PARA NUNCA MAIS ESQUECER: MERCI SEIGNEUR!

Janeiro 31, 2010

 

1. Em 12 de Janeiro último, às 16h53, um violento sismo abalou o Haiti e abalou o coração do mundo, desencadeando por toda a parte uma gigantesca onda de solidariedade e compaixão.

 2. «Merci, Seigneur», [= «Obrigado, Senhor»], rezavam vozes jovens logo nos primeiros dias resgatadas dos escombros. Vozes saídas do milagre. Oração saída das entranhas.

 3. Naquela tarde do dia 12 de Janeiro, Ena Zizi, uma senhora de 69 anos, estava na missa quando viu a igreja cair-lhe em cima. Continuou a rezar, e, ao sétimo dia, chegou o auxílio. E Ena saiu a cantar de debaixo dos escombros. Contou uma socorrista mexicana: «Ela agarrou a minha mão com tanta força, que pensei que era Deus que me estava a tocar».

 4. «Deus ajudou-me», respondeu Kiki, aquele menino de sete anos, feliz, de sorriso largo e de braços abertos, quando lhe perguntaram: «Como conseguiste sobreviver sete dias debaixo dos escombros»?

 5. Isabel Jossaint, uma bebé de 15 dias, foi resgatada ao oitavo dia, quando já até os seus pais estavam conformados com a sua morte. Estava sossegada debaixo da mobília da casa e tinha passado metade da sua vida debaixo dos escombros. Disse o avô: «Todos sabiam que a menina estava morta, menos Deus!»

 6. Emmanuel Buso, um jovem de 21 anos, esteve soterrado nos escombros da sua casa durante dez dias. Foi bebendo a própria urina para não se desidratar. Deitado agora na cama do hospital, afirma: «Só estou aqui, porque Deus assim o quis».

 7. «Rezei a Deus», respondeu a menina, de 14 anos, resgatada catorze dias depois da catástrofe, quando lhe perguntaram: «O que fizeste durante este tempo todo?»

8. São histórias vivas, densas, encharcadas de dor, de Deus e de amor. Corações a bater, orações a arder, lições a doer para este mundo sonolento, insípido, amortalhado, esse sim soterrado nos escombros de um egocentrismo sem saída.

 9. Hoje, Domingo, o Apóstolo Paulo aponta-nos o AMOR como o CAMINHO HIPERBÓLICO (kath’ hyperbolèn hodón) (1 Coríntios 12,31), portanto, excessivo e belo e maravilhoso. E dirá na Carta aos Colossenses que o AMOR é o vínculo (sýndesmos) (Colossenses 3,14), portanto, o fio, o cíngulo, o cinto que aperta e ajusta as vestes e os corações. E a Carta aos Hebreus vai até ao ponto de nos exortar a estar atentos uns aos outros «até ao paroxismo do AMOR» (eis paroxysmòn agápês) (Hebreus 10,24).

 10. Tristemente célebre e tragicamente verdadeira é a retranscrição que George Orwell (1903-1950) fez do grande texto do «Hino ao Amor» que o Apóstolo Paulo nos deixou em 1 Coríntios 13, substituindo o AMOR pelo DINHEIRO. Escreveu assim George Orwell: «Ainda que falasse todas as línguas, se não tiver dinheiro, sou como um bronze que retine… Se não tiver dinheiro, nada sou… O dinheiro tudo crê, tudo espera, tudo suporta…».

 11. Não anda longe de Orwell esta nossa sociedade. Mas os pobres, que não têm dinheiro, continuam a dar-nos lições de amor. Como estas vindas do Haiti. Merci, Seigneur!

 António Couto

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IMPOSSÍVEL TRAVAR O CAMINHO DO AMOR

Janeiro 29, 2010

 

1. O texto do Evangelho de Lucas proclamado e ouvido no Domingo IV do Tempo Comum (Lucas 4,21-30) retoma e continua o «discurso programático» de Jesus na Sinagoga de Nazaré, iniciado no Domingo III. Neste 1.º SÁBADO da sua vida pública, Jesus entrou na Sinagoga, LEVANTOU-SE para fazer a leitura litúrgica dos Profetas (Isaías) e SENTOU-SE para fazer a instrução com base na Lei (Deuteronómio): «HOJE foi cumprida (passivo divino!) esta Escritura nos vossos ouvidos».

 2. O que Jesus faz é o procedimento tradicional do judeu piedoso em dia de SÁBADO, e as palavras que diz são também antigas. Dizendo as Palavras da Escritura e nada acrescentando de novo, Jesus assume-se como «FILHO DA ESCRITURA». As gentes de Nazaré olham, num primeiro momento, este Jesus com apreço e admiração, mas rapidamente passam a uma atitude hostil para com ele, apontando-lhe outra «paternidade»: «Não é este o “FILHO DE JOSÉ”?»; «o que ouvimos dizer que FIZESTE em Cafarnaum, FAZ também aqui na TUA PÁTRIA».

