DIZER JESUS DIZENDO-SE FACE A JESUS

Agosto 20, 2011

1. À questão directa e enfática: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15), posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!»  (Mateus 16,16). Jesus declara Feliz (makários) Simão, filho de Jonas, não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). E é sobre este dizer de Simão Pedro, dizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pétros» – «pétra». Mas note-se também que quem constrói é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus, que declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). O texto termina registando a ordem de Jesus aos discípulos para não dizerem a ninguém que Ele é o Cristo (Mateus 16,20).

 2. As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, jurídica ou científica. É assim que o texto de Isaías 22,19-23 fala hoje do «rito das chaves» e do poder retirado a Shebna e conferido a Eliaqîm.

 3. O texto inteiro do Evangelho deste Domingo XXI do Tempo Comum (Mateus 16,13-20) é percorrido por um dizer, e fecha com um não-dizer. Trata-se de um dizer novo, não meramente convencional ou tradicional. Não basta dizer um conjunto de palavras que vêm na torrente da tradição, que se recolhem, e se voltam a dizer. É assim que Pedro respondeu bem [«Tu és o Cristo»], e é louvado por isso. Não obstante, Jesus não quer que os discípulos passem esse dizer a ninguém (Mateus 16,20). Por que será?

 4. Para sabermos a razão, teríamos de continuar a ler o texto no seu seguimento imediato (Mateus 16,21-28), que será, na verdade, o Evangelho do próximo Domingo (XXII). Mas como o texto forma uma unidade de alto a baixo (Mateus 16,13-28), não o ler todo é como ficar parado no meio da ponte ou em Cesareia de Filipe, e nunca chegar a Jerusalém. Na verdade, depois de ter dado aos seus discípulos aquela ordem de não dizerem a ninguém que Ele é o Cristo (Mateus 16,20), Jesus abre uma página nova logo no versículo seguinte: «começou a mostrar aos seus discípulos que é necessário (deî) [necessidade divina ou teológica] que Ele vá para Jerusalém, sofra muito da parte dos anciãos e dos sumo sacerdotes e dos escribas, seja morto, e ressuscite ao terceiro dia» (Mateus 16,21).

 5. Ouvindo estes dizeres incríveis de Jesus, Pedro tomou-o consigo à parte e começou a recriminá-lo, dizendo: «Isso não te há-de acontecer» (Mateus 16,22).

 6. E é aqui que Jesus diz a Pedro estas palavras duríssimas e correctivas: «Vai para trás de mim (hýpage opísô mou), satanás! Pedra de tropeço (skándalon) és para mim, porque não pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens» (Mateus 16,23). «Atrás de mim» é o lugar do discípulo, exactamente o lugar que Pedro deve ocupar, seguindo Jesus atentamente, e não postar-se à frente de Jesus para lhe barrar o caminho, e tentar que Jesus siga as ideias que Pedro colheu acerca do Cristo na torrente da tradição. E o texto prossegue no mesmo tom, com Jesus a dizer aos seus discípulos que, para o seguir, é preciso dizer não a si mesmo, e carregar a cruz todos os dias, perder a vida para a ganhar…

 7. Por aqui se vê por que razão Jesus ordenou aos seus discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Cristo. Pedro tinha dito: «Tu és o Cristo!». Mas, como acabámos de ver, fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de «Cristo», nela não cabia ainda o sofrimento, a rejeição, a morte, a ressurreição, e muito menos a adesão pessoal de Pedro a este «Cristo» (Mateus 16,21-22). O que Pedro sabia era o que vinha na torrente do judaísmo desde há muito tempo: que o Cristo vinha para triunfar, para ter sucesso, para estabelecer um mundo de excelência para os judeus, libertando-os dos seus adversários.

 8. O que é que nós dizemos quando dizemos Cristo? E a nossa maneira de viver é verdadeiramente a de quem segue Cristo?

 António Couto


ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA

Agosto 16, 2011

1. Ainda que com títulos diferentes, mas com temas e conteúdos idênticos, as Igrejas do Oriente e do Ocidente, portanto a Igreja inteira, a Una e Santa, celebra no dia 15 de Agosto a maior e mais antiga festa da Mãe de Deus, a Virgem Santa Maria. No Oriente, é a festa da «Dormição» (koímêsis), enquanto que, no Ocidente, prevalece a tonalidade da «Assunção» (análêmpsis).

