S. PEDRO E S. PAULO

Junho 28, 2014

 

1. Os Santos Apóstolos Pedro e Paulo são festejados em todas as Igrejas do Oriente e do Ocidente, nos antigos, como nos novos calendários, na mesma data, 29 de Junho. A Igreja do Oriente ainda hoje acomuna os dois Apóstolos com o título de Prôtóthronoi, os «primeiros na cátedra» da doutrina divina e salvífica. A Igreja de Roma já existia antes da chegada de Pedro e Paulo, mas venera-os como verdadeiros «fundadores», pois só com eles se vê como Igreja «Apostólica», coração de Pedro, coração de Paulo. A própria iconografia, em inumeráveis representações, junta os dois Apóstolos e Mártires, já desde os séculos II e III, sinal da veneração que os fiéis de Roma e do mundo inteiro lhes dedicavam. Veneração verificável, de resto, no facto de os túmulos dos dois grandes Apóstolos e Mártires ser a meta da única peregrinação do mundo cristão antigo.

 2. Os textos da Escritura Santa hoje abertos diante de nós põem em relevo, naturalmente, as duas grandes figuras de Apóstolos que hoje celebramos. O Evangelho é de Mateus 16,13-19, que é também o Evangelho do Domingo XXI, e põe em destaque a figura de Pedro. Também a passagem do Livro dos Actos 12,1-11 lhe é dedicada. O texto do final da 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18 põe naturalmente em realce a figura de Paulo.

 3. Cesareia de Filipe, actual Banyas, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS, que atravessa o inteiro Evangelho (Mateus 16,13-19). Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Aí construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus Pã, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.

4. É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus põe a questão da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: «Quem dizem as pessoas que é o Filho do Homem?» (Mateus 16,13), para acrescentar logo de seguida, de forma directa e enfática: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15). A esta pergunta, posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16). Jesus declara Feliz (makários) Simão, filho de Jonas, não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). E é sobre este dizer de Simão Pedro, dizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pétros» – «pétra». Mas note-se também que quem constrói a Igreja é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir também é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, só Jesus e Pedro recebem o apelativo de «pedra». «Rocha», «rochedo», «pedra firme» diz-se, em hebraico, tsûr ou sela‘, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no coração do Salmista: «O Senhor é a minha Rocha (sela‘) e a minha fortaleza (…), nele me abrigo, meu Rochedo (tsûr), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu refúgio» (Salmo 18,3).

5. Mas o hebraico conhece também o termo keph, aramaico kêpha’, para designar a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e protecção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos, mas várias vezes em Paulo (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9.11.14); kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça para indicar a protecção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados.

6. Jesus declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, política, jurídica, económica ou científica. É esclarecedor o texto de Isaías 22,19-23, que fala do «rito das chaves» e do poder retirado a Shebna e conferido a Eliaqîm. As chaves do Reino dos Céus são as chaves do amor e do perdão, traves mestras de uma comunidade unida e confiante, com os pés na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constituição Dogmática Lumen Gentium: «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo» (n.º 9).

7. É importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Concílio Vaticano II. De facto, Pedro é a Pedra e tem as Chaves do Reino dos Céus, e é-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar: «Tudo o que ligares (dêsês: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeménon: part. perf. pass. de déô) nos Céus, e tudo o que desligares (lýsês: conj. aor. de lýô) sobre a terra, ficará para sempre desligado (lelyménon: part. perf. pass. de lýô) nos Céus» (Mateus 16,19). Todavia, no Evangelho de Mateus, e só no Evangelho de Mateus, esta autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar, é também confiada à inteira comunidade, exactamente nos mesmos termos em que é confiada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes (dêsête: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeména: part. perf. pass. de déô) no céu, e tudo o que desligardes (lýsête: conj. aor. de lýô) na terra, ficará para sempre desligado (lelyména: part. perf. pass. de lýô) no céu» (Mateus 18,18). É belo ver a inteira comunidade assente na Pedra, que é Pedro, como Pedro, com Pedro, não alijando responsabilidades, mas unida, reunida e operante na prática quotidiana do Perdão!