 3. Mas, neste SÁBADO INICIAL, Jesus NÃO FAZ nada de semelhante àquilo que fará nos outros SÁBADOS. Este SÁBADO INICIAL reclama aquele SÁBADO FINAL em que Jesus também NADA FAZ: passá-lo-á inteiramente deitado no sepulcro! E a própria Paixão é exactamente o contrário de uma manifestação de poder: é antes passividade e impotência de Jesus! Ele, que tinha salvado outros, não se salvará a si mesmo! Mas neste SÁBADO INICIAL Jesus continua também a não dizer nada de novo. Cita dois provérbios: «Médico, cura-te a ti mesmo» e «nenhum profeta é bem aceite na sua pátria», sendo que os provérbios são património de todos e de ninguém. Reclama depois a obra de dois Profetas antigos, Elias e Eliseu, para mostrar que também eles NADA FIZERAM para as gentes da SUA PÁTRIA: Elias sai da sua pátria para socorrer uma viúva de Sídon, e Eliseu cura o sírio Naamã, um estrangeiro que o vem procurar na sua pátria. Também Jesus saltará fronteiras e atenderá estrangeiros. Bem ao contrário, Israel e as gentes de Nazaré: cegos, não acolheram a ESCRITURA de ontem como Palavra para eles «HOJE», do mesmo modo que no FILHO DE JOSÉ não souberam ver o Profeta, aquele que, como a Escritura, traz a Palavra. Quebram dessa maneira o laço de união entre o FILHO e a PÁTRIA, terra dos pais. E para vincar melhor a rejeição desta herança que é o seu FILHO, expulsam-no para fora da cidade. Pior ainda, tramam a sua morte: matando o FILHO, renegam a própria paternidade, perdendo assim a sua própria identidade. Perdendo-se, portanto. Da admiração inicial à rejeição final.

 4. Não surpreende, portanto, que esta herança, rejeitada pela própria família, seja distribuída a outros, aos de fora. Este SÁBADO INICIAL contém em gérmen todos os elementos que o relato do Evangelho vai mostrar: desde logo o SÁBADO FINAL, mas também este FILHO DA ESCRITURA, que abre e lê abundantemente a Escritura aos nossos olhos para que ela se cumpra como Palavra nos nossos ouvidos, tornando-nos FILHOS DA PALAVRA. A oposição dos habitantes de Nazaré não foi suficiente para travar a história de Jesus, como também não o conseguiram fazer aqueles que o crucificaram e o continuam HOJE a crucificar. Mas Ele continua HOJE a passar pelo meio de nós. Resta saber que atitude assumimos nós HOJE. Retê-lo não é possível. Só podemos segui-lo!

5. A citação dos provérbios não é inocente. Mostra Jesus como PROFETA. De facto, ao citar o provérbio «Médico, cura-te a ti mesmo», Jesus está a dizer o que ainda não foi dito, mas será dito no cenário da Paixão: «Salvou os outros, que se salve a si mesmo!» (Lucas 23,35), dirá o povo;  «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,37), dizem os soldados. E ao dizer: «Nenhum Profeta é bem recebido na sua pátria», Jesus está a apresentar-se como Profeta verdadeiro. A Palavra profética faz o caminho, e não é o caminho que faz a Palavra. Na verdade, a perseguição começará logo ali e será uma constante ao longo do seu caminho. É esse caminho profético que ele faz e segue, passando pelo meio deles.

6. Somos HOJE também colocados perante o relato abreviado da vocação profética de Jeremias (1,4-5 e 17-19). O relato abre com a chamada «fórmula de acontecimento» [= «Veio sobre mim a Palavra do Senhor»], que marca um início novo na vida do Profeta, e fecha com a chamada «fórmula de conforto» ou de «assistência» [= «Eu estou contigo»], pela qual Deus garante ao seu Profeta apoio permanente. A missão de Jeremias destina-se às nações pagãs, mas também a Judá, seus reis, sacerdotes e todo o povo. A todos Jeremias deve falar a Palavra do Senhor. Os versículos cortados, por sinal os mais belos, definem a missão de Jeremias como uma missão difícil, marcada por quatro verbos negativos [= arrancar, destruir, exterminar, demolir], a que só depois se seguem dois positivos [= construir, plantar]. Nesta altura, com Jeremias consciente da difícil missão que lhe foi confiada, estabelece-se um dos mais belos e significativos diálogos de toda a Escritura. A Palavra do Senhor vem sobre Jeremias (nova «fórmula de acontecimento») para lhe perguntar: «O que vês, Jeremias?», a que o Profeta responde com a belíssima expressão: «Vejo um ramo de amendoeira!» «Viste bem, Jeremias», confirma o Senhor. A amendoeira é uma das poucas árvores que floresce em pleno inverno. Jeremias vê bem, de forma penetrante que, na invernia da sua difícil missão, nasce já a flor da esperança, que é sempre a última palavra de Deus. E é essa flor-palavra, palavra em flor, que o Profeta vê-ouve-diz sempre, mesmo no meio da tempestade! Extraordinário desafio para nós que estamos ainda com os olhos turvos pelo violento terramoto no Haiti.

