EDUCAR PARA A PAZ

Dezembro 31, 2008

1. Fecha um ano. Abre um ano. Fazem-se balanços. Traçam-se planos. Quer em termos de balanço quer de planificação, forçoso é reconhecer que o mundo em que vamos atravessa um atoleiro, minado por convulsões e guerras, turbilhões de violência, ódios, incompreensões, pobreza crescente, epidemias, pandemias, terrorismos vários.

 

2. Para ajudar a responder a este estado de conflitualidade, há 41 anos que a Igreja vem propondo que se faça do primeiro dia de cada ano civil um dia devotado à Felicidade, que em termos bíblicos se chama Paz, portanto, «Dia Mundial da Paz».

 

3. Foi o Papa Paulo VI que iniciou esta prática no já distante ano de 1968. De então para cá, ininterruptamente, a Igreja tem procurado despertar o coração humano para os mais nobres e justos anseios da humanidade, lançando no primeiro dia de cada ano uma reflexão oportuna, cujos temas vale a pena hoje aqui enunciar. Para a história, mas também para que cada um de nós – pais, filhos, professores, alunos, patrões, trabalhadores, magistrados, estadistas, militares, cidadãos – se possa debruçar mais intensamente sobre aquilo que constitui o tesouro do bem comum da humanidade.

 

4. Em mensagem datada de 8 de Dezembro de 1967, Paulo VI institui o Dia Mundial da Paz, então chamado «Dia da Paz», a celebrar pela primeira vez em 1 de Janeiro de 1968, com estas palavras: «Seria nosso desejo que em seguida se repetisse anualmente esta celebração como voto e promessa – no início do calendário que mede e expõe o caminho da vida humana no tempo – de que seja a paz com o seu justo e benéfico equilíbrio, a modular a evolução da história futura».

 

5. Aqui deixamos registrados os temas do Dia Mundial da Paz desde o início, em 1968:

-1968 (Paulo VI): O Dia da Paz

-1969 (Paulo VI): A promoção dos direitos do homem, caminho para a paz.

-1970 (Paulo VI): Educar-se para a paz através da reconciliação.

-1971 (Paulo VI): Todo o homem é meu irmão.

-1972 (Paulo VI): Se queres a paz, trabalha pela justiça.

-1973 (Paulo VI): A paz é possível.

-1974 (Paulo VI): A paz também depende de ti.

-1975 (Paulo VI): A reconciliação, caminho para a paz.

-1976 (Paulo VI): As verdadeiras armas da paz.

-1977 (Paulo VI): Se queres a paz, defende a vida.

-1978 (Paulo VI): Não à violência, sim à paz.

-1979 (João Paulo II): Para alcançar a paz, educar para a paz.

-1980 (João Paulo II): A verdade, força da paz.

-1981 (João Paulo II): Para servir a paz, respeita a liberdade.

-1982 (João Paulo II): A paz, dom de Deus confiado aos homens.

-1983 (João Paulo II): O diálogo para a paz, um desafio para o nosso tempo.

-1984 (João Paulo II): De um coração novo nasce a paz.

-1985 (João Paulo II): A paz e os jovens caminham juntos.

-1986 (João Paulo II): A paz é um valor sem fronteiras. Norte-Sul, Leste-Oeste: uma só paz.

-1987 (João Paulo II): Desenvolvimento e solidariedade, chaves da paz.

-1988 (João Paulo II): Liberdade religiosa, condição para a convivência pacífica.

-1989 (João Paulo II): Para construir a paz, respeitar as minorias.

-1990 (João Paulo II): Paz com Deus criador, paz com toda a criação.

-1991 (João Paulo II): Se queres a paz, respeita a consciência de cada homem.

-1992 (João Paulo II): Os crentes unidos na construção da paz.

-1993 (João Paulo II): Se procuras a paz, vai ao encontro dos pobres.

-1994 (João Paulo II): Da família nasce a paz da família humana.

-1995 (João Paulo II): Mulher, educadora de paz.

-1996 (João Paulo II): Dêmos às crianças um futuro de paz.

