LANÇAI OS FUNDAMENTOS NO CÉU

Fevereiro 4, 2023

Se o Senhor não construir a casa,

Em vão trabalham os que a constroem.

Se o Senhor não guardar a cidade,

Em vão vigiam as sentinelas.

Não se pode esconder uma cidade

Situada no cimo de um monte,

Ou sobre a linha do horizonte,

Porque alumia, alumia, alumia,

Irradia, irradia, irradia,

De noite e de dia.

Cidade de alto-a-baixo erguida,

Como um manto de orvalho caída,

Como uma ermida,

Uma jazida

De luz

E de Jesus.

Tudo ao contrário do que vem nos manuais ou nos jornais,

Lançai os fundamentos no céu,

Construí desde o cume,

Sobre o gume da Palavra

Que de Deus vem

Rasgar

E salgar os nossos destemperados corações.

António Couto

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UM ABRAÇO DE ALMA A ALMA

Fevereiro 3, 2023

Is 58,7-10; Sl 112; 1 Cor 2,1-5; Mt 5,13-16

1. Entrámos no Domingo passado (IV do Tempo Comum) no Sermão da Montanha, e fomos logo felicitados por aquele encantatório rol de felicitações, em que por nove vezes se repetia a palavra FELIZES, sendo as oito primeiras formuladas na terceira pessoa do plural, e a última, a nona, formulada na segunda pessoa do plural, que aqui recuperamos: «FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal por causa de mim (éneken emoû)» (Mateus 5,11). Não, não se trata de acentuar qualquer conduta moral, mas de acentuar a total adesão a Cristo. Nas primeiras oito felicitações, é Deus que dá os parabéns aos pobres e desqualificados, aos últimos da sociedade, àqueles que não estão habituados a receber parabéns de ninguém, mas que não tiram os olhos de Deus nem deixam de para Ele levantar as mãos. O uso da terceira pessoa dá a estas felicitações uma forma generalizada e abstrata. Ao passar a formulação para a segunda pessoa do plural [«Felizes sois vós…»], é àquela audiência concreta, ali presente, que Jesus se dirige, vinculando-a a si [«por causa de mim»], mas expondo-a também face a um mundo adverso e perseguidor. Todavia, estes pobres, perseguidos pelos homens, são felicitados por Deus. O seu mundo não é esquizofrénico: não se separam de Deus, mas tão-pouco se separam do mundo que tudo faz para os ver separados.

2. O Evangelho deste Domingo V do Tempo Comum (Mateus 5,13-16) continua a glosar as notas da nona Felicitação, e mantém acesa a clave do «Vós sois» [uns-com-os-outros e uns-para-os-outros, e não uns-contra-os-outros], sem qualquer cedência a esquizofrenias nem ao moderno individualismo ocidental, e, nos tempos que correm, praticamente mundial, em que se podem contar cerca de oito biliões de solidões alérgicas. Hoje começamos por estender o texto do Evangelho diante dos nossos olhos, para melhor lhe podermos captar a importância de que se reveste, mas também o sabor e a sabedoria, sem descurar a forma direta de que se reveste no seguimento do v. 11.

«Vós sois o sal da terra. Mas se o sal se tornar insípido, com que o salgaremos? Não serve para nada, senão para se deitar fora e ser calcado pelos homens.

Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte. Não se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro para alumiar todos os que estão na casa.

Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus».

3. Aquele «Vós» (hymeîs) a abrir os v. 13 e 14 dá ênfase ao «Vós sois» que introduz o v. 11, e ajuda-nos a identificar com SAL E LUZ aqueles que são perseguidos «por causa de Jesus». Acabámos de ouvir acordes como estes: «Vós sois o SAL da terra» (Mateus 5,13); «Vós sois a LUZ do mundo» (Mateus 5,14). O SAL dá sabor. A LUZ alumia. O mundo inteiro por horizonte. É, portanto, necessário abrir os horizontes. O mundo é a nossa casa. Compreenda-se já que o SAL e a LUZ são belíssimas metáforas das OBRAS que fazemos: «Assim brilhe a vossa LUZ diante dos homens, para que vejam as vossas BOAS OBRAS» (Mateus 5,16). Mas entenda-se também de imediato que «as nossas OBRAS BOAS» não são do domínio das nossas mãos (a LUZ escapa-nos das mãos), mas do domínio da Graça de Deus que, como em Maria, também em nós «faz grandes coisas» (Lucas 1,49). São mesmo as OBRAS que se devem ler no cone de luz da LUZ e do SAL. De resto, é sabido que, quimicamente falando, o SAL não pode perder o seu sabor. Mas um homem sem OBRAS BOAS é insípido e inútil. O SAL só é inútil enquanto está retido no saleiro. E a LUZ enquanto está impedida de brilhar. E nós, quando nos blindamos dentro das portas e das janelas do nosso egoísmo e comodismo. É assim que nos tornamos insípidos e deixamos apagar a nossa luz. O verbo grego môraínô, que aparece no texto para dizer que o sal «se torna insípido» (v. 13), é usado mais habitualmente para dizer o homem que «se torna estúpido». Podemos estar perante um daqueles duplos sentidos que tantas vezes encontramos na expressão escrita. E pode bem ser disso que se trata, dado que, em hebraico e aramaico, o verbo tapel significa ao mesmo tempo «ser insípido» e «ser estúpido». E não faltam indicadores rabínicos a referir que, com a vinda do Messias, «a sabedoria dos escribas se há de tornar insípida».

4. É ainda necessário dar um passo em frente, e entender bem que aquele plural «Vós sois» se reveste seguramente de significado comunitário, como é usual em Mateus, que nunca perde de vista a comunidade eclesial. Assim, sois vós em comunidade que sois a Luz do mundo, que sois o Sal da terra, e não cada um por si, isoladamente. Assim também a lâmpada é para alumiar todos os que estão na casa, toda a comunidade da família de Deus. E o sal, o sal da aliança (Levítico 2,13), está lá também para dar o autêntico sabor da aliança a toda a oferta feita pela comunidade a Deus (Êxodo 30,25; Levítico 2,13), e a todo o recém-nascido a nós dado por Deus (Ezequiel 4,16).

5. Bem se vê que o SAL e a LUZ são metáforas que mostram a comunidade reunida com Jesus na Montanha e as BOAS OBRAS que deve realizar. Finalidade: para que seja glorificado «o vosso Pai que está nos Céus». A expressão «o vosso Pai que está nos Céus» é usada por Mateus apenas no Sermão da Montanha. Assim, percebemos melhor que estamos em casa, e que temos de aprender a ser filhos e irmãos.

6. O Livro do Deuteronómio atira-se contra a nossa tranquila indiferença: «Se houver no meio de ti qualquer irmão necessitado, não endureças o teu coração e não feches a tua mão» (Deuteronómio 15,7). Precisamos, hoje mais do que nunca, de viver ao estilo de Jesus, Bom Pastor, e ao estilo do Bom Samaritano, com «um coração que vê», para usar a expressão feliz de Bento XVI (Deus caritas est, 25 de dezembro de 2005, n.º 31).

7. É assim que Isaías 58,10 nos desafia literalmente (aí está o sabor das traduções literais!) a «oferecer ao faminto a tua alma (nefesh),/ e saciar a alma (nefesh) do oprimido». Trata-se de muito mais do que uma simples ajuda material. É um abraço entre duas almas, entre duas vidas, entre dois intensos desejos de viver, entre dois alentos de vida! Portanto, com o Deus criador e providente sempre por detrás.

8. Só entende esta intensidade quem sabe que a sua LUZ é reflexa, porque a recebe de Deus. É assim, com «um coração que vê» à flor da pele ou da alma, que S. Paulo não se apresenta no meio de nós ou da comunidade de Corinto com fortes argumentos da sabedoria humana, conforme a sua lição de hoje (1 Coríntios 2,1-5). Ele quer que nós compreendamos bem que a nossa fé assenta em Cristo e no seu poder, e não em qualquer humano raciocínio e respetiva força. «A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens» (1 Coríntios 1,25). E «quando eu sou fraco, então é que eu sou forte» (2 Coríntios 12,10). Portanto, Paulo não se apresentou em Corinto cheio de si, mas cheio de Deus. Não se anunciou (kêrýssô) a si mesmo, mas a Cristo Jesus (2 Coríntios 4,5). Sim, é a Luz que devemos saber levar em vasos de barro, para que se veja bem que esse tesouro e esse poder (dýnamis) vêm de Deus, e não de nós (2 Coríntios 4,7). É o poder (dýnamis) de Deus que move Paulo (1 Coríntios 2,5), e que nos deve mover também a nós.

9. Com tanto Sal na mão e tanta Luz a alumiar o coração, o nosso tempo é sempre tempo dado para nos questionarmos de verdade, pondo em causa os nossos egoísmos e as nossas portas fechadas à graça de Deus e aos irmãos que Ele nos deu. Com base no sentido do SAL e da LUZ, pode abrir-se diante de nós um tempo de verificação: cheio de mim ou cheio de Ti? Estou no centro das atenções ou sei orientar todos os olhares para Ti? Conheço-Te e celebro-Te e dou testemunho da Tua Ressurreição? Os meus atos anunciam a tua Vinda, isto é, revelam e desvelam a tua presença permanente? Ou será que o meu olhar é mau porque Tu és Bom? (Mateus 20,15; cf. Ben Sira 14,9-10). Por que é que eu tenho tão poucos (ou nenhuns) encontros CONTIGO marcados na minha agenda? O que faço eu com o relógio na mão o dia inteiro? Por que corro tanto e para onde corro tanto? Debruço-me com amor, e com tempo, sobre os meus irmãos abandonados à beira do caminho ou postos ali mesmo à entrada da minha porta? A minha casa está construída sobre a rocha ou sobre a areia? E a LUZ alumia ou está apagada? E o SAL dá sabor à minha vida e à vida dos outros?

10. O Salmo 112 é irmão gémeo do Salmo 111. Neste é Deus o sujeito. Naquele o homem justo, «imitador de Deus». O Salmo de hoje tem apenas 77 palavras divididas por dez versículos, em nove dos quais se desenha o homem justo, de coração e mãos largas para dar com abundância. Ao ímpio é reservado apenas um versículo, e é retratado só para ver o sucesso do justo e para se roer de raiva e de inveja até se atolar na ruína. O justo é uma casa iluminada. O ímpio desaparece nas trevas.

António Couto


UMA VIDA COM DEDICATÓRIA

Fevereiro 1, 2023

Toda a vida consagrada

É uma vida com dedicatória

Obrigatória

Ao autor de cada madrugada

Perfumada,

Senhor de mim

E do meu sim.

Desde sempre pensado e amado,

É-me dado um segmento de tempo

Para responder ao Amor,

E a eternidade inteira

Para viver à tua beira,

À tua maneira.

Ó mar imenso do Amor,

A que eu chamo Senhor,

Obrigado por olhares por mim e para mim,

Tão humano e pequenino,

E por me dares por destino

O teu coração divino.

Que eu seja, então, sempre Amor em cada dia,

Ao teu dispor,

Senhor da minha alegria.

António Couto


APRESENTADO AO SENHOR

Fevereiro 1, 2023

Ml 3,1-4; Sl 24; Hb 2,14-18; Lc 2,22-40

1. A Igreja Una e Santa celebra no dia 2 de Fevereiro, quarenta dias depois do Natal, a Festa da Apresentação do Senhor, que as Igrejas do Oriente conhecem por Festa do Encontro (Hypapantê) e dos Encontros: Encontro de Deus com o seu Povo agradecido, mas também de Maria, de José e de Jesus com Simeão e Ana. Também connosco.

2. Quarenta dias depois do seu nascimento, sujeito à Lei (Gálatas 4,4), Jesus, como filho varão primogénito, é apresentado a Deus, a quem, sempre segundo a Lei de Deus, pertence. De facto, o Livro do Êxodo prescreve que todo o filho primogénito, macho, quer dos homens quer dos animais, é pertença de Deus e a Deus deve ser consagrado, conforme se diz no Livro do Êxodo: «Consagra-me todo o primogénito, aquele que abre o ventre materno, entre os filhos de Israel, dos homens e dos animais. Ele é meu» (Êxodo 13,2). Mas ver também o belo cesto de razões apresentado em Êxodo 13,11-16. E avrescente-se que também os primeiros frutos dos campos serão consagrados ao Senhor (Deuteronómio 26,1-10).

3. É assim que, para cumprir a Lei de Deus, quarenta dias depois do seu nascimento, Jesus é levado pela primeira vez ao Templo, onde, também pela primeira vez, se deixa ver como a Luz do mundo e a nossa esperança.

4. O Evangelho a escutar, amar e admirar é Lucas 2,22-40. Compõe a cena um velhinho chamado Simeão, nome que significa «Escutador», que vive atentamente à escuta, em Hi-Fi, alta-fidelidade, alta frequência, alta definição, amor novo, e que o Evangelho apresenta como um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel. Ora, esse velhinho que vivia à espera e à escuta, com extremosa atenção e coração vigilante, veio ao Templo sob o impulso do Espírito (en tô pneúmati). Fica aqui declarada a qualidade da energia e da alegria que move o velho e querido Simeão: não é movido a carvão, nem a água, nem a vento, nem a petróleo e seus derivados, nem a eletricidade, nem sequer a energia nuclear. Simeão é movido pelo Espírito Santo. Maneira novíssima de viver, pausa e bemol na nossa impetuosidade, na nossa vontade de aparecer e de fazer, pausa e bemol nos nossos protagonismos e vontade de poder. Falamos quase sempre antes do tempo, e não chegamos a dar lugar à suave voz do Espírito. Na verdade, adverte-nos Jesus: «Não sois vós que falais, mas o Espírito Santo» (Marcos 13,11; cf. Mateus 10,20; Lucas 12,12). Portanto, é urgente esperar! Regressemos, pois, à beleza de Simeão. Ao ver aquele Menino, recebeu-o carinhosamente nos braços. Por isso, os Padres gregos dão a Simeão o título belo de Theodóchos [= «recebedor de Deus»]. É então que Simeão entoa o canto feliz do entardecer da sua vida, um dos mais belos cantos que a Bíblia regista: «Agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz, porque os meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos, Luz que vem iluminar as nações e glória do teu povo, Israel!» (Lucas 2,29-32).

5. E, na circunstância, também uma velhinha chegou carregada de Graça e de Esperança. Chamava-se Ana, que significa «Graça». É dita «Profetisa», isto é, que anda, também ela, sintonizada em Hi-Fi, alta-fidelidade, com a Palavra de Deus escutada, vivida e anunciada. Diz ainda o texto que era filha de Fanuel, nome que significa «Rosto de Deus», e que era da tribo de Aser, que quer dizer «Felicidade». Tanta intimidade com Deus! Também esta velhinha, serena e feliz, com 84 anos, número perfeito de números perfeitos (7 x 12), teve a Graça de ver aquele Menino. E diz bem o texto do Evangelho que Ana «falava daquele Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém» (Lucas 2,38). Outra vez a beleza inteira do díptico do Evangelho de Lucas: Simeão e Ana. Simeão esperava e Ana anunciava. Eis aqui presente, nestes dois maravilhosos velhinhos, a inteira Escritura dos dois Testamentos, e o retrato a corpo inteiro do Consagrado, que, na Bíblia hebraica, se diz Nazîr, um nome passivo e recetivo, totalmente dedicado a Deus, conduzido por Deus, «compondo» com emoção os acontecimentos de Deus.

