MÚSICA NOVA COM PAUSA E BEMOL

Março 19, 2011

 

1. Baptizado no Jordão, tentado no deserto, mas Vitorioso, Jesus começou a executar o seu programa filial baptismal que tem por meta a Cruz Gloriosa (Baptismo consumado!) em que nós somos por Ele baptizados com o fogo e com o Espírito Santo (sempre o luminoso texto de Lucas 12,49-50). Entre o Jordão e a Cruz Gloriosa aí está Hoje, Domingo II da Quaresma, o episódio da Transfiguração (Mateus 17,1-9) – Luz incriada e inacessível (Mateus 17,2; cf. Sa1mo 104,2; 1 Timóteo 6,16) que investe a Humanidade de Jesus: experiência momentânea da Ressurreição –, mediante a qual o Pai confirma o Filho na sua missão filial baptismal, já iniciada, mas ainda não consumada. Que a Transfiguração deve ser vista à luz da Ressurreição, fica bem patente no dizer das Igrejas do Oriente que chamam à Festa da Transfiguração, que se celebra no dia 6 de Agosto, «a Páscoa do verão». Mas está também claro na ordem taxativa de Jesus ao descer do monte: «A ninguém digais esta visão até que o Filho do Homem seja Ressuscitado dos mortos» (Mateus 17,9).

 2. Jesus impõe, portanto, na nossa pauta musical pausa e bemol. Não podemos dizer a Transfiguração do Senhor, antes da Ressurreição do Senhor. E não podemos, porque não sabemos. E não sabemos, porque é só o Ressuscitado que faz vir o Espírito Santo sobre nós. Veja-se a lição do Livro dos Actos dos Apóstolos: «Este Jesus, Deus o Ressusctou, e disto todos nós somos testemunhas. Exaltado à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou-o, e é o que vedes e ouvis» (2,32-33). E o comentário preciso e precioso do narrador às palavras que Jesus acabava de proferir: «Isto disse do Espírito que haviam de receber os que tinham acreditado n’Ele, pois não havia ainda Espírito [para nós], porque Jesus ainda não tinha sido glorificado» (João 7,39). Pausa e bemol, porque importa que não sejamos nós a falar. Importa que seja o Espírito Santo a falar em nós. Toda a atenção, neste sentido, para o grande dizer de Jesus: «Quando vos entregarem, não vos preocupeis com ou como falais (laléô). Ser-vos-á dado naquela hora o que falar (laléô). Na verdade, não sois vós que falais (laléô), mas será o Espírito do vosso PAI que falará (laléô) em vós» (Mateus 10,19-20).

 3. A tradição situa o «monte alto», que abre o episódio da Transfiguração (Mateus 17,1), no Tabor, um monte de forma arredondada que se ergue nos seus 582 metros no meio da planície galilaica de Jesrael ou Esdrelon. No sopé do Tabor ainda hoje se encontra a aldeia palestiniana de Daburiyya, cujo eco evoca a personagem bíblica mais importante desta região, a profetisa Débora. As Igrejas do Oriente conhecem este episódio da Transfiguração por «Metamorfose» (Metamórphôsis), a partir das palavras do texto: «E transformou-se (metemorphôthê) diante deles [= Pedro, Tiago e João], e resplandeceu o seu rosto como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (Mateus 17,2). O branco é a cor divina. E a luz é o seu vestido, conforme o dizer do Salmo 104,2: «Vestido de Luz com de um manto». E, nesse cone de luz, o Apóstolo exorta-nos: «Caminhai como filhos da luz», e lembra-nos que «o fruto da luz é toda a bondade, justiça e verdade» (Efésios 5,8 e 9).

