; por outro lado, as indescritíveis catástrofes do século XX, com lugar marcado em Verdun e Estalinegrado, Auschwitz e Gulag, Hiroshima e Chernobyl… E ficamos com a sensação de que a “razão instrumental”, guiada por interesses perversos e ilimitados de poder, prevaleceu amplamente sobre a “razão como sabedoria” e sensatez ao serviço de todos os homens.


 3. Pelos cálculos de Hegel, o mundo moderno terá nascido em 1492 com a descoberta da América e de outros continentes pela Europa, que passou assim da periferia para o centro do mundo. Antes dessa data, os poderes da Europa eram insignificantes, quando comparados com os impérios Otomano, Mongol ou Chinês. Mas a América não foi apenas descoberta ou conhecida, mas sobretudo tomada pela força e formatada segundo a vontade dos conquistadores. Pouco depois, no século que medeia entre Copérnico (-1543) e Newton (1642-), tem lugar outra conquista significativa: a conquista da natureza pelo poder científico-técnico. Estas duas conquistas constituem as duas pedras-base da “nova ordem mundial”, que ainda hoje perdura, não obstante o centro ter passado entretanto da Europa para os EUA, como significativamente testificam as notas de um dólar, em que se pode ver escrito em latim novus ordo seclorum [= “nova ordem mundial”]. [Foi esta “nova ordem mundial” que, de certa forma, vimos com espanto desabar com as torres de World Trade Center.]


 4. É um pouco como o sonho megalómano de Nabucodonosor, apresentado no Capítulo 2 do Livro de Daniel: uma enorme estátua, com a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, os pés de barro. Mas uma pedrinha desce da montanha e vem embater contra os pés de barro da estátua. Resulta do embate que os pés de barro ficam pulverizados, mas igualmente se pulverizam as pernas de ferro, as coxas e o ventre de bronze, os braços e o peito de prata, a cabeça de ouro! Era assim o mundo de Nabucodonosor, imperador da Babilónia, e parece ser assim também a nossa sociedade pesada, rica, poderosa, técnica e metálica, mas com um grande défice de humanidade.


 5. O certo é que a ambição de poder e riqueza e a pesada indústria dos países ricos continua a explorar brutalmente os pobres da terra e a massacrar a natureza, amontoando assim ódios e buracos de ozono. No dealbar do século XXI, é bom pensar que uma simples pedrinha pode desfazer a pesada máquina das nossas inúteis megalomanias, e que mais vale ter uma cabeça cheia de bom senso do que de ouro, um coração de carne em vez de prata, um ventre de misericórdia em vez de bronze». Termina aqui o que escrevi em Janeiro de 2001, exceptuando apenas as actualizações contidas entre parêntesis quadrados.


 6. Lembra-te, meu irmão de hoje, que todos os impérios caem: os meus e os teus. Inexoravelmente. Porque, em última análise, são fracos. Quer estejam montados sobre o luxo quer sobre o ódio. Forte é o amor. Todos sabemos que qualquer pai ou mãe ou marido ou esposa ou filho ou irmão ou amigo daria de bom grado aquelas duas torres e muito mais para reaver o seu filho ou pai ou mãe ou marido ou esposa ou irmão ou amigo perdidos nos escombros daquelas torres. É tempo de velarmos pela salvaguarda do melhor que há em nós.


 António Couto


A ESTRELA DA ESPERANÇA

Setembro 3, 2009

 

1. Para muitos já as férias acabaram, e está de volta o trabalho, as aulas, aPERTO+DAS+ESTRELAS rotina. Portanto, vou hoje contar uma história tirada do baú da grande tradição hebraica. É uma história que fala de estrelas e de esperança, e daquilo que as estrelas e a esperança têm a ver connosco. Somos frágeis e pequenos, e é sempre bom aprender a levantar os olhos para o céu e a baixá-los sobre o coração.

 2. Era uma vez milhões e milhões de estrelas espalhadas pelo céu. Havia estrelas de todas as cores: brancas, amarelas, prateadas, cor-de-rosa, vermelhas, azuis… Um dia foram à procura de Deus, Senhor de todo o universo, e disseram-lhe: «Senhor, gostaríamos de viver na terra, no meio dos homens». «Seja como quereis», respondeu Deus. «Podeis descer à terra. Conservar-vos-ei pequeninas, como sois vistas pelos homens».

 3. Conta-se que, naquela noite, houve uma deslumbrante chuva de estrelas. Acoitaram-se umas nas montanhas, enquanto outras se instalaram no meio dos brinquedos das crianças. Certo é que a terra ficou maravilhosamente iluminada.

 4. Algum tempo depois, porém, as estrelas resolveram abandonar a terra, e voltaram para o céu. A terra ficou outra vez escura e triste. «Por que voltastes?», perguntou Deus. Então as estrelas responderam: «Senhor, não aguentámos permanecer no meio de tanta miséria, violência, guerra, fome, doença, morte». Ao que Deus terá retorquido: «Tendes razão, estais melhor aqui no céu, em que tudo é sossego e perfeição, ao contrário da terra em que tudo é transitório e mortal».

