LÁGRIMAS DE AMOR

Junho 28, 2009

 

1. Aí está outra vez Jesus no meio da multidão, em dia de Domingo, nocaminhos Evangelho de Marcos 5,21-43. E, para a mulher que sofria de um fluxo de sangue, que há doze anos a tornava impura e distante de Deus e das pessoas, e que acaba de ser curada pela sua ousadia e fé e confiança, Jesus diz uma palavra única – única vez dita no Evangelho no feminino! –, carregada de imensa ternura, proximidade e familiaridade: «Minha filha!» (Marcos 5,34). Esta pobre mulher sofredora e humilhada é agraciada por Jesus e passa a fazer parte da sua família: «Minha filha!».

 2. Mas estava uma menina de doze anos, moribunda, à espera da morte… ou de Jesus. O seu pai, Jairo, luta pela vida da sua filhinha, e veio buscar Jesus para ir a sua casa impor as suas mãos de bênção, portanto, de bem e de cura, sobre a sua filhinha. Todavia, enquanto caminham, chegam os seus criados, que trazem a triste notícia de que a morte chegou a casa da menina antes de Jesus. Aquele pai fica certamente destroçado, como o estavam também os demais familiares e os vizinhos, que, em tais circunstâncias, apenas sabiam chorar.

 3. Mas Jesus nunca chega atrasado. Ele é o Senhor. Entra naquela casa e pega terna e soberanamente na mão da menina. Note-se o número pleno de sete pessoas presentes: Jesus, Pedro, Tiago e João, o pai e a mãe da menina, e a menina. A plenitude quebra a nossa planitude! Pegando ternamente na mão da menina, Jesus diz, em aramaico, língua materna de Jesus e da menina: «Talitha, qûm!» [= menina, filha, irmã, levanta-te!] (Marcos 5,41). Não passa despercebido que Jesus trata aquela menina ternamente por irmã, irmãzinha, sua irmã querida. Na verdade, o aramaico Talitha é o feminino de Talya. E o aramaico Talya é a mais bela e significativa palavra para dizer Jesus, pois significa «filho», «servo», «cordeiro», «pão». Como se vê, Talya diz o Jesus todo. E Ele é a vida verdadeira, ressuscitada, levantada, que ressuscita e que levanta.

 4. Como se vê, trata-se de duas cenas únicas e belíssimas, cheias, plenas de humanidade e divindade. Passa, Senhor Jesus, à nossa porta, entra em nossa casa, veste o nosso dorido coração de festa. Faz-nos sentir que somos teus filhos e irmãos queridos. E que as nossas lágrimas de dor podem transformar-se em lágrimas de amor!

 António Couto

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A LIÇÃO DA SERENIDADE

Junho 21, 2009

1. Um luxo. Em pleno mar da Galileia, Os seus discípulos/apóstolos lutam, jesus_tempestadeaflitos, contra a tempestade que ameaça desfazer a pequena embarcação no meio do mar encapelado (Mc 35-41). E em claro contraponto, «Jesus, à POPA, dormia deitado sobre uma almofada» (Mc 4,38). Não nos esqueçamos que a POPA é a parte traseira e o lugar de comando da pobre embarcação (a parte da frente é a proa). Jesus permanece no comando da nossa barca, da nossa vida, ainda que muitas vezes nem nos apercebamos da serenidade da sua condução. A presença da almofada na pobre embarcação e do sono sereno de Jesus marcam bem o tom doce e tranquilo deste condutor diferente da nossa vida agitada. Não é a nossa agitação que conta. É o seu sono tranquilo.

 

2. Canta bem a Liturgia das Horas da Igreja:

«Se me colhe a tempestade,

E Jesus vai a dormir na minha barca,

Nada temo porque a Paz está comigo».

 

3. Tu falas, tu fazes, tu chamas, tu ordenas. Todos os caminhos vêm de ti, vão para ti. És tu o Senhor de todos os chamados, de todos os reunidos, de todos os enviados. Tu és a casa, a mesa, o caminho, o vinho, o pão, o peixe. Velas por todos: pelos pais, pelos filhos, pelos irmãos, pelos desfilhados, pelos órfãos, pelos desirmanados. Vela por nós, Senhor, orienta a nossa barca, deita-te tranquilamente à popa (Mc 4,38): o teu sono sereno há-de serenar as nossas tempestades.

