A (PRO)VOCAÇÃO DA SANTIDADE E DA FELICIDADE

Outubro 31, 2017

1. Dia de Todos os Santos. Deus é a Santidade. Três vezes Santo. Santo, Santo, Santo. Santo, na língua hebraica, diz-se qadôsh, cujo significado mais consistente é separado. Separado de quê ou de quem, podemos perguntar. Da sua criação? Parece que não, pois o Deus da Bíblia olha para ela e por ela com beleza e bondade. De nós? Obviamente não, pois o Deus da Bíblia bem vê e vê bem os seus filhos queridos, ouve a nossa voz, conhece as nossas alegrias e tristezas, desce ao nosso nível e debruça-se sobre nós com carinho. Separado de quê ou de quem, então? Separado de si mesmo, eis a surpreendente identidade de Deus! Separado de si mesmo, isto é, não agarrado ao seu mundo divino e dourado para o defender ciosamente (Filipenses 2,6). Ao contrário, o nosso Deus é um Deus que sai de si por amor, para, por amor, vir ao nosso encontro. É esta realidade que se vê bem em toda a Escritura, Antigo e Novo Testamento. Paulo, na Carta aos Filipenses e na 2 Carta aos Coríntios, resume bem esta realidade ao falar de Jesus Cristo que «se esvaziou (ekénôsen) a si mesmo, recebendo a forma de escravo» (Filipenses 2,7), e «sendo rico se fez pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (2 Coríntios 8,9).

2. Sim. Se agora pararmos um pouco a contemplar a vida dos Santos canonizados e de tantos outros irmãos nossos, de extrema dedicação, simplicidade e alegria, não oficialmente canonizados, mas também Santos, pois arriscam e dão diariamente a sua vida pelos outros, compreenderemos logo que também eles, todos eles, se desfizeram ou separaram dos seus projectos, gostos, família, amigos, coisas, e se entregaram de alma e coração aos seus irmãos. Veja-se, por exemplo, e porque ainda temos presente o seu modo de proceder, a Santa Madre Teresa de Calcutá. Que dedicação, que amor, que paixão! Veja-se também, porque parece que todos o conhecemos e amamos, S. Francisco de Assis. Entenda-se, porém, sempre que somos Santos por graça, porque o Deus Santo, Ele é a Santidade, se faz próximo de nós, santificando-nos! É assim que nos tornamos, por graça, «concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Efésios 2,19). Nova cidadania. Nova familiaridade. Dêmos, pois, neste Dia Santo, graças ao Deus Santo, que nos santifica!

3. Só um Deus assim pode e sabe felicitar os pobres. Com um tom carregado de felicidade, não restritivo, mas alargado a toda a humanidade, as «Felicitações» do Rei novo atingem todas as pessoas, chegando às franjas da sociedade, às periferias existenciais, onde estão os pobres de verdade. É o grande Evangelho das «Bem-Aventuranças» ou «Felicitações» (Mateus 5,1-12), que abre o SERMÃO da MONTANHA, dito nas alturas da MONTANHA, que hoje temos a graça de escutar mais uma vez. No meio destas «Felicitações» – é por nove vezes que soa o termo «FELIZES» –, note-se a centralidade da MISERICÓRDIA (5.ª felicitação) (5,7). Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS. Aos misericordiosos será feita misericórdia. Belíssimo círculo bem no centro das Bem-Aventuranças. Notem-se igualmente as inclusões assentes na repetição da locução «reino dos céus» (1.ª e 8.ª) (5,3 e 10) e do termo «justiça» (4.ª e 8.ª) (5,6 e 10). Estas inclusões convidam-nos também ao reconhecimento de duas tábuas de felicitações, a primeira à volta da pobreza evangélica (5,3-6), e a segunda à volta da bondade do coração (5,7-10).

 

«5,1Vendo as multidões, subiu à montanha.

Tendo-se sentado, vieram ter com ele os seus discípulos.

2Abrindo então a sua boca, ensinava-os dizendo:

 

3FELIZES (makárioi / ’ashrê) os pobres de espírito (ptôchoì tô pneúmati),

porque deles é o reino dos céus;

4FELIZES os aflitos,

porque serão consolados;

5FELIZES os mansos,

porque herdarão a terra;

6FELIZES os que têm fome e sede de justiça,

porque serão saciados;

 

7FELIZES os misericordiosos (eleêmones),

porque lhes será feita misericórdia (eleêthêsontai);

8FELIZES os puros de coração,

porque verão a Deus;

9FELIZES os fazedores de paz,

porque serão chamados filhos de Deus;

10FELIZES os perseguidos por causa da justiça,

porque deles é o reino dos céus.

 

11FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem,

e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal

por causa de mim (éneken emoû)» (Mateus 5,1-11).

 

4. Não nos esqueçamos que continuamos na Montanha, nas alturas, pois há certas maneiras de viver e de sentir que só podem ter o seu habitat nas alturas. O Papa João Paulo II escreveu na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (2001), n.º 31, que perguntar a um catecúmeno se ele quer receber o batismo é o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta última pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo número, João Paulo II define a santidade como a «”medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto, imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.