 4. Baptizado para a Cruz Gloriosa, Confirmado para a Cruz Gloriosa. As mesmas palavras do Pai no Baptismo e na Transfiguração / Confirmação: «o Filho Meu», «o Amado» (Mateus 3,17; 17,5), agora seguidas pelo imperativo «Escutai-o!», dirigido a todos os discípulos: Jesus é também o «Profeta novo», como Moisés, prometido em Deuteronómio 18,15-18. Testemunham a cena grandiosa da Transfiguração / Confirmação três discípulos – como dispunha a Lei antiga: duas ou três testemunhas (Deuteronómio 17,6) –, os quais são igualmente confirmados para a sua missão futura (após a Ressurreição com a dádiva do Espírito) de dar testemunho d’Ele. Aparecem Moisés e Elias que falam com Jesus Transfigurado / Ressuscitado: é para Ele que aponta todo o Antigo Testamento! As «Escrituras», Moisés, todos os Profetas e os Salmos, falam acerca d’Ele! (Lucas 24,27 e 44; João 5,39 e 46; Actos dos Apóstolos 10,43). É o «segundo as Escrituras» que os discípulos também devem testemunhar. Pedro, sempre ele, em nome dos discípulos de então e de sempre, tenta impedir Jesus de prosseguir a sua missão filial baptismal até à Cruz: «Senhor, bom é estarmos AQUI … Levantarei AQUI três tendas» (Mateus 17,4). AQUI significa deter-se no provisório, no preliminar e no penúltimo, e recusar caminhar para o definitivo e o último! Marcos 9,6 e Lucas 9,33 anotam criteriosamente que «não sabia o que dizia». Não sabia, porque ainda não tinha sido baptizado com o Espírito Santo e com o fogo; quando o for, saberá também ele, discípulo fiel, baptizado / confirmado, levar por diante a missão filial baptismal em que foi investido, e dará testemunho até ao sangue.

 5. A Ressurreição é a Transfiguração tornada permanente, eterna. Todos os baptizados / confirmados estão destinados à mesma Ressurreição / Transfiguração do Senhor: a Divinização.

 6. A lição do Livro do Génesis (12,1-4) abre diante de nós o caminho novo já apontado no Evangelho: «VAI para ti (lek-leka) do teu país, da tua parentela e da casa do teu pai, para o país que Eu te farei ver» (Génesis 12,1). Com este imperativo, Deus põe em marcha Abraão e a inteira história da salvação que se lhe segue. «E Abraão partiu» (Génesis 12,4). Com este gesto esplendorosamente mudo, Abraão comprometeu-se e comprometeu-nos a nós também. Abraão arrasta consigo a história toda. Ele parte (e a história com ele) em direcção a Cristo, que é a sua verdadeira descendência (Gálatas 3,16). Abraão viu-O e saudou-O de longe (Hebreus 11,13), cheio de alegria (João 8,56). A sua meta é clara e define e alumia a sua estrada que até lá conduz e em que caminha Abraão, fazendo assim dele também antecipadamente «filho da Luz». Abraão não se despede do passado, e faz ao futuro um aceno de esperança e de alegria. São tão simples, tão novos e tão decididos os gestos e os passos de Abraão! Talvez devamos mesmo seguir o conselho de Isaías, o profeta: «Olhai para Abraão, vosso Pai» (Isaías 51,2). E partir com ele DAQUI, do provisório, do preliminar, do penúltimo, ao encontro de Cristo Ressuscitado.

 7. Movido pela Palavra de Deus, único verdadeiro motor da sua vida, Abraão parte do seu país e da casa do seu pai. Mas não se trata apenas de uma viagem no mapa. Não é meramente da ordem da geografia. É sobretudo da ordem suprema da pessoa e da liberdade. Note-se bem que o texto não diz simplesmente: «VAI (lek) do teu país», mas «VAI para ti (lek-leka) do teu país», especialíssima locução que a gramática hebraica classifica como «dativo ético». Viagem diferente, que implica um trabalho de casa, dentro da própria casa, dentro da própria pessoa, trabalho de libertação para a liberdade, até nos fazermos verdadeiramente livres, abertos, disponíveis, acolhidos, acolhedores, abençoados, abençoadores.

 8. É ainda nesse sentido que Abraão é chamado «o hebreu» (ha-‘ibrî) (Génesis 14,13). ‘ibrî reporta-se a ‘eber, que significa «margem». Ele vem do «outra margem do Rio» (Josué 24,3). Mas reporta-se também a ‘abar, que significa «passar», «atravessar», «ir além de», «converter-se», «abrir uma passagem», «transferir», o que implica um movimento ao mesmo tempo objectivo e subjectivo, activo e passivo. Abraão é o homem que atravessa fronteiras, mas é sobretudo o homem que se atravessa a si mesmo. Viajante transitivo e intransitivo.