 4. A tua palavra faz-se mansamente em nós (Lc 1,38), a nossa tenda alarga-se, invade-nos o espanto: quem são e de onde vêm todos estes? (Is 49,20-21). Sim, a nossa terra é bela e jovem (Sl 144,12), a nossa casa tem luzes em todas as janelas (Ez 36,33), os nossos campos cobrem-se de frutos (Lv 26,4; Sl 67,7; 85,13; Ez 36,29-30), as árvores de pássaros (Mc 4,32), aumenta o tempo da debulha, do canto, da vindima (Lv 26,5; Sl 126,6), multiplicam-se os nossos rebanhos, chegam carregados os nossos bois, estão repletos os nossos celeiros (Sl 144,13-14; Pr 3,10; Jl 2,24), cheios de vinho novo os nossos odres (Jl 2,24; Pr 3,10; Mc 2,22), a transbordar de azeite as nossas almotolias (1 Rs 17,14-16; 2 Rs 4,1-6; Jl 2,24; Mt 25,1-13), são de alegria os nossos dias (Dt 16,15; Sl 63,6; 126,2-3; Is 9,2; 65,18; Fl 4,4).

 António Couto


SANTO ANTÓNIO DE LISBOA

Junho 19, 2009

santo-antonio

1. Maria aparece muitas vezes, na iconografia, com o Menino nos braços e um olhar de graça suavemente iluminado. O movimento dos braços mostra a ternura maternal de quem embala e segura o Menino Jesus, ou a alegria evangelizadora de quem apresenta e oferece Jesus a este mundo, reclamando de cada um de nós mãos carinhosas e seguras, coração maternal, olhar de graça.

 2. É fácil ler, no contexto da iconografia, uma grande cumplicidade entre Maria e Santo António de Lisboa, de Pádua ou de todo o mundo. Vê-se bem que também Santo António aparece com o Menino nos braços: umas vezes, segurando Jesus com os dois braços; outras vezes, com um braço segurando Jesus, e no outro ostentando um livro, o Livro, o Livro da Palavra de Deus, que tão bem viveu e tão bem soube dizer; outras vezes ainda, ostentando Jesus sentado sobre o Livro, Senhor do Livro, como o Anjo de Mateus sentado sobre a pedra do sepulcro (Mt 28,2). Belíssimas figurações de amor e luz. Maria olhando pelo Menino Jesus ou convidando-nos a olhar pelo Menino Jesus. Santo António de Lisboa ostentando o Menino Jesus e o Livro, mostrando bem com que amor soube ler a Escritura, e convidando-nos a acolher o Menino que atravessa em contraluz toda a Escritura, e a ler a Escritura em contraluz acolhendo em cada página, não apenas sons e sílabas e palavras e frases, mas um Rosto e um Nome, JESUS.

 3. Maria e Santo António de Lisboa. Os dois com o Menino Jesus nos braços e no coração, nos lábios, na vida. Eles tomaram conta de Jesus com amor, tomaram conta do amor. Ou foi o amor que tomou conta deles? Na verdade, são eles que seguram Jesus, ou é Jesus que os segura a eles? Somos nós que seguramos a Palavra de Deus, ou é a Palavra de Deus que nos segura a nós? Frágil, forte segurança, a segurança-confiança do amor, forte como a morte o amor (Ct 8,6).

 4. É por esta imagem de um Menino ao colo de uma Mãe, seguro-confiante na força do amor maternal que cuida dele sempre, que, em termos bíblicos, entramos no caminho da Verdade (J. GOLDSTAIN, Le monde des psaumes, Paris, Source, 1964, p. 391 e 393. Verdade, na Bíblia hebraica, diz-se ’emet, cuja etimologia remete para segurança, firmeza, confiança (’emunah, ’aman, ’amen). Diz então o Livro que Santo António segura no braço com o Menino em cima que o lugar mais verdadeiro do mundo, portanto, a maior fonte de segurança do mundo, são os braços de uma Mãe ou de um Pai que ternamente seguram um bebé.

