A GRANDEZA DOS PEQUENINOS!

Julho 4, 2020

1. As poucas linhas do Evangelho deste Domingo XIV do Tempo Comum, retiradas de Mateus 11,25-30, guardam o segredo mais inteiro de Jesus. Há quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinópticos (A. M. Hunter). Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente à popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (Marcos 4,38). Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos (nêpioi), os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!».

2. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (népioi)» (Mateus 11,25). Sim, aos pequeninos, grego népioi, que em sonoridade portuguesa daria «népias», nada, nenhuma ciência, nenhum poder, nenhum valor autónomo. Ó abismo da sabedoria dos pequeninos, daqueles que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem confiar (cf. 2 Timóteo 2,12). É sobre os pequeninos que recai toda a atenção de Jesus, que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a “um destes meus irmãos, os mais pequeninos” (henì toútôn tôn adelphôn mou tôn elachístôn), foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45). E, no ritual do Batismo, são estes os dizeres que acompanham a entrega da vela acesa aos pais e padrinhos da criança batizada: «a vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que estes pequeninos, iluminados por Cristo…».

3. Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897) exalta na sua «História de uma alma», que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que é o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança desmamada (gamul). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

4. Os pequeninos, os népioi, népias, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de alguém que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira página, temos então de perguntar: o que é que são então cristãos adultos, maduros na sua fé? Serão aqueles que sabem tudo, que estão seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que têm um estatuto, um status, que têm um diploma na mão, que já não são dependentes porque já não precisam de ninguém que cuide deles? Seguramente não. Cristãos adultos na sua fé são aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, e que sabem debruçar-se sobre os pequeninos com amor. Cristãos adultos na fé não somos nós que pensamos que temos as chaves de tudo e de todos, que abrimos ou fechamos todas as portas, mas somos nós como filhos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI (ʼAbbaʼ), em quem depositamos toda a nossa confiança, somos nós como filhos e irmãos, carinhosamente atentos uns aos outros, até ao ponto sem retorno de já não sabermos viver senão repartindo o pão e o coração.

5. «Eu Te bendigo, ó PAI, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da oração de Jesus [além desta vez, só no Getsémani: «PAI, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mateus 27,46); «PAI, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «PAI, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)]. Note-se que a belíssima oração do «PAI Nosso» (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) é-nos ensinada por Jesus, mas não o ouvimos a rezá-la. Um cristão adulto na sua fé, isto é, na sua confiança, tem de se pôr, como Jesus, totalmente nas mãos seguras e carinhosas do PAI, única direção da sua e da nossa vida dada, recebida e oferecida.

6. É assim que o Evangelho entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi. Vem-me à memória uma velha história que circula na África Oriental, e que fala de uma mulher pobre que andava sempre com uma Bíblia grande debaixo do braço. Dizem que nunca se separava dela. As pessoas que a viam passar todos os dias, faziam chacota dela com dizeres do género: «Porquê sempre a Bíblia, se há tantos livros para ler?». Mas a mulher lá seguia o seu caminho, imperturbável e indiferente às provocações. Um dia, porém, a mulher da Bíblia viu-se cercada por um bando de escarnecedores. Então, levantando bem alto a sua Bíblia, a mulher, abrindo um grande sorriso, disse: «Eu bem sei que há muitos outros livros que posso ler! Mas este é o único livro que me lê a mim!». Sim, como um bisturi!

7. Nenhum arrogante raciocínio, nenhum orgulho, nenhuma escada por nós construída, conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Ensina-se a si mesmo, dando-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (cf. Mateus 10,8-9). Nenhum acessório ou mero adereço nos faz falta. Dar o acessório, o adereço, o supérfluo, o que sobra, não tem a marca de Deus, não é fazer a verdadeira memória de Jesus, que se entregou a si mesmo por nós (Efésios 5,2), que se entregou por mim (Gálatas 2,20). Como é da nossa humana experiencia, o acessório, o adereço, o supérfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo, se for verdadeiro, afeta a nossa vida, porque é decisivo, é para sempre, tem a marca da eternidade, põe-nos no seguimento de Jesus. E, neste caminho discipular, não há estratégia que nos valha.

8. Esta agenda [AGE + NDA] de Jesus, que fica «connosco todos os dias» (Mateus 28,20), podemos vê-la diariamente na sua maneira feliz, ousada, pobre, despojada, humilde, filial, fraternal, próxima e dedicada de viver, bem ao jeito do Rei novo e fazedor de paz e de felicidade, sonhado por Zacarias (9,9-10) no último quartel do século IV a. C., em claro contraponto com o esplendor militar dos cavalos e pesados carros de combate de Alexandre Magno, que então atravessava a costa palestinense a caminho do Egito. Da agenda de Jesus, faz parte indeclinável a completa orientação da sua vida filial para o Pai, abrindo a este mundo novos rumos e desafios imensos de fraternidade. Não carros e cavalos, glória militar, vanglória do poder. Jesus, o Rei novo, belo e manso, vem montado num jumento, que não é animal que se leve para a guerra! «Estrada bela! É andando nela, que encontraremos repouso para a nossa vida» (Jeremias 6,16).

9. Aí está de novo S. Paulo, escrevendo aos Romanos (8,9-13) e a nós, para nos advertir que não é «na carne» (en sarkí), mas «no Espírito» (en pneúmati), que devemos viver. E ele insiste em dizer como é importante Cristo estar «em vós» (en hymîn), e o Espírito, Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos, habitar (oikéô) «em vós» (en hymîn). A carne tem a ver com o currículo, o status, a importância, a ganância… Mas podemos sempre socorrer-nos do vasto elenco, sempre atualizado, das «obras da carne», que S. Paulo faz na Carta aos Gálatas: «São manifestas as obras da carne, que são: fornicação, impureza, devassidão, idolatria, magia, inimizades, rixa, ciúme, iras, ambições, dissensões, divisões, invejas, bebedeiras, orgias, e coisas semelhantes a estas, sobre as quais vos previno, como já preveni, que os que tais coisas fizerem não herdarão o Reino de Deus» (Gálatas 5,19-21). E podemos também ver o confronto que ele faz com os «frutos do Espírito», que são: «amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gálatas 5,22-23).

10. Fica bem hoje cantar com alegria renovada o grande hino alfabético que é o Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração. Orígenes classificava este Salmo como «o supremo cântico de ação de graças», e Agostinho viu-o como «a oração perfeita de Cristo, uma oração para todas as circunstâncias e acontecimentos da vida». E enquanto saboreamos as imensas riquezas que nos vêm de Deus: a sua graça, misericórdia, amor e bondade, usando, para o efeito, toda a gama de sabores e todas as letras do alfabeto, continuemos a cantar: «Abris, Senhor, a vossa mão, e saciais a nossa fome!» (Salmo 145,16).

 

Senhor Jesus,

Dá-me um coração puro e transparente

Como uma nascente,

Como uma semente,

E ensina-me a ser simples e leve

Como aquele pássaro que do céu desce,

E reza e canta e come e agradece.

 

António Couto


SOBRE O FUNDAMENTO DOS APÓSTOLOS

Junho 28, 2020

1. Os Santos Apóstolos Pedro e Paulo são festejados em todas as Igrejas do Oriente e do Ocidente, nos antigos, como nos novos calendários, na mesma data, 29 de Junho. A Igreja do Oriente ainda hoje acomuna os dois Apóstolos com o título de Prôtóthronoi, os «primeiros na cátedra» da doutrina divina e salvífica. A Igreja de Roma já existia antes da chegada de Pedro e Paulo, mas venera-os como verdadeiros «fundadores», pois só com eles se vê como Igreja «Apostólica», coração de Pedro, coração de Paulo. A própria iconografia, em inumeráveis representações, junta os dois Apóstolos e Mártires, já desde os séculos II e III, sinal da veneração que os fiéis de Roma e do mundo inteiro lhes dedicavam. Veneração verificável, de resto, no facto de os túmulos dos dois grandes Apóstolos e Mártires ser a meta da única peregrinação do mundo cristão antigo.

2. Os textos da Escritura Santa hoje abertos diante de nós põem em relevo, naturalmente, as duas grandes figuras de Apóstolos que hoje celebramos. O Evangelho é de Mateus 16,13-19, que é também o Evangelho do Domingo XXI, e põe em destaque a figura de Pedro. Também a passagem do Livro dos Atos 12,1-11 lhe é dedicada. O texto do final da 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18 põe naturalmente em realce a figura de Paulo.

3. Cesareia de Filipe, atual Banyas, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS, que atravessa o inteiro Evangelho (Mateus 16,13-19). Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Aí construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus Pã, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.

4. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus põe a questão da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: «Quem dizem as pessoas que é o Filho do Homem?» (Mateus 16,13), para acrescentar logo de seguida, de forma direta e enfática: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15). A esta pergunta, posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16). Jesus declara «Feliz» (makários) Simão, filho de Jonas, não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). E é sobre este dizer de Simão Pedro, dizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pétros» – «pétra». Mas note-se também que quem constrói a Igreja é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir também é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, só Jesus e Pedro recebem o apelativo de «pedra». «Rocha», «rochedo», «pedra firme» diz-se, em hebraico, tsûr ou sela‘, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no coração do Salmista: «O Senhor é a minha Rocha (sela‘) e a minha fortaleza (…), nele me abrigo, meu Rochedo (tsûr), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu refúgio» (Salmo 18,3).

5. Mas o hebraico conhece também o termo keph, aramaico kêpha’, para designar a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos, mas várias vezes em Paulo (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9.11.14); kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados.

6. Jesus declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, política, jurídica, económica ou científica. É esclarecedor o texto de Isaías 22,19-23, que fala do «rito das chaves» e do poder retirado a Shebna e conferido a Eliaqîm. As chaves do Reino dos Céus são as chaves do amor e do perdão, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os pés na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constituição Dogmática Lumen Gentium: «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo» (n.º 9).

7. É importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Concílio Vaticano II. De facto, Pedro é a Pedra e tem as Chaves do Reino dos Céus, e é-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar: «Tudo o que ligares (dêsês: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeménon: part. perf. pass. de déô) nos Céus, e tudo o que desligares (lýsês: conj. aor. de lýô) sobre a terra, ficará para sempre desligado (lelyménon: part. perf. pass. de lýô) nos Céus» (Mateus 16,19). Todavia, no Evangelho de Mateus, e só no Evangelho de Mateus, esta autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar, é também confiada à inteira comunidade, exatamente nos mesmos termos em que é confiada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes (dêsête: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeména: part. perf. pass. de déô) no céu, e tudo o que desligardes (lýsête: conj. aor. de lýô) na terra, ficará para sempre desligado (lelyména: part. perf. pass. de lýô) no céu» (Mateus 18,18). É belo ver a inteira comunidade assente na Pedra, que é Pedro, como Pedro, com Pedro, não alijando responsabilidades, mas unida, reunida e operante na prática quotidiana do Perdão!

8. Atos 12,1-11 é uma página assombrosa, que sai fora do estilo lucano, e se aproxima mais do estilo do evangelista Marcos. Não admira. É mesmo para casa de Maria, mãe de João Marcos, que Pedro se dirige no episódio seguinte (Atos 12,12-17). Na página de hoje, Pedro é salvo miraculosamente pela intervenção do Anjo de Deus, do próprio Deus, portanto. São significativos os cinco imperativos que o Anjo dirige a Pedro: Levanta-te, cinge-te, calça as sandálias, cobre-te com o teu manto e segue-me! (Atos 12,8). Com o primeiro imperativo, caem das mãos de Pedro as correntes de ferro. Assim começa a liberdade! Passam depois, sem qualquer sobressalto, um após outro, dois postos da guarda, e abre-se automaticamente (automátê) o portão de ferro que dava para fora (Atos 12,10). Quando Pedro cai em si, está numa rua de Jerusalém, e reconhece a mão de Deus nesta espetacular ação de libertação em que é libertado das mãos de Herodes (Atos 12,10-11). Trata-se de Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande. Favorecido, primeiro por Calígula, depois por Cláudio, foi vendo, a partir do ano 37, começar e aumentar o seu reinado de norte para sul: em 37, é libertado das suas cadeias de ferro – estava preso em Roma – por Calígula, que lhe entrega, juntamente com o título de rei, as tetrarquias de Filipe e de Lisânias; em 40, recebe a tetrarquia de Herodes Antipas, acabando de 41 a 44, ano da sua morte, por se tornar rei também sobre a Judeia, de certo modo refazendo o antigo reino de Herodes o Grande. É no decurso destes últimos anos que se situam os acontecimentos relatados ou apenas acenados na lição de hoje, nomeadamente o martírio de Tiago, filho de Zebedeu, e a prisão de Pedro.

9. A cena da libertação de Pedro acontece na noite de Páscoa, em paralelismo com os hebreus que, no Egito celebraram a Páscoa da libertação. Também aí acontece a intervenção de Deus (Êxodo 12,8.12), também de noite, e os hebreus, como Pedro agora, comem a Páscoa com os rins cingidos e sandálias nos pés (Êxodo 12,11). E, de novo em paralelismo com os hebreus na saída do Egito, também Pedro deve caminhar pelas ruas da cidade e pelos caminhos do mundo. É aí que Pedro e os Apóstolos devem agora fazer falar a Palavra, e não já no Templo, como sucedeu no relato da libertação dos Apóstolos narrado em Atos 5,18-21.

10. Na verdade, quando Pedro dá por si, encontra-se na rua! Dirige-se então para casa de Maria, mãe de João Marcos, onde era usual os cristãos se reunirem para rezar (Atos 12,12). Pedro bate insistentemente ao portão exterior que dá para o pátio interior da casa, e, apercebendo-se, veio uma criada, de nome Rode [= Rosa] ver quem era (Atos 12,13). Mal reconheceu a voz de Pedro, ficou tão contente e perplexa que, em vez de abrir o portão, correu para dentro anunciando que Pedro estava lá fora (Atos 12,14). Responderam-lhe que estava maluca (maínê) (Atos 12,15). Quando finalmente abriram o portão, que não se abre automaticamente como o da cadeia, ficaram assombrados, fora de si (exístêmi) (Atos 12,16). É este o assombro maravilhoso que toma conta de Marcos, que enche o seu Evangelho, e esta página de eleição!

11. Chegámos finalmente a Paulo e ao final da sua 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18, em que Paulo traça, por assim dizer, o seu testamento autobiográfico, recorrendo a três imagens. A primeira provém do culto, do rito de libação (2 Timóteo 4,6), hebraico nesek (Êxodo 29,40; Levítico 23,13), que consiste em derramar um pouco de vinho ou de mosto (cerca de 1,5 litros) sobre o altar, onde será queimado juntamente com a oferenda (minhah), subindo o seu perfume para o alto, para Deus. Do mesmo modo, a inteira vida de Paulo foi uma incessante subida para o seu Senhor, nada retendo para si mesmo, cá em baixo. A segunda provém do mundo militar. É o combate (agôn), que Paulo combateu a vida inteira, e que qualifica de «belo» e «bom» (kalós) (2 Timóteo 4,7). A terceira provém do mundo desportivo, concretamente do atletismo. «Completei a minha corrida (drómos)» (2 Timóteo 4,7). Como o atleta sacrifica tudo para alcançar a vitória, também Paulo despendeu todas as suas energias para alcançar «a coroa da justiça» que o Senhor lhe dará (2 Timóteo 4,8), e que é bem diferente da «coroa corruptível» que os atletas conquistam no estádio (1 Coríntios 9,25). Seja-nos permitido ir buscar ainda uma quarta imagem ao mundo dos marinheiros. «O tempo (ho kairós) começou já a recolher as velas (systéllô)» (1 Cor 7,29). Paulo sabe que está a chegar ao porto, depois de ter atravessado tempestades de toda a ordem, sempre, no entanto, assistido pelo seu Senhor, para que se cumprisse o anúncio (kêrygma) do Evangelho a todas as nações (2 Timóteo 4,17). E termina tudo com uma bela doxologia: «A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Ámen» (2 Timóteo 4,18).

12. O Salmo 34 põe nos lábios dos pobres a bênção (berakah), que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (tehillah), que é a sua verdadeira razão de viver (v. 2-3). O pobre enche o olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na versão grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunhão, também nas liturgias de rito bizantino, lê-se: «geúsasthe kaì ídete hóti chrêstós ho Kýrios» [«Saboreai e vede que Bom é o Senhor»], em que o adjetivo chrêstós, «bom», é lido na pronúncia viva: christós, o que vem a resultar, na atualização cristã: «Saboreai e vede que Cristo é o Senhor». Belo e saboroso, sem dúvida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege até os seus ossos para não serem quebrados (v. 21), tal como é dito do cordeiro pascal, o mais alto símbolo de libertação. No seu Caminho de perfeição, Santa Teresa de Ávila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e e incisivos discursos sobre a pobreza: «A pobreza é um bem que contém em si todos os bens do mundo; ela confere um império imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens cá de baixo desde o momento em que os faz cair aos pés».

António Couto


O MILAGRE DO ACOLHIMENTO

Junho 27, 2020

1. Neste Domingo XIII do Tempo Comum, escutaremos o final do Discurso Missionário do Evangelho de Mateus (10,37-42), que iniciámos há dois Domingos atrás. Específico desta última parte do Discurso é que ele não é dirigido aos missionários, mas àqueles que os acolhem. O acolhimento feito aos missionários reveste-se de extrema importância, pois é dito que é como acolher o próprio Cristo e Aquele que o enviou (Mateus 10,40). Para tornar este aspeto visível e audível, neste pequeno texto de seis versículos, o verbo «acolher» (déchomai) faz-se notar por seis vezes (Mateus 10,40[4 vezes].41[2 vezes]). «Acolher» é, pois, a palavra-chave do texto de hoje.

2. Acolher os Doze, os discípulos de Jesus, os missionários e evangelizadores de todos os tempos, não consiste apenas em recebê-los educadamente em casa. Consiste também, e sobretudo, em expor-se ao anúncio que trazem, ao testemunho que dão. Não consiste apenas em abrir-lhes as portas da casa, embora isso também seja importante para quem deixou tudo por causa de Cristo (Mateus 10,37-39), e de vez em quando precisa de um quarto de hora de hospitalidade. Tem muito mais a ver com abrir o coração à mensagem de que são portadores, sabendo e vendo bem que por detrás deles, está Jesus, que os enviou.

3. Acolher os anunciadores, os mensageiros, os profetas, não é fácil, porque o anúncio de que são portadores provoca divisão, requer uma nova postura pró ou contra Cristo, uma escolha que não admite compromissos ou soluções retóricas, divide a humanidade, a família, o coração de cada um. Muitas vezes esperamos que os profetas nos ajudem a justificar os nossos compromissos, a nossa maneira de viver assim-assim. Mas, nesta matéria, o profeta é intolerante e radical. Eis o motivo pelo qual acolher um profeta é coisa difícil. É quase como tornar-se profeta também. Ambos terão, portanto, a mesma recompensa (Mateus 10,41).

4. Acolher Jesus ou os seus enviados é aceitar expor-se à cirurgia da Palavra, que divide junturas e medula e julga as disposições e intenções do coração (Hebreus 4,12). Acolher não é organizar uma festa de amigos. É aceitar conviver com um bisturi dentro de nós, com um fogo a arder dentro de nós (Jeremias 20,9; Lucas 24,32). É, afinal, tão complicado ou tão simples como oferecer um copo de água fresca a um missionário. É verdade, este simples copo de água fresca pode trazer pela mão a eternidade (Mateus 10,42).

5. A melodia do acolhimento vem de longe. Nove séculos antes de Cristo, lê-se no Segundo Livro dos Reis 4,8-11.14-16, que uma mulher rica de Sunam, uma aldeiazinha situada na planície meridional do monte Carmelo, acolheu em sua casa o profeta Eliseu, em quem ela reconhece um homem de Deus (2 Reis 4,9). Eliseu, do hebraico ʼelîshaʽ ou ʼelyashaʽ [= «Deus salvou»], é apresentado como filho de Safat, natural de Abel Mehôlah, no vale do Jordão, e os Livros dos Reis mostram-no como sucessor de Elias e continuador da sua missão profética. Para tal, recebe o manto de Elias (1 Reis 19,19; 2 Reis 2,13) e a dupla porção do seu espírito (2 Reis 2,9), e segue o mestre até ao seu arrebatamento (1 Reis 19,21; 2 Reis 2,1-11).

6. A hospitalidade da mulher de Sunam traduz-se na construção de um pequeno quarto no terraço da casa, equipado com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lâmpada (2 Reis 4,10). O suficiente para Eliseu, o homem de Deus, poder repousar quando estiver de passagem por Sunam. Mas, como quem acolhe um profeta por ele ser profeta, recebe recompensa de profeta, também a mulher hospitaleira de Sunam recebe uma recompensa nova: um filho! (2 Reis 4,16). A Palavra profética tem, de facto, uma energia nova: é a Palavra antes das coisas e do homem, de modo diferente da história comummente entendida, que põe as palavras depois das coisas e do homem.

7. A passagem da Carta aos Romanos 6,3-4.8-11 é um grande texto batismal. Batizados na morte de Cristo e com Ele sepultados, formamos com Ele uma realidade só, e viveremos com Ele, por graça, a vida nova da ressurreição.

8. Motivos sempre em excesso para cantar, saboreando a bondade do Senhor, e aprender a reconhecer a sua presença no meio de nós com a aclamação terûʽah (Salmo 89,16), grito ruidoso de emocionada alegria, em si intraduzível, mas que é a maneira de o povo fiel assinalar a presença favorável de Deus. É o que fazemos também nós hoje, cantando o Salmo 89, um Salmo Real, que canta Deus e o seu Messias, e o Reino maravilhoso do seu amor já estabelecido no meio de nós.

António Couto


O SEU NOME É JOÃO!

Junho 23, 2020

1. Na Solenidade do Nascimento de S. João Baptista, é-nos dada a graça de escutar o Evangelho de Lucas 1,57-66.80. Depois de Maria ter visitado e saudado Isabel (Lucas 1,39-45), e depois de ter recitado a bela oração do Magnificat (Lucas 1,46-55), o narrador informa-nos que «Maria permaneceu com Isabel cerca de três meses, e depois voltou para sua casa» (Lucas 1,56).

2. Curiosamente, só agora, depois da anotada a saída de cena de Maria em Lucas 1,56, nos é dito, no versículo imediatamente seguinte, em Lucas 1,57, que Isabel deu à luz. Com esta anotação precisa, fica claro que os três meses que Maria passou em casa de Isabel nada têm a ver com a assistência que Maria podia prestar a Isabel aquando do nascimento do seu filho. Temos então de procurar noutra direção pelo significado que o narrador quis dar a essa estada de três meses de Maria em casa de Isabel. E aqui impõe-se-nos a anotação que consta em 2 Samuel 6,11 acerca da Arca do Senhor, sendo aí dito que «a Arca do Senhor ficou três meses em casa de Obed-Edom, de Gat, tendo o Senhor abençoado Obed-Edom e toda a sua casa».

3. Portanto, Maria é, no texto de Lucas, a Arca do Senhor presente em casa de Isabel, que abençoa a casa de Isabel. Verificação: não é dito, o que seria de todo normal, que os vizinhos e os familiares de Isabel ouviram dizer que Isabel tinha tido um filho, mas sim que «os vizinhos e familiares ouviram dizer que Deus cumulou Isabel com a sua misericórdia» (Lucas 1,58).

4. O oitavo dia do nascimento de um menino é uma grande festa em Israel. É nesse dia que o menino é circuncidado e recebe o seu nome. A casa de Isabel enche-se outra vez de familiares e vizinhos. Mais uma vez atento, o narrador diz-nos que aquela gente que veio para a festa queria dar ao menino o nome do seu pai, Zacarias (Lucas 1,59). Nem outra coisa era de supor, dado que, em contexto bíblico, o filho primogénito recebia habitualmente o nome do seu pai. Mas Isabel também estava atenta, e reagiu logo, dizendo: «Não, o menino chamar-se-á JOÃO» (Lucas 1,60).

5. Os presentes ficaram atónitos com a reação de Isabel, e fizeram questão de vincar tal incongruência, referindo que na família ninguém tinha esse nome (Lucas 1,61). Recorreram, pois, ao mudo Zacarias para que se pronunciasse sobre o assunto do nome do menino. Zacarias, porque estava mudo, pediu uma tabuinha de cera, e escreveu: «O seu nome é JOÃO!», o que provocou o espanto de todos os presentes (Lucas 1,62-63).

6. Porquê, então, o nome de JOÃO? É certo que já o Anjo tinha mencionado a Zacarias este nome em Lucas 1,13. Mas porquê JOÃO, se ali, no livro anagráfico daquela família ninguém registava esse nome? O que significa o nome JOÃO? Em hebraico, JOÃO diz-se Yôhanan. Yôhanan significa literalmente «YHWH faz graça». E o que é fazer «fazer graça»? É, numa cultura que vive do concreto, uma mãe que embala ternamente o seu bebé nos braços e baixa para ele o olhar carinhoso, bondoso, maravilhoso, gracioso, maternal. É este duplo gesto de carinho maternal que é a graça bíblica. Sobretudo aquele olhar belo, enternecido, embevecido, maternal, que enche o bebé de graça.

7. É assim que Deus olha para nós, e nos acaricia. É assim que Maria é saudada pelo Anjo com aquele: «Alegra-te, Cheia de Graça!» (Lucas 1,28). E é isso que Maria canta no Magnificat: «A minha alma engrandece o Senhor,/ e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,/ porque Ele Olhou (epiblépô = olhar condescendente) para a sua humilde serva» (Lucas 1,46-47).

