É O AMOR O QUE FICA DO QUE PASSA

Novembro 16, 2019

1. Eis-nos aqui, neste caminho e neste hoje. Passamos, vemos e somos vistos. Entramos no Templo ou na Igreja da nossa terra, cheia de belas pedras, painéis, lustres, imagens, talhas douradas, toalhas de linho, música e flores. Também de gente bem vestida e perfumada.

2. Cá fora, lá fora, as guerras continuam, como continuam as catástrofes, as crises, as riquezas, as pobrezas, os impérios, os imperadores e as tiranias, os turistas que tiram fotografias, filmam pedras que julgam interessantes, a canalha, os pardais, os pares de namorados, os velhinhos sentados na soleira da sua porta, os vendedores fanáticos de qualquer seita, que tão depressa vaticinam desastres, como fabricam e vendem mezinhas e remédios, sonhos e futuros fáceis, enlatados, prefabricados, à medida, prontos a vestir ou a viver, mas também continuam as falências, as insolvências, as dores, as doenças, as desavenças, os desentendimentos familiares.

3. Dentro do Templo, e não fora dele, à saída, como narram os Evangelhos de Mateus e Marcos, o Jesus de Lucas 21,5-19, que temos a graça de ouvir neste Domingo XXXIII do Tempo Comum, faz ver e compreender aos seus discípulos de ontem e de hoje como tudo é passageiro e efémero, «tão cedo passa tudo quanto passa»! Passam as belas pedras e as flores, os perfumes, os impérios, as palavras, as guerras, as tragédias!

4. Nós fazemos quase sempre perguntas superficiais e epidérmicas, sem sentido: «Quando, e como se poderá saber quando será o fim destas coisas, deste mundo, deste tempo?!». É evidente que Jesus não nos responde diretamente, mas adverte-nos: «Não vos deixeis enganar, nem perturbar!». E aproveita a embalagem para orientar o nosso olhar e o nosso coração para o essencial: o fim não deve desviar-nos e distrair-nos do Presente, da Presença, d’Aquele que não passa, e em Quem devemos sempre saber pôr o coração, biblicamente falando, pôr a nossa atenção.

5. É esta Presença, esta Voz, que Hoje nos chama e diz que nos ama, que deve reclamar toda a nossa atenção, o nosso inteiro coração. Portanto, silêncio em nós. Pausa e bemol. Tempo novo de deixar falar o Espírito (Lucas 12,12) e Jesus (Lucas 21,15). Não há lugar para atitudes de autodefesa («não prepareis a vossa defesa»), mas para «o testemunho».

6. No Templo ardia o fogo perpétuo no altar do incenso, cuidado e renovado duas vezes ao dia, nove da manhã e três da tarde, pelo sacerdote de turno. Esse fogo era o sinal desta Presença amante e interpelante. Nas nossas Igrejas arde permanentemente aquela frágil lamparina, luzinha acesa junto do Sacrário, que assinala esta Presença, este Presente. Não nos deixemos distrair ou perturbar com o acidental. Velemos por esta Presença essencial, que vela por nós sempre. Afinal, é «Na tua Luz que veremos a Luz» (Salmo 36,10).

7. Esta Luz pequenina, vou deixá-la brilhar! Está acesa no mundo para alumiar e aquecer a nossa vida, purificar o nosso coração esclerosado, empedernido, atulhado de impurezas e asperezas, e sinalizar rumos novos, tenros, ternos, verdadeiros. Cuidado convosco! Não suceda que essa luzinha, essa chamazinha que arde mansamente, se transforme num fogo ardente, incontrolável, que queima a vossa palha (Malaquias 3,19). Diz-nos Malaquias, na lição de hoje (3,19-20), que o fogo tanto pode queimar como alumiar. O problema não está no fogo. Está na palha. Deixai-vos então alumiar, e limpai já o vosso coração de toda a tralha que possa fazer com que aquela luzinha, aquela chamazinha, em vez de alumiar, se venha a transformar num fogo inextinguível. Bem nos exorta São Paulo: «Veja cada um como constrói: com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha. A obra de cada um será posta em evidência. O Dia que há de vir torná-la-á conhecida, pois ele manifestar-se-á pelo fogo, e o fogo provará o que vale a obra de cada um» (cf. 1 Coríntios 3,10-13).

8. Trabalhai com diligência e amor. Semeai o vosso trigo, tratai-o com carinho, limpai-o da palha que o possa afogar, regai-o, colhei-o com alegria, moei-o, amassai a farinha com as vossas mãos limpas e carinhosas, acendei o forno com cuidado, cozei o vosso pão, parti-o e comei-o à vossa mesa, com uma vela acesa! Chamai o pobre, fazei-o entrar e sentar, alumiai-o e alimentai-o. Agasalhai-o. É a lição de São Paulo na Segunda Carta aos Tessalonicenses 3,7-12. Mesmo a propósito: passa hoje o Dia Mundial dos Pobres.

9. Sim, meus irmãos, o fio de ouro, a filigrana, que atravessa a história, é o amor. É o que fica do que passa. É, portanto, o amor que julga, isto é, que põe em crise, a nossa história e a nossa vida vã e banal. O fim do mundo é o amor que ama. O fim de um mundo. O fim do meu mundo egoísta, egocêntrico e egolátrico, assente apenas nos meus instintos e interesses. Quero dizer: aquilo que põe fim a este meu mundo vão e banal é o amor que ama, e, porque ama, é pessoal, é uma pessoa, é Deus que vem, amando, e me faz ver, amando-me, como eu tenho andado distraído e enganado, que nem tenho reparado no seu amor!

10. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra do nosso coração. E levantar-se-á então, desde o santuário do nosso emocionado coração, o hino coral e universal, que é o belo Salmo 98. Tudo e todos são chamados a formar uma bela orquestra, que nunca deixe de cantar os louvores de Deus. Desde o Templo (harpa, cítara, shôphar) até à inteira criação: mar e terra, rios (que são os braços e as mãos do mar, e, por isso, batem palmas), montes e colinas. Cantai, pois, um cântico novo, que tenha a idade e a fidelidade do amor, ao Deus que vem para julgar, amando, e renovar, sempre amando e acariciando, a terra, às vezes dura, do nosso coração.

 

No meio da bruma e da esperança

Que envolve os passos de tanta gente

Nestes dias toldados de novembro,

Há sempre uma mãozinha que se sente,

Uma luzinha que se acende,

Nos alumia, nos acolhe e nos atende.

 

Guia-me sempre, Luz amável,

No meio do nevoeiro que me envolve:

Sê Tu a guiar-me no caminho!

 

A noite é escura,

A casa é distante:

Sê Tu a guiar-me no caminho!

 

Guarda Tu os meus passos!

Eu não peço para ver o horizonte distante:

Um passo de cada vez

É para mim o bastante!

 

Obrigado, Senhor Jesus!

Tu és a Luz que me alumia

A cada instante!

 

Alumia também

Cada viandante,

Que na penumbra dos dias,

Tenha perdido a fé ou o volante.

 

António Couto


VAI COM DEUS

Novembro 9, 2019

1. Tendo atravessado Jericó e também o coração de Zaqueu, como vimos no Domingo passado (Lucas 19,1-10), Jesus sobe para Jerusalém, «chora sobre ela» (Lucas 19,41), entra no Templo (Lucas 19,45), e nele começa a ensinar o povo demoradamente (Lucas 20,1), última etapa do seu ministério público. É a ensinar no Templo que os saduceus o encontram e pretendem «tramá-lo» avançando com a estranhíssima história da mulher casada sucessivamente com sete irmãos, porque um a um iam morrendo sem deixar descendência, quadro evangélico posto diante dos nossos olhos neste Domingo XXXII do Tempo Comum (Lucas 20,27-38). Esta estranha história assenta na chamada «Lei do levirato» [do latim levir = cunhado], que manda que, se a uma mulher casada morrer o marido sem deixar descendência, o irmão do marido deve desposar a mulher para dar uma descendência ao seu irmão (ver Deuteronómio 25,5-10). O tema da mulher que, por este processo, desposa sete maridos era também um lugar comum no folclore judaico, como se pode ver em Tobias 6,14.

