SANTO ANTÃO: UMA PROVOCAÇÃO

Janeiro 16, 2022

Neste dia 17 de Janeiro, a Igreja faz memória de Santo Antão, pai do monaquismo do Ocidente. Viveu, segundo a tradição, mais de cem anos. Terá nascido no Egito em 251, ocorrendo a sua morte em 17 de janeiro do ano 356.

Era rico. Ainda jovem, por volta dos vinte anos, durante uma celebração litúrgica, ouviu o texto de Mateus 19,21, em que Jesus diz ao jovem rico: «Se queres ser perfeito, vai, vende quanto tens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos Céus. Depois, vem e segue-me».

Chegado aqui, o jovem rico do Evangelho foi-se embora muito triste, como sabemos. Mas o jovem Antão levou o Evangelho à letra, distribuiu, com alegria, os seus muitos haveres pelos pobres, e fez-se seguidor dos passos de Cristo no deserto do Egito, onde muitos o seguiram também.

Atenção, meu irmão deste dia 17 de janeiro! A rajada de verbos que virou do avesso a vida do jovem Antão pode virar também a tua. Não esqueças: «Vai, vende, dá, vem e segue-me!».

António Couto


OS SEGREDOS DAS BODAS DE CANÁ

Janeiro 14, 2022

1. Neste Domingo II do Tempo Comum, temos a graça de ouvir e ver a grandiosa cena do Evangelho de João 2,1-12, vulgarmente conhecida como «bodas de Caná», em que Jesus transforma em vinho excelente cerca de 600 litros de água. Caná é uma aldeia situada a uns seis quilómetros a nordeste de Nazaré. A Igreja Una e Santa é hoje de novo convidada e, por isso, se reúne (é reunida) num banquete de espanto e de alegria, para saborear o Vinho Bom (kalós) e Último, cuidadosamente guardado até Agora (héôs árti), mas Agora oferecido pelo Esposo verdadeiro, que é Jesus (João 2,1-11). O segredo deste vinho Bom e Último é conhecido dos que servem (diákonoi) (João 2,9b), mas o chefe-de-mesa (architríklinos) «não sabia “DE ONDE” (póthen) era» (João 2,9a).

2. E, na verdade, aquele saber ou não “DE ONDE” (póthen) era, aqui anotado pelo narrador, é a questão fundamental que atravessa o IV Evangelho, e aponta permanentemente para Deus. Provocação para uma sociedade indiferente, com saber, mas sem sabor, sem frio e sem calor, morna, à deriva, sem calafrios e sem Deus, que vive em plena orfandade. E, todavia, já Nietzsche o dizia: «Ao homem que te pede lume para acender o cigarro,/ se o deixares falar,/ dez minutos depois pedir-te-á Deus». Entremos, pois, por esta autoestrada repleta de sinalizações para Deus, pois ela vem de Deus, e por ela vem Deus, por amor, ao encontro dos seus filhos.

3. Em João 1,48, é Natanael que, atónito, pergunta a Jesus «“DE ONDE” (póthen) me conheces?». Em João 2,9, o nosso texto de hoje, é o narrador que nos informa que o chefe-de-mesa «não sabia “DE ONDE” (póthen) era» a água feita vinho. Em João 3,8, é Nicodemos que não sabe, acerca do Espírito, «“DE ONDE” (póthen) vem nem para onde vai». Em João 4,11, é a mulher da Samaria que não sabe “DE ONDE” (póthen) tira Jesus a água viva. Em João 6,5-7, é Filipe que chumba no teste que lhe faz Jesus, ao confessor que não sabe “A ONDE” (póthen) ir comprar pão para dar de comer a umas trinta mil pessoas. Em João 7,27, as autoridades de Jerusalém confirmam que, «quando vier o Cristo, ninguém saberá “DE ONDE” (póthen) Ele é». Em João 8,14, Jesus afirma, em polémica com os fariseus: «Eu sei “DE ONDE” (póthen) venho; vós, porém, não sabeis “DE ONDE” (póthen) venho». Em João 9,29, na cena da cura do cego de nascença, os fariseus afirmam acerca de Jesus: «Esse não sabemos “DE ONDE” (póthen) é», ao que, no versículo seguinte (João 9,30), com viva ironia, o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso: vós não sabeis “DE ONDE” (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!». Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a questão posta por Pilatos a Jesus, em João 19,9: «“DE ONDE” (póthen) és Tu?».

4. Demoremo-nos, pois, um pouco com o chefe-de-mesa, uma vez que é a ele que Jesus manda os servos levar o vinho novo (João 2,8). O chefe-de-mesa prova o vinho novo, e confessa a sua ignorância acerca da sua origem: de facto, «não sabia “DE ONDE” era», diz-nos o narrador (João 2,9a). A sua pergunta é, portanto, esta: «“DE ONDE” é este vinho»? Estranho é que o seguimento do texto nos mostre que o chefe-de-mesa passe ao lado da sua própria pergunta. Ele, que não sabia, podia ter perguntado aos servos, que sabiam (João 2,9b), porque tinham recebido e executado as ordens de Jesus (João 2,7-8). Em vez de se dirigir a eles, o chefe-de-mesa opta, todavia, por se dirigir ao noivo. E em vez de formular a sua pergunta acerca da origem daquele vinho, acaba simplesmente por manifestar o seu espanto pelo estranho procedimento adotado, contrário a todos os usos e costumes vigentes, de servir primeiro o vinho reles, deixando para o fim o vinho bom! (João 2,10).

5. É fácil constatar que esta figura do chefe-de-mesa nos é apresentada no papel de pivot no que se refere ao andamento da festa; em relação ao vinho novo e bom que lhe é levado pelos servidores, manifesta desconhecer a sua proveniência; prova-o, como lhe competia, mas não esboça qualquer vontade de querer saber mais acerca dele; limita-se a manifestar a sua estranheza pelo facto de o ritual antigo ter sido alterado. O elenco destes traços figurais leva-nos a concluir que a figura do chefe-de-mesa representa bem as autoridades judaicas tradicionais, mas também todos os senhores do mundo, todos muito habituados, bons conhecedores das convenções, mas nada sensíveis à novidade que é visível em Jesus, nada sensíveis às pessoas e aos factos, que simplesmente lhes parecem saídos na roda do destino.

6. Os servos, que recebem e cumprem as ordens de Jesus, que dão o vinho novo e bom a provar aos judeus tradicionais e a toda a humanidade, são os discípulos de Jesus, que sabem a proveniência de Jesus, e sabem também discernir o «significado» deste primeiro «sinal» (sêmeíon) que Jesus fez» (João 2,11). O IV Evangelho apresenta, de resto, no seu corpo, sete sinais que requerem interpretação. Já vimos o primeiro. O segundo é a cura de uma criança gravemente doente, expressamente referido como segundo sinal (João 4,43-54). Vêm a seguir a cura de um paralítico (João 5,1-9), a multiplicação dos pães para cinco mil homens (João 6,1-15), Jesus a caminhar sobre as águas (João 6,16-21), a cura de um cego de nascença (João 9,1-12) e a ressurreição de Lázaro (João 11,1-44).

7. «A mãe de Jesus estava lá», diz-nos logo de entrada o narrador (João 2,1). Sintomático que, tendo ela sido apresentada como «mãe de Jesus» por duas vezes (João 2,1 e 3), pouco depois Jesus a trate por «mulher» (João 2,4), e não por «mãe». Este singular tratamento por «mulher» em vez de «mãe» tem sido muitas vezes visto como ríspido, distante e nada afetuoso da parte de Jesus. O mesmo tratamento por «mulher», e não por «mãe», aparece no Calvário também nos lábios de Jesus (João 19,26). Na verdade, esconde-se, neste tratamento por «mulher», um verdadeiro tesouro. A «mulher» é muitas vezes na Escritura o símbolo do Povo de Deus, e, mais concretamente de Sião-Jerusalém personificada como Esposa amada, Enlevo e Alegria de Deus, o Esposo (Isaías 54,5-7; 62,1-5), e como mãe embevecida dos filhos de Deus (Isaías 49,21; 60,1-4).

8. «Não têm vinho!», observa a mãe de Jesus, falando para Jesus (João 2,3). É uma observação de mãe atenta e de serva feliz, que está ali para amar e servir! A resposta de Jesus: «O que há entre mim e ti, mulher? Ainda não chegou a minha hora» (João 2,4), tem sido igualmente vista como uma resposta ríspida de Jesus à sua mãe. Na verdade, é uma daquelas frases que pode assumir duas valências opostas, conforme o tom de voz com que é dita. Tanto pode ser, de facto, uma resposta ríspida e de rutura, como pode ser, ao contrário, uma resposta de grande deferência e carinho. É óbvio que aqui é uma resposta de grande deferência e terno amor filial de Jesus. É como se Jesus dissesse: «Mulher, grande mulher, mulher messiânica, Aquela que atravessa em contraluz toda a Escritura Santa, que trouxeste até aqui nos teus braços a Esperança de um povo, porque precisas de mo pedir? Tu sabes bem que Eu o faço, e é já». E a mãe de Jesus, nunca chamada Maria no IV Evangelho, entendeu bem esta resposta (nós, pelos vistos, é que não). Sinal disso é que diz para os servos: «Fazei tudo o que Ele vos disser!».

9. Como Jesus dirá mais tarde – e diz hoje para nós – também no contexto de um banquete, a Eucaristia, em que somos nós os convidados: «Fazei isto em memória de Mim!».

10. «Estava lá a mãe de Jesus», como «estavam lá seis talhas», grandes e vazias (João 2,6). Mãe e Mulher da esperança, talhas vazias, mas que serão cheias de esperança até ao cimo. Delas jorrará o vinho novo e bom, até agora guardado para nós. Tempo novo e pleno do Amor de Deus. É Ele que servirá o banquete de carnes suculentas e vinhos deliciosos (Isaías 25,6).

11. O banquete Novo, Bom e Último do Reino de Deus, com o Vinho Bom e Último, até agora guardado na esperança, é agora cuidadosamente servido. É sabido que a tradição judaica descrevia com muito vinho o tempo da vinda do Messias, referindo que, nesse tempo, cada videira teria mil ramos, cada ramo mil cachos, cada cacho mil bagos, cada bago daria 460 litros de vinho! Que saber e sabor é o nosso? Sabemos e saboreamos a Alegria do Banquete nupcial? Servimos para servir este Amor, esta Alegria? Não esqueçamos que é este o «terceiro Dia!» (João 2,1), que agrafa esta Alegria à Alegria nova da Ressurreição ao «terceiro Dia», «sinal» para a Glória e para a Fé (João 2,11).

12. A página de hoje do Antigo Testamento é Isaías 62,1-5. Um simples relance de olhos por esta sublime paisagem textual de Isaías é suficiente para fazer ressaltar os acordes com o Evangelho de hoje. A cidade de Jerusalém (personificação de Israel), depois de experimentar o abandono e a desolação do Exílio, é agora olhada como uma noiva, desposada com Deus, seu Criador que, para o efeito, a recria, dando-lhe um nome novo, linguagem genesíaca (Génesis 1,1-4). E a alegria nupcial voltará a iluminar o rosto da cidade. É ainda dito, dentro do mesmo colorido, que a cidade-noiva será uma coroa (ʽatharah) nas mãos do Senhor, como o Livro dos Provérbios refere que «a esposa é a coroa (ʽatharah) do marido» (Provérbios 12,4). Belíssima linguagem nupcial, elevada dignidade para Jerusalém e para nós.

13. A comunidade cristã não pode ser vaidosa, autorreferencial, egoísta e individualista, como parecia ser Corinto, aos olhos de São Paulo (1 Coríntios 12,4-11). A comunidade bela e harmoniosa funciona como um corpo, é composta de irmãos, e todos têm em vista o bem comum. Os dons de cada um são para proveito de todos, e não para própria vanglória. Por isso, os dons são diferentes, é o Espírito que os distribui, e, postos em comum, servem para edificar a comunidade bela e harmoniosa. Como é hoje oportuno fazermos esta verificação nas nossas comunidades.

14. Comunidade bela e harmoniosa. Sujeito adequado e preparado pelo Espírito para cantar o «cântico novo» cujos tons nos dá hoje o Salmo 96, um Salmo que nos põe a cantar a Realeza de YHWH e as suas maravilhas. O melhor antídoto para o nosso culto tantas vezes apenas formal é uma fé coral que nos faz olhar, não tanto para o passado, mas para o futuro, para a notícia boa de um Deus que vem com um grande SIM para o nosso mundo. O «cântico novo» não nos põe a cantar hoje como ontem, mas hoje como amanhã.

Há um grande SIM a retinir no universo inteiro,

Na tua criação maravilhosa, verso e reverso,

Obra a obra, tudo bem feito por meio do teu Filho amado,

O Verbo, a Palavra sempre a dizer-se

E para sempre dita, anunciada, bendita.

SIM, o teu Filho Jesus não foi Sim e Não,

Mas unicamente SIM.

E com esse SIM fez-se e mobilou-se o universo inteiro.

SIM, é sintomático

Que nas 452 palavras hebraicas de Génesis Um,

O jardim da tua criação,

Não se encontre um único NÃO.

É tudo SIM, portanto,

E é nesse jardim que ecoa também o SIM de Maria,

E que cada lacuna, cada NÃO,

Se vá transformando sintomaticamente em SIM.

NÃO têm vinho, diz em Caná Maria para Jesus,

Mas logo terão vinho em excesso.

NÃO tenho marido, confessa a Jesus a mulher da Samaria,

Mas vai ter e está ali mesmo ao lado.

NÃO tenho ninguém que me lance à água,

Replica o paralítico à beira da piscina,

Mas já está ali Jesus mesmo ao lado.

NÃO tendes nada para comer, pois NÃO,

Pergunta e afirma Jesus perante os seus Apóstolos,

Que de madrugada regressam do mar sem nada terem pescado.

E eles respondem: NÃO!

Mas já está ali um banquete novo preparado sobre a praia.

Vem, Senhor Jesus,

Tu que nasceste em Belém,

Vem nascer aqui também.

Preciso tanto de Ti e do teu SIM,

Para vencer esta indiferença que há em mim.

António Couto


O CÉU ABERTO E DEUS AQUI TÃO PERTO

Janeiro 7, 2022

1. Passado o Advento e as Festas Natalícias, estamos agora no umbral do chamado «Tempo Comum» do Ano Litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um «Tempo secundário», mas fundamental na vida celebrativa da Igreja Una e Santa. Na verdade, ao longo deste «Tempo Comum», Domingo após Domingo, a Igreja Una e Santa, Batizada e Confirmada, Esposa Amada de Cristo, protegida e perseguida, é chamada a contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Batismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição.

2. Esta apresentação só é possível porque, em cada um dos Anos Litúrgicos, é proclamado, Domingo após Domingo, praticamente em lição contínua, um Evangelho inteiro. Neste Ano C, é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho de Lucas, que tem uma vincada identidade e personalidade Missionária, mas que é apresentado ainda como sendo o Evangelho do Espírito Santo, o Evangelho da Oração, o Evangelho da Graça (único dos Evangelhos Sinóticos a empregar este termo) e da Alegria, e o Evangelho onde Jesus «visita» e se encontra HOJE (8 vezes no Evangelho de Lucas) com o mais alargado leque de pessoas: pobres, ricos, pecadores, doentes, idosos, mulheres, viúvas, crianças…

 3. O Primeiro Domingo do «Tempo Comum», porta de entrada no nosso tempo existencial e celebrativo, coincide sempre com a Festa do Batismo do Senhor Jesus no Jordão, este ano narrada em Lucas 3,15-22.

4. Aqui ficam algumas notas caraterísticas deste episódio de Lucas: A) Neste dealbar da vida pública de Jesus, é dito que todo o povo está em febril expetativa e se pergunta se João não será o Messias esperado. B) João responde claramente que não é o Messias, mas aquele que prepara a Vinda do Messias, reunindo o povo e voltando-o para o Senhor, cumprindo quanto disse o Anjo a Zacarias: «fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais (…), para preparar para o Senhor um povo pronto a recebê-lo» (Lucas 1,17; cf. Malaquias 3,24 acerca de Elias). C) Cumprida esta sua missão, João sai de cena, pois é metido na prisão por Herodes Antipas (Lucas 3,19-20), não estando, portanto, presente na cena do Batismo de Jesus! D) Em Lucas, João não entra nas praias do Novo Testamento. Escreve: «A Lei e os Profetas até João; daí para a frente, é evangelizado o Reino de Deus» (Lucas 16,16). Por isso, e ao contrário do que sucede em Mateus e Marcos, que dão a notícia da prisão de João depois do Batismo de Jesus (Mateus 4,12; Marcos 1,14), Lucas fá-lo prender antes do Batismo de Jesus, com a intenção clara de que seja o Espírito Santo a batizar Jesus (veja-se a rutura entre Lucas 3,20 e 21). O Evangelho de Lucas é também chamado o Evangelho do Espírito Santo; daí, o protagonismo dado ao Espírito Santo. E) O narrador faz-nos ver outra vez o povo todo reunido e batizado, antes de nos pôr a todos a contemplar a primeira ação de Jesus batizado com o Espírito: Jesus em Oração, tema caro a Lucas (é também chamado o Evangelho da Oração), e, no contexto do Batismo, exclusivo de Lucas! F) O narrador desenha logo a seguir uma verdadeira coreografia celeste: o céu aberto, o Espírito Santo que desce como uma pomba (tempo novo: a pomba sai da Palestina em setembro/outubro e regressa com a Primavera), uma voz vinda do céu, isto é, de Deus, declarando, de acordo com o Salmo 2,7: «Tu és o meu Filho, o Amado, em Ti pus o meu enlevo» (Lucas 3,21-22).

5. A partir do Batismo de Jesus no Jordão, é missão da Igreja Una e Santa, toda Batizada e Confirmada, viver esta intimidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e seguir o seu Senhor, passo a passo, ao longo do inteiro Ano Litúrgico, para ver bem como faz Jesus, o Filho Amado, Batizado com o Espírito Santo. O que faz Jesus e como faz Jesus, é quanto devemos fazer nós também, dado que também nós fomos Batizados com o Espírito Santo e elevados à condição de filhos adotivos (Gálatas 4,4-7).