5. Os «pobres de espírito», aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é «baixa de rûah» (shephal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23), isto é, sem espaço físico, económico, social ou psicológico. Não precisam de se afirmar. São claramente os últimos da sociedade, mas que, na sua humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois os ptochoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados, num círculo restrito, mas uma imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie.

6. É quanto assinala a majestosa multidão dos 144.000 da bela página do Apocalipse 7,2-4.9-14. 144.000, número perfeito e incontável (12 vezes 12 vezes 1000), que traduz todos os redimidos, de todas as raças, nações, povos e línguas, inumerável família dos filhos de Deus, todos com vestes brancas, porque lavadas no sangue do Cordeiro, e que jubilosamente aclamam o Deus Santo. «Somos filhos de Deus e seremos semelhantes a Ele», grande teologia da divinização por graça aportada pela página sempre nova da Primeira Carta de S. João 3,1-3.

7. Note-se ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «felizes» ou «bem-aventurados» diz-se ’ashrê, derivação do verbo ’ashar, que significa «pôr-se a caminho». Extraordinária maneira de designar os «bem-aventurados» como pioneiros, aqueles que abrem caminhos novos e bons e de vida nova e boa para o mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente e anestesiado em que vivemos.

8. Sim, disse-o no Sínodo, para mim e para todos: por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza quanto baste (Mateus 19,22; Marcos 10,22; Lucas 18,23), por sermos ricos e importantes?

9. «Esta é a geração dos que pruram o Senhor». Cantemos e aclamemos, por isso, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. Nos dois primeiros andamentos deste Salmo (vv. 1-2 e 3-6), justamente a parte Hoje cantada, destaca-se o nosso canto de amor ao Deus criador e providente (vv. 1-2), que constitui como que a abertura do inteiro Salmo, e as condições morais para viver na presença deste Deus (vv. 3-6), formuladas numa espécie de «liturgia de entrada» ou «das portas». Os fiéis, em procissão, à chegada ao Templo de Jerusalém, fazem a pregunta ritual: «Quem pode subir ao monte do Senhor,/ quem pode entrar no seu lugar santo?» (v. 3), ao que os sacerdotes respondem, apontando aquí três condições essenciais: «Mãos inocentes e coração puro», em que as mãos traduzem a ação, e o coração a intenção, isto é, o inteiro viver do homem, a sua opção fundamental, de onde decorre também o não ir atrás dos ídolos e não praticar fraudes (vv. 4-5). O terceiro andamento mostra as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, que são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia registra por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

 

«O Senhor disse: “Eu bem VI a opressão do meu povo que está no Egipto,

e OUVI o seu grito diante dos seus opressores;

CONHEÇO, na verdade, os seus sofrimentos.

DESCI a fim de o libertar da mão dos egípcios

e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa,

para uma terra que mana leite e mel”» (Êxodo 3,7-8).

 

Neste quadro sublime, Deus, o Deus bíblico,

Revela a Moisés e a nós a sua identidade.

É um Deus bem atento, próximo e interventor.

É um Deus que, por amor, SAI de SI,

E não fica encerrado dentro das paredes douradas da sua eternidade.

Um Deus que SAI de SI é um Deus SANTO.

 

Atravessamos nestes dias uma mancha de tempo,

Que costumamos dedicar a todos os SANTOS,

Conhecidos e anónimos,

E aos Fiéis Defuntos.

 

Tempo de lembrar os SANTOS e a Santidade,

Que é a «medida alta da vida cristã ordinária»,

Como escreveu bem S. João Paulo II.

 

E o SANTO é aquele que SAI de SI,

É aquele que ouve com os ouvidos de Deus,

Vê com os olhos de Deus,

Fala com a língua de Deus,

Acaricia com as mãos de Deus,

Ama com o coração de Deus.

 

Senhor, ensina-nos a SAIR de NÓS,

Dos nossos interesses egoístas e egocêntricos,

E a sairmos ao encontro dos nossos irmãos pequeninos e necessitados.

Senhor, ensina-nos a ser SANTOS.

 

António Couto

Anúncios

O ESSENCIAL E AS SOBRAS

Outubro 28, 2017

1. Aí está, no Evangelho deste Domingo XXX do Tempo Comum (Mateus 22,34-40), mais uma pergunta armadilhada [«para o experimentar», verbo grego peirázô, literalmente «montar um laço, uma armadilha»] posta a Jesus por um Fariseu, um doutor da lei (nomikós), única menção deste nome em todo o Evangelho de Mateus. Antes deste «legista» partir ao encontro de Jesus com a sua pergunta traiçoeira, destinada a capturá-lo na armadilha preparada, é-nos dito que os Fariseus se reuniram (Mateus 22,34). Mas já o tinham feito também em Mateus 22,15, antes da pergunta sobre o imposto, e é ainda reunidos que os encontramos em Mateus 22,41, antes da pergunta decisiva de Jesus acerca da filiação do Messias, que os reduzirá ao silêncio (Mateus 22,46). Estas sucessivas reuniões dos Fariseus para estudar a maneira de tramar Jesus representam uma clara alusão ao Salmo 2, em que se diz que os reis das nações se amotinam contra Deus e contra o seu Messias (v. 2).