8. Actos 12,1-11 é uma página assombrosa, que sai fora do estilo lucano, e se aproxima mais do estilo do evangelista Marcos. Não admira. É mesmo para casa de Maria, mãe de João Marcos, que Pedro se dirige no episódio seguinte (Actos 12,12-17). Na página de hoje, Pedro é salvo miraculosamente pela intervenção do Anjo de Deus, do próprio Deus, portanto. São significativos os cinco imperativos que o Anjo dirige a Pedro: Levanta-te, cinge-te, calça as sandálias, cobre-te com o teu manto e segue-me! (Actos 12,8). Com o primeiro imperativo, caem das mãos de Pedro as correntes de ferro. Assim começa a liberdade! Passam depois, sem qualquer sobressalto, um após outro, dois postos da guarda, e abre-se automaticamente (automátê) o portão de ferro que dava para fora (Actos 12,10). Quando Pedro cai em si, está numa rua de Jerusalém, e reconhece a mão de Deus nesta espectacular acção de libertação em que é libertado das mãos de Herodes (Actos 12,10-11). Trata-se de Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande. Favorecido, primeiro por Calígula, depois por Cláudio, foi vendo, a partir do ano 37, começar e aumentar o seu reinado de norte para sul: em 37, é libertado das suas cadeias de ferro – estava preso em Roma – por Calígula, que lhe entrega, juntamente com o título de rei, as tetrarquias de Filipe e de Lisânias; em 40, recebe a tetrarquia de Herodes Antipas, acabando de 41 a 44, ano da sua morte, por se tornar rei também sobre a Judeia, de certo modo refazendo o antigo reino de Herodes o Grande. É no decurso destes últimos anos que se situam os acontecimentos relatados ou apenas acenados na lição de hoje, nomeadamente o martírio de Tiago, filho de Zebedeu, e a prisão de Pedro.

9. A cena da libertação de Pedro acontece na noite de Páscoa, em paralelismo com os hebreus que, no Egipto celebraram a Páscoa da libertação. Também aí acontece a intervenção de Deus (Êxodo 12,8.12), também de noite, e os hebreus, como Pedro agora, comem a Páscoa com os rins cingidos e sandálias nos pés (Êxodo 12,11). E, de novo em paralelismo com os hebreus na saída do Egipto, também Pedro deve caminhar pelas ruas da cidade e pelos caminhos do mundo. É aí que Pedro e os Apóstolos devem agora fazer falar a Palavra, e não já no Templo, como sucedeu no relato da libertação dos Apóstolos narrado em Actos 5,18-21.

10. Na verdade, quando Pedro dá por si, encontra-se na rua! Dirige-se então para casa de Maria, mãe de João Marcos, onde era usual os cristãos se reunirem para rezar (Actos 12,12). Pedro bate insistentemente ao portão exterior que dá para o pátio interior da casa, e, apercebendo-se, veio uma criada, de nome Rode [= Rosa] ver quem era (Actos 12,13). Mal reconheceu a voz de Pedro, ficou tão contente que, em vez de abrir o portão, correu para dentro anunciando que Pedro estava lá fora (Actos 12,14). Responderam-lhe que estava maluca (maínê) (Actos 12,15). Quando finalmente abriram o portão, que não se abre automaticamente como o da cadeia, ficaram assombrados, fora de si (exístêmi) (Actos 12,16). É este o assombro maravilhoso que toma conta de Marcos, que enche o seu Evangelho, e esta página de eleição!

11. Chegámos finalmente a Paulo e ao final da sua 2 Carta a Timóteo 4,6-8.17-18, em que Paulo traça, por assim dizer, o seu testamento autobiográfico, recorrendo a três imagens. A primeira provém do culto, do rito de libação (2 Timóteo 4,6), hebraico nesek (Êxodo 29,40; Levítico 23,13), que consiste em derramar um pouco de vinho ou de mosto (cerca de 1,5 litros) sobre o altar, onde será queimado juntamente com a oferenda (minhah), subindo o seu perfume para o alto, para Deus. Do mesmo modo, a inteira vida de Paulo foi uma incessante subida para o seu Senhor, nada retendo para si mesmo, cá em baixo. A segunda provém do mundo militar. É o combate (agôn), que Paulo combateu a vida inteira, e que qualifica de «belo» e «bom» (kalós) (2 Timóteo 4,7). A terceira provém do mundo desportivo, concretamente do atletismo. «Completei a minha corrida (drómos)» (2 Timóteo 4,7). Como o atleta sacrifica tudo para alcançar a vitória, também Paulo despendeu todas as suas energias para alcançar «a coroa da justiça» que o Senhor lhe dará (2 Timóteo 4,8), e que é bem diferente da «coroa corruptível» que os atletas conquistam no estádio (1 Coríntios 9,25). Seja-nos permitido ir buscar ainda uma quarta imagem ao mundo dos marinheiros. «O tempo (ho kairós) começou já a recolher as velas (systéllô)» (1 Cor 7,29). Paulo sabe que está a chegar ao porto, depois de ter atravessado tempestades de toda a ordem, sempre, no entanto, assistido pelo seu Senhor, para que se cumprisse o anúncio (kêrygma) do Evangelho a todas as nações (2 Timóteo 4,17). E termina tudo com uma bela doxologia: «A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Ámen» (2 Timóteo 4,18).