6. Pelos motivos expostos, o Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos. E, por esta razão, muitas Igrejas Orientais chamam «Jordão» à água da fonte batismal, que todos os anos é benzida precisamente neste Dia da Festa do Batismo do Senhor.

7. Ilustra bem o episódio do Batismo de Jesus no Jordão o chamado «Primeiro Canto do Servo do Senhor» (Isaías 42,1-7), que hoje temos também a graça de ouvir, que põe em cena Deus e o seu Servo. Deus chama este Servo «meu Servo», diz que o segura e sustenta e que lhe dá o seu Espírito, e confia-lhe uma missão em ordem à verdade e à justiça, à mansidão e ao ensino, à libertação e à iluminação, entenda-se, à vida em plenitude, de todas as nações.

8. Verdadeiramente, Deus é a vida deste Servo, que Ele ampara, leva pela mão e modela. Linguagem de criação, confidência e providência.

9. Há ainda a registrar uma expressão forte para dizer a missão de mansidão confiada por Deus a este seu Servo: «Não fará ouvir desde fora a sua voz». Ora, se não faz ouvir a sua voz desde fora, só a pode fazer ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, escrevendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, armas ou decretos. Se não reina desde fora, então só pode reinar desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas. Jesus vai assumir a identidade deste Servo e vai cumprir por inteiro a sua missão.

10. E não nos esqueçamos que a sua bela missão de Filho e de Servo terá de ser também a nossa bela missão de filhos e de servos.

11. O discurso de Pedro em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio, conforme a descrição do Livro dos Atos 10,34-38, dá testemunho da largueza da bondade de Deus, que faz chegar o seu amor de Pai a todas as pessoas de todas as nações, fazendo de nós um povo de filhos, irmãos e servos que seguem um único Senhor: Jesus Cristo. Seguindo este único Senhor, a mais nada e a mais ninguém reconhecemos como Senhor. Somos, portanto, chamados a ser livres e a testemunhar, empenhando toda a nossa vida, dia após dia, que, após o Batismo no Jordão, Jesus passou fazendo o bem e curando todas as pessoas necessitadas.

12. Para não esquecer: esta bela missão de Jesus, Batizado com o Espírito no Jordão e declarado o Filho Amado, deve ser a nossa bela missão de Batizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus. É ainda como filhos que devemos hoje entoar também as notas deste Gloria in excelsis Deo do Antigo Testamento, que é o belíssimo Salmo 29. A voz (qôl) que por sete vezes se ouve no Salmo bem pode ser a Voz do Pai que se dirige ao Filho no Batismo do Jordão e continua a ressoar na pregação Apostólica como se do setenário dos dons do Espírito Santo ou dos Sacramentos se tratasse. Escreveu São Gregório Magno: «A voz de Deus troa admiravelmente porque, como força escondida, penetra nos nossos corações».

O Filho e o Espírito Santo são,

No dizer de Santo Ireneu de Lião,

As duas mãos do Pai,

Enviadas em missão

Para junto dos seus filhos de adoção.

À semelhança, claro,

Daquelas mãos de amor,

Que, no alvor da Criação,

Modelaram da terra pura o nosso coração,

E de misericórdia o vestiram.

Filhos no Filho, divina hyiothesía,

Hemorragia de graça e de alegria:

Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,

E dá-nos em herança a sua divina filiação.

E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,

Divina comunhão, sem confusão,

Toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,

E faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,

A mais bela lalação que há,

O nome novo Ab-ba!

António Couto


GUIADOS POR UMA ESTRELA

Janeiro 1, 2022

1. «Eu o vejo, mas não agora, eu o contemplo, mas não de perto: uma estrela desponta (anateleî) de Jacob, um cetro se levanta de Israel» (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, que o Livro dos Números diz ser oriundo das margens do rio Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7).

2. Do Oriente são também os Magos, que enchem o Evangelho deste Dia (Mateus 2,1-12), e que representam a humanidade de coração puro e de olhar puro que, agora e de perto, sabe ler os sinais de Deus, sejam eles a estrela que desponta (anateleî) (2,2 e 9) ou o sonho (2,12), uma e outro indicadores de caminhos novos, insuspeitados. Surpresa das surpresas: até para casa precisamos de aprender o caminho, pois é, na verdade, um caminho novo! (2,12). Excelente, inteligente, o grande texto bíblico: Balaão vem do Oriente, e os Magos também. O texto grego diz bem, no plural, «dos Orientes» (ap’anatolôn). Só a estrela que desponta (anatolê / anatoleî), no singular, pode orientar a nossa humanidade perdida no meio da confusão do plural.

3. De resto, já sabemos que, na Escritura Santa, a Luz nova que no céu desponta (Lucas 1,78; 2,2 e 9; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20) e o Rebento tenro que entre nós germina (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12) apontam e são figura do Messias e dizem-se com o mesmo nome grego anatolê (tsemah TM) ou forma verbal anatéllô. Esta estrela (anatolê) que arde nos olhos e no coração dos Magos está, portanto, longe de ser uma história infantil. Orienta os passos dos Magos e, neles, os de toda a humanidade para a verdadeira ESTRELA que desponta e para o REBENTO que germina, que é o MENINO. E os Magos e, com eles, a inteira humanidade orientam para aquele MENINO toda a sua vida, que é o que significa o verbo «ADORAR» (proskynéô). Esta «adoração» pessoal é o verdadeiro presente a oferecer ao MENINO.

4. Note-se a expressão recorrente «o Menino e sua Mãe» (Mateus 2,11.13.14.20.21) e o contraponto bem vincado com «o rei Herodes perturbado e toda a Jerusalém com ele» (Mateus 2,3), que abre já para a rejeição final de Jesus. Veja-se também a alegria que invade os magos à vista da sua estrela, ainda antes de verem o Menino (Mateus 2,10), que evoca já a alegria das mulheres, ainda antes de verem o Senhor Ressuscitado (Mateus 28,8). Veja-se ainda o inútil controlo das Escrituras por parte de «todos os sacerdotes e escribas do povo», que sabem a verdade acerca do Messias, mas não sabem reconhecer o Messias (Mateus 2,4-6).

5. Mas, para juntar aqui outra vez os fios de ouro da Escritura Santa, nomeadamente 1 Reis 10,1-10 (Rainha de Sabá), Isaías 60 e o Salmo 72, diz o belo texto de Mateus que os Magos ofereceram ao MENINO ouro, incenso e mirra. Já sabemos que, desde Ireneu de Lião (130-203), mas entenda-se bem que isto é secundário, o ouro simboliza a realeza, o incenso a divindade, e a mirra a morte e o sepultamento.

6. Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrónomos, historiadores e curiosos se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis: a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a. C.; b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a. C.; c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a. C. Esta última está registada nos observatórios astronómicos chineses. A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registada nos observatórios da Babilónia e do Egito. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registrados em b) e c). Note-se, porém, que a estrela dos Magos é só vista por eles, estrangeiros como Balaão, que também vê de modo diferente dos outros. Rir-se-iam, certamente, se soubessem que nós indagamos os céus com instrumentos científicos à procura da estrela que alumiava o seu coração. É assim que «muitos virão do oriente e do ocidente, isto é, de fora, e sentar-se-ão à mesa no Reino dos Céus» (Mateus 8,11). E nós, que também indagamos as Escrituras sem lhes descobrirmos o verdadeiro fio de ouro (cf. Mateus 2,4-6), poderemos ficar tragicamente fora da porta e do sentido (Mateus 8,12). Que os de fora passem à frente dos de dentro é a surpresa de Deus, e, portanto, uma constante no Evangelho (Mateus 21,33-43; 22,1-13; Lucas 13,22-29).

7. Está também a transbordar de sentido aquela última anotação: «Por outra estrada regressaram à sua terra» (Mateus 2,12). Sim, quem viu o que os Magos viram, quem encontrou o que eles encontraram, quem experimentou o que eles experimentaram, não pode mais limitar-se a continuar seja o que for, a andar pelos mesmos caminhos. Tudo tem mesmo de ser novo. A estrada tem de ser outra.

8. Ilustra bem o grandioso texto do Evangelho de Mateus o soberbo texto de Isaías 60,1-6, que canta Jerusalém personificada como mãe extremosa que vê chegar dos quatro pontos cardeais os seus filhos e filhas perdidos nos exílios de todos os tempos e lugares. Também não falta a luz que desponta (anateleî) (Isaías 60,1) e os muitos presentes, os tais fios que se vão juntar no Evangelho de hoje, de Mateus.

9. Também os versos sublimes do Salmo Real 72 cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva.

10. E o Apóstolo Paulo (Efésios 3,2-3 e 5-6) faz saber, para espanto, maravilha e alegria nossa, que os pagãos são co-herdeiros e comparticipantes da Promessa de Deus em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.

11. Sim. Falta dizer que, no meio de tanta Luz, Presentes e Alegria para todos, vindos da Epifania, que significa manifestação de Deus entre nós e para nós, não podemos hoje esquecer as crianças e a missão. Hoje celebra-se o dia da «Infância Missionária», que gosto de ver sempre envolta no belo lema: «O Evangelho viaja sem passaporte». Para significar que o Evangelho nos faz verdadeiramente filhos e irmãos. E entre filhos e irmãos não há fronteiras nem barreiras nem muros ou qualquer separação.

12. Sonho um mundo assim. E parece-me que só as crianças nos podem ensinar esta lição maravilhosa.

Do Oriente veio em procissão de esperança

O melhor da nossa humanidade.

Os três magos caminharam à luz de uma estrela nova,

Recém-nascida,

Mansa,

Como uma criança.

A procissão faz-se em passos de dança,

E a estrela só pode ser olhada com olhos puros,

De cristal,

Com alma enternecida,

E coração de natal.

Por isso,

Não a viu Herodes,

Não a viram os guardas,

Não a viram os sábios,

Que arrastavam os olhos por velhos alfarrábios.

Viram-na os magos,

Pegaram nela à mão,

Levaram-na aos lábios,

Deitaram-na no coração.

Vem, Senhor Jesus.

O mundo precisa tanto da tua Luz.

António Couto


DIA DA PAZ

Janeiro 1, 2022

Vem pelo cais uma criança a correr

Traz uma pomba branca pela mão

Uma criança não tem onde morrer

O seu único haver é o coração.

1. Sobre esta terra térrea e escura há de haver sempre uma fonte de água pura, uma mulher «no seu ventre concebendo» o céu (Lucas 1,31; 2,21), fruto maduro, acorde seguro, das entranhas misericordiosas do nosso Deus (Lucas 1,78), Luz nova no céu se alevantando (Lucas 1,78; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20), Rebento tenro na nossa terra germinando (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12), luminosa sinfonia de Deus e de Maria, o céu ao léu, enchendo de luz os nossos corações escuros como o breu.

 2. «Conceber no ventre» é um pleonasmo evidente, mas é dito duas vezes de Maria, e apenas de Maria. Certamente para a mostrar dependente das entranhas misericordiosas do nosso Deus omnipotente, causa da Luz que nas alturas se alevanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na terra germina, que a terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria.

3. E tem de ser dito agora que, na Escritura Santa, aquela Luz que no céu se alevanta e o Rebento que na nossa terra germina são ditos com o mesmo nome grego: anatolê, forma verbal: anatéllô, que é como quem diz ainda que a Luz germina e o Rebento ilumina, orientando os nossos passos para os braços de Deus e de Maria, causa da nossa Alegria.

4. A nossa terra sombria precisa de Deus e de Maria, e dessa Luz que suavemente Rebenta e Orienta, aquece e alumia o nosso dia-a-dia. Conceber no ventre, conservar no coração as palavras que acontecem, os acontecimentos que falam e não esquecem, estender a mão de irmão à inteira criação, olhar com ternura para cada criatura, por cada criatura. É assim que Deus faz a Bênção e a Paz (Números 6,22-27).

5. Chegou, meu irmão, a hora de acordar do sono, de encher de amor cada buraco de ozono. Põe fim ao fumo e ao consumo. Dia Mundial da Paz. Dia de Paz. Alarga o coração. Saúda a criação. Leva uma criança a passear com uma pomba branca pela mão.

António Couto


SANTA MARIA, MÃE DE DEUS

Dezembro 31, 2021

1. Oito dias depois da Solenidade do Natal do Senhor, que a liturgia oriental designa significativamente por «a Páscoa do Natal», eis-nos no Primeiro Dia do Ano Civil de 2022, tradicionalmente designado como Dia de «Ano Bom», a celebrar a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus.

2. A figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é, portanto, a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.

3. É assim que a encontramos no Lecionário de hoje. Desde logo naquela menção sóbria, e ousamos mesmo dizer pobre (na riqueza espiritual que o termo contém), com que Paulo se refere à Mãe de Jesus, escrevendo aos Gálatas: «Deus enviou o seu Filho, nascido (genómenon) de mulher, nascido (genómenon) sujeito à Lei» (Gálatas 4,4). Duplo nascimento: nascido de mulher, isto é, como todos nós, nosso irmão em humanidade; nascido sujeito à Lei, isto é, membro do povo hebreu, a quem tinha sido dada por Deus a sua Lei. Nesta linha breve e densa e, todavia, com uma repetição vocabular só aparentemente desnecessária, aparece compendiado o mistério da Incarnação, ao mesmo tempo que se sente já pulsar o coração da Mariologia: Maria não é grande em si mesma; é, na verdade, uma «mulher», verdadeiramente nossa irmã na sua condição de humana criatura. Não é grande em si mesma, mas é grande por ser a Mãe do Filho de Deus, e é aqui que ela nos ultrapassa, imaculada por graça, bem-aventurada e bem-aventurança, nossa mãe na fé e na esperança. Maria não é grande em si mesma; vem-lhe de Deus essa grandeza.

4. O Evangelho deste Dia de Maria (Lucas 2,16-21) guarda também uma preciosidade, quando Lucas nos diz que «todos os que tinham escutado as coisas faladas pelos pastores ficaram maravilhados, mas Maria guardava (synetêrei) todas estas Palavras que aconteceram (tà rhêmata), compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,18-19). Em contraponto com o espanto de todos os que ouviram as palavras dos pastores, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria, ao contrário, guardava todas estas Palavras que aconteceram, compondo-as no seu coração». Há o espanto e a maravilha que se exprimem no louvor e no canto, e há o espanto e a maravilha que se exprimem no silêncio e na escuta. Maria, a Senhora deste Dia, aparece a guardar com ternura todas estas Palavras que acontecem, todos estes acontecimentos que falam e não esquecem. O verbo guardar implica atenção cheia de ternura, como quem leva nas suas mãos uma coisa preciosa. Este guardar atencioso e carinhoso não é um ato de um momento, mas a atitude de uma vida, uma vez que o verbo grego está no imperfeito, que implica duração.

5. O outro verbo belo mostra-nos Maria como que a compor, isto é, a «pôr em conjunto» (symbállô), a organizar, para melhor entender. É como quem, com aquelas Palavras, compõe um Poema, uma Sinfonia, e se entretém a vida toda a trautear essa melodia e a conjugar novos acordes de alegria. E é dito ainda, num pleonasmo único na Escritura Santa, que Maria «concebeu no ventre» (syllambánô en tê koilía) (Lucas 2,21). Redundância. Música divina. O ventre de Maria em consonância com o «ventre de misericórdia do nosso Deus» (Lucas 1,78), causa da Luz que nas alturas se levanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na nossa terra germina, que a nossa terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria, a quem neste oitavo Dia é posto o Nome.

6. Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia que nos vem de Deus, levou o Papa Paulo VI, S. Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz. Hoje é já o 55.º Dia Mundial da Paz que se celebra. A paz é uma refeição saborosa, servida por Deus aos seus filhos. Chega, portanto, a todos, pastores, fiéis leigos e a todos os homens de boa vontade, e a todos sacia e desafia desenhar um mundo novo e feliz para todos, hoje, amanhã e sempre. Esta paz saborosa atinge-nos em cheio, pois todos estamos imersos no lodaçal da banalidade e da indiferença, talvez a mais grave doença que afeta a humanidade deste tempo sem fontes nem horizontes. Na verdade, nesta «noite do mundo» em que domina o princípio da necrofilia, a nefasta atração pela morte, tudo nos aparece sem rosto e sem rumo. É preciso, portanto, abrir os olhos, dar asas aos nossos sonhos belos, dar as mãos e ter a coragem de recomeçar. Que não nos fechemos no mundo egocêntrico, egolátrico e autorreferencial da hipertrofia do «eu» que pensa que se basta a si mesmo, e não precisa de nada nem de ninguém, conforme o paradigma de Laodiceia. Contra a sedução das ideologias, que não salvam ninguém, de reduzir o mundo e o homem a três dimensões – comprimento, largura e altura –, anulando o horizonte de Deus, compete-nos a todos dar um novo rosto à família, à escola, à política, aos media, e remarmos todos juntos para construir novas atitudes e novas relações estáveis e felizes, assentes na gratuidade, na fraternidade e no amor, novos cenários que proporcionem que chegue a todos os homens o mundo belo que Deus a todos reparte dia após dia. É preciso educar para a paz, isto é, educar para sabermos acolher o outro, diferente de nós, e olhar para ele com amor e sem preconceitos. Significa isto respeitar e acolher o outro nas suas diferenças, e não querer anulá-las e nivelar tudo pelo género neutro, como se continua a querer fazer na nossa velha Europa cada vez mais desenraizada. Educar, na sua etimologia latina, de educere, significa, não levar para dentro de qualquer prisão do «eu» ou outra, mas conduzir para fora de si mesmo, ao encontro dos outros e da realidade por natureza plural. E é sempre bom lembrar que a justiça é o sabor que vem de Deus, e a paz não é a paz romana, assente no poder das armas, nem a paz do judaísmo palestinense, assente nos acordos entre as partes. A paz é um Dom de Deus! Portanto, mais do que conquistá-la, é preciso recebê-la e partilhá-la.

7. De Deus vem sempre um mundo novo, belo, maravilhoso. Tão novo, belo e maravilhoso, que nos cega, a nós que vamos arrastando os olhos cansados pela lama. Que o nosso Deus faça chegar até nós tempo e modo para ouvir outra vez a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde./ O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável./ O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Números 6,24-26).