8. O nome JOÃO não estava registado no livro anagráfico daquela família. O nome dado não é, portanto, da nossa colheita. Vem de Deus. Foi anunciado pelo Anjo. O que é que isto quer dizer? JOÃO é, por assim dizer, o último profeta do Antigo Testamento, e o primeiro do Novo Testamento. Sendo o último do Antigo Testamento, ele resume todo o Antigo Testamento: «Deus faz graça». Sendo o primeiro do Novo Testamento, ele constitui o sumário de todo o Novo Testamento: «Deus faz graça».

9. É a posição estratégica de JOÃO no limiar dos Dois Testamentos, encerrando um e abrindo outro, resumindo um e sumariando outro, que explica a nossa estranheza. Mas JOÃO é uma enorme lição. Neste Belo Nome está contida a inteira Escritura. Parabéns, menino JOÃO, pelo teu nascimento no nosso mundo. Tu, que nos vieste mostrar Deus!

10. O Antigo Testamento serve-nos hoje, na Solenidade do Nascimento de S. João Batista, o chamado «segundo canto do Servo de YHWH» (Isaías 49,1-7). Gerado na dor de Israel como verdadeiro filho do milagre (Isaías 49,21), ergue-se esta singular figura de «Servo» (‘ebed), totalmente nas mãos de Deus, desde a sua predestinação desde o seio materno (Isaías 49,1 e 5), passando pela sua entrega à morte (Isaías 53,12), até à sua exaltação e glorificação (Isaías 52,13), de tal modo que Deus o pode chamar «meu Servo» (‘abdî). Na lição de hoje, o «Servo» fala em primeira pessoa e refere o seu chamamento por Deus, que continua a dizer o seu nome e a revelar-se a ele. Na verdade, Deus quer fazer dele o restaurador de Israel, o condutor dos exilados de Judá, mas também quer que ele seja uma luz para as nações, pois Deus quer que a sua salvação chegue até aos confins da terra. Da mesma forma, João não é a Luz, mas veio para dar testemunho da Luz (João 1,7-8).

11. Também temos hoje a graça de ouvir um pequeno extrato (Atos 13,22-27) do extenso «módulo narrativo» da história da salvação feito por Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (Atos 13,16-41). A parte hoje narrada e escutada põe diante de nós a história santa desde a promessa feita a David até João Batista, que mostra a sua realização, apontando Jesus.

12. O Salmo 139 é uma pequena maravilha, que põe diante de nós um Deus que se interessa por nós desde a nossa gestação no seio materno, ainda em embrião (golem) (Salmo 139,16), e depois acompanha com conhecimento pessoal todo o nosso percurso, toda a nossa vida. Tudo maravilhoso e admirável. Ó Deus amigo dos homens!

António Couto


NÃO TENHAIS MEDO!

Junho 20, 2020

1. Continuamos a escutar, neste Domingo XII do Tempo Comum, o Discurso Missionário de Jesus no Evangelho de Mateus, hoje Mateus 10,26-33. Omitiu-se Mateus 10,9-25, em que Jesus fazia aos seus Doze Apóstolos apelos ao despojamento radical – sem ouro, nem prata, nem cobre, nem alforge, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado, nem pão; apenas Paz – e os prevenia para as perseguições que viriam de toda a parte. Neste contexto, é importante que não nos precipitemos a expor as nossas razões, que nada valem, mas que saibamos dar lugar ao Espírito do nosso Pai. Ele é que sabe dizer a Paz do Evangelho.

2. A perícope de hoje está atravessada pela confiança em Deus, nosso Pai, que cuida de nós em todas as circunstâncias. Daí a locução «não tenhais medo!», verbo grego phobéomai, que soa no pequeno texto de hoje por três vezes (Mateus 10,26.28.31). Daí, a coragem serena que deve mover o discípulo e enviado de Jesus a falar claro, à luz do dia ou sobre os telhados, em todas as circunstâncias. De resto, é óbvio que sendo o discípulo de Jesus missionário, não pode viver escondido nas catacumbas ou amuralhado no seu grupo de pertença ou de conforto. O cristão tem sempre pela frente o risco do mundo e da vida.

3. Depois, para ilustrar as suas palavras, surge o recurso caraterístico de Jesus às imagens simples da vida campestre. Dois passarinhos são vendidos por um asse, uma moedinha de cobre, pequenina, que valia 1/16 avos de um denário. O denário era o equivalente ao salário de um dia de um trabalhador. Portanto, do menor para o maior, à boa maneira rabínica, se Deus, nosso Pai, cuida desses passarinhos, pequeninos, quanto mais fará sentir a sua providência sobre nós (Mateus 10,29-31).

4. É assim também que, em pura sintonia com o Evangelho, entre a perseguição de todos e o amor de Deus que tudo supera e vence, nos chega hoje a voz simultaneamente dorida e tranquila, mas sempre apaixonada e orante de Jeremias 20,10-13. É um extrato de uma das suas «confissões», que se podem ver em Jeremias 11,18-12,6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18, e que são uma espécie de diário interior, autobiográfico, em que o profeta de Anatôt, uma aldeiazinha situada a meia-dúzia de km a nordeste de Jerusalém, grita a Deus as dores e os amores da sua vida. Jeremias atravessou o período mais dramático da história do seu país, vendo primeiro, em 609, morrer tragicamente o justo rei Josias, subir ao trono o tirano rei Joaquim (609-597), assiste às duas entradas do babilónio Nabucodonosor em Jerusalém, em 597 e 587, sendo a segunda para arrasar Jerusalém e o Templo, deportar o rei Sedecias e pôr fim à nação de Judá. No meio de tudo isto, muita corrupção, muita violência, muitos interesses em jogo.

5. Jeremias é dotado de uma sensibilidade apuradíssima. Ele é, com certeza, o mais terno dos homens da Bíblia, um romântico afeiçoado ao seu país, à sua religião e ao seu Deus, à sua aldeia natal de Anatôt, aos afetos e ao amor. Todavia, por não poder calar o que tem de dizer, por não poder fugir de Deus e da sua Palavra, vê-se excomungado, perseguido pelos seus conterrâneos de Anatôt, denunciado por parentes e amigos, obrigado a não poder constituir família com a mulher amada (Jeremias 16,2). Por todos amaldiçoado (Jeremias 15,10), perseguido pelo poder, torturado e flagelado (Jeremias 20,1-6), preso (Jeremias 37,13-38,6) e exilado para o Egito (Jeremias 43,6-7), Jeremias continuou sempre a gritar a Palavra a arder que lhe chegava de Deus (Jeremias 15,16; 20,9). Jeremias articula muito bem, na sua vida, tal como Jesus e os seus discípulos de todos os tempos, missão, perseguição e esperança.

6. Por falar em missão, perseguição e esperança, aí está o Apóstolo. S. Paulo explica bem, na grande lição da Carta aos Romanos de hoje (5,12-15), que a Lei, por melhor que seja, não anula o pecado nem cura da morte. Antes, torna o pecado manifesto, pois a Lei é uma espécie de dique que aumenta a albufeira do pecado, e, portanto, o vau da morte. Aumentando a albufeira do pecado, torna-o visível, mostra-o, fá-lo entrar pelos olhos dentro. É assim que se pode ver depois, também, com todo o relevo e a toda a luz, a graça de Cristo Salvador. Foi quanto Paulo foi forçado a ver na estrada de Damasco. Tanto viu que ficou encandeado, e nunca mais viu como via antes.

7. O Salmo 69, que é uma súplica individual, continua a mostrar, com linguagem forte, como é habitual nos Salmos, figuras orantes e cheias de esperança, como Jeremias, por todos perseguidas e abandonadas, mas sempre com Deus por perto, que escuta as súplicas e o louvor dos pobres e humildes. O trono de Deus, a sua cátedra, são as nossas misérias e as nossas dores.

 

Sabes, meu irmão, que em Anatôt,

Há uma amendoeira em flor carregada de esperança.

Sim, em Anatôt, de Anatôt, a amendoeira levanta-se

E planta-se no teu coração róseo-branco de criança.

Sim, em Anatôt, Foz Coa, Kilimanjaro, Lamego,

Aí mesmo no chão do teu coração,

Tanto faz, minha irmã, meu irmão.

Sai dessa reclusão

E vem expor-te

A este vendaval manso de graça e de perdão.

 

A amendoeira em flor é uma toalha branca estendida pelo chão.

Não pela minha mão,

Incapaz de tecer um tal manto de brancura,

Mas pela mão de Deus,

Que também faz brotar o vinho e o pão

E a ternura

No nosso coração.

 

António Couto


A VERDADEIRA HISTÓRIA DO AMOR

Junho 18, 2020

1. Passa hoje, no calendário litúrgico desta sexta-feira, a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que assinala a presença viva, próxima e intensa de um amor sublime e de uma esperança nova, refletida no rosto, no coração e no horizonte de cada ser humano. É também Dia de Oração pela Santificação dos Sacerdotes. Sagrado Coração de Jesus, fazei o nosso coração semelhante ao vosso, neste dia belo e luminoso em que consagramos ao vosso Coração para sempre aberto a Igreja inteira e o mundo inteiro, sobretudo os que se afastaram de Ti, os doentes e desanimados, as famílias desavindas, as crianças abandonadas, os marginalizados e descartados, os que fogem de situações de guerra ou de miséria, e os que andam à procura de um abrigo, de uma mão carinhosa e de um coração aberto e acolhedor. Deixou escrito, a propósito, o beato Charles de Foucauld: «Perdei-vos no coração de Cristo: ele é o nosso refúgio, o nosso asilo, a casa do pássaro, o ninho da pomba, a barca de Pedro para atravessar o mar tempestuoso».

2. A Solenidade de hoje tem as suas raízes no coração de Deus, que as páginas da Escritura Santa nos dão a conhecer. Mas este caminho acentuou-se sobretudo nos tempos modernos, primeiro, nas revelações feitas a Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690), a quem se deve a implantação da devoção das nove primeiras sextas-feiras, mas também é oportuno lembrar S. Vicente de Paulo (1795-1850), que viveu e testemunhou com paixão «o mar imenso das divinas misericórdias», sem esquecer as místicas religiosas Benigna Consolata (1885-1916), que se chamava a si mesma «a pequena secretária do amor misericordioso», Maria Teresa Desandais (1876-1943), que se via a si mesma como a «mensageira do amor misericordioso», e Santa Faustina Kowalska (1905-1938), «secretária da misericórdia». Particular importância para a realização da Solenidade de hoje e para a Consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus, teve ainda a mística beata Maria do Divino Coração (1863-1899), sem esquecer a influência de Santa Teresa de Lisieux (1873-1897). Todas estas figuras místicas assumiram particular relevo na vivência e divulgação da mensagem da misericórdia de Deus. S. João XXIII dizia que «a Misericórdia é o nome mais belo de Deus, e acrescentava que as nossas misérias são o trono da Misericórdia divina». Em 1856, Pio IX estendeu a toda a Igreja a Festa do Sagrado Coração de Jesus. A Festa ou Solenidade de hoje, bem como a Consagração ao Sagrado Coração de Jesus derivam das revelações das místicas religiosas acima elencadas, tendo sido a beata Maria do Divino Coração a que mais de perto inspirou o Papa Leão XIII à sua instituição, que aconteceu em 1899, mediante a Encíclica Annum sacrum, tendo sido depois confirmadas por Pio XI em 1928, mediante a Encíclica Miserentissimus redemptor, e por Pio XII em 1956, mediante a encíclica Haurietis aquas. No seguimento das revelações da mística Santa Faustina Kowalska, S. João Paulo II instituiu o Domingo da Divina Misericórdia, a celebrar no Domingo II da Páscoa.

3. As poucas linhas do Evangelho deste grande Dia, retiradas de Mateus 11,25-30, guardam o segredo mais inteiro de Jesus. Há quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinópticos (A. M. Hunter). Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente à popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (Marcos 4,38). Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos, os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!».

4. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (népioi)» (Mateus 11,25). Sim, aos pequeninos, grego népioi, que em sonoridade portuguesa daria «népias», nada, nenhuma ciência, nenhum poder, nenhum valor autónomo. Ó abismo da sabedoria dos pequeninos, daqueles que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem confiar (cf. 2 Timóteo 2,12). É sobre os pequeninos que recai toda a atenção de Jesus, que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45). E, no ritual do Batismo, são estes os dizeres que acompanham a entrega da vela acesa aos pais e padrinhos da criança batizada: «a vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que estes pequeninos, iluminados por Cristo…

5. Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus exalta na sua «História de uma alma», que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que é o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança desmamada (gamul). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

6. Os pequeninos, os népioi, népias, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de alguém que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira página, temos então de perguntar: o que é que são então cristãos adultos, maduros na sua fé? Serão aqueles que sabem tudo, que estão seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que têm tudo na mão, que se bastam a si mesmos, que já não são dependentes porque já não precisam de ninguém que cuide deles? Seguramente não. Cristãos adultos na sua fé são aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, e que sabem debruçar-se sobre os pequeninos com amor. Cristãos adultos na fé não somos nós que pensamos que temos na mão as chaves de tudo e de todos, mas somos nós como filhos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI (ʼAbbaʼ), em quem depositamos toda a nossa confiança, somos nós como filhos e irmãos, carinhosamente atentos uns aos outros, até ao ponto sem retorno de já não sabermos viver senão repartindo o pão e o coração.

7. «Eu Te bendigo, ó PAI, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da oração de Jesus [além desta vez, só no Getsémani: «PAI, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mateus 27,46); «PAI, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «PAI, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)]. Note-se que a belíssima oração do «PAI Nosso» (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) é-nos ensinada por Jesus, mas não o ouvimos a rezá-la. Um cristão adulto na sua fé, isto é, na sua confiança, tem de se pôr, como Jesus, totalmente nas mãos seguras e carinhosas do PAI, única direção da sua e da nossa vida.

8. É assim que o Evangelho entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi. Vem-me à memória uma velha história que circula na África Oriental, e que fala de uma mulher pobre que andava sempre com uma Bíblia grande debaixo do braço. Dizem que nunca se separava dela. As pessoas que a viam passar todos os dias, faziam chacota dela com dizeres do género: «Porquê sempre a Bíblia, se há tantos livros para ler?». Mas a mulher lá seguia o seu caminho, imperturbável e indiferente às provocações. Um dia, porém, a mulher da Bíblia viu-se cercada por um bando de escarnecedores. Então, levantando bem alto a sua Bíblia, a mulher, abrindo um grande sorriso, disse: «Eu bem sei que há muitos outros livros que posso ler! Mas este é o único livro que me lê a mim!».

9. Nenhum arrogante raciocínio, nenhum orgulho, nenhuma escada por nós construída, conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Ensina-se a si mesmo, dando-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (Mateus 10,8-9). Nenhum acessório nos faz falta. Nenhuma estratégia dá certo. Basta-nos Cristo no coração, e a vida, sim, a nossa vida, para dar.

10. Vem de longe esta toada de intimidade e de eleição, como nos conta hoje o grande Livro do Deuteronómio. O Deus da Escritura Santa escolheu o pequeno povo de Israel, afeiçoou-se a ele, fez Aliança com ele, deu-lhe a sua Palavra de honra, os seus mandamentos. Não o escolheu por ser um povo forte e numeroso. As escolhas de Deus são gratuitas. Por isso, ao escolher um povo pobre e pequeno, vê-se que é por amor e graça que Deus escolhe.

11. O Apóstolo reforça, na sua Primeira Carta (1 João 4,7-16), a insistência no horizonte novo do amor e de graça, repetindo que «quem ama, nasceu de Deus, e conhece-o (ginôskô) (1 João 4,7), ao contrário de quem não ama, que não conhece Deus (1 João 4,8). Se Deus é amor (1 João 4,8 e 16), e se «só o semelhante conhece o semelhante», é decisivo que este amor chegue até nós, para que, sendo feitos por amor semelhantes a Deus, possamos também conhecer Deus. E expõe de novo a rede do amor, desde a sua fonte, que é o Pai, que nos amou e enviou o seu Filho Unigénito para nos dar a vida mediante a oferta propiciatória (hilasmós) da sua vida pelos nossos pecados, que absorve e absolve (1 João 4,9-10).

12. Atenção, porém, que o amor de Deus não é um património restrito e limitado, um exclusivo só acessível a alguns privilegiados, mediante inscrições, quotas pagas, registos, determinadas raças ou grupos. Chega a todos aqueles que o acolhem. Também esses nascem de Deus. O amor é de Deus; não é sequer prerrogativa dos discípulos de Jesus. Se quem ama nasceu de Deus, foi gerado por Deus (gennáô), então o amor não é nosso; é de Deus. Esta imensa afirmação implica que nunca nos julguemos donos do amor, pois não é nossa a patente do amor. Tem outro registo. Apenas nos é dado humildemente reconhecer que «é gerado por Deus» quem já vive no amor.

13. O facto de sermos amados por Deus, não se resolve em devolver a Deus o seu amor primeiro. Resolve-se, antes, entregando-o a outros (1 João 4,11), alargando o círculo do amor. É sempre importante que tomemos consciência de que temos o dever de entregar este amor a outros, e não de nos fecharmos dentro de uma cerca, ainda que de rosas seja a cerca! Escreveu bem, em «As idades da vida espiritual», o conhecido teólogo russo Pavel Evdokimov: «Não permitas, Senhor, que o teu Amor e a tua Palavra sejam na minha vida como um santuário, que uma vedação separa da casa e da estrada». Um tal fechamento seria pecar contra o Amor.

14. O Salmo 103 é uma das joias do Antigo Testamento e constitui um grande canto ao amor de Deus, uma espécie de prelúdio ao «Deus é amor» (1 João 4,8). Desenrola-se em dois movimentos. O primeiro (v. 1-9) trata o amor e o perdão de Deus com sucessivos particípios hínicos, que mostram um Deus que perdoa, cura, redime, coroa de amor e misericórdia, sacia de bem, e uma série de nomes (justiça, dá a conhecer, obras, misericordioso, gratificante). O segundo movimento (v. 10-18) põe lado a lado o amor permanente de Deus e a nossa humana fraqueza. A linha vertical (céu-terra) serve para mostrar a imensidão do amor de Deus (v. 11), escrevendo-se na linha horizontal (oriente-ocidente) a grandeza sem medida do seu perdão (v. 12). O belíssimo v. 13 passa a imagem inultrapassável de Deus como um pai com ventre maternal (rehem). A fragilidade humana aparece traduzida nas imagens do pó (v. 14) e da erva (v. 15-16), em contraponto com a estabilidade do amor de Deus (v. 17). Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas deste grande Salmo 103, que alguns autores já chamaram, com razão, o Te Deum do Antigo Testamento.

António Couto


MISSÃO: MUDANÇA DE LUGAR E DE MODO

Junho 13, 2020

1. Atravessada em seis etapas dominicais (Domingos IV a IX) a paisagem sublime das alturas do Discurso programático da Montanha (Mateus 5,1-7,29), e tendo vivido de perto a cena do chamamento e resposta imediata e festiva de Mateus (Mateus 9,9-13) (Domingo X), ficaremos agora, durante três Domingos (XI-XIII) com o chamado “Discurso Missionário” (Mateus 9,36-11,1).

2. Neste Domingo XI, escutaremos Mateus 9,36-10,8. Tudo começa pelo princípio. E o princípio é sempre a compaixão de Jesus, dita com o verbo splanchnízomai, que implica um movimento visceral, maternal, de Jesus à vista das multidões cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor (Mateus 9,36). É a mesma comoção visceral, maternal, que encontramos em tantas outras circunstâncias: a cena da viúva de Naim (Lucas 7,13), do bom samaritano (Lucas 10,33), do pai da parábola da misericórdia (Lucas 15,20). A expressão «como ovelhas sem pastor» é uma maneira de dizer muito bíblica para expressar a dispersão, o desalento e o desencanto das pessoas (Números 27,17; 1 Reis 22,17; Judite 11,19; Ezequiel 34,5-6). E sempre com a mesma maneira de ver enternecida e comovida, Jesus diz logo para os seus discípulos: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos; pedi, pois, ao Senhor da messe que mande trabalhadores para a sua messe» (Mateus 9,37-38). A messe, grego therismós, qualifica a colheita, não a sementeira. É outra imagem muito bíblica para desenhar, não o tempo da espera e preparação, mas o tempo da realização do Reino de Deus, com a vinda do Messias. Por isso também, é um tempo novo, de alegria e de canções, como refere o Salmo 126,5-6. A imagem da messe, que traz consigo a realização do Reino de Deus, completa a imagem do jejum, referida pouco atrás, em Mateus 9,14-15. Os discípulos de João Batista e os fariseus jejuam para apressar a vinda do Messias. Os discípulos de Jesus não jejuam, porque o Messias já está com eles. Ele é o Reino-de-Deus em Pessoa, a Autobasileía, no dizer certeiro e contundente de Orígenes (185-254). É por isso que o dizer dos Apóstolos soa: «Fez-se próximo o REINO dos CÉUS» (Mateus 10,7b), sendo que «fez-se próximo» está escrito em grego com éggiken, que é o perfeito do verbo eggízô. E já se sabe que o perfeito grego começa e continua, não está de passagem.

3. É neste contexto que Jesus envia em missão os seus Doze Apóstolos, citados pelo nome, e que ficam fortemente vinculados a Jesus: 1) pelo chamamento (10,1a); 2) pela autoridade dada (10,1b); 3) pelo envio (10,5 e 16); 4) pelo anúncio (kêrýssô), que coloca sobre eles a marca da fidelidade (10,7a); 5) pelas palavras que devem dizer: «Fez-se próximo o REINO dos CÉUS» (10,7b), que já foram postas na boca de Jesus (4,17) e de João Batista (3,2); 6) pelas obras que devem realizar (10,1 e 8), que são também realizadas por Jesus (4,23-24; 8,16-17), e servem para identificar Jesus (11,5); 7) indo, antes de mais, à procura das ovelhas perdidas (10,6; cf. 18,12), como Jesus (9,36; 15,24); 8) pela Graça preveniente e concomitante (10,8); 9) pela sobriedade e despojamento, pobreza e simplicidade (10,9-10), que os conforma ao «Filho do Homem», que «não tem onde reclinar a cabeça» (8,20), até à Cruz (João 19,30); 10) pela imensa dignidade impressa em cada ser humano, imagem de Deus: daí o invulgar «sem sandálias (só em Mateus e Lucas 10,4) nem bastão» (10,10); sem sandálias: é assim que se está na presença do Deus santo (Ex 3,5; Js 5,15); sem sandálias e sem bastão: era assim que se entrava no Templo (os sacerdotes oficiavam descalços) e na sinagoga; os enviados de Jesus vão na presença de Deus e veem em cada ser humano a imagem de Deus; 11) pelo sustento (10,10), dado por Deus ao seu Servo e a Jesus, conforme a lição de Isaías 42,1, texto citado por Mateus em 12,18; ver também Elias, que bebe da torrente e é alimentado pelos corvos (1 Reis 17,4-6), e o Rei messiânico que, a caminho, bebe da torrente (Salmo 110,7); 12) sacudir o pó dos pés ao sair de casas e cidades não acolhedoras (10,14) reclama a remoção do pó profano num caminho sagrado; 13) pela rejeição e perseguição que lhes será movida (10,16-19), que é também, desde o princípio, a perseguição movida a Jesus (2,13); 14) pelo acompanhamento permanente e tranquilo do Pai e do seu Espírito, pelo que devemos fazer pausa e bemol, para que seja o Espírito a falar em nós (10,19-20; cf. 17,9); 15) acolher os Doze é acolher Jesus e o Pai (10,40).

4. As anotações acabadas de fazer dizem respeito a todo o discurso missionário, e devem, por isso, ser tidas em consideração também nos próximos dois Domingos. Jesus chama os Doze, dá-lhes autoridade e envia-os. A autoridade não é coisa própria dos Doze. É dada e recebida da fonte, que é Jesus. E destina-se a libertar as pessoas da influência dos espíritos impuros e a curar. Nas pessoas simples da Palestina do tempo de Jesus, estava ancorada a crença nos espíritos bons e maus que governavam o mundo e se instalavam como parasitas nas pessoas. Expulsar os espíritos maus não é nem menos eficaz nem menos credível que as curas psicanalíticas atuais. O envio é para anunciar (kêrýssô) que o Reino dos Céus se fez próximo e que é preciso ir à procura das ovelhas perdidas e encher o mundo de paz e de esperança.

5. A missão não é resguardar-se no seu grupo de pertença, e, desde aí, fazer proselitismo e propaganda (paradigma identitário e totalitário). A missão implica sair de si, mudança de lugar e de modo, não ficar aqui ou ali e não ficar assim. Implica ir à procura do outro perdido em qualquer margem da vida, acolhê-lo e velar por ele (paradigma alteritário).

6. Um ícone ilustrativo deste grande Capítulo X de Mateus: num dia de fevereiro de 1208, talvez no dia 24, Festa de S. Matias, na igreja de Santa Maria degli Angeli (Porziuncola), em Assis, um homem rico e até então dado a não poucos devaneios, ouviu a leitura desta página luminosa. Acendeu-se-lhe o coração. Nesse dia nasceu, ou completou o seu novo nascimento, S. Francisco de Assis.

7. O contraponto musical em pura sintonia vem hoje do grande texto de Êxodo 19,2-6, e lança a semente para tempos de colheita e realização que hão de vir, e que o Evangelho mostra cumpridos. O «dizer» de Deus está guardado no centro da estrutura, como num envelope. Tem a ver com um passado de graça operado por Deus em favor dos Filhos de Israel e por estes experimentado e por um futuro de graça oferecido por Deus e que pode ser também experimentado. «Vós vistes o que Eu fiz ao Egito, como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe até mim» (Êxodo 19,4), eis o passado de graça, com fé e amor recitado – «o relato acredita-se; a história sabe-se» –, «módulo narrativo» elástico e miniatural que carinhosamente guardamos e transportamos connosco como uma joia de família, junto ao coração: é pequeno, trabalho delicado de artística e carinhosa miniatura, que recolhe com ternura o passado e o torna presente, para ser facilmente transportado e calorosamente recitado por cada um de nós; nele nos reconhecermos, dele vivemos, com ele nos identificamos, com ele nos apresentamos. O passado e o futuro de graça rodam, porém, sobre a resposta de adesão a Deus que Israel tem de dar, e não pode deixar de dar, exigida por aquele enfático «E AGORA» (we‘attah) que ocupa o centro da estrutura. Salta à vista que há um «dizer» de Deus a atravessar o texto, a atravessar Israel e a atravessar-nos a nós. Note-se ainda que está aqui a nascer um povo sacerdotal, verdadeiro «sacerdócio comum dos fiéis», assente na escuta e no cumprimento da Palavra, relação nova de nova proximidade e nova familiaridade entre Deus e o seu povo.