6. Esta é a Festa da Alegria e da Esperança acumulada e realizada. É a Festa da Luz. Simeão e Ana viram a Luz e exultaram de Alegria. Hoje somos nós que nos chamamos Simeão e Ana. Somos nós que recebemos esta Luz nos braços, e que ficamos a fazer parte da família da Felicidade e a viver pertinho de Deus, Rosto a Rosto com Deus, Escutadores atentos do bater do coração de Deus, movidos pelo Espírito de Deus, Recebedores de Deus, Anunciadores de Deus. Rezamos hoje para que, nesta sociedade de coisas e de números (cf. Isaías 5,8), os Consagrados vivam cada vez mais Rosto a Rosto com Deus, e deem testemunho no mundo deste Dom maravilhoso.

7. Por isso e para isso é que Ele vem, conforme a lição de Malaquias 3,1-4 e Hebreus 2,14-18. Vem de Deus, mas senta-se connosco. Em tudo semelhante aos seus irmãos. Lava-nos os pés e a alma. Apaga os nossos pecados. Põe-nos em comunhão com Deus. Tanta proximidade faz deste Dia a Festa do Encontro. Hebreus 2,17 é o primeiro texto em absoluto do Novo Testamento a atribuir a Jesus o título de sumo-sacerdote. Novidade nova em contraponto e contracorrente com quanto vem antes. Foi preciso alisar o caminho, aplaná-lo, para ser possível assegurar este título a Jesus. Os sumo-sacerdotes do AT e do judaísmo estariam, porventura, perto de Deus (a tanto os obrigavam as normas legais e rituais), mas estavam bem distantes dos homens, seus irmãos. Portanto, o título não se ajustava a Jesus.

8. Não nos conformemos, pois, com as pedras e as pautas deste mundo (Romanos 12,2). Experimentemos viver em Hi-Fi, alta frequência, alta-fidelidade, alta dedicação, amor novo. Anda por aí uma música nova à nossa espera. É como um som que nunca se ouviu, como um silêncio que nunca se calou! Que Maria, a Mãe da Alegria, nos leve pela mão e nos ensine a subir e a descer a escadaria do coração.

9. Por isso, cantemos e aclamemos, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. No último andamento deste Salmo (v. 7-10), justamente a parte Hoje cantada, as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia registra por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

António Couto


A MEDIDA ALTA DA VIDA CRISTàORDINÁRIA

Janeiro 28, 2023

Há dois mil anos Jesus subiu ao monte,

Na companhia dos pobres, dos famintos, deserdados,

Pacificadores, misericordiosos, descartados,

E proclamou-os felizes, bem-aventurados,

Pioneiros de um mundo novo,

Que abrem caminhos puros e seguros,

Sem muros nem escuros nem arames farpados.

Na verdade, Jesus distribui diplomas de alegria,

Não a quem acaba de cortar a meta com sucesso,

Mas àqueles que se preparam para partir,

E descobrir caminhos nunca andados,

Novos e belos, limpos, aplanados, sem tropeço.

Os pobres sabem quebrar o gelo e o gesso,

Sabem onde nasce a esperança,

A bem-aventurança,

E são os melhores professores

Das mais belas melodias que conheço.

Obrigad, Senhor, por teres felicitado os pobres,

E por me teres ensinado

Que para o vinho que tu serves

São mesmo precisos odres novos.

António Couto


FELIZES, FELIZES, FELIZES!

Janeiro 27, 2023

Sf 2,3; 3,12-13; Sl 146; 1 Cor 1,26-31; Mt 5,1-12a

1. Vimos no Evangelho do Domingo passado (Mateus 4,12-23), Domingo III do Tempo Comum, que, tendo partido do Sul para o Norte da terra de Israel, Jesus alumia logo com a sua presença e pregação a sombria região da morte, que é como aparece descrita a região da Galileia. E aí, no coração de Neftali, que é Cafarnaum, passando junto do mar, imperativamente Jesus ordena a quatro pescadores de peixes que o sigam, com a indicação de vir a fazer deles pescadores de homens. Entendendo ou não o significado das palavras de Jesus, aqueles pescadores de peixes largaram logo tudo e imediatamente o seguiram. O texto fechava com a anotação de que Jesus percorria toda a Galileia ensinando, pregando e curando (v. 23). Nos dois versículos seguintes (v. 24-25), que fecham Mateus 4, e que não foram objeto da nossa atenção no Domingo passado por não fazerem parte do Evangelho então proclamado, dizia-se que a sua fama se espalhou por toda a Síria (v. 24), e finalmente que «o seguiam multidões numerosas (óchloi polloí) vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e da Transjordânia» (v. 25). Com esta maneira de reunir à sua volta multidões oriundas de toda a parte, e pregando, ensinando e curando, Jesus ilustra bem a natureza da pesca de homens para a qual tinha chamado aqueles simples pescadores de peixes.

2. Entramos agora na lição do Evangelho do Domingo IV do Tempo Comum, em que continuamos a seguir (seguimento imediato do Domingo passado) o Evangelho de Mateus (5,1-12a). Já sabemos que esta perícope de Mateus é conhecida por «BEM-AVENTURANÇAS», que abre o chamado «Discurso da MONTANHA», que preenche o terreno literário de Mateus 5-7. É o primeiro de cinco grandes Discursos proferidos por Jesus, que constituem a espinha dorsal do Evangelho de Mateus, e que aqui explicitamos para uma melhor compreensão do leitor: 1) o Discurso programático da MONTANHA (Mateus 5-7); 2) o Discurso MISSIONÁRIO (Mateus 10); 3) o Discurso das PARÁBOLAS do REINO (Mateus 13); 4) o Discurso ECLESIAL (Mateus 18); 5) o Discurso ESCATOLÓGICO (Mateus 24-25). Os cinco Discursos são fáceis de identificar, pois, a terminar cada um, encontra-se sempre o mesmo refrão ou marcador: «E aconteceu, quando Jesus terminou estas palavras…» (7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1).

3. Voltando atrás e fazendo as contas, seguem então Jesus quatro pescadores, e também as multidões assinaladas na cena anterior, no final de Mateus 4. O texto que se segue imediatamente (Mateus 5,1-2), que introduz o Discurso programático de Jesus na Montanha, diz assim:

«Vendo então as multidões (óchloí) subiu à montanha, e tendo-se sentado, vieram ter com Ele os seus discípulos (hoi mathêtaí autoû). Abrindo então a sua boca, ensinava-os (edídasken autoús), dizendo».

Não espanta que Jesus veja as multidões, pois já foi dito que o seguiam desde o último versículo do Capítulo anterior (4,25). Deve admirar-nos mais a presença dos discípulos, pois até é a primeira vez que Mateus emprega este nome no seu Evangelho. Na cena anterior (4,18-22), Jesus chamou quatro pescadores, a quem indicou uma nova missão, mas não lhes foi aplicada a qualificação de discípulos. E a próxima vez em que o nome aparecer, estaremos já em Mateus 10,1, falando-se aí de «os seus doze discípulos», de quem se indicam os nomes (10,2-4). E o certo é que, entre os doze, estão lá os nomes dos quatro pescadores, e também o nome de Mateus, entretanto chamado por Jesus em Mateus 9,9, sem que receba aí a qualificação de discípulo. Mesmo sem sabermos como se passou de quatro para doze, e dada a presença do nome discípulos em 5,1 e 10,1, é de supor que em 5,1, com o nome discípulos, se tenha em vista os doze discípulos, até pela importância do ensinamento que Jesus vai fazer na Montanha, e que se destina em primeiro lugar aos seus discípulos, pois é dito que vieram ter com Ele, e que os ensinava (edídasken), estando o pronome claramente em vez do nome discípulos, e o verbo no imperfeito, que implica duração, ensino continuado. Os discípulos formam, portanto, o primeiro círculo do ensinamento de Jesus. A anotação da presença das multidões (óchloi) é importante. E é também a elas, como que num segundo círculo, que se dirige o ensinamento de Jesus. De tal modo que, no final do inteiro Discurso da MONTANHA, em 7,28-29, é-nos mesmo dada a conhecer a reação das multidões que «estavam maravilhadas pelo seu ensinamento, pois os ensinava como quem tem autoridade, e não como os seus escribas». Não convém perdermos já as multidões de vista, pois é dito numa passagem idêntica, em 9,36, que «vendo as multidões (óchloi), sentiu compaixão (esplagchnístê) delas», que soa ao contrário de 8,18, em que se lê: «vendo uma multidão (óchlos), ordenou que partissem para a outra margem». «Vendo uma multidão» motiva separação. «Vendo as multidões» motiva compaixão por elas. É seguramente o caso das multidões que seguem seguem Jesus desde 4,25, e que estão agora, em 5,1, debaixo da vista dele a escutar os seus ensinamentos. É também Jesus a ensinar os seus discípulos como pescar homens.

4. Está a acontecer o Evangelho. Jesus as multidões, sobe à montanha, os seus discípulos dirigem-se para Ele, Ele senta-se, abre a sua boca, e ensina demoradamente. Tudo expressões que indicam a postura de Mestre Judaico, e também a solenidade deste início do ensinamento público de Jesus. Seja qual for a Montanha, ela aparece determinada com artigo definido (tò óros), o que deixa entender que se trata de uma Montanha concreta e conhecida (a tradição indica o Tabor), o que interessa é verificar a altura, a qualidade, a tonalidade e a intensidade que há que colocar no desempenho deste novo ministério de pescar homens. É dessa altitude, dessa MONTANHA, que Jesus diz a rapsódia mais bela e encantatória e revolucionária das «FELICITAÇÕES» ou «BEM-AVENTURANÇAS». É verdade. Há certas maravilhas que só se podem dizer nas alturas e compreender nas alturas, perto do céu, como que à altura e velocidade de cruzeiro. Destas FELICITAÇÕES envolve-nos, de facto, a sua cadência encantatória ainda antes dos seus conteúdos. Para entrar no coração destas fragrâncias, é preciso levantar o coração (sursum corda), e ir com os pássaros que Deus alimenta em pleno voo.

5. É por nove vezes que se ouve a palavra FELIZES. Felizes, felizes, felizes, declaração por nove vezes ouvida, aí está a tonalidade encantatória destas felicitações! Sintomático é que estas Felicitações não se destinem aos triunfadores, aos ricos e aos bem-sucedidos, mas aos pobres (1), aos aflitos (2), aos mansos (3), aos que clamam por justiça (4), aos misericordiosos (5), aos puros de coração (6), aos fazedores da paz (7), aos perseguidos (8) e aos amaldiçoados por causa de seguirem Jesus (9). À primeira vista, parece que Jesus está a ler o mundo ao contrário. Mas não. Trata-se de uma Retórica estupenda para nos fazer ver que somos nós que andamos virados do avesso! Nós, quem? Nós, os importantes, os ricos, os senhores do mundo! Sendo nove as Felicitações, reparar-se-á que no centro (n.º 5) está a MISERICÓRDIA. Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS: aos misericordiosos (eleêmones), será feita misericórdia (eleêthêsontai) (Mateus 5,7). Entenda-se: aos que fazem misericórdia, será feita misericórdia por Deus! De notar ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «FELIZES» ou «BEM-AVENTURADOS» se diz ’ashrê, termo que qualifica, não os beatos, mas os pioneiros, aqueles que lutam e abrem caminhos novos e bons e belos e de vida nova e boa e bela para o mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Ao longo da história, foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos e belos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente, anestesiado e medicado, e tantas vezes violento, em que vivemos. Quanto lodo é preciso retirar do coração humano! Ou, dito de outra maneira, quanta pedra é preciso partir, pois são muitos os corações de pedra, para usar a metáfora de Ezequiel 36,26.

6. Os pobres de espírito (ptôchoì tô pneúmati), aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é baixa de rûah (shephal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23) ou abatida de rûah (dake՚ê-rûah) (Salmo 34,19; Is 57,15), isto é, sem espaço físico, económico, social, cultural ou psicológico. Não precisam de se afirmar. Sentem-se os últimos da sociedade. Todavia, na sua humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois os ptochoí ou tapeinoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O Povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados entre paredes douradas, num círculo restrito de amigos, mas somos nós todos unidos e reunidos numa imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie. Não são os que vivem em paz, mas os que fazem a paz (v. 9). Habitam debaixo do teto da casa de Deus, abertos a Deus, de quem sabem e sentem que recebem tudo. Não sabem o que é a autossuficiência. Só sabem o que é a auto insuficiência.

7. A profecia de Sofonias (2,3; 3,12-13) faz ressonância desta nova e bela maneira de viver, trazendo para primeiro plano aqueles que dão lugar a Deus, que estão abertos à ação de Deus, os pobres e os humildes, que tudo recebem de Deus, e em Deus encontram refúgio, sossego e felicidade, entrando assim na rota de cruzeiro das FELICITAÇÕES!

8. E São Paulo, na lição de hoje da Primeira Carta aos Coríntios (1,26-31), faz-nos voltar completamente para Deus, para sabermos quem somos: «Vede, pois, quem sois, irmãos, vós que fostes chamados por Deus» (1 Coríntios 1,26). Se não ouvirmos Deus a chamar por nós, se não ouvirmos Deus a dizer o nosso nome, isto é, a criar-nos e a cuidar de nós, se não formos irmãos, é certo que não sabemos quem somos, não sabemos qual é a nossa identidade!

9. É assim que o Salmo 146, que é uma espécie de carrilhão musical, nos convida a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua ação em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

António Couto


É CRISTO QUE VIVE EM MIM

Janeiro 24, 2023

Era uma vez uma estrada, uma carreira, um curso, um percurso,

que só havia uma maneira de fazer: a correr.

Está-se mesmo a ver

só se iria inscrever

quem não gostasse mesmo nada de perder.

Corria então nessa estrada

um famoso corredor,

a transbordar de zelo e de ardor,

indómito lutador.

Já se sabia,

saía

sempre vencedor.

Até que um dia

à hora do meio-dia,

do sol a pique e de Deus na via,

um novo corredor vindo de fora,

não se sabe de onde,

agarrava

e ultrapassava

nessa estrada

o corredor.

A estrada era para os lados de Damasco,

Paulo o corredor,

Jesus o novo vencedor.

Começa aqui outra história

de outro amor

com Paulo a correr

por dentro e por fora

até morrer.

Fora de si,

dentro de si,

movimento transitivo

no mapa, nos mares, nas estradas, nas cidades,

movimento intransitivo,

ao jeito de Abraão,

rasgando avenidas no próprio coração.

Mas não quis mais correr sozinho.

Para mim correr é Cristo,

dizia,

e corria agarrado à sua mão.

Uma mão na mão de Cristo,

a outra apertando a de um irmão e outro irmão e outro irmão,

uma verdadeira multidão

em comunhão.

É verdade,

quando Jesus irrompe na vida de alguém,

interrompe a normalidade de um percurso,

e rompe essa vida em duas partes desiguais:

uma que fica para trás,

outra que se abre agora à nossa frente,

recta como uma seta directa a uma meta,

a um alvo, um objectivo intenso e claro,

tão intenso e claro que na vida de cada um

só pode haver um!

António Couto


TUDO DE UMA VEZ

Janeiro 21, 2023

Jesus é Deus que desce ao nosso mundo,

Caminha pelas nossas estradas,

Percorre as nossas praias,

Visita as nossas casas,

Vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho.

Jesus é Deus que passa, ama e chama.

Mas não nos chama a responder a um inquérito,

A preencher uma ficha,

Responder a uma entrevista,

Fazer uma inscrição,

Pagar a matrícula,

Aprender uma doutrina.

Não é como os escribas que Jesus ensina ou examina.

Nem sequer nos entrega um projeto de vida,

Uns apontamentos, um guião, caneta, tinta, mata-borrão.