António Couto


O SEU NOME É JOÃO!

Junho 24, 2014

 

1. Na Solenidade do Nascimento de S. João Baptista, é-nos dada a graça de escutar o Evangelho de Lucas 1,57-66. Depois de Maria ter visitado e saudado Isabel (Lucas 1,39-45), e depois de ter recitado a bela oração do Magnificat (Lucas 1,46-55), o narrador informa-nos que «Maria permaneceu com Isabel cerca de três meses, e depois voltou para sua casa» (Lucas 1,56).

 2. Curiosamente, só agora, depois da anotada a saída de cena de Maria em Lucas 1,56, nos é dito, no versículo imediatamente seguinte, em Lucas 1,57, que Isabel deu à luz. Com esta anotação precisa, fica claro que os três meses que Maria passou em casa de Isabel nada têm a ver com a assistência que Maria podia prestar a Isabel aquando do nascimento do seu filho. Temos então de procurar noutra direcção pelo significado que o narrador quis dar a essa estada de três meses de Maria em casa de Isabel. E aqui impõe-se-nos a anotação que consta em 2 Samuel 6,11 acerca da Arca do Senhor, sendo aí dito que «a Arca do Senhor ficou três meses em casa de Obed-Edom, de Gat, tendo o Senhor abençoado Obed-Edom e toda a sua casa».

3. Portanto, Maria é, no texto de Lucas, a Arca do Senhor presente em casa de Isabel, que abençoa a casa de Isabel. Verificação: não é dito, o que seria de todo normal, que os vizinhos e os familiares de Isabel ouviram dizer que Isabel tinha tido um filho, mas sim que «os vizinhos e familiares ouviram dizer que Deus cumulou Isabel com a sua misericórdia» (Lucas 1,58).

4. O oitavo dia do nascimento de um menino é uma grande festa em Israel. É nesse dia que o menino é circuncidado e recebe o seu nome. A casa de Isabel enche-se outra vez de familiares e vizinhos. Mais uma vez atento, o narrador diz-nos que aquela gente que veio para a festa queria dar ao menino o nome do seu pai, Zacarias (Lucas 1,59). Nem outra coisa era de supor, dado que, em contexto bíblico, o filho primogénito recebia habitualmente o nome do seu pai. Mas Isabel também estava atenta, e reagiu logo, dizendo: «Não, o menino chamar-se-á JOÃO (Lucas 1,60).

5. Os presentes ficaram atónitos com a reacção de Isabel, e fizeram questão de vincar tal incongruência, referindo que na família ninguém tinha esse nome (Lucas 1,61). Recorreram, pois, ao mudo Zacarias para que se pronunciasse sobre o assunto do nome do menino. Zacarias, porque estava mudo, pediu uma tabuinha de cera, e escreveu: «O seu nome é JOÃO!», o que provocou o espanto de todos os presentes (Lucas 1,62-63).

6. Porquê, então, o nome de JOÃO? É certo que já o Anjo tinha mencionado a Zacarias este nome em Lucas 1,13. Mas porquê JOÃO, se ali, no livro anagráfico daquela família ninguém registava esse nome? O que significa o nome JOÃO? Em hebraico, JOÃO diz-se Yôhanan. Yôhanan significa literalmente «YHWH faz graça». E o que é fazer «fazer graça»? É uma mãe que embala ternamente o seu bebé nos braços e baixa para ele o olhar carinhoso, bondoso, maravilhoso, gracioso, maternal. É este duplo gesto de carinho maternal que é a graça bíblica. Sobretudo aquele olhar belo, enternecido, embevecido, maternal, que enche o bebé de graça.

7. É assim que Deus olha para nós, e nos acaricia. É assim que Maria é saudada pelo Anjo com aquele: «Alegra-te, Cheia de Graça!» (Lucas 1,28). E é isso que Maria canta no Magnificat: «A minha alma engrandece o Senhor,/ e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador,/ porque Ele Olhou (epiblépô = olhar condescendente) para a sua humilde serva» (Lucas 1,46-47).

