LÁZARO TEM DE SAIR OUTRA VEZ DA PARÁBOLA!

Setembro 23, 2022

Am 6,1.4-7; Sl 146; 1 Tm 6,11-16; Lc 16,19-31

1. A parábola que nos é dado escutar neste Domingo XXVI do Tempo Comum, conhecida por «O rico avarento e o pobre Lázaro», narrada em Lucas 16,19-31, tem duas coisas únicas: a primeira reside no facto de ser a única parábola de Jesus em que uma personagem ostenta nome próprio, Lázaro, nome emblemático que significa «Deus ajuda»; a segunda tem a ver com o facto de que Jesus não dá qualquer explicação da parábola, nenhuma chave de interpretação nos é dada por Ele.

2. A parábola mostra, em comparação (sýnkrisis) e em claríssimo contraponto, um RICO e um POBRE, de nome LÁZARO. Do RICO é dito que se vestia luxuosamente de púrpura e linho fino, sempre em comparação e em contraponto com o POBRE LÁZARO que se apresentava coberto ou vestido de chagas. A púrpura era considerada na antiguidade o tecido mais raro e precioso, e a tradição rabínica reservava-o aos reis. Do RICO é dito que se banqueteava sumptuosamente, outra vez em comparação e contraponto com o POBRE LÁZARO, esfomeado, que bem desejava comer os restos do miolo do pão com que o RICO limpava a gordura das suas mãos, de que resultavam pequenas bolas, que atirava depois aos cães!

3. O RICO é absolutamente insensível, apresentado em contraponto até com os próprios cães, que lambiam as chagas do POBRE LÁZARO! A questão de fundo nem está em que o RICO hostilize o POBRE. Está em que nem sequer o vê! E a presença e o gesto simpático dos cães não tem o significado que hoje lhes atribuiríamos, mas exatamente o contrário, pois o cão era um animal impuro, e ser abandonado aos cães era uma desonra (cf. 1 Reis 21,19).

4. Enfim, morre o POBRE LÁZARO e morre também o RICO, e o nevoeiro começa a dissipar-se. LÁZARO é acolhido no seio luminoso de Abraão. O RICO cai nos braços de um lume inextinguível que o aperta e atormenta.

5. É então que o RICO levanta os olhos, e começa a ver alguma coisa para além de si mesmo. Mas o que vê, ou quem vê, é ainda para tentar pôr ao serviço do seu «eu» muito autorreferencial. É assim que vê finalmente, só agora, o pai Abraão e LÁZARO. A Abraão vê-o como pai (Lucas 16,24). Mas ao POBRE LÁZARO ainda não o consegue ver como um irmão, mas apenas como um servo que agora lhe pode ser útil. O RICO já não pode fazer mais nada. É irreversível a sua situação. Recorre então ao pobre para duas coisas, agora também impossíveis: Primeiro, para refrescar a língua do RICO (Lucas 16,24). Segundo, para avisar os cinco irmãos do RICO, vivos, ricos, insensíveis e insensatos como ele (Lucas 16,27-28). O RICO continua afinal a pensar nos RICOS, e ainda se quer servir, para esse efeito, dos pobres… No entanto, o facto de a parábola trazer os vivos para a cena constitui um elemento importante, pois é a situação do leitor e do ouvinte da parábola. E ficamos então todos a saber que também a nós toca a conversão. E que é este o tempo da conversão. Para isso, basta escutar a Palavra de Deus e agir em consequência.

6. A resposta de Abraão é esclarecedora e decisiva. Há um abismo entre nós e vós. Claro que o abismo que AGORA não é possível transpor é o abismo cavado em vida pelo RICO separando-se do POBRE. É, portanto, HOJE que o RICO deve ouvir a voz do POBRE. É, portanto, HOJE que o RICO deve escutar Moisés e os Profetas.

7. A parábola é imensa. É como uma faca apontada ao coração dos RICOS de hoje, que continuarão a fazer as suas reuniões faustosas e vistosas, mas continuarão a não cumprir sequer os «Objetivos de Desenvolvimento do Milénio», estabelecidos em 2000 para erradicar doenças e reduzir para menos de metade a pobreza extrema. A pobreza afinal é dos outros, que nós não conhecemos de lado nenhum, ainda que estejam doentes e esfomeados ali mesmo à nossa porta! Pensam como o RICO da parábola.

8. Lembremo-nos que, no imaginário da Idade Média, o POBRE LÁZARO, que significa «Deus ajuda», saiu para fora da parábola e se transformou numa personagem histórica, padroeiro dos leprosos e mendigos. É assim que nascem os «Lazaretos», edifícios destinados a albergar e tratar os deserdados e doentes. E, no século XVII, S. VICENTE DE PAULO, cuja memória a Igreja celebra em 27 de Setembro, que dedicou toda a sua vida aos pobres, fundou os Padres LAZARISTAS (sempre sobre a memória do POBRE LÁZARO), para continuar essa bela missão de tratar os pobres com carinho. E, no século XIX, o beato FRÉDÉRIC OZANAM fundou as CONFERÊNCIAS VICENTINAS, que alicerçou sobre uma frase de S. VICENTE DE PAULO: «A caridade é inventiva até ao infinito».

9. Está à vista, irmãos, que o POBRE LÁZARO tem de voltar a sair da parábola para nos incomodar e nos colocar todos os dias no caminho da criatividade da Caridade!

10. E aí temos outra vez Amós (6,1-7) a bater à nossa porta, a desassossegar o nosso sossego, a desmoronar os nossos belos palácios de marfim, a surpreender-nos enfartados e bêbados, deitados por aí em qualquer divã. O retrato feito nos v. 4-6 é considerado como a melhor e mais ampla descrição da vida luxuosa dos ricos em todo o Antigo Testamento. Estendidos, isto é, reclinados (ver também Amós 2,8), para comer e beber, não o pão e o vinho da bênção de Deus e da partilha com os necessitados, mas o pão do crime e o vinho da violência (Provérbios 4,17). Mas também semelhantes à palha, deitada, e não de pé, como a árvore plantada, de acordo com as imagens vegetais utilizadas no Salmo 1 para retratar o insensato em confronto com o justo. A árvore plantada, portanto, de pé, está viva, respira o vento, dá fruto. A palha, essa, está deitada, é levada pelo vento, não dá fruto, mas é a casca do fruto. Ricos, orgulhosos, altivos, atulhados de excessos, de luxos e de lixos, mas completamente indiferentes aos pobres – «não se afligem com a ruína de José» (6,6) –, o retrato traçado desta confraria dos «estendidos» só é comparável, porventura, com a parábola lucana do rico e do pobre Lázaro, que hoje também tivemos a graça de ouvir nos nossos ouvidos. Mas aí estão também já os Assírios para pôr fim àquilo que tantas vezes julgamos seguríssimo, senão eterno. Sim, os habitantes da Samaria irão nus e descalços para o exílio na Assíria. E um dia hão-de chegar os arqueólogos, que descobrirão debaixo das ruínas os restos deste mundo podre e dissoluto!

11. E a solene exortação de São Paulo a Timóteo, seu discípulo dileto, que hoje nos visita outra vez (1 Timóteo 6,11-16). Começa o v. 11a, com uma forte advertência a Timóteo a fugir destas coisas. Quais coisas? É preciso visitar atrás os v. 4-6, onde se encontra um elenco de vícios, como o orgulho, controvérsias, conflitos de palavras, inveja, contendas, blasfémias, más suposições, lutas infindáveis, a piedade como fonte de lucro. No v. 7, encontramos esta verdade: «Nada trouxemos para o mundo, nem dele coisa alguma podemos levar». E ainda a grande sabedoria condensada no v. 10: «A raiz de todos os males é o dinheiro». Ora bem, é disto tudo que Timóteo deve fugir, para perseguir um elenco de virtudes, como a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão (v. 11b). Paulo exorta depois Timóteo a combater (agônízô) o bom e belo combate (agôn) da fé, para conquistar a vida eterna (v. 12a), e a fazer uma boa e bela profissão de fé (homología), como Jesus Cristo fez diante de Pilatos (v. 12b-13).

12. É assim que o Salmo 146, que é uma espécie de carrilhão musical, nos convida a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua ação em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

António Couto


ESBANJADORES DOS BENS DE DEUS!

Setembro 16, 2022

Am 8,4-7; Sl 113; 1 Tm 2,1-8; Lc 16,1-13

1. O uso cristão da riqueza preenche quase por completo o Capítulo 16 do Evangelho de Lucas. Digo «quase», porque temos de excluir apenas uma breve palavra sobre a Lei (Lucas 16,16-17) e outra, brevíssima, sobre o divórcio (Lucas 16,18). Dividindo o Capítulo em duas grandes partes, ficamos então com duas belas parábolas de Jesus: a primeira (Lucas 16,1-13), conhecida como «O administrador desonesto», será proclamada neste Domingo XXV do Tempo Comum, e a segunda (Lucas 16,19-31), conhecida como parábola do «Rico avarento e do pobre Lázaro», será proclamada no Domingo seguinte, XXVI do Tempo Comum.

2. A parábola do Administrador desonesto, que escutaremos neste Domingo XXV, tem sempre desorientado quer os leitores e ouvintes que a leem ou ouvem com simplicidade e bom senso, quer os exegetas que pretendem captar os seus segredos e penetrar nos seus veios mais profundos. E o problema reside nisto: é possível que o Evangelho proponha como modelo a imitar um homem desonesto?

3. O leitor ou ouvinte simples e de boa fé diz naturalmente que não, e compreende que deve afinar pela honestidade a sua vida. Os exegetas enveredam habitualmente, para atenuar o desconforto sentido pela incompreensão do texto, por indagar os costumes então em uso na Palestina, e descobrem que as terras eram muitas vezes propriedade de grandes senhores, em muitos casos estrangeiros, que se ausentavam para os seus negócios, deixando no terreno administradores locais, a quem davam grande margem de manobra, desde que, no final do ano, entregassem ao senhor o montante que tinham acordado. Neste sentido, é facilmente compreensível que o administrador ou feitor, de acordo com os negócios feitos, podia também obter licitamente os seus lucros ou benefícios, e que tenha sido com a sua parte dos lucros que o administrador, em nada prejudicando o seu senhor, tenha levado a efeito aqueles descontos que vemos nesta parábola.

4. Explicação aparentemente fácil e sensata, mas que não pode ser levada em conta. É demasiado equilíbrio para tão pouca explicação! Em boa verdade, a parábola não chama a atenção para a desonestidade do administrador, nem para os meios a que recorreu para fazer amigos. Claramente, a sua desonestidade não interessa a Jesus: não a condena, e tão pouco recomenda que a imitemos. Em vez disso, Jesus chama a nossa atenção para a prontidão, inteligência, clarividência e largueza de vistas com que o administrador procede, sem permitir que o assalte, nem por um momento, a hesitação ou a fuga.

5. É verdade que o administrador da parábola e o discípulo de Jesus que a escuta pertencem a duas maneiras diferentes de estar na vida e de proceder: o primeiro obedece à lógica do mundo; o segundo à do Reino. Trata-se evidentemente de duas maneiras diferentes de encarar a vida. Não obstante, o discípulo de Jesus, de acordo com o andamento da parábola, deve aprender do administrador, não a ser desonesto, mas a capacidade de decidir com prontidão, inteligência e largueza de vistas. Todavia, se a parábola só ensinasse isto, tratava-se de coisas óbvias que a vida sensata nos vai ensinando todos os dias. Para aprender apenas isto, não é preciso ler ou ouvir nenhum Evangelho. O Evangelho tem de nos levar para além do habitual, tem de desequilibrar completamente as nossas habituais maneiras de fazer e proceder.

6. Prossigamos então este caminho. Na sua literalidade (nem precisamos de ser muito rebuscados), este pedaço do Evangelho deve revolver completamente os nossos procedimentos. E aquilo que salta à nossa vista, quer queiramos quer não, é a figura de um administrador que esbanja completamente os bens de que dispõe, e que não são dele. São do seu senhor. Inequívoco. O texto diz expressamente que o administrador «convocou os devedores do seu senhor, e disse ao primeiro: “Quanto deves ao meu senhor?”» (v. 5). Fica claro quem é o proprietário daqueles bens: é o senhor do administrador e dos devedores. À pergunta formulada pelo administrador: «Quanto deves ao meu senhor?», o devedor respondeu: «Cem talhas de azeite». Resposta do administrador, que traz, agora sim, não o usual, mas o Evangelho: «Senta-te depressa, e escreve cinquenta» (v. 6). Sem equívocos: este administrador é um esbanjador dos bens do seu senhor! Olhemos então de frente, e perguntemo-nos: «E Jesus não veio esbanjar os bens do Pai?». Não esbanjou e continua a esbanjar o amor, o perdão, a vida, a misericórdia, a alegria, a paz? Portanto, o administrador da parábola não faz mais do que Jesus fez e faz. Por estranho que pareça, distribuir sem medida, «esbanjar», é a palavra-chave da parábola. E então, o leitor e o ouvinte desta parábola do Evangelho já sabe até que ponto este bocadinho de Evangelho pode e deve mexer com a sua vida.

7. Mas, há ainda, no v. 6, outro belo apontador do Evangelho, que não podemos descurar. É aquele: «Senta-te depressa…». Mas que pressa é esta? É a pressa e o mapa da Páscoa do Egito, porta aberta para a viagem transitiva e intransitiva da liberdade: «Comereis a toda a pressa com os rins cingidos, as sandálias nos pés, o cajado na mão; é a Páscoa do Senhor» (Êxodo 12,11). É a pressa do mensageiro de Isaías 52,7, que corre sobre os montes porque tem para anunciar boas novas a Sião, exultação logo replicada pelas sentinelas de Sião, e que chega a revolver e a envolver mesmo as próprias ruínas de Jerusalém (Isaías 52,8-9). É a pressa do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, que o amor faz correr sobre os montes. É a pressa de Maria que se levanta e se põe a caminho apressadamente (Lucas 1,39), Arca da Nova Aliança portadora do Evangelho em pessoa. É a pressa dos pastores dos campos de Belém, que correm a Belém (Lucas 2,15-16), para ver e saudar o Salvador acabado de nascer. É a pressa dos setenta e dois discípulos de Jesus (Lucas 10,4), enviados por Jesus, sem paragens no caminho, procedimento inconcebível no mundo do Médio Oriente Antigo (onde as pessoas se entretinham longamente a conversar), e que lembra a pressa imposta pelo profeta Eliseu ao seu servo Guiezi para ir, sem paragem no caminho, ao encontro do filho morto da Sunamita (2 Reis 4,29), a qual também tinha partido a toda a pressa para casa de Eliseu (2 Reis 4,22). É a pressa do Pai do filho pródigo, quando interrompe o discurso do filho, e diz para os criados: «Depressa, trazei o primeiro vestido, e vesti-lho» (Lucas 15,22). É a pressa do administrador esbanjador dos bens do seu senhor, que diz para um dos devedores: «Cem talhas de azeite? Senta-te depressa, e escreve cinquenta» (Lucas 16,6). É a pressa de Jesus, quando diz para Zaqueu: «Desce depressa, porque é preciso para mim ficar hoje em tua casa» (Lucas 19,5). É a pressa de Zaqueu a descer do sicómoro e a receber Jesus em sua casa, para virar a sua vida toda do avesso (Lucas 19,6). É a pressa das mulheres e dos homens da Páscoa, que até hoje não param de correr (João 20,2.4). É a pressa de Pedro pelo anjo atirado da prisão para a rua (Atos 12,7). É a pressa de Paulo em anunciar aos judeus de Damasco que Jesus é o Filho de Deus (Atos 9,20). Não nos resta senão acelerar a nossa vida para nos pormos ao ritmo do Evangelho.

8. A parábola contada por Jesus permite ainda uma correta compreensão sobre a função do dinheiro. O dinheiro é para servir o homem, mas torna-se muitas vezes o seu dono, diante do qual nós nos prostramos, segurança enganadora, falso sucedâneo de Deus, ídolo, a que o Evangelho chama MAMONA (mamônã) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego mamônãs [= dinheiro, riqueza] deriva, através do aramaico mamôn, da raiz hebraica ’mn, que serve também para dizer a fé e a confiança em Deus. É como quem diz que podemos equivocar-nos radicalmente, deixando de pôr a nossa fé e confiança no Deus vivo, para nos agarrarmos aos ídolos mortos e vazios, uma espécie de «espantalhos num campo de pepinos!» (Jeremias 10,5). No nosso caso e nesta sociedade moderna, pode tratar-se de belos edifícios plantados no meio das cidades. É aí que estão os bancos! O historiador das religiões, David Flüsser, atravessava um dia a cidade de Atenas enquanto refletia sobre a fé, grego pístis, no Novo Testamento. E quando levantou os olhos, deparou-se com grandes letras no frontal de um edifício. Leu: trápeza tês písteôs, à letra, banco de fé, em termos modernos, banco de crédito! Veja-se, hoje, com olhar lúcido, o logro ou o lodaçal das nossas arquitetadas seguranças!

9. Daí a muito bíblica e oriental advertência de Jesus: «Ninguém pode servir a dois senhores», donde: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Lucas 16,13). De notar que o Livro de Ben Sira já advertia com sabedoria: «Muitos pecam por amor ao dinheiro. Aquele que procura enriquecer faz todas as falcatruas». E ainda: «Como se introduz um pau entre as junturas das pedras, assim se intromete o pecado entre a venda e a compra» (Ben Sira 27,1-3).

10. O livro de Amós, de que hoje ouvimos também uma pequena perícope (8,4-7), caustica severamente a exploração dos pobres, a corrupção e o lucro fácil. O mundo de Amós é de oito séculos antes de Cristo. Mas o seu Livro parece ter sido escrito hoje, dada a sua tremenda atualidade. A lição de hoje abre com a chamada «fórmula de atenção» [= «Ouvi»], que introduz habitualmente oráculos de desgraça, e dirige-se aos ricos e latifundiários, que vendem o trigo aos necessitados, enganando-os e roubando-os sorrateiramente, usando balanças, medidas e pesos falseados, comprando o trabalho dos pobres por um par de sandálias! Como se vê, sendo embora o texto do séc. VIII a.C., parece que estamos a ler um compêndio moderno de economia e comércio, que tem em vista apenas o lucro fácil a custo seja do que for. O oráculo termina referindo que para um tal comportamento de roubo, para cúmulo disfarçado de seriedade, não há amnistia: «nunca o esquecerei», diz Deus (v. 7). O efá, de que se fala no texto (v. 5), usado para medir cereais, equivalia a 45 litros. O sheqel ou siclo, de que também se fala no v. 5, pesava 11,4 gramas. A moeda propriamente dita aparece no séc. VIII na Anatólia, e pouco depois na Grécia. O sheqel é o nome atualmente usado para designar a moeda israelita.

11. Chega-nos hoje mais uma extraordinária lição de São Paulo na sua 1 Carta a Timóteo 2,1-8. Primeiro que tudo (prôton pántôn), rezar por todos os homens, usando todas as modalidades da oração: súplicas (deêseis), orações intensas (proseuchaí), pedidos (enteúxeis), ações de graças (eucharistíai) (v. 1). Depois, a afirmação da vontade salvadora universal de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos, e ao conhecimento da verdade venham (v. 4). Dois movimentos: um da parte de Deus, nunca anulável; outro da nossa parte, indicando que nos devemos pôr em movimento em ordem ao conhecimento profundo, pessoal, íntimo, experimental (epígnôsis) da verdade, que é o amor fiel e fiável de Deus por nós. Em continuidade, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que se entregou a si mesmo por nós (v. 5-6). A seguir, a razão de ser do próprio Paulo e da sua missão de anunciador (kêryx) e apóstolo (apóstolos) (v.7). Por último, como ao princípio, a vontade de Paulo de que todos rezem em toda a parte (v. 8).

12. E ficamos com a música inebriante do Salmo 113, o Salmo que abre o fascículo dos Salmos 113-118, catalogados como o «pequeno Hallel da Páscoa» ou «Hallel egípcio», Salmos cantados no decurso da Ceia da Páscoa hebraica, de que o Talmude registra uma imagem sugestiva, deixando supor que, no decurso da Ceia da Páscoa, se levantava das casas dos hebreus um suspiro de louvor que perfurava os tetos e chegava ao céu: «A Páscoa é saborosa como a azeitona, e o Hallel deve atravessar os tetos das casas para chegar ao trono de Deus». O Salmo 113, sessenta palavras hebraicas, apresenta três belos andamentos: o primeiro, v. 1-3, convida os orantes a encher de louvor o espaço todo visto na sua linha horizontal (do nascer ao pôr do sol: oriente-ocidente) e o tempo todo (agora e sempre). Este louvor intenso dirige-se à pessoa do Senhor, expressa pelo Nome do Senhor (três vezes). O segundo andamento, v. 4-6, desenha uma linha vertical no sentido descendente (céu-terra), e mostra a transcendência, a glória e a incomparabilidade de Deus, sentado no alto, nos céus, mas amorosamente debruçado sobre a terra. Portanto, o nosso Deus não é um Deus impassível e abstrato, fechado nas paredes douradas da sua eternidade, mas é um Deus que se interessa por nós. O terceiro andamento, v. 7-9, desenha agora uma linha vertical no sentido ascendente (terra-céu), e mostra Deus em ação no nosso mundo, levantando do pó e do esterco os indigentes, e fazendo da estéril, por todos desprezada, mãe honrada e feliz, habitante digna na casa do Senhor. Grande Hino de Louvor, que faz comunhão na vertical e na horizontal, e que nos junta a todos na bênção (v. 2), hebraico berakah, grego eulogía, que desenha um mundo de bondade e de bem, de pensar bem, dizer bem, querer bem, fazer bem. Bendizer ou dizer bem une, como sabemos. Une-nos uns com os outros e todos com Deus. É a Eucaristia. Ao contrário, maldizer ou dizer mal separa, como também sabemos.