 9. E o Apóstolo testemunha (2 Timóteo 1,8-10) que o mesmo Deus que chamou Abraão, também nos chamou a nós (2 Timóteo 1,9). Por pura graça. Para dar testemunho do Evangelho e participar na sua vida. Por isso, tal como Abraão, também Paulo esqueceu o passado e correu para o futuro (Filipenses 3,13). E quer agora empenhar nesta «corrida» o seu discípulo Timóteo. E a nós também. Contra a contínua tentação de querermos ficar AQUI, no provisório, no preliminar, no penúltimo, como Pedro (Evangelho) e todos os discípulos (Actos dos Apóstolos 1,11).

 António Couto

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NO DESERTO A CÉU ABERTO

Março 10, 2011

 

1. Só secundariamente a Quaresma «prepara» para a Ressur­reição do Senhor. Na verdade, todos os «Tempos» e todos os Domingos do Ano Litúrgico – portanto, também a Quaresma e os seus Domingos – estão depois da Ressurreição e por causa da Ressurreição. E é só sob a intensa luz do Senhor Ressusci­tado com o Espírito Santo (Baptismo consumado: Lucas 12,49‑50) que a Igreja – e cada um de nós – pode celebrar autenti­camente a sua fé, proceder à correcta «leitura» das Escri­turas e encetar a «caminhada» quaresmal. Neste sentido, todos os baptizados são chamados a refazer com Cristo bapti­zado o seu programa baptismal, cujo conteúdo e itinerário conhecemos: desde o Baptismo no Jordão, passando pela Trans­figuração / Confirmação no Tabor, até à Cruz e à Glória da Ressurreição (Baptismo consumado!), escutando / anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as «obras» do Reino (Actos dos Apóstolos 10,37-43: texto emblemático); os catecúmenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos baptizados, «pre­param‑se» intensamente para a Noite Pascal Baptismal, início e meta da vida cristã.

 2. O Evangelho deste Domingo I da Quaresma oferece-nos o episódio das Tentações de Jesus (Mateus 4,1-11). Baptizado com o Espírito Santo, e declarado por Deus publicamente: «Este é o Filho meu, o Amado, em quem me comprazo» (Mateus 3,16). Note-se bem que, em Mateus, o dizer do Pai é para nós, pois fala em 3.ª pessoa: «Este é…». De modo diferente, em Marcos e em Lucas, o dizer do Pai é para Jesus, pois fala em 2.ª pessoa: «Tu és o Filho meu, o Amado, em ti me comprazo» (Marcos 1,11; Lucas 3,22).

3. Jesus é conduzido pelo Espírito Santo para o deserto (Mateus 4,1). Note-se bem que este «deserto» bíblico não se ajusta ao que dizem os dicionários ou enciclopádias. Até contradiz esses dizeres. Na verdade, não é um lugar geográfico, mas teológico, pois é apresentado com muita água (João 3,23) cumprindo Isaías 35,6-7, 41,18 e 43,19-20, com árvores (canas) (Mateus 11,7; Lucas 7,24) e relva verde (Marcos 6,39) cumprindo Isaías 35,1 e 7 e 41,19. É um lugar provisório e preliminar, preambular, longe do que é nosso, onde se está «a céu aberto» com Deus, onde troará a voz do seu mensageiro (Isaías 40,3), de João Baptista (Mateus 3,1-3), do próprio Messias segundo uma tradição judaica recolhida em Mt 24,26. O deserto é o lugar onde se pode começar a ver a «obra» nova de Deus (Isaías 43,19). Mas é um lugar provisório, onde estamos de passagem, e não definitivo, para se habitar lá (à maneira dos Essénios). Sendo um lugar provisório e de passagem, aponta para o definitivo, que é a Terra Prometida, onde Deus fará habitar e descansar o seu povo fiel. Este deserto é uma metáfora da nossa vida, onde sabemos que estamos de passagem. O deserto é todo igual: não tem pontos de referência nem marcos de sinalização. Quer dizer que só podemos prosseguir rumo à Terra Prometida e à Vida verdadeira, se tivermos um bom guia. Aí está o deserto como lugar onde temos de saber escutar a «Voz do fino silêncio» de Deus e ler o mapa da sua Palavra.

4. Por 40 dias e 40 noites Jesus jejuou (Mateus 4,2). 40 é simbolicamente o tempo de uma geração, de uma vida. Jesus jejuou, portanto, a vida toda. Modelo para nós. E o que é que significa jejuar? Jejuar é fazer pausa e pôr bemol na nossa maneira habitual de viver, até compreender que tudo o que está na minha mesa, mãos, inteligência, coração, é dom de Deus, não apenas para mim, mas para nós, todos filhos de Deus e, portanto, todos irmãos. A alegria da partilha. Os dons são para partilhar, não para usurpar.