8. O Salmo 67 é uma oração de bênção em forma de petição. Em termos técnicos, equivale a uma epiclese: não «eu te bendigo», mas «Deus nos bendiga». O nosso Salmo recolhe os temas da bênção sacerdotal de Números 6,24-26, como a graça, a luz, a benevolência, a paz, pondo o plural onde estava o singular, por assim dizer, «democratizando» a bênção, agora dirigida a todos, onde, na bênção sacerdotal do Livro dos Números, se dirigia apenas a Israel.

9. Olhada por Deus com singular olhar de Graça foi Maria, também Pobre, também Feliz, Bem-aventurada, Santa Maria, Mãe de Deus, que hoje celebramos em uníssono com a Igreja inteira. Para ela elevamos hoje os nossos olhos de filhos enlevados.

10. Mãe de Deus, Senhora da Alegria, Mãe igual ao Dia, Maria. A primeira página do ano é toda tua, Mulher do sol, das estrelas e da lua, Rainha da Paz, Aurora de Luz, Estrela matutina, Mãe de Jesus e também minha, Senhora de Janeiro, do Dia primeiro e do Ano inteiro.

11. Abençoa, Mãe, os nossos dias breves. Ensina-nos a vivê-los todos como tu viveste os teus, sempre sob o olhar de Deus, sempre a olhar por Deus. É verdade. A grande verdade da tua vida, o teu segredo de ouro. Tu soubeste sempre que Deus velava por ti, enchendo-te de graça. Mas tu soubeste sempre olhar por Deus, porque tu soubeste bem que Deus também é pequenino. Acariciada por Deus, viveste acariciando Deus. Por isso, todas as gerações te proclamam «Bem-aventurada»! Por isso, nós te proclamamos «Bem-aventurada»!

12. Senhora e Mãe de Janeiro, do Dia Primeiro e do Ano inteiro. Acaricia-nos. Senta-nos em casa ao redor do amor, do coração. Somos tão modernos e tão cheios de coisas estes teus filhos de hoje! Tão cheios de coisas e tão vazios de nós mesmos e de humanidade e divindade! Temos tudo. Mas falta-nos, se calhar, o essencial: a tua simplicidade e alegria. Faz-nos sentir, Mãe, o calor da tua mão no nosso rosto frio, insensível, enrugado, e faz-nos correr, com alegria, ao encontro dos pobres e necessitados.

13. Que seja, e pode ser, Deus o quer, e nós também podemos querer, um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor, para todos os irmãos que Deus nos deu! E que Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe nos abençoe também. Amen!


Que Deus nos abençoe e nos guarde,


Que nos acompanhe, nos acorde e nos incomode,

Que os nossos pés calcorreiem as montanhas,

Cheios de amor, de paz e de alegria,

Que a tua Palavra nos arda nas entranhas,

E nos ponha no caminho de Maria.

O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

O fiat que disseste, Maria, é de quem se fia

Num amor maior do que um letreiro.

Vela por nós, Maria, em cada dia

Deste ano inteiro,

Para que levemos a cada enfermaria,

A cada periferia,

Um amor como o teu, primeiro e verdadeiro.

António Couto


SAGRADA FAMÍLIA

Dezembro 25, 2021

1. Atravessamos ainda a Solenidade do Natal do Senhor, dado que esta Solenidade se prolonga durante oito dias (Oitava) até à Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, que se celebra no primeiro Dia de Janeiro.

2. O Natal do Senhor põe diante do nosso olhar contemplativo uma Família humilde e bela, Jesus, Maria e José, mas traz também consigo uma forte sensibilidade Familiar, tornando-se o tempo forte da reunião festiva das nossas Famílias. Estes dois acertos são importantes para se compreender a razão pela qual, no Domingo dentro da Oitava do Natal, a Igreja celebra a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.

3. Os textos da Liturgia são outra vez preciosos. O Evangelho põe no nosso coração o último episódio do Evangelho da Infância de S. Lucas, conhecido por «Encontro de Jesus no Templo» (2,41-52). Na verdade, o texto refere, logo a abrir, que «os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém pela Festa da Páscoa», certamente envoltos na intensa alegria com que os judeus piedosos acorriam ao Templo do Senhor nas três Festas de Peregrinação – Páscoa, Semanas e Tendas –, cantando: «Que alegria quando me disseram: vamos para a Casa do Senhor!» (Salmo 122,1). Eram oito dias de alegria filial e fraternal, uma vez que, na Casa do Senhor, todos eram e se sentiam verdadeiramente filhos e irmãos.

4. Mas este belíssimo episódio guarda ainda mais alguns sabores requintados. Primeira nota: diz-nos o texto que, nessa Páscoa, Jesus já tinha completado doze anos, que o mesmo é dizer que tinha passado da infância à idade adulta, e que, portanto, sobre ele incumbia agora também o dever de subir três vezes por ano a Jerusalém e de responder pessoalmente, sem a mediação dos pais, pelo cumprimento dos mandamentos de Deus, como ainda hoje se verifica na cerimónia pública chamada «bar mitswah» [= filho do mandamento], que os rapazes judeus piedosos realizam aos 12 anos.

5. Segunda nota: no regresso a Nazaré, após um dia de viagem, Maria e José aperceberam-se de que Jesus «não fazia caminho com eles», e ficaram preocupados e foram procurá-lo. Sinal importante para as restantes páginas do Evangelho e para nós: quando nos apercebermos de que Jesus não está a fazer caminho connosco, devemos ficar preocupados e ir à procura dele. Por outras palavras: não podemos perder Jesus. Podemos perder coisas e tralhas que atrapalham e sobrecarregam. Mas Jesus é a nossa vida (se o perdemos, perdemo-nos!), e é Ele que todos nos pedem: «Nós queremos ver Jesus!» (João 12,21). Se o perdemos, não o temos para dar!

6. Terceira nota: não o encontram onde e como seria de esperar, entre os parentes e conhecidos. Quarta nota: Jesus é encontrado três dias depois no Templo (Casa de Deus), num claríssimo aceno à Ressurreição (três dias) e ao verdadeiro parentesco e identidade de Jesus (Casa de Deus). Quinta nota: está sentado na cátedra (kathezómenos) no meio dos mestres. Então Ele é o Mestre, e o seu lugar é sempre no meio de nós a ensinar.

7. Sexta nota: a resposta serena de Jesus à sua mãe preocupada («Olha que o teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura», diz Maria): «Não sabíeis que é para mim necessário estar nas coisas do meu Pai?», responde Jesus. Mas era óbvio que, depois da cerimónia do «bar mitswah», competia a Jesus responder pessoalmente a Deus. Note-se ainda o confronto do «teu pai», de Maria, com o «meu Pai», de Jesus. E note-se também que Jesus não se ocupa simplesmente das coisas, dos negócios do Pai, mas está nas coisas do Pai. Expressão fortíssima, de intimidade e dedicação total, que implica a própria vida, e não um mero negócio de coisas exteriores.

8. Sétima nota: embora não compreendendo, Maria guardava todas estas palavras e acontecimentos, compondo-os (symbállousa) no seu coração. Expressão belíssima que mostra bem a altura do crente verdadeiro, que não tem de compreender tudo já, mas guarda e vai compondo palavras e acontecimentos divinos numa bela melodia, como quem compõe uma música, um poema, embebida e embevecida de sentido. Sim, vê-se bem que, tal como Jesus, também Maria não se ocupa, de vez em quando, com as coisas de Deus; ela está sempre nas coisas de Deus!

9. Dentro da temática da Família, o Antigo Testamento traz-nos hoje um extrato sapiencial retirado do Livro de Ben Sira (ou Eclesiástico) 3,2-6.12-14, e que nos convida ao amor dedicado aos nossos pais sempre, para que o Senhor ponha sobre nós o seu olhar de bondade.

10. O Salmo 128 é a música suave, de teor didático-sapiencial, que canta uma família feliz e nos mostra a fonte dessa felicidade: a bênção paternal do Senhor. «Felizes os que esperam no Senhor,/ e seguem os seus caminhos» é a bela litania em que o refrão nos faz entrar hoje.

11. Finalmente, o Apóstolo Paulo, na Carta aos Colossenses 3,12-21, exorta esposos, pais e filhos ao amor mútuo, mostrando ainda de que sentimentos nos devemos vestir por dentro e de que música devemos encher o nosso coração. Salta à vista que a misericórdia, a bondade, a humildade, a mansidão, a longanimidade, o amor, o perdão são vestidos importantes para a festa, mas não se compram nem vendem por aí em nenhum pronto-a-vestir. De resto, vê-se bem que andamos todos bem vestidos por fora, mas andamos muitas vezes nus por dentro! E é para aqui que aponta a exortação de S. Paulo. Nesta época de bastante consumismo e vestidos novos, convém que nunca nos esqueçamos de Deus, pois é Ele, e só Ele, que veste carinhosamente o coração e as entranhas dos seus filhos.

Santa Maria de um amor maior,

Do tamanho do Menino que levas ao colo,

Diante de ti me ajoelho e esmolo

A graça de um lar unido ao teu redor.

Protege, Senhora, as nossas famílias,

Todos os casais, os filhos e os pais,

E enche de alegria, mais e mais e mais,

Todos os seus dias, manhãs, tardes, noites e vigílias.

Vela, Senhora, por cada criança,

Por cada mãe, por cada pai, por cada irmão,

A todos os velhinhos, Senhora, dá a mão, E deixa em cada rosto um afago de esperança.

António Couto


HOJE É DIA DE NATAL

Dezembro 25, 2021

Hoje é Dia de Natal. É Dia de Jesus. O Natal é um imenso caudal de luz e de alegria, hemorragia de Jesus. Há quem pense amansá-lo e enlatá-lo, domesticá-lo, e depois tomá-lo em pequenos comprimidos, mais ou menos à razão de um por dia. Mas o Natal não se pode comprá-lo ou aviá-lo por receita. Nem cumprimentá-lo, quer com a mão esquerda quer com a direita. O Natal não tem regra ou etiqueta. Não se pode semeá-lo na jeira ali ao lado. Não se pode trocá-lo por qualquer bugiganga à venda no mercado. O Natal não se pode matá-lo, e retirá-lo anuário, do calendário, do dicionário, do vocabulário. Por mim, hei de sempre amá-lo. Este vendaval, que se chama Natal, só podemos deixá-lo entrar por nós adentro aos borbotões, até que rebentem os portões, e caiam um a um do nosso fraque todos os botões. Também o mofo e o verdete que há nos corações serão levados na torrente, e também tudo o que apenas é corrente, banal ou indiferente. Só ficaremos mesmo eu e tu, menino, só mesmo nós os dois, lado-a-lado ou frente-a-frente.

O Natal é Jesus.

Vem, Senhor Jesus. Bate à nossa porta. Encandeia a nossa vida.

António Couto


NATAL DO SENHOR

Dezembro 25, 2021

1. «Exultemos de alegria no Senhor, porque nasceu na terra o nosso Salvador», é a Antífona do Cântico de Entrada da Missa da Meia-Noite, que dá o devido tom de exultação a esta Solenidade, magnífico pórtico para este intenso feixe de Luz, Mistério de Jesus, fazendo logo ver o Natal à Luz da Páscoa, «a Páscoa do Natal», assim o diz significativamente a liturgia oriental. A Antífona da Missa da Aurora prossegue a mesma sinfonia, conjugando Isaías 9,1 e Lucas 2,11, e soa assim: «Hoje sobre nós resplandece uma Luz: nasceu o Senhor». A Antífona da Missa do Dia continua a indicar o «para nós» deste Filho e do seu Mistério, trazendo ao de cima outra vez a pauta musical de Isaías: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (Isaías 9,6).

2. A linha dos Evangelhos deste Dia é de excecional riqueza, e desenvolve-se em três movimentos: o acontecimento, o anúncio e o acolhimento. Começa com Lucas 2,1-14 (Meia-Noite), e continua com Lucas 2,15-20 (Aurora), que nos trazem o quadro histórico-geográfico do nascimento de Jesus (Lucas 2,1-7), o seu anúncio (Lucas 2,8-14) e acolhimento (Lucas 2,15-29). O nascimento de Jesus, na sua nudez, aparece narrado três vezes, nos três movimentos do texto (Lucas 2,7.12.16). Ele é claramente o centro. Aparece logo situado no decurso do recenseamento do mundo romano ordenado por César Augusto, sendo Quirino prefeito romano da Síria (Lucas 2,1-2). O reinado de Augusto estende-se por muitos anos (27 a.C.-14 d.C.), mas Pôncio Sulpício Quirino foi prefeito da Síria apenas no ano 6 d.C., sendo então que liquida os bens de Arquelau, filho de Herodes o Grande, e anexa definitivamente a Judeia ao Império Romano. O leitor menos prevenido dirá logo que há aqui uma imprecisão histórica. Acrescento então que este recenseamento foi iniciado em 7-6 a.C. por Sêncio Saturnino, prefeito da Síria durante os anos 9-6 a.C. É sabido, de resto, que a era cristã atualmente em vigor foi fixada no século VI pelo monge xiita, de origem egípcia, Dionísio o Pequeno, com um pequeno erro de cálculo que resultou no atraso de 6 ou 7 anos em relação ao nascimento de Jesus. Portanto, Jesus terá nascido 6 ou 7 anos antes do início da era cristã fixada pelo monge Dionísio. E aí está então tudo em dia: Jesus nasce quando Sêncio Saturnino dá início ao recenseamento. Dirá outra vez o leitor incauto: se assim foi, por que é que Lucas fala de Quirino, e não de Saturnino? Se repararmos bem, Lucas faz exatamente como nós fazemos hoje. Nas placas que colocamos nos edifícios públicos que inauguramos, constam os nomes das autoridades que os terminam e inauguram, e não daqueles que os iniciam. O mesmo se diga da promulgação de leis e tratados.

3. É ainda no quadro deste recenseamento que José, acompanhado por Maria, sua esposa, sobe a Belém para se recensear. O texto explica bem que esta deslocação se fica a dever ao facto de José ser da descendência de David (Lucas 2,3-4). Alguém poderá perguntar: então por que foi José viver para Nazaré, se ele era natural de Belém, a uns 150 km de distância? Provavelmente dentro do programa político-religioso de rejudaização da Galileia, iniciado por Alexandre Janeu (103-76 a.C.), em que colonos judeus eram incentivados a repovoar e rejudaizar a Galileia.

4. O próximo passo refere que não havia lugar para eles (José e Maria) na sala (Lucas 2,7). Note-se que o texto refere, de forma clara, sala, grego katályma, e não hospedaria, como se lê em muitas e preconceituosas traduções. Na verdade, Lucas sabe bem dizer hospedaria, como faz na passagem do bom samaritano (Lucas 10,34), em que usa o termo grego pandocheîon. Katályma não significa hospedaria. Significa sala. Pode ser a sala do andar superior (Lucas 22,11), mas é, neste caso, a sala de hóspedes que a arqueologia pôs a descoberto no rés-do-chão de muitas das casas da Palestina do tempo de Jesus. Esta sala apresenta forma quadrada ou rectangular, com um banco rochoso ao longo das paredes, destinado ao descanso das pessoas. Uma única porta de entrada dava acesso à sala a pessoas e animais. Ao fundo da sala localizava-se outra porta, que dava para um estábulo, para onde as pessoas conduziam naturalmente os animais. É neste estábulo anexo à sala de hóspedes que vai nascer Jesus, e é também aqui que se compreende perfeitamente a presença da manjedoura (Lucas 2,7 e 12).

5. Vem depois a cena maravilhosa da manifestação desta Notícia aos pastores dos campos de Belém. Os pastores são os últimos da sociedade, e não entram nas contas de ninguém, tal como o pequeno pastor de Belém, David, não entra nas contas já encerradas de seu pai (1 Samuel 16,10-11), mas entra nas de Deus (1 Samuel 16,11-12). Assim é também aos pastores de Belém que o mensageiro celeste anuncia a Alegria do nascimento de um Salvador para todo o povo, Hoje nascido em Belém (Lucas 2,8-11).

6. E, deste acontecimento, o mensageiro celeste dá um sinal (sêmeîon) aos pastores e a nós: «encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deposto numa manjedoura» (Lucas 2,12). Entra então subitamente em cena uma multidão do exército celeste (Lucas 2,13) – expressão que só se encontra aqui nos Evangelhos – para entoar aquele celestial e humano Gloria in excelsis Deo [= «Glória a Deus nas alturas»] e Paz na terra aos homens que Ele ama (Lucas 2,14). Depois desta cena grandiosa e única, aí vão eles, os pastores, aqueles com quem ninguém conta e que não entram em nenhuma lista de convidados, aí vão eles apressadamente (Lucas 2,16), como Maria (Lucas 1,39), verificar (ideîn) os acontecimentos a eles dados a conhecer por Deus (Lucas 2,15), e que, como verdadeiros anunciadores, não podem calar, e devem dar também a conhecer a todos (Lucas 2,17). Note-se esta Paz diferente, que não é obra das armas, como no mundo romano, nem de acordos entre as partes, como no judaísmo palestinense, mas dom de Deus!

7. Cena sublime e suprema ironia. Os senhores do mundo (César Augusto e Quirino) são mencionados, mas saem logo de cena, para dar lugar aos pastores, que assumem o papel de verdadeiros protagonistas. Os senhores do mundo ocupam um único versículo cada um (Lucas 2,1 e 2). Os pastores enchem treze versículos (Lucas 2,8-20)! Também lá estão Maria, José e o Menino, mas não dizem uma única palavra. A palavra é toda dos Anjos e dos pastores. Mas Maria é estupendamente retratada a «guardar todas aquelas palavras, compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,19).

8. Note-se ainda o sinal dado aos pastores e a nós, leitores: um recém-nascido envolto em faixas, deposto numa manjedoura. É preciso também ver já aqui a Luz da Páscoa, com o corpo de Jesus a ser envolto num lençol e deposto num sepulcro (Lucas 23,53). Mas também a sala (katályma) onde não havia lugar para eles (Lucas 2,7) reclama já a sala para comer a Páscoa (Lucas 22,11). O Evangelho do Dia (João 1,1-18) deixa-nos de joelhos em contemplação: «E o Verbo se fez carne e pôs a sua tenda entre nós, e nós contemplámos (theáomai) a sua glória» (João 1,14). Mas também: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11).