2. Os saduceus, descendentes do sumo-sacerdote Sadoq, constituíam a alta burguesia sacerdotal e liberal de Jerusalém. A religiosidade conservadora que defendiam assentava apenas na Tôrah de Moisés escrita, constituída pelos Livros do Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. Não reconheciam autoridade a nenhuma tradição oral, ao contrário dos fariseus. Também ao contrário dos fariseus, os saduceus não acreditavam na ressurreição. E é este ponto preciso que pretendem atacar e pôr a ridículo, quando contam a Jesus a história da mulher e dos seus sete maridos, para no final lhe deixarem a pergunta sarcástica: «Na ressurreição, de qual dos sete será esposa, uma vez que, nesta vida, os sete a tiveram por mulher?» (Lucas 20,33). Claro que a pergunta visa desacreditar e pôr a ridículo a mentalidade popular, cultivada por algumas correntes farisaicas, que passava da ressurreição uma imagem demasiado materialista, segundo a qual os defuntos ressuscitariam tal como foram sepultados, com o mesmo aspeto, com as mesmas roupas e com as mesmas enfermidades. Assim, cegos, surdos, mudos, coxos ressuscitariam igualmente cegos, surdos, mudos, coxos, para que pudessem ser reconhecidos, e apenas mais tarde seriam curados.

3. A resposta de Jesus é original no método e nos conteúdos. Claro que afirma a ressurreição. Opera, porém, uma clara distinção entre «este mundo» e o «mundo que há de vir», mostrando que este não é um decalque do primeiro, e mostrando também a nossa inaptidão e inabilidade para passar de um mundo para o outro. Este «outro» não é, na verdade, regido por nós, seja qual for a nossa maneira de pensar. É regido por Deus, de quem somos «filhos» (Lucas 20,36), isto é, recebedores de vida. Belíssima janela aberta para a grande teologia da divinização por graça. Na sua resposta, Jesus não cita nenhum texto bíblico que fale explicitamente de ressurreição, evitando assim as infindáveis discussões académicas. De forma surpreendente e inesperada, cita Êxodo 3,6, em que Deus se revela a Moisés como «Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob» (Lucas 20,37).

4. Com este procedimento, Jesus vai diretamente ao coração das Escrituras, à Revelação do Deus vivo. A história contada pelos saduceus era a história de uma paternidade sete vezes falhada, de vida não transmitida que, por oito vezes, desemboca na morte. A história que Jesus conta é a história da vida verdadeira de Deus, vida transmitida, dada pelo Deus vivo, e Deus dos vivos, Paternidade não falhada, mas realizada. A ressurreição, como a mostra Jesus, não é a reanimação de um cadáver ou um simples prolongamento desta vida. Os «filhos da ressurreição» e «filhos de Deus» são aqueles que põem toda a sua esperança em Deus, o único verdadeiro vivente. Os que vivem como «filhos do Deus vivente» recebem de Deus a vida que não morre. A não ser assim, terá que se dizer que Deus não é o Deus da vida, o que até para os saduceus seria um absurdo.

5. Portanto, negar a ressurreição é negar a vida, e equivale a negar a própria existência de Deus. Se Abraão, Isaac e Jacob estão vivos, não é pelo facto de terem desposado mulheres e gerado filhos, mas pelo facto de serem eles mesmos «filhos» de Deus, para sempre recebedores da vida de Deus. Na ressurreição, isto é, na ordem nova da vida de Deus, o marido, a mulher e os filhos gerados não são identificados pela sua relação esponsal, paternal, maternal ou filial, mas apenas pela sua relação de filiação divina (hyiothesía) (cf. Romanos 8,15-16; Gálatas 4,5), a única verdadeira relação originária e que não pode ser abolida, a mesma que define e identifica os anjos.

6. Vida em plenitude, apenas dada e recebida da única fonte da vida, nunca falhada, nunca terminada, vida sem ocaso. Vida grande e bela, musical, angélica música da água a jorrar da fonte divina inesgotável. «Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, não de mortos, mas de vivos». Com o estupendo testemunho do filósofo francês Blaise Pascal que, desde 1654 até à sua morte, ocorrida em 1662, trazia, cosido no forro do seu manto (na verdade, cosia e descosia, consoante mudava de roupa), um pergaminho escrito, que começava com a parte final do Evangelho de hoje: «Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob./ Não dos filósofos e sábios./ Certeza, Certeza. Sentimento, Alegria, Paz./ Deus de Jesus Cristo./ Deum meum et Deum vestrum (João 20,17)./ O teu Deus será o meu Deus./ Esquecimento do mundo e de tudo, exceto Deus./ Ele não se encontra senão pelos caminhos ensinados no Evangelho…». Este pessoalíssimo testemunho constitui o chamado Mémoriale de Pascal, escrito em 1654, segunda-feira, 23 de Novembro, entre as dez e meia da noite e a meia noite e meia. Após a sua morte, um criado encontrou o pergaminho com os dizeres mencionados cosido no forro do seu manto.

7 No ano 167 a.C., o selêucida Antíoco IV Epifânio desencadeou uma violenta perseguição antijudaica, cujos ecos se podem ver, por exemplo, no Segundo Livro dos Macabeus, Capítulos 6 e 7, um extraordinário díptico que mostra no Capítulo 6 a fidelidade heroica do velho Eleazar, e no Capítulo 7 a mesma atitude por parte dos sete jovens irmãos Macabeus. É este segundo episódio (2 Macabeus 7,1-2.9-14) que hoje escutamos e que faz eco ao Evangelho. A narrativa está cheia de heroicidade e de fé no Deus vivo. Estes sete jovens e a sua mãe afirmam aqui, de forma clara, a Ressurreição, aludida em muitas outras passagens do Antigo Testamento. Mas vale sempre a pena recuperar o quadro de Eleazar, um ancião de 90 anos, que também afirma e defende corajosamente a sua fé perante os perseguidores pagãos. Os dois quadros, do velho ancião e dos sete jovens e sua mãe, formam um belíssimo díptico que devemos colocar em lugar bem visível para os olhos do nosso coração, como se fosse, e é, um quadro de família. A tinta dos quadros ou das narrativas do Livro dos Macabeus, citando nomes e acontecimentos verdadeiros, é também de teor edificante. O Livro de Daniel, escrito provavelmente no Outono do ano 164 a.C., lê os mesmos acontecimentos também com o objetivo de encorajar os judeus piedosos a permanecerem firmes na sua fé durante a perseguição do tirano Antíoco IV Epifânio. No dizer deste Livro (12,1-3), pessoas como Eleazar ou os sete jovens irmãos Macabeus e sua mãe são os mestres sábios (maskkilîm) e justificadores (matsddîqîm), isto é, dadores de vida: ensinam, não teorias, mas a vida verdadeira, dando a sua vida por amor: é assim que vencem os violentos, não opondo-se a eles, mas amando, isto é, dando a vida e dando vida, ensinando a viver. Estes novos sábios e justificadores são, diz o Livro de Daniel, as novas estrelas que brilham para sempre! Todas as outras (do cinema, da canção, do futebol) são cadentes e decadentes.

8. Belo podermos ver hoje Paulo a rezar (2 Tessalonicenses 2,16-3,5), juntando, com um verbo no singular, «Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu consolação eterna e esperança boa na graça, console os vossos corações» (vv. 16-17). A oração de Paulo é de intercessão a favor dos Tessalonicenses. Depois pede aos Tessalonicenses que rezem por ele, para que a palavra do Senhor corra pelo mundo inteiro e seja por todos acolhida e suavize todos os corações.