8. O nome JOÃO não estava registado no livro anagráfico daquela família. O nome dado não é, portanto, da nossa colheita. Vem de Deus. Foi anunciado pelo Anjo. O que é que isto quer dizer? JOÃO é, por assim dizer, o último profeta do Antigo Testamento, e o primeiro do Novo Testamento. Sendo o último do Antigo Testamento, ele resume todo o Antigo Testamento: «Deus faz graça». Sendo o primeiro do Novo Testamento, ele constitui o sumário de todo o Novo Testamento: «Deus faz graça».

9. É a posição estratégica de JOÃO no limiar dos Dois Testamentos, encerrando um e abrindo outro, resumindo um e sumariando outro, que explica a nossa estranheza. Mas JOÃO é uma enorme lição. Neste Belo Nome está contida a inteira Escritura. Parabéns, menino JOÃO, pelo teu nascimento no nosso mundo. Tu, que nos vieste mostrar Deus!

António Couto


O PÃO QUE JESUS É E DÁ

Junho 21, 2014

 

1. O imenso texto que forma o Capítulo 6 do Evangelho de João, pode dividir-se em seis Partes: a primeira Parte, que funciona como Introdução ou preparação do cenário, engloba os vv. 1-4 e apresenta as personagens (Jesus, uma grande multidão, os discípulos), o lugar (na «outra margem do mar da Galileia», na «montanha») e o tempo («estava próxima a Páscoa dos judeus»); a segunda Parte, que se estende pelos vv. 5-15, abre com uma pergunta pedagógica de Jesus dirigida a Filipe («Filipe, onde compraremos pão para que eles comam?»), não correctamente respondida por Filipe e André, mas resolvida por Jesus; a terceira Parte, que compreende os vv. 16-21, mostra-nos os discípulos a atravessar, no escuro, o mar encapelado, e Jesus vindo ao seu encontro caminhando sobre o mar; a quarta Parte, entre os vv. 22-24, apresenta-nos um novo começo, «no dia seguinte», mostrando-nos a multidão que nota a ausência de Jesus e parte à sua procura para Cafarnaum (mudança de lugar); a quinta Parte, que compreende a longa extensão de texto entre os vv. 25-59, traz para a cena a importante discussão, travada entre Jesus e a multidão ou os judeus, sobre o pão vindo do céu; a sexta Parte, que contempla os últimos versículos (vv. 60-71), estende a discussão aos discípulos, mostrando a deserção de muitos (vv. 60-66), em contraponto com a confissão de fé de Pedro (vv. 67-71).

 2. A passagem do Evangelho que temos a graça de escutar neste Dia Grande do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo é João 6,51-58. Como se vê, esta passagem integra a longa quinta Parte de João 6, que se estende pelos vv. 25-59. Mostramos agora, para efeitos de clareza e melhor compreensão, como se apresenta estruturada esta quinta Parte (João 6,25-59), para nos ocuparmos depois, mais de perto, do texto de hoje (João 6,51-58). João 6,25-59 apresenta-se ritmado pelo esquema «pergunta-resposta». As perguntas saem da boca de uma «multidão» não identificada ou dos «judeus», a que se seguem as respostas de Jesus. Seguindo este ritmo, o texto de João 6,25-59 mostra-se organizado em cinco secções: João 6,25-29 (a), João 6,30-33 (b), João 6,34-40 (c), João 6,41-51 (d) e João 6,52-59 (e).

 3. É agora fácil verificar que a passagem do Evangelho de hoje (João 6,51-58) cai, quase por inteiro, na quinta secção (vv. 52-59) da quinta Parte. Dizemos quase por inteiro, porque o v. 51, que abre o Evangelho de hoje, faz parte da quarta secção (João 6,41-51), constituindo mesmo o seu encerramento natural. Na verdade, à pergunta dos judeus: «Não é este, Jesus, o filho de José, de quem conhecemos o pai e a mãe? Como é que diz agora: “Eu desci do céu”?» (João 6,42), que abria a quarta secção (João 6,41-51), responde Jesus, afirmando a sua verdadeira identidade: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu (…), pão que é a minha carne, que eu darei para a vida do mundo» (João 6,51). Na finíssima rede do texto, o v. 51 constitui o fecho natural da quarta secção. Um pequeno reparo: como este v. 51 aparece a abrir o Evangelho de hoje, anote-se então que Jesus não está a responder à «multidão», como nos faz ler a versão oficial do texto que vai ser proclamado, mas aos «judeus», que entram em cena em João 6,41, e formulam a pergunta que se ouve em João 6,42.