13. Mas nunca nos esqueçamos que não pode ser o dinheiro a comandar a nossa vida. Nunca nos devemos esquecer da história daquele fulano que era tão pobre, tão pobre, tão pobre…, que só tinha dinheiro!

António Couto


PARA QUE O NOSSO CORAÇÃO NÃO SEJA UM NINHO DE VÍBORAS

Setembro 13, 2022

Nm 21,4-9 (ou Fl 2,6-11); Sl 78; Jo 3,13-17

1. A Igreja celebra no dia 14 de setembro a Festa da Exaltação da Santa Cruz. É sabido que a Igreja Mãe de Jerusalém rapidamente fez do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto. Na sua luta implacável contra o culto cristão, o Imperador Adriano (117-138), sobretudo nos últimos anos do seu reinado, transformou Jerusalém, em termos de edifícios e de moral, numa cidade de estilo romano, a Aelia Capitolina. Para tanto, soterrou o Santo Sepulcro e paganizou-o, estabelecendo ali cultos pagãos com a clara intenção de dissuadir os cristãos de continuar a frequentar esses lugares pelo temor da communicatio in sacris. Assim, no lugar do Santo Sepulcro, pôs a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore. O mesmo fez, de resto, em todos os lugares santos da Palestina. O projeto de Adriano não atingiu os seus fins, pois os judeo-cristãos continuaram a frequentar aqueles lugares, confundindo-se com os pagãos, que ali faziam ritos semelhantes, ainda que antitéticos. Neste sentido, conclui S. Jerónimo, que o imperador não conseguiu, como pretendia, apagar nas almas dos cristãos a fé na Ressurreição e na Cruz de Cristo. Não é de admirar, portanto, que, quando em 13 de Setembro de 326, por indicação de um habitante de Jerusalém, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, descobriu a Cruz do Senhor, tenham sido logo demolidas as construções pagãs. Foi assim que vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela basílica da Anástasis, que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a adoração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. A peregrina Egéria, da Galiza, que, em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «desde as 08h00 da manhã até ao meio-dia», «todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

2. E as coisas assim continuaram até ao ano 614, quando o rei persa Cosroé II conquistou Jerusalém e levou consigo a Santa Cruz. Neste dia, rezam as diferentes crónicas que documentam o sucedido no dia 20 de maio de 614, que «a Jerusalém do Alto chorava sobre a Jerusalém de baixo», tal era o grau de destruição, fúria, ódio, violência, sangue. Mas, em 630, a Santa Cruz regressa a Jerusalém por obra do imperador bizantino Eráclio que, em 628, tinha derrotado o louco Cosroé II.

3. São estes dois episódios históricos, dos séculos IV e VII, que fornecem o chão histórico para a Festa da Exaltação da Santa Cruz, que hoje celebramos. Anotamos, porém, que, mesmo sem estes episódios, e antes deles, a Cruz do único Senhor da nossa vida, Jesus Cristo, foi, segundo o Evangelho, exaltada para sempre diante dos nossos olhos.

4. É, nesse sentido luminoso, que temos hoje a graça de ouvir o Evangelho de João 3,13-17, que expõe a toda a luz o «Filho do Homem, que deve (deî) ser levantado (hypsôthênai: aor. inf. passivo de hypsóô), para que todo o que acredita nele tenha a vida eterna» (João 3,14b). Vê-se perfeitamente que Jesus está a expor diante dos olhos de Nicodemos e dos nossos, a Cruz Santa e Gloriosa em que Ele próprio, o Senhor da Vida, será crucificado, que o mesmo é dizer, na linguagem Joanina, exaltado e glorificado. Note-se a presença da mão de Deus, quer na necessidade teológica, expressa naquele deî, que reclama o plano divino, quer na forma passiva utilizada na ação deste levantamento. Também é importante a comparação explícita que o próprio Jesus faz do seu levantamento com a ação de Moisés: «Assim como Moisés levantou (hýpsôsen: aor. de hypsóô) a cobra no deserto» (João 3,14a). E não podemos também perder de vista que, com este dizer, Jesus se assume como o verda­deiro Servo de YHWH, que «será exaltado» (hypsóô) por Deus (Isaías 52,13), e se apresenta a si mesmo como transparência de Deus: «Quando tiverdes levantado (hypsóô) o Filho do Homem, então sabereis que “Eu Sou” (egô eimi), e que por mim mesmo nada faço, mas como me ensinou o Pai estas coisas falo (laléô)» (João 8,28). Paulo também dirá, na Carta aos Filipenses, acerca deste Jesus, que Deus o «sobreexaltou» (hyperhypsóô) (Filipenses 2,9).

5. Notemos, antes de mais, que o levantamento de Jesus na Cruz é em ordem a dar a vida eterna (zôê aiônios) a todos os que creem (João 3,15-16). É por isso que Jesus diz: «Quando eu for levantado (hypsóô) da terra, atrairei todos a mim» (João 12,32). E ainda: «Hão de olhar para aquele que trespassaram» (João 19,37). Na verdade, para ter a Vida verdadeira, eterna, divina, vivente, que não morre, é necessário ver [= acre­ditar] o Filho (João 3,36; 6,40), Luz da Luz, que brilha sobre a Cruz, novo e último candelabro do amor de Deus (Atos 2,36). Ver o Filho é obra do Espírito Santo em nós (1 Coríntios 12,3). Para O ver é necessário ter nascido da água e do Espírito (João 3,5), isto é, do alto e de outra maneira (ánôthen) (João 3,3).

6. Ver o Filho do Homem levantado na Cruz é ver passar dois filmes: 1) o da nossa violência e malvadez, postas a descoberto naquele rosto desfigurado, naquelas chagas abertas, naquele sangue a escorrer ou já coalhado: está ali, bem diante de nós, a imagem do pecado que está escondido em nós; 2) passa ali também o filme do imenso amor de Deus, que não faz frente à minha violência, mas a abraça. Sendo Deus amor, então a única maneira que Ele tem de curar o meu pecado não é decretar, lá do alto e de dentro das paredes douradas da sua eternidade, uma qualquer amnistia. A única maneira que Deus tem de me curar é descer ao meu mundo, viver no meu mundo, caminhar comigo, sujeitar-se às minhas maldades e tropelias, sofrê-las e absorvê-las. É só assim, desarmado e só amando, que pode dissolver e absolver o pecado que há em mim. «Deus amou tanto o mundo» (João 3,16). A cura não é mágica. Levantada e exibida bem diante dos nossos olhos, naquele rosto desfigurado e naquele sangue a escorrer, a imagem da violência, mentira, ódios, dentro de nós escondida, mas agora declarada, conhecemos agora a doença de que padecemos. Podemos, portanto, começar a tratar-nos. E o remédio também está ali exposto bem diante dos nossos olhos: é aquele amor e perdão subversivos!

7. Era então necessário que Jesus sofresse na Cruz, daquela maneira, por nós? Sim, porque, para nos salvar, Deus não podia senão amar-nos. E, para nos amar, tinha sempre de vir viver connosco, no meio de nós, e sujeitar-se naturalmente às maldades e violências daqueles que Ele amava. Se nós fôssemos todos bons, seguramente que Jesus não teria sofrido e morrido naquela Cruz. Porquê? Porque não era necessário? Penso que a maioria de nós responderia que sim, que não era necessário. Mas a resposta verdadeira e objetiva nem sequer passa pelos terrenos da necessidade, e está toda aqui: Jesus não teria morrido naquela Cruz simplesmente porque, sendo nós todos bons, quem de nós ia fazer uma coisa daquelas?!

8. Atenção, portanto: a Cruz não é o nosso pecado. É a imagem do nosso pecado! O pecado, que está em nós, produziu aquela imagem. Sim, está ali a imagem da nossa violência e estupidez. Vendo a imagem, podemos ver o pecado, o mal que há em nós, habitualmente escondido e dissimulado. A Cruz também não é o amor de Deus. É a imagem do Amor de Deus!

9. Se olharmos agora para o texto do Livro dos Números 21,4-9, tudo fica claro. O pecado camuflava-se nos interstícios do coração do povo de Israel no deserto. O resultado era a murmuração contra Deus e contra Moisés, o não reconhecimento da ação libertadora de Deus no Êxodo e o desprezo do alimento dado por Deus, causa de fastio, e não de maravilha (Números 21,5). Como corrigir, com boa pedagogia, esta situação? Aí estão as cobras (nehashîm) venenosas, que mordem e matam (Números 21,6). A cobra é, por excelência, imagem do pecado. Esconde-se e dissimula-se como o pecado. E o veneno que transporta, igualmente dissimulado, conduz à morte, como o pecado. A cobra, como o pecado, anda dentro de nós, dissimulada nas pregas do nosso coração empedernido. É sintomático que o Livro do Génesis 3,14 refira que a cobra se alimenta de pó (ʽaphar). De pó (ʽaphar) foi modelado o homem (Génesis 2,7). Salta então à vista que a cobra se alimenta de nós. É um parasita perigoso que se alimenta de nós e nos vai corroendo. Como o pecado.

10. Moisés expõe num poste uma cobra de bronze. Quem olhar para ela, fica curado (Números 21,8-9). Não se trata de magia, mas, outra vez, do realismo bíblico. Note-se também, antes de mais, que não era uma cobra que Moisés fixava no poste, mas a imagem de uma cobra. Olhar bem para a imagem da cobra leva-nos a descobrir a cobra verdadeira que anda dentro de nós, o veneno que transportamos, que nos mata e mata os nossos irmãos. Feito o diagnóstico, reconhecido o mal de que padecemos, podemos então iniciar o processo da cura. É neste ponto preciso que a boa pedagogia de Jesus em João 3,14 nos leva a ver bem o Filho do Homem levantado como Moisés levantou a cobra no deserto.

11. O chamado «hino cristológico», que encontramos na Carta aos Filipenses 2,6-11, volta a pôr diante de nós o Filho de Deus, humilhado e exaltado, Jesus, que recebeu, na sua Humanidade, o Nome divino (ver também Hebreus 1,1-4), Nome incomparável (Filipenses 2,9). Por isso, agora, todos os seres criados adoram o Nome-Jesus (Filipenses 2,10), e «toda a língua», isto é, todo o ser humano racional, professa: «Senhor é Jesus Cristo!» (Kýrios Iêsoûs Christós). Notar a ordem dos três termos, errada nas versões modernas: Senhor, isto é, Deus eterno, é o Homem-Jesus Cristo. Segundo as boas indicações gramaticais, o sujeito é o que não se conhece; o predicado é o que se conhece. O acento cai, pois, sobre Senhor. O fim em vista: a Glória do Pai com o Espírito (Filipenses 2,11). É quanto Deus operou na Cruz e semeou no nosso coração.

12. O Salmo 78 ensina-nos que a Bíblia é a longa história de uma salvação sempre oferecida, acolhida e, por vezes, rejeitada. Lembra-nos que que as maravilhas de Deus não são para guardar no cofre da família, mas para passar, de mão em mão, de coração a coração, de pais para filhos, de geração a geração. A catequese é o anúncio de um acontecimento em carne viva que nos deve comprometer, e não de uma série de frias ou requentadas teses teológicas.

…..

Irei também, Senhor,

Em procissão de amor,

Beijar a tua Cruz.

…..

E quando eu olhar para ti,

Para o teu rosto ferido e desfigurado,

Para as tuas muitas chagas a sangrar,

Dá-me a graça de aí ver bem o meu pecado.

…..

E quando Tu, Senhor, olhares para mim,

Com esse meigo olhar de serena compaixão,

Dá-me a graça de aí ver o teu perdão nunca poupado,

E de sair com o coração transfigurado.

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António Couto


ESTA PARÁBOLA DA MISERICÓRDIA

Setembro 9, 2022

Ex 32,7-11.13-14; Sl 51; 1 Tm 1,12-17; Lc 15,1-32

1. Este Domingo XXIV do Tempo Comum oferece-nos a proclamação e audição integral, assim vivamente o espero, da grande parábola guardada em Lucas 15,1-32. A página lucana tem lugar garantido em qualquer antologia dos mais belos textos de todos os tempos.

2. É a história dos pecadores e dos publicanos, dos escribas e dos fariseus, não esquecendo nunca o Teófilo, a quem Lucas endereça o seu Evangelho (Lucas 1,3), que está sempre no fundo da cena, de todas as cenas, e que sabe que tem um irmão mais velho. De uns, de outros e do outro, todos temos um pouco. Todos se aproximam de Jesus: os primeiros para o escutar com alegria; os segundos para o recriminar com azedume pelo facto de ele receber os primeiros e comer com eles. O terceiro, porque sabe que a mão de Deus está sobre ele e se sente entusiasmado com Jesus e com o Evangelho. Há, portanto, aqui um comportamento novo, misericordioso, inclusivo e acolhedor por parte de Jesus. Os pecadores compreendem que Jesus traz um Evangelho, uma Notícia Boa e Feliz. Os escribas e os fariseus, porém, não consideram a Notícia suficientemente Boa. O Teófilo sente que Deus o chama e o ama. Por isso, de Jesus se aproximam os pecadores, até então marginalizados e hostilizados pela tradição religiosa vigente; por isso, o recriminam os fariseus e os escribas, os garantes da velha tradição religiosa, rigorista, classista e exclusivista. Por isso, e sem preconceitos, anda por ali também Teófilo.

3. Aos fariseus e escribas conta Jesus uma parábola. Note-se bem: uma parábola, «esta parábola» (taútên parabolên) (v. 3), no singular, e não três parábolas, como é usual dizer-se. Note-se também que, para escutarmos corretamente «esta parábola» de Jesus, é do lado dos fariseus e dos escribas que nos devemos postar, dado que é para eles que Jesus conta diretamente a parábola. O Teófilo, esse, está sempre atento a tudo. «Esta parábola» é, portanto, em primeiro lugar, para eles e para o nosso lado orgulhoso, farisaico, classista e exclusivista, para «o nosso como eles». É notório que, dado o desenrolar da história contada por Jesus, gostemos mais de nos rever na ovelha perdida e encontrada do que nos noventa e nove fariseus cumpridores de ordens e que, por isso, se julgam piedosos e justos com direitos e créditos sobre Deus, como também nos revemos habitualmente naquele filho que sai de casa e que acaba por voltar mais tarde, sendo recebido por um Pai carinhoso que o espera de braços abertos. Mas, para que a história contada por Jesus nos caia em cima, como um relâmpago, é mesmo do outro lado de nós que nos devemos colocar. Sem esquecer que Teófilo está lá sempre.

4. A eles e a nós mostra Jesus a atenção extremosa do pastor que corre, ainda que tenha de ser a vida inteira, à procura da sua ovelha perdida. E mostra depois a alegria incontida que sente quando a encontra, e em que quer fazer participar os seus amigos e vizinhos. A mesma cuidadosa atenção e alegria toma conta da mulher que procura e encontra a moedinha que perdeu no chão de terra e basalto negro da sua humilde casa da Galileia.

5. Mas já Jesus traz para a cena, sem deixar a audiência respirar, um Pai excecionalmente maravilhoso e bom, em quem pulsa um imenso coração e vibram entranhas de misericórdia. Tem dois filhos, que nos representam a todos: um claramente pecador, que opta por sair de casa, depois de ter pedido ao pai a sua parte da herança. E Teófilo ali a ouvir. Note-se que todo o pai dá três coisas aos seus filhos: o pão, todos os dias; roupas novas, nos tempos festivos; a herança, uma única vez na vida, pouco antes de morrer. O Livro de Ben Sira tira-nos todas as dúvidas, ao deixar escrito: «No último dia dos dias da tua vida, na hora da tua morte, distribui a tua herança» (33,24). O pedido deste filho de receber a herança assume, portanto, um imenso dramatismo. Fazendo o pedido que faz, este filho como que mata o pai, ao mesmo tempo que morre como filho! Não quer mesmo mais ser filho nem depender de nenhum pai.

6. Parte para longe, gasta tudo, torna-se um assalariado desamparado, guarda porcos, vive abaixo de porco (nem sequer lhe é sequer permitido comer com os porcos, como os porcos!). É o seu ponto mais baixo. Pensa então em voltar para casa, mas como assalariado, não como filho. Prestemos atenção ao discurso em três pontos que prepara: 1) «Pai, pequei contra o céu e contra ti; 2) não sou mais digno de ser chamado teu filho; 3) trata-me como um dos teus assalariados» (Lucas 15,18-19).

7. Ei-lo, portanto, que regressa. Mas já o Pai está à espera dele com um imenso abraço de alma a alma. Mas o filho tinha preparado o seu discurso em três pontos, e ei-lo que começa a debitá-lo: 1) «Pai, pequei contra o céu e contra ti; 2) não sou mais digno de ser chamado teu filho» (Lucas 15,21). Como se compreende, o terceiro ponto do discurso que tinha preparado era fatal, e o filho já não o diz. Não porque não quisesse, mas porque o Pai energicamente o interrompe, dizendo aos criados: «Depressa…» (Lucas 15,22).

8. É então que a surpresa enche outra vez a cena. Quando nós regressamos a casa, a Deus, nunca encontraremos um Pai distraído, ou que mudou de residência, ou que responde de forma brusca, distante e fria. Está lá sempre à nossa espera, na soleira da porta ou à janela, verdadeiramente comovido, a transbordar de misericórdia desde as entranhas (splagchnízomai) (Lucas 15,20), de braços abertos, precede-nos, recebe-nos, reabilita-nos como filhos fazendo-nos vestir «o primeiro vestido» (stolê tê prôtê) (Lucas 15,22), isto é, o que vestíamos antes e abandonámos, portanto, o de filhos, quando nós queremos é ser apenas assalariados. Depois, faz uma festa, mata o vitelo gordo, prepara um banquete de arromba (euphraínô), vai mesmo até ao ponto de chamar uma orquestra (symphônía)! Alegria excessiva deste Pai pródigo de amor e misericórdia! E Teófilo sempre por ali.

9. É aqui que surge em cena o outro filho, que estava no campo (Lucas 15,25). Esta nota do «campo» serve só para nos dizer que é um dia de semana, e que o Pai desta história faz festa em qualquer dia, sem ficar à espera pelo fim-de-semana! Este filho mais velho é retratado como um bom cumpridor de ordens, um «justo» e zeloso fariseu, igualzinho aos fariseus «justos» e zelosos que tinham aparecido no início da história. Tal como estes, também este filho se acha com direitos e créditos sobre Deus. Em Deus não vê um Pai, mas um patrão que tem de lhe pagar, pois «nunca transgrediu uma ordem dele» (Lucas 15,29). Sempre igualzinho aos fariseus que no início da história recriminavam Jesus porque acolhia e comia com os pecadores, também este filho recrimina o seu pai por acolher e ter tudo preparado para comer com um pecador! O Pai implora-lhe que entre para o banquete da alegria. Mas a história termina sem nos dizer se este filho, que somos também nós, entra ou não entra na sala do banquete. Final estratégico. Afinal a história de Jesus foi contada para os fariseus, e nós devemos ter compreendido que devemos tomar lugar ao lado deles, pois também nós temos uma boa parte de fariseus, para sermos atingidos em cheio pela história contada por Jesus. A história termina sem nos dizer se aquele filho, fariseu, entrou ou não entrou na sala da alegria. História deixada propositadamente em aberto pelo narrador. Esta tão vincada reticência narrativa não está privada de efeitos: obriga-nos a pensar! Não nos esqueçamos que a história foi contada para nós. É então a nós que cabe tomar a decisão! Entramos ou não entramos na sala do banquete? Como vemos Deus? Como um Pai ou como um patrão? E os nossos irmãos são para nos alegrarmos com eles ou para os insultarmos e denegrirmos?

10. É também interessante notar que os dois filhos desta história falam ao Pai, ao seu Pai comum, como fazem os cristãos. Como fazemos nós. Mas em nenhum momento da história se falam um ao outro. Se calhar, também como nós. Só sabemos falar por trás, entre raivas acumuladas, insultos e desprezo. Parece que também neste aspeto a história de Jesus põe a nossa vida a descoberto!