9. O Salmo 17 está em perfeita harmonia com a liturgia que hoje celebramos. Levanta-se um justo perseguido e apresenta a Deus o seu atestado de inocência (vv. 1-5). Desde o coração (pensamento), passando pela boca (palavra), continuando pelos pés (caminhos, passos), o orante expõe-se todo diante de Deus, para que Ele possa verificar a retidão da sua vida. A um cristão que reza atentamente o Salmo, pode esta confissão parecer um pouco farisaica, mas pretende tão só afirmar a adesão a Deus e ao bem por parte do orante. A segunda parte (vv. 6-15) é uma súplica vigorosa e apaixonada em que o orante perseguido pede a Deus que, do armazém da sua ira, tire a espada da vingança e abata os seus inimigos, cujo coração, boca e olhos estão cheios de maldade e violência. Mas vai mais longe o orante na sua súplica intensa, e pede que Deus espalhe o terror e faça beber a taça da sua ira também aos filhos dos seus adversários e aos filhos dos seus filhos. E, assim como pede que sejam saciados de fel os seus inimigos, pede também que ele próprio seja saciado de doçura (v. 15). Também este intenso e alargado pedido de vingança pode soar mal a ouvidos cristãos. Trata-se, porém, do realismo bíblico da oração. O orante sente o que sente, e diz a sua amargura a Deus, rezando. Rezando, desinstala da sua alma aqueles sentimentos, e entrega-os a Deus. E é óbvio que Deus não pensa, diz e age como nós: «Na verdade, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos» (Isaías 55,9).

António Couto


HOJE NA TUA CASA É PRECISO QUE EU FIQUE

Novembro 2, 2019

1. É preciso vir atrás, ao Domingo XIII do Tempo Comum, que celebrámos no dia 30 de Junho, para assistirmos ao início do caminho de Jesus da Galileia para Jerusalém. Foi nesse Domingo proclamado o Evangelho de Lucas 9,51-62. Aí começava também o caminho longo e intenso da formação de Jesus aos seus discípulos de todos os tempos.

2. Estamos agora, quatro meses depois, no Domingo XXXI do Tempo Comum, dia 3 de novembro, e Jesus atravessa a cidade de Jericó, antes de entrar na última etapa do seu percurso, 27 km de uma longa subida que o levará a Jerusalém. Jericó é um belo e aprazível oásis que se estende por cinco quilómetros, situado a cerca de 300 metros abaixo do nível do mar. Jerusalém situa-se a cerca de 800 metros acima do nível do mar. O caminho de Jesus, e dos seus discípulos com Ele, torna-se agora, portanto, uma intensa subida física e espiritual.

3. A assinalar esta passagem de Jesus por Jericó, aí está mais um encontro decisivo, instrutivo e salvador de Jesus (Lucas 19,1-10), «que veio PROCURAR e SALVAR o que estava perdido», como Jesus diz de si mesmo no final da narrativa (Lucas 19,10). No início da narrativa é-nos apresentado um homem, de nome Zaqueu, que era rico e chefe de publicanos, e que PROCURAVA VER (ezêtei ideîn) QUEM É (tís estin) Jesus (Lucas 19,2-3a).

4. Cruzam-se o início e o final da narrativa, cruzando estas duas PROCURAS: Jesus PROCURA salvar o que está perdido; Zaqueu PROCURA ver quem é Jesus. Note-se bem que a narrativa não diz que Zaqueu PROCURAVA ver Jesus, o que equivaleria a ver o seu rosto, o seu aspeto, a roupa que vestia… Diz, antes, que Zaqueu PROCURAVA ver quem era Jesus. Entenda-se, portanto, que o que Zaqueu PROCURAVA ver não era o rosto, o aspeto, o exterior de Jesus, mas a sua identidade, a sua intimidade, o seu modo de ser e de viver.

5. Diz ainda o nosso belo texto que Zaqueu não conseguia ver quem era Jesus por causa da multidão, por ser de pequena estatura (Lucas 19,3b). Numa primeira vaga de leitura, fica-se com a impressão de que Zaqueu era um homem baixo e que, por esse motivo, atolado no meio da multidão, não conseguia realizar o seu objetivo de ver quem era Jesus. Numa segunda vaga de leitura, percebemos melhor por que razão Zaqueu não podia ver quem era Jesus por causa da multidão. É que, sendo ele chefe de publicanos, então era um traidor à sua pátria judaica, colaboracionista com os ocupantes romanos, cobrando impostos aos seus irmãos de raça e levando-os aos romanos. Traidor, colaboracionista, explorador e ladrão, Zaqueu era o odiado Zaqueu. Salta à vista que não podia estar no meio da multidão, que, se o descobrisse, o cobriria de insultos, cuspidelas, pontapés…

6. É esta a verdadeira razão que o faz correr adiante (onde não estava a multidão), e subir a um sicómoro (Lucas 19,4), para, daí, escondido na densa copa do sicómoro, poder ver e não ser visto, ficando, portanto, a coberto da multidão.

7. Mas também fica claro que, de dentro da copa do sicómoro, Zaqueu conseguiria certamente ver Jesus, mas não quem era Jesus. Para ver quem é Jesus, a sua identidade e intimidade, a sua maneira de ser e de viver, é preciso um encontro com Jesus. É aqui que entra o outro PROCURADOR, que é Jesus. Levanta os olhos, vê Zaqueu escondido na copa do sicómoro, e diz-lhe de imediato: «Zaqueu, desce depressa: HOJE na tua casa é preciso que eu fique!» (Lucas 19,5).

8. Zaqueu desceu depressa e recebeu Jesus com ALEGRIA (Lucas 19,6). Zaqueu começa aqui a ver quem é Jesus: não o insulta, não o exclui, não o empurra. Chama-o, acolhe-o, inclui-o! Em contraponto, a multidão viu e reprovou, dizendo: «Foi hospedar-se em casa de um pecador» (Lucas 19,7). Mas em casa, tu a tu, Zaqueu pode continuar a ver quem é Jesus, e vai virar do avesso a sua vida toda, DANDO, DANDO, DANDO. Aos pobres e àqueles (muitos) a quem roubou. E Jesus pode dizer com verdade: «HOJE veio a salvação a esta casa!» (Lucas 19,9). É o HOJE, que se ouve por oito vezes no Evangelho de Lucas (2,11; 4,21; 5,26; 19,5; 19,9; 22,34; 22,61; 23,43), que é o Evangelho aberto ao meio, rasgando também o tempo ao meio, deixando-nos sempre num HOJE que nos compromete.

9. Conclusão sempre nova para Zaqueu e para nós: Zaqueu não dá aos pobres para ser salvo, mas porque foi salvo!

10. A lição do Livro da Sabedoria 11,22-12,2 constitui um belíssimo contraponto musical e poético com o Evangelho de hoje. Deus e o mundo. Diante de Deus, e está sempre diante de Deus, o mundo é como uma gota de orvalho que cai de manhã sobre a terra e se evapora (v. 22). E o homem é como a flor da erva, bela mas frágil, e, por isso, seca. Mas já o teu Espírito trabalha o nosso barro (12,1). Tu és o Senhor do Sim, amas e sustentas tudo o que criaste (v. 24), corriges com lentidão, tens a paixão da educação pelo perdão (12,2). A todos fazes graça e repartes misericórdia, esqueces os pecados, em ordem à conversão (v. 23). Tu és primeiro, a tua Palavra é primeira, o teu amor é primeiro, o teu perdão é primeiro, o teu chamamento é primeiro. Nossa é a resposta, a conversão e a gratidão.