 7. Continuamos também, neste Domingo IV do Tempo Comum, com a Leitura semi-contínua do «Apóstolo». Ficamos assim perante o famoso «Hino à caridade» (1 Coríntios 12,31-13,13), uma das páginas mais extraordinárias do epistolário paulino. A uma comunidade em que os membros correm por conta própria, na vã tentativa de se posicionarem à frente uns dos outros, o Apóstolo Paulo aponta o AMOR (agápê) como caminho, testemunho e meta a atingir. É que mesmo que eu possua todos os bens e todos os dons, se não tiver o AMOR, que é o testemunho a transportar e a transmitir, posso estar a correr em vão ou ter já corrido em vão. É que o que é mesmo necessário viver é o AMOR.

 António Couto


ASSEMBLEIA DE ALEGRIA E DE ESPERANÇA (DOMINGO III TEMPO COMUM)

Janeiro 21, 2010

 

1. S. Lucas é o Evangelista do corrente Ano Litúrgico. E embora já tenha sido proclamado e já tenhamos escutado diversos episódios do Evangelho de S. Lucas nos quatro Domingos do Advento, Natal (1.ª e 2.ª missas), Festa da Sagrada Família, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, e Festa do Baptismo do Senhor, é só agora que vamos começar a proclamá-lo e a escutá-lo em leitura contínua. Importa, por isso, inserir neste momento um esquema deste Evangelho, para podermos compreender melhor o ritmo da sua leitura:

 1,1-4 = Prólogo histórico (A)

         1,5-2,52 = Ev da Infância (B)

                     3,1-9,50 = Ministério na Galileia (C)

                                 9,51-19,27 = Partida/subida para Jerusalém (D)

                     19,28-21,36 = Ministério em Jerusalém (C’)

         22,1-23,56 = Paixão – Morte – Sepultura (B’)

24,1-53 = Epílogo: Ressurreição – Aparições – Promessa do Espírito (A’) 

 2. O Evangelho deste Domingo III faz a acostagem do «prólogo» (1,1-4) ao «discurso programático» de Jesus na sinagoga de Nazaré (4,14-21), saltando a pregação e prisão de João Baptista (3,1-20), o Baptismo de Jesus e genealogia (3,21-38), e a sua tentação no deserto, de que sai vitorioso (4,1-13).

 3. O prólogo (Lucas 1,1-4) é importante para se compreender a solidez de todo o Evangelho. Lucas, da segunda geração cristã, não fez obra por conta própria. Faz questão de dizer que escreveu de forma ordenada e com acribia e controlando desde o começo os factos (prágmata) de Jesus, aqueles que foram cumpridos (passivo divino!) entre nós, e que já foram recebidos com carinho na mão (epicheiréô) e postos em narração (diêgêsis) por muitos, conforme nos foram transmitidos (paradídômi) por aqueles que foram testemunhas oculares (autóptai) desde o princípio (ap’ archês). Factos de Jesus, testemunhas oculares, transmissão-recepção mão na mão, narração, controlo desde as fontes. Lucas escreve para que o seu Leitor tenha um conhecimento pofundo e pessoal (epiginôskô) dos factos de Jesus, sobre os quais se faz a instrução da catequese (katêchéô), que forma a nossa consciência cristã.

 4. O episódio de Nazaré (4,14-21) é importante. Antes de mais é dito que Jesus procede na força do Espírito, inciso próprio de Lucas, que salienta a plena identificação somática de Jesus com o Espírito. Já antes, desde o Baptismo, Jesus é dito plêrês [= cheio] do Espírito (4,1), e plêrês indica, não a passividade de quem está cheio, mas a condição natural, activa, de quem possui a plenitude do Espírito Santo. Sempre na força do Espírito, entrou em dia de sábado na sinagoga, e LEVANTOU-SE (anístêmi) para fazer a leitura litúrgica (anaginôskô).

 5. Em João 7,15, ao verem Jesus a ensinar no Templo, os judeus ficam admirados e interrogam-se: «Como é que ele entende de letras sem ter estudado?» Lucas 4,16 informa-nos que sabia pelo menos ler! Jesus lê um texto composto de Isaías 61,1-3; 58,1-11; 35,1-3, mas Lucas compendia-o na citação de Is 61,1-2.

 6. Os conteúdos são decisivos, e Jesus aplica-os soberanamente a si mesmo, com a consciência de ser o Realizador da Promessa antiga: o Espírito do Senhor sobre mim porque me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me e eis-me a anunciar (kêrýssô) aos prisioneiros a «remissão» (áphesis) [= amnistia], aos cegos o retorno da vista, a restituir aos oprimidos a liberdade, a anunciar (kêrýssô) o ano da graça [= jubileu] do Senhor. Trata-se de funções reais, sacerdotais e proféticas. Actos 10,38 confirmará que Jesus, ungido com o Espírito, passou cumprindo todas estas funções.