8. A Carta aos Romanos 5,6-11 mostra-nos aquele Jesus Cristo que se debruça com amor sobre o nosso desvalor, exatamente como aparece no Evangelho de hoje, maternalmente se compadecendo das pessoas perdidas, cansadas e abatidas.

9. Na tradição judaica, o Salmo 100 constitui uma velha, pequena oração que ressoa no nosso coração como louvor ao Deus bom, cujo amor é eterno. Intitula-se «Um cântico para a tôdah» (mizmôr letôdah), isto é, para a ação de graças ao Senhor. Este pequeno hino articula gritos de alegria, louvor, conhecimento, súplica, bênção. Agostinho comenta assim: «Deixa que a oração se transforme no teu alimento. Rezando, adquires novas energias, e Aquele a quem rezas torna-se mais doce para contigo». No centro do pequeno hino está uma profissão de fé no Senhor: o Senhor é Deus, nosso criador, que estabeleceu a aliança com Israel («nós somos o seu povo»), o amor do Senhor é para sempre, a sua fidelidade para todas as gerações (v. 3 e 5).

 

Barcas ao largo,

Corações ao alto,

Em pura sintonia com a alegria do Evangelho,

Ide!

 

Ide

E entrai em cada coração,

Semeai a paz,

Saboreai o pão que houver,

E que a mão de Deus vos der.

 

Não largueis nunca essa mão de amor.

É ela que vos guia

Rumo à alegria

Da messe e da missão.

 

Acolhe, Senhor, a nossa prece

Por todos os que continuam a levar o teu amor

A toda a humanidade

E a fazer de cada coração

A casa mais bela da cidade.

 

António Couto


SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO

Junho 10, 2020

1. O imenso texto que forma o Capítulo 6 do Evangelho de João, pode dividir-se em seis Partes: a primeira Parte, que funciona como Introdução ou preparação do cenário, engloba os v. 1-4 e apresenta as personagens (Jesus, uma grande multidão, os discípulos), o lugar (na «outra margem do mar da Galileia», na «montanha») e o tempo («estava próxima a Páscoa dos judeus»); a segunda Parte, que se estende pelos v. 5-15, abre com uma pergunta pedagógica de Jesus dirigida a Filipe («Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?»), não corretamente respondida por Filipe e André, mas resolvida por Jesus; a terceira Parte, que compreende os v. 16-21, mostra-nos os discípulos a atravessar, no escuro, o mar encapelado, e Jesus vindo ao seu encontro caminhando sobre o mar; a quarta Parte, entre os v. 22-24, apresenta-nos um novo começo, «no dia seguinte», mostrando-nos a multidão que nota a ausência de Jesus e parte à sua procura para Cafarnaum (mudança de lugar); a quinta Parte, que compreende a longa extensão de texto entre os v. 25-59, traz para a cena a importante discussão, travada entre Jesus e a multidão ou os judeus, sobre o pão vindo do céu; a sexta Parte, que contempla os últimos versículos (v. 60-71), estende a discussão aos discípulos, mostrando a deserção de muitos (v. 60-66), em contraponto com a confissão de fé de Pedro (v. 67-71).

2. A passagem do Evangelho que temos a graça de escutar neste Dia Grande do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo é João 6,51-58. Como se vê, esta passagem integra a longa quinta Parte de João 6, que se estende pelos v. 25-59. Mostramos agora, para efeitos de clareza e melhor compreensão, como se apresenta estruturada esta quinta Parte (João 6,25-59), para nos ocuparmos depois, mais de perto, do texto de hoje (João 6,51-58). João 6,25-59 apresenta-se ritmado pelo esquema «pergunta-resposta». As perguntas saem da boca de uma «multidão» não identificada ou dos «judeus», a que se seguem as respostas de Jesus. Seguindo este ritmo, o texto de João 6,25-59 mostra-se organizado em cinco secções: João 6,25-29 (a), João 6,30-33 (b), João 6,34-40 (c), João 6,41-51 (d) e João 6,52-59 (e).

3. É agora fácil verificar que a passagem do Evangelho de hoje (João 6,51-58) cai, quase por inteiro, na quinta secção (v. 52-59) da quinta Parte. Dizemos quase por inteiro, porque o v. 51, que abre o Evangelho de hoje, faz parte da quarta secção (João 6,41-51), constituindo mesmo o seu encerramento natural. Na verdade, à pergunta dos judeus: «Não é este, Jesus, o filho de José, de quem conhecemos o pai e a mãe? Como é que diz agora: “Eu desci do céu”?» (João 6,42), que abria a quarta secção (João 6,41-51), responde Jesus, afirmando a sua verdadeira identidade: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu (…), pão que é a minha carne, que Eu darei para a vida do mundo» (João 6,51). Na finíssima rede do texto, o v. 51 constitui o fecho natural da quarta secção. Um pequeno reparo: como este v. 51 aparece a abrir o Evangelho de hoje, anote-se então que Jesus não está a responder à «multidão», como nos faz ler a versão oficial do texto que vai ser proclamado, mas aos «judeus», que entram em cena em João 6,41, e formulam a pergunta que se ouve em João 6,42.

4. A afirmação de Jesus em João 6,51 também é importante hoje, pois contém todos os elementos que importa considerar: «Eu sou o pão que desceu do céu», «esse pão é a minha carne», e «dá a vida». De qualquer modo, a abrir a quinta secção, lá está outra pergunta que sai também da boca dos judeus, e que vem na continuidade da resposta acima referida de Jesus. A nova pergunta soa assim: «Como pode este dar-nos a sua carne (sárx) a comer?» (João 6,52).

5. Na sua resposta, que preenche o resto do texto de hoje (João 6,53-58), Jesus fala de vida nova, e, por isso, também de alimento novo, consentâneo com essa vida nova. Esclarecedor, nesse sentido, é que o verbo «comer» apareça conjugado com «carne» (sárx), João 6,52.53.54.56), com «pão» (ártos) (João 6,51.58) e «comigo» (me) [«o que me come»] (João 6,57). Fica claro que «comer o pão descido do céu» é «comer a carne do Filho do Homem», e que as duas expressões são equivalentes de «comer a pessoa» de Jesus, a sua identidade, o seu modo de viver. Só assim, a vida verdadeira, a vida eterna, entra em nós e transforma a nossa vida, configurando-a com a de Jesus. Uma nova possibilidade entra na história humana. Tudo o que fica para trás, toda a história humana passada, pode resumir-se no maná, «que os vossos pais comeram, e morreram» (João 6,49.58a). Sim, o maná aparece em referência apenas com a vida terrena, e não tem nenhuma eficácia para além da morte. Ao contrário, o pão que Jesus é e dá não serve de sustento à vida terrena, e tão-pouco livra da morte terrena: também o próprio Jesus morreu! Mas o pão que Jesus é dá a vida eterna (João 6,58b). Emerge ainda o tema grande da pertença mútua e permanente: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele» (João 6,56). É a melhor e a mais realista tradução da nossa comunhão eucarística. Até o verbo «comer» ganha nesta secção particular sabor e realismo. De facto, habitualmente, para dizer «comer», é usado o verbo grego esthíô. Todavia, em João 6,54.56.57.58, é usado um verbo «comer» muito mais forte, o verbo trôgô [= trincar, mastigar]. De forma significativa, este verbo só é usado nas passagens atrás assinaladas e em João 13,18, no contexto da ceia da Páscoa. Vida nova e eterna, ressuscitada. Comunhão e intimidade entre Deus e a Humanidade. Por isso e para isso, Jesus se fez um de nós, descendo ao nosso mundo, e dando-se completamente a nós, dando-nos a sua vida.

6. «Interroga a velha terra: responder-te-á sempre com o pão e o vinho». Estas palavras de Paul Claudel traduzem bem a nossa Eucaristia. Os sinais do pão e do vinho não mostram apenas o alimento físico, importante e indispensável, mas também estão presentes quando queremos manifestar a nossa comunhão na alegria (dias festivos) e na dor (veja-se a sua partilha em rituais fúnebres). Este segundo aspeto presente nos sinais do pão e do vinho é também um importante alimento da nossa vida. É o que Moisés diz com energia ao povo de Israel reunido na planície de Moab: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus» (Deuteronómio 8,3). Palavra, comunicação, comunhão, intimidade.

7. Aí está também hoje o grande texto de Paulo aos Coríntios 10,16-17, porventura a mais antiga e singela evocação da Eucaristia, que então se chamaria eulogía, isto é, «Bênção». «O cálice da Bênção (tò potêrion tês eulogías) que Bendizemos (eulogoûmen) não é comunhão (koinônía) no sangue de Cristo? O pão que partimos (kláô) não é comunhão no corpo de Cristo?» (1 Coríntios 10,16). O texto é singelo, condensado, fortíssimo. A bênção, hebraico berakah, é unitiva. Une, reúne, põe em comunhão. Se parte de Deus, recai sobre o homem, e volta a Deus, unindo Deus e o homem num círculo inquebrável. Se parte do homem, recai sobre Deus, e volta ao homem, unindo-os num círculo inquebrável. Pode também recair sobre outra pessoa ou outras pessoas, unindo sempre as duas partes num círculo inquebrável. Por aqui se vê bem a energia nova e irreprimível que «bendizer», «dizer bem», comporta. A Eucaristia é, na verdade, esta união ou comunhão entre Deus e o Homem, e de todos os membros da Assembleia cristã e orante entre si. O contrário de «bendizer» é «maldizer», «dizer mal». Bendizer une. Maldizer divide.

8. «Como é bom, como é belo, viverem unidos os irmãos» (Salmo 133,1). Saboreemos esta Alegria, o Pão e o Vinho da Alegria, nesta celebração da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, bem unidos e reunidos à volta do único Senhor da nossa vida, Jesus Cristo. Tradicionalmente, neste Dia, o Senhor da nossa vida presidirá e abençoará com a sua Presença, caminhando connosco, no meio de nós, em solene procissão, os caminhos das nossas aldeias e cidades. Quer isto dizer que o pálio (pallium) de Deus atravessará as nossas aldeias e cidades. O pálio de Deus é o manto (pallium) de Deus, os braços carinhosos com que nos abraça e nos envolve, e nos pede para fazermos outro tanto, enchendo de graça e de esperança todos os nossos irmãos. Verdadeiramente, num mundo em crise como este em que vamos, parece que voltamos a viver, como dizia S. Paulo aos Efésios, «sem esperança e sem Deus no mundo» (Efésios 2,12). Entenda-se: sem esperança, porque sem Deus no mundo, connosco, no meio de nós.

9. Jesus Cristo é Deus presente no nosso mundo todos os dias. E o pálio é o manto, o abraço, com que nos acarinha e envolve. De pálio (pallium) vêm os cuidados paliativos, que não são apenas os cuidados médicos que são prestados aos nossos doentes terminais; são sobretudo a expressão de um amor maior, de um manto maior e mais quente, que nos envolve e nos salva em todas as situações (Gianluigi Peruggia, L’abbraccio del mantello, Saronno, Monti, 2004).

 

Dá-nos, Senhor, um coração novo,

Capaz de conjugar em cada dia

Os verbos fundamentais da Eucaristia:

RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,

PARTILHAR e DAR,

COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

 

Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno,

Capaz de escutar

E de recomeçar.

 

Mantém-nos reunidos, Senhor,

À volta do pão e da palavra.

E ajuda-nos a discernir

Os rumos a seguir

Nos caminhos sinuosos deste tempo,

Por Ti semeado e por Ti redimido.

 

Ensina-nos, Senhor,

A saber colher

O Teu amor

Semeado e redentor,

Única fonte de sentido

Que temos para oferecer

A este mundo

De que és o único Salvador.

 

António Couto


SANTÍSSIMA TRINDADE

Junho 6, 2020

1. Deus faz-se ver nos interstícios do nosso humilde chão quotidiano. Foi quanto Nicodemos pôde depreender ao ver os sinais (sêmeîa) que Jesus fazia (cf. João 3,2b-3). Todavia, daqui para a frente, não há passo racional, nosso, que possamos dar. Não resta a Nicodemos outra via (não Tomista) que não seja ir ao encontro de Jesus (cf. João 3,2a), não na sua condição de «o mestre de Israel (ho didáscalos toû Israêl)» (João 3,10), mas do discípulo que sabe depor as suas armas de Mestre aos pés de Jesus, «o Mestre que veio de Deus» (apò theoû elêlythas didáskalos) (João 3,2b), o Mestre que não estudou em nenhuma das nossas escolas (João 7,15). As pequenas mãos de Nicodemos, e as nossas também, não dispõem de nenhum argumento ou instrumento de acesso que nos permita ir além da gélida impassibilidade das leis da natureza. Ora, naquele Jesus que Nicodemos via, havia claros sinais de que «Deus estava com Ele» (ho theòs met’ autoû) (João 3,2b). Em Jesus, era então visível um acesso à vida divina. E foi isso que Levou Nicodemos a sair tremulamente do seu quotidiano de «o mestre de Israel», para ir ao encontro de Jesus, o Mestre que veio de Deus e que não estudou nas nossas escolas.

2. Saiu dali e foi. E dali para a frente é todo o dizer do Evangelho deste dia (João 3,16-18). É Jesus que se diz a Nicodemos. Não é a história ou a narrativa de um dizer anódino. É o Mestre que vem de Deus, para dizer Deus a Nicodemos, a mim e a ti. Jesus não diz coisas; diz Deus. Não ensina conteúdos para aprender; dá-nos Deus que nos ama, e que, por amor, nos entrega o seu Filho, Jesus. Portanto, Nicodemos fica sem jeito: não lhe compete apenas aprender o que Jesus lhe pode ensinar; compete-lhe receber Jesus que Deus lhe entrega por amor. E compete-lhe ainda saber que esta enchente de amor, que vem de Deus, é para todos, e não apenas para ele, pelo que, responder a esta enxurrada de amor, passará sempre por amar também, no quotidiano, os seus irmãos.

3. Sim, é tal a grandeza do amor de Deus por nós, que, por amor de nós, entrega até o seu Filho, para assumir e absorver os nossos erros, saldar as nossas dívidas, suportar os nossos maus tratos e a nossa violência, poder ter mesmo que entregar a sua vida nas nossas mãos assassinas, sem deixar de nos amar, para nos salvar.

4. A afirmação de Jesus é absolutamente assombrosa, impensável, desarmante: «Deus amou de tal modo o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito» (João 3,16), o Filho do seu amor. Para que não nos passe ao lado a força do que acabámos de ouvir, talvez possamos perguntar: Quem é o pai ou a mãe aqui presente que está disposto a entregar o seu filho ou filha a um grupo de malvados para, com esse gesto de extrema ousadia, tentar retirar do mal aqueles malvados? Penso que não haverá aqui ninguém que se atreva a fazer uma coisa destas. O que nós não somos capazes de fazer, fê-lo Deus por nós, que não somos grande coisa! Entregou-nos o seu Filho querido, e nós cravámo-lo naquela Cruz!

5. O texto do Antigo Testamento que faz equilíbrio com o Evangelho de hoje é a chamada magna charta do amor de Deus, que hoje podemos ler no Livro do Êxodo 34,4-9. A primeira frase [«E passou (ʽabar) o Senhor diante dele (Moisés), e proclamou/invocou (qaraʼ): “Senhor, Senhor”»], é de ligação, mas reveste-se de grande importância. A ação de «passar», por parte de Deus, significa, por um lado, a sua presença livre, boa e bela, e, por outro lado, que nós não podemos pôr sobre Ele a nossa mão, controlá-lo, nossa permanente tentação. «E passou o Senhor» (Êxodo 34,6) cumpre a promessa boa de Deus a Moisés, feita em Êxodo 33,19, de fazer passar diante de Moisés toda a sua bondade e beleza (kol-thûbî). E que esta «passagem» é boa e bela vê-se em contraponto com as visões do Livro de Amós, em que Deus declara: «Veio o fim (qets) para o meu povo, Israel; não continuarei a passar para ele (loʼʽabar lô)» (Amós 8,2; cf. 7,8). E o facto de o Senhor aparecer a proclamar/invocar (qaraʼ) o seu próprio Nome é coisa única, única vez em toda a Escritura em que o Senhor é sujeito do verbo qaraʼ, na expressão qaraʼ beshem, «proclamar/invocar o Nome». Por norma, a locução qaraʼ beshem YHWH encontra-se nos lábios dos adoradores e suplicantes, e significa aí «invocar o Nome de YHWH». Posta na boca do próprio Deus, a locução há de significar, em primeiro lugar, proclamar, mas sem anular a beleza e a surpresa de o próprio Deus invocar também o seu Nome, a sua plenitude de Amor, de que todos recebemos graça sobre graça (cf. João 1,16). A exegese costuma, neste lugar, acentuar o «proclamar», deixando de lado o «invocar», querendo quase explicar que Deus não pode invocar o seu próprio nome, isto é, rezar. Mas só este duplo dizer de Deus, revelatório e orante, constitui a verdadeira revelação de Deus, e assenta as bases para que o crente possa invocar proclamando, ou proclamar invocando, anunciando, rezando, com doçura e estremecimento, este Nome, esta Presença Amante e Fiel. Tão extraordinária maneira de dizer deixa-nos, pois, não no domínio da metafísica, mas da revelação, da anunciação, da oração, da adoração, ato fundador e modelar da nossa oração.

6. Não será, neste contexto, de estranhar que, nesta exposição de Deus, Deus exposto diante de Moisés com toda a sua bondade e beleza, como acontece em Êxodo 34,6-7, e que não pode deixar de lembrar Jesus Cristo exposto (proétheto) na Cruz (Romanos 3,25), «exposto por escrito (proegráphê) diante dos nossos olhos» (Gálatas 3,1), Moisés se tenha «apressado a responder ajoelhando-se (qadad) no chão e prostrando-se em adoração (hishtahawah, forma hitpael de shahah), e dizendo: “Por favor, se encontrei graça aos teus olhos (՚im-na՚ matsa՚tî hen beՙênêka), Senhor, vem, por favor, Senhor, para o meio de nós, que somos um povo de dura cerviz, e perdoa (salah) a nossa culpa e o nosso pecado”» (Êxodo 34,8-9).

7. Entre esta necessária aproximação teofânica centrada no essencial, e o essencial é sempre pessoal, que é a passagem boa e bela de Deus (Êxodo 34,6a), exposição de Deus, e a oração e adoração humana por ela provocada (Êxodo 34,8-9), sem os fenómenos exteriores habituais, como relâmpagos, trovões, tremores de terra, fogo devorador (cf. Êxodo 19,16 e 18), aí está, dentro do caixilho, o quadro central, que abre com a repetição do Nome «Senhor, Senhor», única em toda a Escritura, duplicação certamente com valor enfático, mas também litúrgico, orante, adorante. Deus diz-se a Si mesmo como nos diz a nós: «Moisés, Moisés» (Êxodo 3,4), com Amor imenso e intenso, orante, comovido, exposto! Convenhamos que, neste tremendo dizer, não conta apenas o facto de Deus se dizer a Si mesmo. Conta também, e talvez sobretudo, o modo como Deus se diz a Si mesmo.

8. O Apóstolo traz-nos hoje, no final da sua correspondência com a comunidade de Corinto (2 Coríntios 13,11-13), a fórmula com que abrimos a nossa Eucaristia: «A graça do Senhor Jesus Cristo e o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós». É, de facto, em clave trinitária que vivemos e rezamos.

9. Depois deste necessário contacto com os textos bíblicos que a liturgia deste dia nos oferece, acrescentamos aqui este espaço de reflexão. De facto, nesta «era do vazio» que nos atravessa, a Trindade pode parecer insignificante, e ficar remetida apenas para velhos compêndios de uma espécie de geometria religiosa. Impõe-se, portanto, uma reflexão forte e renovada, em que a Trindade surja como fonte de vivificação para a nossa experiência cristã quotidiana.

10. Na Triadologia do Novo Testamento, preparada pelo Antigo Testamento, Deus, enquanto dádiva suprema fundante, é o Pai. Mas a dádiva suprema do Pai, infinita riqueza, constitui o Filho, infinita pobreza, que tudo recebe. Mas, ao receber tudo, infinita receção, o Filho volta a dar tudo numa infinita doação sem defesa e sem limites. E esta comunhão-comunicação-vida-amor de si-a-si, circular, vertiginosa, tranquila e imperecível, constitui o Espírito Santo, a Pessoa-Dom incriado (segundo a bela expressão de João Paulo II), o Dom que vem de si mesmo a si mesmo, Dom de si a si, o Dom absolutamente um com ele mesmo, o Dom idêntico ao Ser.

11. Esta feliz definição, se bem compreendida e explorada, pode trazer importantes consequências práticas. A nossa experiência ensina-nos como nós somos sensíveis ao Dom, como o nosso coração se abre diante do Dom. O Dom tem uma força própria. Não é uma força exterior que se imponha desde fora. É uma força interior, persuasiva, suave e calorosa, que move o coração desde dentro, quebrando toda a dureza e resistência. O Dom é uma terceira realidade entre mim e o meu amigo. O meu amigo quer dar-se a mim por amor. Mas não pode deixar de ser ele, para passar a ser eu. Eu quero dar-me ao meu amigo por amor, mas não posso deixar de ser eu, para passar a ser ele. Aliás, se esta fusão pudesse acontecer, punha termo ao amor existente entre mim e o meu amigo. O Dom provém da alteridade e garante a alteridade. Provém da intencionalidade da união entre mim e o meu amigo, mas garante também a nossa alteridade. O Dom é o meu amigo dando-se a si mesmo a mim por amor e sou eu recebendo o meu amigo por amor, princípio e termo da doação. Em Deus, o Pai dá-se ao Filho por amor – princípio da doação –, mas não perde a sua dimensão paternal, tornando-se Filho; do mesmo modo que o Filho, acolhendo o dom da paternidade por amor – termo da doação –, não anula a sua determinação filial, tornando-se Pai. Uma ação requer sempre a outra para se completar, estando as duas pessoas reciprocamente implicadas. Entre mim e o meu amigo, o Dom é um objeto, mas quanto mais intensamente é Dom, isto é, quanto mais significa a nossa doação íntima e pessoal, menos é um objeto materialmente determinado. Por isso eu gasto tanto tempo até encontrar o Presente que quero oferecer ao meu amigo, um objeto que signifique a nossa intimidade. Em Deus, entre o Pai e o Filho, o Dom é o Espírito, Pessoa divina subsistente, distinto do Pai e do Filho, dos quais procede, mas distinto também do ato da doação, de que é o efeito e a significação. Se ele fosse o ato da doação, não constituiria uma pessoa subsistente, pois não existiria como tal; seria a soma de duas pessoas, não uma terceira.

12. O Espírito, Pessoa-Dom incriado, é o protagonista da missão e de toda a vida eclesial. É, porém, um protagonista silencioso como o Dom é silencioso. Silencioso, mas eficaz. A sua ação calorosa processa-se, não com palavras sensíveis que afetam os órgãos da audição ( Romanos 8,26), mas na interioridade da inteligência da fé num «gemido sem palavras» (stenagmòs alálêtos) (Romanos 8,26), que acende no nosso coração o vivo desejo de comunicar com Deus. A ação calorosa do Espírito-Dom não se limita a certos países, línguas, povos, etnias, religiões, e nem sequer tem um alcance limitado como é limitado o alcance daquele que usa as cordas vocais (ou mesmo os meios de comunicação social) para se fazer ouvir. Ele está para além de todas essas barreiras, pois atua diretamente na inteligência e no coração de cada ser humano. E em termos de inteligência e de coração, em termos de humanidade e intimidade, são iguais o chinês, o português e o inglês, o católico, o hinduísta e o muçulmano…

13. A grande teologia bíblica está atravessada por este Mistério (mystêrion) do Amor de Deus, que é Deus vindo ao mesmo tempo de si mesmo e a si mesmo, Mistério escondido eternamente em Deus (Romanos 16,25; Efésios 3,9; Colossenses 1,26), mas já presente e atuante na história dos homens desde a Criação (João 1,3; Colossenses 1,16), e agora dado a conhecer (gnôrízô) em Cristo (Romanos 16,25-26; Efésios 1,9; 3,3.10; Colossenses 1,27), tornando-se, portanto, Mistério conhecido (!), Revelação divina gratuita, doação do Dom e dicção do Dito, totalmente entregue aos homens, para dela viverem totalmente. Este «para nós» do Mistério do Amor de Deus é o Propósito (próthesis) eterno divino (Romanos 8,28; Efésios 1,11), a Vontade (thélêma) eterna divina (Gálatas 1,4; Efésios 1,5.9.11) – em Deus, pensamento, expressão, comunicação, efeito, Alfa e Omega, são simultâneos e coeternos – de elevar a nossa humanidade a viver por graça ao nível da sua divindade (2 Pedro 1,4; 1 João 3,2). Se, na grande teologia bíblica, o homem confessa que Deus se revela, confessa então que Deus é o ato de se revelar. E, então, o Mistério de Deus é a sua revelação, e a sua revelação é o seu Mistério. Nesse sentido, Deus vem a si mesmo como vem ao mundo. E quando Deus se comunica e se manifesta ao mundo, trata-se verdadeiramente de uma comunicação de si-a-si e de uma manifestação de si-a-si. Donde: comunicação-manifestação de Deus ao mundo = comunicação-manifestação de Deus a si mesmo.