-1997 (João Paulo II): Oferece o perdão, recebe a paz.

-1998 (João Paulo II): Da justiça de cada um nasce a paz para todos.

-1999 (João Paulo II): No respeito dos direitos humanos está o segredo da verdadeira paz.

-2000 (João Paulo II): «Paz na terra aos homens que Deus ama!»

-2001 (João Paulo II): Diálogo entre as culturas para uma civilização do amor e da paz.

-2002 (João Paulo II): Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão.

-2003 (João Paulo II): «Pacem in terris»: um compromisso permanente.

-2004 (João Paulo II): Um compromisso sempre actual: educar para a paz.

-2005 (João Paulo II): «Não te deixes vencer pelo mal; vence antes o mal com o bem».

-2006 (Bento XVI): Na verdade a paz.

-2007 (Bento XVI): A pessoa humana, coração da paz.

-2008 (Bento XVI): A família humana, comunidade de paz.

-2009 (Bento XVI): Combater a pobreza, construir a paz.

 

6. Meu irmão de Janeiro, aqui te deixo a Paz glosada em muitas claves. É um tesouro que depende de todos. Por isso, também depende de ti. Faz deste ano um ano de Paz, meu irmão de Janeiro.

 

7. Hás-de reparar bem, meu irmão de Janeiro, que o tema da Mensagem do Papa Bento XVI para este Ano de 2009 associa a construção da Paz e a luta contra a pobreza. Então guarda e medita bem no teu coração que os pobres não estão a mais, mas são cada vez mais. Não estão a mais, mas são cada vez mais: talvez para que não seja tão fácil adormecermos no divã dos nossos comodismos!

 

António Couto

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SANTA MARIA, MÃE DE DEUS

Dezembro 30, 2008

 

1. Mãe de Deus, Senhora da alegria, Mãe igual ao dia, Maria. A primeira página do ano é toda tua, Mulher do sol, das estrelas e da lua, Rainha da Paz, Aurora de Luz, Estrela matutina, Mãe de Jesus e também minha, Senhora de Janeiro, do Dia primeiro e do Ano inteiro.

 

2. De ti pouco sabemos, singular mulher! Mas esse «sim» que te saiu dos lábios abriu um grande rombo no silêncio. De Bezetha[1], mas sempre de Bethesda[2]: não é o amor o que fica das colinas, das colinas, das palavras e de nós? Bezetha, Nazareth, Ain Karem[3], Betlehem[4]: estivesses onde estivesses, estavas decerto permanentemente à escuta, e estremecias, inundada de alegria, sob a palavra que sobre ti descia em ondas sucessivas de emoção.

 

3. Uma palavra, depois outra, depois outra: caía sobre ti tanto silêncio, que necessariamente havia de ganhar corpo no teu corpo o corpo que atravessa em contra-luz toda a Escritura. Mulher, grande mulher, mulher messiânica, mulher entre todas única, mulher!, aeì parthénos[5], sempre virgem, ao mesmo tempo esposa, ao mesmo tempo mãe: mulher de estrelas coroada, ou solar rapariguinha na solene procissão saltando à corda, ou moreninha enamorada saltando, soltando pelos montes a enleante melodia do shîr hashîrîm[6].

 

4. Shalôm[7], disseste, shalôm: oh imensa, divina saudação, clarão de Deus nos céus de orini[8], no ventre de Isabel, na dança de João: incontrolável rebentação, indizível lalação. Era de paz a voz dos anjos, era de paz, como sempre foi a voz de Deus.

 

5. Menina de Deus bendita! Sossegada e livre e firme, levas os teus filhos pela mão, salvo-conduto para a esperança, Mulher de todas as esperas. O tempo em que vamos é semelhante ao de Herodes, tu sabe-lo bem, atravessado por tanta tirania e prepotência, batido por tantas vagas de poder e ambição.

 

6. Faz-nos sentir, Mãe, o calor da tua mão no nosso rosto frio, insensível, enrugado. Acaricia-nos. Senta-nos em casa ao redor do amor, do coração. Somos tão modernos e tão cheios de coisas estes teus filhos de hoje! Tão cheios de coisas e tão vazios de nós mesmos e de humanidade e divindade! Temos tudo. Mas falta-nos, se calhar, o essencial: a tua simplicidade e alegria.