 2. O Evangelho deste grande Dia relata o belíssimo episódio da «Visitação» (Lucas 1,39-45) seguido do cântico da «Exultação» ou «Magnificat» (Lucas 1,46-56). Note-se outra vez uma pequena diferença de tonalidade: o episódio que o Ocidente conhece por «Visitação», recebe no Oriente o nome de «Saudação» (aspasmós). E o episódio que precede e motiva esta «Visitação» ou «Saudação» recebe no Ocidente o nome de «Anunciação» e no Oriente o nome de «Evangelização» (euangelismós) (Lucas 1,26-38). Verdadeiramente é a Leveza e a Alegria em trânsito, a caminho, ao ritmo do vento do Espírito, música nova, inefável e bendita. Vinda de Deus até Maria, até Isabel, até João Baptista, outra vez até Deus. Lembra uma pequena parábola rabínica que, quando David andava fugido de Saul, buscando refúgio nas montanhas (1 Samuel 22 e seguintes), um dia dependurou a sua harpa numa árvore, e adormeceu. Mas o vento, passando, fez as cordas da harpa exalar uma suave melodia. Verdadeira música do Espírito.

 3. É igualmente sugestiva a intuição dos Mestres judaicos, registrada por Martin Buber nos seus «Contos dos Justos». Citando o Salmo 147,1, em que se lê: «É bom cantar ao nosso Deus», Buber apresenta logo a bela interpretação que Rabbí Elimelek dava deste versículo: «É bom se o homem faz cantar Deus nele». Música divina. Assim Maria correndo sobre os montes e saudando Isabel e cantando as maravilhas de Deus no Magnificat, assim Isabel bendizendo Maria e bendizendo Deus, assim João Baptista, dançando ao som dessa nova música inefável, no ventre de Isabel.

 4. Maria correndo sobre os montes: feliz evocação do mensageiro de boas notícias de Isaías 52,7: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião…»; evocação também do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, assim cantado pela amada: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». Assim, com este simples acorde montanhoso, o narrador e grande retratista do terceiro Evangelho traça o perfil de Maria movida por uma grande notícia e pelo amor. A aclamação de Isabel: «Bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre» = «Bendita tu e bendito Deus» lembra o duplo «Bendito» na aclamação de Judite (13,18). A locução maravilhada de Isabel: «E de onde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor» remete para o atónito dizer de David: «E de onde me é dado que venha ao meu encontro a Arca do Senhor?» (2 Samuel 6,9). E a «dança de João» reclama a dança de David na presença da Arca do Senhor (2 Samuel 6,5.14.16.21). E os «cerca de três meses» de permanência de Maria em casa de Isabel, regressando então a sua casa (Lucas 1,56), não são, como vulgarmente se pensa, para indicar que Maria está presente no nascimento de João Baptista, pois este apenas é narrado no versículo seguinte (Lucas 1,57). É, antes, outra vez o acerto com a Arca do Senhor, que permanece três meses na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,11). Os acordes textuais evidentes mostram Maria como a Arca da Aliança, como, de resto, é aclamada pelo Povo de Deus na sua litania de Maria.

 5. O que verdadeiramente me extasia e inebria é esta música outra, ventilando as cordas do nosso humano, e quase sempre orgulhoso, coração. Vem outra vez a propósito a velha sabedoria judaica, que nos legou esta bela pequena história: «Conta-se que, quando David terminou o Livro dos Salmos, se sentiu muito orgulhoso. Então disse para Deus: “Senhor do mundo, quem de entre todos os seres que criaste, canta melhor do que eu a tua glória?” Naquele momento, apareceu uma rã que lhe disse: “David, não te envaideças. Eu canto melhor do que tu a glória de Deus”» (Sefer ha-Haggadah, 89b).

 6. Pela Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1 de Novembro de 1950, o Papa Pio XII proclamava a Assunção da Virgem Maria como dogma de fé. Mas é desde os primeiros séculos do Cristianismo que o Povo de Deus proclama e vive com amor esta realidade. Quantas igrejas, paróquias e dioceses a têm como Padroeira! E, neste particular, este recanto Peninsular, terra de Santa Maria, não podia ser excepção. O Povo de Deus desde muito cedo aclamou a Assunção de Maria, Mãe de Deus e esperança da nossa frágil humanidade.