 7. Terminada a leitura, Jesus SENTOU-SE para ensinar, para fazer a tradicional homilia. E o narrador informa-nos, de maneira admirável, que «Os olhos de todos estavam fixos nele!», apontando já para o grande ensinamento da Cruz, quando Jesus diz: «Quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a mim» (João 12,32), anotando depois o narrador: «Olharão para Aquele que transpassaram» (João 19,37). Em Nazaré, Jesus começou assim a sua homilia: «HOJE foi cumprida (passivo divino!) esta Escritura nos vossos ouvidos».

 8. O texto, muito denso, bem diferente das débeis versões oficiais, salienta a força da Palavra de Deus quando é objecto de escuta qualificada. Este «HOJE» (sêmeron) tornou-se clássico nas homilias dos Padres gregos. Neste seu primeiro ensinamento, Jesus como que não diz nada de novo! Na sua boca estão só palavras antigas! Excelente maneira de Jesus se apresentar como «Filho da Escritura», Leitor e conhecedor da Escritura: lê os Profetas (Isaías) e aponta para a Lei (Deuteronómio), o Livro do «Hoje» (70 vezes) e do «Escuta, Israel!».

 9. Em perfeita consonância com o Evangelho (Assembleia reunida, Leitura da Palavra, olhos fixos), aí está o belo texto de Neemias 8,2-10. Grande texto do tardio pós-exílio que mostra a Assembleia, composta por homens, mulheres e crianças desde a idade da razão, reunida, de pé, no 1.º Dia do Ano (Dia de Ano Novo), para escutar com atenção e compreender até às lágrimas a Palavra do Senhor. Esdras, o sacerdote, está também de pé num estrado de madeira feito de propósito, e todos levantam os olhos para ele. A liturgia começa, como é usual, com a «bênção sacerdotal» (Números 6,23-26), a que o povo responde «Amen» com as mãos levantadas, gesto fundamental que indica plena compreensão e total adesão.

 10. O Novo Testamento mostrará o novo Sacerdote, que é Cristo, no novo estrado de madeira, que é a Cruz, novo Livro da Escritura de Deus, onde S. Paulo lê para nós: «Jesus Cristo exposto por escrito (proegráphê), crucificado (estaurôménos» (Gálatas 3,1), que atrai, como já atrás referimos, os olhos de todos (João 19,37).

 11. Em pleno Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos, são oportuníssimas as palavras que o Apóstolo Paulo, Apóstolo da Unidade, dirige aos cristãos de Corinto (1 Coríntios 12,12-30) e a nós também. Diz ele que as nossas diferenças não são uma praga, mas uma graça para partilhar com alegria em vista da utilidade comum. Não nos podemos, portanto, habituar à separação! Temos de compreender o escândalo que constitui a separação (também das Igrejas Cristãs): qual de nós aceitaria de bom grado que o seu próprio corpo fosse amputado? Então como podemos aceitar que o seja o Corpo de Cristo?

 12. Neste Domingo, é a Assembleia unida porque reunida pela Palavra que está no centro das atenções: é a Assembleia de Nazaré, é a Assembleia que nos mostra o Livro de Neemias, é também a nossa Assembleia Dominical, que HOJE se reúne à volta do Senhor Ressuscitado, nossa Alegria e nossa Esperança. «Não abandonemos, então, a nossa Assembleia, como alguns costumam fazer», oportuníssima exortação da Carta aos Hebreus (10,25).

 13. Refere, a propósito, um antigo conto judaico: «Vira e revira a Palavra de Deus, porque nela está tudo. Contempla-a, envelhece e consome-te nela. Não te afastes dela, porque não há coisa melhor do que ela».

 António Couto


O EVANGELHO DA ALEGRIA

Janeiro 20, 2010

 

1. O Evangelho do Ano Litúrgico que estamos a celebrar (Ano C) é o Evangelho de Lucas. E o Evangelho de Lucas é atravessado, entre outras estradas importantes, como a abertura Missionária a todos os povos e o contacto de Jesus com todas as classes de pessoas (pobres, ricos, doentes, pecadores, idosos, crianças, mulheres, viúvas…), o Hoje, a Bondade, a Graça (termo que, nos Evangelhos Sinópticos, só Lucas usa), também pela estrada ou auto-estrada da Alegria. Nenhum outro Evangelho dá tanto espaço à Alegria e desenha tantos rostos felizes e tantas ocasiões de Alegria.

 2. Desde logo, o nascimento de João Baptista será ocasião de ALEGRIA e REGOZIJO (1,14), e foi ocasião para os vizinhos e parentes se ALEGRAREM com Isabel, sua mãe (1,58). Também Maria ouve a saudação de Gabriel, que soa: «ALEGRA-TE, cheia de graça, o Senhor está contigo!» (1,28). E quando Maria saúda Isabel, esta exclama que o menino (João Baptista) dançou de REGOZIJO no seu ventre (1,44). E no Magnificat, Maria canta o seu REGOZIJO em Deus seu Salvador (1,47). E aos pastores o anjo anuncia uma grande ALEGRIA, para eles e para todo o povo (2,10).