 4. A afirmação de Jesus em João 6,51 também é importante hoje, pois contém todos os elementos que importa considerar: «Eu sou o pão que desceu do céu», «esse pão é a minha carne», e «dará a vida». De qualquer modo, a abrir a quinta secção, lá está outra pergunta que sai também da boca dos judeus, e que vem na continuidade da resposta acima referida de Jesus. A nova pergunta soa assim: «Como pode este dar-nos a sua carne (sárx) a comer?» (João 6,52).

 5. Na sua resposta, Jesus fala de vida nova, e, por isso, também de alimento novo, consentâneo com essa vida nova. Esclarecedor, nesse sentido, é que o verbo «comer» apareça conjugado com «carne» (sárx), João 6,52.53.54.56), com «pão» (ártos) (João 6,51.58) e «comigo» (me) [«o que me come»] (João 6,57). Fica claro que «comer o pão descido do céu» é «comer a carne do Filho do Homem», e que as duas expressões são equivalentes de «comer a pessoa» de Jesus, a sua identidade, o seu modo de viver. Só assim, a vida verdadeira, a vida eterna, entra em nós e transforma a nossa vida, configurando-a com a de Jesus. Uma nova possibilidade entra na história humana. Tudo o que fica para trás, resume-se assim: «No deserto, os vossos pais comeram o maná, e morreram» (João 6,49). Agora emerge o tema da transparência e da mútua imanência e pertença: «Permanece em Mim e Eu nele» (João 6,56). É a melhor e mais realista tradução da nossa comunhão eucarística. Até o verbo «comer» ganha nesta secção particular sabor e realismo. De facto, habitualmente, para dizer «comer», é usado o verbo grego esthíô. Todavia, em João 6,54.56.57.58, é usado um verbo «comer» muito mais forte, o verbo trôgô [= trincar, mastigar]. De forma significativa, este verbo só é usado nas passagens atrás assinaladas e em João 13,18, no contexto da ceia da Páscoa. Vida nova e eterna, ressuscitada. Comunhão e intimidade entre Deus e a Humanidade. Por isso e para isso, Jesus se fez um de nós, descendo ao nosso mundo, e dando-se completamente a nós, dando-nos a sua vida.

 6. «Interroga a velha terra: responder-te-á sempre com o pão e o vinho». Estas palavras de Paul Claudel traduzem bem a nossa Eucaristia. Os sinais do pão e do vinho não mostram apenas o alimento físico, importante e indispensável, mas também estão presentes quando queremos manifestar a nossa comunhão na alegria (dias festivos) e na dor (veja-se a sua partilha em rituais fúnebres). Este segundo aspecto presente nos sinais do pão e do vinho é também um importante alimento da nossa vida. É o que Moisés diz com energia ao povo de Israel reunido na planície de Moab: «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus» (Deuteronómio 8,3). Palavra, comunicação, comunhão, intimidade.

 7. Aí está também hoje o grande texto de Paulo aos Coríntios 10,16-17, porventura a mais antiga e singela evocação da Eucaristia, que então se chamaria eulogía, isto é, «Bênção». «O cálice da Bênção (tò potêrion tês eulogías) que Bendizemos (eulogoûmen) não é comunhão (koinônía) no sangue de Cristo? O pão que partimos (kláô) não é comunhão no corpo de Cristo?» (1 Coríntios 10,16). O texto é singelo, condensado, fortíssimo. A bênção, hebraico berakah, é unitiva. Une, reúne, põe em comunhão. Se parte de Deus, recai sobre o homem, e volta a Deus, unindo Deus e o homem num círculo inquebrável. Se parte do homem, recai sobre Deus, e volta ao homem, unindo-os num círculo inquebrável. Pode também recair sobre outra pessoa ou outras pessoas, unindo sempre as duas partes num círculo inquebrável. Por aqui se vê bem a energia que «bendizer», «dizer bem», comporta. A Eucaristia é, na verdade, esta união ou comunhão entre Deus e o Homem, e de todos os membros da Assembleia cristã e orante entre si. O contrário de «bendizer» é «maldizer», «dizer mal». Bendizer une. Maldizer divide.

 8. «Como é bom, como é belo, viverem unidos os irmãos» (Salmo 133,1). Saboreemos esta Alegria, o Pão e o Vinho da Alegria, nesta celebração da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, bem unidos e reunidos à volta do único Senhor da nossa vida, Jesus Cristo. Tradicionalmente, neste Dia, o Senhor da nossa vida presidirá e abençoará com a sua Presença, caminhando connosco, no meio de nós, em solene procissão, os caminhos das nossas aldeias e cidades. Quer isto dizer que o pálio (pallium) de Deus atravessará as nossas aldeias e cidades. O pálio de Deus é o manto (pallium) de Deus, os braços carinhosos com que nos abraça e nos envolve, e nos pede para fazermos outro tanto, enchendo de graça e de esperança todos os nossos irmãos. Verdadeiramente, num mundo em crise como este em que vamos, parece que voltamos a viver, como dizia S. Paulo aos Efésios, «sem esperança e sem Deus no mundo» (Efésios 2,12). Entenda-se: sem esperança, porque sem Deus no mundo, connosco, no meio de nós.