11. Por último, a história que ouvimos mostra-nos e adverte-nos que tanto nos podemos perder lá longe, no deserto, como a ovelha e o filho mais novo, como nos podemos perder em casa, como a moeda e o segundo filho. Atenção, portanto: podemos andar perdidos em casa, numa casa fria, sem Pai e sem irmãos, sem lareira, sem mesa e sem alegria! Só com patrão e assalariados! E, ainda por cima, podemos pensar que somos zelosos e até beatos (!), muito melhores do que os outros. Todos os cuidados, portanto!

12. Faz sintonia com o quadro impressionante do Evangelho de hoje a página igualmente fascinante do Livro do Êxodo 32,7-14. É sabido que o texto assinalado segue imediatamente o episódio do bezerro de ouro, que encontramos em Êxodo 32,1-6, e que constitui como que uma paródia, rutura e perversão do assentimento do povo em Êxodo 19,8 e 24,3.7, em que o povo afirmou: «Faremos todas as palavras que o Senhor falou». Êxodo 32,1-6 mostra que o povo faz, não a Palavra de Deus, mas um bezerro! A página de hoje recupera o episódio do bezerro, pondo o povo a adorá-lo, a oferecer-lhe sacrifícios, e a confessar diante dele: «Este é o teu deus, ó Israel, que te fez subir da terra do Egito» (v. 8). Posto isto, o caudal do texto de hoje atinge-nos em duas vagas: a primeira, expressa nos v. 7-10, mostra-nos Deus a falar com Moisés acerca de um Israel desviado de Deus e obstinado, e que Deus pretende destruir, para começar tudo de novo só com Moisés; a segunda, expressa nos v. 11-13, mostra-nos Moisés no papel de intercessor, como que dizendo a Deus: «Não faças isso!», terminando, no v. 14, com Deus a atender a súplica de Moisés e a desistir do seu projeto de destruição do povo.

13. A primeira vaga abre com Deus a dizer para Moisés: «Vai, desce, que o teu povo, que tu fizeste subir da terra do Egito, corrompeu-se» (v. 7), e a repeti-lo em Êxodo 33,1. Convenhamos que um tal dizer de Deus é estranho e traduz bem a corrupção do povo e a consequente rutura da Aliança. Dizendo o que diz e como o diz, Deus como que está, de certa maneira, a fazer recair sobre Moisés a responsabilidade da condução e do comportamento do povo («o teu povo, que tu fizeste subir da terra do Egito»); por outro lado, ao dizer o que diz e como o diz, Deus está a abrir a Moisés a porta para repor a verdade dos factos e assumir o papel de mediador-intercessor, em ordem a poder transformar em perdão o seu projeto destruidor. Este convite à intercessão de Moisés parece mesmo impor-se a partir da afirmação do v. 10, em que Deus avança a disjunção entre Moisés e o povo, e se propõe destruir o povo e começar tudo de novo só com Moisés: «E agora deixa-me a sós comigo mesmo, e arderá a minha cólera contra eles e os devorará, e de ti farei um grande povo». Eis como a porta fica entreaberta: se Deus decidiu mesmo destruir Israel, por que razão diz que o vai fazer antes de o fazer?

14. Na verdade, dizendo o que diz, quando o diz, a quem o diz, como o diz, Deus como que força Moisés a «ficar de pé, sobre a fresta (baperets), diante d’Ele», extraordinária expressão do Salmo 106,23, posição incómoda e difícil de quem deve assumir a vigilância e intercessão, paradoxalmente não sobre o povo, mas sobre Deus, «para fazer voltar atrás a sua cólera de destruição». Percebe-se aqui alguma coisa do mistério deste Deus que não se comporta em relação aos homens como um homem ou como um princípio abstrato. De facto, no v. 11, início da segunda vaga, o narrador põe logo Moisés no papel de mediador-intercessor, apelando a Deus, e repondo a verdade do credo: «Mas Moisés implorou face ao Senhor, seu Deus, e disse: “Porquê, Senhor, arderá a tua cólera contra o Teu povo, que Tu fizeste sair da terra do Egito?”». Como se vê, a pronominalidade (tu, teu) muda de Deus para Moisés (v. 7), e de novo de Moisés para Deus (v. 11). É o povo pecador a passar de mão em mão, para ficar finalmente em boas mãos, nas mãos de Deus. Valeu a intercessão vigilante de Moisés, que «permaneceu de pé, sobre a fresta, diante dele, para fazer regredir a sua cólera de destruição».

15. Na lição da 1 Carta a Timóteo 1,12-17, hoje também lida, vemos São Paulo em ação de graças a Jesus Cristo, Senhor Nosso, porque sendo blasfemo, perseguidor e insolente, foi objeto da graça e da misericórdia superabundantes que há em Cristo Jesus. E afirma com fé esclarecida e verificada que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, de que ele é o primeiro. Assim, pode Paulo apresentar-se como exemplo para aqueles que hão de acreditar. Fecha a perícope uma extraordinária doxologia: «Ao Rei dos séculos, ao Deus incorruptível, invisível e único, honra e glória, pelos séculos dos séculos. Ámen» (v. 17).

16. Cantamos hoje, em perfeita consonância com toda a liturgia deste Domingo, alguns acordes do Salmo 51, a súplica penitencial por excelência, que constitui a ossatura espiritual de Agostinho, de Charles de Foucauld, de Joana D’Arc, que inspirou a pena de muitíssimos Padres da Igreja, e ecoa na música de Bach, Lulli, Donizetti, Honegger… Hoje é a nossa vez de nos sentarmos um pouco a trautear a música que nos atravessa e nos põe de pé. Está aqui a letra e a música do homem, de qualquer homem, seja ele quem for, de que raça for, de que religião for. Enxerto aqui, em tradução segura e literal, as palavras preciosas que constituem a introdução: «Faz-me graça (hannenî), ó Deus, segundo o Teu amor (hesed)! Segundo a multidão das Tuas misericórdias (rahamîm), apaga as minhas transgressões (peshaʽîm)! Lava-me e relava-me da minha iniquidade (ʽawah), e do meu pecado (hathaʼ) purifica-me!» (v. 3-4). Quem é Deus? Graça, amor, misericórdias. Quem sou eu? Transgressões, iniquidade, pecado. Será Deus o vencedor ou serei eu? Claro que é Deus. Deixo aqui, a fechar, as palavras altíssimas da grande mística muçulmana do século VIII, Rabiʽa, de seu nome: «Um homem disse a Rabiʽa: “Cometi muitos pecados e muitas transgressões; se eu me arrepender, Deus perdoar-me-á?”. Disse Rabiʽa: “Não. Tu arrepender-te-ás, se Ele te perdoar”» (I detti di Rabiʽa, XII, 2).

…..

Ainda agora abri a página em branco do deve-e-haver

Deste tempo que me é dado viver.

Não sei ainda os registos que nela se farão,

Mas já sei que, ao terminar o dia,

A página agora aberta transbordará de perdão e de alegria.

…..

É essa a lição que se recebe do grande Salmo deste dia:

«Faz-me graça, ó Deus, segundo o teu amor,

Segundo a multidão das tuas misericórdias!

Apaga as minhas transgressões,

Lava-me e relava-me da minha iniquidade,

E do meu pecado purifica-me!».

…..

Graça, amor, misericórdias:

É a tua bondade aqui três vezes dita.

Transgressões, iniquidade, pecado:

É a minha maldade aqui também três vezes repetida.

…..

Tu e eu sempre frente-a-frente,

Sempre lado-a-lado:

Teu é o amor, meu é o pecado.

Mas vê-se bem que esta luta tem um vencedor antecipado:

Sim, o teu amor acaba sempre por vencer o meu pecado!

…..

António Couto


OPERAÇÃO DE CORAÇÃO ABERTO

Setembro 2, 2022

Sb 9,13-19; Sl 90; Flm 9-10.12-17; Lc 14,25-33

1. Desde Lucas 9,51 que Jesus está decididamente A CAMINHO de Jerusalém. E assim continuará até Lucas 19,28. Com este belo recurso à tipologia do CAMINHO (hodós) e do verbo CAMINHAR (poreúomai), Lucas exemplifica e clarifica o modo cristão de viver. Porque todo o CAMINHO abre o mundo ao meio, ao mesmo tempo que vai desenhando e atualizando a nossa vida em duas partes: «para a frente» e «para trás». Note-se que Lucas é, de longe, o Autor do Novo Testamento que mais vezes usa estes vocábulos, sensivelmente 40 em 100 vezes «caminho» (hodós) e 88 em 150 vezes «caminhar» (poreúomai). Num mundo plano como o nosso, o Evangelho de Lucas rasga CAMINHOS e procede a verdadeiras operações de CORAÇÃO aberto. CAMINHO que abre CAMINHOS novos, novas maneiras de viver, com Jesus, que é o CAMINHO, sabe o CAMINHO, mostra o CAMINHO e faz o CAMINHO, a enxertar a plenitude nesta nossa imensa e chata planitude.

2. E aí está o Evangelho deste Domingo XXIII do Tempo Comum (Lucas 14,25-33) a abrir com a indicação de que «CAMINHAVAM com Ele multidões numerosas» (Lucas 14,25). E Jesus, sempre com tempo, a voltar-se para nos dizer palavras cortantes como bisturis: «Se alguém vem ter comigo e não odeia (miséô) o próprio pai e a mãe e a mulher e os filhos e os irmãos e as irmãs, e até a própria vida, não pode ser meu discípulo» (Lucas 14,26-27). O que se diz aqui da família mais direta e da própria vida, dir-se-á um pouco mais à frente dos «próprios bens» (Lucas 14,33).

3. Compreenda-se, antes de mais, o sentido daquele «odiar» (miséô). É óbvio que não se trata de ódio em sentido próprio. Colidiria, por exemplo, com Lucas 18,20, em que Jesus, citando os mandamentos ao homem rico, refere a «honra devida ao pai e à mãe». E contradiria também o mandamento do amor ao próximo. O «odiar» acima referido é, na verdade, a tradução do modo de dizer aramaico, hebraico e semítico em geral, línguas que não têm outro verbo para dizer «preferir». Vê-se melhor com exemplos: em Génesis 29,31, lê-se literalmente: «O Senhor viu que Lia era odiada», e em Génesis 29,33, após ter concebido Simeão, lê-se literalmente: «O Senhor viu que eu era odiada». Em Deuteronómio 21,15-17, lê-se literalmente: «Se forem para um homem duas mulheres, e ele amar uma e odiar a outra, e gerarem para ele filhos, a que é amada e a que é odiada, e se for o filho primogénito da odiada…». Nos dois textos do Génesis, a locução era odiada aparece sempre traduzida por não era amada. No texto do Deuteronómio, que apresenta o contraponto entre a mulher amada e a mulher odiada, a mulher odiada é a não amada ou de que não gosta. Portanto, é facilmente compreensível que o sentido do texto acima não passa por «odiar» a família ou a própria vida, mas por alguém «preferir» ou «pôr antes», «à frente», do seguimento de Jesus a família, a própria vida ou os bens.

4. Posto isto, entenda-se bem que o CAMINHO de Jesus é um CAMINHO de decisões fortes. Sendo que «decisão» deriva de «decidere», cuja etimologia remete para «cortar». Aí estamos outra vez então no domínio do bisturi e da operação de CORAÇÃO aberto que tem de fazer todo o discípulo de Jesus. A ligação do discípulo a Jesus deve estar antes e ser a chave de leitura de todas as outras ligações: consigo próprio, com a família, com os amigos, com os bens. «Despedir-se» (apotássomai) de todos os seus bens não significa deitá-los fora, fugir deles. Significa, antes, dar-lhes o uso correto. Verificação: as mulheres que seguiam Jesus e os seus discípulos desde a Galileia serviam-nos (diakonéô) com os seus bens (Lucas 8,3).

5. Sendo um CAMINHO de decisões fortes, de cortes, é também um CAMINHO de ponderação e deliberação atenta e serena. Por isso, por duas vezes, o dizer de Jesus convida a «sentar-se primeiro» (Lucas 14,28 e 31). Sim, seguir Jesus no seu CAMINHO implica ser fiel a Jesus da mesma maneira que Jesus é fiel ao Pai. Não se pode compor uma espécie de cristianismo à medida, selecionando de Jesus os aspetos que nos agradam, deixando outros de lado.

6. A Assembleia Dominical é um tempo extraordinariamente denso e intenso, em que os discípulos de Jesus e as multidões se sentam para ouvir a Palavra de Deus, e para tomar as decisões consentâneas com a força da Palavra que escutamos. Decisões são cortes. São incisões. Todos os discípulos de Jesus se devem sujeitar urgentemente a esta operação de CORAÇÃO aberto.

7. Sim, os nossos passos e pensamentos são falíveis, e andamos muitas vezes cansados com o peso das preocupações do dia-a-dia. Tudo, sobre a terra, requer trabalho e sacrifício. Até o pão que comemos requer trabalho duro. Mas Deus dá-o aos seus amigos até durante o sono (Salmo 127,2). E dá também a Sabedoria, para nos guiar, e sem a qual nada vale. Peçamo-la ao Senhor, enquanto estamos sentados a ponderar e discernir. Sem ela, nada do céu conseguimos saber. E é urgente conhecer a vontade de Deus, para nos vincularmos a ela. A lição é do Livro da Sabedoria 9,13-18.

8. Não é necessário «odiar» ninguém. Mas é preciso, é decisivo e incisivo «amar mais», para sermos e termos «mais» irmãos. Ainda há muitos «Onésimos» à espera de um amor novo que os liberte, que nos liberte. Vai nesse sentido o bilhete postal que Paulo envia a Filémon 9-17, para que receba Onésimo como filho, e não como escravo. Esta pequena Carta, quase um bilhete postal (tem apenas 25 versículos), já foi definida como uma «pequena obra prima de fino trato e de coração». Em dia de Domingo, é hoje a única oportunidade que a liturgia nos oferece para a conhecermos melhor por dentro e por fora. É sintomático que tenhamos encontrado um bilhete postal semelhante do escritor latino Plínio, o Jovem (61-112), quase contemporâneo de S. Paulo, endereçado a um certo Sabiniano em favor de um escravo fugido. E a única razão que Plínio invoca para mudar em suavidade a cólera do patrão é a da superioridade da mansidão sobre a ira e da generosidade sobre a violência. «Envio-to, ele que é as minhas entranhas (splágchna)» (v. 12), isto é, a ternura que há em mim. «Recebe-o como se fosse a mim próprio» (v. 17), como «irmão amado»… «no Senhor» (v. 16). Deixamos aqui algumas palavras de uma pequena, mas bela homilia que fez Lutero num Domingo de setembro de 1522, exatamente sobre este pequeno escrito paulino que traduz «de modo magistral um delicioso exemplo de amor cristão». (…) «Cristo representa-nos a todos junto do Pai e ama-nos tanto. E nós somos todos seus Onésimos».

9. O Salmo 90 põe em cena a eternidade e a solidez de Deus em confronto com a fragilidade e o sabor efémero da vida humana, sempre vista no microscópio de Deus. Este confronto é cantado na elegia sapiencial dos v. 1-10, sendo de súplica os v. 11-17. O primeiro movimento pode resumir-se na afirmação do v. 4: «Mil anos aos teus olhos são o dia de ontem que passou, como uma vigília da noite». E o segundo movimento tem o seu ponto alto no v. 12: «Ensina-nos a bem contar os nossos anos, para chegarmos à sabedoria do coração». Estar de passagem e sermos tão frágeis como a flor da erva (v. 5-6) não nos leva para o pessimismo, mas para viver intensamente a vida que Deus nos dá, Ele que é e permanece o nosso refúgio de geração em geração (v. 1). Um dos clássicos estudiosos dos Salmos, Artur Weiser (1893-1978), alemão, de tradição Evangélica, expressa bem esta realidade: «Na luz da graça de Deus, um reflexo de eternidade cai também sobre a vida e sobre a obra do homem. Da parte de Deus, a fragilidade recebe subsistência, a miséria torna-se glória, aquilo que parecia sem sentido, alcança significado… É como se a estrela de outro mundo viesse fazer luz sobre o fluir dos nossos dias».

António Couto


SE AINDA NÃO RECEBESTE CONVITE DE DEUS, TRATA DE MUDAR DE VIDA!

Agosto 26, 2022

Sir 3,19-21.30-31; Sl 68; Hb 12,18-19.22-24; Lc 14,1.7-14

1. Imaginemos o final de uma manhã de verão batida por um vento quente, e que se está a celebrar um casamento hebraico com um número elevado de convidados que se empurram uns aos outros à volta da tenda nupcial, sob a qual, na presença do rabino, o noivo introduz o anel no dedo da noiva, enquanto profere a fórmula do Talmude: «Com este anel, ficas-me consagrada segundo a Lei de Moisés e de Israel». Seguir-se-á a leitura e a assinatura da ketubah, o documento legal que garante os direitos e os deveres dos cônjuges.

2. Ali ao lado, as mesas aguardam os convidados para o almoço festivo. Alguns já, entretanto, começaram a ocupar os lugares mais propícios à fotografia de jet-set com lugar assegurado nas primeiras páginas dos jornais do dia seguinte, enquanto outros procuram aproximar-se o mais possível dos esposos para, depois da oração das sete bênçãos rituais a Deus por ter criado a maravilha do amor humano, poderem assistir ao gesto de quebrar um copo de vinho, que é um gesto muito popular e significativo, que pretende recordar aos jovens esposos que ninguém, nem sequer dois jovens enamorados e felizes, conhecerá sempre uma alegria plena que nunca seja visitada por laivos de tristeza e dor.

3. O cenário descrito pode servir para situar o Evangelho deste Domingo XXII do Tempo Comum (Lucas 14,1.7-14), com Jesus a esquadrinhar aquelas faces oxidadas pela mentira e toldadas por latas e latas de tinta e montes e montes de aparências. E a partir das hipocrisias que se cruzam diante dos seus olhos, Jesus adverte os convidados que se atropelam na tentativa de ocupar os primeiros lugares: «Procurai os últimos lugares!» (Lucas 14,10), muito na linha da multissecular sabedoria de Israel: «Não te vanglories diante do rei,/ nem ocupes o lugar dos grandes,/ pois é melhor para ti que te digam: “Sobe para aqui!”,/ do que seres humilhado diante de um nobre» (Provérbios 25,6-7). O que Jesus tem em vista é esta muito humana e instintiva vanglória de nos sentirmos superiores aos outros, de o podermos mostrar, e de sermos reconhecidos como tal. Esta busca de prestígio, este desejo vão de ostentar superioridade, pode ver-se até, imagine-se, no próprio funeral e na pedra tumular!

4. E, voltando-se depois para o fariseu que o tinha convidado, Jesus desequilibra-lhe a maneira mundana de ver e de fazer, e põe-lhe diante dos olhos a assimetria do Reino de Deus: «Quando deres um banquete, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos» (Lucas 14,12). Por esta lógica simétrica [hoje convido-te eu a ti; amanhã convidas-me tu a mim], os pobres ficam sempre de fora, porque não podem, por sua vez, convidar os ricos! Um pobre convidar um rico seria fazer baixar o rico ao seu nível, e constituiria mesmo um desprestígio para a família o rico! A assimetria do Reino de Deus vira tudo do avesso e ao contrário: «convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos, e serás feliz por eles não terem com que te retribuir» (Lucas 14,14). Como se vê, aos quatro grupos de pessoas que dão lustro ao nosso «ego», Jesus contrapõe outros quatro grupos de pessoas habitualmente excluídas, não só por não trazerem nenhum lustro ao nosso «ego», mas até por criarem algum embaraço. Mas é por esta brecha de GRAÇA aberta no nosso quotidiano, que entra Deus e o mundo novo de Deus, diz Jesus.

5. A literatura talmúdica põe-nos esta assimetria da bondade diante dos olhos do modo mais radical possível, quando fala da «misericórdia da verdade» a propósito do sepultamento de um cadáver de que nenhum familiar próximo do defunto pôde ou quis ocupar-se. Diz o Talmude: «Se o Sumo-sacerdote, quando se dirige para o Templo para celebrar o Yôm Kippûr, se vem a deparar com um cadáver, não deve hesitar em “tornar-se impuro” no contacto com o cadáver, porque a “misericórdia da verdade” prevalece sobre a liturgia do Yôm Kippûr». O que faz, neste caso, o Sumo-sacerdote é símbolo de uma misericórdia absolutamente gratuita, pois o morto nada pode retribuir-lhe. Este ato de misericórdia quebra todos os cadeados do círculo encantado do nosso «eu», e abre-nos para a verdadeira imitação de Deus.

6. Aí está outra vez a ecoar a velha e assimétrica sabedoria de Israel, que vem na torrente do Livro de Ben Sira, que um neto recolhe dos ensinamentos do seu avô: «Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te,/ para achares graça diante do Senhor […]. A água apaga a chama,/ a esmola apaga os pecados» (Ben Sira 3,20 e 30). São ensinamentos preciosos que atravessam a Escritura Santa. É fazendo assim, diz bem a Carta aos Hebreus, hoje também lida, que atingis a vossa meta, aproximando-vos de Deus, de Jesus, dos santos e de milhões de anjos reunidos em festa» (Hebreus 12,22-24).