Chama-nos apenas a segui-lo no caminho:

«Vinde atrás de Mim!», é o desafio,

E partilha logo ali connosco a sua vida toda,

Como uma dança de roda,

Como uma boda.

Não nos põe primeiro a fazer um teste,

Não nos ama nem chama à condição,

Não tem lista de espera,

Não nos põe num estágio,

Num estado,

Num estrado,

Numa estante,

Mas num caminho!

E um dia mais tarde,

Ouvi-lo-emos dizer ainda: «Ide!»,

Novo e imenso desafio.

É sempre no caminho que nos deixa,

Mas não nos deixa sós,

Vai sempre connosco,

Acompanha-nos,

Não apresenta queixa,

Não paga ao fim do mês,

Não paga a prestações,

Não paga,

Pede e dá tudo de uma vez.

Vem, Senhor Jesus!

Vem e ama!

Vem e chama por mim outra vez!

António Couto


DEIXAR TUDO PELO REINO DE DEUS

Janeiro 20, 2023

Is 8,23-9,3; Sl 27; 1 Cor 1,10-13.17; Mt 4,12-23

1. Domingo III do Tempo Comum. Cruzamento e entrelaçamento de textos num facho de intensa luz, vinda de fora, como a aurora. É assim que o Evangelho de Mateus 4,15-16 recolhe Isaías 8,23-9,1. O profeta tinha diante dos olhos uma luz grande que havia de brilhar naquela Galileia devastada. Ventos de morte tinham varrido a Galileia nos anos 733-732 a. C., quando o imperador assírio Tiglat-Pilezer III, na sua expansão para ocidente, e no seguimento da guerra siro-efraimita, invadiu e reduziu estes territórios da Galileia a três províncias assírias: Galaad, Meguido e Dor, levando para o exílio muitos dos seus habitantes judeus e transferindo para ali povos pagãos de outros credos, raças e culturas, para impedir que um Israel com identidade própria e religiosidade judaica pudesse ainda vingar e prosperar naquela região. Era assim que a Assíria tratava os seus vassalos rebeldes: matava-lhes o corpo e a alma. Mateus, que bem conhecia a realidade da Galileia, e que também seguiu os caminhos de Jesus, gravou no seu Evangelho que essa luz que Isaías vislumbrou é Jesus que, com a sua presença e pregação, alumia agora a sombria região da Galileia.

2. O Evangelho de hoje (Mateus 4,12-23) refere com precisão que, «quando Jesus soube que João Batista tinha sido preso, retirou-se (anechôrêsen) para a Galileia» (Mateus 4,12), e, «desde então, começou a pregar» (Mateus 4,17a). Uma prolepse e uma surpresa, podemos dizer mesmo um escândalo. A prolepse: ao anotar a prisão de João Batista, o narrador está a registar um facto histórico mas, mais do que isso, está já a desvendar aquilo que um dia acontecerá também a Jesus. E já se começa a notar, pois é dito que Jesus, ao ter conhecimento da prisão de João Batista, se retirou para a Galileia. O uso do verbo grego anachôréô [= retirar-se] indica geralmente em Mateus a fuga de um lugar que se revelava perigoso e hostil para outro mais tranquilo (cf. Mateus 2,12.13.14; 4,12; 12,15; 14,13; 15,21). De resto, em caso de perseguição, Jesus aconselha os seus discípulos a fugirem para outra cidade (Mateus 10,23), ainda que neste texto use um verbo diferente. A surpresa e o escândalo: era do sentir comum que o anúncio messiânico fosse feito no coração do judaísmo, em Jerusalém e na Judeia, e não numa região periférica, desprezada e contaminada pelo paganismo, como era esta «Galileia dos pagãos» (Mateus 4,15). Curiosamente, Jesus tinha vindo de Norte para Sul, da Galileia para a Judeia, ao encontro de João Batista, para ser por ele batizado (Mateus 3,13), e ei-lo que faz agora a viagem ao contrário, de Sul para Norte, da Judeia para a Galileia (Mateus 4,12), e é aí, em Cafarnaum, que começa a pregar o Evangelho (Mateus 4,17). Regresso forçado, como vimos, pelos acontecimentos hostis verificados no Sul, e que levaram à prisão de João Batista. É para justificar e iluminar este estranho e inesperado começo, que Mateus se vê como que obrigado a citar por inteiro a passagem apropriada de Isaías 8,23-9,1, que põe o povo humilhado da tribo de Zabulon, de que fazia parte Nazaré, e da tribo de Neftali, de que fazia parte Cafarnaum, a ser visitado por uma grande Luz, que rasgava a noite e a morte semeadas pela guerra e o desprezo (Mateus 4,13-16).

3. Esta Luz é Jesus. Luz de Jesus que vem iluminar a noite da Galileia. Voz de Jesus a romper aquele espesso manto de silêncio: «Convertei-vos, porque se fez próximo (êggiken) o Reino dos Céus!» (Mateus 4,17b). É assim, com estas palavras, que Jesus começa a pregar na Galileia. É fácil verificar que são exatamente as mesmas palavras com que João Baptista abria a sua pregação no Sul: «Convertei-vos, porque se fez próximo o Reino dos Céus» (3,2). Conversão, isto é, mudança de mentalidade (metanoéô LXX), mas sobretudo de caminho e de direção [voltar-me, não para mim mesmo, mas para o Deus pessoal da aliança] (shûb TM), e responder à sua Palavra sempre primeira. A exigência da conversão é motivada pela proximidade e continuidade do Reino de Deus entre nós. O uso do verbo grego eggízô no perfeito [êggiken = fez-se próximo] ensina-nos que o Reino de Deus não está apenas perto ou próximo de nós ou a caminho, que está para chegar, mas que já veio para ficar sempre próximo de nós, no meio de nós. Não está em vias de acontecer num futuro mais ou menos próximo, mas está agora a acontecer. É agora (cf. Mateus 26,45-46). Esplêndida Luz, esplêndida Voz, esplêndido Amor de Deus, esplêndida surpresa divina! Ainda antes de nos interpelar a que nos interessemos por Deus, a Bíblia mostra que é Deus que se interessa primeiro por nós, tomando a iniciativa de percorrer as nossas estradas poeirentas para nos vir visitar a nossas casas! E não apenas visitar, mas ficar connosco! É esta a maravilha desconcertante do Evangelho! Evangelho no duplo sentido: objetivo e subjetivo. O Evangelho é Jesus, a pessoa de Jesus (sentido objetivo). O Evangelho é a ação de evangelização desencadeada por Jesus (sentido subjetivo). Jesus é o Evangelho e o Evangelizador.

4. É o que constatamos no velho texto de Mateus e nas nossas estradas de hoje. Verificação: Jesus caminha ao longo das praias do Mar da Galileia, e vê dois irmãos, Simão e André, ocupados nos trabalhos da pesca, e diz-lhes: «Vinde atrás de mim (deûte opísô mou)» (Mateus 4,19). Bem vistas as condições de trabalho em que os dois estavam envolvidos, e a importância da pesca no mundo pobre da Galileia, a ordem de Jesus parece completamente disruptiva. Mas a resposta dos dois é excessiva, imediata e radical: «Deixaram logo (euthéôs) as redes, e seguiram-no!» (Mateus 4,20). Note-se, no entanto, que aquele «Vinde atrás de mim» não é um convite; é uma exigência. E não se trata tanto do dizer de um Mestre, mas de um Profeta, ao jeito do chamamento de Elias a Eliseu (cf. 1 Reis 19,19-21). É normal os discípulos seguirem o Mestre, «atrás do Mestre», mas já não é usual ser o Mestre a chamá-los; são os discípulos que devem procurar um Mestre. Por outro lado ainda, a atividade própria do Mestre é ensinar, mas no caso deste chamamento, Jesus parece ter em vista uma estranha atividade de pesca: «farei de vós pescadores de homens». Compreende-se a metáfora da pesca no seguimento da ocupação acabada de descrever daqueles dois chamados, mas fica em aberto a natureza da nova pesca acenada por Jesus: de quê e para quê pescar pessoas? Jeremias 16,16 põe Deus a lar e a dizer: «Enviarei muitos pescadores para a pesca, e pescá-los-ão». É a mesma metáfora da pesca, mas trata-se aqui de reunir os pecadores para o julgamento. É aqui que encaixa a pesca proposta por Jesus face à Vinda do Reino de Deus. Daí também a exigência da conversão ordenada por Jesus. E a força daquele chamamento feito por Jesus àqueles pescadores. Lendo outra vez as palavras de Jesus, percebemos que não se trata de convidar, mas de exigir, método de Profeta, e não de Mestre. E falar de «pescadores para pescar homens» é também linguagem profética e tem em vista o julgamento de Deus. E andando um pouco mais, viu outros dois irmãos, Tiago e João, que, com o pai, Zebedeu, remendavam (katartízontas) as redes na barca. Também os chamou. E também eles deixaram logo (euthéôs) a barca e o pai, e seguiram-no (Mt 4,21-22). Porquê este chamamento disruptivo e a resposta radical destes pescadores? A resposta reside na urgência criada pela proximidade do Reino de Deus, a que nada se deve antepor. Nada é primeiro em relação ao Reino de Deus: nem sepultar o próprio pai ou despedir-se dos familiares (Lucas 9,59-61). «Quem lança as mãos ao arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus» (Lucas 9,62). E o Reino de Deus não tem fronteiras, nem bandeiras, nem moeda própria. Não está aqui ou ali. Não é deste mundo. O Reino de Deus é o próprio Jesus Cristo com o Espírito Santo. Ele é o Reino em pessoa (hê autobasileía), conforme o belo dizer de Orígenes. É, então, face a Ele que nos devemos converter. É a voz dele que temos de ouvir. É o seu caminho que temos de seguir. O Reino de Deus, Jesus, põe-nos em cheque e em causa. Daí a urgência da conversão, daquele chamamento e daquela resposta.

5. É então urgente compreender que Jesus, que é o Reino de Deus em pessoa, desce ao nosso mundo, caminha pelas nossas estradas e vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho. E é aí que nos chama e nos põe em estado de urgência e de conversão. Não espera por nós apenas no cenário sagrado das nossas Igrejas! Não nos obriga a fazer uma inscrição, a preencher uma ficha, a aprender uma doutrina, nem sequer nos entrega um projeto de vida, um guião, uma regra, não pede a nossa opinião. Não nos convida a segui-lo, mas exige que o sigamos, não para nos ensinar, mas para nos enviar como pescadores de homens para o julgamento decisivo do Reino de Deus. A sua voz é mais de Profeta do que de Mestre. Tudo o que Jesus diz e faz é exigente, decisivo e urgente. É face a Ele que devemos saber queimar a nossa palha. É a isso que se chama pôr a nossa vida em estado urgente, mas permanente, de conversão. Jesus não nos põe a fazer uma espécie de estágio, para que um dia nos tornemos Mestres. Já sabemos que permaneceremos sempre irmãos, e um só é o nosso Mestre (cf. Mateus 23,8). Não nos coloca num estágio, num estado, num estrado, numa estante, mas num caminho! E um dia mais tarde, ouvi-lo-emos ainda dizer: «Ide!» (Mateus 28,19). É sempre no caminho que nos deixa. Mas sempre atrás d’Ele.

6. A toada do Evangelho de hoje, com Jesus a chamar por nós, pode levar-nos a casa de Carl Gustav Jung (1875-1961), um dos pais da psicanálise. Carl Jung mandou esculpir sobre a porta da sua casa, em Küsnacht, na Suíça, esta frase: «Chamado ou não chamado, Deus estará sempre presente. Nunca se vai embora. Fica sempre por perto, à espera de nos abraçar».

7. Mas voltemos a Isaías 8,23-9,3, hoje, como já vimos, entrançado com o sublime Evangelho de Mateus 4,12-23. Visita de Deus. Luz grande para os abandonados. É a passagem das nossas trevas para a luz refulgente que vem de Deus. É o habitual link editorial dos profetas que sabem sobrepor ou justapor a promessa de redenção com o desastre, mostrando que dentro do desastre já germina a esperança, das entranhas das trevas já começa a despontar a luz, nova criação, milagre sem explicação. Deus em ação. As trevas podem surgir quando falta a luz; mas em caso algum podem produzir luz. Vê-se ainda a vida a borbotar das feridas infligidas pelas espadas. Alegria a desenhar a estação das ceifas. As nossas mãos em concha a recolher os dias dados. Deus primeiro e antes. Deus basta. O dia de Madiã é o dia em que Gedeão enfrenta e desbarata as tropas de Madiã com trezentos homens que sabem que a água é um dom de Deus (cf. Juízes 7). E estiveram lá junto da fonte mais trinta e um mil e setecentos candidatos que apenas exibiam a própria força e que pensavam que estavam ali por mero acaso! Estavam a mais. Foram naturalmente mandados embora. Como já tinham sido outros dez mil antes deles.

8. Continuamos a saborear a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, servida hoje no extrato entrecortado de 1,10-13.17. Sem cedências de qualquer espécie, Paulo aponta à comunidade cristã de Corinto as divisões e rixas que nela se instalaram, e os grupinhos de pertença em que as pessoas se agrupam e reveem. E Paulo propõe aos Coríntios e a nós que, em vez de nos ocuparmos com divisões ou cismas (schísmata), nos tornemos «remendadores» (katêrtisménoi: part. perf. pass. de katartízô) (1,10), que é sintomaticamente o mesmo verbo em que se ocupavam os discípulos hoje chamados, que estavam a remendar (katartízontas: part. presente de katartízô) as redes (Mateus 4,21). Aí está um novo e belo ministério: «remendadores» da comunidade, isto é, fazedores de pontes, estradas, braços e abraços, para que as pessoas, em vez de se separarem e dividirem, se unam e reúnam. E porque circulava também em Corinto uma certa conceção de batismo que criava especiais laços de pertença do batizando em relação a quem o batiza, Paulo adianta bem que a sua missão não é batizar, mas evangelizar!

9. O Salmo 27 pode deixar-nos nos braços de Deus, cantando e decantando a luz e a confiança que de Deus recebemos. Mas também a suavidade, a bondade e a beleza nos encantam. Corolário normal, ainda que sempre de excecional elevação, para este dia e para esta liturgia, que nos deixa sempre tranquilos a brincar à porta da Casa de Deus, sob o olhar atento e carinhoso de Deus.

10. Este Domingo é também, por vontade do Papa Francisco, o Domingo da Palavra de Deus. Portanto, deixemo-nos invadir performativamente, e não apenas informativamente, pela torrente da Palavra de Deus. E deixemos que rasgue em nós novas avenidas férteis e floridas, onde despontem novos e adequados comportamentos.

António Couto


SANTO ANTÃO

Janeiro 17, 2023

Neste dia 17 de Janeiro, a Igreja faz memória de Santo Antão, pai do monaquismo do Ocidente. Viveu, segundo a tradição, mais de cem anos. Terá nascido no Egito em 251, ocorrendo a sua morte em 17 de janeiro do ano 356.

Era rico. Ainda jovem, por volta dos vinte anos, durante uma celebração litúrgica, ouviu o texto de Mateus 19,21, em que Jesus diz ao jovem rico: «Se queres ser perfeito, vai, vende quanto tens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos Céus. Depois, vem e segue-me».

Chegado aqui, o jovem rico do Evangelho foi-se embora muito triste, como sabemos. Mas o jovem Antão levou o Evangelho à letra, distribuiu, com alegria, os seus muitos haveres pelos pobres, e fez-se seguidor dos passos de Cristo no deserto do Egito, onde muitos o seguiram também.

Atenção, meu irmão deste dia 17 de janeiro! A rajada de verbos que virou do avesso a vida do jovem Antão pode virar também a tua. Não esqueças: «Vai, vende, dá, vem e segue-me!».