9. Os passos dos peregrinos e os nossos convergem Hoje para a Basílica da Natividade em Belém. Não obstante os múltiplos trabalhos de reconstrução e conservação ao longo dos séculos, a Basílica que hoje se depara ao peregrino é, nas suas linhas gerais, obra do imperador Justiniano, edificada entre 531 e 565, e é mesmo o único templo, provindo de Justiniano, que resta na Palestina. Escapou mesmo à razia dos Persas do rei Cosroé II, em 614, contra os templos cristãos, devido ao facto de os frescos que adornam a Basílica conterem representações dos Magos, o que muito terá sensibilizado os Persas. Esta não é, porém, a Basílica primitiva. Os trabalhos arqueológicos efetuados pelo P. Bagatti em 1949-1950 mostraram, por debaixo do pavimento da atual Basílica, os traços arquitetónicos de outra grandiosa Basílica, levantada entre 326 e 333, por Santa Helena, mãe do imperador Constantino. Esta primitiva Basílica foi assolada por diversos incêndios e depois grandemente devastada pela revolta dos Samaritanos de Nablus em 529 contra o governo bizantino. Foi sobre as ruínas desta Basílica Constantiniana que o imperador Justiniano fez construir, com traços arquitetónicos diferentes, a Basílica atual.

10. Mas a Basílica Constantiniana também não representa o estádio primitivo do culto cristão em Belém. Este encontra-se certamente na cripta da Basílica atual, guardado num espaço retangular de 12,30 metros de comprimento por 3,50 metros de largura, para onde convergem os passos dos peregrinos. Este espaço corresponde ao estábulo anexo à já mencionada sala de hóspedes. Aí se encontra o Altar da Natividade, debaixo do qual se pode ver uma estrela de prata com a inscrição: Hic de Virgine Mariae Jesus Christus natus est [= «Aqui da Virgem Maria nasceu Jesus Cristo»]. A Basílica da Natividade guarda na sua cripta o mistério do nascimento de Jesus, da pobreza, da humildade, do amor, da paz. Daquele e daquilo que não tem lugar na sala do nosso bem-estar, poder, ódio, ostentação, tirania. Na tua casa e na tua sala há lugar para quem e para quê, meu irmão deste Dia de Natal?

Há dois mil anos Deus sonhou

E foi

Natal em Belém.

Sonha também.

Se o jumento corou

E o boi se ajoelhou,

Não deixes tu de orar também.

A notícia ecoou nos campos de Belém.

Com o celeste recital que ali se deu,

O céu ficou ao léu,

A terra emudeceu de espanto,

E os pastores dançaram tanto, tanto,

Que até os mansos animais entraram nesse canto.

Isaías 1,3 antecipou a cena,

E gravou com o fulgor da sua pena

O manso boi e o pacífico jumento

Comendo as flores de açucena da vara de José sentado ao lume,

E bafejando depois suavemente o Menino de perfume.

Enquanto os meigos animais vão comer à mão do dono,

O meu povo, diz Deus, não me conhece,

E perde-se nos buracos de ozono.

Vem, Menino!

E quando vieres para a tua doirada sementeira,

Que logo cresce e se faz messe (João 4,35),

Quando assobiares às boieiras,

Chama também por mim,

Diz bem alto o meu nome,

Vamos os dois para o campo e para a eira,

E enche-me de fome

De um amor como o teu,

Pequenino e enorme.

António Couto


SENHORA DA VISITAÇÃO

Dezembro 17, 2021

1. A liturgia deste Domingo IV do Advento, já quase em cima do Natal do Senhor, convida-nos a contemplar com amor emocionado algumas joias da Escritura Santa.

2. Em Primeiro lugar, porque o Evangelho tem sempre o primeiro lugar, o Evangelho de Lucas 1,39-45. As Igrejas do Ocidente conhecem este episódio por «Visitação» de Maria a Isabel, enquanto os nossos irmãos do Oriente preferem denominá-lo «Saudação» de Maria a Isabel. O episódio é deslumbrante, e começa por nos mostrar Maria a correr sobre os montes para ir ao encontro de Isabel. Ao correr sobre os montes, Maria reveste-se dos traços sublimes do mensageiro de Isaías 52,7, que diz: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a Paz, que leva Boas Novas a Sião!». Claramente, Maria aparece como portadora de Notícias Felizes. Mas, ao correr sobre os montes, Maria reveste-se também do perfume do amor novo do Cântico dos Cânticos 2,8, onde se ouve a amada a dizer: «A voz do meu amado, ei-lo que vem correndo sobre os montes!». Assim, com esta simples nota narrativa, Maria aparece-nos como uma Mulher Bela, Encantada, cheia de Alegria, Esposa Amada e Habitada por Notícias Felizes, pela Notícia Feliz, isto é, pelo Evangelho em Pessoa, Jesus, que Maria humildemente serve e ternamente apresenta, mais tarde a Senhora Odighítria, venerada nas Igrejas do Oriente, que com a mão aponta o caminho verdadeiro, o seu Filho Jesus, que leva ternamente ao colo.

3. Seria bom que nos demorássemos longamente a contemplar esta figura de Maria, bela, leve e feliz. Contemplando esta figura cheia de beleza e de leveza, estamos já a ver, em contraluz, o retrato dos Evangelizadores do Evangelho, também belos, leves e felizes e habitados por um amor novo: sem ouro nem prata nem cobre nem alforge nem duas túnicas. E, se olharmos agora um bocadinho para nós, verificaremos logo, em contraponto, que talvez levemos peso a mais!

4. Esta Mulher Bela, Esposa Amada e Feliz, saúda Isabel. Não pode senão encher de Alegria o mundo de Isabel, que irrompe naturalmente num hino de louvor, acrescentando mais umas palavras à oração da «Ave-Maria», iniciada pelo Anjo: «Ave [Maria], cheia de graça, o Senhor é contigo», disse o Anjo (Lucas 1,28). Acrescenta agora Isabel: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre [Jesus]» (Lucas 1,42), e aponta logo a seguir Maria como «Mãe do meu Senhor» (Lucas 1,43), desvelando o seu nome grande de «Mãe de Deus», começo da «[Santa Maria], Mãe de Deus».

5. A segunda joia da Escritura Santa, que hoje nos é dado contemplar, é o texto singular da profecia de Miqueias 5,1-4, que começa: «E tu, Belém de Éfrata, pequena entre os clãs de Judá, de ti sairá para mim aquele que será o governador (môshel) de Israel» (Miqueias 5,1). E termina, afirmando: «E ele será a Paz!» (Miqueias 5,4).

6. Postando-se na esteira de luz de Isaías, Miqueias vê também que vai nascer um mundo novo. Mas de forma diferente do citadino Isaías, o camponês Miqueias não vê o mundo novo provir do Palácio ou do Templo da capital. Do Palácio e do Templo, do Rei e dos Sacerdotes, o humilde Miqueias apenas vê sair exploração, opressão, opulência, mentira e violência. É por isso que Miqueias critica asperamente os grandes da Capital que esbulham o povo, cortando a sua carne aos pedaços, e metendo-a na panela (Miqueias 3). Por isso, quando Miqueias ousa sonhar e vislumbrar um mundo novo, não é para a Capital que ele olha, mas para a província. E o condutor deste mundo novo não é um Rei nem um filho de Rei, mas um môshel, um contador de histórias ou de parábolas (meshalîm, sing. mashal), portanto, um guia sábio, simples e direto e penetrante, como Jesus, que guiará o mundo com o sabor do sol e do sal da sua humilde sabedoria. Genial esta avenida de sentido que atravessa as Escrituras Santas: Miqueias canta um môshel, um contador de histórias e de parábolas, como condutor de um mundo novo; os Evangelhos apresentam Jesus, que fala apenas em parábolas, e sem parábolas nada lhes falava (Mateus 13,34; Marcos 4,34). E nós sabemos bem que Jesus não nos guia com exércitos e carros de combate, leis, polícia, alfândega ou pesados impostos, mas com a brancura dos lírios do campo e a inocente alegria dos pássaros do céu! É por isso que Miqueias evita Jerusalém, e se volta para Belém. Os Evangelistas Mateus e Lucas saberão ler muito bem esta preciosa indicação de Miqueias.

7. A terceira joia é o texto da Carta aos Hebreus 10,5-10, em que Cristo supera ao mesmo tempo o sacerdócio antigo e os sacrifícios rituais da antiga liturgia do Templo. Cristo é o novo Sumo-Sacerdote que inaugura um culto novo, oferecendo-se a si mesmo ao Pai, por nós, para nós. Nós somos do tempo, não das coisas e dos animais, mas da pessoa.

8. Enfim, o Salmo 80, com o nosso desejo expresso de ver o rosto de Deus: «Mostrai-nos, Senhor, o vosso rosto, e seremos salvos!». E o Natal do Senhor ali tão perto!

Senhora da Visitação,

Que corres ligeira sobre os montes,

Vela por nós,

Fica à nossa beira.

É bom ter a esperança como companheira.

Contigo rezamos ao Senhor:

Dá-nos, Senhor,

Um coração sensível e fraterno,

Capaz de escutar

E de recomeçar.

Mantém-nos reunidos, Senhor,

À volta do pão e da palavra.

Ajuda-nos a discernir

Os rumos a seguir

Nos caminhos sinuosos deste tempo,

Por Ti semeado e por Ti redimido.

Ensina-nos a tornar a tua Igreja toda missionária,

E a fazer de cada paróquia,

Que é a Igreja a residir no meio das casas dos teus filhos e das tuas filhas,

Uma Casa grande, aberta e feliz,

Átrio de fraternidade,

De onde se possa sempre ver o céu,

E o céu nos possa sempre ver a nós.

António Couto


E NÓS QUE HAVEMOS DE FAZER?

Dezembro 10, 2021

1. Como tivemos oportunidade de ver e de sentir, o Evangelho do Domingo II do Advento (Lucas 3,1-6) rasga este mundo ao meio de forma clara e impiedosa. Diz o narrador, com a precisão do bisturi, que a Palavra de Deus passa ao lado dos senhores deste mundo, e cita Tibério César, Pilatos, Herodes Antipas, Filipe, Lisânias, Anás e Caifás, e nós podemos sempre atualizar esta lista, incluindo nela outros nomes e o nosso também. Aí está o golpe a sangrar do bisturi de dois gumes que é a Palavra de Deus (Salmo 149,6; Juízes 3,16-22; Hebreus 4,12). Então, a Palavra de Deus passa ao lado deste mundo rico e poderoso, autorreferencial, impiedoso, insensível e indiferente, e, para espanto nosso, vai cair sobre um pobre, João Batista, que não habita em palácios, mas no deserto! Com esse bisturi da Palavra, João Batista pode sempre limpar (João 15,3) o silvado que nos enche os ouvidos, lavar as gorduras que embotam o nosso humano coração e desfazer, com o martelo pneumático, o pedregulho que petrifica o nosso quotidiano.

2. Aí está, então, no Evangelho deste Domingo III do Advento (Lucas 3,10-18), outra vez João Batista em cena, irrompendo agora com o bisturi da Palavra direto aos ouvidos dos homens deste tempo, ouvidos obstruídos por mato e por silvas, anunciando que o tempo está maduro para limpar a eira e recolher o trigo, que a hora é de frutos novos!

3. «E nós que devemos fazer?» (Lucas 3,10.12.14), perguntam as multidões, os publicanos, os soldados. Perguntamos nós também. Responde João Batista, que acaba de abrir caminho por entre o mato e as silvas que obstruem o caminho que vai dos nossos ouvidos até ao nosso coração empedernido: vós não vos canseis de dar, não roubeis, não pratiqueis a injustiça, não façais violência! Amai! Reparemos que todos os frutos de conversão que João Batista menciona e reclama se referem sempre ao nosso comportamento para com o próximo. Fica claro que a conversão, isto é, o nosso voltar-se para Deus, passa sempre pelos nossos gestos para com o próximo, nomeadamente pela partilha para além do impensável. Se eu tenho duas túnicas, e o meu próximo nenhuma, devo dar-lhe uma. Fica então claro que, nesta nossa sociedade, em que poucos têm muito, muitíssimo, quase tudo, e os outros nada, andamos a brincar com o Evangelho!

4. Mas este verbo «partilhar» é terrível. Sem darmos por isso, é a última palavra que queremos ouvir. Na verdade, «partilhar» desvenda e despoja-nos da nossa falsa boa vontade, da nossa generosidade virtual, do nosso vão sentimentalismo religioso, enfim, da nossa hipocrisia. Partilhar não é «depositar» nos outros apenas o supérfluo, as sobras. Dar o que sobra não tem a marca de Deus, não é fazer a verdadeira memória de Jesus, que se entregou a si mesmo por nós (Efésios 5,2), por mim (Gálatas 2,20). O supérfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo transforma a vida para sempre. Mas João Batista, verdadeiro guardião da fronteira entre este mundo que passa e o mundo que vem, anuncia também uma Presença nova, a d’Aquele-Que-Vem, com o Espírito, que dá a vida verdadeira: ei-lo que vem, o noivo, o esposo, aquele de quem eu, diz João Batista, não tenho o direito nem o poder de desatar a correia da sandália!

5. Desatar a correia da sandália. Não é de um simples gesto de humildade que se trata. A sandália leva-nos para o campo do direito de posse e também do direito matrimonial. Basta ler o Livro do Deuteronómio 25,5-9 sobre a Lei do Levirato e o Livro de Rute 4,7-10 acerca do casamento de Booz com Rute. O noivo, que é o primeiro a ter o direito de desposar a noiva, se quiser prescindir desse direito em favor do segundo, tira a sua própria sandália (ou é-lhe retirada) e entrega-a ao segundo na ordem do direito. Era esta a prática do direito matrimonial no antigo Israel. João Batista não pode desatar a sandália daquele que tem o direito à noiva. Só este é que é o noivo, o esposo. João Batista não é o noivo, mas indica-o. Ei-lo que está a chegar! O esposo é Cristo. E a esposa é do esposo. A hora é de alegria, é de amor, é de frutos de alegria e de amor!

6. Portanto, «Alegrai-vos sempre no Senhor!», porque «o Senhor está próximo!», grita de alegria o Apóstolo Paulo aos ouvidos dos cristãos de Filipos (Filipenses 4,4-7). E a lição é para nós também.

7. E o Profeta Sofonias (3,14-18) mantém alta a tonalidade festiva: «Rejubila, filha de Sião!,/ Solta gritos de alegria, Israel!»,/ «porque o Senhor está no meio de Ti!». Também este intenso convite é para nós, hoje, e deve ser vivido por nós, hoje e aqui, reunidos em assembleia litúrgica festiva, que confessamos uma e outra vez: «Ele está no meio de nós!».

8. Sempre em tom de festa e de alegria, o Salmo Responsorial, hoje um hino de louvor retirado de Isaías 12,3-6, deixa a nossa alma cheia de canções, fazendo-nos repetir (e nós repetimos o que amamos): «Povo do Senhor, exulta e canta de alegria!», ou «Exultai de alegria, porque está no meio de vós o Santo de Israel!». Sim, o povo de Deus, a sua Igreja Una e Santa, vive da música de Deus, cantando com um dos mais belos versos da inteira Escritura: «Minha força e meu canto Yah!» (Salmo 118,14; Isaías 12,2; cf. Êxodo 15,2). Yah de YHWH, como quando cantamos «Alelu-yah!» [= Louvai Yah], louvai Deus, o nosso Deus, Aquele que está no meio de nós, hoje e sempre, operando maravilhas.

9. Por tudo isto, e não é pouco, este Domingo III do Advento é chamado «Domingo gaudete», «Domingo da alegria». Que o seja de verdade nos nossos corações. Deixemo-nos, então, atravessar pela Alegria, e sintamos bem fundo, para além da capa do nosso sentimentalismo religioso, o bisturi da Palavra de Deus e o martelo pneumático do Espírito.

São estes os caminhos do Advento,

cheiinhos do vento do Espírito,

que derruba as folhas secas das árvores,

e nos faz ver

que somos todos como a erva,

e a nossa glória não é mais do que a flor da erva.

Mas seca a erva e murcha a flor,

e nós passamos.

Sim, estamos de passagem.

Mas sentimos no rosto,

ou talvez no coração,

a tua aragem mansa,

que nos enche de paz e confiança.

O Advento é uma escola de esperança

e de oração,

de coragem e de alento.

O Advento é uma viagem

até ao nascimento

do menino de Belém,

lá, e dentro de nós também.

António Couto


ALEGRA-TE, MARIA!

Dezembro 7, 2021

1. «Fazendo memória da Toda Santa, imaculada, sobre bendita, gloriosa Senhora nossa, Mãe de Deus e Sempre Virgem Maria, juntamente com todos os Santos, consagramo-nos nós e toda a nossa vida a Cristo Deus». Assim se conclui, no rito bizantino, a oração que abre a celebração deste Dia, à qual a assembleia responde: «a Ti, Senhor!». É o «fiat», o «faça-se» dito por Maria (Lucas 1,38), a Serva do Senhor, a ecoar também no nosso coração e a brotar dos nossos lábios. É o eco daquele «faça-se» de Deus na primeira página da Escritura Santa a ecoar no coração de Maria e no nosso também. É aquele «Sim» imenso que atravessa as primeiras 452 palavras hebraicas da Escritura Santa (Génesis 1,1-2,4a), onde não se lê um único «Não». «Tudo, na verdade, foi feito pelo Verbo» (João 1,3), «n’Ele foram criadas todas as coisas» (Colossenses 1,16), e o Verbo incarnado, Jesus Cristo, no dizer do Apóstolo, «foi sempre Sim, e nunca não» (2 Coríntios 1,19). Aí está a filigrana que faz vibrar a melodia e mostra a verdadeira harmonia da Escritura. Imensa sintonia a ecoar hoje em tantos corações! As partituras desta música divina vêm hoje de Lucas 1,26-38, Génesis 3,9-15.20, Efésios 1,3-6.11-12 e do Salmo 98.