7. Não nos esqueçamos de que «dar esmola» (eleêmosýnê) é «fazer GRAÇA» (eleêô). É, portanto, imitar Deus, a quem rezamos ou cantamos: Kýrie eléêson [= «Senhor, faz-nos GRAÇA»], isto é, embala-nos nos teus braços maternais e olha para nós com um olhar maternal.

8. Em Jesus, a GRAÇA é acessível a todos, pois Ele olha com olhos de GRAÇA para todos: ricos e pobres, justos e pecadores, sãos e doentes. Também para os fariseus. Note-se que o Evangelho de Lucas, que é o Evangelho da GRAÇA de Deus aberto para todos, é o único a pôr Jesus por três vezes à mesa com fariseus (veja-se 7,36; 11,37; 14,1).

9. O Salmo 68 constitui um imenso catálogo das maravilhas de Deus, expostas numa linguagem vivíssima, saltitante, incontrolável, como convém a Deus. Os Cruzados fizeram dele o seu hino de batalha. A parte que será cantada neste Domingo exalta Deus como aquele que faz estremecer os justos de incontida alegria, o qual, na sua santidade, se apresenta como Pai dos órfãos e defensor das viúvas, que dá uma casa aos sem-abrigo, faz sair os prisioneiros ao som de música, e deixa os rebeldes no deserto, derrama a sua chuva sobre a sua herança, envolve o pobre no seu manto de bondade. Riqueza cénica, cromática, rítmica, encantatória. O Salmo é unanimemente considerado o mais difícil do Saltério. Mas é sobretudo uma impressionante obra de amor e de fé que canta a ação de Deus na história, à frente do seu povo, e no meio do seu povo, sempre em favor do seu povo.

António Couto


ELES DENTRO, E NÓS «FECHADOS FORA»

Agosto 19, 2022

Is 66,18-21; Sl 117; Hb 12,5-7.11-13; Lc 13,22-30

1. A profecia de Isaías (66,18-21), hoje lida e escutada, rompe os nossos estreitos e falsos privilégios e alarga em muito a estrada da salvação, pondo todos os povos, como nossos irmãos, festivamente a caminho de Jerusalém, cidade da fraternidade e da paz! Enfim, aí está de novo a fechar o Livro de Isaías a ideia grande de missão: urge levar a glória de Deus às nações (verdadeira dimensão missionária do Povo de Deus), em vez de nos deixarmos seduzir pela glória das nações (Isaías 66,19)! E a ideia revolucionária de alargar o sacerdócio, para além das cerradíssimas fronteiras sadoquitas e levíticas, para todas as nações (Isaías 66,21), refina, de certo modo, a comunidade do culto já entretanto aberta, para espanto nosso, a eunucos e estrangeiros (Isaías 56,3-7)! Sempre para espanto nosso, o grande Isaías tinha já posto Deus a pronunciar a seguinte bênção: «Bendito o meu povo, o Egito, e a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança» (Isaías 19,25). E já antes, no cântico de Sião do Capítulo 2,2-3, Isaías põe todas as nações a caminho de Jerusalém, para aí experimentarem a alegria de saborear, como filhos e irmãos, o pão da Palavra de Deus. E o profeta aproveita esta imensa procissão de esperança para gritar aos ouvidos dos seus concidadãos: «Vem, Casa de Jacob, vem, caminhar na luz do Senhor!» (Isaías 2,5).

2. Também a palavra do Evangelho proclamado neste Domingo XXI (Lucas 13,22-30) se dirige fortemente a NÓS, os que nos consideramos de dentro, e continua a desconcertar a nossa miopia no que às coisas de Deus diz respeito. «Comemos e bebemos contigo», «ouvimos os teus ensinamentos» (Lucas 13,26)! É como quem diz: frequentámos a Igreja e os sacramentos, comungámos tantas vezes, ouvimos proclamar a tua Palavra, conhecemos-Te muito bem, somos praticantes de longa data e até talvez… considerados beatos!

3. Ficaremos espantados quando percebermos bem que os títulos que orgulhosamente ostentamos são falsos, há muito caducados, e não garantem o acesso a lugar nenhum no banquete do Reino dos Céus, pois não basta dizer «Senhor, Senhor!». É preciso «fazer a vontade do meu Pai que está nos céus!», diz-nos Jesus (Mateus 7,21).

4. Salta à vista que o texto de Lucas 13,22-30 se divide claramente em duas partes; Lucas 13,22-24 e Lucas 13,25-30. A primeira parte abre com o aceno ao caminho crucial de Jesus, que, desde Lucas 19,51, como já vimos, se dirige sem hesitação para Jerusalém. Lucas 13,22 apresenta-nos a segunda menção deste caminho para Jerusalém. É neste contexto do caminho, que surge a nossa pergunta: «Senhor, é pequeno o número dos que se salvam?» (Lucas 13,23). Como é seu hábito, Jesus não responde diretamente «sim» ou «não». Em vez disso, deixa uma forte interpelação (Lucas 13,24) e conta uma parábola (Lucas 13,25-30).

5. Eis a interpelação: «Lutai com todas as forças (verbo agonízomai) por entrar pela porta estreita» (Lucas 13,24). O verbo empregado (agonízomai), única vez em Lucas, pertence ao léxico militar e desportivo, da competição e da luta, e implica, portanto, luta e empenho extremo, não assim-assim. A parábola é ainda mais desconcertante para nós. É mesmo tão desconcertante, que corremos o risco de nem sequer levarmos a sério o que ouvimos. Da porta estreita, Jesus passa para a casa, e para o dono da casa que fecha a porta (Lucas 13,25). E, pelos vistos, nós não estamos dentro da casa, estamos fora, «fechados fora», a bater à porta e a gritar: «Senhor, abre-nos!». E, de dentro, vem a resposta do dono da casa: «Não vos conheço!» (Lucas 13,25). «Afastai-vos de mim, vós que sois operadores de injustiça» (Lucas 13,26), alusão ao Salmo 6,9.

6. Ao contrário, e para novo e ainda maior espanto nosso, NÓS, de fora, veremos a casa cheia de gente que vem de longe, do norte, do sul, do nascente e do poente (Lucas 13,29), alusão ao Salmo 107,3. E perguntaremos atravessados por um último espanto: então, NÓS, que somos padres, sacristães, ministros da comunhão, catequistas, acólitos, leitores, membros do conselho económico, do conselho pastoral, do grupo coral e não sei de quantas irmandades, NÓS, que estávamos sempre do lado de dentro, como é que agora estamos do lado de fora?! Então, e estes desconhecidos, pagãos, não praticantes, que antes tinham de nos pedir licença para entrar, como é que agora estão lá dentro, e nós cá fora?!

7. A razão é clara: o dono da casa não nos conhece (Lucas 13,25). Reside, então, aqui o problema. Estamos tantas vezes dentro das igrejas, tagarelamos uns com os outros, ocupamos ciosamente os nossos lugares, mas será que prestamos alguma atenção ao dono da casa? Será que chegamos a dar pela Presença que habita aquela Casa e que dá sentido à nossa vida? Falamos com Ele? Fazemos com Ele aquele caminho crucial?

8. É neste caminho que acontecem coisas importantes, e não podemos andar nele distraídos, inativos, de braços caídos. A página de Mateus 25 explicita bem o tom do Evangelho de hoje: «Afastai-vos de MIM (…), pois tive fome e não ME destes de comer, tive sede e não ME destes de beber, era estrangeiro e não ME acolhestes, nu e não ME vestistes, estive doente e na prisão e não ME visitastes. (…) Em verdade vos digo: cada vez que não o fizestes a UM (hení) destes, os mais pequenos, também a MIM o não fizestes”» (Mateus 25,42-43.45).

9. Salta à vista que é urgente começar AGORA a compreender que é preciso validar, com a vida, o bilhete que dá acesso à mesa do Reino dos Céus. A compreender e a fazer. É a inação que nos desclassifica. Jesus manda-nos lutar: «Lutai com todas as forças, até agonizar (verbo agonízomai), por entrar pela porta estreita» (Lucas 13,24). Podemos ouvi-lo, de outra maneira, da boca de Pedro em Cesareia Marítima: «Na verdade, Deus não faz aceção de pessoas, mas em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça é bem aceite por Ele» (Atos dos Apóstolos 10,34-35).

10. Hoje, como sempre, é de santos e de justos que o nosso mundo precisa. Deles é o Reino dos Céus. E NÓS? Eles não perdem tempo em acudir às necessidades dos seus irmãos, sejam eles quem forem. E NÓS? Alguém dizia, não há muito tempo, que «os cristãos meramente praticantes estão em fim de linha. Hoje, precisamos de cristãos enamorados!». O cristão meramente praticante é aquele que está sempre a dizer: «Posso estar descansado: hoje cumpri todos os meus deveres». O cristão enamorado é aquele que não para de dizer: «Sim, fiz alguma coisa; mas ainda tenho tanta coisa para fazer!».

11. Lutai com todas as vossas forças em todos os momentos. A porta é estreita e está aberta pouco tempo. É o espaço e o tempo da nossa vida. Sede cristãos enamorados! E não vos esqueçais que o amor verdadeiro (agápê) é uma luta (agôn), sendo que agápê e agôn têm a mesma etimologia.

12. A lição de hoje do sermão da Carta aos Hebreus (12,5-7.11-13) é mesmo uma lição, uma instrução ao jeito do Livro dos Provérbios 3,11-12, que cita, para nos dizer e ensinar que Deus nos trata como filhos, e é por isso que nos ama e pedagogicamente nos corrige. É nesta ótica que devem ser lidas todas as situações da vida, sobretudo as mais difíceis.

13. O Salmo 117, o mais pequeno do Saltério, apenas 17 palavras hebraicas, é semelhante a um «ponto», sendo, por isso, chamado o punctum Psalterii. Por ser tão pequeno, já houve quem o quisesse juntar ao anterior (116) ou ao seguinte (118). Mas este é o caso em que o pequeno é belo e ao mesmo tempo imenso, porque reclama para o louvor de Deus todas as nações e todos os povos! E põe em realce dois dos mais belos atributos de Deus: o amor fiel (hesed) e a fidelidade (ʼemet). Soa, no Saltério, como o nosso «Glória ao Pai…». É citado na Carta aos Romanos 15,11, pelo seu elevado e concentrado teor universalista e missionário. É por isso também que a sua tonalidade se ajusta bem à liturgia ecuménica deste Domingo.

António Couto


ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA

Agosto 13, 2022

Ap 11,19; 12,1-6.10; Sl 45; 1 Cor 15,20-27; Lc 1,39-56

1. Ainda que com títulos diferentes, mas com temas e conteúdos idênticos, as Igrejas do Oriente e do Ocidente, portanto a Igreja inteira, a Una e Santa, celebra no dia 15 de Agosto a maior e mais antiga festa da Mãe de Deus, a Virgem Santa Maria. No Oriente, é a festa da «Dormição» (koímêsis), enquanto que, no Ocidente, prevalece a tonalidade da «Assunção» (análêmpsis).

2. O Evangelho deste grande Dia relata o belíssimo episódio da «Visitação» (Lucas 1,39-45) seguido do cântico da «Exultação» ou «Magnificat» (Lucas 1,46-56). Note-se outra vez uma pequena diferença de tonalidade: o episódio evangélico que o Ocidente conhece por «Visitação», recebe no Oriente o nome de «Saudação» (aspasmós). E o episódio que precede e motiva esta «Visitação» ou «Saudação» recebe no Ocidente o nome de «Anunciação» e no Oriente o nome de «Evangelização» (euangelismós) (Lucas 1,26-38). Verdadeiramente é a Leveza e a Alegria em trânsito, a caminho, ao ritmo do vento do Espírito, música nova, inefável e bendita. Vinda de Deus até Maria, até Isabel, até João Batista, outra vez até Deus. Lembra uma pequena parábola rabínica que, quando David andava fugido de Saul, buscando refúgio nas montanhas (1 Samuel 22 e seguintes), um dia dependurou a sua harpa numa árvore, e adormeceu. Mas o vento, passando, fez as cordas da harpa exalar uma suave melodia. Verdadeira música do Espírito.

3. É igualmente sugestiva a intuição dos Mestres judaicos, registada por Martin Buber nos seus «Contos dos Justos». Citando o Salmo 147,1, em que se lê: «É bom cantar ao nosso Deus», Buber apresenta logo a bela interpretação que Rabbi Elimelek dava deste versículo: «É bom se o homem faz cantar Deus nele». Música divina. Assim Maria correndo sobre os montes e saudando Isabel, em casa de quem permanece cerca de três meses, e cantando as maravilhas de Deus no Magnificat, assim Isabel bendizendo Maria e bendizendo Deus, assim João Batista, dançando ao som dessa nova música inefável, no ventre de Isabel.

4. Maria levantou-se e partiu apressadamente (Lucas 1,39a): aí está o lema para a JMJ de 2023. Maria correndo sobre os montes (Lucas 1,39b): feliz evocação do mensageiro de boas notícias de Isaías 52,7: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião, exultação logo partilhada pelas sentinelas de Sião, na qual participam até as ruínas!…». Feliz evocação também do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, assim cantado pela amada: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». Assim, com este simples acorde montanhoso, o narrador e grande retratista do terceiro Evangelho traça o perfil de Maria movida por uma grande notícia e pelo amor. A aclamação de Isabel: «Bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre» [= «Bendita tu e bendito Deus»], lembra o duplo «Bendito» na aclamação de Judite (13,18). A locução maravilhada de Isabel: «E de onde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?» (Lucas 1,43), remete para o atónito dizer de David: «E de onde me é dado que venha ao meu encontro a Arca do Senhor?» (2 Samuel 6,9). E a «dança de João» reclama a dança de David na presença da Arca do Senhor (2 Samuel 6,5.14.16.21). E os «cerca de três meses» de permanência de Maria em casa de Isabel, regressando então a sua casa (Lucas 1,56), não são, como vulgarmente se pensa, para indicar que Maria está presente no nascimento de João Batista, pois este apenas é narrado no versículo seguinte (Lucas 1,57). É, antes, outra vez o acerto com a Arca do Senhor, que permanece cerca de três meses na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,11). Os acordes textuais evidentes mostram Maria como a Arca da Nova Aliança, como, de resto, é aclamada pelo Povo de Deus, quando recita a ladainha de Nossa Senhora.

5. O que verdadeiramente me extasia e inebria é esta música outra, ventilando as cordas do nosso humano, e quase sempre orgulhoso, coração. Vem outra vez a propósito a velha sabedoria judaica, que nos legou esta bela pequena história: «Conta-se que, quando David terminou o Livro dos Salmos, se sentiu muito orgulhoso. Então disse para Deus: “Senhor do mundo, quem de entre todos os seres que criaste, canta melhor do que eu a tua glória?”. Naquele momento, apareceu uma rã que lhe disse: “David, não te envaideças. Eu canto melhor do que tu a glória de Deus”» (Sefer ha-Haggadah, 89b).

6. Aí está, a descoberto, na lição do Livro do Apocalipse (11,19; 12,1-6.10), a Arca da Aliança, a Mulher messiânica, a Igreja, Maria, grávidas de um Filho que nasceu e foi arrebatado para junto de Deus (v. 5), nascimento e ascensão, fora das pautas habituais, «sinal» para sempre aceso e legível da presença viva e ativa de Deus no meio de nós, como a luz de uma vela, para a celebração festiva dos filhos de Deus reunidos. Avista-se, porém, outro «sinal» de sinal contrário, que serve para nos manter unidos e atentos no meio das dificuldades e perseguições desta vida, que, todavia, não devem toldar-nos a vista da salvação e da vitória, claramente a descoberto no horizonte onde brilha a esperança: «Agora cumpriu-se a salvação, a força e o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo» (v. 10).

7. O final da Primeira Carta aos Coríntios (15,20-27) põe um imenso selo de luz e de esperança na celebração luminosa deste Dia. Com a Ressurreição de Cristo salta à vista a poeira de toda a iniquidade e falsidade e morte, e já se vê a «assunção» da nossa frágil humanidade em Cristo e por Cristo até Deus Pai. «Cristo foi ressuscitado (egêgertai: perf. pass. de egeírô) dos mortos, primícias (aparchê) dos que adormeceram» (1 Coríntios 15,20). Ele é, portanto, o primeiro Homem a ser ressuscitado. E se é o primeiro e primícias, então representa-nos a todos e constitui promessa e certeza para todos. Nele a morte foi vencida para todos. A esperança fundamenta-se na certeza deste Acontecimento principal da Vida do Senhor, que dá significado a todos os outros acontecimentos da sua Vida, ao inteiro Antigo Testamento, à Igreja e à vida de todos os homens.

8. O belíssimo Canto de Amor, que é o Salmo 45, serve hoje para celebrar a Igreja Esposa e Mãe e Maria Esposa e Mãe. Este belo hino, como o Cântico dos Cânticos, canta o Amor, que é sempre divino e humano. Na verdade, no amor humano pode ler-se o amor revelado por Deus, pelo que, se existe o amor, existe Deus, dado que o amor vem de Deus (1 João 4,7). Não admira, por isso, que este Salmo tenha sido interpretado em clave messiânica quer no judaísmo quer no cristianismo.

9. Pela Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1 de Novembro de 1950, o Papa Pio XII proclamava a Assunção da Virgem Santa Maria como dogma de fé. Mas é desde os primeiros séculos do Cristianismo que o Povo de Deus aclama, proclama e vive com amor intenso esta realidade. Quantas igrejas, paróquias e dioceses a têm como Padroeira! E, neste particular, este recanto Peninsular, terra de Santa Maria, não podia ser exceção. O Povo de Deus, desde muito cedo, aclamou a Assunção de Maria, Mãe de Deus e esperança da nossa frágil humanidade.

10. Um lugar guarda esta memória em Jerusalém. É preciso descer ao vale que corre a Oriente da cidade, o famoso vale do Cédron. Deixando à direita o Getsémani com as suas oliveiras seculares e a Basílica da Agonia de Jesus, muito próximo da Gruta dos Apóstolos ou da Prisão de Jesus, chega-se a um pátio pavimentado que dá para uma monumental fachada, que é o que resta de uma grande Igreja aí construída pelos Cruzados. Por detrás dessa fachada, estende-se uma escadaria que nos leva a uma cripta situada nas entranhas do vale do Cédron. É esta cripta que guarda um túmulo do século I, que a tradição cristã identifica com o túmulo de Maria, em forma de banco escavado na rocha, e que se apresenta bastante degradado devido à tentação dos peregrinos que, ao longo dos tempos, não resistiram a levar consigo um pedacinho da rocha que esteve em contacto com o corpo da «Bendita».

11. No dia da Solenidade da Assunção, é comovente ver aquela escadaria escura iluminada como um tapete de luz, devido às velas que os fiéis colocam em cada degrau. Conduzindo embora para um túmulo, a sensação que se cria é que aquela escadaria descendente, feita tapete de luz, abre para uma ianua coeli, «porta do céu», como também cantamos na litania de Maria.

12. No seguimento lógico da Assunção de Maria, a Igreja celebra oito dias depois, em 22 de Agosto, a Memória da Virgem Santa Maria, Rainha, proclamação também devida a Pio XII, através da Carta Encíclica Ad Coeli Reginam, de 11 de Outubro de 1954. Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos. O Rei e a Rainha não são, na Bíblia, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo dos homens. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar e a felicidade. Tal é a função do Rei e da Rainha.

…..

Nossa Senhora da Assunção,

Santa Maria do verão,

Ao céu elevada,

À minha porta sentada,

Com tua roca de linho

E um novelo inteiro de carinho.

…..

Olha por mim,

Fica sempre assim,

No campo e na eira,

À minha cabeceira.

É bom ter uma mãe

Como companheira.

…..

Senhora da Assunção

Ou da Dormição,

Envolve-me no teu manto,

Adormece-me com o teu canto,

A tua lalação,

Pertinho do coração.

…..

Vão os teus filhos

Em procissão de amor,

Atrás do teu andor,

Na mão uma flor.

Recebe-a, mãe,

E acolhe-nos sob a tua proteção,

Hoje e em cada dia,

Ave-Maria.

…..

António Couto


UM FOGO NOVO

Agosto 12, 2022

Jr 38,4-6.8-10; Sl 40; Hb 12,1-4; Lc 12,49-53

1. Abre assim a extraordinária lição do Evangelho deste Domingo XX do Tempo Comum (Lucas 12,49-57): «O fogo Eu vim trazer sobre a terra, e como Eu desejo que já tivesse sido aceso (anêphthê: aoristo passivo de anáptô)! Tenho um batismo para ser batizado, e como estou sob stress (synéchômai) até que ele seja consumado (telesthê: aoristo conjuntivo passivo de teléô [= levar à perfeição]»! (Lucas 12,49-50). Um claro paralelismo sinonímico, assente em dois passivos divinos ou teológicos. Fogo ainda por acender, batismo ainda por receber. Não é, portanto, o batismo do Jordão. Esse ficou já para trás. Trata-se, isso sim, de levar à perfeição a missão filial batismal recebida no batismo do Jordão, que será cumprida no batismo da Cruz Gloriosa com a Dádiva do fogo do Espírito Santo a todos nós! Digamo-lo uma vez mais: no decurso da sua vida terrena, embora possuísse o Espírito Santo em plenitude, Jesus ainda não o podia dar a nós, pois ainda não tinha sido glorificado (cf. João 7,39).