14. No centro deste Mistério do Amor de Deus em ação na história dos homens está a Missão do Filho de Deus com o Espírito Santo, que é o Mistério de Cristo (Efésios 3,4), que é Cristo em nós (Colossenses 1,27) e nós em Cristo (Romanos 8,28-30). Assumindo a nossa condição humana por puro Dom de Amor total, concebido e nascido na sua / nossa humanidade por Amor, com o nome «Jesus», não da carne e do sangue, mas do Espírito Santo (Mateus 1,18; Lucas 1,34-35; cf. João 3,6), tendo recebido na sua / nossa humanidade a plenitude do Espírito Santo no Batismo do Jordão (Lucas 4,1; cf. João 1,32-33), e tendo-o recebido de novo, na sua / nossa humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada (Atos 2,32-33; 1 Coríntios 15,45.49) na Morte / Ressurreição que é o Batismo consumado (Lucas 12,49-50), Ele pode agora, enquanto Homem verdadeiro divinizado, tornado na sua / nossa Humanidade «Espírito vivificante» (pneûma zôopoioûn) (1 Coríntios 15,45), dar o Espírito Santo aos outros homens seus irmãos, vivos e mortos (João 19,30 e 34; 20,22; cf. 7,37-39; Atos 2,32-33; 1 Coríntios 15,49).

15. No decurso da sua vida terrena ainda não podia dar o Espírito, embora o possuísse em plenitude. Anota cuidadosamente o Evangelista que «não havia ainda Espírito, porque Jesus ainda não fora glorificado» (João 7,39). Na verdade, na Economia divina, «Economia da carne», como dizem os Padres, porque a carne decaiu, a carne devia levantar-se, e onde a carne tinha sido vencida, a carne devia vencer (Santo Ireneu de Lião). Foi por isso necessário que o Verbo Deus assumisse a condição do Adão antigo «numa carne semelhante à do pecado» (Romanos 8,3), «feito pecado por causa de nós» (2 Coríntios 5,21), «tornado maldição por causa de nós» (Gálatas 3,13), sujeito, enfim, à morte. Sem esta, não se verificava a assunção completa da nossa condição (Hebreus 2,9.14a.17). Assumiu, portanto, as consequências do nosso pecado, sem se tornar, no entanto, cúmplice do pecado (Hebreus 4,15; 1 Pedro 2,22). Impunha-se que fosse sem pecado, para poder enfrentar a morte, não como quem lhe é naturalmente devedor, mas num ato de pura generosidade. Não bastava ser sem pecado. Ao ser sem pecado era necessário juntar uma atitude de puro amor subversivo (Hebreus 2,10.14b.18). No decurso da sua vida terrena, nem a sua união com Deus, nem a sua união com os homens, tinham atingido a sua perfeição: enquanto homem terreno, Jesus não estava perfeitamente unido a Deus na glória: era necessária uma transformação radical da sua humanidade; mas tão-pouco a sua solidariedade com os homens estava completa. É só após ter efetuado esta assimilação total, que a «carne do Verbo Deus» opera agora aquela que é a máxima operação divina: dar o Espírito Santo, vivificar-nos com o contacto do seu corpo pneumatóforo. De facto, é só no fim da sua vida terrena, no extremo da sua incarnação levada até ao extremo – que comporta a sua morte e a sua ressurreição, a glorificação da sua humanidade –, que podemos proclamar a identidade (de ideîn) de Jesus como Filho Deus, obra do Espírito em nós (1 Coríntios 12,3). Por isso, só quando Jesus desaparecer na Glória, o Espírito pode vir para nós. Todas as palavras relativas ao Paráclito, o atestam à sua maneira. Todas falam do envio do Espírito Santo Paráclito no futuro (João 14,16; 14,26; 15,26; 16,7; 16,13-15). O contexto da quarta referência é particularmente elucidativo: «é do vosso interesse que eu vá, porque, se eu não for, o Paráclito não virá para vós; mas se eu for, eu enviá-lo-ei para vós» (João 16,7). A razão não está em que Jesus, que está corporalmente presente, deva desaparecer para que a sua «espiritualidade» possa ser tornada presente, mas em que uma exegese do Verbo feito carne, na sua totalidade, «na verdade toda» (en tê alêtheía pásê) (Jo 16,13), não pode realizar-se senão a partir do momento em que Ele é proferido até ao fim, o que comporta a sua morte e ressurreição.

16. O Espírito Santo é assim a Dádiva de Deus (hê dôreà toû theoû) (Atos 2,38; 8,20; 10,45; 11,17; Hebreus 6,4; cf. Lucas 11,9.13) que vem a nós sempre da única Fonte inexaurível que é a Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor. É só aí e daí, mediante adesão sacramental ao seu Corpo pneumatóforo – «quem adere (kolláô) ao Senhor torna-se com Ele único Espírito» (1 Coríntios 6,17) –, que recebemos a nossa verdadeira identidade, a filiação divina (hyiothesía) (Romanos 8,15-16; Gálatas 4,5; Efésios 1,5), e ousamos rezar «Abba, Pai!» (Gálatas 4,4-6; Romanos 8,15.26-27) e proclamar «Senhor é Jesus!» (1 Coríntios 12,3; Filipenses 2,11). É verdade que «o Espírito sopra onde quer» (João 3,8), em qualquer povo, debaixo de qualquer céu, avivando as brasas do desejo inscrito na nossa carne humana, mas vem a nós somente através da Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor Jesus, e é para lá que remete e reconduz sempre, desvendando e saciando o nosso desejo do Filho. O Espírito Santo não Se revela – «não falará de si mesmo» (João 16,13) –, mas revela sempre na Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor Jesus, o Filho de Deus. E só o Filho de Deus, concebido e nascido na sua / nossa Humanidade – Jesus –, Crucificado, Ressuscitado e Glorificado na sua / nossa Humanidade, dador do Espírito Santo e por Ele revelado, pode revelar o Pai. Tudo vem do Pai, mediante o Filho, no Espírito; tudo volta ao Pai, mediante o Filho, no Espírito.

17. O Espírito Santo Deus, Dádiva total do Pai e do Filho, Divina Comunhão (2 Coríntios 13,13; Filipenses 2,1), e que brota para nós da única Fonte sacramental da Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor, está operante na nossa humanidade e na nossa história. Vindo (João 15,26; 16,7.8.13), Ensinando (João 14,26; 1 João 2,20.27) e Recordando (João 14,26), Conduzindo (João 16,13), Recebendo (João 16,14.15) e Anunciando (João 16,13.14.15), Testemunhando (João 15,26), Dando (1 Coríntios 12,7 e 8) e Edificando (1 Coríntios 14,3.4.5.12.26), Vivificando (João 6,63; Romanos 8,10; 2 Coríntios 3,6), Ele (ekeînos) é o verdadeiro protagonista da mesma Missão Filial Batismal do Senhor que a Igreja Fiel Batizada e Confirmada deve prosseguir, para dela viver e para dela fazer viver, como ficou documentado de forma paradigmática na vida das comunidades cristãs nascentes, tal como atestam as Cartas de S. Paulo e o inteiro Livro dos Atos dos Apóstolos.

18. Vindo, Recebendo, Ensinando, Recordando, Conduzindo, Testemunhando, Dando, Edificando. O Espírito Paráclito recebe (lambánô) do que é de Jesus (João 16,14 e 15), do mesmo modo que Jesus recebeu do Pai (João 10,18; Apocalipse 2,28), que lhe deu tudo o que tem e é. Do mesmo modo, o ensinamento (didachê) do Espírito Paráclito é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência da fé, avivando as brasas do desejo da Palavra primeira e criadora no coração de cada homem, debaixo de qualquer céu. Este ensinamento interior do Espírito é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos sabeis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). Cumpre-se assim a profecia de Jeremias 31,31-34 (38,31-34 LXX) que refere que «todos me conhecerão (eidêsousin)» com uma ciência que não resulta da instrução, mas que é incutida por Deus no coração. Do mesmo modo, a ação de recordar (hypomimnêskô) (João 14,26) não tem nada de comum com a memória banal de um acontecimento ordinário, mas implica uma compreensão nova dos factos e palavras de Jesus e de todo o Antigo Testamento. Jesus tinha dito que reconstruiria o Templo? Na verdade, ele falava do seu próprio corpo (João 2,22). Jesus tinha entrado em Jerusalém montado num jumento? Na verdade, realizava a profecia de Zacarias 9,9 (João 12,16). Nos dois casos, é dito que os discípulos «se recordaram» (mimnêskomai). O Espírito dá-lhes a inteligência da vida e da paixão de Jesus e de todo o Antigo Testamento. Nesta ação de recordar, o passado é reclamado, não para suscitar em nós o orgulho pela obra feita, mas para salientar o excesso do dom, deixando-nos em estado de recitação que provoca em nós a decisão de nos empenharmos no presente para respondermos agora ao dom que sempre nos precede. É assim que o Espírito atua na memória viva da Igreja: provocando a recitação da criação e avivando o desejo da filiação.

19. «Ó abismo de riqueza e sabedoria e conhecimento de Deus! Como são insondáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! […] Porque d’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele a glória pelos séculos, ámen!» (Romanos 11,33 e 36).

 

O Filho e o Espírito Santo são,

No dizer de Santo Ireneu de Lião,

As duas mãos do Pai,

Enviadas em missão

Para junto dos seus filhos de adoção.

 

À semelhança, claro,

Daquelas mãos de amor,

Que, no alvor da Criação,

Modelaram da terra pura o nosso coração,

E de misericórdia o vestiram.

 

Filhos no Filho, divina hyiothesía,

Hemorragia de graça e de alegria:

Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,

E dá-nos em herança a sua divina filiação.

 

E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,

Divina comunhão, sem confusão,

Toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,

E faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,

A mais bela lalação que há, o nome novo Ab-ba!

 

António Couto


O ESPÍRITO SANTO E(M) NÓS

Maio 30, 2020

1. O Evangelho da Solenidade deste Dia Grande de Pentecostes (João 20,19-23) mostra-nos os discípulos de Jesus fechados num certo lugar, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter ou impedir, nem as portas fechadas daquele lugar fechado, Vem e fica de pé no MEIO deles, o lugar da Presidência, e por duas vezes os saúda: «A paz convosco!». Mostra-lhes, não o rosto, mas as mãos e o lado, bilhete de identidade de Jesus, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, Vida dada por amor, para sempre e para todos, e vincula os seus discípulos à sua missão de dar a vida por amor: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô: tempo presente)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): a sua missão começou e continua. Não terminou nem termina. Ele continua em missão. A nossa missão está no presente. O presente da nossa missão aparece, portanto, vinculado e agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). «Como o Pai me enviou, também Eu vos mando ir». Este como define o estilo da nossa missão de acordo com o estilo e a missão de Jesus. É-nos dito ainda que os discípulos ficaram cheios de alegria (o medo foi dissipado) ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo (João 20,8), também eles veem com um olhar histórico e a renovar todos os dias (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão, Jubileu Divino do Espírito. Este sopro, este vento, este alento, só aparece neste lugar em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

2. O texto luminoso do Livro dos Atos dos Apóstolos 2,1-11, que enche o dia de hoje, merece ser estendido diante de nós e por nós bem entendido. Ei-lo:

«Ao ser completado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. E veio de improviso, do céu, um ruído como de uma ventania impetuosa, que encheu toda a CASA onde estavam sentados. Fizeram-se ver a eles línguas como de fogo, que se dividiram, e sentou-se uma sobre cada um deles. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, como o Espírito dava a eles de se exprimir.

Estavam então em JERUSALÉM judeus residentes, homens piedosos, vindos de todas as nações que há debaixo do céu. Tendo vindo, então, este som, convergiu a multidão e ficou perplexa, porque ouviam, cada um na própria língua, aqueles que falavam. Estavam fora de si e maravilhavam-se, dizendo: “Não são galileus todos estes que estão a falar? E como é, então, que nós ouvimos, cada um na nossa própria língua em que nascemos? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia vizinhas de Cirene, romanos residentes, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los falar nas nossas línguas as maravilhas de Deus!”».

3. É fácil de ver que o texto se articula em duas vagas sucessivas: a primeira agrupa os v. 1-4, e a segunda os v. 5-11. Um único lugar no tempo, um único dia, o 50.º da Páscoa, marca as duas vagas, mas são dois os lugares no espaço que ocupam: a CASA, a sala alta do Cenáculo (v. 1-4), e a CIDADE aberta ao mundo (v. 5-12), que empresta à cena uma ressonância mundial. As duas vagas estão marcadas, logo a abrir (v. 2 e 6), pelo verbo grego gínomai, que é o verbo típico de um acontecimento que não podemos deduzir nem produzir, mas apenas constatar e descrever. Exatamente o contrário de uma doutrina, que se situa na esfera da demonstração e dedução. Qual é o acontecimento? O vento forte e o fogo que, vindos do céu, caem de improviso sobre todos os que estão sentados na casa, irrompendo depois para as praças e ruas da cidade.

4. Lá estamos nós, como se vê e era hábito, todos reunidos no Cenáculo. Mas somos logo varridos e recriados pelo vento impetuoso e incontrolável do Espírito, que varre as teias de aranha que ainda nos tolhem, e pelo seu fogo que nos purifica. O Espírito senta-se (kathízô) – bela e significativa expressão! – sobre nós, novo Mestre que orienta e guia a nossa vida. Senta-se sobre nós, mas entra para dentro, e guia a nossa vida desde dentro. Verificação: eis-nos a falar outras línguas, dádiva do Espírito! Milagre: cessam incompreensões, divisões, invejas, ciúmes, ódios e indiferenças, e nasce um mundo novo de comunhão e comunicação plenas, pois todos nos entendemos tão bem como se se tratasse da nossa língua materna, que não é o português ou o francês ou o inglês ou o chinês, mas aquele perfeito entendimento que existe entre nós e a nossa mãe, quando somos bebés, do tempo da palavra antes das palavras, divina e humana lalação, que passa por sons e intuições, que não precisam de gramática nem sintaxe nem dicionário. Chame-se-lhe confiança, intimidade, ternura, amor. Impõe-se, nesta bela comunidade, uma atitude de vigilância permanente, pois será sempre grande a tentação de querer levar o Espírito à letra! E aí está a advertência vinda dos Coríntios, cujo falar em línguas ninguém entende (1 Coríntios 14,2), sendo preciso o recurso a intérpretes (1 Coríntios 14,28). Todos consideraríamos um absurdo a existência de um intérprete entre a mãe e o seu bebé para traduzir aquela lalação que os dois tão bem entendem!

5. É esta divina lalação (alálêtos) (Romanos 8,26) – única vez no Novo Testamento –, do Espírito que nos ensina a compreender que «Jesus é Senhor» (1 Coríntios 12,3) e que Deus é Pai (ʼAbbaʼ) (Gálatas 4,6; Romanos 8,15). Anote-se também a importante afirmação de que «a cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum» (1 Coríntios 12,7) e «não para proveito próprio» (1 Coríntios 10,33), sendo que o que define o proveito comum é a edificação, não de si mesmo, mas dos outros (1 Coríntios 10,23-24).

6. A tradição situa no Cenáculo as duas cenas acima descritas. É a sala da Ceia Primeira (Lucas 22,12), do último serão de Jesus com os seus discípulos, da Aparição do Senhor aos seus Apóstolos (Lucas 24,36), da eleição de Matias (Atos 1,26), da descida do Espírito Santo no Pentecostes, enfim, o primeiro lugar de encontro da primeira comunidade cristã reunida em oração com Maria (Atos 1,13-14), a primeira sede da Igreja nascente, a mãe de todas as Igrejas, a primeira domus-ecclesia [«casa-igreja»] do mundo, situada uns duzentos metros a sul da muralha de Jerusalém, em local muito próximo da Porta de Sião. O atual edifício remonta ao trabalho dos Padres Franciscanos no século XIV, e sucedeu a outras construções sucessivamente edificadas e destruídas, desde a basílica de Santa Sião [Hagía Sion], do século IV. Sintomaticamente, por se encontrar no quarteirão sul de Jerusalém, o primitivo Cenáculo resistiu à destruição romana da guerra de 70, pois os romanos atacaram e destruíram a cidade a partir da parte norte, mais facilmente expugnável.

7. Associada às cenas acima identificadas, a sala superior do Cenáculo [15,30 metros por 9,40 metros] assemelha-se ao Sinai com os fenómenos então lá registados. Veja-se, a propósito, a bela descrição que deles faz Fílon de Alexandria (± 20 a.C.-50 d.C.): «Deus não tinha boca ou língua, mas, com um prodígio, fez que um rombo se produzisse no ar, que um sopro se articulasse em palavras pondo o ar em movimento. Este transformou-se em fogo que tinha forma de chamas […], e uma voz ressoava do meio no fogo e descia do céu, e esta voz articulava-se no idioma próprio dos ouvintes». Mas também Babel é evocada em contraponto: em Génesis 11,7, «ninguém compreendia mais a língua do seu próximo», mas em Atos 2,6, «cada um compreendia na sua própria língua materna».

8. O Espírito Santo é também enviado em missão. E é Aquele que recebe o que é do Filho (João 16,14 e 15), e que o Filho recebeu do Pai. O Filho é a transparência do Pai. O Espírito Santo é a transparência do Filho. O ensinamento do Espírito Santo é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência e do coração de cada ser humano. Este ensinamento interior do Espírito Santo é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos sabeis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). É a unção que lentamente penetra em nós, ocupa o nosso interior, suaviza as nossas asperezas, cura as nossas dores e faz nascer entre nós comunidade e comunhão. Maravilhoso saber que nos assemelha a Deus, que sabe de nós (Êxodo 2,25), e nos põe em confronto com Caim, que não sabe do seu irmão (Génesis 4,9), e com Pedro, que não sabe de Jesus (Mateus 26,70.72.74).

9. Ensinamento novo. Não exterior, com sons e palavras, mas diretamente nas pregas da inteligência e do coração. É assim que a linguagem nova do Espírito afeta ao mesmo tempo o português e o chinês, o inglês e o russo, o católico, o muçulmano e o hebreu. É como quando, em vez de se porem a falar cada um a sua língua incompreensível para o outro, o português e o chinês entregassem uma flor um ao outro! É assim que fala o Espírito, é assim que age o Espírito, Pessoa-Dom, fonte de dons (1 Coríntios 12,3-13).

10. O Salmo 104 põe-nos a contemplar hoje as obras maravilhosas de Deus, cheias do seu alento, que são a alegria de Deus (Salmo 104,31), e a alegria de Deus é a nossa alegria (Salmo 104,34). De notar que a temática de Deus que se alegra é muito rara na Escritura. Aparece hoje no meio deste mundo novo e maravilhoso. Tema, portanto, para recuperar, pois é também a fonte da nossa alegria!

11. Nós somos do tempo da missão do Espírito. Note-se a fortíssima vinculação: «O Espírito Santo e nós» (Atos 15,28).

12. Deus habitando em nós (João 14,24). Deus connosco (Apocalipse 21). Cidade nova, Consolação nova, Bênção nova, Paz nova, não com a medida do mundo, mas de Deus (João 14,27; Salmo 67).

 

O medo não habita a nossa casa.

O medo transforma a nossa casa em fortaleza,

Tranca portas e janelas,

Esconde-se debaixo da mesa.

 

Mas vem Jesus e senta-nos à mesa.

Começa a contar histórias e estrelas,

Leva-nos até ao colo de Abraão,

Até à Criação,

Sopra sobre nós um vento novo,

Rasga uma estrada direitinha ao coração:

Chama-se Perdão, Espírito, Amor, Nova Criação.

 

Varrido para o canto da casa pelo vento,

Rapidamente todo o medo arde.

Ardem também bolsas, portas e paredes,

E surge um lume novo a arder dentro de nós,

Mas esse não nos queima nem o podemos apagar.

 

Estamos lá tantos à roda desse vento, desse fogo,

Com esse vento, com esse fogo dentro,

Portugueses, russos, gregos e chineses,

Começamos a falar e tão bem nos entendemos,

Que custa a crer que tenhamos passaportes diferentes.

 

E afinal não temos.

Vendo melhor, maternais mãos invisíveis nos embalam,

Nos sustentam.

Sentimos que estamos a nascer de novo,

Percebemos que somos irmãos,

Filhos renascidos deste vento, deste lume.

E não é verdade que falamos,

Mas que alguém dentro de nós fala por nós,

Chama por Deus,

Como um menino pelo Pai.

 

António Couto


UM OLHAR CHEIO DE JESUS FAZ VER JESUS, FAZ VIR JESUS

Maio 23, 2020

1. Mateus 28,16-20: última página do Evangelho de Mateus, que hoje, Solenidade da Ascensão do Senhor, é solenemente proclamada para nós. Encerra o Evangelho, condensa-o e resume-o, e abre aos Discípulos e Irmãos do Ressuscitado novos e insuspeitados horizontes. Visitemos atentamente o texto:

«Então os Onze Discípulos partiram para a Galileia, para o monte que lhes tinha ordenado Jesus. E vendo-o, adoraram-no (proskynéô); alguns deles, porém, duvidaram. E aproximando-se, Jesus falou-lhes (laléô), dizendo: “Foi-me dada toda a autoridade (exousía) no céu e na terra. 19Indo, pois, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20ensinando-os a observar todas as coisas que vos ordenei. E eis que Eu convosco Sou todos os dias até ao fim do mundo”».

2. Algumas notas surpreendentes enchem a página, o pátio, o átrio sempre entreaberto do Evangelho para o mundo: 1) a autoridade soberana e nova de Jesus, assente, não na distância, mas na proximidade e familiaridade; 2) a missão universal confiada a uma Igreja discipular, toda reunida à volta de um único Mestre e Senhor; 3) só nesta página é dito que os Discípulos devem, por sua vez, ensinar, não se tornando, todavia, Mestres, mas permanecendo Discípulos; 4) não ensinam, por isso, nada de próprio nem por conta própria, mas apenas «tudo o que Ele ordenou», como Jesus, o Filho, que só diz o que ouviu dizer (João 7,16-17; 8,26.38.40; 14,24; 17,8) e só faz o que viu fazer (João 5,19; 17,4), e como o Espírito Santo, que não falará de si mesmo, mas apenas o que tiver ouvido (João 16,13); 5) a Presença nova e permanente [= «todos os dias»] do Ressuscitado na comunidade discipular; 6) este é o tempo novo e cheio, plenificado, a transbordar de plenitude e universalidade: daí a repetição por quatro vezes do adjetivo todo (pãs): foi-me dada toda a autoridade, fazei discípulos de todas as nações, ensinando-os a observar todas as coisas, convosco sou todos os dias.

3. A soberania nova, próxima e familiar, é já preparada pela cena anterior em que o anjo reorienta os passos das mulheres do túmulo para a Galileia, dizendo-lhes: «Indo depressa, dizei aos seus discípulos que Ele ressuscitou dos mortos e vos precede (proágei hymâs) na Galileia» (Mateus 28,7). De forma grandemente significativa, o próprio Jesus surpreende as mulheres no caminho, e reformula assim o dizer do anjo: «Ide e anunciai aos meus irmãos que partam para a Galileia, e lá me verão» (Mateus 28,10). Aí está a nascer a nova e indestrutível familiaridade: meus irmãos, diz Jesus, o Ressuscitado, apontando para nós e envolvendo-nos num imenso abraço fraternal. E chegados à Galileia, de acordo com o dizer de Jesus, e ao monte indicado por Jesus (Mateus 28,16), é ainda Jesus que toma a dianteira e se aproxima deles e de nós (Mateus 28,18). É sempre d’Ele a iniciativa. O monte lembra e reúne em analepse todos os montes que atravessam o Evangelho de Mateus: o monte da tentação (Mateus 4,8), o das bem-aventuranças (Mateus 5,1), o da oração (Mateus 14,23), o das curas (Mateus 15,29-31) e o da Transfiguração (Mateus 17,1), em que é sempre Ele que abraça e abre caminhos novos à nossa frágil humanidade.

4. Aquele «Indo, fazei discípulos (mathêteúsate) de todas as nações» (Mateus 28,19) é a missão sem fim que é colocada diante dos nossos olhos, pois todas as nações são todos os corações. E «Indo» é não ficar aqui ou ali à espera. Implica mudança de lugar e de modo: não ficar aqui ou ali e não ficar assim, preparando já as palavras inteiras de S. João Paulo II na preparação do Grande Jubileu do ano 2000, e que Bento XVI evocou em 2005: «Paróquia, procura-te a ti mesma e encontra-te a ti mesma fora de ti mesma». É a estrada sem medida de Abraão que se abre à nossa frente. E se medida tem é a medida sem medida da eleição, da bênção e da missão. Mas não estamos sozinhos nessa estrada. Ele está connosco todos os dias. Aquele «Indo» (poreuthéntes), particípio aoristo, implica, pois, a nossa participação diária n’Ele e na missão d’Ele. O seu nome, a sua identidade, é estar connosco. É assim a terminar o Evangelho: «Eu convosco Sou todos os dias até ao fim dos tempos» (Mateus 28,20). Note-se a intensidade e a beleza da sanduíche: «Eu [convosco] Sou» (Egô [meth’ hymôn] eimi). É assim também a abrir o Evangelho: «Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um Filho, e chamá-lo-ão (kalésousin) Emanuel, que se traduz: “connosco Deus”» (Mateus 1,23). Connosco a abrir. Connosco a fechar. Então é assim todo o Evangelho, como indica a figura da inclusão literária. Mas a inclusão literária em paralelismo ou em confronto vai ainda da Galileia para onde se dirige Jesus (Mateus 4,12-17) à Galileia para onde se dirigem os Discípulos (Mateus 28,16), da visão do Menino pelos Magos (Mateus 2,11) à visão do Ressuscitado pelos Discípulos (Mateus 28,17), da adoração do Menino pelos Magos (Mateus 2,2 e 11) à adoração do Ressuscitado pelos Discípulos (Mateus 28,17), do (algum) poder deste mundo prometido pelo diabo a Jesus (Mateus 4,9) ao (todo) o poder sobre o céu e a terra dado por Deus ao Ressuscitado (Mateus 28,18). Sim, o Senhor sempre no meio de nós, Deus sempre connosco. Não apenas com alguns. Mas com todos. Note-se como o narrador, que está a citar Isaías 7,14, atualizou para o plural a forma verbal: de chamá-lo-ás (kaléseis) para chamá-lo-ão (kalésousin).