 5. Depois de todas as estrelas se terem apresentado e de ter conferido o seu número, Deus anotou: «Mas falta aqui uma estrela; ter-se-á perdido no caminho?» Ao que um anjo, que estava por perto, respondeu: «Houve uma estrela que resolveu ficar na terra, porque pensa que o seu lugar é exactamente no meio da imperfeição, onde as coisas não correm bem». «Mas que estrela é essa?», perguntou novamente Deus. E o anjo respondeu: «por coincidência, Senhor, era a única estrela daquela cor». «Qual é a cor dessa estrela?», insistiu Deus. O anjo respondeu: «Essa estrela é verde, da cor da esperança».

 6. Olharam então para a terra, mas a estrela verde, da esperança, já não estava só. A terra estava outra vez iluminada, com luzes em todas as janelas, porque ardia uma estrela no coração de cada ser humano. A esperança, diz a tradição hebraica, é o único sentimento que o ser humano possui, e Deus não, porque, conhecendo o futuro, Deus já não espera. A esperança é própria do ser humano, que é imperfeito, que erra e que não sabe como será o dia de amanhã.

 7. Meu irmão de Setembro, rezo para que brilhe cada vez mais a estrela da esperança que arde em ti e na tua casa. E a nossa terra pode ser mais céu.

 António Couto


I HAVE A DREAM (28 de Agosto de 1963)

Agosto 28, 2009

 

1. Sentado à porta de Setembro ou de um novo ano de trabalho (na verdade,188 em termos agrícolas, escolares, pastorais, políticos e outros, o ano começa em Setembro), tenho ainda nos ouvidos a música e a letra do sonho de Martin Luther King, dito em Washington há 46 anos, em 28 de Agosto de 1963, perante 250 mil pessoas, no final de uma grande marcha cívica pelos mais belos ideais do ser humano: a igualdade, a liberdade, a fraternidade. Não posso também deixar de ter diante de mim o sonho corajoso de Sérgio Vieira de Melo, que um atentado vitimou em Bagdad, em 19 de Agosto de 2003, e de tantos homens e mulheres, a maioria anónimos, que lutaram e lutam por um mundo menos violento e mais fraterno.

 2. No seu belo sonho, Martin Luther King ousava antever a América e todos os povos da terra sentados à volta da mesa comum da fraternidade. Porém, no dia 4 de Abril de 1968, uma bala atravessou Martin Luther King. Mas não atravessou o sonho, que já, entretanto, ardia em muitos corações benevolentes. O mesmo se diga de Sérgio Vieira de Melo e de todos os homens e mulheres de boa vontade.

 3. O sonho continua certamente. Mas as primeiras páginas deste século XXI, escritas em doses elevadas, letais, de ódios e vinganças, trouxeram à tona o que de pior há no ser humano, e constituem uma forte machadada no sonho da fraternidade.

 4. Temos de ser pacientes e persistentes. Um sonho assim sempre ardeu no coração humano, mas também sempre foi fustigado pelos tiranos de ontem e de hoje que, com tempestades de ódios e de armas, pretendem impor aos outros o pesadelo dos seus interesses.

 5. Nesse sentido, o livro de Daniel apresenta, no Capítulo 2, o sonho-pesadelo paradigmático do tirano Nabucodonosor, que em sonhos viu uma estátua enorme, que tinha a cabeça de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coixas de bronze, as pernas de ferro e os pés de barro. E depois de ter a visão desta estátua imponente e rica, mas pesada e imóvel como todas as estátuas, viu logo uma pedrinha que, deslocando-se da montanha e rebolando, veio embater contra os pés de barro da imponente estátua. O resultado foi que logo se pulverizaram os seus pés de barro, pulverizando-se de seguida, para espanto medonho do tirano Nabucodonosor, também o ferro, o bronze, a prata e o ouro.

 6. O tirano percebeu que era ele próprio que se estava a desmoronar. E já nem conseguia dormir durante a noite com um tal pesadelo na cabeça. O profeta confirmou que todos os ódios e prepotências se desmoronam. É só uma questão de dias. Não duram sempre os luxos e os lucros, os ódios, o poder e a ganância. Virá sempre um dia em que serão declarados inúteis os instrumentos de guerra e de poder. Como igualmente inúteis são (nós é que pensamos pouco nisso) a nossa pretensa importância, os títulos que ostentamos, o ouro e a prata que amealhamos. E, por isso, diz outra vez o profeta, «das espadas forjarão arados, e das lanças tesouras para podar» (Miqueias 4,3). E que será feito dos dólares e dos euros?

 7. Este sonho-pesadelo representa bem esta sociedade rica e pesada, luxuosa e luxuriosa, com a cabeça cheia de megalomanias de poder e de ganância, e que aperta nos seus braços prateados o mais que pode. O bronze e o ferro retratam as armaduras com que nos equipamos para as nossas pequenas-grandes guerras de todos os dias.