11. No pequeno extrato da sua 2 Carta aos Tessalonicenses 1,11-2,2, hoje também lida, Paulo afirma a sua oração sem cessar para que os cristãos de Tessalónica permaneçam firmes na sua vocação para que seja glorificado neles o Nome do Senhor Jesus, e n’Ele sejam eles também glorificados pela sua graça. Paulo adverte de seguida que ninguém se impaciente nem perturbe no que diz respeito à Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não está iminente, mas requer uma espera, não preguiçosa, mas operosa, como advertirá adiante (3,6-15).

12. Para saborearmos melhor todos os sabores da liturgia deste Domingo, fica bem cantar com alegria renovada o grande hino alfabético que é o Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração. Orígenes classificava este Salmo como «o supremo cântico de ação de graças», e Agostinho viu-o como «a oração perfeita de Cristo, uma oração para todas as circunstâncias e acontecimentos da vida». E enquanto saboreamos as imensas riquezas que nos vêm de Deus: a sua graça, misericórdia, amor e bondade (Salmo 145,8-9), usando, para o efeito, toda a gama de sabores e todas as letras do alfabeto, continuemos a cantar: «Quero louvar para sempre o vosso Nome» (Salmo 145,1).

António Couto


A FORÇA DA SUA RESSURREIÇÃO

Novembro 1, 2019

1. Seja qual for o texto de Paulo hoje lido e escutado, é sempre de uma enxurrada de vida nova que se trata, mas que, a fazer fé no que se sente, ouve e vê, já não nos diz nada, não fala para nós, nenhuma fome nos mata, nenhuma sede nos apaga, não responde a nenhuma inquietação nossa. E, todavia, os textos de Paulo que hoje lemos, quer provenham das Cartas aos Coríntios ou aos Tessalonicenses, eram ansiosa e atentamente recebidos e respondiam às questões que se punham os cristãos das comunidades dos anos 50: o que acontece com a nossa morte? O que vai acontecer quando Cristo Ressuscitado vier ao nosso encontro? E como pode a humanidade das gerações que viveram e morreram antes de Jesus ter aparecido a calcorrear os caminhos da Palestina beneficiar da salvação por Ele trazida e oferecida?

2. Em boa verdade, não parece credível que as questões acima formuladas façam parte das preocupações das pessoas que hoje frequentam as igrejas ou visitam os cemitérios das nossas comunidades paroquiais. Tanto quanto nos podemos aperceber, as questões que as gentes de hoje transportam têm mais a ver com a situação daqueles que a morte separou de nós: o que permanece da relação que tínhamos com eles? O que permanece sobretudo da amizade, do amor, do carinho que se partilhava quando eles ainda estavam connosco? Haverá alguma maneira, alguma possibilidade de lhes permanecermos fiéis? Poderemos, porventura, fazer algo mais do que colocar estas flores sobre a sua campa?

3. Podemos, com certeza, pôr tranquilamente de parte a imagem do toque da trombeta e dos restos mortais a saírem dos túmulos. Mas também podemos abandonar sem medo o medo quotidiano da morte que uma certa pregação medieval e moderna incutia nas pessoas. É sabido, de resto, que esta comemoração de todos os fiéis defuntos é de origem medieval e monástica, e acusa, por vezes, traços de piedade duvidosa e supersticiosa, acentuados ainda por outras estranhas ideologias que, de forma difusa, dissimulada e até violenta, invadem hoje o nosso quotidiano.

4. Estranha Boa Nova que amedrontava para levar à conversão. Conversão a que deus?, temos de nos perguntar. Porque não era seguramente àquele Deus a quem Jesus tratava e nos ensinou a tratar por Pai. E a força explosiva dos textos de Paulo hoje lidos não está nos acessórios, mas reside toda no nosso conhecimento pessoal, experimental (ginôskô / yadaʽ), de Jesus Cristo e da força (dýnamis) da sua Ressurreição (Filipenses 3,8 e 10). «Em verdade, em verdade, vos digo: “Quem escuta a minha palavra e acredita naquele que me enviou, tem a vida eterna, e passou da morte para a vida”» (João 5,24).

5. Sim, esta Palavra nova que Jesus faz irromper na nossa vida faz-nos saber que o peso e o medo da morte já passou, afinal, para trás de nós, de tal modo que já não pode ameaçar apagar, mais dia, menos dia, como uma esponja, a vida que vamos construindo com o amor novo que nos vem do Ressuscitado, pois é este amor que nos faz passar da morte para a vida (1 João 3,14). E mesmo quando o sofrimento cai sobre nós como uma avalanche, transformando a nossa vida num insuportável pesadelo, como sucede com Job, seremos ainda levados a descobrir que não é Deus que nos persegue e fustiga, pois Ele permanece ao nosso lado, dado que é Ele o nosso «familiar mais próximo», que é o nosso «redentor» (goʼel) (Job 19,25), aquele a quem cabe o dever, a obrigação, de velar sempre por nós em todas as situações difíceis da nossa vida. Os pretensos e falsos amigos de Job tudo fazem para o fazer calar. Vão de argumento em argumento. Só Deus se vem verdadeiramente sentar ao nosso lado, põe a sua mão de Pai sobre o nosso ombro (Job 9,33), carrega sobre si as nossas dores e a nossa morte (Isaías 53,4; Mateus 8,17; Hebreus 2,14-15), limpa os nossos olhos e o terreno todo à nossa frente, dá-nos a mão para a liberdade, libertando-nos também do temor da morte (Hebreus 2,15).

6. Estranha aberração que a Igreja tenha durante tanto tempo pregado a resignação, a aceitação do sofrimento, mas também da injustiça e da desigualdade. Sim, mas a fé na ressurreição é esta força (dýnamis), esta alavanca, que mantém Job de pé, e o leva a recusar até ao fim a resignação, a demissão, a ideia de um Deus que ficaria satisfeito com a injustiça.

7. Faz-nos bem sentar hoje com tempo na página do Evangelho (Mateus 11,25-30). As poucas linhas que a atravessam guardam o segredo mais inteiro de Jesus. Há quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente à popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (Marcos 4,38). Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos, os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!».

8. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (népioi)» (Mateus 11,25). Sim, aos pequeninos, grego népioi, que em sonoridade portuguesa daria «népias», nada, nenhuma ciência, nenhum poder, nenhum valor autónomo. Ó abismo da sabedoria dos pequeninos, daqueles que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem podem confiar (2 Timóteo 2,12). É sobre os pequeninos que recai toda a atenção de Jesus, que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45). E, no ritual do Batismo, são estes os dizeres que acompanham a entrega da vela acesa aos pais e padrinhos das crianças batizadas: «a vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que estes pequeninos, iluminados por Cristo…».

9. Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897) exalta na sua História de uma alma, que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que é o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança desmamada (gamul). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

10. Os pequeninos, os népioi, népias, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de alguém que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira página, temos então de perguntar: o que é que são então cristãos adultos, maduros na sua fé? Serão aqueles que sabem tudo, que estão seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que têm tudo na mão, que já não são dependentes porque já não precisam de ninguém que cuide deles? Seguramente não. Cristãos adultos na sua fé são aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, e que sabem debruçar-se sobre os pequeninos com amor. Cristãos adultos na fé não somos nós que pensamos que temos as chaves de tudo e de todos, mas somos nós como filhos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI (ʼAbbaʼ), em quem depositamos toda a nossa confiança, somos nós como filhos e irmãos, carinhosamente atentos uns aos outros, até ao ponto sem retorno de já não sabermos viver senão repartindo o pão e o coração.

11. «Eu Te bendigo, ó PAI, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da oração de Jesus [além desta vez, só no Getsémani: «PAI, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mateus 27,46); «PAI, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «PAI, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)]. Note-se que a belíssima oração do «PAI Nosso» (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) é-nos ensinada por Jesus, mas não o ouvimos a rezá-la. Um cristão adulto na sua fé, isto é, na sua confiança, tem de se pôr, como Jesus, totalmente nas mãos seguras e carinhosas do PAI, única direção da sua e da nossa vida.