2. É bom sabermos e sentirmos que as Igrejas do Oriente e do Ocidente, embora divididas entre si, nos dias 8 e 9 de Dezembro (8 no Ocidente e 9 no Oriente), nove meses antes da Festa da sua Natividade (8 de Setembro), juntam as suas vozes em maravilhosa harmonia para celebrar a Mãe de Deus no singular privilégio da Conceição Imaculada da sua humanidade.

3. Bem sabemos, além disso, que os Coptos dedicam a Maria o inteiro mês de Kiahq, que coincide mais ou menos com o nosso mês de Dezembro, e os Caldeus, os Antioquenos e os Maronitas celebram, também nesta altura do ano, e durante pelo menos quatro Domingos, o tempo da chamada Sûbbarâ ou «Anunciação» ou «Evangelização», Vinda de Deus ao nosso mundo, notícia após notícia, para abrir as nossas trincheiras e fazer nascer em nós um mundo novo, um cântico novo.

4. «Onde estás?», pergunta o Deus-Que-Vem por amor ao encontro da sua criatura dileta (Génesis 3,9). «Tive medo e escondi-me», respondemos nós, amedrontados (Génesis 3,10). A narrativa exemplar de Génesis 3, que hoje lemos, desvenda todas as nossas inúteis estratégias de defesa, e faz-nos ver como nós nos escondemos de nós mesmos e de Deus, e como alijamos facilmente as nossas culpas sobre os outros. Correto, limpo, terapêutico, salvador, era assumirmos e confessarmos humildemente as nossas culpas. Mas não. Fugimos, escondemo-nos de nós, e respondemos: «Foi a mulher», «foi aquele», «foi aquela», e, em última análise, «foste Tu, foste Tu, Deus» (Génesis 3,12), porque foste Tu que me deste a maravilha de um irmão, de uma irmã, e foi esse irmão dado por Ti, essa irmã dada por Ti, que me deu a comer aquele fruto, fruto de um furto! És Tu, portanto, e em última análise, o culpado. Aí estamos nós a fugir de nós mesmos, e a acusar os outros! E se não assumimos as nossas culpas, como podemos corrigir os nossos erros, e como podemos chegar a descobrir a realidade humana e divina do perdão? Sim, porque quando nos escondemos de Deus, estamos também a esconder Deus e os seus dons, a Alegria, o Amor, o Perdão.

5. Sim, esta história tem a ver connosco. Estando o Rabi Shneur Zalman (1745-1812) preso em S. Petersburgo, entrou na sua cela o comandante da guarda, e pôs-se a conversar com ele sobre assuntos diversos. No final, perguntou: «Como se deve interpretar que o Deus Omnisciente pergunte a Adam: “Onde estás?”». «Você acredita», respondeu o Rabi, «que a Escritura é eterna e que diz respeito a todos os tempos, a todas as gerações e a todas as pessoas?». «Sim, acredito», disse o comandante da guarda. «Então», respondeu o Rabi, «em cada tempo Deus pergunta a cada homem: “Onde estás no teu mundo? Dos dias e dos anos que te foram atribuídos, já passaram muitos: entretanto, até onde é que tu chegaste no teu mundo?”. Deus disse, por exemplo: “Vê, já há 46 anos que andas aqui. Onde te encontras?”». Ao ouvir o número exato dos seus anos, o comandante sentiu dificuldade em controlar-se, pôs a mão no ombro do Rabi, e exclamou: «Bravo!». Mas o seu coração tremia.

6. É usual dizer-se que esta conhecida página do Livro do Génesis narra a entrada do mal no coração do homem e no mundo. Mas do que se trata mesmo é da importância da relação do homem com Deus, e diz-nos que o mal entra no mundo quando o homem quebra esta relação e se desliga de Deus. Por isso também, daí para a frente, a Escritura Santa ocupa-se em mostrar que a resposta a dar ao mal não é apenas o bem, mas o santo. Entenda-se: não o homem fechado sobre si, autossuficiente e autorreferencial, mas completamente aberto e voltado para Deus, de quem por amor tudo recebe e se recebe. E completamente voltado para os outros, a quem tudo entrega por amor. Como Maria, a figura deste luminoso Dia.

7. Em perfeita sintonia, aí está o Apóstolo a dizer o fundamental: «que Deus nos escolheu para sermos santos» (Efésios 1,4) e para nos dar, através de Jesus Cristo, a nossa verdadeira identidade, a filiação divina (hyiothesía) (Efésios 1,5). Entrando assim, por graça, na casa de Deus (Efésios 4,19), andaremos sempre na sua presença. Ele é o Deus Santo que nos santifica. Escutemos também a melodia admirável em que o Apóstolo nos faz entrar na Carta aos Romanos 15,4-9. Como seria belo um mundo pautado por uma verdadeira fraternidade em que todos vivêssemos sob o impulso e o alento carinhoso e criador de Deus. Na verdade, todos respiramos o mesmo alento, que o texto grego diz com o belo termo composto homothymadón (Romanos 15,6), que junta homós [= mesma] e thymós [= alma], sendo que thymós deriva de thýô [= soprar]. E que mundo maravilhoso surgiria, rompendo a crosta do egoísmo e da dureza de coração, se «nos acolhêssemos uns aos outros, como Cristo nos acolheu a nós» (Romanos 15,7). Aí está então a comunidade humana irmanada e reunida, porque todos recebemos de Deus o mesmo alento, o mesmo sopro criador (Génesis 2,7), e com uma só boca (en henì stómati) e a uma só voz cantamos os louvores do nosso Deus (Romanos 15,6), autor de tantas maravilhas (Êxodo 15,11)! Esta linguagem e esta harmonia enchem por inteiro a comunidade primitiva (Atos 1,14; 2,46; 5,12).

8. O ícone desta santidade, neste mundo, é Maria, no grande texto da Anunciação (Lucas 1,26-38). Vale a pena contemplá-la demoradamente, como fazem as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Ao contrário de nós, Maria, visitada por Deus, não foge, não se esconde de si mesma, não se esconde de Deus, não esconde Deus na sua vida. Tinha consagrado a Deus toda a sua vida e a sua virgindade. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver em matrimónio está, porém solidamente documentada, e impõe-se mesmo que assim a compreendamos no texto da Anunciação. Cada vez mais me convenço, não querendo, no entanto, convencer ninguém, que o matrimónio de Maria e de José, como se pode vislumbrar em contraluz, nos interstícios dos textos de Mateus 1-2 e Lucas 1-2, não será tanto o quadro habitual do matrimónio, em ordem à procriação, mas será mais o quadro de um matrimónio em ordem à proteção mútua (civil, religiosa, jurídica, social, económica…), e cuja finalidade não é a procriação, mas a dedicação total de duas pessoas às coisas de Deus. Neste quadro religioso, jurídico, social, não é de estranhar que Maria seja apresentada como «virgem casada» (parthénos emnêsteuménê) (Lucas 1,27; 2,5) que, perante o anúncio do Anjo Gabriel de que há de conceber e dar à luz um filho (Lucas 1,31), avança a objeção concreta: «Como pode ser isso, pois não conheço homem?» (Lc 1,34). Eu entendo e entenda quem puder que, no quadro de um matrimónio habitual, esta objeção não faria sentido. Claramente, não estava no pensamento de Maria (e de José) vir a ter um filho. Faço notar que este estatuto é conhecido, no judaísmo [(tratado Niddah, da Mishnah judaica, e ver também as anotações precisas de Ireneu de Lião (130-202) e de Tertuliano de Cartago (160-220)]. Tudo ao contrário, por exemplo, de Isabel e Zacarias que muito tinham rezado para que Deus lhes desse um filho, e foram atendidos, no dizer de Gabriel (Lucas 1,13).

9. Não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, esta maneira de viver o matrimónio, além de estar documentada no judaísmo, é a que melhor explica a objeção de Maria ao anjo (de outro modo, no contexto de um matrimónio habitual, mais dia menos dia sempre Maria haveria de ter um filho). Ao contrário do homem do Génesis e desta sociedade em que vivemos, Maria não se esconde de Deus nem esconde Deus. Expõe-se, na sua verdade e simplicidade, ao imenso clarão de Deus. É assim que se expõe a Deus e que expõe Deus, recebendo e aceitando com amor intenso a sua nova Vocação que lhe vem de Deus. Maria vai ser a Mãe, não de um filho, mas do Filho há muito ansiado, esperado e anunciado nas páginas da Escritura Santa Antiga. É o Filho de Deus, totalmente consubstancial a Deus, e é o Filho de Maria, totalmente consubstancial à sua Mãe. Santa Maria, Mãe de Deus.

10. Por isso, «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «não tenhas medo», «o Senhor está contigo» (Lucas 1, 28 e 30). Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos», «não tenhais medo» (Mateus 28,5 e 9). E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

11. «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada (Lucas 1,48). É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor (Lucas 1,45)! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática (Lucas 11,28)!

12. Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de Março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099, pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

13. A uns 200 metros para nordeste encontra-se a Igreja da Nutrição, que guarda a memória de S. José e dos «irmãos de Jesus» do ramo de José, muito zelosos dos seus direitos, tradição bem conhecida na Igreja primitiva, a partir do século II, e fechados aos gentio-cristãos pelo dogma da habdalah [= separação entre os judeo-cristãos e os cristãos da Grande Igreja]. Nesse sentido, é sabido que em 570 impediram o Anónimo de Piacenza de visitar a «casa de José», e, em 614, alistaram-se com os Persas do rei Cosroé II, vindo ao de cima o seu zelo destruidor de igrejas «cristãs». Com a vitória de Heráclio, estes judeo-cristãos nazarenos levaram consigo as suas tradições sobre Nazaré e S. José, e ter-se-ão refugiado junto dos coptos egípcios. Logo a seguir, em 670, Arculfo já pôde visitar e descrever a casa de S. José em Nazaré. A descrição de Arculfo vê-se confirmada mais tarde, nas escavações do P. Viaud e de Fr. Benedetto Vlaminck, nos anos de 1890 e 1909-1910, e, mais tarde ainda, em 1970, pelo P. Bagatti.

14. Foi o Concílio de Basileia (1439) que sugeriu a definição do dogma da Imaculada Conceição, proclamado depois por Pio IX em 08 de Dezembro de 1854, através da bula Ineffabilis Deus. Note-se que o termo «conceção», na linguagem bíblica, indica a totalidade da existência. O velho orante do Salmo 71, olhando retrospetivamente para a sua vida de fidelidade e de amor, exclama extasiado: «Sobre ti me apoiei desde o ventre, desde as entranhas de minha mãe» (Salmo 71,6). Assim também, a existência de Maria está, desde o seu início, sob a proteção de Deus, marcada com o selo de Deus, não estando nunca sob o selo do pecado original, que mostra a existência humana marcada por um projeto alternativo ao de Deus, em que cada existência humana, eu, o meu pai, os filhos que aparecerão sobre a face da terra, queremos ser por nossas próprias forças «como deus, conhecedores do bem e mal» (Génesis 3,5).

15. Esta celebração da Mãe de Deus e nossa Mãe e Padroeira Principal de Portugal é um desafio imenso para o homem «em fuga» deste tempo, que se esconde de si mesmo, que continua a esconder-se de Deus, e que pretende esconder Deus, retirando-o da via pública e da vida pública. Atravessamos verdadeiramente a «noite do mundo» (Weltnacht), diz Martin Heidegger, onde «Cada um está sozinho no coração da terra/ atravessado por um raio de sol:/ e é logo noite», como bem escreve o escritor italiano Salvatore Quasimodo. Homem deste tempo às escuras, engessado, triste, exilado, escondido, anestesiado, volta para a Luz, reentra em tua casa, no teu coração despedaçado. Há de seguramente por lá haver ainda, caída no fundo da alma, uma lágrima dorida e uma mão de Mãe à tua espera!

Senhora de dezembro,

Maria, minha Mãe,

Passa hoje o dia da tua Imaculada Conceição.

Senhora de dezembro,

Dos dias frios e frágeis,

Dos passos firmes e ágeis,

Do coração que velava

À espera de quem te amava.

Assim te entregaste a Deus,

De coração inteiro,

Como um tinteiro

Todo derramado numa página.

Tu és a mais bela página de Deus,

A Deus doada, apresentada, dedicada,

Mãe da vida consagrada,

Imaculada,

Ensina-me a tua tabuada,

A tua nova alegria,

A luz do Evangelho que te aquece e alumia.

Eu te saúdo, Maria,

Neste dia da tua Imaculada Conceição.

Ave-Maria.

António Couto


UM CAMINHO NOVO DIREITINHO AO CORAÇÃO

Dezembro 3, 2021

1. Sempre considerei o texto de Lucas 3,1-6, que constitui a passagem do Evangelho que temos a graça de ouvir neste Domingo II do Advento, como uma das páginas mais admiráveis, e, ao mesmo tempo, mais implacáveis que me vieram ter à mão. À primeira vista, parece que o narrador pretende apenas situar as principais figuras e os principais acontecimentos da salvação bem no coração da história e da geografia humanas. É assim que o vemos traçar com rigorosa precisão a vinda da Palavra de Deus sobre João Batista, no deserto, no 15.º ano do império (hêgemonia) de Tibério (Lucas 3,1). Como Tibério reinou de 14 a 37, o 15.º ano do seu governo corresponde, segundo o cálculo comum, ao ano 28-29, ou, segundo o cálculo siríaco, ao ano 27-28, sempre de outono a outono.

2. Se a pretensão do narrador fosse apenas a de situar as figuras de João Batista e, sobretudo, Jesus, no centro da história de então, bastava a referência precisa que faz a Tibério. Mas o narrador acrescenta-lhe quatro nomes, que têm a ver com a divisão do território do reino de Herodes o Grande (37-4 a. C.): Pôncio Pilatos, governador romano da Judeia (26-36 d.C.), que condenará Jesus à morte na cruz (Lucas 23,24), como recitamos no Credo; Herodes Antipas, responsável pela prisão e decapitação de João Batista (Lucas 3,20; 9,9), e que, enquanto tetrarca da Galileia (4 a.C-39 d.C.), tem também jurisdição sobre Jesus (Lucas 13,31), sendo esse o motivo pelo qual Pilatos lhe enviará Jesus (Lucas 23,6-12). Estas duas figuras estão diretamente ligadas à morte violenta de Jesus e de João Batista. As menções de Filipe, tetrarca da Itureia e da Traconítide, regiões que se estendiam a norte e oriente do Mar da Galileia, e de Lisânias, tetrarca de Abilene, que se situava na Beqaa libanesa, parecem servir para mostrar que a história de Jesus e a salvação que Ele traz têm a ver, não apenas com os hebreus, mas com todos os povos, até os mais insignificantes, hoje diríamos, com as periferias. Os nomes de Anás e Caifás, sumos-sacerdotes de 5 a.C. a 15 d.C. e de 18 a 36 d.C., respetivamente, trazem para a cena o poder religioso judaico, que se escandalizou com o comportamento de Jesus e solicitou a sua condenação à morte.

3. Ora bem, é este mapa do mundo civil e religioso que é aberto ao meio de forma clara e impiedosa pela Palavra de Deus (rhêma Theoû) que veio como um acontecimento (egéneto) sobre João Batista, no deserto (Lucas 3,2). Então, recebendo a página de outra maneira, a mais intensa, o elenco dos nomes dos grandes do mundo de então não traduz tanto a pretensão do narrador de fazer história. Em vez disso, com a precisão do bisturi, quer dizer-nos que a Palavra de Deus passa ao lado dos senhores deste mundo, e cita Tibério César, Herodes Antipas, Filipe, Lisânias, Anás e Caifás, e nós podemos sempre atualizar este elenco, incluindo nele outros nomes e o nosso também. Aí está o golpe a sangrar do bisturi de dois gumes que é a Palavra de Deus (Salmo 149,6; Hebreus 4,12). De forma grandemente sintomática, a Palavra de Deus passa ao lado deste mundo rico e saciado, poderoso e religioso, impiedoso e insensível, e, para grande espanto nosso, vai cair sobre um pobre, João Batista, que não habita em palácios, mas no deserto! E, tal como na primeira página do Livro do Génesis, a Palavra de Deus dita e feita veio (wayhî TM; egéneto LXX) sobre o caos (Génesis 1,3), ordenando-o e imprimindo-lhe um sentido, sendo depois ordenado ao homem que continuasse essa tarefa, aqui está um novo sentido imprimido à caótica história humana, sintomaticamente não pelos ricos e importantes, mas pelos pobres, e também não nas capitais, mas nas periferias, no deserto!

4. No deserto nada é obra das mãos do homem. Nada é idolátrico, portanto. É tudo obra das mãos de Deus. Nova criação à vista, onde irrompe outra vez a voz de Deus: uma voz que nunca se ouviu, um silêncio que nunca se calou! Caminhos novos, retificados, plenificados. Pura engenharia divina. A salvação de Deus ao alcance de todos. Universalidade. É significativo que, ao contrário de Mateus 3,3, de Marcos 1,3 e de João 1,23, que citam apenas Isaías 40,3, Lucas alarga a citação a Isaías 40,3-5, para incluir que «toda a carne verá a salvação de Deus». «Toda a carne», isto é, toda a humanidade. Como habitualmente, Lucas é universalista e missionário (Evangelho missionário), e quer que a voz criadora de Deus desenhe caminhos novos para todos, retina em todos os ouvidos e leve a salvação a todos os corações.

5. Este Domingo II do Advento serve-nos também a delícia de Baruc 5,1-9, isto é, todo o Capítulo 5 do Livro deuterocanónico de Baruc. Baruc passa por ser o secretário de Jeremias. Mas o Livro de Baruc, só conhecido em grego, é tardio. E canta, de forma esplendorosa, a cidade de Jerusalém personificada como Esposa e como Mãe. Esposa de Deus, e como tal maravilhosamente vestida e adornada, e como Mãe dos filhos de Deus, que regressam festivamente a Casa, vindos dos quatro cantos do mundo, unidos e reunidos, livres e felizes, saídos de todas as opressões, de todos os exílios, de todas as orfandades.