5. E aquele «ensinando» (didáskontes) discipular, e não magistral, apela mais à nossa fidelidade do que à nossa autoridade, iniciativa e capacidade. De resto, para evitar dúvidas e deixar tudo claro, lá está bem expresso o conteúdo deste ensinamento novo: «tudo o que Eu vos ordenei» (Mateus 28,20). É só permanecendo Discípulos fiéis que se pode ensinar. Discípulo define o estilo de vida de quem segue com fidelidade o Senhor que nos preside e nos precede sempre (Mateus 28,7). Portanto, «Vós, não vos façais chamar por Rabbî [literalmente «meu maior»], pois um só é o vosso Mestre (didáskalos), e vós sois todos irmãos» (Mateus 23,8). Irmãos e pequeninos. Tornemo-nos, pois, imitadores de Paulo, por sua vez imitador de Cristo (1 Coríntios 11,1): «Tornámo-nos crianças (nêpioi) no meio de vós, como uma mãe (trophós) que acalenta (thálpê) os próprios filhos (heautês tékna) (1 Tessalonicenses 2,7); «fiz-me escravo de todos», «fiz-me tudo para todos»; «tudo faço por causa do Evangelho» (1 Coríntios 9,19.22.23). Disse bem S. João Paulo II: «Quem verdadeiramente encontrou Cristo, não pode guardá-l’O para si; tem de O anunciar» (Novo Millennio Ineunte, 2001, n.º 40).

6. É esta imensa, impenetrável notícia que os Discípulos de Jesus devem saber levar e semear de mansinho no subtilíssimo segredo de cada humano coração. Jesus Cristo, o Ressuscitado, vem visitar os seus Irmãos. Não. Não se trata de uma visita rápida, de quem está apenas de passagem. Ele vem para ficar connosco sempre, tanto nos ama. Imensa fraternidade em ascendente movimento filial, como uma seara nova e verdejante a ondular ao vento suavíssimo do Espírito, elevando-se da nossa terra do Alto visitada e semeada, ternamente por Deus olhada, agraciada, abençoada.

7. O Livro dos Atos dos Apóstolos 1,1-11 retoma esta lição. «E estas coisas tendo dito, vendo (blépô) eles, ELE foi Elevado (epêrthê), e uma nuvem O subtraiu (hypolambáno) dos olhos deles (apò tôn ophthalmôn autôn). E como tinham o olhar fixo (atenízontes) no céu para onde ELE ia, eis (idoú) dois homens que estavam ao lado deles, em vestes brancas, e DISSERAM: “Homens Galileus, por que estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu”» (Atos 1,9-11).

8. Tanto VER. Da panóplia de verbos registados (blépô, atenízô, horáô, emblépô, theáomai), os mais fortes e intensos são, com certeza, atenízô [= «olhar fixamente»] e emblépô [= «perscrutar», «ver dentro»]. Ambos exprimem a observação profunda e prolongada, para além das aparências: VER o invisível (cf. Hebreus 11,27), VER o céu, VER a glória de Deus. Mas mais ainda do que o que se vê, estes verbos acentuam o modo como se vê. É para aí que apontam os dois homens vestidos de branco, de rompante surgidos na cena, para entregar um importante DIZER que interpreta e orienta tanto VER. Já os tínhamos encontrado no túmulo reorientando os olhos entristecidos das mulheres: «Por que () procurais entre os mortos Aquele que está Vivo? Não está aqui. Ressuscitou!» (Lucas 24,5-6). Dizem agora: «Por que () estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu» (Atos 1,11). Ao Arrebatamento de JESUS para o céu, os dois homens vestidos de branco agrafam a Vinda de JESUS. Importante colagem da Ascensão com a Vinda. E importante passo em frente para quem estava ali simplesmente especado. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Sim, Ver. Porque ELE Virá do mesmo modo que O Vistes IR. É, pois, importante guardar este Ver, viver este Ver, Ver com este Ver. Porque é Vendo assim que o SENHOR Virá. Vinda que não tem de ser relegada para uma Parusia distante e espetacular, mas que começa, hic et nunc, neste Olhar novo e significativo de quem Vê o SENHOR JESUS. Vinda que não é tanto um regresso, mas o desvelamento de uma presença permanente. Vinda já em curso, portanto, ainda que não plenamente realizada.

9. Guardemos este Olhar e prossigamos. Eis-nos no primeiro ACTO propriamente dito dos Atos dos Apóstolos depois do Pentecostes: a cura de um coxo de nascença descrita em Atos 3,1-10: «Então Pedro e João subiam ao Templo para a oração da hora nona [= 15h00]. E um certo homem, que era coxo (chôlós) desde o ventre da sua mãe, era trazido e posto todos os dias diante da Porta do Templo, dita a Bela, para pedir esmola àqueles que entravam no Templo. Vendo (idôn) Pedro e João, que estavam a entrar no Templo, pedia esmola para receber. Então, fixando o olhar (atenísas) nele, Pedro, com João, disse: “Olha para nós” (blépson eis hemâs). Então ele observava-os (epeîchen), esperando receber deles alguma coisa. Disse então Pedro: “Prata e ouro não tenho, mas o que tenho, isso te dou: no nome de JESUS CRISTO, o Nazareno, [levanta-te e] caminha. E, tomando-o pela mão direita, levantou-o. Imediatamente se firmaram os seus pés e os calcanhares. Com um salto, pôs-se em pé, e caminhava, e entrou com eles no Templo caminhando e saltando e louvando a Deus. E todo o povo o viu (eîden) a caminhar e a louvar a Deus. E reconheciam que era aquele que, sentado, pedia esmola à Porta Bela do Templo, e ficaram cheios de admiração e de assombro por aquilo que lhe aconteceu» (Atos 3,1-10).

10. Outro impressionante condensado de olhares marca este primeiro ATO dos Atos dos Apóstolos. Soam no texto cinco notas visuais, servidas por quatro verbos: horáô, atenízô, blépô, epéchô. Atenízô desenha o Olhar de Pedro e João fixado no coxo de nascença. Blépô retrata o Ver com que o coxo é mandado olhar o Olhar dos Apóstolos. Significativo agrafo: estes dois Olhares, com atenízô e blépô, só tinham sido usados antes, no Livro dos Atos dos Apóstolos, uma única vez, precisamente no relato da Ascensão (Atos 1,9-10). De resto, blépô conhecerá apenas mais quatro menções no Livro dos Atos dos Apóstolos: duas no relato da vocação de Paulo (Atos 9,8-9), a terceira no discurso de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (Atos 13,41; cit. de Habacuc 1,5), e a quarta e última no decurso da viagem marítima de Paulo para Roma (Atos 27,12). Atenízô, por sua vez, far-se-á notar em lugares de relevo, sempre para expressar um Ver novo e significativo, um Ver sem haver: os membros do Sinédrio fixam os olhos (atenízô) em Estêvão, e veem-no semelhante a um anjo (Atos 6,15); Estêvão, por sua vez, fixa os olhos (atenízô) no céu, e vê a glória de Deus e JESUS, de pé, à direita de Deus (Atos 7,55); Cornélio fixa os olhos (atenízô) no anjo do Senhor, que o interpela (Atos 10,4); Pedro fixa os olhos (atenízô) na visão, vinda do céu, dos animais impuros (Atos 11,6); Paulo fixa os olhos (atenízô) no mago Elimas, de Chipre, para o fulminar pela sua falsidade e malícia (Atos 13,9), e o mesmo faz no Sinédrio, dando testemunho de JESUS (Atos 23,1).

11. É este Ver JESUS, Ver sem haver, sem poder, sem ouro nem prata (Atos 3,6), que se fixa sobre o coxo de nascença, mandado, por sua vez, olhar para este Olhar, Ver desta maneira. Como Abraão e Moisés, convidados a Ver para receber, e não para haver, a Terra Prometida: «a terra que Eu te farei Ver» (Génesis 12,1), «que YHWH lhe fez Ver» (Deuteronómio 34,1), «Eu a fiz Ver aos teus olhos» (Deuteronómio 34,4). O narrador anota mais à frente que o coxo de nascença, agora curado, tinha mais de 40 anos (Atos 4,22), tipologia do povo perdido no deserto antes de entrar na Terra Prometida. Como o homem doente havia 38 anos, que Jesus encontra junto da piscina de Bezetha, e que será curado (João 5,1-9).

12. É sintomático que o Ver da Ascensão e da Vinda do SENHOR JESUS seja o Ver que preenche por inteiro o primeiro ATO dos Atos dos Apóstolos, com realce para Pedro. Mas é ainda grandemente sintomático que o primeiro ATO de Paulo, descrito em Atos 14,8-10, que é também o primeiro passo da missão perante o paganismo popular, em Listra, quase copie o primeiro ATO dos Apóstolos e de Pedro, certamente com o intuito de pôr em paralelo os dois grandes Apóstolos e os dois tempos da missão. Eis o texto referido de Atos 14,8-10: «E em Listra um homem estava sentado, sem força nos pés, coxo desde o ventre da sua mãe, e que nunca tinha andado. Este ouviu falar Paulo, o qual, tendo fixado os olhos (atenísas) nele, e tendo visto que tinha fé para ser salvo, diz com voz forte: “Levanta-te direito sobre os teus pés!” E ele deu um salto e caminhava» (Atos 14,8-10). Aqui temos o mesmo coxo de nascença, o mesmo Olhar significativo e diaconal, sem poder, sem ouro nem prata, Ver JESUS, o mesmo levantamento do coxo. E também aqui, na sequência do texto, temos o aceno à multidão que disperdia o olhar, vendo em Paulo e Barnabé deuses em forma humana, e a mesma correção, feita por Paulo, apontando JESUS (Atos 14,11-18).

13. Importante agrafo da Ascensão com a Vinda do Senhor. Tanto Ver. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Guardemos este Olhar cheio de Jesus e olhemos agora para esta terra árida e cinzenta, para tantos corações tristes e perdidos. Nascerá um mundo muito mais belo, novos corações pulsarão nas pessoas. Os olhos do coração iluminados, como diz o Apóstolo à comunidade mãe da Ásia Menor, Éfeso (Efésios 1,18). Um Olhar cheio de Jesus faz Ver Jesus, faz Vir Jesus!

14. Ponhamos tudo isto em imagem, como convém neste Domingo em que a Igreja celebra o Dia das Comunicações Sociais, instituição que tem as suas raízes diretamente no Concílio Vaticano II (Decreto Inter Mirifica, n.º 18), e que foi celebrado pela primeira vez, com mensagem de Paulo VI, em 7 de maio de 1967. Eis então diante de nós, no cume do Monte das Oliveiras, um pequeno Templo, arredondado, chamado Imbomon [= «sobre o cume»], grecização do hebraico bamah [= «lugar alto»], a 818 metros de altitude, um pouco acima da Ecclesia in Eleona [= «no Olival»], que remonta a Santa Helena, hoje Pater Noster, e a curta distância de Jerusalém, a distância do caminho de um sábado (Atos 1,12), que é de 1892 metros. As construções cristãs do Imbomon remontam ao longínquo ano de 376, com reconstrução dos Cruzados em 1152, ocupadas depois, em 1187, pelos muçulmanos. A construção dos Cruzados, que respeitava a primitiva construção, tinha no centro um tambor encimado por uma cúpula aberta no centro, justamente para servir de suporte à imagem da Ascensão patente em Atos 1,9-11. Em 1200, os muçulmanos fecharam esse ponto de luz com uma cúpula de estilo árabe, escondendo assim a visão de Atos 1,11: «Porque estais aí a olhar para o céu?».

15. O texto de hoje da Carta aos Efésios 1,17-23 completa maravilhosamente as passagens da Escritura que já vimos. Depois do grande hino (v. 3-14), em que se bendiz o Pai, mediante o Filho, no Espírito Santo a nós dado, cantamos agora, guiados sempre por São Paulo, o primado da Humanidade do Senhor, obra admirável do Pai, para proveito nosso. E começamos com a epiclese ao Pai para que nos dê o dom do Espírito, que é a Sabedoria divina, o «conhecimento profundo» (epígnôsis) das Realidades divinas (v. 17). Tudo provém do único e omnipotente Acontecimento divino: Jesus Cristo Ressuscitado e Sentado à direita nos Céus (v. 19-20). É assim que, da sua Humanidade glorificada vem para nós, por graça, o Espírito Santo, a verdadeira plenitude (v. 23).

16. O Salmo 47 é um Salmo da realeza de YHWH, que canta, com grande energia, a soberania de Deus sobre todos os povos (v. 1-3.7-10), sem deixar também de particularizar Israel (v. 4-5), «a mais bela entre todas as nações» (Ezequiel 20,6). Ajusta-se também perfeitamente, no mundo católico, à Festa da Ascensão de Cristo, sobretudo por causa do v. 6, em que lemos que «Deus se eleva por entre aclamações». Devido ao seu tom geral, Israel canta este Salmo sete vezes antes de soar o toque do shôphar para assinalar a entrada do Ano Novo.

 

Com a sua Ressurreição e Ascensão aos Céus,

É glorificada a humanidade do Filho de Deus e de Maria,

Jesus,

E é desta humanidade glorificada,

À direita de Deus sentada,

Que vem o Espírito Santo para nós.

 

É, portanto, do vosso interesse, diz Jesus, que Eu vá,

Pois se Eu não for,

O Espírito Santo não virá para vós.

 

Com a Ressurreição, a Ascensão e o Pentecostes,

Celebramos, pois, a humanidade glorificada de Jesus,

Da qual,

Por contágio sacramental,

Recebemos o Dom de Deus, o Espírito Santo.

 

Senhor Jesus,

Enche a nossa frágil humanidade da riqueza da tua divindade,

E derrama no nosso humano coração

O Espírito da consolação,

Da paz e da alegria.

 

António Couto


DAR A RAZÃO DA NOSSA ESPERANÇA

Maio 16, 2020

1. O texto que o Evangelho deste Domingo VI da Páscoa (João 14,15-21) nos oferece enquadra-se naquele monumental Testamento que, no IV Evangelho, Jesus pronuncia, em ondas sucessivas, após a Ceia com os seus Discípulos (João 13,12-17,26). Neste imenso texto, cujas linhas temáticas vêm e refluem e voltam a vir e a refluir, à maneira das ondas do mar que vêm sobre a praia, refluem e voltam, assistimos hoje ao primeiro dos cinco dizeres de Jesus relativos à Vinda do Espírito Santo, Paráclito (paráklêtos), isto é, Defensor [Advogado de defesa], Consolador e Intérprete. Este último significado deriva do aramaico paráklita, dos rabinos, que não tem o significado usual do grego (Defensor e Consolador), mas Intérprete, aquele que traduz Deus para nós e nós para Deus, fonte e ponte permanente de comunicação, compreensão e comunhão. O Espírito Paráclito é assim o grande construtor de pontes entre nós uns com os outros e com Deus. É, por isso, que Ele é o Amor, que destrói todos os muros, preconceitos, ódios, divisões, incompreensões. Eis os cinco mencionados dizeres de Jesus sobre a Vinda do Espírito Santo, sempre dita no futuro: João 14,16; 14,26; 15,26; 16,7; 16,13-15.

2. Sente-se, no monumental Testamento de Jesus, apresentado em João 13,12-17,26, que a dor da separação, provocada pela partida de Jesus, atravessa o coração dos discípulos de então. Se virmos bem, também no coração dos discípulos de hoje pode vir ao de cima a perceção de que Jesus está ausente, pouco percetível e dificilmente acessível. A dor da separação revela o deles e o nosso amor por Jesus. E Jesus mostra-nos que não nos deixa abandonados e sós, como órfãos (João 14,18). Ele permanece connosco, e continua a tratar-nos carinhosamente por «filhinhos» (teknía) (João 13,33). De facto, Jesus morre, mas não desaparece na morte. Volta sempre, na sua condição de Ressuscitado, para nos comunicar a sua própria vida nova. Sim, com a sua morte, Ele desaparece aos olhos do mundo, que apenas sabe que Ele morreu numa Cruz. O mundo conhece apenas a morte, e não a vida (João 14,19). É sabido que também aqueles discípulos não superarão a prova ou o teste da Paixão e Morte de Jesus, tendo-o abandonado e fugido todos (Mateus 26,56; Marcos 14,50). Será Jesus, Amor permanente e dissolvente, que reparará esta brecha, chamando de novo estes discípulos reprovados (Mateus 28,7.10.16; Marcos 16,7). E eles, como nós, levando consigo toda a sua história anterior de amor e rutura e de milagrosa cura, voltam para a Galileia, para um encontro novo com o Ressuscitado, de quem, agora sim, nunca mais se separarão.

3. O texto de hoje põe Jesus a dizer que, a seu pedido, o Pai nos dará outro Paráclito (João 14,16). Outro. Este outro é o Espírito Santo. Mas o emprego deste outro diz-nos ainda que Jesus Cristo é também Paráclito, portanto, nosso Defensor, Consolador e Intérprete, como de resto surge afirmado com todas as letras na Primeira Carta de S. João 2,1: «Temos um Defensor (paráklêtos) junto do Pai, Jesus Cristo, o Justo».

4. O primeiro enviado do Pai é o Filho Jesus, que cumpre e revela o conteúdo da própria missão. O segundo enviado é o Espírito Paráclito. O Pai é, em relação aos dois, o enviante; o Filho e o Espírito são, em relação ao Pai, ambos enviados. Confrontando os textos, vemos que há semelhança da relação entre o Pai e o Paráclito com a relação entre o Pai e o Filho: ambas são expressas pelo mesmo verbo «enviar» (pémpô). Mas, juntamente com a semelhança, deparamos também com diferenças. A primeira diferença está no facto de que, em relação ao Filho, o verbo enviar está no passado, encontrando-se no futuro em relação ao Paráclito. O envio de Jesus pelo Pai já se realizou [«o Pai que me enviou»: João 5,23.37; 6,44; 8,16.18; 12,49; 14,24; «Aquele que me enviou»: João 4,34; 5,24.30; 6,38.39.40; 7,16.28.33; 8,26.29; 9,4; 12,44-45; 13,20; 15,21; 16,5], enquanto que o envio do Paráclito é anunciado, mas deve ainda realizar-se [«o Pai enviá-lo-á no meu nome»: João 14,26], do mesmo modo que a sua tarefa de ensinar e de recordar aparece igualmente enunciada no futuro. A segunda diferença reside no facto de o envio de Jesus ser feito diretamente pelo Pai, sem intermediários, enquanto que o envio do Paráclito é feito pelo Pai mediante a intervenção de Jesus, traduzida pela expressão «no meu nome». O que se passa com o verbo «enviar» em termos de semelhança e diferenças, passa-se também com o verbo «dar» (dídômi): «Deus… deu o seu Filho unigénito» (João 3,16), e «dará a vós outro Paráclito» a pedido de Jesus (João 14,16). Mas em relação ao Paráclito, o próprio Jesus é por duas vezes sujeito do verbo enviar: «Eu enviá-lo-ei de junto do Pai» (João 15,26); «Quando eu for, enviá-lo-ei para junto de vós» (João 16,7).

5. O cúmulo. Filipe, «o Evangelista» (ho euaggelistês) (Atos dos Apóstolos 21,8), leva a Palavra de Deus à Samaria, exatamente àquele «estúpido povo que habita em Siquém» (Ben-Sirá 50,26), e houve por lá também grande alegria (Atos dos Apóstolos 8,5-8). Sim! Os pobres são evangelizados! Bendito seja Deus que nos surpreende sempre. Quando eu lá chego, às portas da cidade ou do coração do meu irmão, constato com espanto que Tu já lá estás há muito tempo, e já derrubaste portas e muralhas! Tu chegas sempre primeiro e já preparaste tudo! Escreve Kierkegaard num belo poema: «Falamos de Ti/ como se Tu nos tivesses amado primeiro uma só vez./ É, porém, dia após dia, a vida inteira,/ que Tu nos amas primeiro./ Quando acordo pela manhã e elevo para Ti a minha alma,/ Tu és o primeiro,/ Tu amas-me primeiro./ Se pela madrugada me levanto,/ e logo/ para Ti a minha alma e a minha oração elevo,/ Tu precedes-me,/ Tu já me amaste primeiro./ É sempre assim./ E nós, ingratos,/ Falamos como se Tu nos tivesses amado primeiro/ uma só vez…».

6. E, portanto, aí está a lição que São Pedro (3,15-18) aprendeu e viveu e hoje nos comunica: «estai sempre sempre prontos [atentos, preparados] para dar convictamente a quem vos pedir a razão da esperança que há em vós» (hétoimoi aeì pròs apologían pantì tô aitoûnti hymãs lógon perì tês en hymîn elpídos) (cf. 1 Pd 3,15). Não se trata de «razões»; trata-se da «razão», do lógos. A razão, o lógos, não é aqui um terreno intelectual ou um objeto do pensamento, mas uma pessoa: Jesus Cristo. É Ele a razão, o lógos, «pelo qual tudo foi feito, e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Então, Ele habita e enche o universo e a nossa vida. «É n’Ele que vivemos, nos movemos e existimos» (Atos dos Apóstolos 17,28). Nós com Ele, e Ele em nós, santuários vivos do Deus vivo. De forma intensa, como sempre, grita S. Paulo aos ouvidos dos cristãos de Corinto e aos nossos: «Não sabeis que sois Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (…). Na verdade, o Templo de Deus é santo, e esse Templo sois vós!» (1 Coríntios 3,16 e 17). Sem equívocos agora: estar prontos a dar a razão é estar prontos a dar o lógos, isto é, Jesus, a razão de fundo da vida de Pedro e da nossa; a razão não são as razões, arrazoados; é a pessoa de Jesus, o lógos. Estar prontos a dar a razão é estar prontos a dar a mão, isto é, o pão, compreensão, amor, esperança e confiança, engenheiros de um mundo novo, verdadeiro, credível, transparente.

7. Diz, de forma absolutamente maravilhosa, o velho comentário rabínico aos Salmos, dito Midrash Tehillîm, que, quando Israel estava no Sinai para fazer aliança com Deus, «o ventre das mulheres grávidas se tornou transparente como vidro, para que os embriões pudessem ver Deus e conversar com Ele». Oh admirável mundo novo!

8. O Espírito Santo faz nascer em nós esta transparência luminosa e maravilhosa. Luz que alumia, e não engana, Amor, só Amor, nada mais que Amor. Vem, Espírito de Luz, construtor e Senhor das mais belas transparências e vivências. Precisamos tanto de Ti nesta calçada enlameada e escura e escorregadia em que andamos.

9. Missão nossa será sempre cantar a glória de Deus e convocar a terra inteira para verificar as maravilhas operadas por Deus. Todos e cada um. A comunidade e eu de mãos dadas e levantadas para Deus, como acontece muitas vezes nos Salmos. Temos muito a relatar e a agradecer, repassando diante de nós, não apenas a paisagem bíblica, mas também a nossa paisagem humana. Também o Salmo de hoje começa em tom comunitário (Salmo 66,1-12) para nos mostrar depois também o papel do solista (v. 13-20).

 

O Filho e o Espírito Santo são,

No dizer de Santo Ireneu de Lião,

As duas mãos do Pai,

Enviadas em missão

Para junto dos seus filhos de adoção.

 

À semelhança, claro,

Daquelas mãos de amor,

Que, no alvor da Criação,

Modelaram da terra pura o nosso coração,

E de misericórdia o vestiram.

 

Filhos no Filho, divina hyiothesía,

Hemorragia de graça e de alegria:

Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,

E dá-nos em herança a sua divina filiação.

 

E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,

Divina comunhão, sem confusão,

Toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,

E faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,

A mais bela lalação que há, o nome novo Ab-ba!

 

António Couto


JESUS, O PAI E NÓS SEMPRE EM REDE

Maio 9, 2020

1. Os nomes JESUS e PAI juntam-se para entretecer uma rede finíssima que atravessa e extravasa o corpo do inteiro IV Evangelho, onde se ouvem respetivamente por 237 vezes e 124 vezes. Entenda-se: a vida de JESUS está completamente nas mãos do PAI, dele provém e para ele se orienta totalmente, de modo a JESUS poder dizer: «EU e o PAI somos um (hén)» (João 10,30) – não para indicar uma só pessoa, mas uma só realidade, bem traduzida no modo neutro, e não masculino, do numeral «um» (hén) – ou: «Quem ME vê, vê o PAI» (João 14,9). Só no Evangelho deste Domingo V da Páscoa (João 14,1-12), pode contar-se o nome PAI por 12 vezes!

2. Total orientação da sua vida para o PAI. Diz, na verdade, Jesus para os seus discípulos: «Para onde EU vou, vós conheceis o caminho» (João 14,4), mudando logo o lugar pela pessoa: «EU para o PAI vou» (João 14,12). Pelo meio, cruza-se a incompreensão ou incompetência expressa de dois dos seus discípulos: Tomé e Filipe, que o mesmo é dizer, a nossa incompreensão e incompetência. Tomé, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»], não sabe para onde vai JESUS; logo, não sabe o caminho (João 14,5), e Filipe recebe de Jesus uma repreensão que também nos atinge, pois é proferida no plural, e soa assim: «Há tanto tempo estou convosco, e não ME conheces, Filipe?» (João 14,9).

