QUANDO DEUS VEM, VÊ, FAZ E CHAMA…

Janeiro 20, 2018

1. Neste Domingo III do Tempo Comum é-nos dada a graça de escutar o Evangelho de Marcos 1,14-20. Não é a primeira vez que Jesus surge em cena. Já o tínhamos contemplado a dirigir-se da Galileia para o Rio Jordão, para ser batizado por João Batista (Marcos 1,9). Mas ainda não tínhamos ouvido a sua voz. Ouvimo-la agora pela primeira vez. Serão, portanto, dizeres importantes e programáticos.

2. Mas antes de ouvirmos, pela primeira vez, a voz de Jesus, anotemos desde já dois notáveis dizeres do narrador, que atravessam em filigrana o inteiro Evangelho de Marcos, unindo os caminhos e os destinos de João Batista, de Jesus e dos seus discípulos. O primeiro é este: «Depois de João ter sido entregue (paradothênai: inf. aor. pass. de paradídômi)» (Marcos 1,14). Trata-se de uma prolepse, que serve para ver já o que irá suceder a Jesus, acerca de quem o verbo será usado 13 vezes (Marcos 3,19; 9,31; 10,33; 14,10.11.18.21.41.42.44; 15,1.10.15), e aos seus discípulos (Marcos 13,9.11.12). O segundo é o uso do verbo anunciar (kêrýssô) para traduzir o afazer primeiro de Jesus (Marcos 1,14). E, mais uma vez, este verbo é um fio condutor que une Jesus (Marcos 1,14.38.39), João Batista (Marcos 1,4.7), os Doze (Marcos 3,14; 6,12), algumas pessoas curadas por Jesus (Marcos 1,45; 5,20; 7,36) e a Igreja de Jesus (Marcos 13,10; 14,9). Mas o verbo grego kêrýssô (anunciar), antes de nos fazer dizer ou escutar mensagens, implica radical fidelidade do anunciador ou mensageiro em relação a quem lhe confia a mensagem e o envia a anunciá-la. Fica, portanto, claro que, antes de pregar, ensinar e curar, Jesus, os seus discípulos, a sua Igreja, são mensageiros fiéis, sempre vinculados a Deus, e a sua primeira missão é testemunhar esta proximidade e compromisso. E percebe-se agora bem o conteúdo da mensagem: «O Evangelho de Deus» (Marcos 1,14). Sem equívocos então: a primeira coisa que fica expressa com esta linguagem, é que Jesus, o seu precursor (João Batista) e seguidores (discípulos), se apresentam completamente vinculados a Deus e ao seu Evangelho [= «Notícia Feliz»], vivem de Deus e da Sua Notícia Boa, não agem por conta própria, não são emissores da sua própria sabedoria ou opinião.

3. E aí está então o primeiro dizer de Jesus, articulado em duas declarações inseparáveis: «Foi cumprido (peplêrotai: perf. pass. de plêróô) o tempo (ho kairós),/ e fez-se próximo (êggiken: perf. de eggízô) o Reino de Deus (he basileía toû theoû)» (Marcos 1,15). O acento cai sobre os dois perfeitos que abrem enfaticamente as declarações, e revelam que o Evangelho é em primeiro lugar o anúncio da inciativa divina, Deus em ação, que abre ao homem novas e belas perspectivas. O perfeito passivo (peplêrotai), que qualifica o kairós, indica bem que Jesus não se refere a qualquer segmento de tempo cronológico, mas àquele específico do cumprimento, posto expressamente sob a intervenção definitiva de Deus. Só Deus pode agir sobre o tempo cronológico, tornando-o kairós, tempo grávido de alegria e de esperança. Uma vez mais, o anúncio precede a ordem: Jesus não começa com normas e exigências, mas assinala quanto Deus já fez e está a fazer, por sua gratuita iniciativa, em nosso favor. Só depois, e como normal consequência, surgem na boca de Jesus dois imperativos: «Convertei-vos» (matanoeîte) e acreditai (pisteúete) no Evangelho» (Marcos 1,15), que traduzem o que compete aos homens fazer. Jesus não é um moralista, mas um Evangelizador.