5. É assim que as tentações diabólicas pretendem atingir Jesus na sua condição filial baptismal, separando-o de Deus e dos irmãos, não fosse o diabo – diá-bolos – o «divisor» ou «separador». ´´E, portanto, na sua condição de baptizado, isto é, de Filho de Deus, que Jesus é tentado. Na verdade, toda a tentação, a de Cristo como a nossa, começa sempre da mesma maneira: «Se és o Filho de Deus…». Atente-se em como se repete nos mesmos termos sob a Cruz (Mt 27,39-44), também por três vezes, sendo aqui os tentadores os transeuntes, os chefes dos sacerdotes e os ladrões. Portanto, sempre. Do Baptismo até à Morte, a tentação visa afastar-nos de Deus e dos seus dons, e pôr-nos ao serviço do «deus deste mundo» (2 Coríntios 4,4; cf. João 12,31). Veja-se a última oferta do Tentador do Evangelho de hoje: «todos os reinos deste mundo» em troca do afastamento de Deus (Mateus 4,8-9). E a resposta decidida de Jesus: «Vai-te, Satanás!» (Mateus 4,10).

6. Lêem-se também hoje dois bocadinhos do Livro do Génesis 2,7-9 e 3,1-7. O homem de todos os tempos e de todos os lugares, nós também, modelado pelas mãos puras de Deus e acariciado com um «beijo de Deus» – é assim que os rabinos interpretam aquele sopro de Deus no rosto do homem (Génesis 2,7) –, cedeu à tentação, afastando-se do Bom Deus Criador e aderindo aos «deuses deste mundo», aqui simbolizados na cobra, animal que anda rente ou por dentro da terra, a grande deusa-mãe, comungando da sua vitalidade, e tornando-se, por isso, em símbolo do culto da fertilidade, fecundidade e vitalidade em todo o Médio Oriente Antigo e ainda hoje no nosso mundo: vejam-se os painéis que assinalam as portas das farmácias! Está diante de nós o orgulho do homem de todos os tempos, que não quer ser dependente e contingente, que é a condição da criatura boa que se recebe sempre do Deus Criador, mas quer ser autónomo e independente, senhor tirânico e prepotente, como os deuses dos mitos mesopotâmicos ou gregos. Admirável contraponto do Evangelho de hoje.

7. No grande texto da Carta aos Romanos 5,12-19, S. Paulo repete que somos pecadores, pois todos nos podemos ver em Adão como em um espelho. Mas agora, insiste Paulo, é tempo de vermos a nossa vida à luz de Cristo, com Cristo, em Cristo, para Cristo. Fixamente, para não nos perdermos no caminho filial, fraternal, baptismal. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. É esta a Sabedoria de Paulo.

António Couto


TENTAÇÕES DE JESUS EM MATEUS 4,1-11

Março 9, 2011

Debrucemo-nos sobre as tentações messiânicas de Jesus ou a prova que abre para o seu ministério messiânico, analisando Mt 4,1-11. Comecemos por ler atentamente o texto:

 «4,1Então Jesus foi levado para o deserto pelo Espírito para ser tentado (peirázô) pelo diabo. 2E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, no fim, teve fome. 3E, tendo-se aproximado o tentador (peirázôn), disse-lhe: “SE FILHO DE DEUS TU ÉS, diz para que estas pedras se tornem pães”.

 4Mas ele, respondendo, disse:

“Está escrito (gégraptai: perf. pass. de gráphô): ‘Não só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’”.

 5Então, leva-o consigo o diabo para a cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do Templo, 6e diz-lhe: “SE FILHO DE DEUS TU ÉS, atira-te para baixo; está escrito, na verdade, que ‘aos seus anjos ordenará a teu respeito, e sobre as mãos te levarão para que não tropece em alguma pedra o teu pé’”.

 7Dizia-lhe Jesus:

“Ainda está escrito: ‘Não tentarás o Senhor, teu Deus’”.

8Novamente o leva consigo o diabo sobre um monte muito alto, e mostra-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, 9e disse-lhe: “Tudo isto darei a ti, se, caindo, ME ADORARES (proskynéô)”.

 10Diz-lhe então Jesus: “Vai-te, Satanás;

está escrito, na verdade: ‘O Senhor, teu DEUS, ADORARÁS, e a Ele só prestarás culto’”.