 3. E aos bem-aventurados, Jesus declara: «ALEGRAI-VOS naquele dia, porque será grande no céu a vossa recompensa» (6,23). Também os 72, enviados dois a dois, regressaram com ALEGRIA (10,17), e ouvem a recomendação de Jesus para não se ALEGRAREM porque os espíritos se lhes submeteram, mas para se ALEGRAREM porque os seus nomes estavam escritos nos céus (10,20). E informa-nos o narrador que nessa mesma hora Jesus se REGOZIJOU no Espírito Santo, e exclamou: «Eu te bendigo, ó Pai…» (10,21). E um pouco mais à frente, é outra vez o narrador que nos informa que toda a gente se ALEGRAVA com as maravilhas que Jesus realizava (13,17).

 4. A parábola chamada do «Filho pródigo» ou do «Pai das misericórdias» é, toda ela, um hino à alegria. Verificação: tendo encontrado a ovelha perdida, o pastor põe-na aos ombros, ALEGRANDO-SE, e convida os amigos e os vizinhos a ALEGRAREM-SE com ele (15,5-6), e o narrador acrescenta logo que haverá mais ALEGRIA no céu por um só pecador que se arrepende… (15,7). Do mesmo modo, a mulher que encontra a sua dracma perdida, chama as amigas e as vizinhas e convida-as a ALEGRAREM-SE com ela (15,9), dando a Jesus a oportunidade para dizer que há ALEGRIA para os anjos de Deus por um só pecador que se arrepende (15,10). Pouco depois, e na mesma linha de ideias, o encontro do filho perdido dá oportunidade ao pai para FAZER FESTA (15,23-24), enquanto o filho que sempre esteve em casa critica o seu pai por nunca lhe ter dado oportunidade de FAZER FESTA (15,29), insistindo o pai que agora, com o encontro do filho perdido era mesmo necessário FAZER FESTA e ALEGRAR-SE (15,32).

 5. Um pouco adiante, é Zaqueu que desce depressa do sicómoro, para receber Jesus com ALEGRIA (19,6). E pouco depois, quando Jesus se prepara para entrar triunfalmente na sua cidade de Jerusalém, o narrador diz-nos que toda a multidão dos discípulos começou a louvar a Deus com ALEGRIA por todos os prodígios que tinham visto (19,37).

 6. Finalmente, quando Jesus Ressuscitado se faz ver aos seus discípulos, o narrador diz-nos que, por causa da ALEGRIA irreprimível, nem conseguiam acreditar (24,41), para, pouco depois, com a Ascensão de Jesus, voltarem para Jerusalém com grande ALEGRIA (24,52).

 7. Devemos, portanto, ficar atentos e preparados, uma vez que a leitura do Evangelho de Lucas fará abrir, mesmo ali à nossa porta, uma auto-estrada de ALEGRIA. Por outras palavras, neste Ano Litúrgico (Ano C), em que se lê o Evangelho de Lucas, todos os caminhos vão dar à ALEGRIA. ALEGRAI-VOS, portanto, sempre no Senhor! (Filipenses 3,1)

 António Couto


COMO NAS BODAS DE CANÁ

Janeiro 16, 2010

 

1. A Igreja Una e Santa é hoje de novo convidada e, por isso, se reúne (é reunida) num banquete de espanto e de alegria, para saborear o Vinho Bom e Último, cuidadosamente guardado até Agora, mas Agora oferecido pelo Esposo verdadeiro, que é Jesus (João 2,1-11). O segredo deste vinho Bom e Último é conhecido dos que servem, mas o chefe-de-mesa «não sabia DE ONDE (póthen) era».

 2. E, na verdade, aquele saber ou não ‘DE ONDE’ (póthen) era, aqui anotado pelo narrador é a questão fundamental que atravessa o IV Evangelho, e aponta permanentemente para Deus. Provocação para uma sociedade indiferente, com saber, mas sem sabor, sem frio e sem calor, sem calafrios, sem Deus. E, todavia, já Nietzsche o dizia: «Ao homem que te pede lume para acender o cigarro,/ se o deixares falar,/ dez minutos depois pedir-te-á Deus». Entremos nesta auto-estrada repleta de sinalizações para Deus:

 3. Em João 1,48, é Natanael que, atónito, pergunta a Jesus «‘DE ONDE’ (póthen) me conheces?» Em João 2,9, é o narrador que nos informa que o chefe-de-mesa «não sabia ‘DE ONDE’ (póthen) era» a água feita vinho. Em João 3,8, é Nicodemos que não sabe, acerca do Espírito, «‘DE ONDE’ (póthen) vem nem para onde vai». Em João 4,11, é a mulher samaritana que não sabe ‘DE ONDE’ (póthen) tira Jesus a água viva. Em João 7,27, as autoridades de Jerusalém confirmam que, «quando vier o Cristo, ninguém saberá ‘DE ONDE’ (póthen) Ele é». Em João 8,14, Jesus afirma, em polémica com os fariseus: «Eu sei ‘DE ONDE’ (póthen) venho; vós, porém, não sabeis ‘DE ONDE’ (póthen) venho». Em João 9,29, na cena da cura do cego de nascença, os fariseus afirmam acerca de Jesus: «Esse não sabemos ‘DE ONDE’ (póthen) é», ao que, no versículo seguinte (João 9,30), com viva ironia, o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso: vós não sabeis ‘DE ONDE’ (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!». Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a questão posta por Pilatos em João 19,9: «‘DE ONDE’ (póthen) és Tu?».