12. É assim que o Evangelho deste Dia entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi. Nenhum arrogante raciocínio, nenhum orgulho, nenhuma escada por nós construída, conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Ensina-se a si mesmo, dando-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (Mateus 10,8-9). Nenhum acessório nos faz falta. Nenhuma estratégia dá certo. Basta-nos Cristo no coração, e a vida, sim, a nossa vida, para dar.

13. O Salmo 27 pode deixar-nos nos braços de Deus, cantando e decantando a luz e a confiança que de Deus recebemos. Mas também a suavidade, a bondade e a beleza nos encantam. Corolário normal, ainda que sempre de excecional elevação, para este dia e para esta liturgia, que nos deixa sempre tranquilos a brincar à porta da Casa de Deus.

 

Senhor,

Tu firmaste a terra há muito tempo,

O céu é obra das tuas mãos.

Eles perecem, mas Tu permaneces.

Eles ficam gastos como a roupa.

 

Sim,

Tu os mudarás como um vestido,

E eles ficarão mudados.

Mas tu permaneces sempre o mesmo,

E os teus anos jamais findarão.

 

O homem é como a erva,

E toda a sua glória como a flor do campo.

Seca a erva e murcha a flor,

Mas a tua Palavra, Senhor, permanece para sempre.

 

Neste mês em que a paisagem muda,

As folhas caem,

As árvores choram,

E nós verificamos que a nossa vida é breve e frágil,

Como a lançadeira no tear,

Assiste-nos, Senhor, mais de perto, com a tua bondade,

Sustém os nossos passos vacilantes,

Alumia os olhos do nosso coração titubeante,

Faz-nos sentir a alegria da tua presença carinhosa,

Senta-nos à mesa da certeza da tua salvação.

 

António Couto


A (PRO)VOCAÇÃO DA SANTIDADE E DA FELICIDADE

Outubro 31, 2019

1. Dia de Todos os Santos. Deus é a Santidade. Três vezes Santo. Santo, Santo, Santo. Santo, na língua hebraica, diz-se qadôsh, cujo significado mais consistente é separado. Separado de quê ou de quem, podemos perguntar. Da sua criação? Parece que não, pois o Deus da Bíblia olha para ela e por ela com beleza e bondade. De nós? Obviamente não, pois o Deus da Bíblia bem vê e vê bem os seus filhos queridos, ouve a nossa voz, conhece as nossas alegrias e tristezas, desce ao nosso nível e debruça-se sobre nós com carinho. Separado de quê ou de quem, então? Separado de si mesmo, eis a surpreendente identidade de Deus! Separado de si mesmo, isto é, não agarrado ao seu mundo divino e dourado para o defender ciosamente (Filipenses 2,6). Ao contrário, o nosso Deus é um Deus que sai de si por amor, para, por amor, vir ao nosso encontro. É esta realidade que se vê bem em toda a Escritura, Antigo e Novo Testamento. Paulo, na Carta aos Filipenses e na 2 Carta aos Coríntios, resume bem esta realidade ao falar de Jesus Cristo que «se esvaziou (ekénôsen) a si mesmo, recebendo a forma de escravo» (Filipenses 2,7), e «sendo rico se fez pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (2 Coríntios 8,9).

2. Sim. Se agora pararmos um pouco a contemplar a vida dos Santos canonizados e de tantos outros irmãos nossos, de extrema dedicação, simplicidade e alegria, não oficialmente canonizados, mas também Santos, pois arriscam e dão diariamente a sua vida pelos outros, compreenderemos logo que também eles, todos eles, se desfizeram ou separaram dos seus projetos, gostos, família, amigos, coisas, e se entregaram de alma e coração aos seus irmãos. Veja-se, por exemplo, e porque ainda temos presente o seu modo de proceder, a Santa Madre Teresa de Calcutá. Que dedicação, que amor, que paixão! Veja-se também, porque parece que todos o conhecemos e amamos, S. Francisco de Assis. Entenda-se, porém, sempre que somos Santos por graça, porque o Deus Santo, Ele é a Santidade, se faz próximo de nós, santificando-nos! É assim que nos tornamos, por graça, «concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Efésios 2,19). Nova cidadania. Nova familiaridade. Dêmos, pois, neste Dia Santo, graças ao Deus Santo, que nos santifica!

3. Só um Deus assim pode e sabe felicitar os pobres. Com um tom carregado de felicidade, não restritivo, mas alargado a toda a humanidade, as «Felicitações» do Rei novo atingem todas as pessoas, chegando às franjas da sociedade, às periferias existenciais, onde estão os pobres de verdade. É o grande Evangelho das «Bem-Aventuranças» ou «Felicitações» (Mateus 5,1-12), que abre o SERMÃO da MONTANHA, dito nas alturas da MONTANHA, que hoje temos a graça de escutar mais uma vez. No meio destas «Felicitações» – é por nove vezes que soa o termo «FELIZES» –, note-se a centralidade da MISERICÓRDIA (5.ª felicitação) (5,7). Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS. Aos misericordiosos será feita misericórdia. Belíssimo círculo bem no centro das Bem-Aventuranças. Notem-se igualmente as inclusões assentes na repetição da locução «reino dos céus» (1.ª e 8.ª) (5,3 e 10) e do termo «justiça» (4.ª e 8.ª) (5,6 e 10). Estas inclusões convidam-nos também ao reconhecimento de duas tábuas de felicitações, a primeira à volta da pobreza evangélica (5,3-6), e a segunda à volta da bondade do coração (5,7-10).

 

«5,1Vendo as multidões, subiu à montanha.

Tendo-se sentado, vieram ter com ele os seus discípulos.

2Abrindo então a sua boca, ensinava-os dizendo:

3FELIZES (makárioi / ’ashrê) os pobres de espírito (ptôchoì tô pneúmati),

porque deles é o reino dos céus;

4FELIZES os aflitos,

porque serão consolados;

5FELIZES os mansos,

porque herdarão a terra;

6FELIZES os que têm fome e sede de justiça,

porque serão saciados;

7FELIZES os misericordiosos (eleêmones),

porque lhes será feita misericórdia (eleêthêsontai);

8FELIZES os puros de coração,

porque verão a Deus;

9FELIZES os fazedores de paz,

porque serão chamados filhos de Deus;

10FELIZES os perseguidos por causa da justiça,

porque deles é o reino dos céus.

11FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem,

e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal

por causa de mim (éneken emoû)» (Mateus 5,1-11).

 

4. Não nos esqueçamos que continuamos na Montanha, nas alturas, pois há certas maneiras de viver e de sentir que só podem ter o seu habitat nas alturas. O Papa S. João Paulo II escreveu na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (2001), n.º 31, que perguntar a um catecúmeno se ele quer receber o batismo é o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta última pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo número, João Paulo II define a santidade como a «”medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto, imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.

5. Os «pobres de espírito», aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é «baixa de rûah» (shephal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23), isto é, sem espaço físico, económico, social ou psicológico. Não precisam de se afirmar. São claramente os últimos da sociedade, mas que, na sua humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois os ptochoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados, num círculo restrito, mas uma imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie.

6. É quanto assinala a majestosa multidão dos 144.000 da bela página do Apocalipse 7,2-4.9-14. 144.000, número perfeito e incontável (12 vezes 12 vezes 1000), que traduz todos os redimidos, de todas as raças, nações, povos e línguas, inumerável família dos filhos de Deus, todos com vestes brancas, porque lavadas no sangue do Cordeiro, e que jubilosamente aclamam o Deus Santo. «Somos filhos de Deus e seremos semelhantes a Ele», grande teologia da divinização por graça aportada pela página sempre nova da Primeira Carta de S. João 3,1-3.