 

7. Abençoa, Mãe, os nossos dias breves. Ensina-nos a vivê-los todos como tu viveste os teus, sempre sob o olhar de Deus e a olhar por Deus. É verdade. A grande verdade da tua vida, o teu segredo de ouro. Tu soubeste sempre que Deus velava por ti, enchendo-te de graça. Mas tu soubeste sempre olhar por Deus, porque tu soubeste que Deus também é pequenino. Acariciada por Deus, viveste acariciando Deus. Por isso, todas as gerações te proclamam «Bem-aventurada»!

 

8. Meu irmão do ano que inicia, não te esqueças de, em cada dia, fazer uma carícia aos teus filhos.

 

António Couto


[1] Lugar tradicional do nascimento de Maria, na colina junto da porta Probática e da piscina gémea do mesmo nome, a norte da esplanada do Templo de Jerusalém.

[2] Significa «casa do amor».

[3] Cidade de Isabel e João Baptista, situada no meio da região montanhosa de Orini, a cerca de 8 km a sudoeste de Jerusalém.

[4] Nome hebraico de Belém [= «casa do pão»].

[5] Expressão grega que significa «sempre virgem».

[6] Expressão hebraica que significa «Cântico dos Cânticos», nome de um livro da Bíblia, poema de amor que canta o amor do noivo e da noiva.

[7] Habitual saudação hebraica, que significa «paz», «felicidade».

[8] Nome geográfico da região montanhosa cujo centro é Ain Karem, cidade de Isabel e João Baptista.


NATAL: DADORES DE VIDA

Dezembro 23, 2008

«Fui Eu, o Senhor, que te chamei

para o serviço da justificação.

Tomei-te pela mão

e modelei-te.

Coloquei-te

como aliança do povo,

como luz das nações» (Isaías 42,6).

 

 

1. É tempo de Natal. Belém outra vez à minha frente. Habituei os meus olhos às alturas. Era uma estrela no céu que eu seguia. Caminho traçado no céu. Mas eis que a estrela dorme agora no coração da terra. Num curral ali ao fundo da casa habitada. Não havia mais nenhum lugar na sala. Os pastores ouviram a alegria. Correram pelos montes, pelos campos, pelas bordas. Também tenho de aprender a traçar caminhos neste chão.

 

2. Do meio do trigo e do pão, do coração, oiço então a voz de Deus, que me dá a mão (Isaías 41,13; 42,6; 45,1; Jeremias 31,32). Agarro-me. Sinto sulcos gravados nessa mão. Sigo-os com o dedo devagar. Percebo que são as letras do meu nome (Isaías 49,16). Foi então por mim que desceste a este chão.

 

3. Meditação. Já sei que sabes escrever no coração (Jeremias 31,33). Também na cruz (Gálatas 3,1). Também no chão (Jeremias 17,13; Jo 8,6 e 8). Também no livro (Salmo 139,16; Isaías 4,3; Daniel 12,1; Lucas 10,20; Apocalipse 20,12). Mas a mim tatuaste-me na palma da tua mão (Isaías 49,16). Recordas-te sempre de mim. Estás sempre a olhar para mim, a olhar por mim (Jeremias 31,20).

 

4. Dás-te a mim (Oseias 11,4). Dás a vida por mim (João 10,10-11.15). Compreendo que seja essa a tua vocação. A mais bela vocação. Tu és verdadeiramente «justificador» (matsddîq) (Isaías 50,8), dador de vida. E compreendo agora também que Tu me chamas para o «serviço da justificação» (Isaías 42,6; 53,11), doação de vida ao meu irmão faminto, nu, doente, abandonado, drogado, instalado, roubado ou ladrão.

 

5. «Os justificadores (matsddîqîm) serão como as estrelas para sempre» (Daniel 12,3). As novas estrelas são os justificadores, dadores de vida. Convocados por ti para sermos como Tu, dadores de vida. Convocadores como Tu, porque não podemos deixar de testemunhar a mais bela vocação que vem de Ti. Convocados e convocadores, dadores de vida, durante o ano inteiro, eu e tu, meu irmão de Dezembro.