Santo Antão, roga por nós.

António Couto


CORDEIRO DE DEUS QUE TIRA O PECADO DO MUNDO

Janeiro 13, 2023

Is 49,1-6; Sl 40; 1 Cor 1,1-3; Jo 1,29-34

1. Estamos já no Domingo II do Tempo Comum, e escutamos o Evangelho de João 1,29-34. E à nossa frente está outra vez João Batista, a figura do umbral ou do limiar, que está sempre ali, à porta, para acolher quem vier, fazer as apresentações e dar as indicações necessárias. É dito, em João 1,28, que João Batista estava «em Betânia» (Bêthanía), de beyt ՚aniyyah [= «Casa da barca»] ou de ՙeynon beyt [= «Casa da fonte»], «do outro lado do Jordão (péran toû Iordánou), e que era aí que batizava». Em termos de crítica textual, o nome «Betânia» é o que reúne mais consenso, sendo, portanto, o melhor estabelecido por aparecer na maioria dos manuscritos maiúsculos e minúsculos. Há, porém, outras possibilidades de leitura, de que destacamos Bêthabarâ, de beyt ՙabarah [= «Casa da passagem»]. Esta última denominação remonta a Orígenes que, no séc. III, visitou a região e não encontrou o topónimo «Betânia», mas encontrou Bêthabarâ. No seguimento de Orígenes, também Eusébio de Cesareia, Jerónimo e vários manuscritos assumem esta leitura. Portanto, segundo a crítica textual, o nome do lugar pode mudar. O que não muda é a locução «do outro lado do Jordão» que, no Evangelho de João, aparece sempre relacionada com João Batista (João 1,28; cf. 3,26; 10,40). João Batista coloca-se, portanto, estrategicamente «do outro lado do Jordão», onde um dia o povo do Êxodo parou também, para preparar a entrada na Terra Prometida, atravessando o Jordão (Josué 3). Era então «do outro lado do Jordão» que João Batista batizava (baptizôn). Este particípio indica duração, fazendo da atividade de João Batista uma missão continuada e duradoura. Pode mudar-se o lugar, que não se muda o significado, seja ele «Casa da barca», «Casa da fonte» ou «Casa da passagem». Mas este dado «do outro lado do Jordão» não pode deixar-se cair, dado o valor simbólico que indica, e que, em si, é já um discurso. É preciso voltar atrás, ao «outro lado do Jordão» para se poder entrar agora com o pé direito na Terra Prometida.

2. Dado que estamos a lidar com o início do Evangelho de João, talvez valha a pena olhar para a forma como está organizado. Aperceber-nos-emos logo que este início do Evangelho de João (1,19-2,12) distribui as ações por dias, organizados em dois blocos de 4 + 3. No primeiro dia (1,19-28), João Batista, postado no umbral de Betânia ou Bêthabara, é interrogado pelas autoridades acerca da sua identidade. No segundo dia (1,29-34), João Batista acolhe Jesus e apresenta-o, sem que seja dito a quem, a todos nós com certeza. No terceiro dia (1,35-42), alguns discípulos de João Batista seguem Jesus, e Simão recebe o nome de Cefas [= Kêphâs] (1,42), única vez nos Evangelhos, que significa Pedra esburacada, acolhedora e protetora. No quarto dia (1,43-51), Jesus chama Filipe e revela-se a Natanael e aos outros discípulos. Estes quatro dias representam em crescendo a preparação remota para a manifestação da Glória de Jesus. Correspondem à primeira parte da preparação para a Festa do Dom da Lei, que os judeus celebravam na Festa das Semanas ou Pentecostes. Depois destes quatro dias, salta-se logo para o «3.º Dia» (2,1-12), que é o 7.º do esquema 4 + 3, e que tem a ver com a manifestação da Glória de Jesus (2,11), que corresponde ao 3.º Dia da manifestação da Glória de Deus no Sinai (Êxodo 19,10-20), para o qual se requerem dois dias de intensa preparação (Êxodo 19,10-11). Se os quatro primeiros dias constituem a preparação remota, os dois seguintes são a preparação próxima para este 3.º Dia! Este era o esquema da preparação do povo para a Festa do Dom da Lei de Deus que se celebrava no Pentecostes.

3. O Evangelho de João hoje proclamado e escutado (1,29-34) põe diante de nós o 2.º dia dos primeiros quatro de preparação a que atrás aludimos. João Batista permanece parado, imóvel e sereno e atento, desde João 1,28, em Betânia ou Bêthabara, nomes que indicam claramente que se trata de um lugar de passagem e de água. O lugar em que permanece parado, define-o e define-nos: é um umbral ou limiar. Todo o umbral ou limiar é um lugar de passagem. Estamos de passagem. João Batista ocupa, portanto, o seu lugar estreito e aberto entre o des-lugar e a casa, entre o deserto e a Terra Prometida, entre o Antigo e o Novo Testamento. É desse lugar de passagem, mas em que está parado e atento como um guarda ou sentinela vigilante, a observar, que João Batista vê bem, «vê por dentro», como indica o verbo grego emblépô, Jesus a passar (peripatoûntos) (1,36) e a VIR (erchómenos) ao seu encontro (1,29). Esta é a primeira vez que Jesus surge em cena no Evangelho de João. E João Batista é assim o primeiro a ver Jesus, que VEM ao seu encontro, como Deus VEM ao nosso encontro, verificando-se e cumprindo-se assim quanto dito em Isaías 40,10: «O Senhor VEM». Recolhendo, em analepse, as vozes proféticas do passado, mas desenhando também já, em prolepse, os passos futuros, o Batista apresenta Jesus como «o CORDEIRO de DEUS, que tira o pecado do mundo» (1,29). Apresenta-o a nós, pois não é dito que mais alguém esteja lá. Riquíssima apresentação de Jesus. Na verdade, Cordeiro diz-se na língua aramaica, língua comum então falada, thaleya’. Mas thaleya’ significa, não só «cordeiro», mas também «servo», «filho» e «pão». Tantos fios fecundos, tantas sementes, tantos frutos, a recolher e já também a lançar aos campos que se desenham diante dos nossos olhos. Aí está bem delineada a identidade de Jesus. CORDEIRO de DEUS diz ainda, numa linguagem bem nossa conhecida, que este CORDEIRO é de DEUS, pertence a Deus: é Deus o seu pastor. Mas o Batista diz ainda de Jesus, CORDEIRO de DEUS, que é Ele «que tira o pecado do mundo». Com esta locução não parece que estejam em vista apenas os pecados individuais, mas o fim do domínio do pecado, avistando-se já um mundo novo, esvaziado do mal e cheio do conhecimento de Deus (Isaías 11,9), verdadeira plantação de Deus (Isaías 61,3). O verbo aírô [= tirar], quando relacionado com pecado (hamartía) diz o mesmo que aphíêmi [= perdoar], que é obra só de Deus, que se vai repetindo nos sacrifícios pelo pecado realizados no Templo. Nesta passagem do Evangelho de João trata-se de eliminar o pecado todo, de fechar o tempo do pecado com uma única ação, e não do perdão pontual de um determinado pecado individual, a que era necessário acorrer muitas vezes. Os leitores e ouvintes mais habituados a lidar com os textos bíblicos já certamente repararam na vizinhança entre «tirar (aírô) o pecado do mundo» e «tirai (aírô) tudo isto daqui, e não façais da casa do meu Pai casa de comércio» (2,16). Espaço e modo relacional novo. Eis, portanto, que Jesus VEM ao encontro de João, e é por este apresentado como o Messias, Aquele que VEM pôr fim à longa espera de Israel, e estabelece uma nova etapa na relação que une Deus com a humanidade. E talvez não seja por acaso que João Batista exerce o seu ministério «no outro lado do Jordão», fora das instituições do Templo.

4. O Espírito de Deus entra na nossa história, descendo e permanecendo na humanidade de Jesus (1,33). A humanidade de Jesus é a porta por onde entra em nossa casa o Espírito de Deus. É esta novidade que, do seu posto de sentinela, João Batista está também a ver (heôraka, verbo no perfeito grego), e dela dá testemunho (memartýrêka, verbo no perfeito grego) (1,34). O perfeito grego indica continuidade: vi e continuo a ver; testemunhei e continuo a testemunhar. Entenda-se bem: João Batista dá testemunho, não porque viu e agora já não vê, mas porque viu e continua a ver, exatamente como as testemunhas de Jesus Ressuscitado (20,18.25). O Filho de Deus feito Homem, sobre quem desce e permanece o Espírito de Deus, Vem ao nosso encontro em Betânia ou Bêthabara, mas sempre no «outro lado do Jordão», margem esquerda, para nos fazer entrar em Casa, na Terra Prometida, novo espaço, tempo e modo relacional com Deus.

5. Cordeiro, Servo, Filho, Pão: eis Jesus, manso e dócil, nosso irmão e nosso alimento. O «Segundo Canto do Servo do Senhor» (Isaías 49,1-6), em que Hoje se espelha o Evangelho, já mostra este Servo de Deus, libertado do serviço entre os povos estrangeiros, para se colocar exclusivamente ao serviço do Senhor, que, por isso e para isso, o pode chamar «meu Servo» (Isaías 49,3 e 6). A sua missão será reconduzir Israel para Deus, de quem se tinha afastado física, moral e espiritualmente (Isaías 49,5). Fica, todavia, logo claro que não é suficiente proceder à reunião dos filhos de Abraão. É necessário ir mais longe e refazer o mundo dos filhos de Adam. É necessário ser a Luz das nações, como Jesus (Lucas 2,32) e todos os seus escolhidos e enviados.

6. Veja-se Paulo, que faz sua a missão do Servo Israel de ser Luz das nações até aos confins da terra (Atos 13,47). É nesse rastro de Luz que chega um dia a Corinto para lá acender a Luz de Cristo, Senhor Nosso, e velar por essa Luz que arde nas entranhas. É por isso que hoje escutamos também o princípio da correspondência que Paulo estabelece com a comunidade de Corinto (1 Coríntios 1,1-3).

7. Cantamos hoje o primeiro andamento do Salmo 40, repetindo o refrão: «Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade!» (v. 7-8). É o cântico novo que ecoa hoje na nossa boca (v. 4), e que se vai ouvindo já por toda a terra. O Salmo 40 apresenta um primeiro andamento de ação de graças (v. 1-10), seguido logo por um movimento de súplica e lamentação (v. 11-18). Parece, pois, haver no corpo do Salmo uma estranha divisão. Quem é o «eu» que constata e agradece os benefícios de Deus no v. 1, e quem é o «eu» que, no v. 14, implora ainda com veemência o auxílio de Deus? Esta notória divisão no corpo do Salmo não é ilógica, como muitas vezes tem sido vista. É humana, dado ser também a nossa vida tecida por momentos de sonho e de outros tempos de maior ou menor dificuldade. Em sintonia com o Evangelho de hoje, que põe em cena João Batista, o grande indicador de caminhos, e, sobretudo, do Caminho, que é Jesus, e em sintonia também com a lição do Servo de Deus de Isaías 49, que vem para levar Deus e a sua Luz às nações e aos corações. Como Paulo faz desde Damasco até Corinto, até Roma. Para tanto, todo o Servo de Deus tem de ter os ouvidos escavados (v. 7) e o coração incendiado.


FESTA DO BATISMO DO SENHOR

Janeiro 8, 2023

Is 42,1-4.6-7; Sl 29; At 10,34-38; Mt 3,13-17

1. Passado o Advento e as Festas Natalícias, estamos agora no umbral do chamado «Tempo Comum» do Ano Litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um «Tempo secundário», mas fundamental na vida celebrativa da Igreja Una e Santa. Na verdade, ao longo deste «Tempo Comum», Domingo após Domingo, a Igreja Una e Santa, Batizada e Confirmada, Esposa Amada de Cristo, é chamada a contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Batismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição.

2. Esta apresentação só é possível porque em cada um dos Anos Litúrgicos é proclamado, Domingo após Domingo, praticamente em lição contínua, um Evangelho inteiro. Neste Ano A, é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho segundo Mateus, conhecido como «o Evangelho da Igreja», dada a grande importância que este Evangelho granjeou na Igreja nascente, sobretudo devido à clareza e riqueza temáticas dos longos, solenes e pausados Discursos de Jesus que nele encontramos, e que constituem um imenso tesouro para a vida da Igreja. Na verdade, o leitor ou ouvinte encontra no Evangelho segundo Mateus uma longa e bela sinfonia dos ensinamentos fundamentais de Jesus, organizada em cinco andamentos à volta de cinco imensos Discursos de Jesus: 1) o Discurso programático da MONTANHA (Mateus 5-7); 2) o Discurso MISSIONÁRIO (Mateus 10); 3) o Discurso das PARÁBOLAS do REINO (Mateus 13); 4) o Discurso ECLESIAL (Mateus 18); 5) o Discurso ESCATOLÓGICO (Mateus 24-25). Os cinco Discursos são fáceis de identificar, pois, a terminar cada um, encontra-se sempre o mesmo refrão: «E aconteceu, quando Jesus terminou estas palavras…» (7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1).

 3. No umbral do «Tempo Comum» está sempre o episódio do Batismo de Jesus no Jordão, este ano celebrado nesta 2.ª feira, dia 9, sendo proclamado o Evangelho segundo Mateus 3,13-17. Aqui ficam algumas notas caraterísticas deste episódio de Mateus: 1) quando vê Jesus que vem no meio da multidão (Mateus 3,13-14), como verdadeiro Servo do Senhor, solidário com o seu povo e assumindo as suas faltas, João Batista fica confuso; na verdade, esperava um Juiz acima do povo, para julgar o povo (cf. Mateus 3,7.10.12), e não um Servo solidário com o povo no pecado (por isso, vem, no meio do povo, a este batismo de penitência); 2) além disso, e contra todas as expetativas de João Batista, Jesus não vem para batizar, mas para ser batizado (Mateus 3,11.13-14); 3) O diálogo travado entre João Batista e Jesus, em que João manifesta o seu desconforto em ser ele a batizar Jesus, e não o contrário (Mateus 3,14-15), é um exclusivo de Mateus (nenhum outro Evangelho o descreve); 4) são de notar as primeiras palavras, em absoluto, ditas por Jesus no Evangelho segundo Mateus: «É conveniente para nós cumprir toda a justiça» (3,15); neste Evangelho, o termo «justiça» (dikaiosýnê) indica o plano divino de salvação e a adequação da nossa vontade [= obediência] a esse plano, e faz-se ouvir por sete vezes (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32) contra uma única vez em Lucas (1,75) e nenhuma em Marcos, e o verbo «cumprir» aponta para a Escritura; 5) a abertura dos céus e a descida do Espírito evoca e cumpre Isaías 63,19: «Ah, se rasgasses os céus e descesses!»; 6) a voz vinda do céu também deve merecer a atenção do ouvinte e/ou do leitor, porque, ao contrário do que acontece nos outros Evangelhos sinóticos, a proclamação não aparece formulada na segunda pessoa (Marcos 1,11: «Tu és o meu Filho, o Amado, em ti pus o meu enlevo»; Lucas 3,22: «Tu és o meu Filho, o Amado, em ti pus o meu enlevo»), mas na terceira pessoa: «Este é o meu Filho, o Amado, em quem pus o meu enlevo» (Mateus 3,17); não é, portanto, uma revelação dirigida a Jesus, mas a nós, salientando desde o princípio a perspetiva eclesial de Mateus.