2. A pergunta armadilhada que o «legista» fariseu coloca a Jesus soa assim: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» (Mateus 22,36). A pergunta parece inofensiva, mas, na verdade, destina-se a tentar arrastar Jesus para o plano inclinado da interminável discussão académica. De facto, os mestres judeus, lendo minuciosamente a Lei, ou seja, os cinco primeiros Livros da Bíblia [= Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio], e reduzindo-a a preceitos, tinham contado lá 613 preceitos, sendo 365, tantos quantos os dias do ano, negativos, e 248, tantos quantos, assim se pensava então, os membros do corpo, positivos.

3. A questão que entretinha os mestres e as suas escolas era agora a de estabelecer uma ordem nesses 613 preceitos ou mandamentos, dizendo qual consideravam o primeiro ou o mais importante ou o maior, e assim por diante. Discussão interminável e natural fonte de conflitos, pois, como é usual dizer-se, cada mestre sua sentença. Qual seria então a posição de Jesus nesta matéria, e como a defenderia?

4. Jesus responde ao «legista» fariseu, não caindo, porém, na apertada ratoeira que este lhe arma, mas abrindo portas, janelas e… corações engessados! Na verdade, e como sempre costuma fazer, a resposta de Jesus excede, rebentando-a, a pergunta feita. Jesus cita, em primeiro lugar, o Livro do Deuteronómio 6,5: «AMARÁS o Senhor, teu Deus, com todo o coração, toda a alma, todas as forças». Dito isto, Jesus opera um inesperado, para o «legista», salto de trapézio, e acrescenta: «O segundo, porém, é semelhante (homoía) a este, e cita agora o Livro do Levítico 19,18: «AMARÁS o teu próximo como a ti mesmo».

5. Ora, o «legista» estava apenas interessado em saber qual era, segundo o Mestre Jesus, o primeiro mandamento. Jesus respondeu, mas fez logo saber ao «legista» também o segundo. Mas não disse simplesmente que era o segundo. Disse que este segundo era semelhante ao primeiro. Ora, se é semelhante (e só Mateus usa aqui este semelhante), já não é apenas segundo, mas faz corpo com o primeiro. Sendo assim, então o AMOR a Deus é verificável no AMOR ao próximo, no nosso dia-a-dia.

6. Mas Jesus rebenta outra vez a pergunta do «legista», na conclusão que tira, e em que refere que «Destes dois mandamentos se suspende» (krématai) (Mateus 22,40), só aqui usado no NT, isto é, «depende», «pendura» «toda a Lei e os Profetas» (Mateus 22,40). Não se trata, portanto, de um final, de uma conclusão a que se chega, de um resumo, mas de um ponto de partida, de um fundamento. Na linguagem de Santo Agostinho, seria como o fundamento de um edifício espiritual que se encontra no cume, na pedra cumeeira. A locução «a Lei e os Profetas» é uma forma de dizer toda a Escritura. A pergunta do «legista» visava apenas a Lei, mas Jesus diz, na sua resposta, que é a inteira Escritura que está atravessada pelo fio de ouro do AMOR a Deus e ao próximo.

7. Como quem diz: o grau do teu AMOR a Deus verifica-se pela qualidade do teu AMOR ao próximo. Diretamente de Jesus para o «legista»: se olhas para mim de lado, se vens cheio de más intenções, se colocas um laço, uma armadilha, diante dos meus pés, então estás longe de todos os mandamentos. Do 1.º, do 2.º, do 3.º e do 613.º!

8. Tudo somado, aquele «legista», perguntador traiçoeiro, não se situava corretamente face a Deus e ao seu próximo. Não era o AMOR que o fazia mover. Não estava no centro da Escritura Santa. Anda muito pela periferia. Ocupava muito do seu tempo, não a AMAR, mas a tentar tramar os outros!

9. Nem de propósito. Salta daqui uma missão aberta, um imenso convite a sairmos de nós, sem armadilhas e só com amor, ao encontro dos nossos irmãos. Dizia o Papa Bento XVI, na sua mensagem para o 85.º Dia Missionário Mundial (2011): «A missão universal empenha TODOS, TUDO e SEMPRE». Entenda-se bem: TODOS, TUDO e SEMPRE! Um silogismo fácil: se a missão envolve TODOS, TUDO e SEMPRE, então atinge-nos no essencial, e não afecta apenas as sobras, porque ficámos sem sobras! Verificação: então por que razão continuamos com toda a tranquilidade do mundo a dedicar à missão universal apenas as nossas sobras de pessoas, de meios e de tempo? Como podemos andar, afinal, também nós, armadilhados de boas e sub-reptícias intenções!

10. A lição de hoje do Livro do Êxodo (22,20-26) é clara e faz de coro e de chão à página sublime do Evangelho: Deus ama com especial predileção os necessitados, em que a Bíblia vê particularmente os pobres, o órfão, a viúva e o estrangeiro, e manda-nos que façamos como Ele. Deus não tolera qualquer armadilha que lhes seja feita.