 4. Fica claro, também no nosso texto, que não se trata de um conhecimento de saber, mas de servir, não de poder, mas de amor, de atenção premurosa de mãe e serva. «Não têm vinho!», é uma observação de mãe atenta e de serva feliz, que está ali para amar e servir! «O que há entre mim e ti, mulher?» é muitas vezes vista como uma resposta ríspida de Jesus à sua mãe. É uma daquelas frases que pode assumir duas valências opostas, conforme o tom com que é dita. Tanto pode ser uma resposta ríspida e de ruptura, como pode ser uma resposta de grande deferência e carinho. É óbvio que aqui é uma resposta de grande deferência e terno amor filial. Como se Jesus dissesse: «Mulher, grande mulher, mulher messiânica, que atravessa em filigrana a Escritura Santa, que trouxeste até aqui a Esperança de um povo, porque precisas de mo pedir? Tu bem sabes que Eu o faço, e é já». E a mãe de Jesus (nunca chamada Maria no IV Evangelho) entendeu bem esta resposta. Sinal disso é que diz para os servos: «Fazei tudo o que Ele vos disser!»

 5. Como Jesus dirá mais tarde – e diz hoje para nós – também no contexto de um banquete (a Eucaristia) em que somos nós os convidados: – «Fazei isto em memória de Mim!»

 6. O banquete novo, Bom e Último do Reino de Deus, com o Vinho Bom e Último, até agora guardado na esperança, é agora cuidadosamente servido. Que saber e sabor é o nosso? Sabemos e saboreamos a Alegria do Banquete nupcial? Servimos para servir este Amor, esta Alegria? É que é este o «terceiro Dia!» (João 2,1), que agrafa esta Alegria à Alegria nova da Ressurreição ao «terceiro Dia», «sinal» para a Glória e para a Fé (João 2,11).

 7. E aí estão também os extraordinários acordes musicais de Isaías 62,1-5, que cantam Jerusalém personificada, como esposa amada, Enlevo e Alegria de Deus. Pouco antes, em Isaías 60,1-4, Jerusalém tinha sido cantada como mãe. Aí está o júbilo da cidade esposa e mãe: esposa de Deus e mãe dos filhos de Deus.

 8. E o Apóstolo Paulo (1 Coríntios 12,4-11) continua a trautear esta intensa e imensa melodia, vinda, pelos vistos, já lá muito de trás. Mas é o Espírito, diz ele, que sopra em todos nós e nos enche de Amor e de Alegria. E todos reunidos nesta Igreja Amada, Esposa e Mãe, plenificada com tantos dons de Deus, cantamos. É, na verdade, forçoso (com a força do Espírito) que juntemos as nossas vozes todas. Única maneira de o cântico ser novo! A letra pode ser a que está escrita no Salmo 96(95), ou no pergaminho e pauta musical do nosso coração em festa.

 9. Pegou depois numa criança, num pedaço de pão e numa taça. Levantou os olhos e as mãos onde nitidamente pulsava um coração. E ergueu um brinde ao céu. Baixou depois os olhos e as mãos, ungidos já para a dádiva suprema. E ardentemente desejou o vinho novo do reino a chegar. Requisitou, por isso, para isso, o coração, as mãos, a boca, de quantos o estavam a escutar. E antes de partir e de ficar, definitivamente Deus Connosco, abriu ainda à multidão novos caminhos, diurnos, matutinos: «Já sei que não sabeis pedir o pão; tereis de aprender com os meninos».

 10. «Traz as tuas mãos pequenas e abertas, onde caiba só o coração. Sabes? O coração é uma cidade. Ou se preferes: o coração é a última cidade. Ou ainda: no coração começa a liberdade. Ou se preferes: no coração começa a tempestade».

 11. A multidão levou as mãos à boca, ao coração. Restaram doze cestos de palavras. Oh música divina tão humana!

 António Couto


FESTA DO BAPTISMO DO SENHOR

Janeiro 8, 2010

 

1. Passado o Advento e as Festas Natalícias, estamos agora no umbral do chamado «Tempo Comum» do Ano Litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um «Tempo secundário», mas fundamental na vida celebrativa da Igreja Una e Santa. Na verdade, ao longo deste «Tempo Comum», Domingo após Domingo, a Igreja Una e Santa, Baptizada e Confirmada, Esposa Amada de Cristo, é chamada a contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Baptismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição.