4. Diante dos olhos atónitos de João, e também dos nossos, fica, portanto, Jesus que, connosco e no meio de nós, como um de nós, desce ao rio Jordão para ser connosco batizado. Extraordinária a epígrafe que Pedro, na lição de hoje do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-38), põe sobre a vida de Jesus: «Passou fazendo o bem e curando todos» (Atos 10,38). Para nos curar, é preciso passar pelo meio de nós. É aqui que o rio Jordão nos pode trazer, não apenas água, mas também alguma luz e sentido. O Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos. Rasga, de alto-a-baixo, a terra de Israel, mas atravessa também as páginas dos dois Testamentos! Desce do sopé do Hermon e vai desaguar no Mar Morto, fazendo um percurso sinuoso de mais de 300 km (104 km em linha reta), e o seu nome ouve-se por 179 vezes nas páginas do Antigo Testamento e 15 vezes no Novo Testamento. As suas águas curam (2 Reis 5,14: Naamã) e dão acesso à vida nova: é atravessando-o que o Povo entra na Terra Prometida (Josué 3,14-4,24). É ainda belo ver que, depois de um percurso de mais de 300 km, o Jordão entra no Mar Morto, onde, através de uma intensa evaporação, parece subir ao céu, lembrando Elias que sobe ao céu desde o leito do Jordão (2 Reis 2,8-11). É lembrando estes cenários, sobretudo o do Batismo que também cura e dá acesso à vida nova, que muitas Igrejas Orientais chamam «Jordão» ao canal que conduz a água para a fonte batismal, que todos os anos é benzida precisamente neste Dia da Festa do Batismo do Senhor.

5. Ilustra bem o episódio do Batismo de Jesus no Jordão o chamado «Primeiro Canto do Servo do Senhor» (Isaías 42,1-7), que põe em cena Deus e o seu Servo. Deus chama este Servo «meu Servo», diz que o segura e sustenta e que lhe dá o seu Espírito, e confia-lhe uma missão em ordem à verdade e à justiça, à mansidão e ao ensino, à libertação e à iluminação, entenda-se, à vida em plenitude, de todas as nações. Verdadeiramente, Deus é a vida deste Servo, que Ele ampara, leva pela mão e modela. Linguagem de criação, confidência e providência.

6. Há ainda a registar uma expressão forte para dizer a missão de mansidão confiada por Deus a este seu Servo: «Não fará ouvir desde fora a sua voz» (Isaías 42,2). Ora, se não faz ouvir a sua voz desde fora, então é porque a faz ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, dizendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, impostos, armas ou decretos. Se não reina desde fora, então reina desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas. Está bom de ver que Jesus vai assumir a identidade deste Servo e vai cumprir por inteiro a sua missão. De resto, Mateus diz-nos expressamente que Jesus vem cumprir a missão do Servo de Isaías 42,1-4, texto que este Evangelho cita por inteiro em Mateus 12,18-21.

7. No seu discurso em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio, segundo a lição do Livro dos Atos 10,34-38, que hoje temos também a graça de escutar, Pedro dá testemunho da largueza da bondade de Deus, que faz chegar o seu amor de Pai a todas as pessoas de todas as nações, fazendo de todos nós um povo de filhos, irmãos e servos que seguem um único Senhor: Jesus Cristo. Seguindo este único Senhor, a mais nada e a mais ninguém reconhecemos como Senhor. Somos, portanto, chamados a ser livres e a testemunhar, empenhando toda a nossa vida, dia após dia, de acordo com o percurso e o jeito de Jesus que, após o Batismo no Jordão, diz Pedro, passou fazendo o bem e curando todas as pessoas necessitadas. É este o programa de vida de todos os cristãos.

8. Para não esquecer: esta bela missão de Jesus, Batizado com o Espírito no Jordão e declarado o Filho Amado, deve ser a nossa bela missão de Batizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus. É ainda como filhos amados que devemos hoje entoar também as notas deste Gloria in excelsis Deo do Antigo Testamento, que é o belíssimo Salmo 29. A voz (qôl) que por sete vezes se ouve no Salmo bem pode ser a Voz do Pai que a nós se dirige, apresentando e revelando o Filho no Batismo do Jordão, e continua a ressoar na pregação Apostólica como se do setenário dos dons do Espírito Santo ou dos Sacramentos se tratasse. Escreveu São Gregório Magno: «A voz de Deus troa admiravelmente porque, como força escondida, penetra nos nossos corações».

O Filho e o Espírito Santo são,

No dizer de Santo Ireneu de Lião,

As duas mãos do Pai,

Enviadas em missão

Para junto dos seus filhos de adoção.

À semelhança, claro,

Daquelas mãos de amor,

Que, no alvor da Criação,

Modelaram da terra pura o nosso coração,

E de misericórdia o vestiram.

Filhos no Filho, divina hyiothesía,

Hemorragia de graça e de alegria:

Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,

E dá-nos em herança a sua divina filiação.

E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,

Divina comunhão, sem confusão,

Toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,

E faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,

A mais bela lalação que há,

O nome novo Ab-ba!

António Couto


EPIFANIA DO SENHOR

Janeiro 6, 2023

Is 60,1-6; Sl 72; Ef 3,2-3a.5-6; Mt 2,1-12

1. «Eu o vejo, mas não agora,/ eu o contemplo, mas não de perto:/ uma estrela desponta (anateleî) de Jacob,/ um cetro se levanta de Israel» (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, que o Livro dos Números diz ser oriundo das margens do rio Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7).

2. Do Oriente são também os Magos (mágoi), que enchem o Evangelho deste Dia (Mateus 2,1-12), e que representam a humanidade de coração puro e de olhar puro que, agora e de perto, sabe ler os sinais de Deus, sejam eles a estrela que desponta (anateleî) (2,2 e 9) ou o sonho revelador (2,12), a estrela e o sonho indicadores de caminhos novos, belos, insuspeitados. Surpresa das surpresas: até para casa precisamos de aprender o caminho, pois é, na verdade, um caminho novo! (2,12). Excelente, inteligente, o grande texto bíblico: Balaão vem do Oriente, e os Magos também. O texto grego do Livro dos Números e de Mateus diz bem, no plural, «dos Orientes» (ap’anatolôn) (Números 23,7; Mateus 2,1). Só a estrela que desponta (anatolê / anatoleî), no singular (2,2 e 9), pode orientar a nossa humanidade perdida no meio da confusão do plural.

3. De resto, já sabemos que, na Escritura Santa, a Luz nova que no céu desponta (Lucas 1,78; 2,2 e 9; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20) e o Rebento tenro que entre nós germina (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12) apontam e são figura do MESSIAS e dizem-se com o mesmo nome grego anatolê (tsemah TM) ou forma verbal anatéllô. Esta estrela (anatolê) que arde nos olhos e no coração dos Magos está, portanto, longe de ser uma história infantil. Orienta os passos dos Magos e, neles, os de toda humanidade para a verdadeira ESTRELA que desponta e ilumina e para o REBENTO que germina, que é o MENINO. E os Magos e, com eles, a inteira humanidade orientam para aquele MENINO toda a sua vida, que é o que significa o verbo «ADORAR» (proskynéô) (Mateus 2,2.11). Esta «adoração» pessoal é o verdadeiro presente a oferecer ao MENINO.

4. Note-se a expressão recorrente «o Menino e sua Mãe» (Mateus 2,11.13.14.20.21) e o contraponto bem vincado com «o rei Herodes perturbado e toda a Jerusalém com ele» (Mateus 2,3), que abre já para a rejeição final de Jesus. Veja-se também a alegria que invade os magos à vista da sua estrela, ainda antes de verem o Menino (Mateus 2,10), que evoca já a alegria das mulheres, ainda antes de verem o Senhor Ressuscitado (Mateus 28,8). Veja-se ainda o inútil e cansado controlo das Escrituras por parte de «todos os sacerdotes e escribas do povo», que sabem tudo acerca do Messias, mas não se comprometem com ele, não dão um passo de saudação e acolhimento em direção a ele (Mateus 2,4-6). Dá-lo-ão mais tarde. Mas aí é tarde, e é contra ele (Mateus 26,57.59).

5. Mas, para juntar aqui outra vez os fios de ouro da Escritura Santa, nomeadamente 1 Reis 10,1-10 (Rainha de Sabá), Isaías 60 e o Salmo 72, diz o belo texto de Mateus que os Magos ofereceram ao MENINO ouro, incenso e mirra. Já sabemos que, desde Ireneu de Lião (130-203), mas entenda-se bem que isto é secundário, o ouro simboliza a realeza, o incenso a divindade, e a mirra a morte e o sepultamento de Jesus. Já sabemos que se trata de dons preciosos, e, porque são enumerados três, antigas representações da adoração dos Magos mostram também três figuras: um jovem, um homem de meia-idade e um velho, representando um asiático, um europeu e um africano. Claro que estas indicações não estão na letra do texto, mas estão no espírito do Evangelho, que pretende dizer a todos nós que a adoração deste Menino, reconhecido como Rei e Senhor, deve mobilizar gente de todas as idades e de todos os continentes. Afinal, a Epifania é a manifestação de Deus a todas as nações e a todos os corações.

6. Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrónomos, historiadores e curiosos se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis: a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a. C.; b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a. C.; c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a. C. Esta última está registada nos observatórios astronómicos chineses. A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registada nos observatórios da Babilónia e do Egito. Também se pode fazer destes dados uma leitura simbólica e popular que indica um nascimento real, porventura do Messias, Rei dos Judeus, dado que Júpiter é um planeta real e Saturno é a estrela do sábado, portanto, dos Judeus, e a constelação de Peixes representa o fim dos tempos. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registrados em b) e c). Note-se, porém, que a estrela que faz levantar os Magos e os põe em movimento é só vista por eles, estrangeiros como Balaão, que também vê de modo diferente dos outros. Rir-se-iam os Magos, certamente, se soubessem que nós indagamos a abóbada celeste com instrumentos científicos à procura da estrela que alumiava o seu coração. Talvez seja por isso que, enquanto nós nos ocupamos e distraímos com tantas luzes mais ou menos inúteis e estéreis, «muitos virão do oriente e do ocidente, isto é, de fora, e sentar-se-ão à mesa no Reino dos céus» (Mateus 8,11). E nós, que gastámos tanto tempo e dinheiro e esfregámos os olhos a indagar as Escrituras sem lhes descortinarmos o verdadeiro fio de ouro (Mateus 2,4-6), e sem as transpormos para a nossa vida, sem as pormos em prática, corremos o risco de ficar tragicamente fora da porta e do sentido (Mateus 8,12). Que os de fora passem à frente dos de dentro é a surpresa de Deus, e, portanto, uma constante no Evangelho (Mateus 21,33-43; 22,1-13; Lucas 13,22-29). Os de fora são os estrangeiros como Balaão, como os Magos, que vêm e veem de longe, com o olhar puro, sem esquadrias ou sistemas ou ideologias. Estrangeiros que nada possuem: nem terras nem verdades nem pessoas.

7. Está também a transbordar de sentido aquela última anotação: «Por outra estrada regressaram à sua terra» (Mateus 2,12). Não é só para despistar Herodes. Sim, quem viu o que os Magos viram, quem viu como os Magos viram, quem encontrou o que eles encontraram, quem experimentou o que eles experimentaram, não pode mais limitar-se simplesmente a continuar seja o que for. Tudo tem mesmo de ser novo. Também os olhos e o coração. Até para casa precisamos de aprender o caminho!

8. Ilustra bem o grandioso texto do Evangelho de Mateus o soberbo texto de Isaías 60,1-6, que canta Jerusalém personificada como mãe extremosa que vê chegar dos quatro pontos cardeais os seus filhos e filhas perdidos nos exílios de todos os tempos e lugares. Também não falta a luz que desponta (anateleî) (Isaías 60,1) e os muitos presentes, os tais fios que se vão juntar no Evangelho de hoje, de Mateus.

9. Também os versos sublimes do Salmo Real 72 cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva.

10. E o Apóstolo Paulo (Efésios 3,2-3 e 5-6) faz saber, para espanto, maravilha e alegria nossa, que os pagãos são co-herdeiros e comparticipantes da Promessa de Deus em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.

11. Sim. Falta dizer que, no meio de tanta Luz, Presentes e Alegria para todos, vindos da Epifania, que significa manifestação de Deus entre nós e para nós, não podemos hoje esquecer as crianças e a missão. Hoje celebra-se o dia da «Infância Missionária», que são as crianças a ensinar-nos que o Evangelho nos faz verdadeiramente filhos e irmãos. E entre filhos e irmãos não há fronteiras nem barreiras nem muros ou qualquer separação.

12. Sonho um mundo assim. E parece-me que só as crianças nos podem ensinar esta lição maravilhosa.

Do Oriente veio em procissão de esperança

O melhor da nossa humanidade.

Os três magos caminharam à luz de uma estrela nova,

Recém-nascida,

Mansa,

Como uma criança.

A procissão faz-se em passos de dança,

E a estrela só pode ser olhada com olhos puros,

De cristal,

Com alma enternecida,

E coração de natal.

Por isso,

Não a viu Herodes,

Não a viram os guardas,

Não a viram os sábios,

Que arrastavam os olhos por velhos alfarrábios.

Viram-na os magos,

Pegaram nela à mão,

Levaram-na aos lábios,

Deitaram-na no coração.

Vem, Senhor Jesus.

O mundo precisa tanto da tua Luz.

António Couto


HUMILDE TRABALHADOR NA VINHA DO SENHOR

Janeiro 5, 2023

1. Professor brilhante, investigador constante, ilustre defensor da fé, determinado e vigilante, Papa humilde, orante e edificante, Bento XVI foi um sereno raio de sol no suave entardecer de uma tarde de verão que Deus concedeu à sua Igreja e à humanidade inteira. Obrigado, bom Deus.

2. Na homilia da celebração da Eucaristia de abertura do seu ministério petrino, em 24 de abril de 2005, na Praça de S. Pedro, Bento XVI estendeu assim a toalha da mesa da sua vida e do seu pontificado: «Nós existimos para mostrar Deus aos homens. E só onde se vê Deus, começa verdadeiramente a vida». Por detrás deste lineado, está um grande mestre, um grande teólogo, um grande pedagogo, que soube apontar Deus aos homens, não na abóbada celeste, mas no mapa e na vida. Próprio de alguém que sempre soube pôr os pés no chão e abrir regos de esperança na vinha do Senhor.

3. Bento XVI sabia bem, já desde os seus tempos de professor e de pároco, que a humanidade deslizava para fora do átrio da Igreja e, pior do que isso, ia perdendo também Deus pelo caminho. Em vez de Deus, levantava-se agora o Homem, exibindo o vasto arsenal do seu «eu» hipertrófico, de onde retirava os enganadores tesouros da sua autonomia sem sombra de heteronomia e da sua orgulhosa liberdade esvaziada de qualquer responsabilidade. Quanto mais progredia esta maneira de viver sem Deus, sem a providência de Deus, tanto mais Bento XVI era apodado de conservador, de antiquado, muitas vezes apontado quase como uma espécie de antepassado. Já outros renomados pensadores o tinham dito: sem Deus, não há fraternidade; haverá, isso sim, orfandade e abandono (Geworfenheit). Refiro-me a vultos do pensamento como Emmanuel Levinas, Jacob Leib Talmon, Jean-Luc Marion, que também dizem com força que a anulação da transcendência e a perda de fé na providência de Deus que vela sobre os homens constitui a mais vasta e nefasta revolução operada no seio da história humana.