6. Por detrás desta Esposa bela e Mãe radiante, pode ver-se em filigrana a Noiva do Apocalipse, bela como uma Esposa adornada para o seu Esposo, a Igreja nossa Mãe. No texto de Baruc, esta Esposa e Mãe recebe um nome novo, dado por Deus. Quando é Deus a dar o nome, isso significa criar: nova criatura, dileta, imagem perfeita de Deus, filha do amor, mãe do amor. Nós, que formamos esta Igreja, Esposa bela e Mãe radiante, não podemos hoje deixar de cantar bem alto a nossa gratidão e a nossa alegria. Impõe-se ainda que façamos da nossa Igreja local, da nossa Paróquia, onde nos reunimos, «a Casa carinhosa e acolhedora de Deus no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas», para o dizer com as palavras belas de S. João Paulo II, na Exortação Apostólica Christifideles laici [30 de Dezembro de 1988], n.º 26), que alguns anos antes já tinha dito, no mesmo sentido, que a vocação da paróquia «é a de ser a casa de família, fraterna e acolhedora» (Exortação Apostólica Catechesi tradendae [16 de Outubro de 1979], n.º 67).

7. Para dizer esta alegria filial, batismal, temos de cantar que «o Senhor fez maravilhas em favor do seu povo». É o Salmo 126, o canto do regresso a Casa, de um sonho feliz, da estação das canções e das colheitas. Verdadeiramente Deus cuida de nós. O Canto ritmado deste Salmo serve para nos abrir bem os olhos do coração para vermos bem as inumeráveis maravilhas com que Deus enche os nossos caminhos todos os dias. Entre a sementeira e a ceifa, entre a dor e a alegria, o inverno e a primavera, a semente não erra e não mente. Segue o seu curso natural. Suavemente. Aí está, portanto, outra vez a jubilosa procissão dos exilados! E nós, extasiados, como quem sonha, a boca cheia de riso e os lábios de canções.

8. E aí está também o princípio da Carta de S. Paulo aos Filipenses (1,4-6.8-11). Filipos foi a primeira comunidade cristã fundada por Paulo em solo europeu, aí pelo ano 49 ou 50. Quanta alegria, quanta ternura, quanto amor, quanta sensibilidade cristã perpassa esta bela página de S. Paulo. Deliciemo-nos. Ser cristão, filho de Deus, membro desta Igreja Esposa e Mãe, é deliciar-se e ser delicioso. Este é o caminho novo que urge abrir direitinho ao nosso coração e ao coração da humanidade.

O Senhor do Advento

é Aquele-que-Vem

nascer em Belém,

bater à nossa porta,

pedir ao nosso coração

um bocadinho de pão.

Tão pouco e tanto nos pede Jesus,

e para nosso espanto,

e encanto nosso,

o Filho de Maria

vem vestido de irmão nosso

de cada dia.

Ele anda por aí,

ao frio e ao calor,

rico e pobrezinho,

Nosso Senhor.

Vem, Menino,

Senhor do mundo,

do sol e da lua,

bate à minha porta,

entra em minha casa,

e que, por graça,

entre eu também na tua.

António Couto


S. FRANCISCO XAVIER, O MAIOR MISSIONÁRIO DA ERA MODERNA

Dezembro 3, 2021

S. Francisco Xavier, proclamado Padroeiro Universal das Missões (Pio X) e apontado como «Apóstolo mundial dos tempos modernos» (João Paulo II), de quem celebrámos em 2006 os quinhentos anos do seu nascimento (07.04.1506 – 07.04.2006), postou-se, na esteira de Paulo, no humilde e fiel seguimento de Cristo, vivendo de Cristo (Fl 1,21), impelido pelo AMOR de Cristo (2 Cor 5,14) e pelo Sim de Cristo – que «não foi Sim e não, mas unicamente Sim» (2 Cor 1,19) –, testemunha da Alegria nova de Cristo (Lc 10,21; 1 Pe 1,8) e cooperador dessa Alegria (2 Cor 1,24).

Viveu apenas 46 anos sobre esta terra (07.04.1506 – 03.12.1552). 46 anos plenos de Cristo, de Amor e de Alegria. Partiu de Lisboa em 07 de abril de 1541, dia em que completava 35 anos, para uma viagem de 20.000 km, rumo a Goa, onde desembarcou mais de um ano depois, em 06 de maio de 1542, após paragem de quase meio ano (setembro de 1541 até fevereiro de 1542) na Ilha de Moçambique para o restabelecimento dos doentes, enquanto se esperava por ventos favoráveis à navegação. Desde essa data até à sua morte, ocorrida na Ilha de Sanchoão, às portas da China, na madrugada do dia 03 de Dezembro de 1552, vão 10 anos e quase 07 meses de uma desmedida dedicação aos outros, sobretudo aos pobres e doentes, testemunhando com a sua vida humilde e dedicada a Bondade, a Paz e a Alegria do Evangelho.

O Cristo «de la Sonrisa», que muitas vezes contemplou Xavier e que muitas vezes Xavier contemplou no Castelo de Javier, em Navarra, onde nasceu e viveu a sua infância e juventude, gravou-se no coração e nos lábios de Xavier, tomou conta dele, conformou-se nele, transvazou dele. São, na verdade, muitas as testemunhas que descrevem Xavier «com a boca sempre cheia de riso e da graça de Deus» (Monumenta Xaveriana, tomo 2, Madrid, 1912, p. 291 e 306), luminosa cumplicidade entre Xavier e aquele Cristo «de la Sonrisa», que contemplou Xavier e que Xavier contemplou.

É também de salientar a sua ilimitada Confiança em Deus, como transparece de uma sua carta, datada de 05 de Novembro de 1549, escrita de Kagoshima, no Japão, e dirigida aos seus companheiros de Goa:

«Sei de uma pessoa a quem Deus concedeu muitas graças, que se ocupava muitas vezes, tanto nos perigos como fora deles, em pôr toda a sua Esperança e Confiança n’Ele, e o proveito que daí lhe adveio levaria muito tempo a descrever».

Aquele «Sei de uma pessoa» lembra Paulo (2 Cor 12,2). Pôr toda a sua confiança em Deus é firmar-se em Deus, viver de Deus e desde Deus. A tanto nos desafia também a nós, hoje, este missionário intenso e dedicado. E aquele Sorriso nos lábios do Crucificado e de Xavier é outro impressionante desafio para nós. Sem esta cumplicidade com Cristo, sem esta Confiança e Alegria, que Evangelho podemos nós viver e testemunhar?

Obrigado, amigo Francisco. Celebrarei gozosamente a tua Festa, a que me associo com particular alegria desde 03 de Dezembro de 1980.

António Couto


PARA VÓS, SENHOR, ELEVO A MINHA ALMA

Novembro 26, 2021

1. «Para vós, Senhor, elevo a minha alma» (Salmo 25,1). Antífona do Cântico de Entrada que inaugura a celebração eucarística do Advento, do Ano litúrgico, do Ano inteiro. Aponta a atitude a assumir pela Assembleia fiel e orante: a oblação permanente, a oração constante. Para que esta atitude não fique esquecida, mas tome verdadeiramente conta de nós, as mesmas palavras são, em parte, repetidas no refrão do Salmo responsorial, que reclama também a confiança (bathah) em Deus. Extraordinário pórtico de entrada no Advento e no novo Ano litúrgico. Belíssima forma de viver, elevando para Deus a nossa vida: a oração é a nossa vida! A nossa vida em ascensão e oração permanente, sacrifício de suave odor, incenso puro subindo para o nosso Deus. Sempre. O Evangelho dirá com a mesma energia e alegria: «Erguei-vos e levantai a cabeça» (Lucas 21,28). É o gesto do justo justificado por Deus (Job 22,26). Página em branco, Primeira e Última, que podemos apresentar a Deus neste início de Advento e de Ano litúrgico. De Deus é a palavra e a escrita que não passa.

2. «Orando em todo o tempo», diz, a terminar, a lição do Evangelho deste Primeiro Domingo do Advento (Lucas 21,25-28 e 34-36). «Orar em todo o tempo» significa não se deixar enterrar na lama dos caminhos banais e fúteis deste tempo, de qualquer tempo, e que o Evangelho mostra que a busca desenfreada do sucesso e das falsas soluções da devassidão, da embriaguez e das preocupações da vida (Lucas 21,34) é uma teia que nos enreda e não nos deixa ver bem, belo e bom. Andamos sempre tão atarefados com inúmeros afazeres, campos, bois, negócios, casamentos, que ficamos com o «coração pesado» e insensível, incapaz de ver o Filho-do-Homem-que-vem (Lucas 21,27), a toda a hora, nos nossos irmãos mais pequeninos! Ora, o Advento é o Filho-do-Homem-que-vem, para que nós o acolhamos. Se o acolhermos, saímos fora da teia dos nossos afazeres que nos sufoca, o penúltimo, e entramos no mundo maravilhoso do Último, do Amor, da Liberdade, que rompe as nossas cadeias.

3. Sinais no sol, na lua, nas estrelas, sobre a terra, convulsões no mar, medos vários, são acontecimentos que o Antigo Testamento refere a propósito do «Dia do Senhor», com a intervenção do próprio Deus (Isaías 13,6-22; Joel 2,1-11). O facto de agora, no Evangelho que estamos a ler, tais acontecimentos aparecerem conjugados com a Vinda do Filho do Homem é a indicação clara de que esta Vinda é a manifestação de Deus (1). Além disso, os acontecimentos assinalados mostram ainda que o mundo presente não é definitivo, mas transitório, e abrem caminho para a nova criação, o novo céu e a nova terra (Apocalipse 21,1) (2). Mas é ainda percetível a nossa habituação à ordem fixa do mundo, em que nos habituámos a confiar, vindo ao de cima o desconforto sentido e o tom de angústia e confusão que as mudanças assinaladas nos trazem (Lucas 21,26) (3). E fica também a descoberto que devemos aprender a confiar, não nestas velhas realidades passageiras, mas no Dia novo que aí vem (4).

4. Mas que os acontecimentos assinalados abrem, não para vias negativas, mas para perspetivas de salvação, pode ver-se na atitude que Jesus indica aos seus discípulos: «Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque está próxima (eggízei) a vossa libertação (apolýtrôsis)» (Lucas 21,28). A hora é, portanto, de libertação. E note-se que Lucas usa o termo «libertação» sobretudo para retratar a nova situação de um prisioneiro a quem foram retiradas as cadeias, e a quem é concedida a liberdade. Quer isto dizer que os discípulos de Jesus não devem estar mais presos, amarrados, às situações terrenas, sempre difíceis, instáveis e transitórias, mas podem entrar «na liberdade da glória dos filhos de Deus» (Romanos 8,21). A proximidade anotada é a proximidade do Reino de Deus que, pondo em causa o nosso arco instintivo e desiderativo e as nossas amarras autorreferenciais, nos liberta, fazendo irromper em nós a gratuidade e o amor assimétrico. Esta proximidade faz-se presente em cada geração. E é por isso que, neste tempo novo, tudo é urgente e decisivo, não por ser breve, mas por estar grávido de oportunidades salvíficas.

5. O escritor argentino Jorge Luis Borges deixou-nos versos densos como estes, acentuando a importância e a intensidade de cada momento da nossa vida a não desperdiçar: «Não há um instante que não esteja carregado como uma arma»; «Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes»; «Em cada instante a clépsidra deixa cair a última gota». E o poeta brasileiro Vinícius de Moraes escreveu assim num belíssimo poema: «A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais». É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Tudo no Evangelho é decisivo: cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

6. Átrio de um tempo novo, habitado, «carregado» de justiça e de bondade. Obra de Deus no nosso mundo. E só dele. Obra terna, tenra e nova, como um «rebento» de um jovem casal ou de uma planta. Sinal de Primavera no meio da invernia e da lama em que nos vamos atolando, ensonados e enlatados, sem sequer darmos por isso. É, portanto, mesmo preciso que Ele venha e que nos acorde e nos levante da nossa letargia com novas pautas e novos acordes musicais! E que nos dê nomes novos a nós, aos nossos corações, às nossas cidades e aldeias, às nossas escolas, aos nossos hospitais, às nossas ruas! Dar nome é criar e recriar. Obra só de Deus. Extraordinária lição de Jeremias 33,14-16.

7. Paulo passa por Tessalónica (1 Tessalonicenses 3,12-4,2), ou pela nossa terra, e ensina-nos a levantar a nossa vida para Deus, para dele acolhermos o alento criador, e a rivalizarmos no pagamento das dívidas de amor que dia a dia vamos contraindo uns para com os outros. O paradigma, o modelo, o exemplo, é sempre o amor que Deus nos tem, e de que Paulo é testemunha qualificada. Há quem estranhe e pense mesmo que se trata de um mistério o facto de Paulo, quando fala de amor (agápê), quase não mencionar o nosso amor a Deus [apenas mencionado de passagem em Romanos 8,28; 1 Coríntios 2,9; 8,3; 16,22 (philéô); Efésios 6,24; 2 Tessalonicenses 3,5 e 2 Timóteo 3,4 (philéô)], para acentuar sobretudo o amor de Deus para connosco e o nosso amor para com o próximo. Na verdade, não é para estranhar, e muito menos se trata de um mistério. Na verdade, quer a Bíblia Hebraica quer o coração dos Evangelhos falam menos do nosso amor para com Deus, e muito mais do nosso amor para com o próximo e para com o estrangeiro e o inimigo! E não se trata de um amor que satisfaz o nosso desejo, mas da imitação do amor de Deus e de obedecer a um mandamento. Ora, Deus ama o desvalor e manda-nos amar como Ele ama. Então, a nossa resposta ao amor de Deus não consiste na redamatio ou retribuição a Deus do amor com que Ele nos ama, mas volta-se para a frente e traduz-se no amor ao outro, próximo, estrangeiro ou inimigo. Quer na Revelação patente no AT quer em Jesus, o amor ao próximo aparece como o lugar, o único lugar da epifania do nosso amor a Deus.

8. Os acordes do Salmo 25, que hoje cantamos, trazem à tona os rumos e os caminhos de Deus, que são sempre bondade, verdade, ternura e misericórdia – caminhos intransitivos, entenda-se –, que se vão insinuando mansamente dentro de nós, mais ou menos como deixou escrito, no seu Diário, com data de 23 de janeiro de 1948, o grande escritor francês George Bernanos: «Que doçura pensar que, embora ofendendo-o, não deixamos de desejar, desde o mais profundo santuário da alma, aquilo que Ele deseja».

9. Vem, Senhor Jesus! Vem, vem, que Te esperamos!

Como é fácil, Senhor Jesus,

Daqui, de ao pé da tua Cruz,

Avistar a paisagem do Advento,

Compreender-lhe a mensagem,

Respirar-lhe o alento.

Daqui, de ao pé da tua Cruz de Luz,

Sem dúvida o lugar mais alto do mundo,

Mais alto e mais profundo,

Vê-se bem, com toda a claridade,

Que a lonjura do Advento não é horizontal.

Eleva-se em altura.

Como a tua túnica tecida de Alto-a-baixo,

Vertical,

E sem costura.

Tu vens do Alto, Senhor.

Tu vens de Deus.

Tu és Deus.

Tu és o Justo

Que chove das alturas

Sobre a nossa humanidade sedenta e às escuras.

Vem, Senhor Jesus,

Alumia e rega a nossa terra dura,

Acaricia o nosso humilde chão

E modela com as tuas mãos de amor

Em cada um de nós

Um novo coração

Capaz de ver.

Capaz de Te ver

Nascer

Em cada irmão.

António Couto


A SOBERANIA DO AMOR

Novembro 19, 2021

1. A «Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei», com esta denominação, foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de ação, que já tinha fundado a Ação Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se dos valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, alterando-lhe a denominação para «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo».

2. «O Senhor Reina». É assim que abre o Salmo 93, que hoje cantamos. Esta locução verbal – «o Senhor reina» – é também a mais usual no Antigo Testamento para dizer Deus na ação de reinar, isto é, de salvar, justificar, perdoar, criar. Na verdade, reinar é salvar, isto é, trazer a prosperidade, o bem-estar e a alegria ao seu Povo. É esta a missão do rei bíblico. Salvar é justificar. Justificar é, no seu sentido mais profundo, transformar um pecador em justo. Justificar é, portanto, perdoar. Neste profundo sentido bíblico, justificar e perdoar são ações que só Deus pode fazer, dado que, transformar um pecador em justo é igual a criar ou recriar. E da ação de criar também só Deus é o sujeito em toda a Escritura. Já se sabe que o Novo Testamento transforma o ativo «Deus Reina» no mais abstrato «Reino de Deus».

3. Tanta e quase indescritível riqueza, a de um Deus, que o Livro de Daniel 7,3-12 apresenta solenemente sentado no seu trono de Luz e de Fogo purificador, que inutiliza o poder das quatro bestas enormes saídas do mar com aspeto terrível, e que se assemelham a um leão com asas de águia, um urso com costelas na boca, um leopardo alado com quatro cabeças, e um monstro metálico aterrorizador, com enormes dentes de ferro que tudo tritura, cospe e espezinha debaixo das enormes patas. Tinha ainda dez chifres na cabeça, mas nasceu-lhe entretanto um outro mais pequeno e insolente, com uma boca que proferia palavras arrogantes. Estas bestas representam quatro impérios: babilónio, medo, persa e grego (de Alexandre Magno e seus sucessores). Os dez chifres são os reis da dinastia Selêucida, e o décimo primeiro é Antíoco IV Epifânio (175-163). O tribunal divino toma assento para julgar o arrogante Antíoco, que é morto e destruído. E vê-se então, em contraponto com as bestas que saem do mar, símbolo da desordem e do mal, o Filho do Homem que vem sobre as nuvens, do mundo celeste, portanto. A ele é entregue o reino eterno, não assente no poder prepotente da brutalidade, mas no poder manso do Amor (Daniel 7,13-14).