3. Tomé é bem Gémeo nosso, nosso irmão gémeo, muito parecido connosco, nesta passagem e em muitas outras. E Filipe [«Amigo dos cavalos»], único nome verdadeiramente grego, isto é, pagão, entre os Apóstolos de Jesus, também se manifesta muito semelhante a nós aqui e em outros lugares, como, por exemplo, João 6,5-7, onde é literalmente posto à prova por Jesus, e chumba claramente no teste. Na verdade, Jesus pergunta-lhe, para o pôr à prova: «Filipe, onde compraremos pão para que eles comam» (João 6,5). E Filipe põe-se a contar o dinheiro, dizendo onde põe a sua confiança, e responde que não há nada a fazer, porque não há dinheiro (João 6,7). Filipe, talvez como nós, ainda não sabia que o onde (póthen) a que Jesus se refere não é o shopping, mas é o PAI. Ainda não sabia ou conhecia Isaías 55,1-2, em que Deus nos convida a comprar a Ele pão, sem gastar qualquer dinheiro: «Todos vós que tendes sede, vinde às águas!/ Vós, que não tendes dinheiro, vinde!/ Comprai (agorázô LXX) cereal e comei!/ Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ […] Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Isaías 55,1-2).

4. O Jesus que anima este diálogo connosco é verdadeiramente o CAMINHO, a VERDADE e a VIDA (João 14,6). Não é um caminho de terra batida ou uma estrada de asfalto. É um CAMINHO pessoal, uma maneira de viver, com entranhas, pés, mãos e coração. Não é uma verdade de tipo filosófico, jurídico ou político, a usual adequação da mente à coisa. Não é uma coisa. A VERDADE bíblica [hebraico ʼemet] não responde à pergunta: «O que é a verdade?», à boa maneira de Pilatos (João 18,38), mas à pergunta inédita: «QUEM é a VERDADE?». De facto, ʼemet deriva de ʼem [= mãe] e de ʼaman [= firmar, confiar], e remete para CONFIANÇA e FIDELIDADE. Não é uma verdade que se saiba. É uma atitude que se aprende. É aquela VERDADE que uma criança vai aprendendo ao colo da sua mãe. Está ali ALGUÉM que a segura e que a ama, ALGUÉM em quem a criança pode confiar, que em caso algum a vai deixar cair ao chão, como bem refere Edith Stein (Santa Teresa Benedita da Cruz). A VERDADE é ALGUÉM de fiar como uma MÃE, realidade bem patente na etimologia, dado que ʼemet [= verdade] deriva de ʼem [= mãe]. Não engana, portanto. É assim que JESUS é também a VIDA toda recebida (do PAI), toda a nós dada.

5. É assim também, maternalmente, que se entende a jovem e bela comunidade cristã nascente, atenta, outra vez como uma mãe, aos seus filhos que necessitam de assistência (Atos dos Apóstolos 6,1-7). Como é belo ver crescer, e cresce mesmo, uma comunidade de rosto maternal, de braços sempre abertos para acolher e abraçar, de mãos sempre abertas para receber, dar e acariciar. Tudo tão ao jeito e ao estilo de Jesus. Total dedicação à oração e ao serviço (diakonía) da Palavra de Deus (6,4). Total dedicação ao serviço (diakonía) da caridade. Atenção, porém: Filipe não aparece com o título de diácono (diákonos). O seu trabalho é evangelizar (Atos 8,26-40), e, se algum título lhe é atribuído, é o de «o evangelista» (ho euaggelistês) (Atos 21,8).

6. É claro, diz S. Pedro (1 Pedro 2,4-9), que Jesus é a pedra viva, base de um novo tipo de edifício, que nenhum arquiteto sabe desenhar ou projetar. É, na verdade, um edifício espiritual, feito de pedras vivas (!). E nós somos essas pedras vivas, esse Templo espiritual, que tem em Cristo a sua referência permanente. Um Templo novo e inédito com sangue, entranhas, mãos, pés e coração.

7. Enfim, o Salmo 33, que hoje cantamos, é um verdadeiro «canto novo» (shîr hadash) a fazer vibrar as fibras do nosso coração com a música do amor misericordioso que nos vem de Deus. Mas é também música sem palavras (terûʽah) (v. 2), jubilação, exultação, lalação de radical confiança da criança que em nós sorri e dança, porque Deus vela por nós. Comenta Santo Agostinho: «Já sabes o que é o canto novo: um homem novo, um canto novo».

 

«O lugar para onde Eu vou,

Vós sabeis o caminho para lá», diz Jesus.

«Nós não sabemos para onde vais,

Como podemos saber o caminho para lá?»,

Retorquiu Tomé.

 

Tomé é como nós:

Não sabe trabalhar sem metas e objetivos.

E é em função das metas e objetivos,

Que escolhe caminhos e metodologias.

 

Deus disse a Abraão: «Vai do teu país

Para o país que Eu te fizer ver».

E o narrador diz-nos que «Abraão foi».

Para onde? Para qual país?

Não interessa.

Interessa é saber que uma mão segura nos guia,

E que o caminho que trilhamos nos conduz sempre ao destino.

 

É assim que faz Jesus também.

Não nos indica no mapa o lugar do destino,

Mas mostra-nos o caminho para chegar lá.

Por isso nos diz: «Vinde atrás de Mim…».

 

É assim a procissão e a peregrinação.

Ele vai connosco e à nossa frente.

Ele é o caminho,

A mão segura,

A água pura,

O pão de trigo.

 

Ensina-nos, Senhor,

A caminhar contigo.

 

António Couto


BOM E BELO PASTOR

Maio 2, 2020

1. Domingo IV da Páscoa. Domingo do Bom, Belo, Perfeito e Verdadeiro Pastor. É este o significado largo do adjetivo grego kalós e do hebraico tôb, que qualifica o nome «Pastor». De notar que o Domingo IV da Páscoa, Domingo do Bom e Belo Pastor, é sempre também Dia Mundial de Oração pelas Vocações, e este ano sai ainda mais enriquecido com a celebração do «Dia da Mãe».

2. O Evangelho que marca o ritmo deste Dia Grande é João 10,1-10, que surge enquadrado na Festa judaica anual da Dedicação do Templo (ver João 10,22). Situemo-nos. O selêucida Antíoco IV Epifânio tinha profanado o Templo de Jerusalém, introduzindo lá cultos pagãos. Este acontecimento remonta ao ano 167 a. C. Contra esta helenização e paganização do judaísmo lutaram os Macabeus, e, no ano 164 a. C., Judas Macabeu procedeu à Purificação do Templo e à sua Dedicação ao Deus Vivo. É este importante acontecimento que deve ser celebrado todos os anos, durante oito dias, com a Festa da Dedicação, a partir do dia 25 do mês de Kisleu, que, no ano litúrgico 2019-2020 ocorreu entre os dias 23-30 de dezembro de 2019, e, no ano litúrgico 2020-2021, acontecerá entre os dias 11-18 de dezembro de 2020.

3. A Festa da Dedicação, em hebraico hanûkkah, celebra-se durante oito dias, e tem como símbolo o candelabro de oito braços. Relata o Talmude que, quando os judeus fiéis entraram no Templo profanado pelos pagãos helenistas, encontraram uma única âmbula de azeite puro (kasher) de oliveira para reacender o candelabro de sete braços, em hebraico menôrah, que é um dos símbolos de Israel, e que deve arder diante do Deus Vivo. Todavia, uma âmbula de azeite duraria apenas um dia, e eram precisos oito dias para preparar novo azeite puro. Pois bem, o azeite daquela única âmbula durou milagrosamente oito dias! Daí que, na Festa da Dedicação, se acenda um candelabro de oito braços, chamado hanûkkiyyah. Mas acende-se apenas uma luz por dia, depois do pôr-do-sol, aumentando progressivamente até estarem acesas as oito luzes. Além disso, e ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, que alumiam o interior do Santuário e da casa de família respetivamente, as Luzes do candelabro da Dedicação, refere o ritual, devem ser vistas cá fora: devem alumiar o ambiente social, político, comercial, cultural e, no referente a este ano, também sanitário. E também ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, não se acendem todas de uma vez, mas progressivamente uma por dia, porque, quando as condições são adversas (paganismo helenista e escuro), não basta acender uma luz e mantê-la; é preciso aumentar constantemente a luz. Mais luz. Mais luz. Mais luz.

4. Como este simbolismo é importante para os dias de hoje! Está escuro cá dentro e lá fora, o mundo parece desconstruir-se, o paganismo é galopante! Mais do que nunca, é preciso, portanto, não apenas manter a luz, mas aumentá-la progressivamente. E é ainda necessário que esta Luz saia para fora: uma «igreja em saída», como sonha e pede o Papa Francisco! E está em maravilhosa sintonia com a Luz Grande que deve alumiar este Domingo do Bom e Belo Pastor, que é Jesus, verdadeira Luz do mundo, Dom do Amor de Deus ao nosso coração. Atear esta Luz de Jesus no nosso coração é também o segredo maior deste 57.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, a que o Papa Francisco apôs o lema: «As palavras da vocação», que articula em quatro palavras-chave: gratidão, coragem, cansaço e louvor, todas elas endereçadas a situações reais da nossa vida.

5. Da mesa da Escritura deste Domingo IV da Páscoa transbordam tonalidades e sabores intensos, harmoniosos e deliciosos. Música encantatória. Água pura. Óleo perfumado. Verde prado em festa. Proximidade. Ternura. Confiança. Beleza em flor e fruto. Vida a transbordar. Tudo da ordem do sublime.

6. A figura do Pastor belo e bom como que salta da página fechada (João 10,1-10), para surgir em pessoa à nossa frente. Ao dizer «Eu sou», Jesus está também, ao mesmo tempo, a dizer «vós sois». Está, portanto, a estabelecer uma relação pessoal de proximidade, confiança e intimidade connosco, bem expressa, de resto, pelos verbos «chamar pelo nome», «conhecer», «ouvir a voz», «conduzir», «caminhar à frente de», «seguir», «dar a vida».

7. Mas esta vida livre, plena e bela, assente na verdade e na confiança, sem mentiras nem imposturas, sem imposições nem malabarismos, deixa ver em expresso contraponto o seu oposto. É que também saltam da página os ladrões, os salteadores e os estranhos, que, em vez de conjugarem os verbos acima indicados para traduzir a relação do pastor belo e bom com o seu rebanho, conjugam antes os verbos «roubar», «matar», «destruir». Como esta página antiga e sempre nova de João 10,1-10 lê e desvenda os tempos de hoje!

8. Mas o texto grandioso de João 10,1-10 passa também mensagens intemporais que, em cada tempo e lugar, devem interpelar a comunidade cristã. Assim, quando Jesus diz: «Eu sou a porta», não está a usar uma linguagem da ordem da arquitetura e da carpintaria. É de uma porta pessoal que se trata. E esta porta pessoal tem um nome e um rosto: Jesus de Nazaré, Jesus de Deus. E esta porta serve para «entrar e sair». «Entrar e sair» é um merisma [= figura literária que diz o todo acostando duas extremidades] que traduz a nossa vida toda. É a nossa vida toda sempre em referência a Jesus Cristo. Entende-se, não com a atual criação industrial de gado, em que os animais estão quase sempre em clausura e o pasto lhes é fornecido em manjedouras apropriadas, visando sempre uma maior produtividade, mas com os «apriscos» [= mais abrir do que fechar, como indica o étimo aprire] antigos, em que os animais se recolhiam apenas para se protegerem do frio da noite e dos assaltos das feras ou dos ladrões, e procuravam fora o seu alimento, sempre conduzidos e sob a atenção vigilante do pastor.

9. Note-se ainda que os Evangelhos falam sempre de rebanho, e não de ovelhas separadas. Quando falam de uma ovelha sozinha, é para descrever a situação negativa de uma ovelha desgarrada ou perdida, que se perdeu do rebanho ou da comunidade, e deixou de seguir o pastor e de ouvir a sua voz. Note-se ainda que as ovelhas «entram pela porta», mas não é para ficarem descansadas e recolhidas, fechadas sobre si mesmas, hoje diríamos «confinadas». É para sair, pois é fora que encontrarão pastagem. Lição para a comunidade dos discípulos de Jesus de hoje e de sempre: o trabalho belo que nos alimenta e nos mantém saudáveis espera-nos lá fora! Que Deus nos dê então sempre um grande apetite! A messe ondulante está à espera de ceifeiros que saibam cantar (Salmo 126,5-6), porque também sabem que é Deus o Senhor da messe.

10. A cristalina melodia do Salmo 23, que hoje cantamos, entranha-se suavemente em nós, fazendo-nos experimentar os mil sabores da paz, do pão e da alegria que em cada dia recebemos do Pastor belo e bom que amorosamente nos guia. Ele é o companheiro para quem as horas do seu rebanho são também as suas, corre os mesmos riscos, experimenta a mesma fome e a mesma sede, o sol que cai sobre o rebanho cai também sobre ele. Deixemo-nos, portanto, conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… Como é importante recitar e saborear esta alegria pessoal que nos traz o Pastor belo e bom que nos chama e nos inebria. Confessou o filósofo francês Henri Bergson: «As centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23».

11. E aí está outra vez Pedro a exortar-nos na manhã de Pentecostes: «Salvai-vos desta geração perversa» (Atos 2,40). «Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora regressastes para o pastor e supervisor (epískopos) das vossas almas» (1 Pedro 2,25). «Segui, pois, os seus passos» (1 Pedro 2,21).

12. Concede-nos, Senhor, Belo e Bom Pastor, que nunca nos tresmalhemos do teu imenso amor, e que saibamos sempre levar o tom e o sabor da tua voz que chama e ama a cada irmão perdido em casa ou numa estrada de lama.

13. Passa hoje também, neste Domingo IV da Páscoa, o Dia da Mãe. Sobre esta terra dorida e ameaçada pela Covid-19, uma Mãe verdadeira ainda é o ícone mais belo do amor imenso e sem pauta nem medida, que não é meu, nem é teu, nem é nosso, que é de Deus, que atravessa os textos da liturgia de hoje, e se vê a palpitar em tantas páginas indescritíveis destes tempos ácidos e nebulosos. Nós sabemos isso. Mas uma Mãe sabe isso melhor. É por isso que é fácil, neste Dia da Mãe, ver cair pelo rosto de cada Mãe uma lágrima de tristeza ou de alegria! Melhor assim, Mulher e Mãe: sentirás a mão carinhosa de Deus a afagar o teu rosto e a enxugar essa lágrima, de acordo com a lição da Leitura do Livro do Apocalipse 21,4.

 

Senhor Jesus Cristo,

Único Senhor da minha vida,

Bom Pastor dos meus passos inseguros

E do silêncio inquieto do meu coração,

Cheio de sonhos, anseios, dúvidas, inquietações.

 

Senhor Jesus,

Faz ressoar em mim a tua voz de paz e de ternura.

Eu sei que pronuncias o meu nome com doçura,

E me envias ao encontro daquele meu irmão que Te procura.

 

Fico contigo sentado junto ao poço.

Alumia o meu pobre coração.

Vejo que, de toda a parte, chega gente de cântaro na mão.

Dispõe de mim, Senhor,

Nesta hora de Nova Evangelização.

 

Que eu saiba, Senhor,

Interpretar bem a tua melodia.

Que eu saiba, Senhor,

Dizer sempre SIM como Maria.

 

António Couto


FICA CONNOSCO, SENHOR!

Abril 25, 2020

1. O Evangelho deste III Domingo da Páscoa convida-nos a fazer aquela que pode ser considerada a mais bela viagem de doze quilómetros de toda a Escritura. A viagem que nos leva de Jerusalém a Emaús, atual aldeia palestiniana de nome El-Kubèibeh, que guarda a memória deste maravilhoso episódio de Lucas 24,13-35.

2. Aperceber-nos-emos, porém, rapidamente que se trata menos de uma viagem transitiva sobre o mapa, e mais, muito mais, de uma viagem intransitiva nas estradas poeirentas do nosso embotado coração. É assim que dois deles (dýo ex autôn) – e está aqui assinalada uma rutura destes dois com a comunidade reunida em Jerusalém – saem da comunidade. O texto retrata-os bem: estão em dissensão com a comunidade, pelo caminho conversam familiarmente (homiléô) sobre as coisas acontecidas em Jerusalém (Lucas 24,14 e 15), mas também debatem (syzêtéô) (Lucas 24,15), e entram mesmo em dissensão um com o outro, opondo argumentos (antibállô) (Lucas 24,17).

3. Estando assim as coisas, narra o texto que um terceiro viajante, que é Jesus – informa-nos o narrador –, se aproximou deles e caminhava com eles, mas os seus olhos estavam impedidos de o reconhecer (Lucas 24,15-16). Neste ponto preciso, impõem-se duas pequenas anotações. Primeira: Jesus é sempre aquele que caminha com, faz conjunção, onde nós, e quando nós, estamos em disjunção. E não caminha connosco apenas algum tempo. Caminha connosco sempre, pois o verbo grego está no imperfeito de duração (syneporeúeto): caminhava com. Segunda: não é a incapacidade deles ou a nossa que nos impede de reconhecer Jesus. Na verdade, o texto diz, na sua crueza, que os seus olhos estavam impedidos (ekratoûnto). O verbo grego está num imperfeito passivo. Entenda-se então corretamente: é Deus que impede os nossos olhos de o reconhecerem agora. Esta indicação deixa-nos alerta para o momento em que Deus vai desimpedir os nossos olhos para o reconhecermos.

4. Este terceiro, que caminha sempre connosco, e que faz conjunção sobre as nossas disjunções, é também aquele que conduz o nosso caminho. Ele é o Presidente. Preside sempre. Por isso, começa a fazer perguntas: «Que são estas palavras que opondes entre vós enquanto caminhais?» (Lucas 24,17). Ele é o Mestre que nos faz perguntas pedagógicas, para nós nos dizermos, e manifestarmos o ponto de compreensão em que estamos. A primeira consequência em nós desta pergunta certeira é fazer com que mostremos a nossa tristeza e desilusão: «E eles pararam com o rosto triste» (Lucas 24,17). E depois, atónitos, perguntamos: «Tu és o único (mónos) estrangeiro residente (pároikos) em Jerusalém que não conheces as coisas que nela aconteceram nestes dias?» (Lucas 24,18). E ele pergunta outra vez pedagogicamente: «O que foi?» (Lucas 24,19). Duas anotações. Primeira: sem o sabermos, fazemos uma afirmação correta: de facto, ele é o único que não conhece as coisas como nós, mas as conhece de outra maneira. Segunda: quando ele pergunta: «O que foi?», é para nos levar a dizer a desilusão e o sem-sentido que nos habita. Ele é o Mestre que faz as perguntas, para depois poder corrigir as respostas (Lucas 24,25-27).

5. Nestas conversas guiadas, parece que o caminho se encurtou. Ei-los que estão em Emaús. E, chegados aí, Jesus fez como se (prosepoiêsato: aor. de prospoiéomai) fosse caminhar para mais longe (Lucas 24,28). «Fez como se» é uma finta pedagógica. O texto não diz que ele ia caminhar para mais longe. Diz que Ele «fez como se fosse…». Finta pedagógica, que provoca logo ali a nossa oração: «Fica connosco…» (Lucas 24,29). Atenção, portanto: também a nossa oração não é produção nossa; é provocada por Ele. Ele é o Mestre, o Presidente.

6. No seguimento do nosso pedido, ele entra para ficar connosco. Não apenas algum tempo, como fazemos nós quando visitamos os amigos. Ele entra para ficar connosco sempre, para presidir à nossa vida toda. Preside, portanto, à nossa mesa: recebe o pão, bendiz a Deus, parte o pão e dava (epedídou: imperf. de epidídômi), imperfeito de duração. Atitude que continua ainda hoje. É aqui que são abertos (por Deus) os nossos olhos, antes impedidos por Deus de reconhecer Jesus. Decifração da Cruz. Ele está vivo e presente. A sua vida é uma vida a nós dada. Sempre a ser dada, dado que, se dar reclama a presença do dom do doador ao donatário, dar-se reclama a presença do doador no donatário. É agora e daqui que vemos a luzinha que ele acendeu já no nosso coração, no caminho… Não é o escuro da noite exterior que nos mete medo. O que nos mete medo é o escuro interior. Ei-los que partem em plena noite para Jerusalém. Viagem da conjunção, fazendo o caminho inverso da primeira viagem da disjunção.

7. Ainda hoje é bom e salutar fazer esta viagem no mapa e no coração a Emaús (El-Kubèibeh). O peregrino encontra nesta aldeia palestiniana uma igreja, à guarda dos Padres Franciscanos da Custódia da Terra Santa, que recorda os acontecimentos narrados no sublime episódio de Lucas 24, que acabámos de recordar. A atual igreja é uma construção de inícios do século XX, estilo românico-gótico de transição, que respeita as linhas e integra algumas pedras de uma igreja construída pelos Cruzados no século XII. Esta igreja encontrava-se ainda de pé no século XIV, mas estava já em ruínas no século XV, de acordo com o testemunho de peregrinos qualificados. Esta construção dos Cruzados enquadra aquilo que se pensa serem os fundamentos da casa de Cléofas, um dos dois que, naquele primeiro dia da semana (Lucas 24,1 e 13), se dirigiam para uma aldeia, chamada Emaús, que distava 60 estádios (11-12 km) de Jerusalém.

8. Nas paredes desta igreja, pode ler-se em várias línguas um belo e significativo poema, que aqui passa também a conhecer a versão portuguesa: «Todos os dias/ Te encontramos/ no caminho./ Mas muitos reconhecer-Te-ão/ apenas/ quando/ repartires connosco/ o Teu pão./ Quem sabe?/ Talvez/ no último entardecer».

9. E o poeta inglês Thomas S. Eliot faz esta evocação da cena de Emaús: «Quem é o terceiro, que vai sempre ao teu lado? Se me ponho a contar, juntos vamos apenas eu e tu. Porém, se olho à minha frente sobre a estrada branca, vejo sempre outro que caminha ao teu lado. Quem é esse que vai sempre do outro lado?».

10. É o Senhor, que vós entregastes à morte, mas que Deus ressuscitou, responde Pedro, falando ao povo no dia de Pentecostes (Atos 2,14.22-33). Reside aqui, não apenas o essencial do anúncio, mas o anúncio essencial, sem glosas e sem filtros, que somos chamados a fazer, com alegria e determinação (Atos 2,23-24). Este veio fundamental percorre, como verdadeira filigrana, o Livro dos Atos dos Apóstolos: 2,23-24.32.36; 3,15-16; 4,10; 5,30-31; 10,39-40; 13,28-30; 17,31; 25,19. Chamemos-lhe «primeiro anúncio», ou, como já se diz hoje, nesta sociedade que já recebeu o «primeiro anúncio», mas que vive distante da seiva do Evangelho, «segundo (primeiro) anúncio».

11. Pedro continua a ensinar-nos que vivemos aqui como «estrangeiros e hóspedes», isto é, como «paroquianos» (paroikía), mas que, como Jesus e à sua maneira, somos também filhos e chamamos a Deus «nosso Pai». E é neste Senhor Jesus que, conforme desígnio eterno do Pai, deu a vida por nós, temos posta a nossa fé e a nossa esperança, muito para além das coisas corruptíveis, como prata e oiro, e de tudo o que se avalia, mede ou pesa (1 Pedro 1,17-21). É-nos pedida, portanto, vida nova de acordo com o estatuto por graça concedido.

12. Portanto, «o Senhor sempre diante de mim», cantamos hoje com o Salmo 16,8. Só Ele nos pode guiar no caminho da vida. Na verdade, as pedras e as coisas, as casas e as terras, nunca devem ocupar, muito menos encher, o nosso coração. Os sacerdotes, descendentes de Aarão, não tinham terra distribuída em Israel. A sua herança era o Senhor (cf. Números 18,20). E nós também cantamos no nosso Salmo de hoje, o Salmo 16, «Senhor, Tu és a minha herança» (v. 5). No seu Sermão 344, Santo Agostinho comenta assim: «O salmista não diz: “Ó Deus, dá-me uma herança”. Diz antes: “Tudo o que me podes dar fora de Ti, é vil. Sê Tu a minha herança. É a Ti que eu amo… Esperar Deus de Deus, estar cheio de Deus. Basta-te Ele; fora dele, nada te pode bastar». Esta melodia deve encher o nosso coração e este Dia de Domingo, Dia do Senhor, de doação radical, total, ao Senhor. Entenda-se: é um caminho novo que se abre à nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distrações, sem nostalgias, sem saídas de emergência ou de segurança!

 

Tristes, desanimados, pesarosos,

Trilhamos um caminho apenas de regresso,

De confinamento,

Esvaziamento,

Em que não se vê nenhum acesso,

Nenhum ingresso,

Nenhuma luz

Se vê lá para os lados de Emaús.

 

Vem Jesus

E começa a caminhar connosco,

Vai connosco.

Não se apresenta,

Mas faz perguntas,

Corrige as respostas,

Abre as Escrituras,

Cura as fraturas,

Põe-nos a arder o coração,

Reparte o pão,

Parece que desaparece,

Mas fica mais presente do que nunca.

 

E pode recomeçar tudo aqui,

E aí,

Em Emaús,

Em casa e à mesa,

Com Jesus.