4. Porque leu, investigou, moeu e ruminou montes de livros, mas também a sociedade em que viveu e a alma humana, Bento XVI percebeu que não podia deixar de viver, de dizer e de mostrar Deus. «Com toda a paciência e doutrina», seguindo o conselho de Paulo a Timóteo (2 Tm 4,2), e toda a toada dos Evangelhos, das parábolas contadas por Jesus, que serenamente ensina que o Reino de Deus é semelhante a um grão de mostarda no campo semeado. É a menor de todas as sementes, mas cresce e torna-se na maior de todas as plantas da horta, como uma árvore, em cuja copa vêm abrigar-se as aves do céu (cf. Mt 13,31-32). Este é o tempo e o jeito de Deus, que Bento XVI, como discípulo atento e humilde trabalhador na vinha do Senhor, bem viu, compreendeu e explicou.

5. Nunca se deixou iludir pelos grandes números e pelas estatísticas. Percebeu desde muito cedo que não somos nós que fazemos crescer o rebanho. É Deus! E Deus não escolheu Israel por serem muitos, mas, ao contrário, por serem o menor de entre todos os povos, e porque o amou (cf. Dt 7,7-8). Portanto, não são os nossos métodos mais refinados que trazem de volta as grandes massas que se afastaram da Igreja. A própria história da Igreja tem mostrado que as grandes coisas começam sempre do pequeno grão caído na terra, ao passo que os movimentos de massas são sempre efémeros. As parábolas de Jesus respondem às preocupações dos discípulos que estão sempre à espera de ver Jesus realizar sucessos maiores e sinais mais espetaculares. Mas não nos equivoquemos: esse é o tipo de oferta feita por satanás a Jesus! Outra vez a clarividência de Bento XVI: Não podemos ser nós a conquistar os homens! Teremos de aprender a recebê-los de Deus! Quanta pedagogia e sabedoria e espiritualidade palpitam nestas linhas!

6. Tão-pouco conta o poder e o aparato exterior. As muitas coisas só nos distraem e afastam de Jesus (cf. Lc 10,41-42). Já nem sequer conseguimos habitar os edifícios que construímos em tempos de poder e de riqueza! E outra vez sem equívocos: se a missão a que nos devotamos não brotar de um profundo ato de amor divino, corremos o risco de a reduzir a uma mera atividade filantrópica e social. Portanto, e com toda a carga profética possível: não é pelas muitas coisas, nem pela riqueza, nem pela exibição da vertente filantrópica e social (que é a única coisa que a comunicação social vê e aplaude!), que o Evangelho dará um passo em frente. Será somente pelo que o amor de Deus nos der e nós saibamos receber!

7. Tal como Bento XVI disse nas exéquias de João Paulo II, hoje podemos nós ver Bento XVI a abençoar-nos da janela da casa do Pai.

António Couto


SENHORA DE JANEIRO

Janeiro 1, 2023

1. Mãe de Deus, Senhora da alegria, Mãe igual ao dia, Maria. A primeira página do ano é toda tua, Mulher do sol, das estrelas e da lua, Rainha da Paz, Aurora de Luz, Estrela matutina, Mãe de Jesus e também minha, Senhora de Janeiro, do Dia primeiro e do Ano inteiro.

2. De ti pouco sabemos, singular mulher! Mas esse «sim» que te saiu dos lábios abriu um grande rombo no silêncio. De Bezetha[1], mas sempre de Bethesda[2]: não é o amor o que fica das colinas, das colinas, das palavras e de nós? Bezetha, Nazareth, Ain Karem[3], Betlehem[4]: estivesses onde estivesses, estavas decerto permanentemente à escuta, e estremecias, inundada de alegria, sob a palavra que sobre ti descia em ondas sucessivas de emoção.

3. Uma palavra, depois outra, depois outra: caía sobre ti tanto silêncio, que necessariamente havia de ganhar corpo no teu corpo o corpo que atravessa em contraluz toda a Escritura. Mulher, grande mulher, mulher messiânica, mulher entre todas única, mulher!, aeì parthénos[5], sempre virgem, ao mesmo tempo esposa, ao mesmo tempo mãe: mulher de estrelas coroada, ou solar rapariguinha na solene procissão saltando à corda, ou moreninha enamorada saltando, soltando pelos montes a enleante melodia do shîr hashîrîm[6].

4. Shalôm[7], disseste, shalôm: oh imensa, divina saudação, clarão de Deus nos céus de orini[8], no ventre de Isabel, na dança de João: incontrolável rebentação, indizível lalação. Era de paz a voz dos anjos, era de paz, como sempre foi a voz de Deus.

5. Menina de Deus bendita! Sossegada e livre e firme, levas os teus filhos pela mão, salvo-conduto para a esperança, Mulher de todas as esperas. O tempo em que vamos é semelhante ao de Herodes, tu sabe-lo bem, atravessado por tanta tirania e prepotência, batido por tantas vagas de poder e ambição.

6. Faz-nos sentir, Mãe, o calor da tua mão no nosso rosto frio, insensível, enrugado. Acaricia-nos. Senta-nos em casa ao redor do amor, do coração. Somos tão modernos e tão cheios de coisas estes teus filhos de hoje! Tão cheios de coisas e tão vazios de nós mesmos e de humanidade e divindade! Temos tudo. Mas falta-nos, se calhar, o essencial: a tua simplicidade e alegria.

7. Abençoa, Mãe, os nossos dias breves. Ensina-nos a vivê-los todos como tu viveste os teus, sempre sob o olhar de Deus e a olhar por Deus. É verdade. A grande verdade da tua vida, o teu segredo de ouro. Tu soubeste sempre que Deus velava por ti, enchendo-te de graça. Mas tu soubeste sempre olhar por Deus, porque tu soubeste que Deus também é pequenino. Acariciada por Deus, viveste acariciando Deus. Por isso, todas as gerações te proclamam «Bem-aventurada»!

António Couto


[1] Lugar tradicional do nascimento de Maria, na colina junto da porta Probática e da piscina gémea do mesmo nome, a norte da esplanada do Templo de Jerusalém.

[2] Significa «casa do amor».

[3] Cidade de Isabel e João Baptista, situada no meio da região montanhosa de Orini, a cerca de 8 km a sudoeste de Jerusalém.

[4] Nome hebraico de Belém [= «casa do pão»].

[5] Expressão grega que significa «sempre virgem».

[6] Expressão hebraica que significa «Cântico dos Cânticos», nome de um livro da Bíblia, poema de amor que canta o amor do noivo e da noiva.

[7] Habitual saudação hebraica, que significa «paz», «felicidade».

[8] Nome geográfico da região montanhosa cujo centro é Ain Karem, cidade de Isabel e João Batista.


SANTA MARIA, MÃE DE DEUS

Dezembro 30, 2022

Nm 6,22-27; Sl 67; Gl 4,4-7; Lc 2,16-21

1. Oito dias depois da Solenidade do Natal do Senhor, que a liturgia oriental designa significativamente por «a Páscoa do Natal», eis-nos no Primeiro Dia do Ano Civil de 2023, tradicionalmente designado como Dia de «Ano Bom», a celebrar a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. A figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é, portanto, a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.

2. É assim que a encontramos no Lecionário de hoje. Desde logo naquela menção sóbria, e ousamos mesmo dizer pobre (na riqueza espiritual que o termo contém), com que Paulo se refere à Mãe de Jesus, escrevendo aos Gálatas: «Deus enviou o seu Filho, nascido (genómenon) de mulher, nascido (genómenon) sujeito à Lei» (Gálatas 4,4). Duplo nascimento: nascido de mulher, isto é, como todos nós, nosso irmão em humanidade; nascido sujeito à Lei, isto é, membro do povo hebreu, a quem Deus tinha dado a sua Lei. Nesta linha breve e densa e, todavia, com uma repetição vocabular só aparentemente desnecessária, aparece compendiado o mistério da Incarnação, ao mesmo tempo que se sente já pulsar o coração da Mariologia: Maria não é grande em si mesma; é, na verdade, uma «mulher», verdadeiramente nossa irmã na sua condição de humana criatura. Não é grande em si mesma, mas é grande por ser a Mãe do Filho de Deus, e é aqui que ela nos ultrapassa, imaculada por graça, bem-aventurada e bem-aventurança, nossa mãe na fé e na esperança. Ela é a Mãe do Filho de Deus e filho seu. Para falar do nascimento de João, refere o texto, de forma um tanto ou quanto indeterminada, que Isabel «deu à luz um filho» (egénnêsen hyión) (Lucas 1,57). Mas para falar do nascimento de Jesus, o texto diz, de um modo todo particular, que Maria deu à luz «o seu filho o primogénito» (tòn hyiòn autês tòn prôtótokon) (Lucas 2,7). O facto desta designação de Jesus como «o primogénito» não significa que Maria tenha tido outros filhos depois dele, mas revela tão-só a sua singular consagração a Deus, como vinha referido no Livro do Êxodo 13,2: «Consagra-me todo o primogénito, aquele que abre o ventre materno, entre os filhos de Israel, dos homens e dos animais. Ele é meu». É por isso que ao episódio do Evangelho de hoje (Lucas 2,16-21) se segue imediatamente o episódio da «apresentação ao Senhor» (Lucas 2,21-22). Maria não é grande em si mesma; vem-lhe de Deus essa grandeza. Vem-lhe do facto de ser a Mãe deste Filho, seu e de Deus.

3. O Evangelho deste Dia de Maria guarda também uma preciosidade, quando Lucas nos diz que «todos os que tinham escutado as coisas faladas pelos pastores ficaram maravilhados, mas Maria guardava (synetêrei) todas estas Palavras (tà rhêmata), compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,18-19). Em contraponto com o espanto de todos os que ouviram as palavras dos pastores, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria, ao contrário, guardava todas estas Palavras, compondo-as no seu coração». Há o espanto e a maravilha que se exprimem no louvor e no canto, e há o espanto e a maravilha que se exprimem no silêncio e na escuta qualificada. Maria, a Senhora deste Dia, aparece a guardar com ternura todas estas Palavras, todos estes acontecimentos que falam e não esquecem. O verbo guardar implica atenção cheia de ternura, como quem leva nas suas mãos uma coisa preciosa. Este guardar atencioso e carinhoso não é um ato de um momento, mas a atitude de uma vida, uma vez que o verbo grego está no imperfeito, que implica duração. Como quando o povo de Deus reza confiante: «Guardai-nos e defendei-nos como coisa própria vossa».

4. O outro verbo belo mostra-nos Maria como que a compor, isto é, a «pôr em conjunto» (symbállô), a organizar, para melhor entender, e para melhor dar a entender. É como quem, com aquelas Palavras, compõe um Poema, uma Sinfonia, e se entretém a vida inteira a trautear essa melodia e a conjugar novos acordes de alegria. E é dito ainda, num pleonasmo único na Escritura Santa, que Maria «concebeu no ventre» (syllambánô en tê koilía) (Lucas 2,21). De Isabel apenas se diz que «concebeu» (syllambánô) (Lucas 1,24). Redundância. Música divina. O ventre de Maria em consonância com o «ventre das misericórdias do nosso Deus» (Lucas 1,78), causa da Luz que nas alturas se levanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na nossa terra germina, que a nossa terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria, a quem neste oitavo Dia é posto o Nome de Jesus, Nome vindo de Deus através do anúncio de Gabriel (Lucas 1,31). Na Escritura Santa, a Luz que no céu nasce e irradia, como uma estrela, e o Rebento tenro, que na nossa terra germina, apontam e são figura do Messias, e dizem-se com o mesmo vocábulo grego, anatolê (hebraico, tsemah).

5. Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia que nos vem de Deus, levou o Papa Paulo VI, S. Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz. Hoje é já o 56.º Dia Mundial da Paz que se celebra, a que o Papa Francisco, no seguimento da dura experiência da luta nos últimos anos contra a pandemia, apôs o lema «Ninguém pode salvar-se sozinho». Só que à pandemia sucedeu, entretanto, a guerra absurda que assola violentamente uma parte da Europa e cujos estilhaços se fazem sentir em todo o continente e um pouco por toda a parte. Guerra absurda, porque não se trata de uma guerra entre dois exércitos para tal preparados e armados. Trata-se de um despejo da nojenta estupidez que nos habita sobre uma população humana pacífica, normal e sensata, que nada tem a ver com tamanha, incomensurável e incompreensível cegueira, que envergonha a inteira humanidade. Neste contexto, o suspiro humano pela paz transformou-se num grito imenso que há de com certeza atingir o céu. A paz é mais, muito mais do que a ausência de guerras. A paz é uma refeição saborosa, servida por Deus aos seus filhos. Na verdade, não temos sabido gerir como filhos e irmãos o pão nosso de cada dia, que em cada dia nos é dado. Daí que, do meio da guerra que a todos nos atinge, se levante outra vez este grito dorido pela paz. E é bom que não deitemos a perder esta oportunidade que Deus nos dá para tomarmos consciência de que estamos doentes e nos temos vindo a arrastar no lamaçal da banalidade, da indiferença e da equivalência, em que vale tudo e tudo vale o mesmo, talvez a mais grave doença que afeta a humanidade deste tempo sem fontes e sem horizontes. Na verdade, nesta «noite do mundo», em que domina a escuridão, literal na Ucrânia, e a nefasta atração pela morte, palpável na guerra, mas também nas já consideradas conquistas da liberdade, como sejam a interrupção voluntária da gravidez e a eutanásia, tudo nos aparece sem Deus, sem rosto e sem rumo, só com fumo, sem irmão, sem irmã, tudo à medida sem medida da hipertrofia do «eu», que julga poder dispor de uma soberania e autonomia ilimitadas, sem sequer nos apercebermos do número cada vez mais elevado de deserdados, abandonados, refugiados e velhinhos que já perderam a soberania e a quem já roubámos a autonomia e a liberdade, e que continuamos a atirar com disfarçada subtileza para o sótão das inutilidades.

6. Ao contrário, de Deus vem sempre um mundo novo, belo, maravilhoso. Tão novo, belo e maravilhoso, que nos cega, a nós que vamos arrastando os olhos cansados pela lama. Que o nosso Deus faça chegar até nós tempo e modo para ouvir outra vez a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde./ O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável./ O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Números 6,24-26).

7. O Salmo 67 é uma oração de bênção em forma de petição. Em termos técnicos, equivale a uma epiclese: não «eu te bendigo», mas «Deus nos bendiga». O nosso Salmo recolhe os temas da bênção sacerdotal de Números 6,24-26, como a graça, a luz, a benevolência, a paz, pondo o plural onde estava o singular, por assim dizer, «democratizando» a bênção, agora dirigida a todos, onde, na bênção sacerdotal do Livro dos Números, se dirigia apenas a Israel.

8. Olhada por Deus com singular olhar de Graça foi Maria, também Pobre, também Feliz, Bem-aventurada, Santa Maria, Mãe de Deus, que hoje celebramos em uníssono com a Igreja inteira. Para ela elevamos hoje os nossos olhos de filhos enlevados.

9. Que seja, e pode ser, Deus o quer, e nós também podemos querer, um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor, para todos os irmãos que Deus nos deu! E que Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe nos abençoe também. Amen!

Que Deus nos abençoe e nos guarde,

Que nos acompanhe, nos acorde e nos incomode,

Que os nossos pés calcorreiem as montanhas,

Cheios de amor, de paz e de alegria,

Que a tua Palavra nos arda nas entranhas,

E nos ponha no caminho de Maria.

O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

O fiat que disseste, Maria, é de quem se fia

Num amor maior do que um letreiro.

Vela por nós, Maria, em cada dia

Deste ano inteiro,

Para que levemos a cada enfermaria,

A cada periferia,

Um amor como o teu, primeiro e verdadeiro.

António Couto


O MENINO E A SUA MÃE

Dezembro 29, 2022

Sir 3,2-6.12-14; Sl 128; Cl 3,12-21; Mt 2,13-15.19-23

1. Atravessamos ainda a Solenidade do Natal do Senhor, dado que esta Solenidade se prolonga durante oito dias (Oitava) até à Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, que se celebra no primeiro Dia de Janeiro.