2. Não é, pois, de um vulgar incêndio que se trata. Este fogo é novo! Não é nosso. É de Deus. Vem de Deus. Mas arde e queima e opera dentro de nós, como um bisturi de dois gumes, até dividir alma e espírito, junturas e medulas, e julga mesmo as considerações e intenções do coração (Hebreus 4,12). É a própria Palavra de Deus que é como um fogo devorador (Jeremias 23,29). Veja-se o coração a arder dos dois discípulos de Emaús (Lucas 24,32). Veja-se a sarça que ardia e não se consumia, mas chamava por Moisés (Êxodo 3,2-4). Veja-se o fogo que arde no coração e nos ossos de Jeremias, e que ele não consegue dominar (Jeremias 20,9).

3. O batismo é um lume que alumia e queima e prepara para a luta do amor (agôn tês ágapês). Agôn [= luta] e agápê [= amor] têm a mesma etimologia. Vê-se, portanto, até etimologicamente, que o amor é uma luta que implica decisões todos os dias e a todas as horas. Sim, biblicamente, o amor não é um estado mais ou menos romântico ou idílico que se sofre, mas uma catadupa de decisões que temos de tomar. É preciso mesmo decidir amar os inimigos. Entenda-se bem: «amar», não «matar». Por isso, Jesus não veio trazer a paz angélica, mas a divisão evangélica (Lucas 12,51) ou a espada, como refere bem o paralelo de Mateus 10,34. Sim, para quem ama verdadeiramente, nada pode ser indiferente ou equivalente. Cada momento tem de deixar marcas, pois implica decisões e incisões até ao sangue (Hebreus 12,4). Não amaciemos e anestesiemos nós o Evangelho, não lhe retiremos o vigor, a alma, o lume e o gume, até o pormos a concordar com tudo e com todos, até o tornarmos inútil como o sal que perde o sabor! As pessoas não precisam de entretenimentos, mas de Jesus Cristo!

4. E o batismo de Jesus (e o nosso) coloca-nos também no caminho duro da decisão que é sempre incisão, do sangue e do combate. O batismo é, na verdade, uma imersão na morte de Cristo (Romanos 6,3), e não nas «claras, frescas, doces águas» idílicas, como acontecia nos rituais batismais greco-romanos de fecundidade do deus Pã, ou nas múltiplas imersões de purificação que ao tempo de Jesus se cumpriam na comunidade de Qumran. Corramos, pois, com paciência (hypomonê) para o combate (agôn) (Hebreus 12,1), pois ainda não resistimos até ao sangue no combate (agôn) contra o pecado (Hebreus 12,4), assim nos será dado ouvir no sermão da Carta aos Hebreus que hoje nos atinge (Hebreus 12,1-4).

5. É de uma luta de todos os dias que se fala. E de um amor que impõe decisões, incisões e lutas todos os dias. Torna-se então necessário aprender e cultivar a paciência, cujo vocábulo grego, hypomonê, significa etimologicamente «estar debaixo de», carregando e suportando o peso que transportamos. Portanto, a paciência remete para sofrimento, mas não se trata de um sofrimento masoquista e inútil, que abate quem o sofre, mas que faz de quem o sofre a base para a vitória, no caso militar ou desportivo ou de quem queira triunfar em qualquer atividade. Vendo mais longe e mais fundo, como requer sempre o Evangelho, a paciência é o suporte ou fundamento que segura e mantém de pé o inteiro edifício do universo. E os Santos são os verdadeiros «carregadores» do mundo.

6. Com as devidas distâncias, um episódio da vida do poeta russo Serghei Esenin (1895-1925) pode ajudar a ilustrar melhor o carácter combativo do nosso batismo e do caminho crucial da vida cristã. À beira do suicídio, o poeta refugia-se num quarto de um albergue desconhecido. Mas adveio-lhe, nesse instante, do fundo da alma, a vontade irresistível de escrever uma última poesia. Porém, no albergue não havia tinta. Foi assim que Esenin foi levado a fazer uma incisão, um corte, no braço, e a escrever com o próprio sangue o seu último poema. Serve o episódio mencionado apenas para percebermos que só com o próprio sangue, isto é, com a nossa vida, podemos escrever a nossa adesão ao Reino de Deus. E o nosso batismo não pode ficar apenas registado com tinta em algum poeirento arquivo paroquial. Temos de o escrever com o nosso próprio sangue, no dia-a-dia.

7. Sim, o tom combativo que enche a página do Evangelho de Lucas não se refere aos últimos tempos. Não está para vir. É no nosso dia-a-dia que se trava este combate. São coisas «deste tempo» (kairós) (Lucas 12,56), em que vivemos, e que devemos saber ler. Sintomaticamente, sabemos ler os sinais atmosféricos e meteorológicos do tempo segmentado (chrónos) que vivemos. Mas temos dificuldade em ler o kairós, que é o nosso tempo segmentado (chrónos) inundado pela enchente da Palavra de Deus, pela graça da Presença do próprio Deus, a que temos de responder agora, e não podemos não responder ou adiar a resposta.

8. Jeremias, de cuja profecia ouvimos hoje um extrato (38,4-10), é bem o ícone incandescente das lutas sem fim em defesa da verdade da Palavra de Deus. Quer quando tem pela frente o tirano Joaquim (609-598), colocado no trono pelo egípcio Nekao II, o troca-tintas Sedecias (597-587), colocado no trono pelo babilónio Nabucodonosor, os militares, a aristocracia, a sua própria família, ou o povo em geral. Claramente, e sem equívocos de nenhuma espécie, Jeremias anuncia a morte a quem quiser permanecer na defesa da cidade de Jerusalém, e apregoa a rendição aos babilónios como única esperança de sobrevivência. Por causa desta alta traição à pátria, assim julgam os ministros e os chefes militares, Jeremias será lançado numa cisterna e atolar-se-á no lodo (v. 6). Daí será retirado por um estrangeiro compadecido (v. 7-10), e será depois, no fatídico ano de 587, em que Jerusalém será arrasada, protegido pelos babilónios. Mas o rei Sedecias e o seu exército não terão igual sorte. Fugirão da cidade, mas serão perseguidos e alcançados. Sedecias verá os seus filhos serem degolados. Depois, ser-lhe-ão vazados os olhos, e será levado com cadeias para a Babilónia.

9. O Salmo 40 apresenta um primeiro andamento de ação de graças (v. 1-10), seguido logo por um movimento de súplica e lamentação (v. 11-18). Parece, pois, haver no corpo do Salmo uma estranha divisão. Quem é o «eu» que constata e agradece os benefícios de Deus no v. 1, e quem é o «eu» que, no v. 14, implora ainda com veemência o auxílio de Deus? Este insistente pedido de ajuda ouve-se novamente no v. 18, que hoje serve de refrão ao Salmo. Esta notória divisão no corpo do Salmo não é ilógica, como muitas vezes tem sido vista. É humana, dado ser também a nossa vida tecida por momentos de sonho e de outros tempos de maior ou menor dificuldade. Em sintonia com o Evangelho de hoje, e também com a lição de Jeremias e do Sermão da Carta aos Hebreus. Há, porém, um dado novo, um canto novo: seja qual for a nossa situação, está sempre lá o bom Deus, a quem nos podemos dirigir com confiança.

António Couto


NÃO TENHAS MEDO, PEQUENO REBANHO!

Agosto 5, 2022

Sb 18,6-9; Sl 33; Hb 11,1-2.8-19; Lc 12,32-48

1. «Não tenhas medo, pequeno Rebanho, porque aprouve (eudokéô) ao VOSSO PAI dar-vos o Reino» (Lucas 12,32). Assim começa o Evangelho deste Domingo XIX do Tempo Comum, retirado de Lucas 12,32-48. Imensa porta aberta pelo amor do VOSSO PAI. O VOSSO PAI ocupa o centro da frase, o lugar estratégico. E é um PAI que dá a todos e que tem prazer (eudokía) em dar. Aprouve é o verbo aprazer. Mas este PAI que dá e tem prazer em dar, que está no centro, articula-se com Rebanho e Reino. Diríamos que, com Rebanho, ficaria melhor o Pastor, e, com Reino, ficaria melhor o Rei. Mas é um PAI com prazer e dom que hifeniza Rebanho e Reino. Entenda-se: o PAI reclama o FILHO, a quem dá tudo o que tem e é (Mateus 11,27; João 3,35; 13,3; 17,7), e em quem põe o seu prazer, a sua eudokía (Lucas 3,22); do mesmo modo, o VOSSO PAI reclama os seus filhos, e, portanto, irmãos. Aí está a melhor tradução da Igreja e da vida cristã.

2. O Reino dado pelo Pai com prazer. Ao longo dos Evangelhos, com palavras e factos, Jesus anuncia e manifesta que o Reino de Deus não é um território com fronteiras, bandeira, hino nacional e constituição fundamental. Jesus anuncia e manifesta que o Reino de Deus é Ele mesmo, Jesus, com o Espírito Santo. Di-lo explícita, mas simbolicamente, em Lucas 11,20: «Se Eu expulso os demónios pelo Dedo de Deus (dáktylos Theoû), então o Reino de Deus chegou até vós». O «dedo de Deus» remete, por um lado, para o Livro do Êxodo 8,15, em que os magos do Egito reconhecem o «dedo de Deus» nos prodígios operados por Moisés; por outro lado, tenha-se presente o paralelo de Mateus 12,28, onde se lê: «Se Eu expulso os demónios pelo Espírito de Deus (pneûma Theoû), então o Reino de Deus chegou até vós». A teologia simbólica explica bem que «Dedo» está por «Mão» poderosa de Deus, ou seja, a sua Presença pessoal e operativa. Os Padres da Igreja antiga conheciam bem esta realidade: que o Pai tem «Duas Mãos», o Filho e o Espírito, ambos enviados, com os quais o Pai leva a efeito a sua Economia salvífica (Santo Ireneu de Lião); e que rezar «Venha o Teu Reino» é uma epiclese para a Vinda de Cristo com o Espírito, «o Reino que está aqui no meio de nós» (S. Gregório o Teólogo, S. Gregório de Niza, S. Máximo Confessor). No belo dizer de Orígenes, Jesus Cristo com o Espírito Santo é o Reino de Deus em pessoa, a autobasileía. É este o sentido teológico concreto do Reino, que depois se foi perdendo pelo abstrato.

3. Cultura nova, sem peias nem prisões. O «pequeno Rebanho» lembra o «pequeno Resto» da literatura profética, que não confia no ódio e na violência, no poder, na mentira e na corrupção, mas põe toda a sua confiança em Deus, no respeito de cada ser humano, na liberdade, na responsabilidade e no amor. Com este PAI NOSSO, que em nós põe o seu prazer e de nós cuida com paternal dedicação dando-nos tudo, fica mal agarrarmo-nos ciosamente às coisas; fica bem dar de graça, dado que de graça recebemos (Mateus 10,8). Amor novo, coração novo, tesouro novo. A traça corrói, a graça constrói! «Vendei tudo e dai em esmola» (Lucas 12,33) são, talvez, os imperativos menos respeitados na prática cristã ao longo dos séculos, até hoje!

4. Preparados, vigilantes, prontos, de rins cingidos e de lâmpadas acesas (Lucas 12,35). De acordo com os costumes então em vigor, quem desaperta a cintura e solta as vestes, suspende o trabalho e prepara-se para o repouso. Ao contrário, quem cinge as vestes, prepara-se para o trabalho ou para partir de viagem. Manter a lâmpada acesa significa estar preparado, até durante a noite, para qualquer atividade imprevista.

5. Além das frases fortes introdutórias (Lucas 12,32-34), a página do Evangelho de hoje oferece três pequenas parábolas seguidas: a primeira tem a ver com o senhor que regressa a casa com a noite adiantada e encontra os servos vigilantes (Lucas 12,35-38); inverte-se a ordem: o senhor veste as vestes de serviço e põe-se ele a servir, antecipando a cena de Lucas 22,17; a segunda, que é a mais breve, chama a atenção para o ladrão que, de forma sempre inesperada, assalta a casa, e deixa entrever Jesus que entra no nosso mundo de forma igualmente surpreendente, de forma a pôr em causa os nossos hábitos e distrações (Lucas 12,39-40); a terceira, que é a mais desenvolvida e articulada, contempla o administrador fiel e prudente que está sempre pronto a prestar ao seu senhor contas da sua administração (Lucas 12,41-48).

6. O leitor inteligente também se apercebe facilmente que o elemento comum a estas três parábolas é a ausência do senhor (ho kýrios), do dono da casa (ho oikodespótês), e que esse escondimento ou ausência aparente constitui uma prova para os seus servos ou criados (hoi doúloi), para os crentes, para nós. Sim, porque mesmo durante esta ausência aparente do dono da casa, estes servos continuam a ser os seus servos. É, por isso, também fácil de compreender que estes servos não podem viver à toa, nem por conta própria, de forma autorreferencial, mas sim continuamente à espera de receber (prosdechoménois: part. de prosdéchomai) o seu senhor (Lucas 12,36). O verbo grego prosdéchomai traduz bem a condição ou atitude física e psicológica de quem está à espera e vive nessa espera e dessa espera, assumindo, portanto, uma existência reflexa, que não pode passar sem o seu senhor. Daí, a tensão permanente, a prontidão e a vigilância. Não inúteis, mas já com o sabor da felicidade que atravessa o inteiro relato (Lucas 12,37.38.43).

7. Fazei caminho, cantai hinos, servi, servi, servi, sem pausa nem descanso nem sono. Aí está a descoberta da lei divina impressa desde sempre nos nossos corações, e que os caminhantes do Êxodo recitam, segundo a bela lição do Livro da Sabedoria que hoje temos a graça de saborear (Sabedoria 18,6-9). Sim, saborear: os santos partilham tudo, bens e perigos, e cantam os hinos dos seus pais (Sabedoria 18,9). Partilhar tudo, pôr tudo em comum, aponta já para a beleza da comunidade primitiva de Jerusalém (Atos 2,44), e os hinos dos nossos pais são os Salmos, sobretudo o Hallel da Páscoa (Salmos 113-118 e 136). Mas reclama também a música divina que a embalação dos nossos pais nos transmitiu, e que nos mantém livres pelo tempo fora. Veja-se o belo poema do poeta siciliano Ignazio Buttita: «Um povo/ metei-o na cadeia/ despojai-o/ tapai-lhe a boca:/ é ainda livre.// Tirai-lhe o trabalho/ o passaporte/ a mesa onde come/ a cama onde dorme:/ é ainda rico.// Um povo torna-se pobre/ quando lhe roubam/ as canções/ que aprendeu dos pais.// Então fica perdido para sempre».

8. Sim, leves e iluminados, rasgai a noite como relâmpagos! Estai sempre no umbral do Êxodo e do nascimento novo. Saí para a liberdade! Sair (yatsa’) é o verbo do Êxodo e do nascimento: vida nova, liberdade nova, leve, tenra e terna, sem retorno, rumo à Cidade verdadeira, à Casa grande, aberta e feliz, Casa de Deus, Casa do PAI NOSSO.

9. A grande homilia que compõe a Carta aos Hebreus, de que hoje nos é dado escutar um extrato (Hebreus 11,1-2.8-19), põe diante de nós a figura exemplar de Abraão, que não se agarrou a nada deste chão, mas seguiu sempre os rumos novos e leves de peregrino e hóspede assente na fé e na oração. «Para onde vais, Abraão?». «Não sei, mas vou pela mão de Deus». E partiu na certeza de encontrar novo país e novo pão. Não, não estava a pensar em regressar ao país de onde saíra. Se fosse o caso, tinha sempre tempo e jeito de voltar para lá (Hebreus 11,15), como Ulisses, que sai de Ítaca e regressa a Ítaca. A mão que guia Abraão leva-o sempre em frente, para uma pátria nova.

10. O Peregrino russo, longo e belo relato escrito na segunda metade do século XIX, que nos revela a bela mística oriental, e que ultimamente também tem sido muito lido no Ocidente, caminhava e rezava, sempre com o nome JESUS no coração e nos lábios. Queria saber o sabor da palavra de Paulo: «Rezai sem cessar» (1 Tessalonicenses 5,17). Aos ombros uma mochila com um pedaço de pão duro, no bolso do casaco uma Bíblia. E ainda partilhava com os pássaros pão e oração. De resto, todas as fontes eram dele, e para elas caminhava devagarinho, devagarinho, como sugere o Principezinho, quando o comerciante lhe quer vender uma pastilha que lhe mata a sede durante uma semana, e o pode levar a poupar 53 minutos! 11. Enfim, o Salmo 33, que hoje cantamos, é um verdadeiro «canto novo» (shîr hadash) a fazer vibrar as fibras do nosso coração. Mas é também música sem palavras (terûʽah) (v. 2), jubilação, exultação, lalação de radical confiança da criança que em nós sorri e dança, porque Deus vela por nós. Comenta Santo Agostinho: «Já sabes o que é o canto novo: um homem novo, um canto novo».

António Couto


EM LINHA COM O BATISMO, A RESSURREIÇÃO E A MISSÃO

Agosto 5, 2022

Dn 7,9-10.13-14 (ou 2 Pe 1,16-19); Sl 97; Lc 9,28b-36

1. A Igreja celebra hoje, dia 6 de agosto, a Festa da Transfiguração do Senhor. Batizado no Jordão, tentado no deserto, mas Vitorioso, Jesus começou a executar o seu programa filial batismal que tem por meta a Cruz Gloriosa (Batismo consumado!) em que nós somos por Ele batizados com o fogo e com o Espírito Santo (sempre o luminoso texto de Lucas 12,49-50). Entre o Jordão e a Cruz Gloriosa aí está Hoje, a meio caminho do seu itinerário, o episódio da Transfiguração (Lucas 9,28-36), Luz incriada e inacessível (Lucas 9,29; cf. Salmo 104,2; 1 Timóteo 6,16) que investe a Humanidade de Jesus: experiência momentânea da Ressurreição, mediante a qual o Pai confirma o Filho na sua missão filial batismal, já iniciada, mas ainda não consumada. Também aqui temos a nota típica de Lucas de que Jesus subiu ao monte para orar, acontecendo a Transfiguração do Rosto e das vestes enquanto orava (Lucas 9,28). Que a Transfiguração deve ser vista à luz da Ressurreição, fica bem patente no dizer das Igrejas do Oriente que chamam à Festa da Transfiguração, que se celebra no dia 6 de Agosto, «a Páscoa do verão». Em Lucas temos, no final, a anotação de que «não disseram nada a ninguém» (Lucas 9,36), mas não a ordem taxativa de Jesus de não dizerem nada a ninguém «até que o Filho do Homem seja Ressuscitado dos mortos», como vemos, por exemplo em Mateus 17,9, o que acentuaria ainda mais o vínculo entre a Transfiguração e a Ressurreição.

2. A Transfiguração aponta também para o Batismo, pois, em Lucas, também este acontece enquanto Jesus está em oração (Lucas 3,21). Ao contrário de Mateus e Marcos, que falam de uma metamorfose, Lucas pretende mostrar o poder da oração para mediar a presença de Deus. Mas também são ouvidas as mesmas palavras do Pai no Batismo e na Transfiguração / Confirmação: «o Filho Meu», «o Amado» – «o Eleito» (Lucas 3,22; 9,35), agora seguidas pelo imperativo «Escutai-o!» (Lucas 9,35), dirigido a todos os discípulos: Jesus é também o «Profeta novo», como Moisés, prometido em Deuteronómio 18,15-18. Como dispunha a Lei antiga, que requeria duas ou três testemunhas (Deuteronómio 17,6), testemunham a cena grandiosa da Transfiguração / Confirmação três discípulos (Pedro, João e Tiago), os quais são igualmente transfigurados / confirmados, não no Rosto e nas vestes, mas no coração, para a sua missão futura (após a Ressurreição com a dádiva do Espírito) de dar testemunho d’Ele. Ao juntar Pedro e João, Lucas mostra já que os dois estão juntos, prefigurando o seu trabalho futuro(Lucas 22,8; At 3,1-10; 4,1-22; 8,14-25).

3. Aparecem Moisés e Elias que falam com Jesus Transfigurado / Ressuscitado. É para Ele que aponta todo o Antigo Testamento! As «Escrituras», Moisés, todos os profetas e os Salmos falam acerca d’Ele! (Lucas 24,27 e 44; João 5,39 e 46; Atos 10,43). É o «segundo as Escrituras» que os discípulos também devem testemunhar. Só em Lucas temos o assunto de que falam: «falavam do Êxodo d’Ele que se consumaria em Jerusalém!» (Lucas 9,31). Passagem deste mundo para o Pai, Liberdade definitiva, cumprimento do Êxodo antigo! De notar que Lucas refere em Atos 13,24 com o termo Êxodo a entrada de Jesus no nosso mundo. O uso com tal precisão do termo Êxodo para a vida de Jesus, serve para mostrar Jesus completamente inserido na história de Israel.