4. Vem logo, para não se afastar da fonte, o tempo de chamar, de romper amarras, de «ir atrás de» (Marcos 1,16-20). Mas tudo começa ainda com o ver e o fazer primeiros e criadores de Jesus. Jesus viu Simão e André, Tiago e João, e chamou-os: «Vinde atrás de mim, e farei de vós…». É o ver e o fazer do Criador (Génesis 1). Está em cena um verdadeiro chamamento de Jesus. É dele toda a iniciativa. Não são os discípulos que se apresentam a Jesus, pedindo trabalho. E não é como colaboradores, com remuneração e férias asseguradas, que Jesus os assume. Jesus apenas vê e chama. Espanta aquele «imediatamente» deixaram… e foram «atrás de» Jesus. Sem reticências nem calculismos. E nem sequer sabem onde os conduzirá o caminho em que agora entram. Confiança total em Jesus.

5. Perante o que nos é dado ver, uma primeira pergunta nos assalta, irrompendo sobre nós como uma onda súbita: Quem pode dar uma ordem assim? Mas, ainda antes de esboçarmos a resposta, já uma segunda vaga, que tempera a primeira, cai sobre nós: Quem merece uma tal confiança?

6. Temos hoje a graça de ouvir um bocadinho da profecia de Jonas e dos trejeitos que o chamamento de Deus desencadeia na sua vida (3,1-5.10). «Jonas, o hebreu» (Jonas 1,9), bem ouve o chamamento e a ordem de Deus para ir pregar contra Nínive, a cidade inimiga (Jonas 1,1-2). À primeira vista, devia Jonas levar por diante a sua missão com prazer, pois tratava-se de ir dizer à cidade inimiga que Deus tinha decretado o seu fim. Mas Jonas não quer ir, e não é por sentir piedade de Nínive. Bem pelo contrário. Jonas sabe que Deus é um Deus gracioso e misericordioso (hannûn werahûm), que se arrepende do mal (Jonas 4,2). E Jonas sabe também que, indo dizer a Nínive: «Ainda quarenta dias e Nínive será destruída» (Jonas 3,4), os habitantes de Nínive mudarão a sua vida, o que levará Deus a mudar também o seu plano e a não destruir a cidade. É porque sabe tudo isto e quer mesmo que Nínive seja castigada, que Jonas não quer ir lá pregar. Na verdade, apanha, no porto de Jafa, um navio que vai para Társis, para ocidente e não para oriente, para fugir de Deus e da missão que Deus lhe confiou (Jonas 1,3). Mas Deus é mais forte, e Jonas acaba, por vias travessas, por ir parar a Nínive. É a contragosto que prega. E quando verifica que os ninivitas se converteram, o que ele já sabia que iria acontecer, e que Deus também amava Nínive, Jonas foi tomado por grande desgosto (Jonas 4,1), e pede mesmo a Deus que lhe dê a morte (Jonas 4,3), pois a vida assim deixou de ter sentido.

7. Vendo melhor as coisas, «Jonas, o hebreu», está com certeza na viragem do século V para o século IV, época de Esdras, que manda dissolver os matrimónios mistos contraídos pelos exilados durante o Exílio ou após o regresso a Sião (Esdras 10; cf. Deuteronómio 7,3). Com esta medida, que deve ter tido um enorme impacto na consciência judaica, os conservadores como que cancelavam da sua história o catastrófico episódio do Exílio, lançando uma ponte que ligava a nova época judaica directamente ao antes do Exílio. A personagem Jonas incarna bem este Israel particularista e míope, ao contrário do autor do Livro, que testemunha admiravelmente um universalismo salvífico próximo já do espírito do NT. Jonas representa o judaísmo fechado, que pensa que se salvará, fechando-se sobre si mesmo. Esta tentação também afeta a Igreja, e também a nós, de tempos a tempos. Às vezes só vemos inimigos ao redor, e amuralhamo-nos. Vistas as coisas do lado de um Deus que ama a todos, só nos é permitido abrir todas as portas e a todos escancarar o coração. Um coração inquinado asfixia e morre.