4. No Livro do Apocalipse 1,5-8, este Filho do Homem tem um nome. Chama-se Jesus Cristo. Aparece igualmente sobre as nuvens do céu e ostenta, entre outros, o belíssimo título de «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5). E é por este Amor levado ao extremo que vence, sem combater, este combate, amando, abraçando, sofrendo, sorvendo e dissolvendo o poder da brutalidade, como sucede aos poderosos da terra na batalha de Harmaguedôn (Apocalipse 16,14 e 16; 17,14; 19,11-21). Também não é assim de admirar que, neste grande Livro do Apocalipse, o mar, que já vimos no Livro de Daniel como fonte da confusão e do mal, deixe de existir (Apocalipse 21,1). Vem assim a toda a luz a soberania nova do Filho do Homem, que é Jesus, «Aquele que nos ama». A sua soberania é o Amor, que é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). É Primeiro, e, por ser Primeiro, é também Último. Se é Primeiro e é também Último, então o Amor é a soberania verdadeira, a única soberania portanto, porque tudo o resto cai e fica pelo caminho. Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o poder velho e podre da violência e da brutalidade das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é de sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal, que se foi insinuando nas pregas do nosso coração. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, ganância, importância, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor frágil que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa prepotência!

5. Tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos, e apenas aumentaria a violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, sofrendo-a, sorvendo-a, dissolvendo-a e absolvendo-a. É assim que o Amor Reina, Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Judeus e Pilatos representam, no Evangelho de hoje (João 18,33-37), os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência e estupidez. Os quatro Evangelhos documentam a pergunta de Pilatos a Jesus: «Tu és o rei dos Judeus?» (Mateus 27,11; Marcos 15,2; Lucas 23,3; João 18,33). Nos sinóticos, Jesus dá uma resposta breve: «Tu o dizes» (Mateus 27,11; Marcos 15,2; Lucas 23,3), para logo se remeter a um silêncio habitado e teológico (Mateus 27,12; Marcos 15,4; Lucas 23,9), à maneira do Servo de YHWH, Cordeiro conduzido ao matadouro, mas que não abriu a boca (Isaías 53,7). João, ao contrário, apresenta um longo diálogo entre Jesus e Pilatos, em que o ponto mais alto está nas palavras de Jesus: «O meu reino não é deste mundo; o meu reino não é daqui» (João 18,36). E explica bem Jesus a Pilatos e a nós que, se o seu reino fosse deste mundo, se fosse daqui, lá estariam certamente, para o defender, as suas forças militares. Em vez dessa quinquilharia, o seu Reino assenta num Amor novo e subversivo, que não pode deixar de amar a nossa violência até ao fim e ao fundo, sorvendo-lhe todo o veneno.

6. As coisas são de tal ordem, tão novas, que, daqui para a frente, a partir da entrada de um tal amor no mundo, todas as formas de poder se devem considerar superadas. Na verdade, Jesus é Rei na medida em que contrapõe o amor ao poder. A Igreja participa nesta soberania de Cristo, assumindo até ao fim a mais humilde e radical atitude de serviço à humanidade, não servindo-se da humanidade, mas servindo a humanidade em cada ser humano, de acordo com o “código da autoridade cristã”: «Sabeis que aqueles que se consideram chefes das nações, as dominam, e os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não será assim entre vós; ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós, seja vosso servo, e aquele que queira ser o primeiro entre vós, seja escravo de todos. Na verdade, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos» (Marcos 10,42-45). Compete à Igreja manter bem aberto este golpe que Cristo infligiu a qualquer forma de poder e a todo o mal.

7. Vem, Senhor Jesus! Ilumina com a tua Luz nova as trevas, as pregas e as pedras do nosso coração empedernido. Reina sobre nós, Salva-nos, Justifica-nos, Perdoa-nos, Recria-nos. Faz-nos outra vez à tua Imagem. Dissolve a besta brava que há em nós e que, à imagem de Caim, não fala, mas trucida e come o outro. Hoje é o Dia da celebração de um amor novo e de uma nova ordem assente, não no poder, mas no amor.

António Couto


O FILHO DO HOMEM-QUE-VEM TRAZ UM MUNDO NOVO PELA MÃO

Novembro 13, 2021

1. O Livro de Daniel terá sido provavelmente escrito no Outono do ano 164 a.C., com o objetivo de encorajar os judeus piedosos a permanecerem firmes na sua fé em plena perseguição antijudaica desencadeada três anos antes, em 167 a.C., pelo tirano Antíoco IV Epifânio, e cujos ecos se podem ver, por exemplo, no Segundo Livro dos Macabeus 6 e 7, que registra a fidelidade heroica do velho Eleazar e dos sete jovens irmãos Macabeus. Estes são, no dizer do Livro de Daniel 12,1-3, os mestres sábios (maskkilîm) e justificadores (matsddîqîm), isto é, dadores de vida: ensinam, não teorias, mas a vida verdadeira, dando a sua vida por amor: é assim que vencem os violentos, não opondo-se a eles, mas amando, isto é, dando a vida e dando vida, ensinando a viver. Estes novos sábios e justificadores são, diz o Livro de Daniel, as novas estrelas que brilham para sempre! Se brilham para sempre, então estão em comunhão com Deus, que é luz que não se apaga, pois não conhece trevas nem ocaso (1 João 1,5).

2. Não são, portanto, as estrelas da moda, da música, do cinema ou do futebol, estrelas cadentes, de brilho efémero e passageiro! São as novas e verdadeiras estrelas de brilho permanente, inscritas no Céu ou no Livro da Vida (ver Daniel 12,1; Salmo 139,16; Isaías 4,3; Lucas 10,20; Apocalipse 20,12). As outras pobres estrelas estão, na verdade, inscritas no chão, no pó da terra (Jeremias 17,13), e lá se perdem e disperdem. Deus sabe escrever no coração (Jeremias 17,1; 31,33), na Cruz (Gálatas 3,1), e, como já vimos, no chão, e no Livro, mas também, num gesto de particular ternura, na palma da sua mão (Isaías 49,16).

3. O cenário do Evangelho deste Domingo XXXIII do Tempo Comum (Marcos 13,24-32) não é de terror, mas de amor! Novos céus e nova terra, saídos das mãos de Deus-Pai, com o Filho-que-Vem, e que está próximo, à porta. É como o noivo do Cântico dos Cânticos 5,2, que bate à porta, descrito pela noiva que dorme, mas escuta com um coração sempre vigilante! Única atitude da Igreja Una e Santa, que Domingo após Domingo, se reúne com emoção e alegria à volta do seu Senhor-que-Vem. Tudo tão suave e tão cheio de maravilha: o nosso Deus revelando ou simplesmente com todo o carinho desvelando, isto é, retirando o véu que encobre a verdadeira realidade, perante os nossos olhos atónitos!

4. Uma parte da Igreja antiga lia este «discurso escatológico» e outros textos similares do Novo Testamento no sentido da chegada iminente do «fim do mundo» (leitura ainda hoje desgraçadamente doentia nas seitas, com ano, dia e hora marcados!). Sim, é do «fim do mundo» que se trata, mas num sentido novo e inaudito: é a Palavra de Deus que não passa, e que é Amor e é Primeira e Última, sempre nova, portanto, que vem «pôr fim ao nosso mundo» de posse e egoísmo, autossatisfação e auto expansão ilimitadas. É o Último, que é o Amor gratuito e desinteressado, que põe fim ao penúltimo, que é a nossa vã maneira de viver. Neste sentido novo, é de desejar que o nosso mundo velho e caduco entre em agonia e acabe já, para que comece verdadeiramente em nós e já um mundo novo e belo, cuja matriz é o Amor gratuito e incondicional. Neste sentido intenso e belo, vale a oração «Senhor, vem!» (marana tha’), porque, com sabedoria serena, sabemos que «o Senhor vem!» (maran ’atta’).

5. O discurso de Jesus no inteiro Capítulo 13 de Marcos não é atravessado por nenhuma angústia nem sugere qualquer corrida desenfreada e frenética. Pelo contrário, por quatro vezes, Jesus interpela os seus discípulos a um comportamento atento: «vede bem», «estai atentos», «prestai atenção», grego blépete (Marcos 13,5.9.23.33), e igualmente por quatro vezes se faz ouvir a vigilância: «estai acordados», «vigiai», grego agrypnéô e grêgoréô (Marcos 13,33.34.35.37). Depois da admirável introdução deste Capítulo (Marcos 13,1-4), com um discípulo a comunicar a Jesus o seu espanto perante as belas pedras das construções herodianas do Templo (Marcos 13,1), Jesus volta-o para outro lado, dizendo: «Vês estas grandes construções? Não ficará pedra sobre pedra que não seja destruída» (Marcos 13,2). E, sentando-se (como quem ensina) no Monte das Oliveiras, voltado para o majestoso Templo, e interrogado por Pedro, Tiago, João e André sobre o «quando» e «qual o sinal» (Marcos 13,3-4), Jesus profere então o inteiro ensinamento deste grande Capítulo 13, que aparece organizado em três Partes: 1) em Marcos 13,5-23, Jesus fala de um tempo de tribulação, em que pulularão enganadores (Marcos 13,5-6), guerras (Marcos 7-8), perseguições (Marcos 13,9-13), e outra vez guerras (Marcos 13,14-20), enganadores (Marcos 13,21-23, e uma chamada de atenção (Marcos 13,23); 2) em Marcos 13,24-27, parte central, Jesus anuncia a vinda do Filho do Homem para reunir os seus eleitos; 3) em Marcos 13,28-37, intercalam-se informações e advertências.

6. Note-se, colocada no centro da estrutura, que é sempre a Parte mais importante, a vinda do Filho do Homem. Não é informação nem enumeração. É anúncio, que põe fim ao penúltimo, à luz do sol, da lua e das estrelas (Génesis 1,14-19), obra do quarto dia da criação, e faz retornar tudo à luz primeira de Deus (Génesis 1,3), obra do primeiro dia da criação. Note-se ainda a importante instrução sapiencial da parábola da figueira (Marcos 13,28-29), imediatamente colocada após o anúncio da vinda do Filho do Homem: a atenção dos discípulos não deve centrar-se tanto naquilo que se vê (o verde das folhas na primavera), mas naquilo que não se vê (o verão e o Filho do Homem). Não se veem ainda, mas estão próximos. Note-se este «próximo» (eggýs) do Filho do Homem (Marcos 13,28.29) a fazer inclusão com o anúncio do Reino de Deus, igualmente próximo (eggýs), em Marcos 1,15.

7. O mundo-que-vem é a luz pura de Deus, obra nova e boa de Deus, e não é construído sobre as cinzas do nosso velho mundo. A homilia da Carta aos Hebreus, que hoje temos a graça de continuar a ouvir (10,11-14.18), faz-nos compreender que nós estamos totalmente afetados por Jesus Cristo, que nos trouxe o perdão, entregando-se por nós uma única vez, ao contrário dos sacerdotes da antiga lei, que todos os dias tinham de oferecer sacrifícios pelo pecado. Mas agora, que é o tempo do perdão, o sacrifício pelo pecado deixa de existir (v. 18).

8. Portanto, as pedras e as coisas, as casas e as terras nunca devem ocupar, muito menos encher, o nosso coração. Os sacerdotes, descendentes de Aarão não tinham terra distribuída em Israel. A sua herança era o Senhor (cf. Números 18,20), como cantamos hoje no Salmo 16. No seu Sermão 344, Santo Agostinho comenta assim: «O salmista não diz: “Ó Deus, dá-me uma herança”. Diz antes: “Tudo o que me podes dar fora de Ti, é vil. Sê Tu a minha herança. É a Ti que eu amo… Esperar Deus de Deus, estar cheio de Deus. Basta-te Ele; fora dele, nada te pode bastar». Esta melodia deve encher o nosso coração e este Dia de Domingo, Dia do Senhor, de doação radical, total, ao Senhor. Entenda-se: é um caminho novo que se abre à nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distrações, sem nostalgias, sem saídas de emergência ou de segurança!

António Couto


CASA DE DEUS: ESPAÇO RELACIONAL NOVO

Novembro 9, 2021

1. A celebração hoje da Festa da Dedicação da Basílica de S. João de Latrão, que é «a igreja-mãe e cabeça de todas as igrejas», sede do bispo de Roma, dá-nos a oportunidade de celebrar a presença de Deus no meio de nós, no nosso espaço. Mas é ainda uma boa oportunidade para aprendermos a olhar com mais amor para os espaços das nossas Igrejas catedrais e locais, espalhadas pelo mundo inteiro, que acolhem a presença de Deus e de muitos irmãos, e que reconhecem à Igreja e ao bispo de Roma a «presidência da caridade» (Santo Inácio de Antioquia).

2. O texto do Evangelho proclamado nesta celebração constitui uma importante passagem no tecido do IV Evangelho (João 2,13-22). Jesus apresenta-se como tempo novo e Templo novo, novo espaço relacional, caminho novo aberto para o PAI, nova paginação e compreensão das Escrituras. Da Páscoa dos judeus (A) à Páscoa de Jesus (A’), do Templo antigo (B) ao Santuário novo (B’), tendo no meio o caminho da memória que começam a fazer os discípulos de Jesus (C), como podemos constatar no texto a seguir transcrito:

«E estava próxima a Páscoa dos judeus, e JESUS subiu a Jerusalém. (A)

E ENCONTROU no TEMPLO (hierón) os vendedores de bois e ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. E, tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do TEMPLO (hierón), as ovelhas e os bois, bem como os cambistas, espalhou as moedas, derrubou as mesas, e disse aos que vendiam as pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da CASA DO MEU PAI (oíkos toû patrós mou) CASA de COMÉRCIO (oíkos emporíou)”. (B)

Recordaram-se os discípulos d’ELE que está escrito: “O zelo da tua CASA (toû oíkou sou) me devorará”. (C)

Responderam então os judeus e disseram-LHE: “Que sinal nos mostras de que podes fazer estas coisas?” Respondeu JESUS e disse-lhes: “Destruí este SANTUÁRIO (naós), e em três dias o levantarei (egeírô)”. Disseram então os judeus: “Em quarenta e seis anos foi edificado este SANTUÁRIO (naós), e tu em três dias o levantarás (egeírô)?” (B’)

Isto, porém, dizia do SANTUÁRIO do seu corpo (toû naoû toû sômatos autoû). Quando, pois, foi ressuscitado dos mortos (êgérthê), recordaram-se os discípulos d’ELE que tinha dito isto, e acreditaram na Escritura e na palavra que JESUS tinha dito» (João 2,13-22). (A’)

3. O episódio aparece situado e datado. O lugar é Jerusalém e o seu Templo. O tempo é a Festa da Páscoa. Ora, uma FESTA é, na tradição bíblica, um ENCONTRO marcado (mô‘ed) , plural mô‘adîm, de ya‘ad [= marcar um encontro]. Um ENCONTRO marcado com Deus e com os outros. Sendo um ENCONTRO marcado com Deus e com os outros, então é sempre um espaço de alegria, de filialidade e de fraternidade. E se a FESTA é de peregrinação, como é a PÁSCOA, aqui referida [as outras duas são as SEMANAS ou PENTECOSTES e as TENDAS], então a alegria, a filialidade e a fraternidade são ainda mais intensas, dado que FESTA de peregrinação se diz, na língua hebraica, hag, plural hagîm. E o nome hag remete para o verbo hag [= dançar] e deriva de hûg, que significa círculo, e, portanto, família, lareira, encontro, alegria, música, roda, dança, vida.

4. ENCONTRO, filialidade, fraternidade: marcas acentuadas por JESUS que, em vez de Templo de pedra (hierón), diz CASA (oíkos) – com particular afeto, CASA DO MEU PAI –, sendo a CASA paterna o lugar do ENCONTRO e da intimidade, e não das coisas, da superficialidade, da banalidade, do consumismo, do mercado. Nos paralelos de Mateus, Marcos e Lucas, citando Isaías 56,7, JESUS fala do Templo usando a expressão forte «A MINHA CASA» (ho oîkós mou) (Mateus 21,13; Marcos 11,17; Lucas 19,46).

5. É neste sentido que o Livro dos Atos dos Apóstolos nos mostra a comunidade-mãe de Jerusalém a frequentar assiduamente o Templo, salientando, no entanto, que a sua maneira de prestar culto a Deus acontecia nas CASAS. Do Templo para as CASAS (Atos 2,46). Não se trata de uma simples mudança de lugar, mas de uma diferente conceção do espaço: não se trata de um espaço local, mas relacional. O novo espaço cultual é a comunidade que vive filial e fraternalmente, verdadeira transparência de Jesus. A extensão deste espaço chama-se comunhão.

6. Sintomático é que, postos estes pressupostos, o texto refira, não que JESUS ENCONTROU filhos e irmãos, mas que ENCONTROU vendedores, banqueiros e comerciantes, contra a profecia de Zacarias 14,21, que refere que «Não haverá mais vendedor na CASA de YHWH dos exércitos naquele dia». «A CASA DO MEU PAI», «A MINHA CASA», por um lado, e o MERCADO, por outro lado, são lugares incompatíveis. São maneiras diferentes de conceber e ocupar o espaço.

7. No texto que estamos cuidadosamente a ler, o Templo é dito com três vocábulos diferentes – hierón, oíkos e naós – com significações diferentes: edifício de pedra, casa familiar, santuário (ou lugar da presença de Deus).

8. Quando, num dos típicos «mal-entendidos» do IV Evangelho, JESUS diz: «Destruí este SANTUÁRIO (naós), e em três dias o levantarei (egeírô)» (João 2,19), os judeus não conseguem distinguir entre o naós pessoal que JESUS levantará em três dias e o hierón feito de pedra que demorou 46 anos a construir (João 2,20). Em claro contraponto, o narrador explica bem, num genitivo epexegético, que JESUS «dizia isto do SANTUÁRIO do seu corpo» (toû naoû toû sômatos autoû) (João 2,21). Entenda-se: do SANTUÁRIO que é o seu corpo. Com esta explicação do narrador, fica claro que é JESUS o «lugar» da adoração de Deus, a verdadeira «Casa de Deus» (cf. João 1,51), o SANTUÁRIO de Deus.

9. A anotação do narrador, em João 2,22, faz-nos ver ainda que foi também assim que entenderam os discípulos a partir da Ressurreição de Jesus. Lição para os leitores: num tempo em que já não há Templo em Jerusalém, os leitores crentes do IV Evangelho experimentam a PRESENÇA de JESUS Ressuscitado como o seu verdadeiro «Templo».