4. Pedro, sempre ele, em nome dos discípulos de então e de sempre, tenta impedir Jesus de prosseguir a sua missão filial batismal até à Cruz: «Mestre, belo é estarmos aqui; façamos aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias» (Lucas 9,33). Aqui significa deter-se no penúltimo e provisório e recusar caminhar para o último e definitivo! Lucas 9,33 e Marcos 9,6 anotam corretamente que «não sabia o que dizia». De qualquer modo este «aqui» abre um caminho prolético para idêntica postura aquando da Ascensão (cf. Atos 1,11). De qualquer modo, Pedro não sabia, porque ainda não tinha sido batizado com o Espírito Santo e com o fogo; quando o for, saberá também ele, discípulo fiel, batizado / confirmado, levar por diante a missão filial batismal em que foi investido, e dará testemunho até ao sangue.

5. A Ressurreição é a Transfiguração tornada permanente, eterna. Todos os batizados / confirmados estão destinados à mesma Ressurreição / Transfiguração da Humanidade do Senhor, a divinização por graça.

6. A tradição situa «o monte» (tò óros), que abre o episódio da Transfiguração (Lucas 9,28), sobretudo a partir de Cirilo de Alexandria (ano 348) no Tabor, um monte de forma arredondada que se ergue nos seus 582 metros no meio da planície galilaica de Jesrael ou Esdrelon. No sopé do Tabor ainda hoje se encontra a aldeia palestiniana de Daburiyya, cujo eco evoca a personagem bíblica mais importante desta região, a profetisa Débora (Juízes 4,4-5,31). As Igrejas do Oriente conhecem este episódio da Transfiguração por «Metamorfose» (metamórphôsis), a partir das palavras do texto de Mateus e Marcos: «E transformou-se (metemorphôthê) diante deles [= Pedro, Tiago e João]» (Mateus 17,2; Marcos 9,2), e resplandeceu o seu rosto como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. O branco é a cor divina. E a luz é o seu vestido, conforme o estupendo dizer do Salmo 104,2: «Vestido de Luz com de um manto». E, nesse cone de luz, o Apóstolo exorta-nos: «Caminhai como filhos da luz», e lembra-nos que «o fruto da luz é toda a bondade, justiça e verdade» (Efésios 5,8 e 9).

7. Da lição do Livro de Daniel 7,9-10.13-14 e respetivo contexto imediatamente anterior (7,3-8) e posterior (7,15-27), transborda a indescritível riqueza do nosso Deus, solenemente sentado no seu trono de Luz e de Fogo purificador, que inutiliza o poder das quatro bestas enormes saídas do mar com aspeto terrível, e que têm o aspeto de um leão com asas de águia, de um urso com costelas na boca, de um leopardo alado com quatro cabeças, e de um monstro metálico aterrorizador, com enormes dentes de ferro que tudo tritura e espezinha. Tinha ainda dez chifres na cabeça, mas nasceu-lhe entretanto um outro mais pequeno e insolente, com uma boca que proferia palavras arrogantes. Estas bestas representam quatro impérios: babilónio, medo, persa e grego (de Alexandre Magno e seus sucessores). Os dez chifres são os reis da dinastia Selêucida, e o décimo primeiro é Antíoco IV Epifânio (175-163). O tribunal divino toma assento para julgar o arrogante Antíoco, que é morto e destruído. E vê-se então, em contraponto com as bestas que saem do mar, símbolo da desordem e do mal, o Filho do Homem que vem sobre as nuvens, do mundo celeste, portanto. A ele é entregue o reino eterno, não assente no poder prepotente da brutalidade, mas no poder manso do Amor (Daniel 7,13-14). Fica bem claro que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra e da Atitude do Filho do Homem, que dissolve no Amor, que é o poder manso que lhe é dado para sempre, as nossas raivas e violências, manifestações das bestas bravas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7,3), símbolo da confusão e do mal, e que deixará naturalmente de existir (Apocalipse 21,1).

8. O domínio do Filho do Homem que nos ama (Apocalipse 1,5), o domínio do Amor, é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é desde sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania e prepotência!

9. Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos violentos, o que só aumentaria a violência. É assim que Jesus, o Filho do Homem, atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história e da nossa vida, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, absorvendo-a, absolvendo-a e dissolvendo-a.

10. Pedro, na sua 2 Carta 1,16-19, coloca-se como Testemunha ocular, quer do poder do amor que Jesus recebeu de Deus Pai, quer da sua manifestação gloriosa no monte santo, que confirma a palavra dos profetas. Pedro exorta-nos a prestar atenção a esta palavra, que é como uma luz que brilha no escuro, até que surja a «Estrela da Manhã», que é Cristo (Apocalipse 22,16).

11. Canta-se Hoje o Salmo 97, que canta o Senhor na ação de reinar, isto é, de salvar, de justificar, de perdoar, de recriar, de trazer a prosperidade e o bem-estar ao seu povo e aos seus fiéis. Deus, como Rei, manifesta-se circundado pelos seus assistentes cósmicos (nuvens, trevas, fogo, relâmpagos) e históricos (justiça, direito, glória) (v. 1-6). Face tão esplendorosa manifestação, os ídolos e idólatras caem por terra (v. 7-9), e os fiéis exultam de alegria (v. 10-12). Os fiéis e justos são definidos com sete expressões particularmente significativas: 1) aqueles que amam o Senhor; 2) aqueles que odeiam o mal; 3) aqueles que são fiéis (hasîdîm); 4) aqueles que são justos (tsaddîqîm); 5) os retos de coração; 6) homens de alegria; 7) aqueles que celebram o «memorial da sua santidade» (zeqer qodshô). Comenta bem o Livro dos Mistérios, de Qumran, que perante a manifestação e inauguração deste Reino novo de Deus, «a impiedade recuará diante da justiça, como as trevas recuarão diante da luz; a impiedade desaparecerá para sempre, e a justiça, como o sol, apresentar-se-á como princípio de ordem no mundo» (1Q27, I,5-7).

12. A Festa que a Igreja hoje celebra é antiga e fortemente impressiva no Oriente. Celebra-se a Imagem de Cristo Transfigurado, e que nos Transfigura. Daí, a importância da Contemplação. O Ocidente conheceu esta Festa tardiamente e celebrou-a esporadicamente, com oscilações locais e de calendário. A Igreja Universal celebra esta Festa apenas desde 1457.

António Couto


A GANÂNCIA ASFIXIA E MATA

Julho 30, 2022

Qo 1,2; 2,21-23; Sl 90; Cl 3,1-5.9-11; Lc 12,13-21

1. Diz o Tratado Pirqê ’Abôt 2,9, da Mishna judaica, que «o caminho mau de que o homem se deve afastar é pedir emprestado e não restituir», acrescentando logo que «é a mesma coisa receber emprestado de um homem ou de Deus». Comentando este dito da sabedoria judaica, afirma, de forma contundente, o grande filósofo hebreu Abraham Joshua Heschel: «Talvez esteja aqui o núcleo da miséria humana: quando nos esquecemos de que a vida é um dom e também um empréstimo».

2. Servem estes ditos rabínicos para nos conduzir ao extraordinário DIZER e MOSTRAR de Jesus no Evangelho deste XVIII Domingo do Tempo Comum (Lucas 12,13-21): «Vede bem e guardai-vos de toda a GANÂNCIA (pleonexía)» (Lucas 12,15). É fácil de entender o termo grego usado pelo narrador: pleonexía, que aqui traduzimos por ganância. Deriva de pléon [= mais] + échô [= ter], e passa, portanto, a ideia clara de desejarmos TER MAIS poder, posse, dinheiro, sucesso, etc… Esta raiz daninha pode tomar de tal modo conta de nós que acaba por minar e envenenar todos os nossos comportamentos. São Paulo chama, com toda a razão, a este vício da «ganância» ou «avareza», «idolatria» (Colossenses 3,5). É o feitiço ou o fetiche do poder, da posse, da riqueza, do dinheiro, do sucesso, diante dos quais nos prostramos, seguranças enganadoras, falsos sucedâneos de Deus, a que o Evangelho chama MAMONA (mamônã) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego mamônãs [= dinheiro, riqueza] deriva, através do aramaico mamôn, da raiz hebraica ’mn, que serve também para dizer a fé (ʽemunah) e a confiança em Deus. É como quem diz que nos podemos equivocar radicalmente, deixando de pôr a nossa fé e confiança no Deus vivo, para nos agarrarmos aos ídolos mortos e vazios, uma espécie de «espantalhos num campo de pepinos!» (Jeremias 10,5). É assim que caímos no terreno vazio e oco da idolatria, que sou eu ao mesmo tempo dono e escravo de mim mesmo, curvado sobre mim mesmo, adorando-me a mim mesmo!

3. E, para que tudo fique mais claro, aí vem mais uma história arrasadora de Jesus. «A terra de um HOMEM RICO produziu muito» (Lucas 12,16). E eis o HOMEM RICO, sintomaticamente apresentado em cena SEMPRE SÓ, voltado unicamente para si mesmo, entretido com a sua autorreferencialidade, a cogitar CONSIGO MESMO, e a falar apenas CONSIGO MESMO (Lucas 12,17-19).

4. Diz ele: deitarei abaixo os meus celeiros pequenos, construirei novas infraestruturas, grandes celeiros, e recolherei lá todo o meu trigo e os meus bens. Depois, direi para MIM MESMO: tens muitos bens acumulados para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te! (Lucas 12,18-19). Assim falou o HOMEM RICO a sós CONSIGO MESMO. Mas agora é a vez de Deus, que lhe diz: «Mentecapto (áphrôn), precisamente esta noite morrerás, e as coisas que acumulaste para quem serão?» (Lucas 12,20). E o narrador conclui: «Assim acontece àquele que acumula PARA SI MESMO e não PARA DEUS» (Lucas 12,21). Note-se o vivo contraste entre aquele para muitos anos, projetado pelo homem rico, e a lâmina impiedosa daquele precisamente esta noite, pronunciado por Deus e que deita a perder a rima de projetos que elaborámos! Note-se também o vivo contraste das duas formas de viver que o texto assinala: para si mesmo (heautô) e para Deus (eis theón). Viver para si mesmo (heautô) é a autorreferencialidade que estiola a vida, de que não se cansa de falar o Papa Francisco. Para Deus (eis theón) impõe uma direção da nossa vida para fora de nós, para Deus, bem assinalado no texto grego com a expressão eis theón (Lucas 12,21), que implica movimento para Deus. São Paulo admoesta o seu discípulo e cooperador Timóteo a viver como «amigo de Deus» (philótheos), e não como «amigo de si mesmo» (phílautos) (2 Timóteo 3,2 e 4). Na lição do Evangelho do próximo Domingo (XIX), Jesus ensinar-nos-á que este para Deus se verifica no para os outros: «Vendei os vossos bens, e dai em esmola» (Lucas 12,33).

5. Não é suficiente traduzir o termo grego áphrôn por «insensato» ou «estúpido». Áphrôn resulta de phrên [= mente] a que se antepõe o a- (alfa) privativo, pelo que áphrôn indica a falta total de inteligência, um mentecapto, desmiolado, sem-mente.

6. Olhando atentamente à nossa volta, neste mundo em crise acentuada e à deriva, veremos depressa (e não é só no futebol) tantos «ricos mentecaptos», que passeiam e planeiam, falam e gastam sozinhos. Onde estão na nossa não-mente os irmãos a quem devemos fazer participar com alegria da nossa riqueza? E, em última análise, a orientação da nossa vida é PARA NÓS MESMOS ou PARA DEUS? Recebemos a vida, os outros, a riqueza como um DOM e um EMPRÉSTIMO, de que devemos responder a cada momento, ou pensamos que somos DONOS de todos e de tudo, registando logo todos e tudo em nosso nome, nossa propriedade para nosso uso, consumo e satisfação exclusivos? A parábola do rico mentecapto, que acabámos de seguir em Lucas, e que constitui um importante ensinamento de Jesus no caminho, pode muito bem ser vista como o desenvolvimento do gérmen sapiencial já registado no Livro de Ben Sira 11,18-19: «Há quem enriqueça por GANÂNCIA, e será esta a sua recompensa: quando ele disser: “agora encontrei descanso, agora comerei dos meus bens”, ele não sabe quando virá o dia em que deixará tudo a outros e morrerá».

7. Temos hoje a ácida e lúcida companhia de Qohelet (1,2; 2,21-23), esse intrigante pregador que nos segue por toda a parte e não cessa de nos ir lembrando que tudo o que fazemos pode afinal não passar de um sopro, fumaça, um vento que passa, um ócio oco e vão, uma soneira. E logo com tanto irmão à nossa beira!

8. São Paulo regressa ao essencial nesta bela página da Carta aos Colossenses (3,1-5.9-11), pondo em destaque a nossa condição cristã assente no batismo, isto é, na enxertia da nossa vida em Cristo. «Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, com ressuscitastes (synêgérthête: aor. pass. de synegeírô), procurai as coisas do alto» (v. 1). A Igreja antiga retirou daqui o tà ánô zêteíte, sucessivamente traduzido com sursum corda, corações ao alto, que se usa no diálogo inicial da Prece Eucarística em todas as liturgias. A vida nova, batismal, em Cristo, requer de nós vestidos novos (v. 10), com o consequente abandono dos velhos vícios que nos prendem à terra. Não se trata, obviamente, de um convite ao desprezo das coisas terrenas, dando corpo, por assim dizer, a uma religião de evasão e alienação. Trata-se, antes, de não nos encerrarmos nas coisas deste mundo, à maneira do rico da parábola de hoje, a quem encaixa bem a lista de vícios do v. 5, em que sobressai «a ganância insaciável (pleonexía), que é idolatria». Nós, batizados em Cristo, procuramos aquele tesouro escondido no campo, pelo qual vale a pena vender tudo (Mateus 13,44).

9. O Salmo 90 põe em cena a eternidade e a solidez de Deus em confronto com a fragilidade e o sabor efémero da vida humana, sempre vista no microscópio de Deus. Este confronto é cantado na elegia sapiencial dos v. 1-10, sendo de súplica os v. 11-17. O primeiro movimento pode resumir-se na afirmação do v. 4: «Mil anos aos teus olhos são o dia de ontem que passou, como uma vigília da noite». E o segundo movimento tem o seu ponto alto no v. 12: «Ensina-nos a bem contar os nossos anos, para chegarmos à sabedoria do coração». Estar de passagem e sermos tão frágeis como a flor da erva (v. 5-6), não nos leva para o pessimismo, mas para viver intensamente a vida que Deus nos dá, Ele que é e permanece o nosso refúgio de geração em geração (v. 1). O grande estudioso dos Salmos, Artur Weiser (1893-1978), alemão, de tradição Evangélica, expressa bem esta realidade: «Na luz da graça de Deus, um reflexo de eternidade cai também sobre a vida e sobre a obra do homem. Da parte de Deus, a fragilidade recebe subsistência, a miséria torna-se glória, aquilo que parecia sem sentido, alcança significado… É como se a estrela de outro mundo viesse fazer luz sobre o fluir dos nossos dias».

António Couto


SÃO TIAGO, APÓSTOLO

Julho 24, 2022

O dia de hoje é de São Tiago, Apóstolo.

Aquele que estava na barca,

No mar da Galileia, a consertar as redes,

Com o seu irmão João e o pai Zebedeu.

…..

Jesus passou naquela praia e chamou Tiago,

Que imediatamente, sem cálculos nem hesitações,

Deixou o pai, a barca e as redes,

E seguiu Jesus pela vida fora.

…..

Juntamente com o seu irmão, João, e Pedro,

Esteve a sós com Jesus nas horas solenes

Da Transfiguração e do Getsémani.

…..

À vista da Cruz, também ele abandonou Jesus e fugiu,

Mas Jesus Ressuscitado não desistiu dele.

Chamou-o outra vez e enviou-o

A anunciar o Evangelho a todos os corações.

…..

Tiago nunca mais fugiu desta aventura.

Foi mesmo até ao fim,

E, nos anos 42-44, em que Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande,

Perseguiu ferozmente os cristãos em Jerusalém,

Foi martirizado,

Sendo o primeiro Apóstolo a dar a sua vida por Cristo.

…..

É venerado de modo particular em Compostela,

Onde se ergue a basílica a ele dedicada,

A que acorrem, desde o século nono, peregrinos idos de toda a parte.

…..

Apóstolo São Tiago, roga por nós!

…..

António Couto


O TRÍPTICO DA ORAÇÃO

Julho 22, 2022

Gn 18,20-32; Sl 138; Cl 2,12-14; Lc 11,1-13

1. Depois do tríptico sobre o discípulo de Jesus, que contemplámos nos últimos três Domingos (XIV, XV e XVI), em que foi proclamado, em três andamentos, o saboroso texto de Lucas 10 (o envio dos 72 discípulos; o bom samaritano; Maria que escolheu estar sentada a escutar a Palavra de Jesus), eis-nos já perante um novo belo tríptico, agora sobre a oração cristã, que não se distribui por vários Domingos, mas que entra todo por este Domingo XVII adentro, e que Lucas nos oferece em 11,1-13.

2. O primeiro quadro deste tríptico sobre a oração pode intitular-se INTIMIDADE, e tem a sua explicitação altíssima na oração do PAI NOSSO, ensinada por Jesus aos seus discípulos (Lucas 11,1-4). Jesus é o modelo de oração oferecido aos discípulos. Por isso, aparece ao fundo da cena a rezar sozinho ao Pai (Lucas 11,1), totalmente voltado para o seio do Pai (João 1,18), completamente absorvido nas Realidades do Pai (Lucas 2,49), repousando toda a sua existência no Pai. Os discípulos veem Jesus a rezar, mas não ousam interromper tão intensa corrente de confiança e de amor. Veem apenas. O deslumbramento tolhe-lhes os movimentos e as palavras. Mas eis que Jesus termina a sua oração ao Pai. Então, ainda extasiado, um dos discípulos, em nome de todos, também em nosso nome, atreveu-se a formular este pedido: «Senhor, ensina-nos a rezar como João Batista ensinou a rezar os seus discípulos!» (Lucas 11,1).

3. E foi então que Jesus ensinou a eles e a nós, a todos, o segredo mais profundo da sua vida e da nossa vida, a orientação da sua vida e da nossa vida: para onde, melhor, para quem, devem estar sempre voltados o nosso coração, a nossa mente, os nossos olhos, as nossas mãos, os nossos pés, a nossa vida toda.

E disse: «Quando rezardes, dizei:

Pai (páter),

         1. Seja santificado o teu Nome,

         2. Venha o teu Reino,

         3. Dá-nos o pão nosso(árton hêmôn) de cada dia,

         4. Perdoa os nossos pecados,

         5. Não nos deixes cair na tentação”» (Lucas 11,2-4).

4. Como bem se vê, não se trata de uma lição teórica, mas da comunicação de uma experiência, de um segredo, de um tesouro, de uma intimidade. Rezar é orientar a nossa vida toda para Deus, a quem tratamos carinhosamente por ’Abba’, nome de radical ternura, simplicidade, verdade, confidência e dependência, posto na boca de Jesus em Marcos 14,36, e na nossa em Romanos 8,15 e Gálatas 4,6. Sim, aqui não está em jogo a instituição paterna, o pai, ʼAb, que impõe respeito, autoridade e distância. Trata-se, antes, de ’Abba’, ’Ab-ba’ soletrado, que implica a duplicação das sílabas, que é uma caraterística da linguagem infantil, uma Lallwort de intolerável confiança! São as criancinhas que usam este tipo de linguagem. A tanto carinho e simplicidade nós somos chamados! A oração é composta no texto de Lucas por cinco pedidos (Mateus apresenta sete: Mateus 6,9-13), sendo o do meio o do «pão nosso», dado por Deus. A pergunta infantil, ou científica, ou de mera curiosidade, é sempre a mesma: «O que é isto?». A nossa resposta habitual é também sempre a mesma: «é pão». Impõe-se que nós, que nos consideramos modernos, aprendamos e ensinemos novas notas, novas pautas, novos acordes. A resposta correta, aprendida na Escritura Santa, soa assim: «É o pão que Deus nos dá» (Êxodo 16,15).

5. De acordo com a retórica bíblica, o pedido do meio é o mais importante, pois é o que estrutura a inteira oração, constituindo por assim dizer a clave musical de toda a oração e relação com Deus-Pai. Não esqueçamos que o pedido do meio (o n.º 3) consiste em pedir o «Pão nosso». E aqui é preciso descer abaixo das escadarias da importância e do orgulho e das estratégias que diariamente usamos, pois é imperioso assumir a atitude evangélica das crianças, dado que só elas sabem pedir pão com verdade e simplicidade, sem maquilhagens, truques ou reboco de qualquer espécie! De resto, a nós, crescidos e importantes, basta sairmos à rua e tentarmos fazer o exercício de pedir pão, para vermos a triste figura que fazemos e percebermos logo que não temos mesmo jeito nenhum para isso. Sim, teremos então, evangelicamente, de aprender com as crianças!