 5. A verdade é, portanto, a verdade do Amor que não engana, o mais puro amor que existe. A analogia do amor materno e paterno abre para Deus, que o mesmo Livro diz que ama com amor perfeito. S. Paulo dirige-se a nós desta maneira, ao escrever as primeiras linhas da primeira página do Novo Testamento:

 «1,4(…) Irmãos AMADOS por Deus (êgapêménoi hypò [toû] theoû)» (1 Ts 1,4).

 A locução «AMADOS» apresenta-se no tempo perfeito passivo (êgapêménoi: part. perf. passivo de agapáô), e traduz, portanto, um amor novo, vindo de Deus, que começou a amar e a amar continua ainda hoje, pois é esse o sentido do perfeito grego.

 6. É por isso que Deus, amor perfeito e permanente – o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13,8) –, não mente, não engana, não seduz. Ele é a Sabedoria, Ele é a luz. Ele chama, Ele ama, Ele dá a Sabedoria, Ele alumia. A nossa luz é reflexa, a nossa sabedoria é recebida, recebido é o amor com que amamos. Não o amor da sabedoria. Mas a sabedoria do amor. «Deus governa o mundo com as palmas das suas mãos» (Sir 18,3), em que está tatuado o nosso rosto e o nosso nome (Is 49,16), e tem sempre as suas «mãos abertas sobre nós» (Sl 139,5). Mãos de amor.

 7. Como Maria e como Santo António, experimentemos também viver de coração aberto e de mãos abertas para acolher e saborear o dom de Deus (Hb 6,4) e experimentar a beleza da Palavra de Deus (Hb 6,5). Maria e Santo António, com o Livro e o Menino, representam uma nova cultura, não assente na mentira, na esclerose ou dureza do coração, no poder e na violência, mas na ternura, no amor, na suavidade e na verdade.

 8. Santo António de Lisboa, Nossa Senhora do Rosário de Fátima, ensinai-nos a viver com o Livro da Palavra de Deus e o Menino nos braços e no coração. Ámen.

 António Couto


FESTAS DO SOLSTÍCIO DE VERÃO

Junho 12, 2009

 

1. Com excepção (honrosa) da língua portuguesa, os nomes dos dias da semana das principais línguas vivas europeias estão marcados pelos astros: sol, lua, marte, mercúrio, júpiter, vénus, saturno. Esta maneira de dizer salienta a nossa dependência dos astros, que o mesmo é dizer, das forças da natureza que os astros representam. Exceptuam-se, nalguns casos, o sábado e o domingo, que trazem a marca das tradições hebraica e cristã.

 2. Mas, mesmo no caso português, é fácil verificar como o nosso paganismo convive amenamente com o nosso cristianismo. Basta um olhar atento a esta época do ano (solstício de verão), e às celebrações que fazemos à volta dos santos populares: Santo António, São João e São Pedro.

 3. Embora o fenómeno seja o mesmo, detenhamo-nos na festa de S. João, por ser a mais afecta a esta zona norte do país. A tradição bíblica faz de João Baptista um homem austero, que anda pelo silêncio do deserto para melhor escutar a Palavra de Deus, e que, a quantos o procuram, prega penitência e conversão. Mas nós festejamo-lo com esfuziante folia, no meio de barulho e muita música, abundância de vinho e danças…