11. S. Paulo continua a evocar com amor a sua passagem por Tessalónica, como refere um extrato do início da Primeira Carta aos Tessalonicenses hoje lido (1,5-10). Não um amor qualquer, mas aquele amor com que ele próprio foi amado por Jesus Cristo (Gálatas 2,20). Portanto, amor de doação total, amor sem volta atrás. Na página que escreve, Paulo diz saber que os cristãos de Tessalónica estão a imitar o seu modo de proceder, isto é, de amar, que é o do Senhor também. Ressoará sempre na Igreja e nas Igrejas este fortíssimo dizer de Paulo: «Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo» (1 Cor 11,1). É nesta linha que se devem pôr também as Igrejas que hoje escutam esta página, escrita com amor.

12. Um Deus fiel, seguro, firme como «rocha», que não oscila nem engana, atento e próximo do homem, sobretudo dos mais fragilizados, eis o fluxo poético que nos oferece o grande Te Deum que é o Salmo 18. Deixemo-lo tomar conta de nós. Este Deus e este fluxo poético.

António Couto


DEVOLVEI AS COISAS DE CÉSAR A CÉSAR E AS COISAS DE DEUS A DEUS

Outubro 21, 2017

1. Depois das parábolas do banquete (Mateus 22,1-10) e do traje nupcial (Mateus 22,11-14), sendo esta última exclusiva de Mateus, mas as duas muito bem articuladas no texto de Mateus 22,1-14, o restante do Capítulo 22 de Mateus oferece-nos uma série progressiva de três questões postas sucessivamente a Jesus por Fariseus e Herodianos (Mateus 22,15-22), Saduceus (Mateus 22,23-33) e um Fariseu (Mateus 22,34-40), a que se segue uma quarta, a mais importante (sequência 3 + 1), posta por Jesus aos Fariseus (Mateus 22,41-46).

2. Destes quatro episódios, apenas dois serão escutados nos próximos dois Domingos. Assim, neste Domingo XXIX do Tempo Comum, escutaremos o episódio de Mateus 22,15-22 (cf. paralelos em Marcos 12,13-17 e Lucas 20,20-26), em que Fariseus e Herodianos se juntam para tentar tramar Jesus pela palavra, colocando-lhe por isso e para isso uma pergunta traiçoeira, assim formulada: «É permitido dar (dídômi) o imposto a César, ou não?» (Mateus 22,17).

3. Note-se que o episódio decorre no Templo, certamente no Átrio dos Gentios, uma vasta área de 13,5 hectares, propícia ao encontro de muita gente, judeus e não judeus, onde Jesus se encontra a ensinar desde Mateus 21,23 até Mateus 24,1, em que é referido que Jesus saiu do Templo.

4. É, portanto, no Átrio dos Gentios que, de forma estudada e matreira, fariseus e herodianos tentam surpreender Jesus com uma pergunta política fechada. Note-se que a pergunta foi preparada e feita para levar Jesus a responder «sim» ou «não». Para o caso, aos maliciosos perguntadores, tanto lhes fazia: para tramar Jesus, tanto lhes servia o «sim» como o «não». Na verdade, se Jesus respondesse «sim», seria visto como colaboracionista com o império romano ocupante e perderia todo o crédito religioso acumulado aos olhos das multidões que o viam como profeta, totalmente do lado de Deus. Cairia assim um dos grandes aliados de Jesus, o povo, que os adversários de Jesus temiam, sendo este medo que até agora os impediu de prender e eliminar Jesus (cf. Mateus 21,46). Se respondesse «não», seria denunciado às autoridades romanas como revolucionário, e certamente executado. Com este dilema aparentemente sem saída, os fariseus pensam retribuir a Jesus o embaraço em que os meteu com a pergunta acerca da origem do batismo de João, se era do céu ou se era da terra, de que não souberam sair de forma airosa (cf. Mateus 21,23-27).

5. Antes de verificarmos a extraordinária resposta com que Jesus desmonta a armadilha que lhe é posta, é ainda conveniente examinar o grau de adulação e hipocrisia dos perguntadores. De facto, o grupo de fariseus e herodianos aproxima-se de Jesus estendendo-lhe um tapete de louvores: «Sabemos que és verdadeiro», que «ensinas com verdade o caminho de Deus», e que «não fazes aceção de pessoas» (Mateus 22,16). Esta última expressão deriva da locução latina accipere personam [= receber a pessoa], que, por sua vez, traduz à letra o grego lambánein prósôpôn [= tomar o rosto], que tem por detrás a expressão hebraica nasaʼ panîm [= levantar o rosto]. A expressão hebraica faz sentido. O juiz justo, no ato de administrar a justiça, não levanta o rosto das pessoas, isto é, não julga de acordo com o rosto das pessoas ou por interesse, consoante as pessoas sejam ricas ou pobres, simpáticas ou desprezíveis, do nosso grupo de amigos ou não. O grego tenta traduzir a expressão hebraica, mas o latim e o vernáculo «fazer acepção de pessoas» não significa nada.