2. O Natal do Senhor põe diante do nosso olhar contemplativo uma Família humilde e bela, Jesus, Maria e José, mas traz também consigo uma forte sensibilidade Familiar, tornando-se o tempo forte da reunião festiva das nossas Famílias. Estes dois acertos são importantes para se compreender a razão pela qual, no Domingo dentro da Oitava do Natal, quando existe, ou no dia 30 de dezembro, como sucede este ano em que nenhum Domingo existe entre o Natal e o Ano Novo, a Igreja celebre a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.

3. Os textos da Liturgia são outra vez preciosos. O Evangelho põe no nosso coração os últimos episódios do Evangelho da Infância segundo S. Mateus (2,13-15.19-23), habitualmente conhecidos por «Fuga para o Egito» e «Regresso do Egito à Terra de Israel». Na inteireza do texto que Hoje, por graça, nos é dado ler e escutar, vemos e ouvimos por quatro vezes a extraordinária e significativa locução «o Menino e a sua Mãe» (tò paidíon kaì tên mêtéra autoû) (Mateus 2,13.14.20.21), formando uma unidade inseparável. A expressão, fortíssima, surge no contexto de uma missão por duas vezes confiada em sonho a José pelo Anjo do Senhor, para que «tome consigo o Menino e a sua Mãe» e procure refúgio no Egito, ou que do Egito volte para a Terra de Israel, o que José executa pronta e silenciosamente, «tomando consigo o Menino e a sua Mãe», e encaminhando-se diligentemente para os destinos indicados. Esta forte vinculação do Menino à sua Mãe, e dos dois a José, que os deve tomar consigo e a seu cargo (paralambánô) traduz bem a união familiar que hoje, Dia da Sagrada Família, se celebra.

4. Mas o texto de Mateus guarda muitos outros tesouros. Desde logo, o facto de vermos Jesus a refazer a história de Israel e a nossa história também, tornando-se assim verdadeiro filho de Israel e da nossa humanidade dorida, hoje com a Ucrânia em primeiro plano. Desde pequenino, Jesus desce ao nosso chão e ao nosso coração, sofre as nossas raivas e violências, conhece a perseguição, o mundo dos exilados e dos refugiados, vive como clandestino e «descartado», como tantos dos nossos concidadãos de hoje e de todos os tempos. Como aqueles irmãos nossos que da África partem para a Europa sem documentação e atravessando o Mediterrâneo em frágeis e sobrelotadas embarcações, em condições sub-humanas, e que, se escaparem da intempérie marítima, são retidos na fronteira e atirados para a fome e para a miséria ou simplesmente para o lixo. Assemelha-se ainda a quantos da Europa de Leste e do Terceiro Mundo entram no Ocidente, e conhecem todos os cantos e esquinas da clandestinidade, da rejeição e da indiferença humana. Assim Jesus entra na nossa história dorida e na história do seu Povo, Israel, fazendo a experiência fundamental do Êxodo, descendo ao Egito e saindo do Egito, para entrar na Terra de Israel. O quadro, convenhamos, está longe do tom romântico pintado por Murillo. O jumento, que a cultura popular associou a este episódio, pode provir de idêntico quadro e idêntica linguagem, do Livro do Êxodo 4,20.

5. Não é um Deus de luxo e uma família de luxo. Planta a sua tenda nos campos dos refugiados, e conhece a miséria total. Será, como é sabido, rejeitado na sua terra e crucificado fora dos muros da cidade dos homens, que se quer sempre tranquila e serena e não contaminada. É assim que Jesus absorve e absolve as nossas páginas mais doridas. É assim, profunda e subtil, a sua presença em solo ucraniano.

6. Aqui estão sempre as linhas entrelaçadas da perseguição e da libertação, com Deus sempre subtilmente por detrás. Revivendo a experiência fundamental da perseguição e do Êxodo, Jesus torna-se um verdadeiro filho de Israel. E, com a anotação precisa de que ENTROU na TERRA DE ISRAEL (Mateus 2,21), Jesus reúne e dá cumprimento a vários fios perdidos e dispersos na história bíblica. Desde logo, vai ao encontro de Moisés, que tinha ficado fora da Terra da Promessa (Deuteronómio 4,21-22; 32,51-52; 34,4), mas reúne também os exilados que, provindos da Babilónia, não entraram na Terra de Israel (Ezequiel 20,28). Em nome de todos, a todos reunindo, Jesus cumpre agora o ingresso definitivo nessa Terra.

7. E no versículo que se segue imediatamente no texto de Mateus (2,22), nós lemos que, uma vez mais guiado em sonho, isto é, por Deus, José não ficou em Jerusalém ou na Judeia, e foi para a região da GALILEIA. Com esta menção da região da GALILEIA, trata-se de estabelecer uma ponte para a Terra sombria, mas que será iluminada, de Isaías 8,23-9,1. Jesus é a grande LUZ que alumia essa região queimada e humilhada por sucessivos desastres históricos e calcada por muitas botas militares. Mas abre também uma ponte para o início do anúncio do Evangelho por parte de Jesus, referido em Mateus 4,12-17, que cita, de resto, na íntegra, a anterior passagem de Isaías. Mas é também o final do Evangelho de Mateus que fica iluminado, pois é na Galileia que Jesus precede sempre os seus discípulos-irmãos (Mateus 28,7 e 10), é para lá que eles se dirigem (Mateus 28,16), e é de lá que são enviados a levar o Evangelho a todos os corações (Mateus 28,18-20).

8. Em voz-off, mediante o sonho e através de citações da Escritura Santa, Deus guia esta Família, que assim é perseguida e rejeitada pelos homens, mas está sempre nas mãos de Deus. A primeira citação, «Do Egito chamei o meu filho», é de Oseias 11,1, e a segunda, «Será chamado Nazareu», sem provir de um lugar explícito, reúne preciosos fios de significado. Evoca Nazaré, uma pequena povoação desconhecida, que nunca é mencionada no Antigo Testamento, e que, no tempo de Jesus, não contaria mais de 500 habitantes, mas aponta ainda para Nazîr [= Consagrado] e Netser [= Rebento], termos densos de religiosidade, e o segundo de cariz claramente messiânico (Isaías 11,1).

9. Dentro da temática da Família, o Antigo Testamento traz-nos hoje um extrato sapiencial retirado do Livro de Ben Sira (ou Eclesiástico) 3,2-6.12-14, e que nos convida ao amor dedicado aos nossos pais sempre, para que o Senhor ponha sobre nós o seu olhar de bondade.

10. O Salmo 128 é a música suave, de teor didático-sapiencial, que canta uma família feliz e nos mostra a fonte dessa felicidade: a bênção paternal do Senhor. «Felizes os que esperam no Senhor,/ e seguem os seus caminhos», é a bela litania em que o refrão nos faz entrar.

11. Finalmente, o Apóstolo Paulo, na Carta aos Colossenses 3,12-21, exorta esposos, pais e filhos ao amor mútuo, mostrando ainda de que sentimentos nos devemos vestir por dentro e de que música devemos encher o nosso coração. Salta à vista que a bondade, a humildade, a mansidão, a longanimidade, o amor, o perdão são vestidos importantes para a festa, mas não se compram nem vendem por aí em nenhum pronto-a-vestir. Nesta época de bastante consumismo, convém que nunca nos esqueçamos de Deus, pois é Ele, e só Ele, que veste carinhosamente o coração dos seus filhos.

Santa Maria de um amor maior,

Do tamanho do Menino que levas ao colo,

Diante de ti me ajoelho e esmolo

A graça de um lar unido ao teu redor.

Protege, Senhora, as nossas famílias,

Todos os casais, os filhos e os pais,

E enche de alegria, mais e mais e mais,

Todos os seus dias, manhãs, tardes, noites e vigílias.

Vela, Senhora, por cada criança,

Por cada mãe, por cada pai, por cada irmão,

A todos os velhinhos, Senhora, dá a mão,

E deixa em cada rosto um afago de esperança.

António Couto


JESUS VEM NASCER EM BELÉM

Dezembro 23, 2022

Noite: Is 9,1-6; Sl 96; Tt 2,11-14; Lc 2,1-14

Aurora: Is 62,11-12; Sl 97; Tt 3,4-7; Lc 2,15-20

Dia: Is 52,7-10; Sl 98; Hb 1,1-6; Jo 1,1-18

1. «Exultemos de alegria no Senhor, porque nasceu na terra o nosso Salvador», é a Antífona do Cântico de Entrada da Missa da Noite, que dá o devido tom de exultação a esta Solenidade, magnífico pórtico para este intenso feixe de Luz, Mistério de Jesus, fazendo logo ver o Natal à Luz da Páscoa, «a Páscoa do Natal», assim o diz significativamente a liturgia oriental. A Antífona da Missa da Aurora prossegue a mesma sintonia, conjugando Isaías 9,1 e Lucas 2,11, e soa assim: «Hoje sobre nós resplandece uma Luz: nasceu o Senhor». A Antífona da Missa do Dia continua a indicar o «para nós» deste Filho e do seu Mistério, trazendo ao de cima outra vez a pauta luminosa de Isaías: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (Isaías 9,6).

2. A linha dos Evangelhos deste Dia é de excecional riqueza, e desenvolve-se em quatro andamentos: o acontecimento, o anúncio, o acolhimento e a revelação do Verbo feito carne. Começa com Lucas 2,1-14 (Noite), e continua com Lucas 2,15-20 (Aurora), que nos trazem o quadro histórico-geográfico do nascimento de Jesus (Lucas 2,1-7), o seu anúncio (Lucas 2,8-14) e acolhimento (Lucas 2,15-20), e culmina com o prólogo de João 1,1-18 (Dia), que nos mostra a Luz fulgurante do Verbo de Deus feito carne, o Único que nos pode dizer Deus. O nascimento de Jesus, na sua nudez, aparece narrado três vezes, nos três andamentos do texto lucano (Lucas 2,7.12.16). Ele é claramente o centro. Aparece logo situado no decurso do recenseamento do mundo romano ordenado por César Augusto, sendo Quirino prefeito romano da Síria (Lucas 2,1-2). O reinado de Augusto estende-se por muitos anos (27 a.C.-14 d.C.), mas Pôncio Sulpício Quirino foi prefeito da Síria apenas no ano 6 d.C., sendo então que liquida os bens de Arquelau, filho de Herodes o Grande, e anexa definitivamente a Judeia ao Império Romano. O leitor menos prevenido dirá logo que há aqui uma imprecisão histórica. Acrescento então que este recenseamento foi iniciado em 7-6 a.C. por Sêncio Saturnino, prefeito da Síria durante os anos 9-6 a.C. É sabido, de resto, que a era cristã atualmente em vigor foi fixada no século VI pelo monge xiita, de origem egípcia, Dionísio o Pequeno, com um pequeno erro de cálculo que resultou no atraso de 6 ou 7 anos em relação ao nascimento de Jesus. Portanto, Jesus terá nascido 6 ou 7 anos antes do início da era cristã fixada pelo monge Dionísio. E aí está então tudo em dia: Jesus nasce quando Sêncio Saturnino dá início ao recenseamento. Dirá outra vez o leitor incauto: se assim foi, por que é que Lucas fala de Quirino, e não de Saturnino? Se repararmos bem, Lucas faz exatamente como nós fazemos hoje. Nas placas que colocamos nos edifícios públicos que inauguramos constam os nomes das autoridades que os terminam e inauguram, e não daqueles que os iniciam. O mesmo se diga da promulgação de leis e tratados.

3. É ainda no quadro deste recenseamento que José, acompanhado por Maria, sua esposa, sobe a Belém para se recensear. O texto explica bem que esta deslocação se fica a dever ao facto de José ser da descendência de David (Lucas 2,3-4). O próximo passo refere que, quando chegaram (José e Maria), não havia lugar para eles na sala (Lucas 2,7). Note-se que o texto refere, de forma clara, sala, grego katályma, e não hospedaria, como se lê em muitas e preconceituosas traduções. Na verdade, Lucas sabe bem dizer hospedaria, como faz na passagem do bom samaritano (Lucas 10,34), em que usa o termo grego pandocheîon. Katályma não significa hospedaria. Significa sala. Pode ser a sala do andar superior (Lucas 22,11), que ficou conhecida como Cenáculo, onde Jesus comerá a Ceia da Páscoa com os seus discípulos. No episódio de Belém, que estamos a ler, pode tratar-se de uma sala destinada a hóspedes que a arqueologia pôs a descoberto no rés-do-chão de muitas das casas da Judeia do tempo de Jesus. Esta sala apresenta forma quadrangular ou retangular, com um banco rochoso ao longo das paredes, destinado ao descanso das pessoas. A sala tinha uma única porta de entrada, por onde entravam as pessoas com os seus animais de transporte. Ao fundo da sala localizava-se outra porta, que dava para um estábulo, para onde as pessoas conduziam naturalmente os animais. É neste estábulo anexo à sala destinada aos hóspedes que vai nascer Jesus, e é também aqui que se compreende perfeitamente a presença da manjedoura (Lucas 2,7 e 12).

4. Vem depois a cena maravilhosa da manifestação desta Notícia aos pastores dos campos de Belém. Os pastores são os últimos da sociedade, e não entram nas contas de ninguém, tal como o pequeno pastor de Belém, David, não entra nas contas já encerradas de seu pai (1 Samuel 16,10-11), mas entra nas contas de Deus (1 Samuel 16,11-12). O mesmo acontece com os pastores de Belém, a quem o mensageiro celeste anuncia a Alegria do nascimento de um Salvador para todo o povo, Hoje nascido em Belém (Lucas 2,8-11). E, deste acontecimento, o mensageiro celeste dá um sinal (sêmeîon) aos pastores e a nós: «encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deposto numa manjedoura» (Lucas 2,12). E, depois daquele celestial e humano Gloria in excelsis Deo e Paz na terra aos homens que Ele ama (Lucas 2,14), aí vão eles, os pastores, aqueles com quem ninguém conta e que não entram em nenhuma lista de pessoas dignas de consideração, aí vão eles apressadamente (Lucas 2,16), como Maria (Lucas 1,39), verificar (ideîn) os acontecimentos a eles dados a conhecer por Deus (Lucas 2,15), e que, como verdadeiros anunciadores, não podem calar, e devem dar também a conhecer a todos (Lucas 2,17). Note-se o aroma desta Paz diferente, que não é obra das armas, como no mundo romano, nem de acordos entre as partes, como no judaísmo palestinense, mas dom de Deus!

5. Cena sublime e suprema ironia. Os senhores do mundo (César Augusto e Quirino) são mencionados, mas saem logo de cena, para dar lugar aos pastores, que assumem o papel de verdadeiros protagonistas. Os senhores do mundo ocupam um único versículo cada um (Lucas 2,1 e 2). Os pastores enchem treze versículos (Lucas 2,8-20). Também lá estão Maria, José e o Menino, mas não dizem uma única palavra. A palavra é toda dos Anjos e dos pastores. Mas Maria é estupendamente retratada a «guardar todas aquelas palavras, compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,19). Note-se ainda o sinal dado aos pastores e a nós, leitores: um recém-nascido envolto em faixas, deposto numa manjedoura. É preciso também começar a ver já aqui a Luz da Páscoa, a «Páscoa do Natal», com o corpo de Jesus a ser envolto num lençol e deposto num sepulcro (Lucas 23,53). Mas também a sala (katályma) onde não havia lugar para eles (Lucas 2,7) reclama já a sala (katályma) para comer a Páscoa (Lucas 22,11), onde haverá lugar para Jesus e para nós! O Evangelho do Dia, o prólogo do Evangelho de João 1,1-18, deixa-nos de joelhos em contemplação: «E o Verbo se fez carne e pôs a sua tenda (eskênôsen) entre nós, e nós contemplámos (theáomai) a sua glória» (João 1,14). Mas também: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11). Leitura sublime do presépio, da falta de lugar para Jesus, e a sua rejeição já desde então encenada e em prolepse acenada.