 9. Jesus Cristo é Deus presente no nosso mundo todos os dias. E o pálio é o manto, o abraço, com que nos acarinha e envolve. De pálio (pallium) vêm os cuidados paliativos, que não são apenas os cuidados médicos que são prestados aos nossos doentes terminais; são sobretudo a expressão de um amor maior, de um manto maior e mais quente, que nos envolve e nos salva em todas as situações (Gianluigi Peruggia, L’abbraccio del mantello, Saronno, Monti, 2004).

Dá-nos, Senhor, um coração novo,
Capaz de conjugar em cada dia
Os verbos fundamentais da Eucaristia:
RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,
PARTILHAR e DAR,
COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.
 
Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno,
Capaz de escutar
E de recomeçar.
 
Mantém-nos reunidos, Senhor,
À volta do pão e da palavra.
E ajuda-nos a discernir
Os rumos a seguir
Nos caminhos sinuosos deste tempo,
Por Ti semeado e por Ti redimido.
 
Ensina-nos, Senhor,
A saber colher
O Teu amor
Semeado e redentor,
Única fonte de sentido
Que temos para oferecer
A este mundo
De que és o único Salvador. 

 

António Couto


EM NOME DO PAI E DO FILHO E DO ESPÍRITO SANTO

Junho 14, 2014

 

1. A oração e a bênção em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo pressupõe o anúncio de Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo, bem como a fé nesse Deus. O nome de Deus é posto em relação com o conhecimento que temos dele. Deus manifesta o seu nome, para que possamos conhecê-lo, para que nos possamos dirigir a ele e entrar em relação com ele. Jesus deu-nos a conhecer Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, e é este o núcleo mais profundo da sua mensagem. Na verdade, Jesus dá-nos a conhecer Deus de uma forma não acessível antes dele. O Antigo Testamento conhecia o Deus Criador do céu e da terra, que tem diante de si apenas criaturas, infinitamente diferentes dele, e em que não se entrevê nenhum digno interlocutor de Deus. No plano divino, este Deus está sozinho consigo mesmo numa sublime solidão. Mas Jesus anuncia um Deus que, no plano divino, tem um interlocutor de pleno valor: o Deus de Jesus não está sozinho, mas vive em comunhão. Diante do Pai está o Filho, ambos unidos estão entre si, conhecem-se, compreendem-se e amam-se reciprocamente na plenitude e perfeição divina, por meio do Espírito Santo.

 2. Tentemos avançar um pouco mais. O Deus de Jesus, enquanto dádiva suprema fundante, é o Pai. Mas a dádiva suprema do Pai, infinita riqueza, constitui o Filho, infinita pobreza, que tudo recebe. Mas, ao receber tudo, infinita receção, o Filho volta a dar tudo numa infinita doação sem defesa e sem limites. E esta comunhão-comunicação-vida-amor de si-a-si, circular, vertiginosa, tranquila e imperecível, constitui o Espírito Santo, a Pessoa-Dom incriado, para o dizer com a bela expressão de S. João Paulo II.

 3. Na Carta Encíclica Dominum et vivificantem, de 18 de Maio de 1986, o Papa João Paulo II afirma por diversas vezes a definição do Espírito Santo como «pessoa-dom» (n.os 10.22.23.50). O Papa voltou a este assunto nas suas «Catequeses ao Povo de Deus», nas audiências de 4.ª feira, de 26 de Abril de 1989 a 3 de Julho de 1991. Importante para o assunto em questão é a «Catequese» de 21 de Novembro de 1990, dedicada por inteiro à consideração do Espírito Santo como Dom. Nela, o Papa afirmou que «pertence à revelação de Jesus o conceito de Espírito Santo como Dom concedido pelo Pai» (JOÃO PAULO II, Catechesi sul credo. III. Credo nello Spirito Santo, Cidade do Vaticano, Editrice Vaticana, 1992, p. 287-289). Implica isto que a determinação de Dom referida à terceira pessoa da Trindade entra no depositum fidei, e não fica, portanto, entregue à simpatia do crente ou do teólogo.