6. Note-se, porém, que este tapete rolante colocado diante de Jesus por fariseus e herodianos é com a intenção de o fazer mais facilmente escorregar e cair.

7. Mas Jesus descobre logo a malícia deles, e diz as coisas a direito, levando a sério o que os seus interlocutores lhe dizem por malícia. Além disso, chama-lhes «hipócritas» (uma palavra que se conta 30 vezes em Mateus), isto é, mentirosos camuflados debaixo de uma capa de verdade. Jesus, portanto, não responde à adulação com adulação, mas denuncia a máscara de mentira que envolve aqueles rostos! Vai mais longe: pede-lhes que lhe mostrem a moeda do imposto per capita (kênsos, transliteração grega do latim census) que, desde o ano 6 d. C., todos os judeus adultos, mulheres e escravos incluídos, tinham de pagar ao império romano. Além de hábeis impostores, os interlocutores de Jesus são igualmente rápidos a tirar a moeda do bolso, um denário, moeda romana correspondente ao salário de um dia de trabalho. Jesus pergunta, de forma contundente, usando o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: de quem é esta imagem e a inscrição?» (Mateus 22,20). A moeda tinha ao centro a imagem de Tibério coroado de grinaldas, que reinou de 14 a 37 d.C., e à volta a inscrição Ti[berius] Caesar Divi Aug[usti] F[ilius] Augustus, tendo no reverso Ponti[fex] Maxim[us]. Eles têm, portanto, de responder que uma e outra são de César. Note-se que tudo se passa no recinto sagrado do Templo. E a moeda que estes falsos justos ostentam desrespeita os dois primeiros mandamentos (Êxodo 20,3 e 4). Na verdade, Êxodo 20,4 proíbe as imagens (2.º mandamento), e Êxodo 20,3 proíbe o culto a outros deuses (1.º mandamento): ora, a inscrição descrevia o Imperador Romano com Divi Filius [= filho de um deus].

8. Jesus continua a usar o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: devolvei então as coisas de César a César e as coisas de Deus a Deus!» (Mateus 22,21). Note-se ainda como Jesus não responde com o verbo «dar» (dídômi) da pergunta, mas com «devolver» (apodídômi) o seu a seu dono. E introduz a enfática 2.ª parte «e as coisas de Deus a Deus». Fica então claro que a moeda vem de César e a César deve voltar. Mas Jesus, o Filho verdadeiro de Deus, «imagem do Deus invisível» (Colossenses 1,15), que até os falsos interlocutores reconhecem que está vinculado a Deus, pois afirmam que ensina o caminho de Deus (Mateus 22,16), é para devolver a Deus… Mas já sabemos que estes impostores montaram esta armadilha com o fito de o entregar a César (e é o que vão fazer mais à frente). E também fica claro que o ser humano, homem e mulher, criado à imagem de Deus (Génesis 1,26-27), é para devolver a Deus.

9. O v. 22, que foi cortado (mal) do texto deste Domingo, desenha a reviravolta dos caçadores caçados na sua própria armadilha. Caçados por excesso, pois refere o texto que ficaram maravilhados, e se foram embora (Mateus 22,22). Maravilhados, mas não convertidos. Voltarão cada vez mais envenenados para levar a cabo o projeto iníquo de retirar Jesus de Deus, para o entregar a César.

10. Como se vê, há nesta extraordinária resposta de Jesus muito mais do que a corrente e banal leitura que vê nesta passagem o mero estabelecimento de regras de convivência entre Estado e Igreja…

11. Ao contrário da nossa malícia que vamos extravasando, Deus olha-nos com bondade e os seus desígnios, mesmo quando escolhe um estrangeiro, são sempre por causa de nós, porque nos ama (Isaías 45,1.4-6). Este é também o modo caloroso de agir de Paulo, Silvano e Timóteo, que têm sempre presente, porque a amam, a comunidade de Tessalónica (1 Tessalonicenses 1,1-5). Terá de ser também o nosso modo de agir para com Deus e os nossos irmãos.

12. Sim, sem malícia, mas com o coração puro, cantemos as notas sublimes do Salmo 96. A música está escrita diante de nós, no pergaminho da natureza e da história, mas também no rosto belo de cada irmão e da inteira criação. O canto é novo. E já aprendemos com Santo Agostinho que só um homem novo pode cantar um canto novo.

13. Um canto novo nos deve unir e reunir, à volta do Senhor Ressuscitado, nosso contemporâneo, que nos guia e acompanha nos caminhos sempre novos da missão. Passa hoje o 91.º Dia Missionário Mundial, a que o Papa Francisco apôs o belo lema: «A Missão no coração da fé cristã». Assim, ficamos todos a saber que «Evangelizar é a nossa maneira de ser, a nossa identidade mais profunda», o verdadeiro ADN de todo o cristão batizado. Foi o Papa Pio XI que instituiu este Dia Missionário Mundial em 1926. Já vamos na 91.ª edição.