6. Notemos ainda que este pedido n.º 3 não consiste apenas em pedir pão. Trata-se, na verdade, de pedir o «pão nosso». E aí está outra bomba a rebentar no nosso coração e na nossa mesa. É que o «pão nosso» não é o «pão meu». E isto quer dizer que o pão que está sobre a minha mesa, dado por Deus, não é «meu». É «nosso». Não é mais possível comer descansado, saciar-me, quando sei que há irmãos meus que passam fome. Aí está a dimensão social, horizontal, da oração, que é então um espantoso exercício de fraternidade.

7. O quarto pedido desta oração por Jesus rezada e vivida e a nós por Ele ensinada é sobre o perdão. Pedimos a Deus o perdão dos nossos «pecados» (hamartía) (Lucas 11,4a), para que, segundo o modelo de Deus, nós perdoemos as «dívidas» (opheílô) dos nossos irmãos (Lucas 11,4b). Na verdade, os gregos não conhecem a metáfora da «dívida» para indicar «pecado». São os hebreus que usam essa metáfora (veja-se Mateus 6,12, que usa sempre «dívidas»). Note-se, porém, a agudeza do pedido formulado por Lucas. Pedimos a Deus que nos perdoe os nossos pecados. Mas este modelo serve para nós aprendermos a perdoar ao nosso próximo também as suas dívidas concretas, não apenas as ofensas morais!

8. O segundo quadro deste tríptico sobre a oração trata o tema da CONSTÂNCIA da oração, retratada imediatamente a seguir (Lucas 11,5-8), na atitude do amigo que de noite bate à porta do seu amigo, e não desiste até ser atendido. Este quadro mostra que a oração cristã não é apenas emoção passageira, mas a respiração permanente da alma, que não se extingue perante as adversidades, nem sequer durante a noite!

9. O terceiro quadro deste tríptico trata o tema da EFICÁCIA da oração (Lucas 11,9-13): «Pedi e ser-vos-á dado, procurai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á». Entenda-se, todavia, que se trata de uma eficácia que não tem de responder diretamente aos cânones do que esperamos obter, aos desejos que formulamos, mas sim aos planos de Deus, que devemos saber acolher com humildade e prontidão. Como refere de forma penetrante o poeta libanês Khalil Gibran (1883-1931), «Deus não escuta as nossas palavras, se não é Ele próprio a pronunciá-las com os nossos lábios».

10. Essencial é saber que dirigimos sempre a nossa oração ao Pai, que dá sempre o melhor aos seus filhos. E é grandemente significativo que o verbo REZAR, que aparece no tríptico três vezes (Lucas 11,1[2x] e 2), apareça praticamente traduzido por PEDIR, que contamos no texto por cinco vezes (Lucas 11,9.10.11.12.13), e cujo corolário é DAR, com nove menções no texto (Lucas 11,3.7.8[2x].9.11.12.13[2x].

11. Feita esta explicitação vocabular, salta à vista a importância dada à oração de súplica. Todos sabemos que a oração de súplica é muitas vezes vista como uma forma secundária de oração, quase como um subproduto, quando comparada com a oração de louvor ou de ação de graças. Ora, este tríptico diz-nos que, de acordo com Jesus, REZAR é PEDIR, é mesmo só PEDIR. Aprofundando um pouco, compreendemos então que PEDIR é próprio do filho. E é como Filho que Jesus REZA, e é, portanto, no lugar de filhos, e, por consequência, de irmãos, que Jesus nos quer colocar. Por isso também nos ensina a REZAR, dizendo: «Pai…». E também já sabemos que o Filho é aquele que recebe tudo do Pai, sendo o Pai aquele que dá tudo ao Filho.

12. Coloquemo-nos então no nosso lugar correto: o de filhos, que tudo recebem do Pai, e tudo partilham como irmãos. E compreendamos bem que, para recebermos tudo, não podemos possuir nada! Se possuirmos alguma coisa, já não podemos receber tudo! Impõe-se que temos de ser radicalmente pobres, filhos e irmãos! Só assim podemos começar a REZAR.

13. O contraponto musical de hoje vem do Livro do Génesis 18,20-32. Abraão é visto no papel do orante que negoceia com Deus a salvação de Sodoma. A sequência da intercessão de Abraão lembra o procedimento habitual nos mercados do Médio Oriente, em que o cliente faz sucessivas tentativas para baixar o preço do produto que pretende adquirir. Abraão faz seis tentativas: começa por propor 50 justos pela salvação de toda a cidade; passa depois para 45, depois para 40, depois para 30, depois para 20, finalmente 10. Vê-se que não havia nenhum, e a cidade, com todos os seus habitantes, é destruída (Génesis 19,24-25). Mas ficam desde aqui já em aberto duas coisas: a primeira é que, como referem os doutores do Talmude, não se pode deixar Deus sozinho, como fez Abraão, que se foi embora (Génesis 18,33); a segunda é que, para poder atender a oração de Abraão e a nossa, terá Deus de enviar ao nosso mundo um justo verdadeiro, «Jesus Cristo Justo» (1 João 2,1). É Ele, na verdade, o nosso Redentor e Salvador.

A cidade inteira

Cheira a enxofre e feno

E a todo o momento uma fogueira

Pode transformar esta lixeira

Num inferno.

Vem Abraão contando pelos dedos

Percorre a escala toda de cinquenta a dez,

Passando por quarenta e cinco,

Quarenta, trinta e vinte.

Ele quer salvar Sodoma a todo o custo

Mas não encontra nem sequer um justo

Para oferecer em troca dos seus medos.

Ao todo, seis lances,

Seis ofertas atiradas para o chão.

Fica, pois, com a sétima, a última, na mão

Sob registo.

E no dia em que for aberta

Ver-se-á que é divina a letra

E que o nome é Cristo.

14. A página de São Paulo aos Colossenses (2,12-14), hoje lida e escutada, é outra vez sublime e espantosa, e, talvez, original, pois este agrafo do nosso batismo com o mistério da morte e da ressurreição de Cristo pode constituir uma originalidade paulina (ver também Romanos 6,3-5). Fomos sepultados com Ele, com sepultados (syntaphéntes: part. aor. pass. de syntháptô) no batismo, e com Ele ressuscitados, com ressuscitados (synêgérthête: aor. pass. de synegeírô), e com Ele vivificados, com vivificados (synezôopoíêsen: aor. de synzôopoiéô), linguagem fortíssima que enxerta a nossa vida na vida de Cristo. O título da dívida (cheirógraphon), o contrato escrito e assinado pelo credor e pelo devedor, nós não o podíamos cumprir; foi suprimido pelo credor, que o cravou na Cruz. Mais uma vez é verificável, e Paulo mostra-o até à exaustão, que a Cruz de Cristo constitui o chão e o critério da identidade cristã e apostólica.

15. O Salmo 138, que hoje cantamos, é «o canto do chamamento universal», como o define S.to Atanásio (séc. IV). O orante, voltado para o Templo (v. 2), como era usual fazer-se no judaísmo tardio (o islamismo fá-lo-á mais tarde em relação a Meca), sente e sabe que a sua oração não esbarra contra um céu cerrado, surdo e mudo, mas é registada e repercute-se no coração de Deus, que em caso algum abandona a obra das suas mãos (v. 8). Grande Ação de Graças deste orante (v. 1) e dos reis de toda a terra (v. 4). Nossa também.

Bendito o dia em que outra vez rezamos,

E outra vez sempre de novo.

Rezar é voltar sempre ao princípio,

E recitar com mais amor cada uma das tuas maravilhas.

Assim,

Talvez a oração não tenha fim,

Porque é uma viagem dentro de mim,

Fora de mim,

Enunciando nomes, dores, alegrias, guerras, fomes,

Calcorreando montanhas, vales, avenidas,

Colhendo frutos no coração das árvores,

Partilhá-los com os passarinhos

Na toalha multicolor que estendeste sobre este chão dourado.

Rezar é saber bem

Que as coisas belas que vemos neste mundo são todas tuas,

E a mais ninguém pertencem.

E quem agora as tem na mão deve acariciá-las,

Partilhá-las,

Porque as tem apenas emprestadas.

Obrigado, Senhor,

Pelo céu e pelo chão,

Pelo vinho e pelo pão,

E por cada irmão que me deste.

António Couto


SANTA MARIA MADALENA

Julho 22, 2022

A Igreja celebra hoje, dia 22 de julho, Santa Maria Madalena. Por decisão do Papa Francisco, a celebração de Santa Maria Madalena assume, desde 2016, o grau de Festa ao nível das celebrações dos Apóstolos. Na verdade, a Tradição da Igreja, com Rábano Mauro e São Tomás de Aquino à cabeça, a que se juntou São João Paulo II na Exortação Apostólica Mulieris dignitatem, tem dado a Maria Madalena o título nobre de «Apóstola dos Apóstolos», título que se acorda bem com os relatos dos Evangelhos acerca da Ressurreição de Jesus. Na verdade, os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas fazem-nos ver algumas mulheres, entre as quais está sempre Maria Madalena, a irem naquela madrugada de Domingo ao lugar do túmulo de Jesus, a receberem aí a mensagem da sua Ressurreição, bem como o mandato de levarem essa mensagem aos Apóstolos. Por sua vez, o Evangelho de João dá-lhe ainda maior relevo, pois coloca em cena, naquela madrugada da Ressurreição, apenas Maria Madalena, que é encontrada por Jesus, de quem recebe o mandato de ir anunciar aos Apóstolos que viu e continua a ver o Senhor Ressuscitado. «Vi e continuo a ver». É assim que se traça o perfil da testemunha, com o olhar cheio de Jesus Ressuscitado. Só assim o pode mostrar e anunciar.

Como precisamos hoje de ti, Maria Madalena! Mostra-nos Jesus, e roga por nós, neste dia luminoso da tua Festa!

António Couto


SÃO BARTOLOMEU DOS MÁRTIRES

Julho 18, 2022

Abre esta manhã de dezoito de julho,

E eu levanto os meus olhos para os montes.

É da tua mão, Senhor, que vem o meu auxílio,

Como para as aves do céu a água das fontes.

…..

Revolve, Senhor, todo o meu entulho,

E torna-me disponível e atento servidor dos meus irmãos.

Olho ao redor e vejo

A figura serena do santo bispo Bartolomeu dos Mártires,

Que tu chamaste de Lisboa para os montes,

Para aí conduzir o teu rebanho.

…..

Por toda a parte buscou sempre erva fresca e água pura,

E nenhuma ovelha morreu à fome ou de secura.

Ensinou, escreveu, semeou, conciliou, construiu,

Colheu tanto trigo loiro,

Que ainda hoje, mais de quinhentos anos depois do seu nascimento,

Continua aberto na terra o seu celeiro,

E reluzente no céu o seu tesoiro.

…..

São Bartolomeu dos Mártires, roga por nós!

…..

António Couto


A SENHORA DONA MARTA E A DISCÍPULA MARIA

Julho 15, 2022

Gn 18,1-10; Sl 15; Cl 1,24-28; Lc 10,38-42

1. Imediatamente a seguir ao belo trabalho de amor do Bom Samaritano (Lucas 10,25-37), apresentado como figura do discípulo de Jesus, eis-nos a braços com outra cena de exceção do Evangelho de Lucas: Jesus, Marta e Maria (Lucas 10,38-42), que continua a expor diante de nós, neste Domingo XVI do Tempo Comum, traços salientes para continuarmos a compor a figura do discípulo de Jesus.

2. A primeira anotação do narrador é para nos comunicar que, estando Jesus em viagem, uma mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa (Lucas 10,38). Acrescenta logo que Marta tinha uma irmã, chamada Maria (Lucas 10,39), e começa de imediato a desenhar o retrato das duas irmãs.

3. De Maria, diz-nos que se SENTOU aos pés de Jesus e que ESCUTAVA a sua Palavra (Lucas 10,39). O leitor apercebe-se de imediato que Maria assume a figura de discípula atenta, dedicada e deliciada: SENTADA perto do Mestre, ESCUTAVA… Diga-se de passagem que, à época de Jesus, nenhum Mestre hebreu teria aceitado que uma mulher assumisse em relação a si a postura de um discípulo! Mas Jesus é um Mestre novo, que salta não poucos muros tradicionais. O narrador usa outras tintas para pintar o retrato de Marta. Começa por nos dizer que andava DISTRAÍDA (verbo grego perispáô) com muito trabalho (Lucas 10,40a). Aproximando-se, porém, disse a Jesus com um certo ar de reprovação: «Senhor, a ti não te importa que a minha irmã me deixe sozinha a trabalhar?» (Lucas 10,40b). E, sem esperar pela resposta, como quem está cheia de razão, acrescenta logo, como quem tem autoridade para dar ordens até a Jesus: «Diz-lhe, pois, que me venha ajudar!» (Lucas 10,40c). É aqui que intervém, não Jesus, mas o Senhor (ho kýrios), com a sua Palavra serena e soberana, para lhe dizer: «Marta, Marta, andas PREOCUPADA (verbo grego merimnáô) e ÀS VOLTAS (verbo grego thorybázô) com MUITAS COISAS (pollá), quando UMA SÓ (henós) é necessária» (Lucas 10,41-42). E conclui, para total espanto nosso e de Marta: «Maria ESCOLHEU (eklégomai) a parte BOA (hê agathê), que não lhe será tirada» (Lucas 10,42).

4. Importa que compreendamos mesmo este importante dizer de Jesus, o Senhor. Em primeiro lugar, a repetição do nome «Marta, Marta». No mundo do AT, só em quatro ocasiões alguém é chamado duas vezes pelo nome: Abraão (Génesis 22,11), Jacob (Génesis 46,2), Moisés (Êxodo 3,4) e Samuel (1 Samuel 3,10). E trata-se sempre de um chamamento, de uma vocação, e não de uma reprovação. O mesmo sucede aqui. Com a repetição do nome «Marta, Marta», o Senhor quer levar Marta a assumir uma postura diferente da que ocupa. Em segundo lugar, a «preocupação» de Marta. Note-se que, na parábola da semente, as «preocupações» (hai mérimnai) consituem a postura daqueles que recebem a semente entre os espinhos, impedindo a Palavra de Deus de crescer (Lucas 8,14). Em terceiro lugar, e em contraponto com as preocupações, que são os espinhos que sufocam a Palavra na parábola da semente, o adjetivo «boa» (agathê) reclama a terra que dava fruto e que são aqueles que acolhem a Palavra com um coração bom (Lucas 8,15). Assim é retratada Marta em contraponto com Maria.

5. Importa também ver já, com clareza, que Maria não diz uma palavra em todo o episódio. Não se ouve a sua voz. Ela está tranquilamente SENTADA e totalmente concentrada na ESCUTA de outra VOZ, que não a sua. Maria é a mulher de UMA COISA e de UMA PESSOA. Por isso, na base da sua vida, tem de haver uma ESCOLHA. Nas páginas da Escritura Santa, é normalmente Deus o sujeito do verbo ESCOLHER. Quando também nós ousamos ESCOLHER, então já se percebe que deixamos muitos mundos para trás e que nasce em nós um mundo novo, por acostagem ao mundo de Deus.

6. Marta começa por receber Jesus na casa dela. É a senhora dona Marta. Olha de soslaio para a sua irmã Maria que acusa de não fazer nada, e repreende Jesus por não se importar com isso, e acaba mesmo dando ordens a Jesus, para que, por sua vez, dê ordens a Maria para a ir ajudar. É a senhora dona Marta. Manda, ou pensa que manda, em casa, na sua irmã e em Jesus!

7. A sua vida é uma azáfama, anda às voltas, ocupada por preocupações e preconceitos, descentrada e desconcentrada. O seu fazer é tradicional e convencional. Nunca ESCOLHEU. Apenas CONTINUOU a fazer o habitual. O narrador diz-nos que anda DISTRAÍDA, e Jesus diz-lhe que anda PREOCUPADA (merimnáô) e ÀS VOLTAS (thorybázô)… Vocabulário importante. Um pouco adiante, Jesus adverte os seus discípulos para não se PREOCUPAREM (merimnáô) com a vida, quanto ao que hão de comer, nem com o corpo, quanto ao que hão de vestir (Lucas 12,22), e acrescenta logo que isso – afadigar-se com o que comer, beber e andar freneticamente, de lado para lado, como meteoritos (meteôrízô) – são coisas dos pagãos! (Lucas 12,30). E põe-nos diante dos olhos este tesouro evangélico e poético: «Considerai os lírios do campo, que não fiam nem tecem!…» (Lucas 12,27).

8. Ressalta deste finíssimo quadro que também o agitar-se por Deus ou pelo próximo pode ser coisa pagã. Não necessariamente por ser pagão o objeto da busca, mas por ser pagão o modo de procurar: com afã, inquietação, agitação! Na verdade, as «muitas coisas» podem viciar, não apenas a escuta, mas também o verdadeiro serviço. Fazer muito pode ser sinal de amor, mas pode também fazer morrer o amor! Ao hóspede é necessário oferecer companhia, não apenas coisas!

9. Ao contrário da senhora dona Marta, que nunca abriu mão da sua condição de dona, Maria percebeu bem que não é dona, mas simplesmente hóspede. Não da sua irmã Marta, mas de Jesus. Maria está, na verdade, hospedada em casa de Jesus. Por isso, está assim serena e tranquila. Entregou-lhe tudo: o coração, as mãos, os olhos, o cofre, a chave do cofre, a chave de casa. Marta não é apresentada como sendo má pessoa, mas não compreendeu que, quando Jesus entra em nossa casa, é dele a casa, e nós simplesmente seus hóspedes, tranquilamente sentados junto dele! Ai esta nossa entranhada tentação patronal!

10. Dizia um velho rabino acerca de um seu colega: «anda de tal modo ocupado com as COISAS de Deus, que até se esquece de que ELE existe!». Convenhamos que se trata de um esquecimento desastroso…

11. Veja-se bem a simplicidade, a prontidão e a candura desarmantes da lição do velho Abraão do Antigo Testamento de hoje (Génesis 18,1-10). Parece mesmo que Abraão já estava ali, à porta da tenda, à espera de alguém ou de Alguém! Depois de entrever Alguém ao longe, percorre aquela avenida num instante, e, como bom beduíno oriental, quase implora que não passem adiante sem descansar e retemperar as forças na sua tenda. Os viandantes aceitam. Abraão corre, apressa-se, e, no mesmo movimento de alegria, entram Sara, sua esposa, e o seu servo, escrupulosamente seguindo as diretrizes de Abraão. Mesmo quando os seus hóspedes estão recostados à mesa, isto é, à volta de uma pele de vaca sobre o chão à entrada da tenda, debaixo da árvore, estendida, Abraão permanece de pé, em atitude de disponibilidade e serviço. Abraão apresenta-se loquaz e atarefado, enquanto os seus hóspedes estão tranquilos e pronunciam frases curtas, antes da grande palavra de esperança, completamente inesperada, que abre novos horizontes para toda a humanidade! Note-se ainda que as três medidas de farinha (Génesis 18,6), mais coisa menos coisa como 60 quilos de farinha, que Abraão manda Sara amassar e meter ao forno apontam já para a parábola do Evangelho (Mateus 13,33; Lucas 13,21), e, para além disso, dada a quantidade, para o banquete do Reino de Deus! Mas também aquele filho prometido (Génesis 18,10) aponta para o Filho que encherá as páginas do Novo Testamento e da nossa vida!

12. Na lição de hoje da Carta aos Colossenses 1,24-28, Paulo apresenta-se como «servidor» (diákonos) do Evangelho a toda a criatura (v. 23) e como «servidor» (diákonos) do corpo de Cristo, que é a Igreja (ekklêsía) (v. 24). Tudo isto, não por vontade do Apóstolo, mas segundo a «economia» (oikonomía) de Deus, dada a ele por Deus para proveito nosso para levar a cumprimento a Palavra de Deus (v. 25). A Deus aprouve dar-nos a conhecer (gnôrízô) o seu mistério (mystêrion). Portanto, o mistério bíblico não é o que não se sabe nem se pode saber; é, antes, aquilo ou Aquele que Deus nos dá a conhecer (v. 26-28). Mistério, portanto, prometido, anunciado, ensinado e conhecido! Para glória de Deus e nossa! Mas Paulo, o Apóstolo, ainda quer deixar diante de nós uma leitura nova do sofrimento, de que tanto fugimos e que a tanto custo suportamos. Diz o Apóstolo: «Alegro-me (chaírô) nos sofrimentos em vosso favor e completo o que falta nas tribulações de Cristo na minha carne em favor do seu corpo, que é a Igreja» (v. 24). Só o amor dá sentido à dor.