 2. Esta apresentação só é possível porque, em cada um dos Anos Litúrgicos, é proclamado, Domingo após Domingo, praticamente em lição contínua, um Evangelho inteiro. Neste Ano C, é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho de Lucas, que tem uma vincada identidade e personalidade missionária, mas que é apresentado ainda como sendo o Evangelho do Espírito Santo, o Evangelho da Oração, o Evangelho da Graça (único dos Evangelhos Sinópticos a empregar este termo) e da Alegria, e o Evangelho onde Jesus «visita» e se encontra HOJE (8 vezes no Evangelho de Lucas) com o mais alargado leque de pessoas: pobres, ricos, pecadores, doentes, idosos, mulheres, viúvas, crianças…

  3. O Primeiro Domingo do «Tempo Comum» coloca então diante de nós o episódio do Baptismo de Jesus no Jordão (Lucas 3,15-22).

 4. Aqui ficam algumas notas características deste episódio de Lucas:

A) Neste dealbar da vida pública de Jesus, é dito que todo o povo está em febril expectativa e se pergunta se João não será o Messias esperado.

B) João responde claramente que não é o Messias, mas aquele que prepara a Vinda do Messias, reunindo o povo e voltando-o para o Senhor, cumprindo quanto disse o Anjo a Zacarias: «fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais (…), para preparar para o Senhor um povo pronto a recebê-lo» (Lucas 1,17; cf. Malaquias 3,24 acerca de Elias).

C) Cumprida esta sua missão, João sai de cena, pois é metido na prisão por Herodes (Antipas) (Lucas 3,19-20), não estando, portanto, presente na cena do Baptismo de Jesus.

D) Em Lucas, João não entra nas praias do Novo Testamento («A Lei e os Profetas até João; daí para a frente, é evangelizado o Reino de Deus» (Lucas 16,16). Por isso, e ao contrário do que sucede em Mateus e Marcos, que dão a notícia da prisão de João depois do Baptismo de Jesus (Mateus 4,12; Marcos 1,14), Lucas fá-lo prender antes do Baptismo de Jesus, para que seja o Espírito Santo a baptizar Jesus.

E) O narrador faz-nos ver outra vez o povo todo reunido e baptizado, antes de nos pôr a todos a contemplar a primeira acção de Jesus baptizado com o Espírito: Jesus em ORAÇÃO (tema caro e, neste contexto, exclusivo de Lucas).

F) O narrador desenha logo a seguir uma verdadeira «coreografia celeste»: o céu aberto, o Espírito Santo que desce como uma pomba (tempo novo), uma voz vinda do céu, isto é, de Deus, declarando, de acordo com o Salmo 102,7: «Tu és o meu Filho, o Amado, em Ti pus o meu enlevo» (Lucas 3,21-22).

 5. A partir do Baptismo de Jesus no Jordão, é missão da Igreja Una e Santa, toda Baptizada e Confirmada, viver esta intimidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e seguir o seu Senhor, passo a passo, ao longo do inteiro Ano Litúrgico, para ver bem como faz Jesus, o Filho Amado, Baptizado com o Espírito Santo. O que faz Jesus e como faz Jesus, é quanto devemos fazer nós também, dado que também nós fomos Baptizados com o Espírito Santo e elevados à condição de filhos adoptivos (Gálatas 4,4-7).

 6. Pelos motivos expostos, O Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos. E, por esta razão, muitas Igrejas Orientais chamam «Jordão» à água da fonte baptismal, que todos os anos é benzida precisamente neste Dia da Festa do Baptismo do Senhor.

 7. Ilustra bem o episódio do Baptismo de Jesus no Jordão o chamado «Primeiro Canto do Servo do Senhor» (Isaías 42,1-7), que põe em cena Deus e o seu Servo. Deus chama este Servo «meu Servo», diz que o segura e sustenta e que lhe dá o seu Espírito, e confia-lhe uma missão em ordem à verdade e à justiça, à mansidão e ao ensino, à libertação e à iluminação, entenda-se, à vida em plenitude, de todas as nações.

 8. Verdadeiramente, Deus é a vida deste Servo, que Ele ampara, leva pela mão e modela. Linguagem de criação, confidência e providência.

 9. Há ainda a registrar uma expressão forte para dizer a missão de mansidão confiada por Deus a este seu Servo: «Não fará ouvir desde fora a sua voz». Ora, se não faz ouvir a sua voz desde fora, só a pode fazer ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, dizendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, armas ou decretos. Se não reina desde fora, reina desde dentro, desde o coração, falando baixinho, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas. Jesus vai assumir a identidade deste Servo e vai cumprir por inteiro a sua bela missão.

 10. E não nos esqueçamos que a sua bela missão de Filho e de Servo terá de ser também a nossa bela missão de filhos e de servos.