8. A lição do Apóstolo é hoje breve e intensa (1 Coríntios 7,29-31). São Paulo começa por dizer, em tradução literal: «O tempo (ho kairós) já está a enrolar as velas (synestalménos: perf. pass. de sy(v)-stéllô)» (1 Coríntios 7,29). Entenda-se: o tempo da oportunidade dada, da enchente da Palavra de Deus por nós já respondida ou ainda não, está a chegar ao fim; já está a enrolar as velas, como fazem os marinheiros quando a embarcação se aproxima da terra. E termina, afirmando: «Passa, na verdade, o esquema (tò schêma) deste mundo» (1 Coríntios 7,31). Bem entendido: «O (filme) que passa na tela é este mundo!». Se assim é, devemos aprender a saber relativizar a maneira como habitualmente nos agarramos às nossas ideias feitas e às coisas deste mundo, desde o casamento, aos bens possuídos, aos negócios, aos currículos, aos primeiros lugares. Grande lição de São Paulo em 1 Coríntios 7,29-31. A nossa vocação traduz-se na adesão ao Último, que reclama o desprendimento do penúltimo e um amor desmedido.

9. O Salmo 25, que hoje fica a ecoar no nosso pobre coração, mostra-nos um fino e delicado jogo de olhares entre o orante fiel e um Deus sensibilíssimo, que olha para nós sempre com ternura paternal, refúgio permanente para os pobres e pecadores. Deixo aqui a ressoar as palavras da grande mística muçulmana do século VIII, Rabiʽa, que viveu em Bassorá, no Iraque, e que, para responder à pergunta: «Como chegaste a um grau tão elevado na vida espiritual?», respondeu: «Repetindo ininterruptamente: “Meu Deus, refugio-me em ti para me defender de tudo o que me distrai de ti, e de todo o obstáculo que se interpõe entre mim e ti”» (I detti di Rabiʽa, IV).

 

Jesus é Deus que desce ao nosso mundo,

Caminha pelas nossas estradas,

Percorre as nossas praias,

Visita as nossas casas,

Vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho.

 

Jesus é Deus que passa, ama e chama.

Mas não nos chama a responder a um inquérito,

A preencher uma ficha,

Responder a uma entrevista,

Fazer uma inscrição,

Pagar a matrícula,

Aprender uma doutrina.

 

Não é como os escribas que Jesus ensina ou examina.

Nem sequer nos entrega um projeto de vida,

Uns apontamentos, um guião, caneta, tinta, mata-borrão.

Chama-nos apenas a segui-lo no caminho:

«Vinde atrás de Mim!»,

E partilha logo connosco a sua vida toda,

Como uma boda.

 

Não nos põe primeiro a fazer um teste,

Não nos ama nem chama à condição,

Não tem lista de espera,

Não nos põe num estágio,

Num estado,

Num estrado,

Numa estante,

Mas num caminho!

 

E um dia mais tarde,

Ouvi-lo-emos dizer ainda: «Ide!».

É sempre no caminho que nos deixa.

Nunca se desleixa,

Não apresenta queixa,

Não paga ao fim do mês,

Pede e dá tudo de uma vez.

 

Vem, Senhor Jesus!

Vem e ama!

Vem e chama por mim outra vez!

 

António Couto

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VINDE E VEDE!

Janeiro 13, 2018

1. O Evangelho deste Domingo II do Tempo Comum (João 1,35-42) faz-nos ver no primeiro plano João Batista e Jesus. João Batista permanece lá «estacado» (eistêkei), em Bethabara [= «Casa de passagem»], desde João 1,28, imóvel e sereno e atento. O lugar em que permanece parado, define-o e define-nos: é um umbral ou limiar. Todo o umbral ou limiar é um lugar de passagem. Estamos de passagem. João Batista ocupa, portanto, o seu lugar estreito e aberto entre o des-lugar e a casa, o deserto e a Terra Prometida, entre o Antigo e o Novo Testamento. João coloca-se estrategicamente do outro lado do Jordão, onde um dia o povo do Êxodo parou também, para preparar a entrada na Terra Prometida, atravessando o Jordão (Josué 3). É desse lugar de passagem, mas em que está parado como um guarda ou sentinela vigilante, que João vê bem (emblépô) Jesus a passar (peripatoûnti). E logo o apresenta como o Cordeiro de Deus. Apresenta-o a nós, e põe-nos em movimento atrás d’Ele. Riquíssima apresentação de Jesus. Na verdade, Cordeiro diz-se na língua aramaica, língua comum então falada, talya’. Mas talya’ significa, não só «cordeiro», mas também «servo», «filho» e «pão». Aí está traçada, com uma pincelada de mestre, a identidade de Jesus.