10. Em harmonia com o Santuário novo, gerador de vida nova e relações novas, que é Jesus Ressuscitado, está hoje o Santuário novo de Ezequiel 47,1-12, de onde sai água excecionalmente abundante e salutar, um caudal que cresce, cresce, cresce, saneia, fertiliza e cura, fazendo da Terra Prometida o verdadeiro jardim do éden, com água boa e salutar, com muitas árvores com muitos frutos. Como a torrente corre para oriente e sudeste, é toda a árida Arabá e o Mar Morto salitrado e sulfuroso que recebem vida nova em abundância. E também o homem pode pescar e colher frutos novos todos os meses, e encontrar cura nas folhas medicinais de tantas árvores. E tudo isto vem do Santuário. Como o rio de água viva que irriga a Jerusalém celeste, e que sai do trono de Deus e do Cordeiro. Também este rio é gerador de vida, de fertilidade, de frutos doze vezes ao ano, e de remédio para curar todos os corações (Apocalipse 22,1-2).

11. O Apóstolo lembra, na sua Primeira Carta aos Coríntios (3,9-17), que todos formamos um belo edifício construído por Deus, mas também por nós, sobre o alicerce que é Jesus Cristo. E, de forma intensa, como sempre, São Paulo ainda grita aos ouvidos dos cristãos de Corinto e aos nossos: «Não sabeis que sois Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (…). Na verdade, o Templo de Deus é santo, e esse Templo sois vós!» (1 Coríntios 3,16 e 17). É sempre importante e sobrecarregado de beleza este movimento das pedras para as pessoas. A lição hebraica do Salmo 150,1 põe-nos a cantar assim: «Louvai Deus no seu Santuário». É notável a atualização grega, que registra assim: «Louvai Deus nos seus santos».

12. Se o Salmo 150,1 decanta bem o Evangelho de hoje e a lição da Primeira Carta aos Coríntios, o Salmo 46 continua o nosso êxtase quando contemplamos a cidade-mãe, Jerusalém, a morada de Deus no meio de nós, no seu Santuário, e o rio sobrecarregado de beleza que alegra Jerusalém. Este rio não é aqui a inconstante torrente de Gihón que corre mansamente para Siloé. É claramente uma hipérbole espiritual que nos leva para além desta Jerusalém sedenta e árida, situada a 800 metros de altitude, para a Jerusalém celeste irrigada por um rio de água viva, fonte de vida e de remédio (Apocalipse 22,1-2). As águas deste rio não se deixam inquinar. Nem a vida da cidade, sempre cheia de paz e de alegria.

Quem tem sede,

Venha a mim e beba,

Diz Jesus,

E expôs-se sobre a Cruz

Como fonte sempre aberta e disponível.

Quem tem sede,

Alegre-se então por poder beber,

Mas não se entristeça

Por não ser capaz de esgotar a fonte.

Convém que a fonte permaneça

E abasteça o horizonte

De paz e de alegria.

A água escorre deste santuário,

E, como um rio,

Percorre e irriga a terra inteira,

Coração a coração,

Sementeira a sementeira.

E não há fio que meça esta torrente,

Que cresce desde a nascente até ao estuário.

E nas suas margens tanta vida nova e bela nasce e cresce,

Tanto trigo floresce,

Tanto coração amadurece,

Tanto amor.

Dá-me sempre dessa água viva, Senhor!

António Couto


DAR O QUE SOBRA NÃO TEM A MARCA DE DEUS

Novembro 5, 2021

1. Um braçado de gravetos, um copo de água, um punhado de farinha, um tudo nada de azeite. Juntando as pontas destes fios soltos, a viúva de Sarepta prepara-se para fazer uma última refeição de despedida da vida juntamente com o seu filho único. É nesta terra quase a terminar, onde já mal se tem pé, nesta vida quase a expirar, que surge Elias, o homem de Deus, conduzido por Deus, que atira à pobre mulher mais um fio de voz e de esperança a que se agarrar: Deus. Não é a quantidade que importa; o que importa é a totalidade. Pelo fio de voz e de esperança de Elias, Deus não reclama alguma coisa; reclama tudo: o coração todo, a alma toda, a confiança toda, as forças todas! E nem a farinha se esgota na amassadeira, nem o fio de azeite deixa de cair da almotolia! Extraordinária lição para a pobre viúva de Sarepta (Primeiro Livro dos Reis 17,10-16) e para nós, que atravessamos a secura da paisagem desta terra de Novembro.

2. O coração todo, a alma toda, a confiança toda, as forças todas: assim se ouve ou se lê no famoso Shemaʽ Yisraʼel [= «Escuta, Israel], de Deuteronómio 6,4-5, que tivemos a graça de ouvir no Domingo passado. E nesse lugar se diz também a Israel que deve formar com essas palavras um fio de luz e de sentido que deve atar ao coração, às mãos, aos pés, aos filhos (Deuteronómio 6,6-9). Este fio é fundamental para segurar as pontas soltas dos podres, pobres fios da nossa vida.

3. Bem, neste contexto, o fio ou a linha poética e melódica do Salmo 146, que põe Deus tão perto de nós, a fazer justiça aos oprimidos, a dar pão aos que têm fome, a tomar a seu cuidado o órfão e a viúva, e a atirar-me todo para Deus, com aquele grito repetido: «Ó minha alma, louva o Senhor!». O Salmo 146 é uma espécie de carrilhão musical, e convida-nos a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua ação em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

4. Na verdade, «Deus habita nos louvores de Israel» (Salmo 22,4). Habita nos nossos louvores, na nossa dedicação e devotação total a Ele, na nossa vida posta em melodia, fio ou linha melódica que ata o nosso coração ao coração de Deus, a nossa mão à mão de Deus. Foi assim, sacerdotalmente, que Jesus Cristo se ofereceu totalmente ao Pai e a nós e por nós, deixando-nos à espera e a viver dessa espera na esperança da sua Vinda. Um fio tenso de luz e de sentido, a que se chama esperança, nos ata para sempre a esse Senhor-que-Vem. Fio ou linha musical, vital, de cada Domingo, em que cantamos: «Senhor, vem!» (marana tha’), porque sabemos que «o Senhor vem!» (maran ’atta’). O Dia de Domingo deve imprimir em nós o «tique» da esperança, deixando-nos com o pescoço esticado para Deus, situação de quem O espera e vive da sua Vinda a todo o momento. É a Lição de Hebreus 9,24-28.

5. O Evangelho deste Domingo XXXII do Tempo Comum, Marcos 12,38-44, põe em cena e em claro destaque uma viúva pobre que dá a Deus a sua vida toda, em contraponto com os escribas e muitos outros, que fazem bom teatro religioso (não é o caso do escriba do Domingo passado). Excelente inclusão literária no Evangelho de Marcos: da primeira vez que Jesus aparece a ensinar em público, neste Evangelho, o povo exclama: «Este ensina com autoridade, e não como os escribas!» (Marcos 1,22); a terminar a sua atividade pública neste Evangelho, é Jesus que mostra bem que não é como os escribas (Marcos 12,38-40). A cena central passa-se no átrio das mulheres do Templo de Jerusalém, num lugar chamado «Casa do Tesouro» (bêt ha-gazît) (Marcos 12,41-44). Muita gente deitava aí muito do que lhe sobrava, mas a viúva pobre deu «tudo quanto tinha, a sua vida (bíos) toda!». Fio de sentido que liga este episódio ao que já encontrámos no Primeiro Livro dos Reis 17,10-16.

6. O Evangelho refere que a viúva é pobre. Duplamente desfavorecida, portanto. Enquanto viúva e enquanto pobre. Mas a tecla que soa mais forte, é que deu tudo, ainda que tenha dado pouco: duas pequenas moedas (leptà dýo), ou seja, um quadrante (kodrántês). O quadrante é uma coisa insignificante: é a sexagésima quarta parte de um denário! E um denário é o salário de um dia de trabalho. A pobre viúva recuperá-lo-ia rapidamente, mal se pusesse a pedir! O acento não está posto na quantidade, mas na totalidade. É bom que, observando bem esta cena exemplar, aprendamos a passar da mera ajuda para o dom de nós mesmos. Dom total. O discípulo de Jesus, à maneira de Jesus, deve pôr em jogo a própria vida, e não simplesmente os adereços ou acessórios! Tudo, e não apenas o supérfluo. Dar o que sobra não tem a marca de Deus, não é fazer a verdadeira memória de Jesus, que se entregou a si mesmo por nós (Efésios 5,2), por mim (Gálatas 2,20). O supérfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo transforma a vida para sempre. A marca deste dom é a totalidade e a definitividade.

7. Dar a vida toda ou entreter-se com os adereços, eis a verdadeira questão, meu irmão deste Domingo de novembro.

Uma nuvenzinha,

Que o criado de Elias avista lá ao longe,

Acende de esperança o horizonte,

Como uma cidade iluminada sobre um monte,

Uma avezinha que se dessedenta numa fonte,

Uma velhinha que recolhe um braçado de gravetos,

Para acender o lume

E cozer apenas um pãozinho

Para comer com o seu filho

Antes de rezar e de morrer.

Elias anda ao sabor de Deus,

Como um moinho ao vento,

Como um pássaro ao relento,

Como a voz de um fino silêncio,

A amadurar no coração de um grão de trigo

Ou de um amigo.

Tudo é tão frágil e tão belo,

Belo porque frágil

E ágil.

Anda tanto Deus à nossa volta,

Que não precisamos de guarda

Nem de escolta.

Concede-nos hoje, Senhor,

Sentir a tua voz bater em nós,

E o teu amor sempre ao redor,

Sempre ao redor,

Como Tu achares melhor.

António Couto


A FORÇA DA SUA RESSURREIÇÃO

Novembro 1, 2021

1. Seja qual for o texto de Paulo hoje lido e escutado, neste dia 2 de novembro, Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, é sempre de uma enxurrada de vida nova que se trata, mas que, a fazer fé no que se sente, ouve e vê, já não nos diz nada, não fala para nós, nenhuma fome nos mata, nenhuma sede nos apaga, não responde a nenhuma inquietação nossa. E, todavia, os textos de Paulo que hoje lemos, quer provenham das Cartas aos Coríntios ou aos Tessalonicenses, eram ansiosa e atentamente recebidos e respondiam às questões que se punham os cristãos das comunidades dos anos 50: o que acontece com a nossa morte? O que vai acontecer quando Cristo Ressuscitado vier ao nosso encontro? E como pode a humanidade das gerações que viveram e morreram antes de Jesus ter aparecido a calcorrear os caminhos da Palestina beneficiar da salvação por Ele trazida e oferecida?

2. Em boa verdade, não parece credível que as questões acima formuladas façam parte das preocupações das pessoas que hoje frequentam as igrejas ou visitam os cemitérios das nossas comunidades paroquiais. Tanto quanto nos podemos aperceber, as questões que as gentes de hoje transportam têm mais a ver com a situação daqueles que a morte separou de nós: o que permanece da relação que tínhamos com eles? O que permanece sobretudo da amizade, do amor, do carinho que se partilhava quando eles ainda estavam connosco? Haverá alguma maneira, alguma possibilidade de lhes permanecermos fiéis? Poderemos, porventura, fazer algo mais do que colocar estas flores sobre a sua campa?

3. Podemos, com certeza, pôr tranquilamente de parte a imagem do toque da trombeta e dos restos mortais a saírem dos túmulos. Mas também podemos abandonar sem medo o medo quotidiano da morte que uma certa pregação medieval e moderna incutia nas pessoas. É sabido, de resto, que esta comemoração de todos os fiéis defuntos é de origem medieval e monástica, e acusa, por vezes, traços de piedade duvidosa e supersticiosa, acentuados ainda por outras estranhas ideologias que, de forma difusa, dissimulada e até violenta, invadem hoje o nosso quotidiano.

4. Estranha Boa Nova que amedrontava para levar à conversão. Conversão a que deus?, temos de nos perguntar. Porque não era seguramente àquele Deus a quem Jesus tratava e nos ensinou a tratar por Pai. E a força explosiva dos textos de Paulo hoje lidos não está nos acessórios, mas reside toda no nosso conhecimento pessoal, experimental (ginôskô / yadaʽ), de Jesus Cristo e da força (dýnamis) da sua Ressurreição (Filipenses 3,8 e 10). «Em verdade, em verdade, vos digo: “Quem escuta a minha palavra e acredita naquele que me enviou, tem a vida eterna (zôê aiônios), e passou da morte para a vida (zôê)”» (João 5,24).

5. Sim, esta Palavra nova que Jesus faz irromper na nossa vida faz-nos saber que o peso e o medo da morte já passou, afinal, para trás de nós, de tal modo que já não pode ameaçar apagar, mais dia, menos dia, como uma esponja, a vida que vamos construindo com o amor novo que nos vem do Ressuscitado, pois é este amor que nos faz passar da morte para a vida (1 João 3,14). E mesmo quando o sofrimento cai sobre nós como uma avalanche, transformando a nossa vida num insuportável pesadelo, como sucede com Job, seremos ainda levados a descobrir que não é Deus que nos persegue e fustiga, pois Ele permanece ao nosso lado, dado que é Ele o nosso «familiar mais próximo», que é o nosso «redentor» (goʼel) (Job 19,25), aquele a quem cabe o dever, a obrigação, de velar sempre por nós em todas as situações difíceis da nossa vida. Os pretensos e falsos amigos de Job tudo fazem para o fazer calar. Vão de argumento em argumento. Só Deus se vem verdadeiramente sentar ao nosso lado, põe a sua mão de Pai sobre o nosso ombro (Job 9,33), carrega sobre si as nossas dores e a nossa morte (Isaías 53,4; Mateus 8,17; Hebreus 2,14-15), limpa os nossos olhos e o terreno todo à nossa frente, dá-nos a mão para a liberdade, libertando-nos também do temor da morte (Hebreus 2,15).

6. Estranha aberração que a Igreja tenha durante tanto tempo pregado a resignação, a aceitação do sofrimento, mas também da injustiça e da desigualdade. Sim, mas a fé na ressurreição é esta força (dýnamis), esta alavanca, que mantém Job de pé, e o leva a recusar até ao fim a resignação, a demissão, a ideia de um Deus que ficaria satisfeito com a injustiça suportada.

 7. Faz-nos bem sentar hoje com tempo na página do Evangelho (Mateus 11,25-30). As poucas linhas que a atravessam guardam o segredo mais inteiro de Jesus. Há quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente à popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (Marcos 4,38). Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos, os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!».

8. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (népioi)» (Mateus 11,25). Sim, aos pequeninos, grego népioi, que em sonoridade portuguesa daria «népias», nada, nenhuma ciência, nenhum poder, nenhum valor autónomo. Ó abismo da sabedoria dos pequeninos, daqueles que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem podem confiar (2 Timóteo 2,12). É sobre os pequeninos que recai toda a atenção de Jesus, que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45). E, no ritual do Batismo, são estes os dizeres que acompanham a entrega da vela acesa aos pais e padrinhos das crianças batizadas: «a vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que estes pequeninos, iluminados por Cristo…».

9. Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897) exalta na sua História de uma alma, que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que é o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança desmamada (gamûl). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

10. Os pequeninos, os népioi, népias, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de alguém que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira página, temos então de perguntar: o que é que são então cristãos adultos, maduros na sua fé? Serão aqueles que sabem tudo, que estão seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que têm tudo na mão, que já não são dependentes porque já não precisam de ninguém que cuide deles? Seguramente não. Cristãos adultos na sua fé são aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, e que sabem debruçar-se sobre os pequeninos com amor. Cristãos adultos na fé não somos nós que pensamos que temos as chaves de tudo e de todos, mas somos nós como filhos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI (ʼAbbaʼ), em quem depositamos toda a nossa confiança, somos nós como filhos e irmãos, carinhosamente atentos uns aos outros, até ao ponto sem retorno de já não sabermos viver senão repartindo o pão e o coração.

11. «Eu Te bendigo, ó PAI, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da oração de Jesus [além desta vez, só no Getsémani: «PAI, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mateus 27,46); «PAI, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «PAI, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)]. Note-se que a belíssima oração do «PAI Nosso» (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) é-nos ensinada por Jesus, mas não o ouvimos a rezá-la. Um cristão adulto na sua fé, isto é, na sua confiança, tem de se pôr, como Jesus, totalmente nas mãos seguras e carinhosas do PAI, única direção da sua e da nossa vida.

12. É assim que o Evangelho deste Dia entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi. Nenhum arrogante raciocínio, nenhum orgulho, nenhuma escada por nós construída, conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Ensina-se a si mesmo, dando-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (Mateus 10,8-9). Nenhum acessório nos faz falta. Nenhuma estratégia dá certo. Basta-nos Cristo no coração, e a vida, sim, a nossa vida, para dar.

13. O Salmo 27 pode deixar-nos nos braços de Deus, cantando e decantando a luz e a confiança que de Deus recebemos. Mas também a suavidade, a bondade e a beleza nos encantam. Corolário normal, ainda que sempre de excecional elevação, para este dia e para esta liturgia, que nos deixa sempre tranquilos a brincar à porta da Casa de Deus, sob o olhar carinhoso e atento de Deus.

Senhor,

Tu firmaste a terra há muito tempo,

O céu é obra das tuas mãos.

Eles perecem, mas Tu permaneces.

Eles ficam gastos como a roupa.

Sim,

Tu os mudarás como um vestido,

E eles ficarão mudados.

Mas tu permaneces sempre o mesmo,

E os teus anos jamais findarão.

O homem é como a erva,

E toda a sua glória como a flor do campo.

Seca a erva e murcha a flor,

Mas a tua Palavra, Senhor, permanece para sempre.

Neste mês em que a paisagem muda,

As folhas caem,

As árvores choram,

E nós verificamos que a nossa vida é breve e frágil,

Como a lançadeira no tear,

Assiste-nos, Senhor, mais de perto, com a tua bondade,

Sustém os nossos passos vacilantes,

Alumia os olhos do nosso coração titubeante,

Faz-nos sentir a alegria da tua presença carinhosa,

Senta-nos à mesa da certeza da tua salvação.

António Couto