 

António Couto


O PERCURSO DE TOMÉ, CHAMADO GÉMEO

Abril 18, 2020

1. Novos percursos se abrem, e é aqui que se inicia o Evangelho do Domingo II da Páscoa (João 20,19-31), que o Papa João Paulo II, em 30 de Abril do ano 2000, consagrou como «Domingo da Divina Misericórdia». Os discípulos estão num lugar, com as portas fechadas, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter, vem e fica no MEIO deles, o lugar da Presidência e da Precedência, e saúda-os: «A paz convosco!». Mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, e agrafa-os à sua missão: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): está sempre em missão; o nosso está no presente, e passa. O presente da nossa missão aparece, portanto, agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-nos dito que os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo, também eles vêm com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão. Este sopro só aparece aqui em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

2. A identidade do Senhor Ressuscitado está para além do rosto. Por isso, vê-lo não implica necessariamente reconhecê-lo, como sucede em não poucas páginas dos Evangelhos. A identidade do Ressuscitado não é do domínio da fotografia. Vem de dentro. Reside na sua vida a nós dada por amor até ao fim, aponta para a Cruz. Por isso, Jesus mostra as mãos e o lado, sinais abertos para entrar no sacrário da sua intimidade, dádiva infinita que rebenta as paredes dos nossos olhos embotados e do nosso coração empedernido. Entenda-se também que a missão que nos é confiada é mostrar Jesus. Está bom de ver que não basta exibir as capas do catecismo que mostram um Jesus de olhos azuis. Só o podemos mostrar com a nossa vida dele recebida, e igualmente dada e comprometida.

3. O narrador informa-nos logo a seguir que, afinal, Tomé (Toma’), chamado Gémeo (Dídymos), não estava com eles quando veio Jesus. Dídymos é, na verdade, a tradução literal, em grego, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»]. Mas os outros diziam-lhe repetidamente (élegon: imperf. de légô), imperfeito de duração, com a mesma linguagem da Madalena, mas no plural: «Vimos (heôrákamen: perf. de horáô) o Senhor!» (João 20,25). Portanto, também eles são testemunhas, pois viram e continuam a ver o Senhor, de acordo com o tempo perfeito do verbo grego. Mas Tomé quer tudo controlado e verificado, ponto por ponto, e refere: «Se eu não vir (ídô: conj. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) nas suas mãos a marca dos cravos, e não meter o meu dedo na marca dos cravos e não meter a minha mão no seu lado, não acreditarei» (João 20,25).

4. Novo desarme: oito dias depois, estavam outra vez os discípulos com as portas fechadas (mas o medo já não é mencionado), e Tomé estava com eles. Veio Jesus, ficou no MEIO, saudou-os com a paz, e dirigiu-se logo a Tomé desta maneira: «Traz o teu dedo aqui e vê (íde: imper. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Aí está Tomé adivinhado, desvendado e desarmado. Também ele podia ter pensado: «E como é que ele sabia que eu queria fazer aquilo?». Tomé cai aqui, adivinhado e antecipado, por assim dizer, rasteirado, precedido por Aquele que nos precede sempre. Não quer tirar mais provas. Confessa de imediato: «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20,28), uma das mais belas profissões de fé de toda a Escritura. E Jesus diz para ele: «Porque me viste e continuas a ver (heôrakás me), tempo perfeito de horáô, acreditaste e continuas a acreditar (pepísteukas), tempo perfeito de pisteúô; felizes (makárioi) os que, não tendo visto (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo), acreditaram (pisteúsantes: part. aor. de pisteúô)!» (João 20,29), tempo aoristo, fé e confiança, adesão histórica. Esta felicitação é para nós.

5. Notável o percurso dos Discípulos. Fechados e com medo, viram Jesus entrar e ficar no MEIO deles, sem que as portas e as paredes constituíssem obstáculo. Trocaram o medo pela alegria, e também eles começaram a ver de forma continuada o Senhor e a dizê-lo repetidamente. Notável e exemplar para nós o percurso de Tomé, chamado Gémeo: não estava com a comunidade, tão-pouco aceitou o seu testemunho; queria provas. Mas quando veio Jesus e o adivinhou, entrando dentro dele, precedendo-o e presidindo-o, entregou-se completamente! Tomé, chamado Gémeo! Irmão gémeo! Irmão gémeo de quem? Meu e teu, assim pretende o narrador. De vez em quando, também nós não estamos com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. Por vezes, também duvidamos e queremos provas. Como Tomé, chamado Gémeo. Salta à vista que também devemos estar com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. E professar convictamente a nossa fé no Ressuscitado que nos preside (no MEIO) e nos precede sempre. Como Tomé, chamado Gémeo.

6. A lição do Livro dos Atos dos Apóstolos (2,42-47, mas ver também 4,32-35 e 5,12-16) deste Domingo II da Páscoa é outra vez soberba. Trata-se de uma visita guiada ao Cenáculo, a primeira Catedral da Igreja nascente – mas com ramificações em todas as casas, em todos os corações –, bem assente em quatro colunas: o ensino dos Apóstolos (1), a comunhão fraterna (2), a fração do pão (3) e a oração (4). Com a boca cheia de louvor, os olhos de graça, as mãos de paz e de pão, as entranhas de misericórdia, a comunidade bela crescia, crescia, crescia. Não admira. Era tão jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela!

7. Filhos renascidos da grande misericórdia do nosso Deus, verificada pela Ressurreição de Jesus Cristo, exultamos de alegria. Não o tendo visto na história (aoristo de ideîn), nós o amamos agora, e não o vendo agora com os nossos olhos (horôntes), acreditamos agora (pisteúontes). A Primeira Carta de Pedro (1,3-9) apresenta-nos uma síntese feliz da visão nova da fé e da obra da misericórdia de Deus em nós, os dois grandes temas deste Domingo II da Páscoa ou da Divina Misericórdia.

8. Cantemos, por isso, o Salmo 118, que é o último canto do chamado «Pequeno Hallel Pascal» (113-118), mas que era seguramente cantado noutras festividades de Israel, nomeadamente na Festa das Tendas, tendo em conta o seu teor processional, e até a sua distribuição por coros. Este Salmo levanta-se do meio da alegria própria da Festa [«Este é o dia que o Senhor fez,/ nele nos alegremos e exultemos!»: v. 24], e eleva ao Deus sempre fiel uma grande Ação de Graças por todas as maravilhas que Ele tem realizado em favor do seu povo. Sim, toda a nossa energia e toda a melodia que nos habita é o próprio Senhor, conforme o belíssimo v. 14: «Minha força e meu canto YAH!», que soa assim em hebraico: ‘azzî wezimrat YAH. Além do nosso Salmo, a expressão densa e impressiva encontra-se ainda em Êxodo 15,2 e Isaías 12,2. YAH está por YHWH. O refrão que vamos cantar aparece a abrir e a fechar este grande Salmo, e constitui como que o envelope onde guardamos a bela melodia que cantamos. Soa assim: «Louvai o Senhor porque Ele é bom,/ porque para sempre é o seu amor!» (vv. 1 e 29).

 

Senhor Jesus,

Há tanta gente que Te procura à pressa e Te quer ver.

Mas quando dizem que Te querem ver,

Não é para Te conhecer.

É o teu rosto, a cor dos teus olhos e cabelos,

A tez da tua pele, a tua forma de vestir que os atrai e contagia.

Querem ver-te como se fosse numa fotografia.

 

Mas Tu, Senhor Jesus Ressuscitado,

Quando Te dás a conhecer a nós,

Não mostras o rosto,

Uma fotografia,

O cartão de cidadão.

Se fosse assim,

Mal seria que os teus amigos Te não reconhecessem.

 

E o facto é que,

Quando surges no meio deles,

Não Te reconhecem.

E em vez do rosto,

São, afinal, as mãos e o lado que apresentas.

Entenda-se: é a tua maneira de viver que nos queres fazer ver.

Na verdade, a tua identidade é dar a vida,

É dar a mão e o coração.

É essa a tua lição, a tua paixão, a tua ressurreição.

 

Senhor, dá-nos sempre desse pão!

 

António Couto


TÚMULO ABERTO, MAS NÃO VAZIO: CHEIO DE SINAIS!

Abril 11, 2020

1. «Esta é a Obra do Senhor!», assim gritava com «voz forte» (grito de Vitória e de Revelação) Jesus na Cruz, deci­frando a Cruz, recitando o Salmo 22 todo (entenda‑se a meto­nímia de Mateus 27,46 e Marcos 15,34, citando apenas o início). Par­ticularmente ao longo da Semana Santa, dita «Grande» ou «dos Mistérios» pela Igreja do Oriente, Deus expôs (proétheto) diante dos nossos olhos atónitos – e logo a partir do Domingo de Ramos – o Rei Vitorioso no seu Trono de Graça e de Glória, que é a Cruz (veja‑se aqui demoradamente Romanos 3,24‑25), tomando posse da sua Igreja‑Esposa para o efeito redimida na «água e no sangue» (João 19,34; Efésios 5,25‑27), isto é, no Espírito Santo, conforme ensina Jesus com «voz forte» (!) no grande texto de João 7,37-39. Para aqui apontava também a «caminhada» quaresmal, a qual – vê‑se agora claramente – só daqui podia afinal ter partido. É este «o Mistério Grande» (Efésios 5,32) que nos foi dado a conhecer por Deus (Romanos 16,25‑26; 1 Coríntios 2,7‑10; Efésios 3,3‑11; Colossenses 1,26‑27). E só Deus pode dar tanto a conhecer (veja‑se agora o texto espantoso de Efésios 3,14‑21). É quanto Deus operou na Cruz! Por isso, exultamos e nos alegramos (com a Chará, a alegria grande da Páscoa), pois «este é o Dia que o Senhor fez» (Salmo 118,24) e em que o Senhor nos fez! É o «Primeiro Dia» (Mateus 28,1; Marcos 16,2 e 9; Lucas 24,1; João 20,1 e 19; Atos 20,7; 1 Coríntios 16,2), e tal permanecerá para sempre (!), o «Dia do Senhor, o Dia Grande» (Atos 2,20; Apocalipse 1,10), o Domingo, todos os Domingos, o Ano Litúrgico todo, o Ano da Graça do Senhor, em que a Igreja‑Esposa, redi­mida, santificada, bela (apresentada no Apocalipse com voz forte), celebra jubilosamente o seu Senhor, à volta do al­tar, do ambão, do batistério: tudo «sinais» do túmulo aberto do Senhor Ressuscitado, donde emerge continuamente a mensagem da Ressurreição. Aleluia!

2. O Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor oferece-nos o grande texto de João 20,1-10, com a descoberta do túmulo aberto, mas não vazio! Túmulo aberto: a pedra muito grande (Marcos 16,4) do poder da morte tinha sido retirada, e o Anjo do Senhor sentou-se sobre ela (Mateus 28,2), impressionante imagem de soberania e vitória! Mas não vazio: está, na verdade, cheio de sinais, que é preciso ler com atenção: um jovem sentado à direita com uma túnica branca (Marcos 16,4), dois homens com vestes fulgurantes (Lucas 24,4), as faixas de linho no chão e o sudário enrolado noutro lugar (João 20,6-7). É importante ler os sinais e ouvir as mensagens! Se o túmulo estivesse vazio, como vulgarmente e inadvertidamente dizemos, estávamos perante uma ausência cega e muda. Na verdade, os sinais e as mensagens mostram uma presença nova que somos convidados a descobrir.

3. O texto imenso de João 20,1-10 coloca-nos ainda diante dos olhos o início de diferentes percursos por parte de diferentes figuras face aos sinais encontrados ou ainda não, lidos ou ainda não:

4. A Madalena vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e vê, com um olhar normal (verbo grego blépô) que até causa aflição a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus (João 20,1), tal é o significado imposto por êrménos, particípio perfeito passivo de aírô. De facto, até dói e aflige que se veja o inefável como quem vê uma coisa qualquer, cegos como estamos tantas vezes pelos nossos preconceitos! Esta pedra para sempre retirada por Deus reclama e estabelece contraponto com a pedra por algum tempo retirada (aoristo de aírô) pelos homens do túmulo de Lázaro (João 11,39 e 41). Cega pelos seus preconceitos, a Madalena falha a visão do inefável, e corre logo, equivocada, a levar uma falsa notícia: «Retiraram (aoristo de aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (João 20,2). Mas o leitor atento e competente do IV Evangelho não estranha esta cegueira da Madalena. É que o narrador informa-nos que ela anda ainda no escuro (João 20,1), e, no IV Evangelho, quem anda na noite e no escuro, anda perdido na incompreensão e na cegueira, e nada entende ou dá bom resultado. A oposição luz – trevas atravessa de lés-a-lés o inteiro texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os homens é Jesus (João 1,9). Sem esta Luz que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na cegueira, na dor, no fracasso, na incompreensão. É assim, narrativamente – e, portanto, exemplarmente, para nós, leitores –, que somos levados a constatar como Nicodemos, que anda de noite (João 3,2) e nada entende, como os discípulos, que nada pescam de noite (João 21,3) e no meio do escuro andam perdidos (João 6,17-18), como o homem da noite na noite perdido, que é Judas (João 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido na noite e no meio dos guardas (João 18,17-18).

5. A notícia levada pela Madalena põe em movimento Simão Pedro e o «discípulo amado». Anote‑se a progressão e repare-se atentamente nos verbos utilizados: 1) Maria Madale­na vai ao túmulo, e vê (blépô) a pedra (da morte) retirada. 2) O outro discípulo, «o discípulo amado», corria juntamente com Pedro, mas chegou primeiro (!), inclina-se e vê (blépô) as faixas de linho no chão. 3) Pedro, que corria juntamente com «o discípulo amado», mas SEGUINDO-O e chegando depois… Na verdade, ainda em João 18,15, os dois SEGUIAM Jesus, que é a correta postura do discípulo. Pedro, porém, não SEGUIU Jesus até ao fim: ficou ali estacionado no pátio do Sumo-Sacerdote! Mais do que isso e pior do que isso, em vez de estar com Jesus, Pedro ficou com os guardas, a aquecer-se com os guardas! (João 18,18). Pedro, portanto, não fez o curso ou o percurso de discípulo de Jesus até ao fim! Deixou por fazer umas quantas unidades curriculares. É por isso que agora tem de SEGUIR alguém que tenha SEGUIDO Jesus até ao fim. É por isso, e só por isso – nada tem a ver com idades (Pedro mais idoso, o «discípulo amado» mais jovem!) – que Pedro tem agora de SEGUIR o «discípulo amado», chegando naturalmente ao túmulo atrás dele. Note-se ainda que, não obstante um ir à frente e o outro atrás, correm os dois juntos. É aquilo que ainda hoje vemos na catequese e na mistagogia cristãs: corremos sempre juntos, mas alguém vai à frente, para ensinar o caminho aos outros! Belíssima comunhão em corrida!

6. Pedro, que corria juntamente com o «discípulo amado», mas SEGUINDO-O, entra no túmulo que o «discípulo amado» cuidadosamente sinaliza e lhe aponta (ele é o grande sinalizador de Jesus: veja-se João 13,24 e 21,7), e vê (theôréô: um ver que dá que pensar e que abre para a fé: cf. João 2,23; 4,19; 6,2.19.40.62) as faixas de linho no chão e o sudário que cobrira o Rosto de Jesus, à parte, dobrado cuidadosamente, como «sinal» do Corpo ausente do Ressuscitado! Conclusão: o corpo de Jesus não foi roubado, como supôs a Madalena equivocada! Os ladrões não costumam deixar a casa roubada tão em ordem! Por isso, Pedro vê com o olhar de quem fica a pensar no que se terá passado… Talvez seja coisa de Deus… Com a indica­ção preciosa de que o véu foi cuidadosamente retirado do seu Rosto, a Revelação convida agora a contemplar o Rosto divino no Rosto humano do Ressuscitado: vendo‑o a Ele, vê‑se o Pai (cf. João 14,9).

7. «O discípulo amado» entrou, viu com um olhar histórico (tempo aoristo) de quem vê por dentro a identidade (verbo grego ideîn), e acreditou (v. 8). É o olhar de quem vê o inefável, verdadeiro clímax do relato: anote‑se a passagem do verbo ver do presente para o aoristo, e de fora para dentro: «o discípulo amado» viu na história a identidade dos «sinais»: toda a Economia divina realizada! O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde.

8. A narrativa de João 20 abre com a Madalena, que vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e vê, com um olhar normal (verbo grego blépô) a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus (João 20,1), tal é o significado imposto por êrménos, particípio perfeito passivo de aírô. Conforme a grandiosa narrativa, a Madalena tem diante dos olhos o inefável. Mas cega como está pelos seus preconceitos, a Madalena falha a visão do inefável, e corre logo, equivocada, a levar uma falsa notícia: «Retiraram (aoristo de aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (João 20,2). Não é de admirar, dado que a Madalena anda pelo escuro, e, no IV Evangelho, quem anda no escuro ou na noite, não vê a Luz.

9. Ainda que não faça parte do Evangelho deste Dia Grande, vale a pena, para que não fique perdido, acostar aqui o percurso que a Madalena continua a fazer em João 20,11-18. Mudou de olhar. Aparece agora junto do túmulo a chorar, inclina-se e vê, agora também (como Pedro) com um ver que dá que pensar (verbo grego theôréô), dois anjos vestidos de branco (cor divina), estrategicamente colocados no túmulo, como sinais. Perguntam à Madalena: «Mulher, por que choras?». Na verdade, ela ainda está do lado da morte, do escuro, da dor, da tristeza. A paisagem em que se move ou a página que a move ainda é o Capítulo 19 de João, daquele Jesus morto por mãos humanas retirado (João 19,38), daquele Rei por mãos humanas retirado (João 19,15[2x]), ou até daquela pedra por mãos humanas retirada do túmulo de Lázaro (João 11,39 e 41) – em todos os casos o verbo aírô no aoristo –, não sabendo ainda ler a pedra para sempre retirada por Deus, de João 20,1. É ainda à procura de um corpo morto que ela anda. De um corpo morto a que ela se acha com direito de posse. Talvez seja este o preconceito que lhe tolhe o olhar e a impede de ver o inefável. Na verdade, responde assim à pergunta feita pelos dois anjos: «Retiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram» (João 20,13). Note-se outra vez o aoristo do verbo aírô, e note-se agora também o possessivo «meu» afeto a Senhor.

10. Voltando-se para o jardim, vê, outra vez com um ver que dá que pensar (theôréô), um homem de pé, que ela pensa ser o jardineiro, mas que, na verdade, é Jesus, que a deixa espantada com a segunda pergunta que lhe faz: «Mulher, por que choras? (normal, pois ela continuava a chorar); a quem procuras?». Esta segunda pergunta desvenda a Madalena, retirando-a dos preconceitos que a cegam. Precedendo-a, antecipando-se a ela, adivinhando-a com aquela pergunta direita ao coração, Jesus dá-se a conhecer à Madalena, deixando-a a pensar mais ou menos assim: «E como é que este desconhecido sabe que eu ando à procura de alguém neste jardim?». Compreendendo-se compreendida, a Madalena começa a sair aqui da sua cegueira, mas ainda precisa de algum tempo para mudar de paisagem, de margem, de página, do Capítulo 19 para o Capítulo 20. A resposta que dá é elucidativa: «Se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu o retirarei» (João 20,15).

11. Ao responder com um pronome três vezes repetido, que esconde o nome, vê-se bem que a Madalena sabe que aquele desconhecido bem sabe quem ela procura. E confessa aqui o intento que desde aquela madrugada, ainda escuro, a movia: retirar para si aquele corpo morto! Manifesta que anda ainda perdida no Capítulo 19, quando responde «em hebraico» (hebraïstí) a Jesus que acabava de pronunciar o nome dela: «Maria!» (João 20,16). A locução adverbial «em hebraico» (hebraïstí) é uma ponte para João 19,13 e 17. Equivocada como anda, ainda quer reter o Ressuscitado, mas não pode: aprende ainda que nada nem ninguém pode reter o Ressuscitado, aquela vida nova, aquele modo novo de estar presente! Leva tempo até passar da margem da morte para a margem da vida verdadeira! E finalmente vai anunciar aos discípulos, que Jesus significativamente chama «meus irmãos» (João 20,17), enviada pelo Ressuscitado: «Vi (heôraka) o Senhor!» (João 20,18). Nova mudança de olhar. O que ela diz agora é: Vi e continuo a ver o Senhor! É o que significa o verbo grego horáô, no tempo perfeito. É o olhar da testemunha que vê o inefável! Aqui termina a Madalena o seu longo e belo percurso, e sai de cena.

 

É o amor, ainda que imperfeito,

É o amor, ainda que com defeito,

É o amor que faz correr a Madalena.

 

É o amor, ainda que imperfeito,

É o amor, ainda que com defeito,

É o amor que faz chorar a Madalena.

 

Mas tu sabes, meu irmão da páscoa plena,

Tu sabes que há outro amor em cena,

E é esse amor que faz amar a Madalena.

 

12. Os primeiros cristãos rapidamente fizeram do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto, que o Imperador Adriano (117-135) soterrou e paganizou, estabelecendo ali cultos pagãos (no lugar da Ressurreição, colocou a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore), com o intuito de desviar deles os cristãos. O mesmo fez em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, Em 326, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, que aí terá descoberto a Cruz do Senhor, mandou demolir as construções pagãs, e vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela Anástasis, grandioso mausoléu que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota, e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a veneração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. Esta comemoração ganhou novo relevo quando, em 630, o imperador Eráclio derrotou os Persas, e as relíquias da Cruz foram trazidas processionalmente para Jerusalém. Esta bela Basílica Constantiniana foi danificada por diversas invasões e ocupações. A atual Basílica do Santo Sepulcro, que os ortodoxos e os árabes chamam Anástasis e Qiyama, termos que em grego e árabe significam «Ressurreição», é fruto de cinquenta anos de trabalho dos Cruzados (1099-1149). Aqui estão guardadas as mais fundas raízes da nossa vida cristã, hoje quase uma espécie de «condomínio» de três Igrejas cristãs, infelizmente separadas entre si: a igreja greco-ortodoxa, a romano-católica e a armena. Aqui se sente ao vivo a mesma e comum fé pascal, mas também o drama da separação.

13. Na Leitura que hoje escutamos do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-43), os Apóstolos dão testemunho do que viram. Foi‑lhes dado ver exatamente para dar teste­munho. Viram e testemunham o Batismo de Jesus, a execução da sua missão filial batismal, a sua Morte na Cruz, a sua Ressurrei­ção Gloriosa, a sua Vinda Gloriosa. Mas os Apóstolos insistem que também os Profetas [= Antigo Testamento] dão testemunho d’Ele Ressuscitado, no qual se cumpre para nós a «remissão dos pecados», o Jubileu divino do Espírito Santo (v. 43). A base profética é imponente: Jeremias 31,34; Isaías 33,24; 53,5‑6; 61,1; Ezequiel 34,16; Daniel 9,24. Ver depois João 20,19‑23. «As Escrituras» (então o Antigo Testamento) apontam para o Ressuscitado! O Ressuscitado remete para «as Escrituras». Cumplicidade entre o Ressuscitado e «as Escrituras». Na verdade, o Ressuscitado cumpre e enche as «Escrituras». Não está depois delas ou no fim delas. Está no meio delas, fá-las transbordar, transborda delas.

14. O Capítulo III da Carta aos Colossenses (3,1-4) trata a «vida nova» em Cristo, que é vida batismal, operada pelo Espírito Santo que faz morrer e renascer na Fonte da Graça. Por isso, adverte solenemente Paulo: «procurai as coi­sas do alto» (v. 1), «pensai as coisas do alto» (v. 2), exorta­ção que ecoa ainda no Diálogo que antecede o Prefácio: «Corações ao alto!», a que respondemos com a alegria e a sabedoria do Espírito: «O nosso coração está em Deus!», enquanto ecoa ainda em cada coração habitado pelo Espírito o «Glória a Deus nas alturas!».

15. Em alternativa a Colossenses 3,1-4, pode ler-se e escutar-se 1 Coríntios 5,6-8. A sua linguagem é da cor da Páscoa (grego páscha, hebraico pesah). O Novo Testamento usa o termo grego páscha [= Páscoa] por 28 vezes, assim distribuídas: 24 vezes nos Evangelhos + Atos 12,4 e Hebreus 11,28, todas em referência exclusiva à Páscoa hebraica do Antigo Testamento; as duas menções que faltam são precisamente 1 Coríntios 5,7 e Lucas 22,15, esta com o precioso lógion de Jesus: «Desejei ardentemente esta Páscoa (toûto tò páscha) comer convosco». Em 1 Coríntios 5,7, lemos a expressão tò páscha hêmôn etýthê Christós, cuja tradução não pode ser «Cristo, a nossa Páscoa, foi imolado», como se vê habitualmente, mas «durante a nossa Páscoa (hebraica), foi imolado Cristo». Os motivos são gramaticais (tò páscha hêmôn é um acusativo adverbial) e teológicos: o cordeiro da páscoa não é um sacrifício imolado; não é queimado sobre o altar; é comido em família. Sacrifício da Páscoa era a ʽôlat-tamid, o holocausto perpétuo, diário, o sacrifício de dois cordeiros, filhos de um ano, um de manhã e outro de tarde, conforme Êxodo 29,38-42 e Números 28,3-8, e que, sendo diário, precedia qualquer celebração festiva. Só depois deste sacrifício quotidiano, se procedia, em dias de festa, como é a Páscoa, ao sacrifício da festa propriamente dito, sacrifício suplementar, e que, na Páscoa, consistia num «sacrifício de ovelhas e bois», este sim, «Páscoa imolada para o Senhor» (Deuteronómio 16,2). De notar também que o Novo Testamento desconhece em absoluto o adjetivo «pascal», de que nós fazemos uso indiscriminado, e não pensado. A restante linguagem da cor da Páscoa que 1 Coríntios 5,6-8 mostra é o fermento (hamets) e os pães ázimos (matstsôt). Servem os termos para Paulo reclamar dos cristãos vida nova (pães ázimos), sem malícia (fermento velho).

 

Páscoa é Páscoa. Simplesmente.

Sem I.V.A. nem adjetivo pascal.

 

Páscoa é lua cheia, inconsútil, inteira,

Sementeira de luz na nossa eira.

 

Deixa-a viver, crescer, iluminar.

Afaga-lhe a voz e o olhar.

 

Não lhe metas pás, não lhe deites cal.

Não lhe faças mal.

Não são notas enlatadas, brasas apagadas.