2. E aí vamos nós a segui-l’O, agora no Caminho que conduz a Casa. «Onde moras?», é a questão que nos move (João 1,38). E a resposta-convite de Jesus: «Vinde e vede» (João 1,39) aviva e sacia a nossa sede. Fomos e vimos quem era (ideîn) e morámos com Ele um dia (João 1,39), simbolismo para indicar de agora em diante, sempre. Percebemos logo que era aquela a nossa Casa. Por isso, André, um de nós, o Prôtóklêtos Andréas, o «primeiro chamado», como o qualifica ainda hoje a Tradição Oriental, foi logo chamar, «primeiro chamante», o seu irmão Simão, e trouxe-o de casa para a Casa, para Jesus (João 1,40-42). O resto é com Jesus. «Olhando-o por dentro (emblépô autô), Jesus disse: “Tu és Simão, o filho de João; serás chamado Kêphâs, que se traduz Pedro”» (João 1,42). Depois é Filipe que é chamado por Jesus, sem introdução ou explicação (João 1,43). E Filipe conduz a Jesus Natanael, também sem qualquer explicação ou demonstração convincente.

3. É importante precisar que a demonstração é frágil face à experiência que implica a vida. Na verdade, a eficácia do testemunho acontece, não quando a testemunha incita o destinatário a inclinar-se ou a render-se perante as provas, mas quando o incita a fazer, por sua vez, a experiência, levando-o a implicar a própria vida. A experiência da testemunha é sempre mais forte e mais radical do que as provas que eventualmente queira dar. É por isso que Filipe fala de Jesus a Natanael, mas face às objeções deste, não lhe dissipa as dúvidas (João 1,45-46), mas diz-lhe simplesmente: «Vem e vê!» (João 1,46).

4. Mas voltemos ao chamamento decisivo, aquele que muda o nome, isto é, segundo a mentalidade bíblica, a pessoa e a sua vida. Diz Jesus: «Tu és Simão, o filho de João; serás chamado Kêphâs, que se traduz Pedro» (João 1,42). O termo hebraico normal para dizer «rocha», «rochedo», «pedra firme» é tsûr ou sela‘, que designa mesmo Deus no AT por 33 vezes. Mas o hebraico também conhece o termo keph, aramaico kêpha’, que designa a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos; kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça, para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas.

5. Nasce aqui, portanto, um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos, alimentados.

6. O contraponto musical vem hoje do Primeiro Livro de Samuel 3,3-19, com Deus a chamar uma e outra vez o jovem Samuel, que «ainda não conhecia o Senhor» (1 Samuel 3,7), e Eli, sacerdote do santuário de Silo, a fazer bem o papel de Diretor Espiritual. Depois de discernir a Voz de Deus que chamava Samuel, é para Deus que Eli remete Samuel, com a indicação precisa: «Fala, Senhor, que o teu servo escuta» (1 Samuel 3,9). E o texto termina com o belo resumo do narrador: «E Samuel crescia, o Senhor estava com ele, e nenhuma das suas palavras deixou cair por terra» (1 Samuel 3,19). Extraordinário programa de vida para a Igreja inteira e cada cristão em particular.

7. E São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios 6,13-20, traça em contraluz a radiografia da grande cidade de Corinto, capital da província romana da Acaia, com muitas divisões, distrações, idolatrias e imoralidades, coisas em tudo semelhantes ao que se vê nas grandes metrópoles modernas. E aponta aos cristãos de Corinto e de hoje o caminho do Evangelho: o corpo, que, no mundo bíblico, diz a pessoa toda, integral, é para o Senhor, e o Senhor é para o corpo.