7. Note-se ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «felizes» ou «bem-aventurados» diz-se ’ashrê, derivação do verbo ’ashar, que significa «pôr-se a caminho». Extraordinária maneira de designar os «bem-aventurados» como pioneiros, aqueles que abrem caminhos novos e bons e de vida nova e boa para o mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente e anestesiado em que vivemos.

8. Sim, disse-o no Sínodo, para mim e para todos: por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza (Mateus 19,22; Marcos 10,22; Lucas 18,23), por sermos ricos e importantes?

9. «Esta é a geração dos que procuram o Senhor». Cantemos e aclamemos, por isso, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. Nos dois primeiros andamentos deste Salmo (vv. 1-2 e 3-6), justamente a parte Hoje cantada, destaca-se o nosso canto de amor ao Deus criador e providente (vv. 1-2), que constitui como que a abertura do inteiro Salmo, e as condições morais para viver na presença deste Deus (vv. 3-6), formuladas numa espécie de «liturgia de entrada» ou «das portas». Os fiéis, em procissão, à chegada ao Templo de Jerusalém, fazem a pregunta ritual: «Quem pode subir ao monte do Senhor,/ quem pode entrar no seu lugar santo?» (v. 3), ao que os sacerdotes respondem, apontando aquí três condições essenciais: «Mãos inocentes e coração puro», em que as mãos traduzem a ação, e o coração a intenção, isto é, o inteiro viver do homem, a sua opção fundamental, de onde decorre também o não ir atrás dos ídolos e não praticar fraudes (vv. 4-5). O terceiro andamento mostra as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, que são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia registra por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

 

«O Senhor disse: “Eu bem VI a opressão do meu povo que está no Egito,

e OUVI o seu grito diante dos seus opressores;

CONHEÇO, na verdade, os seus sofrimentos.

DESCI a fim de o libertar da mão dos egípcios

e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa,

para uma terra que mana leite e mel”».

 

Neste quadro sublime, Deus, o Deus bíblico,

Revela a Moisés e a nós a sua identidade.

É um Deus bem atento, próximo e interventor.

É um Deus que, por amor, SAI de SI,

E não fica encerrado dentro das paredes douradas da sua eternidade.

Um Deus que SAI de SI é um Deus SANTO.

 

Atravessamos nestes dias uma mancha de tempo,

Que costumamos dedicar a todos os SANTOS,

Conhecidos e anónimos,

E aos Fiéis Defuntos.

 

Tempo de lembrar os SANTOS e a Santidade,

Que é a «medida alta da vida cristã ordinária»,

Como escreveu bem S. João Paulo II.

 

E o SANTO é aquele que SAI de SI,

É aquele que ouve com os ouvidos de Deus,

Vê com os olhos de Deus,

Fala com a língua de Deus,

Acaricia com as mãos de Deus,

Ama com o coração de Deus.

 

Senhor, ensina-nos a SAIR de NÓS,

Dos nossos interesses egoístas e egocêntricos,

E a sairmos ao encontro dos nossos irmãos pequeninos e necessitados.

Senhor, ensina-nos a ser SANTOS.

 

António Couto


REZAR E EVANGELIZAR É A MANEIRA DE SER DA IGREJA

Outubro 26, 2019

1. Domingo XXX do Tempo Comum. Aí está, no Evangelho de hoje (Lucas 18,9-14), mais uma parábola de Jesus direitinha ao nosso orgulhoso coração. Trata-se da famosa parábola do fariseu e do publicano, que sobem ao Templo para rezar. O narrador fornece-nos, a abrir e a fechar a parábola, a respetiva chave de interpretação. Abre assim: «Contou ainda esta parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezavam os demais» (Lucas 18,9). E a fechar: «Todo aquele que se exalta será humilhado, e aquele que se humilha será exaltado» (Lucas 18,14b). A intenção de Jesus não é, portanto, mostrar-nos a radiografia religiosa de duas figuras públicas e emblemáticas do seu tempo: um fariseu e um publicano. A intenção de Jesus é que a parábola nos atinja a nós, e dissolva o orgulho e a arrogância que nos habitam e orientam a nossa vida, quer na nossa relação com Deus, quer na nossa relação com o próximo.

2. O facto de nos ser dito que os dois homens subiram ao Templo para rezar, é para os colocar e nos colocar, não numa situação qualquer, mas numa situação-limite, dado que, de acordo com o fortíssimo dizer de Jeremias, «aproximar-se de Mim» (lageshet ʼelay), diz Deus, implica «empenhar [ou penhorar] o coração» (ʽarab ʼet-libbô) (Jeremias 30,21). «Empenhar o coração» no sentido estrito e técnico de «pôr o coração no prego», de «penhorar o coração», no contexto das «casas de penhores». Salta à vista que «penhorar o coração» é pôr a vida em risco, é como subir a um poste de alta tensão, onde vemos escrito: «perigo de morte». É, pois, nesta situação-limite, que são colocados os dois homens de hoje, e nós também. Esta situação dá às coisas uma seriedade imensa e intensa. Vejamos como tudo se passa.

3. Vem primeiro a radiografia do fariseu. Entenda-se sempre, não de um homem da classe dos fariseus do tempo de Jesus, mas do farisaísmo que há em mim, em nós. O que a radiografia nos mostra é, então, um fariseu cheio de si, afogado em si, autossuficiente e autorreferencial. Já a água lhe dá pelo pescoço, dada a situação de proximidade com Deus em que ousou colocar-se, mas nem por isso «põe o coração» na situação-limite em que se encontra. Para espanto nosso, na sua oração, não pede auxílio, não estende a mão; antes, procede a um estranho ritual de auto incensação e debita faturas e palavras que não atravessam as nuvens. Mais parecem pedradas no charco em que alegre e orgulhosamente se afunda, agora já com a água a entrar-lhe pela boca adentro. Em breve as velas do coração ficarão encharcadas, e a embarcação afundar-se-á. À superfície, a boiar, antes de se afundarem também, um monte de faturas e de palavras inchadas. É assim que vive e reza o fariseu que há em mim, em nós. A balança do deve e haver com Deus, pensa o fariseu e pensamos nós muitas vezes, está claramente desequilibrada a seu e a nosso favor. Aí estão as faturas que Deus terá de nos pagar: «Jejuo duas vezes por semana [a lei mandava jejuar uma vez] e pago o dízimo de todos os meus rendimentos» (Lucas 18,12). Julga o fariseu, portanto, e julgamos muitas vezes nós também com ele, que temos muito crédito acumulado face a Deus. E, por isso, até nos damos ao luxo de dar graças (eucharistéô) a Deus por não sermos como os outros, que vemos como ladrões, injustos e adúlteros, nem como este reles publicano (Lucas 18,11), estes, sim, cheios de dívidas para com Deus. Convenhamos que esta é uma estranha forma de dar graças a Deus, isto é, de «fazer eucaristia»! Este fariseu que eu sou acha-se com direitos adquiridos sobre Deus e sobre o próximo, de tal modo que facilmente os julgo e condeno. A sua oração não atravessa as nuvens, como a do humilde (Ben-Sirá 35,21); desfaz-se contra as paredes da sua arrogância.

