A CUMPLICIDADE DO SORRISO

Dezembro 3, 2009

 

1. Amigo FRANCISCO, hoje é o teu DIA, a tua FESTA. Deixa que me alegre contigo, e que peça a tua LUZ de Mestre e Padroeiro para esta Europa rica, ensonada, atracada, sem mar, sem barco, sem farol e sem ideais.

2. S. Francisco Xavier, proclamado «Padroeiro Universal das Missões» (Pio X) e apontado como «Apóstolo mundial dos tempos modernos» (João Paulo II), de quem celebrámos há três anos os quinhentos anos do seu nascimento (07.04.1506 – 07.04.2006), postou-se, na esteira de Paulo, no humilde e fiel seguimento de Cristo, vivendo de Cristo (Fl 1,21), impelido pelo AMOR de Cristo (2 Cor 5,14) e pelo SIM de Cristo – que «não foi SIM e não, mas unicamente SIM» (2 Cor 1,19) –, testemunha da ALEGRIA nova de Cristo (Lc 10,21; 1 Pe 1,8) e cooperador dessa ALEGRIA (2 Cor 1,24).

3. Viveu apenas 46 anos sobre esta terra (07.04.1506 – 03.12.1552). 46 anos anos plenos de CRISTO, de AMOR e de ALEGRIA.

4. Partiu de Lisboa em 07 de Abril de 1541, dia em que completava 35 anos, para uma viagem de 20.000 km, rumo a Goa, onde desembarcou mais de um ano depois, em 06 de Maio de 1542, após paragem de quase meio ano (Setembro de 1541 até Fevereiro de 1542) na Ilha de Moçambique para o restabelecimento dos doentes, enquanto se esperava por ventos favoráveis à navegação.

5. Desde essa data até à sua morte, ocorrida na Ilha de Sanchoão, às portas da China, na madrugada do dia 03 de Dezembro de 1552, vão 10 anos e quase 07 meses de uma desmedida dedicação aos outros, sobretudo aos pobres e doentes, testemunhando com a sua vida humilde e dedicada a BONDADE, a PAZ e a ALEGRIA do EVANGELHO. o CRISTO «de la SONRISA», que muitas vezes contemplou Xavier e que muitas vezes Xavier contemplou.

6. Cumplicidade.  O Cristo daquele sorriso gravou-se no coração e nos lábios de Xavier, tomou conta dele, configurou-se nele, transvasou dele.

7. São, na verdade, muitas as testemunhas que descrevem Xavier «com a boca sempre cheia de riso e da graça de Deus» (Monumenta Xaveriana, tomo 2, Madrid, 1912, p. 291 e 306). É também de salientar a sua ilimitada CONFIANÇA em Deus, como transparece de uma sua carta, datada de 05 de Novembro de 1549, escrita de Kagoshima, no Japão, e dirigida aos seus companheiros de Goa:

 «Sei de uma pessoa a quem Deus concedeu muitas graças, que se ocupava muitas vezes, tanto nos perigos como fora deles, em pôr toda a sua ESPERANÇA e CONFIANÇA n’Ele, e o proveito que daí lhe adveio levaria muito tempo a descrever».

 8. Aquele «Sei de uma pessoa» lembra Paulo (2 Cor 12,2). Pôr toda a sua confiança em Deus é firmar-se em Deus, viver de Deus e desde Deus. A tanto nos desafia também a nós, hoje, o nosso «Padroeiro Universal das Missões».

9. E aquele SORRISO nos lábios do Crucificado e de Xavier é outro impressionante desafio para nós. Na verdade, que EVANGELHO podemos nós viver e testemunhar sem CRISTO, sem CONFIANÇA e ALEGRIA?

10. Obrigado, amigo Francisco. Celebrarei gozosamente a tua Festa. Mas confesso que me sentirei muito mais FELIZ quando a nossa Igreja viver com ALEGRIA essa PAIXÃO de AMOR que tu viveste pelo CRISTO e pelos teus IRMÃOS.

11. E se aprendêssemos todos essa tua cumplicidade com CRISTO?!

António Couto

Anúncios

A PRIORIDADE DA PASSIVIDADE E DA RECEPTIVIDADE

Dezembro 1, 2009

 

1. Pelo nascimento, escrevia Paul Ricoeur já em 1950, «fui posto no mundo de uma vez por todas e fui posto no ser antes de poder pôr voluntariamente algum acto […]. Eu sou sempre depois do meu nascimento». Trata-se de um dado iniludível: quando tomamos consciência de nós (o célebre cogito de Descartes), já temos um pai e uma mãe, já somos filhos. E ser filho, antes de implicar qualquer encargo ou função, significa reconhecer ter recebido a vida através de um acto que precedeu a nossa vontade. Temos atrás de nós uma origem e um nascimento que não tivemos ocasião de querer ou não querer: está fora do âmbito da nossa vontade. Nesse sentido, reconhecermo-nos como filhos, é descobrirmo-nos como recepção originária da vida proveniente de um amor (ou não) que nos precede.

 2. Muitas vezes, só quando somos seriamente abanados pela doença, é que tomamos consciência desta nossa condição passiva originária, dado que a doença mostra violentamente que o corpo precede a vontade e o desejo, sendo já dado antes que se possa querê-lo.

 3. A filósofa espanhola María Zambrano, que foi aluna de Ortega e de Zubiri, e que faleceu em Madrid em 1991, mostrou de maneira clara esta nossa passiva e receptiva condição originária inscrita na nossa própria fisiologia. Basta saber ler a simbologia inscrita nos nossos órgãos fundamentais, tais como o coração, os pulmões, o estômago, os intestinos, o cérebro. Todos sabemos que é o seu bom funcionamento que nos mantém vivos, mas tal funcionamento deriva do facto de serem cavos, ocos, receptivos. Claramente: se nada receberem, não funcionam. São passivos e receptivos antes de serem activos. A sua passividade e receptividade é mesmo condição necessária para a sua actividade.

 4. O que acabámos de mostrar contrasta de maneira séria e significativa com o estilo muito executivo, super-activo e super-produtivo do homem de hoje, sempre a correr e com horas marcadas para tudo. Se somos prioritariamente passividade e receptividade, é então fundamental – até para a saúde – adoptar um novo estilo de vida, marcado também e mesmo prioritariamente pela recepção [de si mesmo e do Outro/outro], meditação, oração, silêncio, tranquilidade, serenidade. Por outras palavras: é necessário viver mais na forma passiva e menos na activa.

 5. Neste sentido, a Bíblia dá-nos uma ajuda. De facto, as principais personagens aí apresentadas – como o «Messias» (mashîah), o «profeta» (nabî), o «príncipe» (nasî), o «consagrado» (nazîr), o «líder» (nagîd), o homem «bom» (hasîd), até o «pobre» (anî) – são pessoas que vivem na passiva, sempre dependentes de Deus e por conta de Deus, e não na activa e por conta própria. Gramaticalmente, os nomes hebraicos referidos são mesmo formas nominais passivas, chamadas qatîl.

 6. Temos necessariamente de continuar a aprender a ser homens, meu irmão sentado às portas de Dezembro, do frio e da neve, do lume a arder no coração, das crianças felizes, do sentido em brasa do Natal!

 António Couto