8. A toada musical que hoje embala a nossa vida está em consonância com a docilidade e o rumo novo, para o Senhor, que devemos empreender. Na verdade, canta assim o Salmo Responsorial de hoje: «Sacrifício e oblação não Te agradaram, mas escavaste-me os ouvidos» (Salmo 40,7), expressão forte que a Carta aos Hebreus cita atualizando assim: «Sacrifício e oblação Tu não quiseste, mas formaste-me um corpo» (Hebreus 10,5). Sim, dá para entender, que o corpo é para oferecer ao bom Deus, num culto novo de todos os dias (cf. Romanos 12,1). Mas, para que a melodia chegue ao coração, também é verdade, como diz o Salmo e nos lembra poeticamente Nelly Sachs, que talvez seja necessário escavar bem os ouvidos.

 

«Se os profetas irrompessem

pelas portas da noite

com as suas palavras abrindo feridas

nas rotinas do nosso quotidiano

(…)

 

Se os profetas irrompessem

pelas portas da noite

à procura de um ouvido como pátria

 

Ouvido humano

obstruído por mato e por silvas

será que saberias escutar?».

 

António Couto


A ESTRELA QUE NOS GUIA

Janeiro 6, 2018

1. «Eu o vejo, mas não agora, eu o contemplo, mas não de perto: uma estrela desponta (anateleî) de Jacob, um cetro se levanta de Israel» (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, que o Livro dos Números diz ser oriundo das margens do rio Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7).

2. Do Oriente são também os Magos, que enchem o Evangelho deste Dia (Mateus 2,1-12), e que representam a humanidade de coração puro e de olhar puro que, agora e de perto, sabe ler os sinais de Deus, sejam eles a estrela que desponta (anateleî) (2,2 e 9) ou o sonho (2,12), uma e outro indicadores de caminhos novos, insuspeitados. Surpresa das surpresas: até para casa precisamos de aprender o caminho, pois é, na verdade, um caminho novo! (2,12). Excelente, inteligente, o grande texto bíblico: Balaão vem do Oriente, e os Magos também. O texto grego diz bem, no plural, «dos Orientes» (ap’anatolôn). Só a estrela (anatolê) que desponta (anatoleî), no singular, pode orientar a nossa humanidade perdida no meio da confusão do plural.

3. De resto, já sabemos que, na Escritura Santa, a Luz nova que no céu desponta (Lucas 1,78; 2,2 e 9; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20) e o Rebento tenro que entre nós germina (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12) apontam e são figura do Messias e dizem-se com o mesmo nome grego anatolê (tsemah TM) ou forma verbal anatéllô. Esta estrela (anatolê) que arde nos olhos e no coração dos Magos está, portanto, longe de ser uma história infantil. Orienta os passos dos Magos e, neles, os de toda humanidade para a verdadeira ESTRELA que desponta e para o REBENTO que germina, que é o MENINO. E os Magos e, com eles, a inteira humanidade orientam para aquele MENINO toda a sua vida, que é o que significa o verbo «ADORAR» (proskynéô). Esta «adoração» pessoal é o verdadeiro presente a oferecer ao MENINO.

4. Note-se a expressão recorrente «o Menino e sua Mãe» (Mateus 2,11.13.14.20.21) e o contraponto bem vincado com «o rei Herodes perturbado e toda a Jerusalém com ele» (Mateus 2,3), que abre já para a rejeição final de Jesus. Veja-se também a alegria que invade os magos à vista da sua estrela, ainda antes de verem o Menino (Mateus 2,10), que evoca já a alegria das mulheres, ainda antes de verem o Senhor Ressuscitado (Mateus 28,8). Veja-se ainda o inútil controlo das Escrituras por parte de «todos os sacerdotes e escribas do povo», que sabem a verdade acerca do Messias, mas não sabem reconhecer o Messias (Mateus 2,4-6).