4. Ao fundo, sempre ao fundo, da cena, vislumbra-se um verdadeiro e assumido pecador. Coisa tão rara e, por isso, tão cara. Sim, este pecador, este publicano, leva a sério a situação-limite que é rezar, que supõe verdade. Não vale a pena mentir à beira da morte, à beira da vida dada! Sim, é um publicano, um cobrador de impostos, coletor de dinheiro público, daí o publicano [do latim publicanus], é um traidor à pátria judaica, um vendido aos invasores romanos, um ladrão, porque, naquela profissão, sempre se cobravam uns cobres a mais. Mas tem ainda coração. Por isso, bate com a mão no peito, e pede a Deus a esmola do perdão, rezando assim: «ó Deus, sê-me propício (hilásthêtì mou: imp. aor. pass. de hiláskomai), a mim, que sou pecador» (Lucas 18,13). É assim que põe a andar a sua pobre embarcação. É assim que reza o publicano que há em mim, em nós. É a verdadeira respiração ou oração do nosso coração. Conclui Jesus de forma solene: «Eu vos digo: “este desceu justificado (dedikaiôménos: part. perf. pass. de dikaióô) para sua casa; o outro não”» (Lucas 18,14a). Este justificado, no modo passivo, chamado passivo divino ou teológico, diz-nos que esta justificação é obra de Deus, não nossa. Diz bem São Paulo: «não com a minha justiça, a da lei, mas aquela através da fé em Cristo, a de Deus» (Filipenses 3,9; cf. Romanos 3,28). Na verdade, justificar significa transformar um pecador em justo. Então, justificar é perdoar. E, neste profundo sentido bíblico, justificar e perdoar são ações que só Deus pode fazer («quem pode perdoar os pecados senão Deus somente?») (Lucas 5,21), dado que, transformar um pecador em justo é igual a Criar ou Recriar um homem novo. E da ação de Criar também só Deus é sujeito em toda a Escritura. Atenção que diante de Deus, não há justos. Há apenas justificados!

5. Pode ajudar-nos uma belo conto judaico, edificante, sobre a verdadeira oração, que vai de encontro à parábola de Jesus, hoje escutada, e que mostra a oração como abandono a Deus e em Deus, louvor, súplica, confissão. O protagonista é David, depois do pecado de adultério com Betsabé e do homicídio de Urias. David apresenta-se diante de Deus, e diz somente: «Pequei, Senhor!», calando-se logo e ficando em silêncio. Por que se cala?, pergunta o narrador. Porque se vê semelhante àquele pobre, esfomeado, com as roupas rotas, que um dia teve a sorte de poder entrar no palácio, à presença fulgurante do rei. Chegado à beira do trono, não disse nada, não obstante a insistência dos cortesãos para que implorasse a ajuda do rei. Na verdade, não precisava de palavras. O seu próprio corpo, a sua miséria, era um pedido mais forte do que qualquer palavra.

6. O precioso Livro de Ben-Sirá, que uma vez mais temos a graça de folhear, ler e escutar, mostra-nos como Deus está atento ao indigente, à viúva, ao órfão, ao deserdado, ao humilde, e diz-nos que a sua oração atravessa as nuvens (Ben-Sirá 35,15-22). Belíssima expressão que se cruza com a palavra fecunda de Deus que, como a chuva, atravessa as nuvens para baixo e para cima, enchendo de alegria a nossa terra abençoada (Isaías 55,10-11). Diz ainda o sábio que a viúva, o pobre, o órfão, o humilde não dão descanso ao seu coração em oração a Deus, enquanto Deus não olhar para eles com olhos de bondade (Ben-Sirá 35,21). É exatamente o modo como reza o publicano: «ó Deus, olha para mim com a bondade do perdão», com aquele olhar maternal da bênção sacerdotal (Números 6,25-26).

7. Reza, meu irmão. Como vês, rezar não é para beatos ou beatas de trazer por casa. Rezar é para militares, pois requer a coragem das situações-limite, podendo, de facto, mudar a nossa vida inteira. Bem, hoje, a confissão de São Paulo na reta final da sua vida: «Combati o bom e belo combate, terminei a carreira, guardei a fé» (2 Timóteo 4,7). E a bela doxologia final, que nos mostra um Paulo sempre em oração: «A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Ámen» (2 Timóteo 4,18).

8. Aí está, a fazer ressoar no nosso coração as páginas deliciosas deste Dia de Domingo, o Salmo 34, que põe nos lábios dos pobres a bênção (berakah) que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (tehillah) que é a sua verdadeira razão de viver (vv. 2-3). O pobre enche o seu olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na versão grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunhão, também nas liturgias de rito bizantino, lê-se: «geúsasthe kaì ídete hóti chrêstós ho Kýrios» («Saboreai e vede que Bom é o Senhor»), em que o adjetivo chrêstós, «bom», é lido na pronúncia viva: christós, o que vem a resultar, na atualização cristã: «Saboreai e vede que Cristo é o Senhor». Belo e saboroso, sem dúvida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege até os seus ossos para não serem quebrados (v. 21), tal como é dito do cordeiro pascal, o mais alto símbolo de libertação. No seu Caminho de perfeição, Santa Teresa de Ávila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e e incisivos discursos sobre a pobreza: «A pobreza é um bem que contém em si todos os bens do mundo; ela confere um império imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens cá de baixo desde o momento em que os faz cair aos pés». E São Francisco de Assis, no Pequeno Testamento, ditado em Siena, à pressa, a Frei Benedetto da Prato, aí por abril ou maio de 1226, poucos meses antes da sua morte, ocorrida em 3 de outubro desse mesmo ano, recomenda aos seus irmãos que amem sempre nossa senhora, a santa pobreza.

 

A Palavra de Deus desce, desce, desce,

Atravessa as nuvens,

Como chuva miudinha,

Cai num pedaço de chão,

Ou num pobre coração,

E adormece

Como o crescente

No ventre da farinha,

E cresce, cresce, cresce,

Até voltar a Deus, sua nascente.

 

A oração do humilde é pobre e pura,

Mas sobe, sobe, sobe,

Como um passarinho,

Atravessa as nuvens,

E deita-se de mansinho no coração de Deus,

Que presta atenção e cura

As nossas penas

Leves e escuras

E acaricia as nossas alegrias.

 

Atende, Senhor, as nossas preces de hoje

E de todos os dias.

 

António Couto


BATIZADOS E ENVIADOS: A IGREJA DE CRISTO EM MISSÃO NO MUNDO

Outubro 19, 2019

1. Depois da semente pequenina, pequenina, que é a fé, e que pode virar do avesso a nossa vida, depois do samaritano leproso curado, agradecido a Jesus e salvo, eis-nos, neste Domingo XXIX do Tempo Comum, perante uma viúva desprotegida no campo social, económico e jurídico, mas persistente no seu clamor por justiça.

2. A Bíblia insiste que ninguém deve afligir ou menosprezar uma viúva ou um órfão, pois se o fizer, e se a viúva ou o órfão gritarem a Deus, o seu grito será escutado e os seus opressores duramente castigados (Êxodo 22,21-23). Juntamente com o estrangeiro e o pobre, a viúva e o órfão fazem parte do rol das chamadas personae miserabiles, pessoas miseráveis, sem proteção social, económica ou jurídica, mas que, para sua defesa, podem contar sempre com a mão protetora de Deus, que sobre elas coloca o seu manto protetor ou pálio.

3. A impressão da pobre viúva do Evangelho de hoje (Lucas 18,1-8) é que o seu pedido esbarra contra uma porta fechada, quase blindada, que tem por detrás o coração fechado com nó cego de um juiz agnóstico, portanto, sem Deus, e insensível, incapaz de se condoer com as dores seja de quem for. O retrato que dele faz o narrador mostra-nos um juiz fechado a Deus (à sua bondade, à sua grandeza e à sua vontade) e aos homens, que ostenta um coração empedernido, e não um «coração que vê», para usar a bela expressão do Papa Bento XVI.

4. Sem nunca abrir a porta ou o coração aos apelos da viúva, o juiz de coração fechado com nó cego acaba, todavia, por ceder aos gritos persistentes da viúva, não porque o seu coração se tenha amaciado ou o nó cego desatado, mas para se ver livre do incómodo causado pelos gritos persistentes da viúva.

5. Do menor para o maior, à boa maneira rabínica. Se assim faz o juiz de coração fechado com nó cego, quanto mais e mais depressa fará Deus aos seus eleitos que a Ele gritam dia e noite?