13. O Salmo 15 é uma «Liturgia de ingresso» no santuário, ou uma «Liturgia das portas». Constituía, na prática, uma espécie de liturgia penitencial ou exame de consciência feito à porta do Templo, para se aquilatar se a pessoa reúne condições para poder entrar no Templo. Quer isto dizer que, para alguém poder transpor o limiar do Templo, para poder ir à presença de Deus, tem de preencher uma série de requisitos morais e existenciais, e não apenas de pureza ritual, que nem sequer é falada no Salmo. Nas fachadas dos santuários do Egito e da Mesopotâmia estavam inscritas as condições requeridas para se aceder ao culto. Tratava-se, em quase todos os casos, de preceitos de natureza ritual ou exterior. Também o Talmude lembrava que «o homem não deve subir ao monte do Templo com sapatos ou bolsa ou com os pés cheios de pó; não deve reduzir os átrios do templo a entradas apressadas, e muito menos cuspir neles». Como se vê, o nosso Salmo não se entretém com ritualismos exteriores, mas requer comportamentos como o cumprimento de atos éticos e existenciais, que envolvam a justiça e a verdade, que evitem a calúnia e o insulto e a usura. Tenha-se presente que, no mundo oriental, o empréstimo interesseiro atingia, por vezes, níveis altíssimos. Por exemplo, na Mesopotâmia, as taxas de empréstimo chegaram a variar entre 17/% e 50%. O nosso Salmo apela à verdade e à generosidade.

António Couto


SÃO BENTO, PADROEIRO DA EUROPA

Julho 10, 2022

O dia onze de julho é dedicado ao patriarca São Bento,

Padroeiro da Europa,

Que ele mesmo ajudou a sair das cinzas do império romano,

E a renascer com a alma lavada entre o chão e o céu.

…..

São Bento nasceu em Núrsia em 480 e estudou em Roma,

Então atolada em degradação.

Olhou mais alto,

E foi ao sabor do vento até às montanhas escarpadas de Subiaco,

Sabendo que Deus não abandona os seus filhos.

Aí se recolheu numa gruta talhada nos rochedos,

Espraiou o olhar pelas deliciosas paisagens circundantes,

Partilhou o pão com os pássaros do céu,

Sentiu bem por perto a mão de Deus.

…..

Foi Deus, na verdade, que modelou, com as suas mãos carinhosas,

Aquelas pedras serenas e austeras,

Aquelas colinas,

Aqueles campos verdes,

Aqueles lagos azuis,

Aqueles passarinhos,

Aqueles lírios,

Aqueles irmãos que lhe foi dando.

…..

Da gruta de Subiaco mudou-se depois para Montecassino,

Ergueu um mosteiro,

Escreveu uma Regra de vida ao ritmo do céu e do chão,

Do pão e da oração,

Com muito Evangelho sempre à mão.

Juntou muitos irmãos.

Antes de morrer, em 547,

Já tinha desenhado o rosto da Europa que aí vinha.

Em 24 de outubro de 1964,

São Paulo VI proclamou São Bento Padroeiro da Europa.

…..

São Bento, Padroeiro da Europa, roga por nós.

Nesta encruzilhada em que vivemos.

…..

António Couto


AMARÁS!

Julho 8, 2022

Dt 30,10-14; Sl 69; Cl 1,15-20; Lc 10,25-37

1. Prosseguimos neste Domingo XV do Tempo Comum a leitura ou a pintura de Lucas 10, que tenta mostrar, cada vez com maior nitidez, os traços mais salientes da figura do discípulo de Jesus. É assim que Lucas coloca diante de nós a figura do «Bom Samaritano» (Lucas 10,25-37).

2. «Sou a personagem mais popular do Evangelho. Vós falais muitas vezes de mim: há vinte séculos que oiço o vosso aplauso por ter puxado o freio com que parei o cavalo naquela estrada que seguia de Jerusalém para Jericó. Ofereci imagens consoladoras à vossa emotividade e ao vosso gosto inato de histórias com um final feliz: a minha figura debruçada a colocar faixas, as gotas de óleo e vinho derramadas sobre as feridas do viandante maltratado pelos ladrões e traído por aqueles dois que pouco antes me precederam naquela estrada e lhe tinham negado a sua piedade, o facto de eu ter colocado o ferido sobre a minha montada, a pousada com o hospedeiro a quem entrego dois denários para ele continuar a assistência. E vós, para me honrar, ornamentastes com estas cenas as entradas dos albergues e lugares piedosos». É assim que o escritor italiano Luigi Santucci (1918-1999) abre o seu Samaritano apocrifo, deixando transparecer alguma ironia.

3. É grandemente sintomático que Jesus, com o recurso à parábola, tenha sabido e querido deslocar para a estrada, para o caminho, para a praça pública, as questões que eram habitualmente discutidas nas escolas ou na sinagoga entre especialistas. E assim, desde o princípio, tudo, no texto, se joga sobre o fazer, e não sobre o saber, como seria de esperar na mente do doutor. O próprio doutor da lei, que abre o diálogo com Jesus (Lucas 10,25), foi pedagogicamente conduzido por Jesus a saber talvez mais do que queria fazer, e talvez menos do que queria saber.

4. Note-se ainda, para além da estranheza da pergunta do doutor pelo fazer, e não pelo saber, que o objetivo é herdar (klêronoméô) a vida eterna, isto é, chegar a ser filho de Deus, filiação divina (hyiothesía) por graça recebida (Romanos 8,15-16; Gálatas 4,5). Fica-se a saber no final que é fazendo MISERICÓRDIA (spaggchnízomai) (Lucas 10,33) ou GRAÇA (éleos) (Lucas 10,37), como o SAMARITANO, que se herda a vida eterna (zôê aiônios).

5. Concentrando agora a nossa atenção sobre a parábola do Evangelho de Lucas (10,25-37), é impressionante notar que o narrador tenha necessitado de pouco mais de cem palavras, exatamente 106 no texto grego, incluindo artigos e partículas gramaticais (cf. Lucas 10,30b-35), para criar um quadro inesquecível!

6. Um HOMEM, anónimo e solitário, percorre os 27 km da estrada romana que, serpenteando através do Wadi el-Kelt, ligava a Cidade Santa (Jerusalém) ao belíssimo oásis de Jericó, tradicional morada de sacerdotes, superando um desnivelamento de cerca de 1100 metros. De improviso, na paisagem inóspita e desértica daquela estrada, o cenário habitual: BANDIDOS que saltam da emboscada, roubo, violência, fuga. Fica na berma da estrada um corpo ensanguentado, com a guarda de honra das rochas vermelhas dos montes circundantes, ditos em hebraico Adummîm, tradução literal: «do sangue». Tudo envolto num gritante silêncio.

7. Mas eis, ao longe, um SACERDOTE… Súbita desilusão. O narrador refere que o SACERDOTE bem viu o nosso homem, mas «passou pelo lado contrário» (antiparêlthen). Evitou demoras, chatices, incómodos, impureza ritual, que impediria a sua entrada no Templo, bem como qualquer serviço aí prestado. Eis, todavia, no horizonte, outra possibilidade: um LEVITA… A mesma desilusão, a mesma hesitação, os mesmos receios. Também ele «passou pelo lado contrário» (antiparêlthen).

8. A narrativa atinge o seu auge. Eis que vem agora um SAMARITANO, lídimo representante daquele «estúpido povo que habita em Siquém» (Ben-Sira 50,26), mas vai fazer tudo ao contrário dos dois anteriores representantes da religiosidade fria e formal de Jerusalém. Veja-se com quanto pormenor o narrador descreve todos os seus gestos: vem até junto dele (1), viu-o (2), FOI TOMADO DE MISERICÓRDIA (3), aproximou-se (4), enfaixou-lhe as feridas (5), derramou óleo e vinho (6), colocou-o na sua montada (7), levou-o para uma pousada (8), tomou-o ao seu cuidado (9), deu dois denários ao hospedeiro (10), e disse-lhe: «Toma tu cuidado dele» (11).

9. Aí está a religiosidade fria e calculista e insensível, debruçada sobre si mesma (incurvata in se), que passa ao lado da vida por e para estar atenta apenas às rubricas, por parte dos agentes do culto oficial de Jerusalém, em claro contraponto com o amor pessoal, eivado de afeto e de gestos de carinho ativo e criativo deste SAMARITANO, totalmente debruçado sobre os outros e para os outros, interessando-se até sobre o seu futuro, e provocando outros a entrar nesta dinâmica nova cheia de amor novo. Notável aquele: «Cuida tu dele!», do Samaritano, implicando o hospedeiro neste trabalho do amor! E de Jesus implicando o doutor: «Vai e faz tu!».

10. Fica claro que todo o fazer do samaritano tem o sabor do excesso e da maravilha. A sua história termina assim: «Quando eu voltar, pagar-te-ei». Mas esta é, como sabemos, a assinatura de Deus, como se pode ver nas parábolas do Reino (cf. Mateus 24,15 e 19). E o tempo e os irmãos que nos deixa nas mãos são a graça da missão que nos confia.

11. É por tudo isto que, sobre uma pedra da pretensa pousada do Bom Samaritano, na verdade um edifício do tempo dos Cruzados, mas que os peregrinos identificam com a pousada da parábola, um peregrino medieval gravou em latim estas palavras: «Ainda que sacerdotes e levitas passem ao lado da tua angústia, fica a saber que Cristo é o Bom Samaritano, que terá MISERICÓRDIA de ti, e, na hora da tua morte, te conduzirá à pousada eterna».

12. «Amarás!», é quanto responde o doutor, lendo a Lei de Deus (Lucas 10,27), que não está longe de ti: está na tua boca e no teu coração, como diz a lição do Livro do Deuteronómio 30,10-14, hoje escutada, e em que, no último dia da sua vida, Moisés insiste em repetir a Israel que, para viver feliz na Terra Prometida em que vai entrar, deve escutar e pôr em prática a Palavra de Deus, verdadeira chave da vida de Israel e da nossa.

13. Hoje temos a graça de escutar um antigo hino sobre o primado de Jesus, provavelmente de língua aramaica, que Paulo incrustou na sua Carta aos Colossenses (1,15-20). O hino é belo, teológico, denso, produzido com rima e metro, como é normal nos hinos antigos. «Filho do amor do Pai» (v. 13) é Jesus Cristo, «Imagem (eikôn) do Deus invisível», «Primogénito (prôtótokos) de toda a criatura» (v. 15) e também «Primogénito dos mortos» e «Cabeça do corpo que é a Igreja» (v. 18), «n’Ele» (en autô) (v. 16), «através d’Ele» (di’ autoû) e «para Ele» (eis autón) (v. 16) tudo foi criado. Ele, o Senhor Jesus, é absolutamente o centro de tudo e o primeiro em tudo, desde a criação, à propiciação pelo sangue da sua Cruz (v. 20), à vida da Igreja, à Ressurreição. É sempre n’Ele e através d’Ele e para Ele, que tudo quanto existe encontra o seu caminho, sentido, enlevo (eudokía) e plenitude (plêrôma).

14. O Salmo 69 é uma súplica intensa e imensa de um pobre sofredor cansado e a perder o pé, tal é a fundura do poço em que se vê atolado, a lama inconsistente e escorregadia que pisa, a força da torrente que o arrasta. Da funda crise em que se encontra, todos os seus gritos se dirigem para Deus, e são insistentes. Veja-se um pouco da sua distribuição pelo mapa do Salmo: «Salva-me» (v. 1 e 15), «responde-me» (vv. 14 e 17), «responde-me depressa» (v. 18), «aproxima-te» (v. 19), «redime-me» (v. 19), «liberta-me» (v. 19), «levanta-me» (v. 30). Catadupa de imagens. Palavras angustiadas ditas a Deus, para que Deus intervenha na vida deste pobre. Não se trata, note-se bem, de angústia à solta, incontrolada, mas modulada, dita a Deus, traduzida em palavras sinceras e sentidas, rezadas, tocadas, cantadas. Todavia, os v. 22-28, em que perpassa a vingança e a imprecação, foram julgados inapropriados pela tradição cristã, que os cortou da Liturgia das Horas. Esta imensa súplica, selada no final por uma ação de graças (v. 31-37), foi sempre muito apreciada pela tradição cristã, pelas citações que dela faz o Novo Testamento. Assim, entre outras, João 15,25 cita o v. 5: «Odiaram-me sem motivo»; João 2,17 cita o v. 10a: «O zelo da tua casa me devora»; Romanos 15,3 cita o v. 10b: «Os insultos dos que te insultam recaem sobre mim»; Mateus 27,34 e Marcos 15,23 aludem ao v. 22, acerca do vinagre; Atos 1,20 cita o v. 26: «Que a sua tenda fique deserta». Assumindo e resumindo tudo, Santo Hilário de Poitiers (séc. IV) via neste Salmo, em filigrana, a inteira trama da paixão de Jesus.

António Couto


MISSÃO OU DEMISSÃO

Julho 1, 2022

Is 66,10-14; Sl 66; Gl 6,14-18; Lc 10,1-12.17-20

1. Vamos ter o privilégio de poder conviver neste Domingo (XIV) e nos dois seguintes (XV e XVI) com o texto sublime de Lucas 10, todo ele dedicado a afinar os traços do retrato do discípulo de Jesus, o que Lucas faz em três quadros que formam um tríptico. Assim, vemos hoje (Domingo XIV do Tempo Comum) o primeiro quadro, o ENVIO dos setenta e dois discípulos de Jesus para um trabalho de ALEGRIA (Lucas 10,1-20). Veremos no próximo Domingo (XV do Tempo Comum) o segundo quadro, que expõe uma figura belíssima que assume alguns traços fundamentais do discípulo de Jesus: o Bom Samaritano (Lucas 10,25-37). E, no Domingo XVI, a fechar Lucas 10, veremos o terceiro quadro, que mostra as figuras de Marta e de Maria (Lucas 10,38-42), em que Maria, sentada como discípula atenta aos pés do Mestre, deixa ver mais alguns traços determinantes do discípulo de Jesus.

2. Mas hoje, Domingo XIV, aí estão os setenta e dois discípulos ENVIADOS por Jesus, portanto vinculados a Jesus. O número 72 traduz a universalidade: somos todos enviados por Jesus! Na mentalidade hebraica, eram 72 as nações que povoavam a terra. E as 70 nações que, na tábua dos povos, encontramos em Génesis 10, sobem significativamente para 72 na conhecida versão grega dos LXX! Assim, ao escolher um discípulo por nação, Jesus possibilita que todas as nações possam escutar o Evangelho! Digamos, pois, que podemos ver aqui o início daquele caudal maravilhoso que um dia, na manhã de Pentecostes, atingirá a sua foz, quando todas as nações que há debaixo do céu (Atos 2,5) ouvirem falar (laléô), verbo característico da revelação, nas suas línguas maternas as maravilhas de Deus (Atos 2,11).

3. Note-se que, já antes, em Lucas 9,1-6, Jesus enviou os Doze (Apóstolos), que desempenham um papel importante no Livro dos Atos. Todavia, O ENVIO dos setenta e dois discípulos que hoje se apresenta diante de nós, em Lucas 10,1-20, é um exclusivo do Evangelho de Lucas, e constitui um verdadeiro ápice, vincando bem a qualidade missionária deste Evangelho, que faz missionários, não apenas os Doze, mas todos os discípulos de Jesus! Sem equívocos: ser cristão ou discípulo de Jesus é ser missionário. Ser missionário não é uma segunda vocação, facultativa, uma espécie de adorno ou adereço que pode advir apenas a alguns cristãos (Francisco, Evangelii gaudium, n.º 273). Sempre sem equívocos: SER CRISTÃO É SER MISSIONÁRIO! É viver intensamente de Jesus e com Jesus, e partir, sair de si, para levar Jesus ao coração dos nossos irmãos. A grande Apóstola das ruas de Ivry, Madeleine Delbrêl (1904-1964), dizia as coisas assim, de maneira contundente, como evangélicas facas de dois gumes: «A missão não é facultativa. Os meios ateus [e indiferentes] em que vivemos impõem-nos uma escolha: MISSÃO OU DEMISSÃO CRISTû (mas ver também, no mesmo sentido, a Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, n.º 5, de 1975, de Paulo VI, a Mensagem para o Dia Missionário Mundial, de 2012, de Bento XVI, e a Carta Pastoral Misión Continental, n.º 4, de 2009, da Conferência Episcopal da Argentina).

4. O trabalho da Evangelização a que somos CHAMADOS e ENVIADOS por Jesus é um trabalho de ALEGRIA. Não de sementeira, mas de CEIFA (thêrismós). De acordo com o Salmo 126, a sementeira é um tempo de lágrimas, ma a CEIFA é um tempo de ALEGRIA e MÚSICA: «Vão andando e chorando, levando as sementes; ao voltar, vêm cantando, trazendo braçados de espigas» (Salmo 126,6).

5. O ENVIADO de Jesus deve partir belo, leve e livre, com causas, e sem coisas: «Ide! (…) Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias» (Lucas 10,4), despojamento impensável para um viajante daquele tempo, mas com mansidão, alegria e paz, como cordeiros (Lucas 10,3). O cordeiro é um animal pacífico: não mata, mas é morto! Como Jesus, o cordeiro de Deus! Veja-se, de resto, a riqueza semântica do aramaico talyaʼ, que significa «cordeiro, servo, pão e filho», perfeita tradução da identidade de Jesus. E com carácter de urgência: «Não vos demoreis pelo caminho» (Lucas 10,4). «Não saudar ninguém pelo caminho» é uma proibição impraticável no meio social do Médio Oriente! Mas semelhante interdição faz vir ao de cima a extrema urgência e a prioridade absoluta que a missão requer. Vem ao de cima que a urgência do anúncio do Reino é mais forte do que os usos e costumes! O objetivo é chegar quanto antes ao coração das pessoas, a quem se deve entregar a PAZ, entenda-se, a FELICIDADE, que é o significado pleno do termo hebraico SHALÔM. Também salta à vista que a missão não se pode reduzir a uma simples saudação na estrada, que é manifestamente insuficiente, mas requer um contacto demorado com as pessoas (v. 7-9). Não apenas nas casas (v. 7-9), mas também nas cidades (v. 10-15).

6. Note-se sempre bem que os discípulos de Jesus são ENVIADOS ao encontro das pessoas. Portanto, não são as pessoas que são chamadas a vir ao encontro dos discípulos de Jesus. Sim, o discípulo de Jesus não pode limitar-se a falar do Reino de Deus àqueles que veem ter com ele e o interrogam. Ao discípulo de Jesus é requerido que tome a iniciativa e fale em primeiro lugar. Deve assumir uma postura pró-ativa, não se contentando simplesmente em esperar e responder.

7. Somos informados, no final deste imenso texto, que os setenta e dois voltaram cheios de ALEGRIA! A ALEGRIA faz parte da Missão.

8. O contraponto belíssimo vem hoje do último Capítulo de Isaías, que vale a pena transcrever, tal é a sua beleza e exaltação: «Alegrai-vos com Jerusalém,/ rejubilai com ela todos vós que a amais;/ regozijai-vos com ela, sim, regozijai-vos,/ todos vós que fizestes luto sobre ela,/ pois mamareis e saciar-vos-eis do peito da sua consolação,/ pois sugareis e vos deleitareis da sua mama gloriosa./ pois assim diz o Senhor:/ “Eis-me a estender para ela a paz como um rio,/ e como uma torrente a transbordar a glória das nações./ Sereis amamentados,/ levados sobre os flancos,/ e sobre os joelhos acariciados./ Como um filho (’îsh) que a sua mãe consola,/ assim Eu vos consolarei;/ sim, em Jerusalém sereis consolados”» (Isaías 66,10-13).

9. É fácil verificar que Jerusalém é apresentada como uma mãe que amamenta e acalenta os seus filhos. Mas tereis reparado ainda que também Deus aparece dito com traços paternais e maternais, mais maternais que paternais, pois assume sobre si o papel de uma Mãe, daquela Mãe, que consola o seu filho, os seus filhos. E o belíssimo texto diz ainda que este filho, ou estes filhos que Deus, como uma Mãe, consola, já não são propriamente bebés, mas gente crescida (’îsh, e não yôneq). Sim, salta à vista que Deus cuida de nós à maneira maternal.

10. Total dedicação e transparência, assemelhação com Jesus, de quem carrega os estigmas (stígmata) e entrega casa a casa, porta a porta, mão na mão, coração a coração, a graça do Senhor Nosso, Jesus Cristo. Eis o retrato do Apóstolo no final da Carta aos Gálatas (6,14-18), que hoje tivemos também a graça de ouvir.

11. Verificação: como este mundo anda triste e distraído, anestesiado e dormente! E como nós, discípulos de Jesus, ENVIADOS a este mundo por Jesus, temos de sentir a urgência de levar este rio de ALEGRIA aos nossos irmãos. A não esquecer: ser cristão é ser missionário! Olhando com amor para este mundo, impõe-se-nos uma escolha: MISSÃO ou DEMISSÃO Cristã!

12. Missão nossa será sempre cantar a glória de Deus e convocar a terra inteira para verificar as maravilhas operadas por Deus. Todos e cada um. A comunidade e eu de mãos dadas e levantadas para Deus, como acontece muitas vezes nos Salmos. Temos muito a relatar e a agradecer, repassando diante de nós, não apenas a paisagem bíblica, mas também a nossa paisagem humana. Também o Salmo de hoje começa em tom comunitário (Salmo 66,1-12) para nos mostrar depois também o papel do solista (v. 13-20).

António Couto