4. Em Deus, o Pai dá-se ao Filho por amor – princípio da doação –, mas não perde a sua dimensão paterna, tornando-se Filho; do mesmo modo que o Filho, acolhendo o dom da paternidade por amor – termo da doação –, não anula a sua determinação filial, tornando-se Pai. Uma ação requer sempre a outra para se completar, estando as duas pessoas reciprocamente implicadas. Entre mim e o meu amigo, o Dom é um objeto, mas quanto mais intensamente é Dom, isto é, quanto mais significa a nossa doação íntima e pessoal, menos é um objeto materialmente determinado. Por isso eu gasto tanto tempo até encontrar o Presente que quero oferecer ao meu amigo, um objeto que signifique a nossa intimidade. Em Deus, entre o Pai e o Filho, o Dom é o Espírito Santo, Pessoa divina subsistente, Pessoa-Dom, distinto do Pai e do Filho, dos quais procede, mas distinto também do ato da doação, de que é o efeito e a significação. Se ele fosse o ato da doação, não constituiria uma pessoa subsistente, pois não existiria como tal; seria a soma de duas pessoas, não uma terceira. E o facto de ser o efeito e a significação da doação não implica qualquer subalternidade ou secundariedade, dado que, em Deus, pensamento, expressão, comunicação, efeito, alfa e ómega, são simultâneos e coeternos.

5. É esta a vida eterna a que, por graça, somos chamados e destinados: viver na graça de Jesus Cristo, no amor do Pai e na comunhão do Espírito Santo pelos séculos dos séculos.

António Couto


NÃO TRANSFORMEMOS ESTE VENTO EM AR CONDICIONADO!

Junho 7, 2014

 

1. O Evangelho da Solenidade deste Dia Grande de Pentecostes (João 20,19-23) mostra-nos os discípulos de Jesus fechados num certo lugar, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter ou impedir, nem as portas fechadas daquele lugar fechado, Vem e fica de pé no MEIO deles, o lugar da Presidência, e por duas vezes os saúda: «A paz convosco!». Mostra-lhes, não o rosto, mas as mãos e o lado, bilhete de identidade de Jesus, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, Vida dada por amor, para sempre e para todos, e vincula os seus discípulos à sua missão de dar a vida por amor: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): a sua missão começou e continua. Não terminou nem termina. Ele continua em missão. A nossa missão está no presente. O presente da nossa missão aparece, portanto, vinculado e agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). «Como o Pai me enviou, também Eu vos mando ir». Este como define o estilo da nossa missão de acordo com o estilo e a missão de Jesus. É-nos dito ainda que os discípulos ficaram cheios de alegria (o medo foi dissipado) ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo, também eles vêm com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão, Jubileu Divino do Espírito. Este sopro, este alento, só aparece neste lugar em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

 2. O texto luminoso do Livro dos Actos dos Apóstolos 2,1-11 mostra-nos todos reunidos no Cenáculo e varridos ou recriados pelo vento impetuoso do Espírito, que varre as teias de aranha que ainda nos tolhem, e pelo seu fogo que nos purifica. O Espírito senta-se (kathízô) – bela e significativa expressão! – sobre nós, novo Mestre que orienta e guia a nossa vida. Verificação: eis-nos a falar outras línguas, dádiva do Espírito! Milagre: cessam incompreensões, divisões, invejas, ciúmes, ódios e indiferenças, e nasce um mundo novo de comunhão e comunicação plenas, pois todos nos entendemos tão bem como se se tratasse da nossa língua materna, da palavra antes das palavras, divina e humana lalação. Chame-se-lhe confiança, intimidade, ternura, amor. Impõe-se, nesta bela comunidade, uma atitude de vigilância permanente, pois será sempre grande a tentação de querer levar o Espírito à letra! E aí está a advertência vinda dos Coríntios, cujo falar em línguas ninguém entende (1 Coríntios 14,2), sendo preciso o recurso a intérpretes (1 Coríntios 14,28). Todos consideraríamos um absurdo a existência de um intérprete entre a mãe e o seu bebé para traduzir aquela lalação que os dois tão bem entendem!

3. É esta divina lalação (alálêtos) (Romanos 8,26) – única vez no Novo Testamento –, do Espírito que nos ensina a compreender que «Jesus é Senhor» (1 Coríntios 12,3) e que Deus é Pai (ʼAbbaʼ) (Gálatas 4,6; Romanos 8,15). Anote-se também a importante afirmação de que «a cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum» (1 Coríntios 12,7) e «não para proveito próprio» (1 Coríntios 10,33), sendo que o que define o proveito comum é a edificação, não de si mesmo, mas dos outros (1 Coríntios 10,23-24).