António Couto


QUANDO O REI TE DIZ: «AMIGO!…»

Outubro 14, 2017

1. No seguimento dos dois Domingos anteriores, também neste Domingo XXVIII do Tempo Comum, os chefes religiosos e civis continuam na mira de Jesus. Já quando ouviram as duas parábolas anteriores – a dos dois filhos (Mateus 21,28-32) e a dos vinhateiros homicidas (Mateus 21,33-43 –, perceberam bem que as palavras de Jesus se dirigiam a eles, e, parafraseando Jorge Luis Borges, perceberam também que as palavras de Jesus estavam carregadas como uma arma. O narrador informa-nos, de resto, no final, que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e procuravam prendê-lo», e que só o não fizeram por «receio das multidões, que o tinham por profeta» (Mateus 21,45-46).

2. É importante, para o leitor, esta última informação do narrador, pois o texto de hoje (Mateus 22,1-14), que segue imediatamente os anteriores, começa assim: «E, respondendo, JESUS disse-lhes novamente em parábolas» (Mateus 22,1). Ficamos então a saber que o novo dizer parabólico de Jesus serve de resposta aos pensamentos e planos violentos que as parábolas anteriores desencadearam nos chefes.

3. E segue a primeira, estupenda parábola, que parte da afirmação de semelhança do Reino dos Céus a um banquete nupcial que um Rei fez para o seu filho. «Reino dos Céus», usual em Mateus, é uma circunlocução para dizer «Reino de Deus». E a figura do Rei é muitas vezes usada no Antigo Testamento e no judaísmo para designar Deus. E o verbo «fazer» evoca imediatamente a criação. E o filho do Rei, para uma audiência cristã da parábola, designava de imediato Jesus. E o banquete nupcial feito pelo Rei é uma imagem fortíssima de festa e de alegria, tantas vezes anunciado pelos profetas (veja-se, por exemplo, a lição de hoje do profeta Isaías 25,6), e impacientemente aguardado pelos judeus piedosos. É seguro: ser convidado e poder participar num banquete assim era um sonho para qualquer judeu piedoso!

4. Primeira surpresa: quando o Rei enviou os seus servos a chamar os CONVIDADOS para o banquete, estes não queriam (êthelon: impf. de thélô) vir. O uso do imperfeito indica duração; não se trata de um ato, mas de uma atitude: nem hoje, nem amanhã, nem em dia nenhum. E o uso do verbo querer deixa claro que se trata de uma ação voluntária, e não de uma qualquer predisposição ou sentimento. Mais ainda: que a ação é deliberada, fica patente no facto de o Rei ter enviado outros servos para voltar a chamar os CONVIDADOS, e estes nem prestaram atenção, indo cada um à sua vida. E os restantes ainda maltrataram e mataram os servos do Rei.

5. Note-se ainda que foi o próprio Rei que preparou (hêtoímaka: perf. de hetoimázô) o banquete, empenhando-se pessoalmente nele (Mateus 22,4). O verbo preparar está colocado em lugares-chave em Mateus: veja-se 3,3: «Preparai o caminho do Senhor»; 25,34: «Vinde, benditos de meu Pai, recebei o Reino preparado para vós…; 26,17.19: preparar a Páscoa.

6. Este cuidado meticuloso posto pelo Rei na preparação do seu banquete para nós parece esbarrar depois na brutalidade com que se irou (ôrgísthê: aor. de orgízomai), enviou as suas tropas, matou aqueles homicidas e incendiou a sua cidade (Mateus 22,7). O sentido voa aqui em duas direções: primeiro, o uso do aoristo em todos os verbos mostra que «a sua ira dura apenas um momento», como diz o Salmo 30,6; segundo, o castigo descrito retrata e interpreta os acontecimentos dramáticos bem conhecidos do ano 70.

7. Segunda surpresa: as sucessivas e gradativas recusas dos CONVIDADOS não desarmam o Rei, que DIZ (légei) agora aos seus servos (Mateus 22,8): IDE às encruzilhadas dos caminhos, e TODOS os que encontrardes, chamai-os para o banquete (Mateus 22,9). Os servos saíram, e reuniram TODOS os que encontraram, maus e bons (Mateus 22,10). Missão universal que brota do amor fontal de Deus Pai (Ad Gentes, n.º 2)… E foi assim, por nova, excessiva e a todos os títulos surpreendente iniciativa do Rei, que se encheu a sala do banquete. Note-se o novo DIZER do Rei, posto no presente histórico, que marca um primeiro ponto alto no relato. Note-se ainda que o intervalo militar parece não ter esfriado a comida daquela mesa sempre posta!

8. Terceira surpresa: o Rei entra, vê «um homem» sem o traje nupcial, e expulsa-o da casa alumiada para as trevas cegas e as lágrimas vazias. Que o homem não tenha o traje nupcial é surpresa para o Rei, que não para nós. Para nós, a surpresa é que TODOS os outros, maus e bons, tenham o traje nupcial, uma vez que foram como que arrastados à pressa dos caminhos lamacentos do mundo! Para o Rei, é aquele «um homem» que causa surpresa! E chegamos ao segundo ponto alto do relato, marcado também pelo verbo DIZER no presente histórico. De facto, o Rei trata-o cordialmente, e DIZ-lhe (légei autô): «Amigo» (hetaîre), apelativo que só Mateus usa no Novo Testamento (20,13; 22,12; 26,50), e que apenas é usado quando se aborda alguém de forma muito cordial. A este amigo (hetaîros), o Rei concede, mediante esta última abordagem directa e cordial, uma última oportunidade de se dizer, isto é, de reconhecer o seu desarranjo interior e de mudar a sua vida.