 8. Oh quanto vale uma cabeça cheia de bom senso, um coração de carne, um ventre de misericórdia! Não pensamos suficientemente nisso, mas chega a ser de uma comicidade extrema a seriedade com que nos agarramos às coisas deste mundo! Se, como diz o poeta, «o sonho comanda a vida», então, entre sonho e sonho, escolhe o sonho certo, meu irmão sentado à porta de Setembro!

 António Couto


O IMPÉRIO DE NARCISO OU A CENA TODA PARA MIM E EU SEMPRE EM CENA

Agosto 20, 2009

 

1. Sim, Don Juan morreu. E o nosso tempo está agora marcado pela figura muito mais preocupante de Narciso. Segundo a mitologia grega, Narciso, filho do rio Céfiso e da ninfa Liríope (lírio), era um jovem de tão extraordinária beleza, que todas as ninfas se apaixonavam por ele. Ele, porém, não atendia ao amor de nenhuma delas. Foi assim que a ninfa Eco, por não o conseguir seduzir, morreu de fome e inanição, ficando transformada numa pedra, contra a qual esbarram os sons que emitimos de que ouvimos um simples eco. Tirésias, o adivinho cego, tinha predito que Narciso viveria enquanto não visse a sua própria imagem. E foi assim que Narciso, um dia em que voltava da caça e se debruçou sobre um poço de águas límpidas para beber, ficou de tal modo apaixonado pela sua própria imagem reflectida na água, que se consumiu de amor por si próprio, acabando também ele por morrer ali de inanição, ficando transformado na flor que tem o seu nome.

 2. Mas não vamos agora entrar pelo lado meramente psicológico ou psiquiátrico de Narciso, mas pela própria cultura de Narciso que gerou esta «era do vazio» ou da «globalização», também conhecida como «civilização das redes», que é a era da internet, do telemóvel, dos hipermercados, da proliferação de rádios, televisões, reality shows, telenovelas da vida real.

 3. É assim que a internet e o telemóvel nos prendem e fazem de nós verdadeiros senhores e senhoras; é assim que, ao entrar no hipermercado, nós somos habilmente estimulados a ocupar o centro da cena: ao proporem-nos coisas demais (tanta coisa por onde escolher), colocam-nos habilmente na situação de decidir mais, de sermos mais nós, de nos darmos mais importância. É natural que nos sintamos lá bem.

 4. E por detrás da proliferação de rádios e televisões, big brothers e toda a espécie de «directos» que permanentemente reclamam a nossa opinião via SMS ou outra, está a habilidade de nos transformarem todos em actores e espectadores de nós mesmos – muitas vezes o destinador torna-se o seu principal destinatário –, e em que o que importa é o próprio acto de comunicação e não a natureza ou o conteúdo do que se comunica. Cria-se assim a «consciência telespectadora», captada por tudo e por nada, ao mesmo tempo excitada e indiferente e vazia, e habilmente estimulada a tornar-se interveniente e interactiva, emitindo opiniões que somos sempre habilmente levados a pensar que podem ser geniais, decisivas e premiadas!

 5. Na escola de hoje, a consciência do aluno é em tudo análoga à «consciência telespectadora», programada para a dispersão e não para a concentração, para o temporário e não para o voluntário. O aluno não é mais um sujeito passivo, a quem o professor (antiquado) debita os conteúdos adequados. É, antes, sujeito activo e interactivo, que deve ser habilmente estimulado (e esta é agora a tarefa do professor competente) a escrever ele mesmo o livro com os conteúdos que deve aprender. É por isso que o livro, dito verdadeiramente pós-moderno, já não tem texto nem autor. Contém apenas as notas de rodapé, e, no corpo da página, à maneira de texto, as chamadas de nota: «1, 2, 3, 4, 5…». A ideia é clara: entrámos no tempo da literatura interactiva, em que o livro não vem já escrito, mas é para escrever, reescrever, completar… pelo leitor.

 6. Nesta «era do vazio» (Gilles Lipovetsky) e do «fragmento» (Jean-François Lyotard), nesta «modernidade líquida» (Zygmunt Bauman), é o mundo do «eu» que sai vitorioso, e tudo se traduz em zelar pela própria saúde, beleza e forma física, preservar o poder económico ou a imagem dele, perder os complexos, esperar que chegue o fim-de-semana ou as férias. Eu debruçado sobre mim mesmo, fascinado pela minha imagem por mim fabricada (é o chamado «amor curvus», com que na Idade Média se designava o pecado!). Uma vaga de apatia assola as instituições, desde a família, à escola, à política, à igreja. Narciso impera seduzido pelo seu próprio ídolo. Mal nos apercebemos disto, tão ocupado anda cada um de nós consigo mesmo e a sua imagem.

 António Couto