 

António Couto


NATAL É O CÉU QUE VEM!

Dezembro 22, 2008

 

 

Como quem na noite escura acende

Um lírio branco

Um rosto de mulher

Banhado pela lua

 

Como quem escreve uma página de sol

Que os anjos suspendem das alturas

 

Ardentemente recito este natal

Pelas páginas arenosas das escrituras:

As minhas mãos menino buscarão as tuas

Imarcescíveis ázimas maduras.

 

 

1. Em carta enviada a Cristina de Lorena, Grã-Duquesa da Toscânia, no dealbar do século XVII, em 1615, o físico e astrónomo Galileu, citando o célebre Cardeal Baronio, deixou escrito que «a intenção do Espírito Santo, ao inspirar a Bíblia, era ensinar-nos como se vai para o céu, e não como vai o céu».

 

2. Baronio e Galileu têm razão quando dizem que a Bíblia não pretende ensinar-nos astronomia («como vai o céu»). Mas os dois estão equivocados quando afirmam que a Bíblia pretende ensinar-nos moral («como se vai para o céu»). E não somente eles. Parece que também nós temos andado a gerir o mesmo equívoco e a servir com bastante água o «vinho da Revelação». Anestesiamos a Bíblia quando reduzimos a sua mensagem a moral: «como se vai para o céu».

 

3. É tempo de tomarmos consciência de que a Bíblia não pretende ensinar-nos «como vai o céu», nem tão-pouco «como se vai para o céu». Nem JESUS é o Filho de Deus e o homem sábio e justo que nos vem ensinar como nos devemos comportar com Deus. Como bem refere Bruno Maggioni, nas suas Parábolas Evangélicas, isso já nós sabíamos e estamos já aptos a saber antes de ouvir ou de ler qualquer Evangelho. Não seria Notícia, portanto. Notícia, e boa, é que JESUS tenha vindo mostrar-nos, não como nós nos devemos comportar com Deus, mas antes disso, sempre antes disso, como é que Deus se comporta connosco. É este o espaço da inaudita Notícia e da surpresa. A Bíblia não ensina «como vai o céu», nem «como se vai para o céu». A Bíblia mostra «como vem o céu!»

 

4. O Natal é a vinda de Deus ao nosso mundo. Não para nos pedir alguma coisa. Mas simplesmente para nos encher de Paz, de Amor e de Alegria.

 

5. Meu irmão de Dezembro, deixa entrar este mundo novo em tua casa. Feliz Natal.

 

                   António Couto


O MILAGRE DO NATAL

Dezembro 21, 2008

1. Lê-se em As portas da floresta, de Elie Wiesel, que quando o grande Rabbi Israel Baal Shem-Tov via a desgraça a ameaçar os judeus, costumava dirigir-se a um determinado lugar na floresta para meditar. Quando lá chegava, acendia uma luz e dizia uma oração apropriada; o milagre realizava-se e a desgraça afastava-se. Mais tarde, quando a desgraça voltava a ameaçar, o seu célebre discípulo, Magid de Mezeritch, dirigia-se para o mesmo lugar, na floresta, e dizia: «Senhor do universo, escuta! Não sei acender a luz, mas ainda sou capaz de dizer a oração». E o milagre realizava-se outra vez. Mais tarde ainda, Rabbi Moshe-Leib de Sassov, para salvar uma vez mais o seu povo, dirigia-se para a floresta e dizia: «Não sei acender a luz, não sei a oração, mas sei o lugar e isto será suficiente». Era suficiente, e o milagre voltava a realizar-se. Aconteceu depois vir a desgraça sobre Rabbi Israel de Rizhin. Este sentou-se na sua cadeira de braços, pôs a cabeça entre as mãos, e falou a Deus: «Já nem sequer sei encontrar o lugar na floresta. Tudo o que posso fazer é contar a história, e isto deve ser suficiente». E era suficiente.