9. Oportunidade desperdiçada, pois o homem simplesmente não responde. Ficou calado e petrificado (Mateus 22,12). Note-se o mesmo tratamento de Jesus para Judas naquela noite escura, mas ainda à beirinha da Luz: «Amigo (hetaîre), para que estás aqui?» (Mateus 26,50). Judas também não respondeu.

10. É aqui que a parábola nos atinge a TODOS em cheio. Vistas bem as coisas, só o Rei fala nesta parábola. E se ouvirmos bem, DIZ-nos: «Amigo!…».

11. A razão daquele homem não usar o traje nupcial. 1) Não o usa devido à técnica do arrasto que o apanhou desprevenido e sem tempo para ir a casa ao menos para lavar a cara e mudar de roupa. Este é o entendimento banal da parábola, que nos rouba as verdadeiras chaves de leitura e nos leva para leituras mais ou menos moralizantes! 2) Também não podemos explicar o não uso do traje nupcial recorrendo, como é habitual, a motivos moralizantes traduzidos em comportamentos menos dignos. Esse motivo e essas pessoas já foram excluídos (cf. Mateus 22,8), e é-nos dito expressamente que os servos daquele rei levaram agora para a sala do banquete todos os que encontraram, maus e bons (cf. Mateus 22,10). 3) Não é, portanto, pelo facto de ser mau ou menos digno que aquele homem não usa o traje nupcial. 4) Não o usa, porque não o quis receber. O traje da festa não se vai buscar a casa; tão-pouco traduz a nossa bondade ou dignidade. É um presente do Rei à entrada da sala do banquete. No nosso mundo ocidental, são os convidados que levam os presentes. No mundo oriental, quem convida é que oferece presentes aos convidados, entre os quais se conta o vestido da festa. É sabido que, no mundo bíblico, o vestido significa a vida. Ao fundo da cena está sempre a nossa vida dada e com alegria recebida. Ao fundo da cena está, portanto, sempre Deus de mãos abertas.

12. Nunca nos esqueçamos de que é de Deus toda a verdadeira iniciativa. Nunca nos esqueçamos de começar sempre por receber. E de gastar o resto do tempo que nos for dado a agradecer.

13. De banquete para banquete. Aí está a pena de Isaías, na lição de hoje (25,6-10), a descrever um banquete por Deus oferecido a todos os povos (kol-haՙammîm) e um mundo novo aberto aos olhos de todas as nações (kol-haggôyim) e de todos os rostos (kol-panîm), carinhosamente limpos de lágrimas, tudo sobre este monte (bahar hazzeh) preparado (Isaías 25,6-8). Este magnífico cenário reclama ainda Isaías 56,1-8, e a extraordinária elevação e inclusão dos extrangeiros no povo de YHWH, dignos de subir ao «monte da minha santidade» (har qodshî) e de entrar na «casa da minha oração» (bêt tephillatî) (v. 7), assim definitivamente transformada em «casa de oração para todos os povos» (bêt-tephillah lekol-haՙammîm) (v. 7). Declaradamente, fica patente a oposição entre «os jardins» e os lugares altos com árvores frondosas, por um lado, e o «monte de YHWH», o «monte da minha santidade», por outro, confirmando a função do «monte», purificado de maldade e violência, em Isaías 65,11.25. Texto tardio que abre diante de nós, não apenas as portas de Sião, mas as portas da casa de Deus.

14. A Carta aos Filipenses, que continuamos a ler aos bocadinhos (4,12-20), como se de pão para a boca se tratasse, continua a mostrar-nos Paulo empenhado na sua missão dia após dia, sem se preocupar, como pediu Jesus, com o que havia de comer ou de vestir (cf. Mateus 6,25). Mostra-se reconhecido e agradecido à comunidade querida de Filipos, mas toda a sua confiança está posta em Deus, a quem dirige a sua bela doxologia final: «A Deus, e nosso Pai, a glória pelos séculos dos séculos, amén».

15. Deixemos, entretanto, ressoar em nós a música sublime do Salmo 23, e deixemo-nos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… Confessou o filósofo francês Henri Bergson: «As centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23».