 11. O discurso de Pedro em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio, conforme a descrição do Livro dos Actos 10,34-38, dá testemunho da largueza da bondade de Deus, que faz chegar o seu amor de Pai a todas as pessoas de todas as nações, fazendo de nós um povo de filhos, irmãos e servos que seguem um único Senhor: Jesus Cristo. Seguindo este único Senhor, a mais nada e a mais ninguém reconhecemos como Senhor. Somos, portanto, chamados a ser livres e a testemunhar, empenhando toda a nossa vida, dia após dia, que, após o Baptismo no Jordão, Jesus passou fazendo o bem e curando todas as pessoas necessitadas.

 12. Para não esquecer: esta bela missão de Jesus, Baptizado com o Espírito no Jordão e declarado Filho Amado, deve ser a nossa bela missão de Baptizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus.

 António Couto


O EVANGELHO VIAJA SEM PASSAPORTE!

Janeiro 2, 2010

 

1. «Eu o vejo, mas não agora,/ eu o contemplo, mas não de perto:/ uma estrela desponta (anateleî) de Jacob,/ um ceptro se levanta de Israel» (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, que o Livro dos Números diz ser oriundo das margens do rio Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7).

 2. Do Oriente são também os Magos, que enchem o Evangelho da Epifania do Senhor(Mateus 2,1-12), e que representam a humanidade de coração puro e de olhar puro que, agora e de perto, sabe ler os sinais de Deus, sejam eles a estrela que desponta (anateleî) (2,2 e 9) ou o sonho (2,12), uma e outro indicadores de caminhos novos, insuspeitados. Surpresa das surpresas: até para casa precisamos de aprender o caminho, pois é, na verdade, um caminho novo! (2,12). Excelente, inteligente, o grande texto bíblico: Balaão vem do Oriente, e os Magos também. O texto grego diz bem, no plural, «dos Orientes» (ap’anatolôn). Só a estrela que desponta, no singular, pode orientar a nossa humanidade perdida no meio da confusão do plural.

 3. De resto, já sabemos que, na Escritura Santa, a Luz nova que no céu desponta (Lucas 1,78; 2,2 e 9; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20) e o Rebento tenro que entre nós germina (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12) apontam e são figura do Messias e dizem-se com o mesmo nome grego anatolê ou forma verbal anatéllô. Esta estrela (anatolê) que arde nos olhos e no coração dos Magos está, portanto, longe de ser uma história infantil. Orienta os passos dos Magos e, neles, os de toda humanidade para a verdadeira ESTRELA que desponta e para o REBENTO que germina, que é o MENINO. E os Magos e, com eles, a inteira humanidade orientam para aquele MENINO toda a sua vida, que é o que significa o verbo «ADORAR» (proskynéô). Esta «adoração» pessoal é o verdadeiro presente a oferecer ao MENINO.

 4. Note-se bem, neste contexto, o contraponto bem vincado de Herodes, e de todos os Herodes deste nosso tempo e de todos os tempos.

 5. Mas, para juntar aqui outra vez os fios de ouro da Escritura Santa, nomeadamente 1 Reis 10,1-10, Isaías 60 e o Salmo 72(71), diz o belo texto de Mateus que os Magos ofereceram ao MENINO ouro, incenso e mirra. Já sabemos que, desde Ireneu de Lion (130-203), mas entenda-se bem que isto é secundário, o ouro simboliza a realeza, o incenso a divindade, e a mirra a morte e o sepultamento.

 6. Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrónomos e historiadores se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis: a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a. C.; b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a. C.; c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a. C. Esta última está registada nos observatórios astronómicos chineses. A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registada nos observatórios da Babilónia e do Egipto. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registrados em b) e c).

 7. Ilustra bem o grandioso texto do Evangelho de Mateus o soberbo texto de Isaías 60,1-6, que canta Jerusalém personificada como mãe extremosa que vê chegar dos quatro pontos cardeais os seus filhos e filhas perdidos nos exílios de todos os tempos e lugares. Também não falta a luz que desponta (anateleî) (60,1) e os muitos presentes, os tais fios que se vão juntar no Evangelho de  hoje de Mateus.

 8. Também os versos sublimes do Salmo Real 72(71) cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva.

 9. E o Apóstolo Paulo (Efésios 3,2-3 e 5-6) faz saber, para espanto, maravilha e alegria nossa, que os pagãos são co-herdeiros e comparticipantes da Promessa de Deus em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.

 10. Sim. Falta dizer que, no meio de tanta Luz, Presentes e Alegria para todos, vinda da Epifania, que significa manifestação, de Deus entre nós e para nós, não podemos hoje esquecer as crianças e a missão. Hoje celebra-se o dia da «Infância Missionária», que tem este ano o belo lema: «O Evangelho viaja sem passaporte». Para significar que o Evangelho nos faz verdadeiramente filhos e irmãos. E entre filhos e irmãos não há fronteiras nem barreiras nem muros ou qualquer separação.

 11. Sonho um mundo assim. E parece-me que só as crianças nos podem ensinar esta lição maravilhosa.

 António Couto