6. Mas é imperioso ler este extraordinário texto até ao fim. E, no final, no v. 18, lemos: «Deus (theón), ninguém (oudeís) viu (heôraken: perf. de horáô) nunca (pôpote); o Monogénito Deus (monogenês theós), Aquele-que-é (ho ôn) para o seio do Pai (heis tòn kólpon toû patrós), Ele (ekeînos) fez exegese (exêgêsato)» (Jo 1,18). Este texto imenso introduz a afirmação da revelação pelo Filho Monogénito e marca bem a invisibilidade de Deus por nós, que exclui toda a espécie de “visão” humana, quer física quer intelectual. Revelação exclusiva: nenhum ser humano atinge diretamente Deus. E gratuita: note-se a mudança de sujeito: não nós, mas o Filho Monogénito trouxe a revelação. É sobre esta nova dimensão da revelação de Deus a cargo do Verbo, na parte final do v. 18, que recai o acento do inteiro versículo. Este texto traz, portanto, um dado novo: a exclusividade do agente da revelação. Só o Filho Único de Deus (monogenês designa o Filho e exprime a sua relação única, que não se pode comparar a nenhuma outra, com Deus), voltado para o seio do Pai, para a sua Origem, para o seio em que é eternamente gerado, verdadeira «cátedra» divina, pode explicar-nos o Deus que nunca ninguém viu (heôraken). Não é que a tese seja a invisibilidade de Deus. O texto, imenso, não tem vocação metafísica. Com o recurso ao verbo no tempo perfeito (heôraken), que cobre o passado e o presente, e ao advérbio temporal pôpote [= nunca], que exclui a história humana, o texto pretende colocar-nos perante o momento decisivo da história entre Deus e a humanidade. E é Jesus o centro dessa história.

7. Este Filho em Belém e na Cruz nascido, totalmente voltado para o seio do Pai, e que é eternamente consciente de receber do Pai todo o seu ser filial, é o único capaz de nos trazer a revelação. Sendo o revelador definido pela sua relação filial e intradivina, podemos então esperar que o ato de revelação e o seu conteúdo sejam constituídos por esta relação filial. Neste sentido, podemos agora notar com atenção meticulosa como o termo theós [= Deus], que abre o v. 18, vem a ser intencionalmente substituído no fecho, em 18b, pelo termo patrós [= Pai]. Na verdade, esta relação divina, inefável oceano da Divindade Única, é, sem mediação temporal, coextensivamente e coeternamente, in eterno, o Gerar paterno e o Ser-gerado filial: um único Gerar, um único Ser-gerado. Seguindo a preciosa formulação de S. Gregório de Nazianzo (329-389), que mereceu o título de «O teólogo» (ho theólohos), desta relação intradivina única entre o Pai e o Filho, o Pai, Arquétipo divino paterno, que é eternamente, «Aquele que é sem princípio» (ánarchos), e o Filho Monogénito, que é eternamente gerado, «Aquele que é gerado sem princípio» (ánarchôs gennêthéntes), Imagem divina filial, nada saberíamos, se o Verbo Único do Pai, Imagem eterna do Pai, e em si mesmo, como Deus, invisível por definição, não se tivesse feito, filialmente, também Imagem espacial e temporal do Pai, através da Incarnação, também esplendidamente afirmada e formulada no prólogo joanino (v. 14), que aqui inserimos novamente: «E o Verbo fez-se (egéneto) carne e pôs a sua tenda (eskênôsen) no meio de nós, e nós contemplámos (etheasámmetha) a sua Glória (dóxa), Glória de Monogénito do Pai, Cheio de graça e de verdade» (João 1,14).

8. Fica assim a claro a vinculação e unidade entre os v. 14 e 18, entre a invisibilidade de Deus (v. 18) e a visibilidade da Glória do Verbo Incarnado (v. 14), que podemos demorada e intensamente contemplar, como sugere o uso do verbo theáomai, um olhar prolongado que se abre à contemplação e interioridade. O Verbo Único de Deus, Deus Ele mesmo, sem deixar de ser o que eternamente é junto do Pai, com o Espírito Santo, fez-se também a nossa carne humana, e cumpriu o Êxodo histórico juntamente connosco ao pôr a sua tenda no deserto da vida humana, «entre nós, em nós», connosco. Há que acentuar aquele «fez-se» (egéneto), que põe em relação a divindade com a carne, associação que é absolutamente estranha e incompreensível para a mentalidade grega, segundo a qual a essência divina é por definição imutável e impassível, excluindo a ousía divina qualquer alteração, que seria “geração e corrução”. Outra vez a feliz formulação de S. Gregório de Nazianzo: «O que era, manteve; e o que não era, assumiu. Antes, era sem causa (anaitíôs), pois a causa (aitía) de Deus, qual é? Mais tarde, nasceu devido a uma causa (di’ aitían), para que tu fosses salvo, tu, que o insultaste; tu, que desprezaste a divindade, por ela ter acolhido a tua baixeza». Oh insondável mistério do amor de Deus!

9. Os passos dos peregrinos e os nossos convergem Hoje para a Basílica da Natividade em Belém. Não obstante os múltiplos trabalhos de reconstrução e conservação ao longo dos séculos, a Basílica que hoje se depara ao peregrino é, nas suas linhas gerais, obra do imperador Justiniano, edificada entre 531 e 565, e é mesmo o único templo, provindo de Justiniano, que resta na Palestina. Escapou à razia dos Persas de Cosroé II, em 614, contra os templos cristãos, devido ao facto de os frescos que adornam a Basílica conterem representações dos Magos, o que muito terá sensibilizado os Persas. Esta não é, porém, a Basílica primitiva. Os trabalhos arqueológicos efetuados pelo P. Bagatti em 1949-1950 mostraram, por debaixo do pavimento da atual Basílica, os traços arquitetónicos de outra grandiosa Basílica, levantada entre 326 e 333, por Santa Helena, mãe do imperador Constantino. Esta primitiva Basílica foi assolada por diversos incêndios e depois grandemente devastada pela revolta dos Samaritanos de Nablus em 529 contra o governo bizantino. Foi sobre as ruínas desta Basílica Constantiniana que o imperador Justiniano fez construir, com traços arquitetónicos diferentes, a Basílica atual.

10. Mas a Basílica Constantiniana também não representa o estádio primitivo do culto cristão em Belém. Este encontra-se certamente na cripta da Basílica atual, guardado num espaço retangular de 12,30 metros de comprimento por 3,50 metros de largura, para onde convergem os passos dos peregrinos. Este espaço corresponde ao estábulo anexo à já mencionada sala de hóspedes. Aí se encontra o Altar da Natividade, debaixo do qual se pode ver uma estrela de prata com a inscrição: Hic de Virgine Mariae Jesus Christus natus est [= «Aqui da Virgem Maria nasceu Jesus Cristo»]. A Basílica da Natividade guarda na sua cripta o mistério do nascimento de Jesus, da pobreza, da humildade, do amor, da paz. Daquele e daquilo que não tem lugar na sala do nosso bem-estar, poder, ódio, ostentação, tirania. Na tua casa e na tua sala há lugar para quem e para quê, meu irmão deste Dia de Natal?

António Couto


LER A EUROPA

Dezembro 23, 2022

1. A Europa, que nós, europeus, vemos sempre como centro do mundo, foi durante muito tempo um conceito vago. Nas suas famosas Histórias, o historiador grego Heródoto (484-425 a.C.) refere que a Europa e a terra dos gregos era o que ficava para cá das fronteiras dos Persas, que consideravam a Ásia como a sua terra.

2. Eneias, o herói virgiliano que, no Livro Segundo da Eneida, parte de Troia em direção ao Lácio carregando aos ombros o velho pai Anquises e apertando a mão do seu pequeno filho Iulo, pode constituir o arquétipo literário, universalmente reconhecido, que serve para dar corpo plástico ao tema: «Os fundamentos de uma Europa em construção».

3. Com a formação dos Estados Helénicos e do Império Romano construiu-se um continente, que veio mais tarde a ser a Europa, mas com fronteiras muito diferentes. Começou por integrar as terras à volta do Mediterrâneo, que se sentiam unidas por laços culturais, comunicações e trocas comerciais, idêntico sistema político. Em termos religiosos, foi o Cristianismo que desde cedo veio dar uma maior consistência a esta bacia do Mediterrâneo.

4. Todavia, com a marcha triunfal do Islão no séc. VII e princípios do séc. VIII, o Mediterrâneo foi cortado ao meio, de tal modo que aquilo que até aí era um continente, fica então dividido em três: Ásia, África e Europa. Por volta do ano 700, este espaço cultural e religioso perde definitivamente a zona meridional do Mediterrâneo, mas estende-se para Norte, incluindo as Gálias, a Bretanha e a Germânia, até à Escandinávia. E em finais do séc. VIII, princípios do IX, com Carlos Magno (742-814), para alguns historiadores o verdadeiro fundador da Europa, consolida-se esta nova Europa, herdeira cultural do antigo Império Romano, que agora se vê como que renascido e fortemente impregnado pelo Cristianismo. Carlos Magno foi coroado em Roma, no Natal de 800, pelo Papa Leão III.

5. Entretanto, com o fim do Império Carolíngio, esta ideia de Europa desvanece-se, para voltar a aparecer de novo no início dos tempos modernos, em 1493, por causa do perigo turco. Mas só no séc. XVIII se afirmará de forma universal.

6. Se o Império Romano teve no Ocidente uma história atribulada, no Oriente, com centro em Constantinopla, resistiu até ao séc. XV, irradiando o lume Cristão pelo mundo eslavo. Quando, em 1493, Constantinopla é tomada pelos turcos, a herança bizantina transfere-se para Moscovo, deslocando-se então as fronteiras da Europa para Norte e para Oriente, até aos Urais. Mas enquanto a Oriente a Europa se expande para a Ásia, a Ocidente expande-se para fora das suas fronteiras geográficas e chega ao Novo Mundo, do outro lado do Atlântico, que então recebe o nome de América. Esta é também a altura em que a própria Europa se divide em duas metades: uma latino-católica, e outra germano-protestante.

7. O espaço Europeu foi, no decurso do século XX, sacudido por duas guerras. Após a devastação da Segunda Guerra Mundial, os pais da União Europeia – Adenauer, Schumann, De Gasperi – veem com clareza que esta nova Europa tem de procurar os seus fundamentos na herança Cristã que a foi moldando ao longo dos séculos. Todavia, com o tempo, foram os aspetos económicos que foram privilegiados, esquecendo-se cada vez mais os fundamentos espirituais. Pouco a pouco eclipsaram-se os valores cristãos, desapareceu o sagrado, a família entrou em declínio, hipotecou-se o futuro por falta de nascimentos.

8. Ensina a demografia que, para a simples manutenção da população de um determinado território, é requerida uma média de nascimentos de 2,1 filhos por mulher. Ora, no começo do século XXI, Portugal decrescia à média de 1,3 filhos por mulher, a Espanha à média de 1,1, a Itália e a Alemanha à média de 1,3, a França à média de 1,7. E é sabido que estes índices, sobretudo na França, Itália e Alemanha ainda se ficam a dever muito à presença árabe e africana. Neste momento, todos estes indicadores estão ainda mais baixos. E os demógrafos vão avisando que, se nada for alterado, no final deste século XXI, já não haverá Europa, mas Eurábia ou Eurásia.

9. Assistimos hoje a uma Europa velha, doente, esquecida e triste, que já não gosta de si mesma nem da sua própria história, que já não luta nem sonha, mas que ainda pensa que se pode voltar a reunir à volta de uma lareira sem lume, de uma mesa sem pão ou de uma Constituição sem conteúdos, inspirada, dizem, em «heranças culturais, religiosas e humanistas» mais ou menos virtuais, de que ninguém diz nem sabe nem quer saber o nome. Mas eu digo que é cada vez mais uma Europa sem Cristo, sem Eneias e sem Iulo. E só com Anquises não vamos longe.

António Couto


NÓS OS DOIS

Dezembro 22, 2022

Desde que sei

Que comecei a morrer,

Que aprendi a suportar o peso

Do milagre.

Hoje tudo é mais claro

Tudo é mais nítido.

Mas no tempo em que os pinheiros

Eram altos

E os meus olhos de um verde cristalino,

No tempo em que o tempo

Era incandescente

E fazia carrancas ao destino,

Aí, oh meu país inocente

E pequenino,

Era eu que era mais divino

Ou era Deus que era mais menino?

1. Sim. Enquanto tu descias a este chão de pó, e afanosamente o modelavas (Génesis 2,7), eu subia em sonhos a escada de Jacob (Génesis 28,12), e, às escondidas, comia o teu céu de pão de ló. Deslumbramento teu no sótão deste chão, quando, no lusco-fusco da vidraça, descobriste o meu pião enrolado na baraça. Deslumbramento meu, quando, distraído, brincava no teu céu, e quase escorregava pelo firmamento.

2. Valeu-me então um anjo que estava de passagem, e me deu a mão. Percebi depois que regressava do jardim do éden (Génesis 2,8), de regar a tua plantação (Isaías 61,3). Contou-me tudo. Falou-me de Abraão, de um rio que abriste no deserto (Isaías 43,19), da avenida florida que atravessa o mar a céu aberto (Sabedoria 19,7), da estrada traçada no deserto onde habitualmente andas a pé (Isaías 35,8), e sobretudo das flores que fizeste florescer em Nazaré (de natsar, florescer).

3. Fomos depois os dois até Jerusalém, e vimos-te a escolher no ribeiro manso as pedras trabalhadas na torrente (1 Samuel 17,40). Olhavas para elas demoradamente em tuas mãos deitadas, e só depois as adornavas com tinta cor de rímel (Isaías 54,11), e as sentavas carinhosamente à tua mesa, onde ardia e não se consumia uma sarça acesa (Êxodo 3,2).

4. Juntaram-se, entretanto, a nós milhares de anjos deslumbrados. Pus-me todo atento e parabólico, e pude ver o vento que o seu bater de asas produzia, e vi ainda que é essa energia que alumia as casas, muito mais do que qualquer rede de alta tensão ou parque eólico. Foi então que o anjo que comigo viajava me indicou um caminho hiperbólico (1 Coríntios 12,31).

5. Entrei nesse caminho. Mas rapidamente vi que não ia sozinho. Ias tu, Senhor, comigo. Chamava-se amor esse caminho aberto no deserto (Atos 8,26). Confesso que nunca tinha estado tão perto da água viva e tão perdido no meio do sentido (Atos 8,36). Tão refém deste Deus nascido em Belém. Foi aí que conheci Francisco, o de Assis, entretanto acabado de chegar da colina de Greccio. Fomos visitar a tua antiga casa. Era um retângulo com doze metros e trinta de comprido por três e meio de largo. O boi e o burro vieram logo conversar contigo. Percebi que tinham de bom grado acedido a partilhar contigo aquele espaço, o seu estábulo (Isaías 1,3). Na sala ali ao lado, não havia lugar para ti. Estava tudo ocupado. Também a mim e ao Francisco, sentados naquele chão de palha e cisco, o boi e o burro contaram muitas coisas acontecidas no seu estábulo. E ficámos longamente ali sentados a contemplar esse retábulo.

António Couto