É música nova, lume vivo e integral.

 

Não é paragem, mas passagem,

Aragem a ferver e a gravar em ponto Cruz

A mensagem que arde no coração dos dois de Emaús.

A Páscoa é Jesus.

 

António Couto


NA NOITE SANTA

Abril 11, 2020

1. «Este é o Dia que o Senhor fez!» (Salmo 118,24). Aleluia! Este é o Dia que o Senhor nos fez! Aleluia! Este é o Dia em que o Senhor nos fez! Aleluia! «Por isso, estamos exultantes de alegria» (Salmo 126,3).

2. Este é o Dia em que desfiamos com amor o rosário das tuas maravilhas, tantas elas são, percorrendo a avenida das tuas Escrituras desde a Criação até à Páscoa, desde a Páscoa até à Criação. Tanto faz. Porque neste Dia novo o tempo não nos mede e nos afasta e nos cataloga em séculos e milénios, mas põe-nos todos a conviver lado a lado. É assim que lemos e compreendemos que no teu «Filho amado», Jesus Cristo, Imagem tua e «primogénito dos mortos», «tudo foi criado» (Colossenses 1,16), «e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Lemos e compreendemos que o «teu Filho, Jesus Cristo, não foi Sim e não, mas unicamente Sim» (2 Coríntios 1,19). Passeámos assim no jardim da tua Criação boa e bela, visitámos as suas 452 palavras (Génesis 1,1-2,4a), e nelas não encontrámos, de facto, um único «não». Se o teu Filho amado, Jesus Cristo, Imagem tua e primogénito dos mortos, foi sempre Sim e nunca não, e se foi n’Ele que foram criadas todas as coisas, então a Criação inteira tem também de ser Sim, Sim, Sim, e nunca não.

3. Que belo mundo novo, Senhor, quiseste depositar nas nossas mãos! Que grande Sim nos confiaste, Senhor, antes de nós merecermos de Ti qualquer confiança! Visitámos depois o Egipto opressor, e de lá, Tu nos libertaste, Senhor, fazendo-nos atravessar a pé enxuto o mar Vermelho, como se fosse uma «planície verdejante» (Sabedoria 19,7). Vestíamos roupas brancas, trazíamos o coração em festa, e nos lábios um cântico novo, como sucede também ainda hoje, Senhor, neste Dia admirável da tua Ressurreição, em que cantamos outra vez com inefável alegria: «Minha força e meu canto é o Senhor! A Ele devo a minha liberdade!» (Êxodo 15,2).

4. Com Isaías e Ezequiel, recordámos depois as paisagens tristes e sombrias do nosso exílio, mas também da tua admirável proteção. Diz uma velha história rabínica que, um dia, «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o arguto rabino terá respondido que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas, gastando o nosso dinheiro com aquilo que não alimenta, e esquecendo o teu insistente convite: «Vinde e comprai sem dinheiro vinho e leite […]. Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom» (Isaías 55,1-3). Era assim que andávamos, Senhor, perdidos longe de ti e longe de nós. Mas também lá, à perdição em que andávamos, chegou a tua mão criadora, redentora, libertadora e carinhosa, e reconstruíste a nossa vida sobre a alegria, embelezaste o nosso rosto com óleo perfumado, e vestiste-nos com a veste branca dos teus filhos. E como se isto não enchesse a medida do teu amor sempre sem medida, ainda fizeste connosco uma Aliança nova, e deste-nos um coração novo e um espírito novo.

5. Coração novo, música nova, ensinada pelos Anjos nos campos de Belém: Gloria in excelsis Deo! Outra vez lado a lado, oh milagre da Escritura Santa, dois acontecimentos no tempo separados: o nascimento de Jesus e a sua morte e Ressurreição: os mesmos Anjos, as mesmas faixas a envolver o Menino e o Crucificado, o Menino deposto na manjedoura, o Crucificado deposto no sepulcro. Extraordinária acostagem do Menino e do Crucificado. E S. Paulo a descodificar o nosso Batismo, pelo qual somos sepultados com Cristo, para com Ele ressurgirmos para uma vida nova (Romanos 6,3-5).

6. E assim chegamos sempre ao Ressuscitado. Àquele Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras, que se levanta do chão raso e da folha plana de papiro ou de papel, elevando a humana vida e a inteira Escritura à sua Plenitude. Mal aparecem as primeiras três estrelas no firmamento, que acendem o Primeiro Dia da semana (tê epiphôskoúsê eis mían sabbátôn) (Mateus 28,1a), as mulheres vêm ao túmulo para ver (theôréô) com atenção e carinho (Mateus 28,1b). Já antes estavam lá a ver (theôréô) da mesma maneira (Mateus 27,55), únicas duas menções deste verbo no Evangelho de Mateus. A pedra da morte não pode ser retirada por nós. É manifesta a nossa impotência face à morte. Levanta-se, porém, um terramoto grande (teofania), vem um Anjo, rola a pedra, e sentava-se (ekáthêto: imperf. de káthêmai) sobre (epánô) ela (Mateus 28,2). O sentar-se sobre (epánô) a pedra da morte indica domínio sobre a morte, é como estar sentado sobre um trono (cf. Mateus 23,22). Por sua vez, o uso do verbo no imperfeito, indica duração. À vista do sucedido, os guardas de serviço, que vigiavam um eventual furto, ficaram cheios de medo, e caíram como mortos (Mateus 28,4). Às mulheres, que procuravam o fruto, o Anjo diz para não terem medo, desvenda o que elas sentem e pensam: «Sei que procurais Jesus, o Crucificado» (Mateus 28,5), e entrega-lhes um novo saber: «Não está aqui; foi Ressuscitado», e convida-as a irem identificar (ideîn) o lugar onde jazia (Mateus 28,6).

7. A pedra retirada do sepulcro e o facto de o Anjo se sentar sobre ela indica o fim do domínio da morte. A pedra não é retirada para Jesus sair, mas para que as mulheres possam entrar e verificar a ausência do corpo de Jesus. E a ausência do corpo de Jesus aqui, neste lugar, como bem sabiam as mulheres (Mateus 27,61), mostra que a Ressurreição de Jesus não é menos real do que a sua morte. Não é, todavia, suficiente que as mulheres vejam o túmulo aberto; é necessário o anúncio da Ressurreição feito pelo Anjo. E é ainda o Anjo que as faz dar um novo passo em frente, incumbindo-as de uma missão: «Ide dizer aos seus Discípulos que Ele foi ressuscitado dos mortos e vos precede na Galileia» (Mateus 28,7). E elas partiram imediatamente, e, com alegria grande, correram a levar a notícia (Mateus 28,8). Mas pelo caminho são surpreendidas pelo próprio Jesus Ressuscitado, que as convida à alegria e a não ter medo, e reformula, de forma maravilhosa, o último dizer do Anjo: «Ide dizer aos meus Irmãos…» (Mateus 28,9-10).

8. O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde. É por isso que a Paixão é um relato, mas a Ressurreição, que põe fim ao relato, só nos pode chegar como Notícia, vinda de fora, como a Aurora.

9. É por isso que esta Noite é uma fulguração de Luz e Lume novo. Desde as brasas acesas, ao Círio Pascal aceso, ao nosso coração aceso como o dos discípulos de Emaús. É também por isso que o Batismo começou por ser chamado «Iluminação», sendo a Vigília Pascal também a grande Noite Batismal. E cada batizado levará para sempre a arder dentro de si este Lume Novo.

10. Ilumina, Senhor, a tua Igreja Santa, e os seus novos filhos que hoje nascem na fonte batismal. Que os nossos passos sejam sempre firmes, e o nosso coração sempre fiel. Vem, Senhor Jesus! Aleluia!

 

Tu, Senhor, Tu falas

E um caminho novo se abre a nossos pés,

Uma luz nova em nossos olhos arde,

Átrio de luminosidade,

Pão

De trigo e de liberdade,

Claridade que se ateia ao coração.

 

Lume novo, lareira acesa na cidade,

És Tu, Senhor, o clarão da tarde,

A notícia, a carícia, a ressurreição.

 

Passa outra vez, Senhor, dá-nos a mão,

Levanta-nos,

Não nos deixes ociosos nas praças,

Sentados à beira dos caminhos,

Sonolentos,

Desavindos,

A remendar bolsas ou redes.

 

Sacia-nos.

Envia-nos, Senhor,

E partiremos

O pão,

O perdão,

Até que em cada um de nós nasça um irmão.

 

António Couto


PAIXÃO DO SENHOR

Abril 10, 2020

1. Caríssimos irmãos. Foi-nos dada a graça de nos reunirmos aqui, na Casa de Deus, nesta Sexta-Feira Santa, para celebrarmos, unidos de alma e coração à Igreja inteira, a Una e Santa, a Paixão do único Senhor da nossa vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo.

2. E foi-nos dado seguir, passo a passo, com a conversão do coração e o louvor no coração, o imenso relato da Paixão do único Senhor da nossa vida, a partir do Evangelho segundo S. João (18,1-19,42). Foi assim que atravessámos o Cédron e entrámos no «jardim». É de noite, mas arde a LUZ, a LUZ, a LUZ. É verdade que já não estamos todos. Judas perdeu-se na NOITE, na NOITE, na NOITE (João 13,30). Virá depois com archotes e lanternas – mísero sucedâneo da LUZ – e com armas (João 18,3). Vem prender a LUZ, mas cai encandeado (João 18,6). Tem de ser a LUZ a ofuscar-se por amor e a entregar-se a ele por amor. Neste ponto preciso, refere o relato de Marcos que nós fugimos todos, abandonando-o (Marcos 14,50). E fugidos andaremos, e perdidos, na noite e no frio, até sermos outra vez por Ele encontrados e recolhidos. Mas já, entretanto, Pedro, perdido, se acolhe a outra luz e se aquece a outro lume (João 18,18). E, interpelado, nega ter andado com Jesus, ter alguma coisa a ver com Jesus, ter parte com Jesus. Nega mesmo conhecer Jesus (Marcos 14,67-71; João 18,17-27).

3. Até que o galo canta, e começa a nascer o dia para Pedro (Marcos 14,72; João 18,1-27). Notemos que quando Judas sai, é de NOITE, e que, depois da negação de Pedro, o DIA nasce com o canto do galo. O relato de Pedro faz parte integrante do relato da Paixão, e não é um seu acompanhamento secundário. É o relato do anunciador. O canto do galo é um sinal. Traz para a cena a obra criadora do primeiro dia, em que, segundo o relato do Génesis, «Deus separou a luz e as trevas» (Génesis 1,3-5). Aqui, em contraponto, estão as trevas de Judas e a luz nascente para Pedro. Obra luminosa e criadora. Mas também anunciadora, porque este canto exerce uma função de referência entre as fases do tempo: nenhum animal é mais querigmático do que o galo. Iremos encontrá-lo sobre os nossos antigos campanários, mas já, antes disso, o encontrámos muitas vezes sobre os primeiros sarcófagos cristãos.

4. Mas vejamos ainda melhor a qualidade ou falta dela do testemunho que damos de Jesus. Também aqui a página do Evangelho é admirável e implacável. Jesus acaba de dizer ao Sumo-Sacerdote que não o interrogue a Ele, mas que interrogue aqueles que ouviram os seus ensinamentos, pois não falou às escondidas, mas em público (João 18,19-21). Impressionante verificarmos que, ao mesmo tempo que Jesus faz esta afirmação dentro do Palácio, Pedro esteja a ser interrogado cá fora, e responda negando tudo! (João 18,17.25-27).

5. Mas Jesus prossegue o seu caminho de amor até ao fim. Até à Cruz. É lá que se revela o rosto do doentio gosto pela morte que nos habita. «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,35.37.39), gritamos nós repetidamente zombando, porque o que queremos mesmo, não é que Ele se salve; o que queremos mesmo é assistir ao doentio espetáculo da morte! A tanto chegou a nossa malvadez! Um ódio sem motivo, sem fundo, nos habita (Salmo 35,19; 69,5; João 15,25). Ele é o Justo. Ele é a Bondade absolutamente gratuita, sempre Primeira e radical, igualmente sem motivo, sem fundo. Ele ama Primeiro (1 João 4,19), quando éramos ainda pecadores (Romanos 5,8). Por isso, em vez de à nossa violência oferecer mais violência, Ele acolhe-a e acolhe-nos por amor, e por amor a nós se entrega, declarando assim ultrapassados e inúteis os nossos mais requintados ódios e os nossos mais sofisticados instrumentos de guerra (cf. Isaías 2,2-4; Miqueias 4,1-3). Ali, naquele Corpo Crucificado, morto por amor, e por amor exposto por escrito diante dos nossos olhos atónitos (Gálatas 3,1), morre o nosso desejo de morte, o nosso pecado, apagado pelo fogo do amor, que declara o nosso pecado completamente inútil, inutilizado, anulado e ultrapassado (cf. Colossenses 2,14).

6. Ainda vamos a tempo de ver que, sob o olhar do Crucificado, quatro soldados levam as coisas de Jesus, que, para o efeito, dividem em quatro partes: uma para cada um deles (João 19,23). O contraponto, belo, vem de quatro mulheres (a mãe de Jesus, / a irmã de sua mãe, / Maria, mulher de Cléofas, / e Maria Madalena), que não levam as coisas de Jesus, mas se abraçam à Cruz de Jesus (para tô staurô), como se ela fosse uma pessoa (João 19,25). Elas abraçam e levam o amor de Jesus!

7. Na Cruz, Jesus reza o salmo 22, todo, desde «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Salmo 22,2), até «Esta é a obra do Senhor!» (Salmo 22,32), que são as últimas palavras do Salmo 22, que deixam a claro que é de Deus a obra da Cruz! É assim, nos braços do Pai, que Jesus morre, sendo depois o seu corpo descido da Cruz e carinhosamente envolvido em panos de linho literalmente encharcados com 32 quilos e 800 gramas de perfume! (João 19,39), à imagem do Rei messiânico cantado no Salmo 45,9. Foi sepultado no jardim, num sepulcro novo, no qual ainda ninguém tinha sido deposto (João 19,41). O Rei é sempre o primeiro em tudo. Vem depois aquela madrugada da Ressurreição.

8. Por isso, depois disso, por causa disso, os primeiros cristãos rapidamente fizeram deste Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto. O Imperador Adriano (117-135) soterrou o Santo Sepulcro e paganizou-o, estabelecendo ali cultos pagãos com a clara intenção de afastar os cristãos: no lugar do Santo Sepulcro, pôs a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore. O mesmo fez, de resto, em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, quando em 13 de Setembro de 326, por indicação de um habitante de Jerusalém, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, descobriu a Cruz do Senhor, mandou logo demolir as construções pagãs. Foi assim que vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela basílica da Anástasis, que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a adoração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. A peregrina Egéria, da Galiza, que em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «desde as 08h00 da manhã até ao meio-dia», «todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).

9. Adoremos nós também, com amor, caríssimos irmãos, neste Dia de Sexta-Feira Santa, a Santa Cruz do único Senhor da nossa vida.

 

Sim,

Eu sei, Senhor, que foi por mim que desceste a este chão

Pesado, íngreme, irregular,

De longilíneas lajes em que é fácil escorregar.

Mas os teus braços sempre abertos ajudam-me a levantar.

 

Senhor Jesus,

Segura-me no meio desta tempestade,

Segura os teus irmãos,

Segura a nossa humanidade.

 

Dá-me, Senhor Jesus, Senhor da Cruz,

A tua mão firme, nodosa e corajosa.

Agarro-me.

Sinto sulcos gravados nessa mão.

Sigo-os com o dedo devagar.

Percebo que são as letras do meu nome,

As rugas do meu rosto.

Foi então por mim que desceste a este chão

Áspero, duro e seco como adobe,

Infetado de indiferença e de Covid-19.

 

Senhora das Dores,

Senhora ao pé-da-Cruz,

Maria, minha Mãe,

Que seguiste até ao fim os passos de Jesus,

Acompanha e protege os meus passos também.

 

António Couto


CEIA DO SENHOR

Abril 8, 2020

1. Com esta celebração da Ceia do Senhor, em Quinta-Feira Santa, a Igreja Una e Santa reacende a memória da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade, e dá início ao Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do seu Senhor (o Tríduo Pascal prolonga-se até às Vésperas II do Domingo da Ressurreição), que constitui o ponto mais alto do Ano Litúrgico, de onde tudo parte e aonde tudo chega, coração que bate de amor em cada passo dado, em cada gesto esboçado, em cada casa visitada, em cada mesa posta, em cada pedacinho de pão sonhado e partilhado. É assim que Deus nos dá a graça de caminhar durante todo o Ano Litúrgico, dia após dia, Domingo após Domingo, sempre partindo da Páscoa do Senhor, sempre chegando à Páscoa do Senhor.

2. Neste Dia Santíssimo, é-nos dada a graça de poder escutar um dos mais antigos e intensos relatos da Ceia do Senhor: «O Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue (paredídeto), recebeu (élaben) o pão (árton), e dando graças (eucharistêsas), partiu-o (éklasen) e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; isto fazei para memória de mim”. Do mesmo modo fez com o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; isto fazei, sempre que o beberdes, para memória de mim”. Portanto, sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, estais a anunciar (kataggéllete) a morte do Senhor até que Ele venha (áchris hoû élthê)» (1 Coríntios 11,23-26).

3. Atravessado o relato, deparamo-nos com uma sequência verbal riquíssima, que mostra bem como a vivência da Eucaristia transforma a nossa vida desde dentro, desde o coração, sístole e diástole, ao mesmo tempo sangue e amor a circular nas nossas veias! Vida nova que vem de Deus, como quando o Espírito impele Sansão, os profetas, Paulo ou Jesus. O verbo hebraico para dizer este impulso do Espírito é paՙam. Sim, o Espírito impele-nos e empurra-nos pela estrada fora, mas esta sua ação forte e suave faz-se também sentir por dentro e desde dentro, movendo o coração e as suas avenidas, pois a família etimológica que de paՙam se desprende também serve para dizer o bater do coração e a pulsação (poՙam), e estende-se ainda ao soar do sino ou da campainha (paՙamon), cujo som festivo ouvimos há pouco, e se calou, para voltar a soar na noite da Vigília Pascal, e queremos que se oiça bem alto ao meio-dia do Domingo da Ressurreição do Senhor. É a voz do Espírito, é a força irresistível do Espírito. Portanto, o Espírito de Deus que invocamos sobre este pão e sobre este vinho, impele-nos, empurra-nos, impulsiona-nos desde fora, mas move também a nossa vida desde dentro, dando-nos um coração novo, capaz de conjugar em cada dia os verbos fundamentais da Eucaristia: RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,/ PARTILHAR e DAR,/ COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

4. Receber é um verbo fundamental, é a base da nossa vida, do pão e do vinho, vocação e missão sempre de Deus recebidas. Deus antes de nós; Deus para nós. Começamos a Eucaristia de mãos abertas para Deus, grande atitude bíblica e cristã. Dar graças. É só reconhecendo e sabendo e sentindo que a Graça tomou conta de nós, que podemos e sabemos dar graças, outra grande atitude que transforma a nossa vida. Partir, partilhar o pão. Grande atitude a de saber que nada é só meu, nem sequer a minha vida. Tudo é para partilhar com alegria com tantos irmãos e irmãs. Sim, à minha volta há só irmãos e irmãs, e à minha frente há sempre uma mesa posta com lugar para todos. Em memória de Jesus. Sim, amados irmãos e irmãs, nunca podemos esquecer aquele jeito de Jesus. Ele no centro da nossa vida e das nossas atitudes, municiando-as. Anunciar a morte do Senhor. Não se trata de chorar ou de vestir de luto, como quem diz que Jesus morreu e desapareceu. Não é essa a vocação cristã. Trata-se, antes, de saber ver e ler bem a Cruz de Jesus e o caminho da Cruz de Jesus, da sua Morte e Ressurreição. Jesus não morreu para desaparecer. Morreu para viver em plenitude e dar aos seus irmãos essa vida nova, transbordante e transformante. Sim, trata-se de anunciar que Jesus viveu e morreu para dar a vida por amor, para sempre e para todos. E é nessa atitude que continua vivo e presente no meio de nós.

5. Tivemos Hoje também a graça de ouvir o colorido relato da Páscoa primeira, celebrada pelo Povo hebreu no Egito, conforme o relato do Êxodo 12,1-14. «Páscoa» quer dizer «passagem», e põe em cena «passageiros». Com os antigos pastores beduínos seminómadas, que preenchem a memória da pré-história de Israel, aprendemos a passar festivamente para um tempo novo, do inverno para a primavera, numa festa noturna, ao luar, na primeira lua-cheia da primavera, que marca o início da transumância ao encontro de novas pastagens e de vida nova. Com os hebreus, no Egito, sedentarizámos e atualizámos a festa da primeira lua-cheia da primavera dos antigos pastores seminómadas de Israel, e fomos levados, por graça, a passar da escravidão para a liberdade, que é um caminho sempre novo, nunca terminado e sempre a recomeçar, com a cintura apertada, sandálias nos pés, cajado na mão, lume novo aceso no coração. Com Jesus Cristo, fomos, também por graça, levados a passar do pecado para a graça, da soleira da porta para a mesa, da morte para a vida em abundância, da nossa casa para a Casa do Pai. É assim que nós, por graça feitos «filhos no Filho», aprendemos a ser estrangeiros e hóspedes, tranquilamente sentados em Casa e à Mesa daquele único Senhor que servimos e que, paradoxalmente, nos serviu primeiro a nós.

6. É aí que estamos todos, meus irmãos. Aí, entenda-se, em Casa e à Mesa, hospedados. E é aí que Jesus se dirige a Pedro e a cada um de nós, e diz: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo!» (João 13,8). Isto é, não participarás da minha vida por amor Dada e Recebida (cf. João 10,17-18). «Ter parte com» Cristo é «participar» no seu supremo serviço de amor até dar a vida para receber a vida. «Ser lavado» e «ter parte com» e «estar puro» é linguagem bíblica de ordenação sacerdotal. Basta ler o texto do Livro dos Números 18,20, juntamente com os Capítulos 29 e 40 do Livro do Êxodo e o Capítulo 8.º do Livro do Levítico, acerca da ordenação sacerdotal de Aarão e dos seus filhos. Está aí, na participação na vida nova de Jesus, no modo novo de viver de Jesus, a fonte do nosso sacerdócio ministerial, mas também do sacerdócio comum dos fiéis.

7. É à Mesa que estamos, meus irmãos, nesta tarde e nesta Ceia Primeira de Quinta-Feira Santa, hospedados na Casa do único Senhor da nossa Vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo. Reparemos então bem em tudo o que Ele faz e diz no Evangelho de hoje (João 13,1-15), porque tudo n’Ele é exemplar e programático para nós. Diz-nos o narrador atento que Jesus «DEPÕE (títhêmi) o manto» a abrir a cena, no v. 4, e «RECEBE (lambánô) o manto» a fechar a cena, no v. 12. DEPOR e RECEBER são, aos nossos olhos encantados, os mesmos verbos com que, no Capítulo 10.º, o Bom Pastor «DEPÕE (títhêmi) a vida» e «RECEBE (lambánô) a vida» (v. 17). Ora, DEPOR a vida e RECEBER a vida são a imensa e penetrante tradução da Cruz. E entre uma e outra coisa, entre «DEPOR o manto» e «RECEBER o manto», «DEPOR a vida» e «RECEBER a vida», no centro geométrico e teológico do lava-pés (v. 8), aí está a advertência solene que Jesus dirige a Pedro e a cada um de nós: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo!» (João 13,8).

8. Por isso, Jesus diz, num imenso dizer revelatório ainda a retinir nos nossos ouvidos e a ecoar em tudo o que fazemos: «Como Eu vos fiz, fazei vós também!» (João 13,15). Vê-se bem, meus irmãos, que não é tanto o que se faz que interessa. Interessa muito mais o «como» se faz. O segredo é dar a vida por amor, para sempre, para todos. Jesus é o único Mestre que ensina a Viver desta maneira. E é assim que fica bem à nossa vista o significado da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade.

9. O Salmo 116, que hoje cantamos, é o quarto canto do chamado «Hallel Pascal», que reúne os Salmos 113-118. O Salmo 116 enche de música e de cor a Ceia Pascal hebraica. Na verdade, neste Salmo, canta-se a liberdade e a alegria confiante de vermos a nossa vida segura nas mãos de Deus, que nos retira do esquecimento do túmulo, e reacende a chama que se extingue. Entre os admiradores deste Salmo conta-se, com algum espanto nosso, o filósofo francês Voltaire (1694-1778), que privilegiava o v. 12: «Como restituirei (heshîb) ao Senhor por todos os seus benefícios (gemûlôt) que me deu?». O Salmo fornece logo a seguir a resposta: «O cálice da salvação erguerei,/ e o Nome do Senhor invocarei./ Os meus votos ao Senhor cumprirei,/ diante de todo o seu povo» (vv. 13-14). Este cálice erguido e partilhado assinala, no ritual (seder) da Ceia Pascal hebraica, o momento em que ia passando entre os comensais a terceira taça de vinho, a da Ação de Graças. De resto, o orante sabe bem que não pode «restituir» a Deus. Por isso, no Saltério, o sujeito do verbo «restituir» (heshîb: hiphil de shûb) é, por norma, Deus (21 sobre 28 vezes). Mas o orante pode sempre agradecer a Deus e anunciar a todos que Deus atua em favor do seu povo, ação de evangelização.

10. Que o Senhor da nossa vida nos ensine a ser fiéis ao seu dizer e ao seu modo admirável de fazer.

 

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a Deus,

Sabe a pão,

Sabe a alegria,

Sabe a Eucaristia!

 

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a amor,

A dádiva da vida,

A uma lágrima comovida.

 

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a Ceia

E a Jesus,

Luz grande que incendeia

As trevas do coração,

E faz nascer amor e comunhão.

 

António Couto