5. Mas, para juntar aqui outra vez os fios de ouro da Escritura Santa, nomeadamente 1 Reis 10,1-10 (Rainha de Sabá), Isaías 60 e o Salmo 72, diz o belo texto de Mateus que os Magos ofereceram ao MENINO ouro, incenso e mirra. Já sabemos que, desde Ireneu de Lião (130-203), mas entenda-se bem que isto é secundário, o ouro simboliza a realeza, o incenso a divindade, e a mirra a morte e o sepultamento.

6. Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrónomos, historiadores e curiosos se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis: a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a. C.; b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a. C.; c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a. C. Esta última está registada nos observatórios astronómicos chineses. A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registada nos observatórios da Babilónia e do Egipto. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registrados em b) e c). Note-se, porém, que a estrela dos Magos é só vista por eles, estrangeiros como Balaão, que também vê de modo diferente dos outros. Rir-se-iam, certamente, se soubessem que nós indagamos os céus com instrumentos científicos à procura da estrela que alumiava o seu coração. É assim que «muitos virão do oriente e do ocidente, isto é, de fora, e sentar-se-ão à mesa no Reino dos Céus» (Mateus 8,11). E nós, que também indagamos as Escrituras sem lhes descortinarmos o verdadeiro fio de ouro (Mateus 2,4-6), poderemos ficar tragicamente fora da porta e do sentido (Mateus 8,12). Que os de fora passem à frente dos de dentro é a surpresa de Deus, e, portanto, uma constante no Evangelho (Mateus 21,33-43; 22,1-13; Lucas 13,22-29).

7. Está também a transbordar de sentido aquela última anotação: «Por outra estrada regressaram à sua terra» (Mateus 2,12). Sim, quem viu o que os Magos viram, quem encontrou o que eles encontraram, quem experimentou o que eles experimentaram, quem viu Jesus, não pode mais limitar-se a continuar seja o que for andando por caminhos velhos. Tem mesmo de abrir um caminho novo.

8. Ilustra bem o grandioso texto do Evangelho de Mateus o soberbo texto de Isaías 60,1-6, que canta Jerusalém personificada como mãe extremosa que vê chegar dos quatro pontos cardeais os seus filhos e filhas perdidos nos exílios de todos os tempos e lugares. Também não falta a luz que desponta (anateleî) (Isaías 60,1) e os muitos presentes, os tais fios que se vão juntar no Evangelho de hoje, de Mateus.

9. Também os versos sublimes do Salmo Real 72 cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade mais ou menos à deriva.

10. E o Apóstolo Paulo (Efésios 3,2-3 e 5-6) faz saber, para espanto, maravilha e alegria nossa, que os pagãos são co-herdeiros e comparticipantes da Promessa de Deus em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.

11. Sim. Falta dizer que, no meio de tanta Luz, Presentes e Alegria para todos, vindos da Epifania, que significa manifestação de Deus entre nós e para nós, não podemos hoje esquecer as crianças e a missão. Hoje celebra-se o dia da «Infância Missionária», que gosto de ver sempre envolta no belo lema: «O Evangelho viaja sem passaporte». Para significar que o Evangelho nos faz verdadeiramente filhos e irmãos. E entre filhos e irmãos não há fronteiras nem barreiras nem muros ou qualquer separação.

12. Sonho um mundo assim. E parece-me que só as crianças nos podem ensinar esta lição maravilhosa.

 

Do Oriente veio em procissão de esperança

O melhor da nossa humanidade.

Os três magos caminharam à luz de uma estrela nova,

Recém-nascida,

Mansa,

Como uma criança.

 

A procissão faz-se em passos de dança,

E a estrela só pode ser olhada com olhos puros,

De cristal,

Com alma enternecida,

E coração de natal.

 

Por isso,

Não a viu Herodes,

Não a viram os guardas,

Não a viram os sábios,

Que arrastavam os olhos por velhos alfarrábios.

 

Viram-na os magos,

Pegaram nela à mão,

Levaram-na aos lábios,

Deitaram-na no coração.

 

Vem, Senhor Jesus.

O mundo precisa tanto da tua Luz.

 

António Couto