 

2. A história de Elie Wiesel falava da realização fácil de um milagre que tinha a ver apenas com saber um lugar, acender uma luz, dizer uma oração. Mas falava também de como, pouco a pouco, de geração em geração, se foi perdendo sucessivamente a ciência de acender a luz, de dizer a oração, de saber o lugar, tendo ficado apenas a história que se contava. E o certo é que bastava contar a história para que o milagre se repetisse.

 

3. A história de Elie Wiesel pode aplicar-se ao Natal que já bate à nossa porta. Todos fazemos uma festa em nossa casa, montamos um presépio ou colocamos uma árvore iluminada à janela ou no jardim, fazemos muitas compras, gastamos muito dinheiro, oferecemos e recebemos muitas prendas, e por toda a parte há mais música e luz. Mas, se já não sabíamos o lugar, nem acender a luz, nem dizer a oração, parece-me agora que uma parte significativa desta geração também já nem sequer sabe a história ou rapidamente a começa a esquecer.

 

4. Estaremos perante um grande empobrecimento cultural e espiritual se amanhã as crianças começarem a pensar que o Natal é só compras e prendas, e já nada souberem do menino nascido em Belém há 2000 anos e que veio realizar a maior revolução de que há memória no coração da humanidade. Se nós já não sabemos contar a história, haverá com certeza cada vez mais só compras, prendas, doces e sorrisos, e pais-natais nos hipermercados, mas o milagre não acontecerá. E Natal sem milagre, que Natal é?

 

5. Pais e mães, não vos limiteis a comprar, comprar, comprar. Contai a verdadeira história do Natal aos vossos filhos, para que haja milagre em vossas casas. Em vós e neles. Vereis que é tão fácil e muito mais bonito.

 

É outra vez Natal é outra vez a hora 

De salvar o que resta do tesoiro

Que Deus depositou há dois mil anos           

No coração dum menino imorredoiro.

 

Apressa-te menino e cresce devagar

Das tuas mãos pequenas e abertas

O testemunho do amor há-de passar

Às nossas velhas mãos que tu apertas.

 

 

António Couto


ESTA NOITE DE NATAL

Dezembro 19, 2008

 

É noite de Natal. Quem o não sente?

Quem o não sabe?

Nasceu uma criança a oriente

Dos sonhos mais pobres da cidade.

 

É Noite de Natal. Quem o não sente?

Quem o não sabe,

Se são tantas as estrelas que trazemos

Da noite que acendemos na infância?

 

São tantas as estrelas.

Mas onde guardar essa abundância,

Para que esta noite não acabe?

Coração, parece que não temos.

Bolsos, bolsos temos, mas não cabe.

 

 

1. O Natal somos nós ao contrário. Somos nós com os bolsos do avesso. Somos nós outra vez meninos a aprender outra vez a tabuada. Outra vez sentados à lareira. Outra vez deitados em colchões de palha ou de folhelho. Somos nós outra vez rodeados de gente e de carinho. Somos nós outra vez humanos. Somos nós outra vez a fazer presépios de musgo com as nossas mãos cheias de terra e de amor.

 

2. O Natal somos nós ao lume com os olhos poisados nas panelas. As chaminés outra vez a fumegar. Somos nós outra vez descalços a ir buscar água à fonte. Somos nós outra vez deslumbrados connosco, com o sabor dos doces, com o cheiro da canela. Somos nós incendiando a noite com lumieiras de palha e de candelhos a caminho da missa do galo. O Natal somos nós a pé.

 

3. O Natal somos nós em festa. Somos nós outra vez em família. É Deus outra vez à nossa mesa. Somos nós a saborear outra vez o grão do espírito antes de o vermos triturado pela máquina da razão. O Natal é esta água limpa, esta neve branca, este fogo novo, este sonho em brasa. Se isto é loucura? Por mim, penso apenas que devemos começar a tomar as devidas precauções quando dizemos que estamos em perfeito juízo.