António Couto


PELOS FRUTOS OS CONHECEREIS

Outubro 7, 2017

1. O soberbo cântico de Isaías 5,1-7 dá o tom e o aroma da vinha e do amor a este Domingo XXVII do Tempo Comum. O Senhor da vinha e do amor, que é Deus, tratou com infinito desvelo a sua vinha, que é o seu povo, o povo de Israel e de Judá, e somos nós, como se pode ver neste belo «cântico da vinha» de Isaías 5,7: plantou-a numa colina solarenga com castas selecionadas, cavou-a, limpou-a, amou-a, fê-la crescer ao ritmo de música de embalar. Todavia, a vinha assim amada e acariciada produziu agraços, em vez de uvas doces e saborosas. O Cântico di-lo numa extraordinária aliteração hebraica: «Deus esperava mishpath [= rectidão],/ e eis mispah [= sangue derramado];/ tsedaqah [= justiça],/ e eis tseʽaqah [= gritos de socorro]» (Isaías 5,7). Depois de uma lírica serena e tranquila, eis-nos agora perante o lamento de um camponês desiludido, de um amante traído, de um amor dorido, não correspondido.

2. O mesmo canto, ao mesmo tempo dorido e belo, atravessa o Salmo 80,9-17, que canta a videira, e conta a história da videira, que simboliza Israel. Contando a história desta videira, o poeta está, na verdade, a fazer uma autobiografia de Israel. Estava plantada no Egito, de onde Deus a retirou para a transplantar para outra terra (v. 9). Aí lançou raízes, cresceu e atingiu tais dimensões que a sua folhagem verde cobria todo o mapa de Israel (v. 11 e 12). Mas também aí conheceu o abandono e foi devastada pelo javali, símbolo de impureza pela sua semelhança com o porco. Se, em Isaías 5,1-7, era Deus que se queixava da sua vinha que já não respondia ao amor primeiro de Deus, agora é a vinha que se sente abandonada, e chora o estado de desolação em que se encontra, mas entrecorta o seu lamento com um belo refrão, pedindo a Deus que se levante e volte atrás, que lhe faça graça e a salve (v. 4.8.15.20).

3. O Evangelho deste Domingo XXVII é retirado de Mateus 21,33-43, e começa por descrever os gestos de amor embevecido de DEUS pela sua vinha, seguindo de perto o cântico da vinha, de Isaías 5,1-7. Mas depois continua de forma incisiva, introduzindo novas personagens: os VINHATEIROS violentos e assassinos são os chefes religiosos e civis (chefes dos sacerdotes e anciãos do povo, ou chefes dos sacerdotes e fariseus), dado que estas parábolas são dirigidas a eles (Mateus 21,23), e são eles que, no final, reagem (Mateus 21,45). Os SERVOS sucessivamente enviados por DEUS e maltratados pelos homens são os profetas, todos assassinados, segundo o módulo narrativo mais breve de toda a Escritura (Lucas 11,50-51; cf. Mateus 23,34-35). O FILHO, que é o último enviado, e que é igualmente morto pelos VINHATEIROS, salta à vista que é JESUS, prolepse do que está para acontecer.

4. Os VINHATEIROS são, neste ponto da parábola, apanhados na pergunta sem saída de JESUS: «Quando vier o dono da vinha, que fará com esses VINHATEIROS?» (Mateus 21,40). Eles respondem fácil e directo, ao jeito de David, quando ouve a história da ovelhinha do pobre comida à mesa do rico (2 Samuel 12,5-6): «Mandará matar sem piedade esses malvados, e arrendará a vinha a OUTROS VINHATEIROS, que lhe entreguem os frutos a seu tempo» (Mateus 21,41).

5. E Jesus remata com uma citação do Salmo 118,22: «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular» (Mateus 21,42). E ainda: «O Reino de Deus ser-VOS-á tirado, e confiado a UM POVO que produza os seus frutos» (Mateus 21,43). Nesta altura, diz-nos o narrador, que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e procuravam prendê-lo…» (Mateus 21,45-46).

6. Claramente, os chefes dos sacerdotes e os fariseus são alinhados ao lado dos VINHATEIROS violentos e assassinos, mas já surge no horizonte OUTRO POVO e OUTROS VINHATEIROS, à imagem do último Profeta e dele verdadeira transparência. Não nos esqueçamos de que é este o nosso retrato. Saibamos fazê-lo frutificar.

7. Esta Parábola faz passar diante de nós a inteira história da salvação, mostra-nos o amor permanente e persistente de Deus, e faz-nos ver também a qualidade do amor da resposta que somos hoje chamados a dar.

8. E somos seguramente chamados a tornar a vinha de Deus uma maravilha deliciosa e apetitosa, jovem, leve e bela. Mais ou menos como canta um apócrifo de origem judeo-cristã, de finais do séc. I ou princípios do II d. C., o Apocalipse Siríaco de Baruc: «A terra dará fruto, dez mil por um. Cada videira terá mil ramos, cada ramo mil cachos, cada cacho mil bagos, cada bago centenas de litros de vinho!».

9. Outra vez Paulo e as palavras de antologia que nos dirige na Carta aos Filipenses 4,6-9, que hoje temos a graça de escutar: «Tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento» (Filipenses 4,8). E coloca-se como modelo a imitar: «O que aprendestes, recebestes e vistes em mim, isso fazei» (Filipenses 4,9). Já se sabe que por detrás de Paulo está Cristo, que é a sua vida (cf. 1 Cor 11,1).

António Couto