 7. Um lugar guarda esta memória em Jerusalém. É preciso descer ao vale que corre a Oriente da cidade, o famoso vale do Cédron. Deixando à direita o Getsémani com as suas oliveiras seculares e a Basílica da Agonia de Jesus, muito próximo da Gruta dos Apóstolos ou da Prisão de Jesus, chega-se a um pátio pavimentado que dá para uma monumental fachada, que é o que resta de uma grande Igreja aí construída pelos Cruzados. Por detrás dessa fachada, estende-se uma escadaria que nos leva a uma cripta situada nas entranhas do vale do Cédron. É esta cripta que guarda um túmulo do século I, que a tradição cristã identifica com o túmulo de Maria, em forma de banco escavado na rocha, e que se apresenta bastante degradado devido à tentação dos peregrinos que, ao longo dos tempos, não resistiram a levar consigo um pedacinho da rocha que esteve em contacto com o corpo da «Bendita».

 8. No dia da Solenidade da Assunção, é comovente ver aquela escadaria escura como um tapete de luz, devido às velas que os fiéis colocam em cada degrau. Conduzindo embora para um túmulo, a sensação que se cria é que aquela escadaria descendente, feita tapete de luz, abre para uma ianua coeli, «porta do céu», como também cantamos na litania de Maria.

 9. No seguimento lógico da Assunção de Maria, a Igreja celebra oito dias depois, em 22 de Agosto, a Memória da Virgem Santa Maria, Rainha, proclamação também devida a Pio XII, através da Carta Encíclica Ad Coeli Reginam, de 11 de Outubro de 1954. Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos. O Rei e a Rainha não são, na Bíblia, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo dos homens. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar e a felicidade. Tal é a função do Rei e da Rainha.

Senhora da Visitação ou da Saudação 
que corres ligeira sobre os montes,
Senhora da Assunção ou da Dormição,
Santa Maria Rainha,
vela por nós, fica à nossa beira.
É bom ter a esperança como companheira.

 António Couto


MULHER DA GRANDE FÉ!

Agosto 13, 2011

1. O Evangelho deste Domingo XX do Tempo Comum serve-nos uma página absolutamente desarmante: Mateus 15,21-28. Jesus abandona Genesaré, na costa ocidental do Mar da Galileia, e vai para a região de Tiro e de Sídon, actual Líbano, terra pagã.

 2. Uma mulher e mãe «libanesa», carregada com o drama da sua filha doente – situação verdadeira ontem como hoje –, vem implorar de Jesus, num grito que lhe sai do fundo das entranhas, que lhe «faça graça» (eléêsón me, kýrie) (Mateus 15,22), isto é, que olhe para ela com bondade e ternura como uma mãe que dirige o seu olhar embevecido para a criança que embala nos braços.

 3. O texto diz que Jesus nem lhe respondeu (Mateus 15,23). Mas a mulher não desiste, mas insiste e vai mais longe, prostrando-se (verbo proskinéô) agora diante de Jesus (Mateus 15,25). O gesto significa orientar a sua vida toda para Jesus, pôr-se totalmente na dependência de Jesus. A reacção de Jesus é de uma dureza extrema: afasta a pobre mulher e mãe duramente, catalogando-a na classe dos cachorros [= pagãos] e não dos filhos [= judeus] (Mateus 15,26). Só para estes é que ele veio.

 4. A mulher replica de modo admirável: é verdade, Senhor! Os filhos estão reclinados à mesa, mas os cachorros comem debaixo da mesa as migalhas que caem! (Mateus 15,27). «Mulher da grande fé! (megalê hê pístis)», replicou Jesus, «faça-se como queres!» (Mateus 15,28).

 5. Note-se bem que é a única vez que Jesus fala da «grande fé». E atribui-a a uma mulher e mãe «libanesa» cujo amor nunca se vergou perante a dureza e as dificuldades da vida. Em contraponto com esta mulher da «grande fé», note-se bem que Pedro é o homem da «pequena fé» (oligópistos) (Mateus 14,31), do mesmo modo que os discípulos são os homens «da pequena fé» (oligópistoi) (Mateus 6,30; 8,26; 16,8; 17,20). Admirável ainda que Jesus diga a esta mulher que não desiste, mas insiste e persiste: «faça-se como queres» (genêthêtô hôs théleis), um paralelo claro da oração do «Pai Nosso»: «Faça-se a tua vontade» (genêthêtô tò thélêmá sou) (Mt 6,10)!

 6. O episódio é de uma crueza e de uma beleza inauditas. Mas há ainda mais: é a insistência desta mulher e mãe «libanesa» que, por assim dizer, obriga Jesus a passar mais uma fronteira: de hebraeos ad gentes!