 4. Entre os anos 117 e 135, o imperador Adriano, com o intuito de paganizar a Palestina, deitou por terra todos os lugares de culto cristão que lá havia, entre os quais se contava a «casa-igreja» de Ain Karem [= nascente do jardim], lugar do nascimento de João Baptista, a uns 8 Km a SO de Jerusalém, extinguindo assim o nascente culto cristão a João Baptista, e implantando no seu lugar o culto pagão de Adónis. O culto de Adónis é o culto da natureza. Filho do incesto de Ciniras com Esmirna ou Mirra, a beleza de Adónis seduziu a deusa Afrodite ou Vénus, deusa do amor, da beleza, da vegetação e da fertilidade. Ciúmes de outras deusas, entre as quais Perséfone, deusa da morte, fizeram que Adónis fosse morto por um javali, indo assim parar aos braços de Perséfone. O facto deu origem a intrigas entre as duas deusas (Afrodite e Perséfone), só sanadas pelo decreto de Júpiter, que decidiu que Adónis ficasse com Perséfone um terço do ano, com Afrodite outro terço, e que ficasse livre no último terço do ano. Mas Adónis ofereceu este último terço também a Afrodite. O tempo que passa com Perséfone é o Inverno, o tempo triste em que a natureza parece que morre. O tempo que passa com Afrodite é o tempo da Primavera e do Verão, o tempo da explosão da vida e da alegria. As festas em honra de Adónis têm assim um tempo de choro e de lágrimas, que equivale à morte de Adónis e ao tempo que passa com Perséfone, e um tempo mais intenso de folia, que equivale como que à «ressurreição» de Adónis e ao tempo que passa com Afrodite. Como se vê, Adónis não é mais do que natureza, e aquilo que nós festejamos no solstício de verão não é mais do que a exuberância da natureza.

 5. É esta paganização de João Baptista por Adónis que permanece ainda hoje nas nossas festas populares do solstício de verão.

 6. Voltemos aos astros. A língua latina fornece-nos duas palavras para dizer «astro»: aster (plural astra) e sidus (plural sidera). Na sua brilhante L’Écriture du désastre (Gallimard, 1980), Maurice Blanchot, recentemene desaparecido, mostrou magistralmente que se as pessoas vivem ligadas aos astros e se o seu comportamento depende deles sem qualquer possibilidade de liberdade, então a vida é com certeza um «des-astre»! E é esta a compreensão que expressamos do «desastre», quando lemos num acontecimento dramático da nossa vida ou da vida dos outros, não o resultado da nossa vontade, mas a influência perniciosa de qualquer astro, o velho destino. Do mesmo modo, dizemos hoje vulgarmente que alguém está siderado, quando está de tal modo fascinado por um objecto ou por um acontecimento, que já não consegue dar um passo por conta própria.

 7. Viver ligado aos astros e ao que eles dizem é, portanto, um desastre: se não nos conseguimos libertar deles, ficamos como que siderados, prisioneiros nas mãos de um destino qualquer. Mas se nos separarmos deles, então ficamos de-siderados, do latim desiderare, que deu o nosso desejar. Ao sabor do nosso desejo. É, portanto, a libertação dos astros, a saída da sideração, que dá acesso ao desejo, que nasce da separação do astral e do regresso à vida e ao movimento, à liberdade e à história, a um tempo que seja nosso.

 8. Mas será ainda necessário quebrar este arco desiderativo a que andamos presos e que apenas molda em nós um «eu» identitário e patronal sempre em expansão, e que apenas sabe rejeitar ou absorver o outro, num processo cego de auto-realização ou auto-satisfação. É necessário abrir-se ao extra, ao sentido objectivo, ao éschaton, ao dom que vem de fora, e que ninguém pode produzir por si mesmo. Temos todos de aprender a recebê-lo, abrindo as mãos e o coração. Lições de Junho.

 António Couto


TRINDADE: A CHAVE É O AMOR

Junho 6, 2009

 

1. Na Triadologia do NT, preparada pelo AT, Deus, enquanto dádiva suprema fundante, é o Pai. Mas a dádiva suprema do Pai, infinita riqueza, constitui o Filho, infinita pobreza, que tudo recebe[1]. Mas, ao receber tudo, infinita recepção, o Filho volta a dar tudo numa infinita doação sem defesa e sem limites. E esta comunhão-comunicação-vida-amor de si a si, circular, vertiginosa, tranquila e imperecível, constitui o Espírito Santo[2], a Pessoa-Dom incriado[3], o Dom que vem de si mesmo a si mesmo, Dom de si a si, o Dom absolutamente um com ele mesmo, o Dom idêntico ao Ser[4].

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