 

4. Feliz Natal, meu irmão de Dezembro.

 

António Couto


NESTE NATAL APOSTA NA PAZ

Dezembro 13, 2008

 

Neste Natal aposta na paz

Limpa o teu olhar de traves e de medos

De torpedos

Deita fora as velhas espingardas

Despede os guardas

Sê simples e frontal

Feliz Natal!

 

1. Os Evangelhos afirmam, de maneira inequívoca, o nascimento de Jesus em Belém da Judeia (Mateus 2; Lucas 2). Para tanto, o Evangelho de Lucas mostra-nos José e Maria a partirem de Nazaré, na Galileia, para se irem recensear em Belém, na Judeia, pois o Imperador César Augusto tinha ordenado o recenseamento do inteiro «mundo habitado», a chamada oikouménê, e cada um devia registar-se na sua terra de origem. Nesse sentido, o Evangelho afirma também as origens betlemitas de José (Lucas 2,4). Fica então por explicar o facto de José, natural de Belém, ter fixado residência em Nazaré. E somos levados a presumir que José teria partido de Belém para Nazaré no quadro da política da colonização da Galileia muito estimulada desde a época de Alexandre Janeu (103-76 a.C.). Assim se repovoava e se rejudaizava a Galileia, ao tempo ocupada por uma população de origens etnicamente diversificadas.

 

2. Tendo, pois, partido para Belém, José e Maria, que estava grávida (Lucas 2,5), foram naturalmente procurar abrigo na casa da família de José. O Evangelista, sempre cuidadoso nos pormenores, anota, todavia, que «não havia lugar para eles na sala» (Lucas 2,7b). Na «sala». O texto grego emprega para «sala» o termo katályma. Katályma não é uma «hospedaria», como vulgarmente se diz. Quando quer dizer «hospedaria», o texto grego do mesmo Evangelho emprega o termo pandocheîon (Lucas 10,34). Katályma é uma «sala», a «sala de hóspedes» da casa de família em que José e Maria procuraram abrigo. E foi assim que, não havendo lugar apropriado na «sala de hóspedes» da casa, Maria deu à luz no estábulo anexo à mesma «sala», o lugar onde os ocupantes da «sala de hóspedes» deixavam os animais. É assim também compreensível que Jesus seja deitado na manjedoura (Lucas 2,7a).

 

3. Estamos, portanto, longe do ambiente de uma gruta de montanha, em que habitualmente montamos o cenário do presépio. Estamos no curral anexo à «sala de hóspedes» de uma casa normal de Belém. É esse o cenário do Natal. Esse curral ainda hoje pode ver-se na cripta da Basílica da Natividade, em Belém. É um rectângulo de 12,30 metros de comprimento por 3,50 metros de largura, que as grandiosas construções de Constantino (ano 326) e de Justiniano (ano 540), entretanto surgidas, sempre respeitaram. Esse estreito rectângulo continua a guardar e a mostrar a mais estreme e pura página de amor algum dia escrita sobre a terra.

 

4. Um curral como cenário do nascimento de Jesus. Cenário pobre. Rico de amor e de ternura. Os olhos tranquilamente fchados do Menino que serenamente dorme. Os olhos atentamente carinhosos e cariciosamente vigilantes de Maria e de José. Os olhos sempre meigos e mansos dos animais do curral. Chegam entretanto os pastores, igualmente pobres, igualmente ricos. Chegam os Magos com presentes, como que a dizer que é este o Rei verdadeiro, que leva a cumprimento a figura de Saul, primeiro Rei de Israel, «a quem não foram levados presentes» (1 Samuel 10,27). Parece-me ver que ali mesmo ao lado estamos nós, bem aconchegados nas nossas casas ricas e fechadas. Ali mesmo ao lado estamos nós. Ali mesmo ao lado. Vejo que chega entretanto Herodes. Vem com ar sombrio e olhar carregado. Bate à nossa porta. E entra. É como se nos conhecêssemos desde há muito tempo. Conspiramos. Da cumplicidade dos olhares saem gritos e barulhos. Olhar assim é como terçar armas. Ali ao lado a paz mais estreme. Aqui a guerra. De que lado estás tu, meu irmão de Dezembro?

 

António Couto