 7. Enquanto tentamos compreender melhor a ousadia desta mulher e mãe «libanesa», que enche claramente este Domingo XX, não deixemos também de contemplar o rumor missionário que se faz ouvir, em perfeita sintonia, nas demais passagens ou paisagens bíblicas de hoje: aí está Isaías a adscrever mais um belo nome a Jerusalém: «Casa de oração para todos os povos» (Isaías 56,7). E Paulo a intitular-se «Apóstolo das nações» (Romanos 11,13). E o Salmo 67(66) a juntar as vozes dos povos de toda a terra no mesmo louvor ao Deus que faz graça e misericórdia.

 António Couto


SANTA TERESA BENEDITA DA CRUZ (EDITH STEIN)

Agosto 9, 2011

1. A Igreja celebra hoje, dia 09 de Agosto, a Festa de Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), Padroeira da Europa.

 2. Edith Stein nasceu em Breslau, na Alemanha, de pais judeus, em 12 de Outubro de 1891, última de onze irmãos. Judia de nascimento, nem por isso aderiu à fé judaica. Dizia-se agnóstica. Acompanhava, no entanto, a mãe à sinagoga, mais por delicadeza do que por convicção.

 3. No Outono de 1921, na Baviera, veio-lhe ter às mãos o «Livro da Vida» de santa Teresa de Ávila. Leu-o todo numa noite, dizendo logo ter encontrado aí a verdade. Recebeu o Baptismo em 01 de Janeiro de 1922. Em 15 de Outubro de 1933, ingressou na ordem das Carmelitas Descalças, para grande desgosto dos seus pais e familiares. Adoptou então o nome, por ela escolhido, de Teresa Benedita da Cruz.

 4. Antes desta viragem na sua vida, Edith Stein foi, juntamente com Martin Heidegger, uma brilhante discípula do grande filósofo da fenomenologia, Edmund Husserl. Edith Stein superava em muito Martin Heidegger, mas foi este que, por motivos ideológicos, veio a suceder na cátedra a Husserl.

 5. Para Heidegger, vivemos cercados pela morte por todos os lados, e, portanto, marcados por essa angústia. Edith Stein condivide com Heidegger a ideia de que a consciência da própria morte marca a radical finitude do ser humano, mas distancia-se de Heidegger ao referir que, exceptuando alguns casos particulares, esta consciência não leva à angústia. E explicita o seu pensamento desta maneira fulgurante: «Perante a inegável realidade de a minha existência ser fugaz, prorrogada, por assim dizer, de momento em momento e sempre exposta à possibilidade do nada, está outra realidade, igualmente irrefutável, que me diz que, não obstante esta fugacidade, eu sou, e que, momento após momento, sou conservado no ser e que, neste ser fugaz, colho algo de duradouro. Sei que sou conservado, e, por isso, estou tranquilo e seguro: não que esta segurança me advenha por virtude própria; antes, é a doce, feliz segurança da criança segura por um braço forte, segurança que, objectivamente considerada, não é menos da ordem da razão. Ou seria “da ordem da razão” a criança que vivesse com um medo permanente de que a sua mãe a deixasse cair?».

 6. Mudou-se em 1938 para da Alemanha para a Holanda, para fugir à perseguição nazi contra os judeus. Mas foi presa em 02 de Agosto de 1942, e levada para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, para onde foi com o hábito Carmelita. Recebeu o número de prisioneira 44070. Foi morta a 09 de Agosto de 1942.

 7. Em 01 de Maio de 1987, foi beatificada. Foi canonizada em 11 de Outubro de 1998. Em 01 de Outubro de 1999 foi declarada Padroeira da Europa.

 8. A esta Europa em queda livre, desacreditada, angustiada, sem bebés nos braços, a caminho do abismo, demasiado ocupada e preocupada a contar os últimos cêntimos, Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) aponta um rumo seguro: um colo maternal e uma criança segura e confiante nos braços da sua mãe.

 António Couto


A VOZ DE UM FINO SILÊNCIO

Agosto 6, 2011

1. A Igreja primitiva considerava a BARCA como figura da Igreja. Tertuliano (150-220) parece ter sido o primeiro a expressar esta temática por escrito (De Baptismo, XII, 7). E é fácil perceber a ligação: a BARCA aparece como um dos lugares em que JESUS está no meio dos seus discípulos e a sós com eles. De facto, a BARCA demarca um espaço privilegiado que JESUS condivide apenas com os seus discípulos. Mais ninguém entra nesta BARCA. No relato de Mateus, apenas por uma vez – e é o texto que temos a graça de ouvir neste Domingo XIX (Mateus 14,22-33; cf. Mc 6,45-52; Jo 6,16-21) –, os discípulos vão sozinhos na BARCA, sem Jesus. Mas surgem problemas, que os discípulos, sozinhos, não conseguem resolver. Esta importante cena serve também para mostrar que, sem Jesus, os discípulos não conseguem ter sucesso. A BARCA serve para atravessar o mar encapelado, que são as perseguições, deste mundo. Mas apenas na companhia de JESUS. Ontem como hoje.