 11Então deixa-o o diabo, e eis que os anjos vieram e serviam-no» (Mt 4,1-11).

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FAZER A PALAVRA COM O CORAÇÃO, A MENTE, AS MÃOS

Março 6, 2011

 

1. Desde o Domingo IV do Tempo Comum que temos andado a ler atentamente, em alta frequência, nas alturas, o Sermão proferido por Jesus na Montanha, e que nos é oferecido no Evangelho de Mateus 5,1-7,29. Neste Domingo IX do Tempo Comum, terminamos essa leitura com a passagem de Mateus 7,21-27. Sem equívocos, no final deste belíssimo Sermão da Montanha, Jesus declara, nas alturas, que o que conta é o nosso empenhamento concreto em «ouvir e FAZER estas minhas Palavras» (Mateus 7,24 e 26), atitude posta em paralelo com «FAZER a vontade do meu Pai que está nos Céus» (Mateus 7,21). E, em contraponto, declara que a autenticidade da fé não é verificável ou mensurável pelo entusiasmo carismátíco («Senhor, Senhor»), nem sequer pelo tom excepcional da nossa religiosidade («profetizar»), nem tão-pouco pela efervescência exterior e triunfalista («expulsar demónios e fazer milagres»), mas apenas pelo nosso empenhamento vital em FAZER estas minhas Palavras. Com as mãos, a mente, o coração.

 2. É este o único caminho para nos tornamos verdadeiros familiares de Jesus, enxertando na d’Ele a nossa vida: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que escutam e FAZEM a Palavra de Deus» (Lucas 8,21). A Palavra não é apenas para ouvir. É para FAZER. FAZER é a chave do Reino do Céus. Há quem pense que o cristianismo se reduz a meros hábitos ou rotinas mentais e culturais, verniz social, repetição de fórmulas cansadas, vistosas cerimónias, amontoados de normas, formas e tradições. Vivendo no meio deste verniz, dizem muitos, «não podemos não nos dizer cristãos». Mas Jesus lembra-nos hoje que quem vive só de ouvido, ou à base de sentimentalismos ondulantes, instáveis e vazios, ou se limita a caminhar sobre a areia movediça das modas e opiniões correntes, é um construtor insensato. Virão as chuvas, melhor, a tempestade, que é o julgamento de Deus, e todo se desmoronará. Ao contrário, diz Jesus, o construtor sábio é o que constrói a sua vida sobre a Rocha. A Rocha é Deus.

 3. Na verdade, o termo hebraico normal para dizer «rocha», «rochedo», «pedra firme», é tsûr ou sela‘, que designa também Deus no AT por 33 vezes, duas delas no Salmo Responsorial de hoje, o Salmo 31(30). Mas o hebraico também conhece o termo kef, aramaico kêfa’, que designa a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e protecção a uma vida nova. Esta segunda cascata de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaf, palma da mão; kef, rochedo esburacado (grutas); kêfa’ (aramaico), rochedo esburacado; kêfãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado a Pedro (Jo 1,42), única vez nos Evangelhos; kîpah, folha de palmeira, e solidéu de veludo ou tricotado com que os judeus cobrem a cabeça, assinalando a protecção de Deus; kafar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão, propiciação, que aparece na leitura de hoje da Carta aos Romanos 3,25, aplicado a Jesus Cristo. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. O termo «alcofa» é um deles.

 4. O texto do Deuteronómio11,18.26-28.32, que hoje lemos lembra-nos, com particular intensidade, que devemos gravar a Palavra de Deus no coração, atá-la às nossas mãos, marcar com ela a nossa fronte. É a nossa ocupação, orientação, exultação.

 5. Deus fiel, fiável, Sim irrevogável, matriz fidedigna, maternal amor preveniente, permanente, paciente, palavra primeira e confidente, providente, eficiente, a dizer-se sempre e para sempre dita, rochedo firme, abrigo seguro, alcofa para o nascituro, luz no escuro, amor forte sem medo da morte e do futuro. Deus fiel e confidente, fala, que o teu servo escuta atentamente. Nada do que dizes cairá por terra. A tua palavra à minha mesa, minha habitação, minha alegria, minha exultação, energia do meu coração, luz que me guia e que me alumia. Todo o dia. A minha luz é reflexa, a minha palavra é lalação, de ti decorre, para ti corre a minha vida, dita, dada, recebida e oferecida.

 António Couto