6. Note-se que o narrador nos dá a chave logo no início, para podermos abrir a parábola e entrar na sua correta compreensão. Na verdade, introduz-nos assim na parábola: «Disse-lhes uma parábola sobre a necessidade de REZAR sempre, sem descanso» (Lucas 18,1). E no final insiste nos eleitos que gritam a Deus dia e noite (Lucas 18,7). Rezar com persistência. Não tanto para que Deus faça agora o que lhe pedimos, mas para que a nossa fé permaneça acesa! «Quando vier o Filho do Homem, encontrará a fé sobre a terra?» (Lucas 18,8).

7. É, de resto, sabido que o Evangelho de Lucas é também conhecido como o Evangelho da oração. Aqui deixamos, para quem o desejar e achar útil, os principais acenos. 1) Este Evangelho apresenta cenários de oração a abrir (Lucas 1,10 e 13; 2,37) e a fechar (Lucas 24,53), formando aquilo que se chama uma inclusão literária ou envelope, como que a dizer que o inteiro Evangelho está repleto de oração. 2) Este Evangelho é de longe o que apresenta mais vezes Jesus a rezar sozinho, como modelo de oração: Lucas 3,21; 5,15-16; 6,12-16; 9,18-20; 9,28-36; 10,21; 11,1; 22,31-32; 22,39-46; 23,33-34; 23,44-46. 3) É este Evangelho que nos apresenta as mais belas e inesquecíveis figuras de oração: Maria, com o magnificat (Lucas 1,46-55); Zacarias, com o benedictus (Lucas 1,68-79); Simeão, com o nunc dimittis (Lucas 2,29-32); o coro celeste, com o gloria in excelsis (Lucas 2,14). 4) É ainda este Evangelho que salienta alguns traços fundamentais da oração: a persistência, no chamado «amigo importuno» (Lucas 11,5-13) e na figura de hoje, a «viúva importuna» (Lucas 18,1-8), e a humildade, como veremos no próximo Domingo, na parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18,10-14).

8. Não se pode descurar hoje a colagem ao belo modelo de oração da viúva, do texto do Êxodo 17,8-13, que nos mostra Moisés também a rezar sem descanso no cimo da colina. Salta à vista que a vitória sobre Amalec não resulta da espada de Josué, mas da oração de Moisés! É como quem diz que a oração dia e noite, sem descanso, é a chave da nossa vida em todas as suas circunstâncias.

9. É ainda de uma beleza inexcedível o alcance dos versículos 15 e 16 do mesmo Capítulo 17 do Livro do Êxodo que estamos a seguir. YHWH-nissî [= «Yahveh-minha bandeira»], a bandeira ou o pálio de YHWH nas minhas mãos. É outra vez o manto ou o pálio carinhoso de Deus que nos protege sempre. Usamo-lo nas procissões, mas também nas horas mais dramáticas, quando precisarmos de «cuidados paliativos»… Foi a este manto, a este «pálio», que a medicina foi buscar o «paliativo». Saiba-o ou não. Porque não o devia nunca esquecer. Com quanto carinho devemos saber envolver os doentes, os sofredores, os pobres, as viúvas e os órfãos, os deserdados, e os moribundos…

10. São Paulo adverte hoje Timóteo (2 Timóteo 3,14-4,2), seu discípulo e cooperador dileto, que as Escrituras não transmitem apenas um saber, que há que estudar, aprender e ensinar. Ele acentua que as Escrituras têm o poder (dýnamis) de nos comunicar a sabedoria que conduz à salvação. É esta dinâmica que se deve manifestar em tudo o que fazemos. Oportuna e inoportunamente. Portanto, sempre.

11. O Salmo 121 é um delicioso hino inserido na coleção dos chamados «Cânticos das peregrinações» ou «subidas», que se estendem do Salmo 120 ao 134. O sonho do peregrino, que se lhe vê nos olhos e no coração, é o Senhor, que habita nas alturas de Sião. Por isso, enquanto atravessa montes e vales, leva já os olhos fixos no «monte Sião, belo em altura, alegria de toda a terra» (Salmo 48,3), e vai dialogando no seu coração acerca d’Aquele que é o seu auxílio (ʽezer) e o criador do céu e da terra (vv. 1-2). Depois desta fixação no seu Senhor, que reside em Sião, o salmista passa a contemplar Deus como o seu «guardador», três vezes o nome shômer [= «guardador»] (vv. 3.4.5), três vezes o verbo shamar [= «guardar»] (vv. 7[2 x].8), uma maneira de dizer um Deus protetor e atento, como a mãe que vela sobre o bebé, para seguir o belo dizer de Alonso Schökel: «Imagino uma cena noturna. Um bebé no berço que baloiça, docemente movido pela mãe que vigia. O vai e vem do berço, que poderia provocar medo, traz serenidade, porque o bebé sente a presença da mãe… No vai e vem da nossa vida, «levantamos os olhos» expectantes e descobrimos a presença vigilante de Deus, que nos tranquiliza». Vem depois a imagem da «sombra» protetora, que protege do sol escaldante do deserto, mas também dos raios nefastos da lua (vv. 5-6). No Próximo Oriente Antigo, os raios lunares eram temidos, podendo, como se pensava, causar febres, cegueira e loucura. E, mesmo entre nós, o termo «lunático» é aplicado a pessoas com comportamentos esquisitos e extravagantes. O Deus «guardador» reaparece no final, para nos guardar quando saímos e quando entramos (v. 8a), portanto, sempre. Pode entender-se do nosso movimento diário, mas também desde o nascimento até à morte, pois o verbo «sair» (yatsaʼ) também significa «nascer», e entrar pode aludir também ao túmulo. O acerto final «desde agora e para sempre» (v. 8b). Esta maneira forte de dizer deixa sob a guarda de Deus, não apenas o segmento da nossa cronologia humana, mas também o futuro misterioso do depois da morte. Graças a Deus.

12. Celebra-se também o Dia Missionário Mundial. A ideia da instituição de um Dia dedicado à reflexão acerca da dimensão missionária da Igreja, bem como à oração, comunhão e partilha da vida com os nossos irmãos mais necessitados e com todos os missionários espalhados pelos cinco continentes foi apresentada ao Papa Pio XI em 1926 pelas Obras da Propagação da Fé. Dando logo seguimento à sugestão apresentada, o Papa Pio XI, conhecido como «o Papa das Missões», instituiu, nesse mesmo ano de 1926, o Dia Missionário Mundial, que, a partir de então, se tem celebrado anualmente.

13. É já 93.º Dia Missionário Mundial que celebramos. Este ano com um cunho especial, dado que se insere no «Outubro Missionário Extraordinário» de 2019, que o Papa Francisco instituiu para marcar o centenário da Carta Apostólica Maximum illud, do Papa Bento XV, que traz a data de 30 de novembro de 1919, e que apelava então à «propagação da fé católica no mundo inteiro». «Batizados e enviados: a Igreja de Cristo em missão no mundo», é o tema forte que o Papa Francisco propôs para a celebração e vivência deste «Outubro Missionário Extraordinário» de 2019 e também deste 93.º Dia Missionário Mundial. Com data de 22 de outubro de 2017, Dia Mundial das Missões, em Carta enviada ao Cardeal Filoni, Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, o Papa Francisco incumbia-o da preparação deste «Outubro Missionário Extraordinário» de 2019, expressando no final da Carta o seu desejo intenso, que o é também para toda a Igreja: «Que desperte em nós, e que jamais nos seja roubado, o entusiasmo missionário». Entretanto, o Cardeal Filoni já deixou expresso o vivo desejo de se fazer deste «Outubro Missionário Extraordinário» uma oportunidade para a Igreja de reavivar o ardor e a paixão pela missão de Jesus, de modo a sabermos colocar a missão de Jesus no nosso coração, para que façamos da missão o critério para medir a eficácia das nossas estruturas, os resultados dos nossos trabalhos, a fecundidade dos nossos ministros e a alegria que somos capazes de suscitar.

António Couto