 2. Na costa ocidental do Mar da Galileia, nas proximidades de Magdala, foi descoberta uma BARCA de pesca do tempo de Jesus. Tinha 8 metros de comprimento por 2,5 metros de largura. Já se vê que se trata de uma embarcação frágil, presa fácil das ondas. Os relatos de Mateus e de Marcos anotam a hora da chegada de Jesus, andando sobre o mar: quarta vigília da noite, que o mesmo é dizer, entre as três e as seis horas da manhã.

 3. «Andando sobre o mar» é claramente um indicador divino, pois Deus é aquele «cuja estrada é no meio do mar,/ e o seu caminho sobre as muitas águas» (Salmo 77,20). Mas Mateus empresta a este episódio uma tonalidade própria, pois é o único a inserir o diálogo de Pedro com Jesus. Também Pedro caminha sobre as águas, a seu pedido, e seguindo a ordem de Jesus: «Vem!». Entenda-se bem: Pedro caminha sobre as águas como Jesus, mas não com autoridade própria. O que Pedro faz, assenta na Palavra de Jesus e na Fé que o liga a Jesus. Importante lição: Pedro faz o mesmo que faz Jesus enquanto permanecer vinculado a Jesus pela Fé. Esmorecendo a Fé em Jesus, Pedro torna-se presa fácil de outras forças e sucumbirá no meio da tempestade. Pedro como nós. Sentindo o perigo, Pedro grita: «Salva-me, Senhor!». E sente logo a mão de Jesus que o segura. Nós como Pedro.

 4. A outra figura deste Domingo é Elias, «o fugitivo» (2 Reis 19,9-13). «Fugitivo» de si mesmo, de todos e de tudo. Todos o procuram para o matar, o mundo perdeu o seu sentido, e até Deus não parece ser mais o mesmo.

 5. E o certo é que este Elias, que surge solto na página, sem pai nem mãe, sem livro anagráfico, apenas com Deus do seu lado (1 Reis 17,1-24), continua a ser conduzido e comandado por Deus, que o salva da morte no deserto (1 Reis 19,5-8), e que o liberta das suas amarras, fazendo-o sair (SAI!), para fora do escuro e do medo (1 Reis 19,11), e abrindo à sua frente um caminho novo, tenro e frágil, como o que espera um bebé que sai do ventre materno. SAIR (hôtsî’) é o verbo do êxodo e do nascimento!

 6. É assim que o menino Elias, recém-nascido e libertado, assiste no Sinai à sequência teofânica antiga: vento forte, terramoto, fogo! Tudo manifestações desactualizadas. Outra vez a sequência 3 + 1, a fazer apostar toda a atenção no 4! E aqui, depois do vento, do terramoto, do fogo, Elias ouve «a voz de um fino silêncio!».

 7. Entenda-se: a voz de um cortante silêncio, voz de Deus que opera dentro de nós. Colagem de figuras: «A tua Palavra ardia no meu coração como um fogo devorador,/ encerrado dentro dos meus ossos» (Jeremias 20,9). Já Moisés tinha descoberto aquela chama viva, que ardia e não queimava,/ mas chamava (Êxodo 3,2-4). Elias encontrou essa Palavra nova na «voz de um fino silêncio» (1 Reis 19,12), escrita fina de Deus,/ com ponta de diamante,/ no coração do homem (Jeremias 17,1; 31,33). E o autor da Carta aos Hebreus compara esse «fino dizer» ou «escrever» a uma espada de dois gumes, que rasga o âmago do homem e lhe deixa soltas as pregas do coração (Hebreus 4,12).

Como se pode combater este incêndio,
apagar esta chama que chama,
calar a voz deste fino silêncio,
fugir deste bisturi que levamos cá dentro?
 
Jeremias tem outra vez razão:
é mais fácil enfrentar um furacão (Jeremias 23,18-20).
Esse sabemos de onde vem e para onde vai!

António Couto