4. A tradição situa no Cenáculo as duas cenas acima descritas. É a sala da Ceia Primeira, do último serão de Jesus com os seus discípulos, da Aparição do Senhor aos seus Apóstolos, da eleição de Matias, da descida do Espírito Santo no Pentecostes, enfim, o primeiro lugar de encontro da primeira comunidade cristã reunida em oração com Maria (Actos 1,13-14), a primeira sede da Igreja nascente, a mãe de todas as Igrejas, a primeira domus-ecclesia [«casa-igreja»] do mundo, situada uns duzentos metros a sul da muralha de Jerusalém, em local muito próximo da Porta de Sião. O actual edifício remonta ao trabalho dos Padres Franciscanos no século XIV, e sucedeu a outras construções sucessivamente edificadas e destruídas, desde a basílica de Santa Sião [Hagía Sion], do século IV. Sintomaticamente, por se encontrar no quarteirão sul de Jerusalém, o primitivo Cenáculo resistiu à destruição romana da guerra de 70, pois os romanos atacaram e destruíram a cidade a partir da parte norte, mais facilmente expugnável.

5. Associada às cenas acima identificadas, a sala superior do Cenáculo [15,30 metros por 9,40 metros] assemelha-se ao Sinai com os fenómenos então lá registados. Veja-se, a propósito, a bela descrição que deles faz Fílon de Alexandria (± 20 a.C.-50 d.C.): «Deus não tinha boca ou língua, mas, com um prodígio, fez que um rombo se produzisse no ar, que um sopro se articulasse em palavras pondo o ar em movimento. Este transformou-se em fogo que tinha forma de chamas […], e uma voz ressoava do meio no fogo e descia do céu, e esta voz articulava-se no idioma próprio dos ouvintes». Mas também Babel é evocada em contraponto: em Génesis 11,7, «ninguém compreendia mais a língua do seu próximo», mas em Actos 2,6, «cada um compreendia na sua própria língua materna».

6. O Espírito Santo é também enviado em missão. E é Aquele que recebe o que é do Filho (João 16,14 e 15), e que o Filho recebeu do Pai. O Filho é a transparência do Pai. O Espírito Santo é a transparência do Filho. O ensinamento do Espírito Santo é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência e do coração de cada ser humano. Este ensinamento interior do Espírito Santo é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos sabeis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). É a unção que lentamente penetra em nós, ocupa o nosso interior, suaviza as nossas asperezas, cura as nossas dores e faz nascer entre nós comunidade e comunhão. Maravilhoso saber que nos assemelha a Deus, que sabe de nós (Êxodo 2,25), e nos põe em confronto com Caim, que não sabe do seu irmão (Génesis 4,9) e com Pedro, que não sabe de Jesus (Mateus 26,70.72.74).

7. Ensinamento novo. Não exterior, com sons e palavras, mas directamente nas pregas da inteligência e do coração. É assim que a linguagem nova do Espírito afecta ao mesmo tempo o português e o chinês, o inglês e o russo, o católico, o muçulmano e o hebreu. É como quando, em vez de se porem a falar cada um a sua língua incompreensível para o outro, o português e o chinês entregassem uma flor um ao outro! É assim que fala o Espírito, é assim que age o Espírito, Pessoa-Dom, fonte de dons (1 Coríntios 12,3-13).

8. O Salmo 104 põe-nos a contemplar hoje as obras maravilhosas de Deus, cheias do seu alento, que são a alegria de Deus (Salmo 104,31), e a alegria de Deus é a nossa alegria (Salmo 104,34). De notar que a temática de Deus que se alegra é muito rara na Escritura. Aparece hoje no meio deste mundo novo e maravilhoso. Tema, portanto, para recuperar, pois é também a fonte da nossa alegria!

9. Nós somos do tempo da missão do Espírito. Note-se a fortíssima vinculação: «O Espírito Santo e nós» (Actos 15,28).

10. Deus habitando em nós (João 14,24). Deus connosco (Apocalipse 21). Cidade nova, Consolação nova, Bênção nova, Paz nova, não com a medida do mundo, mas de Deus (João 14,27; Salmo 67). Não transformemos então este vento em ar condicionado!

O medo não habita a nossa casa
O medo transforma a nossa casa em fortaleza
Tranca portas e janelas
Esconde-se debaixo da mesa.
 
Mas vem Jesus e senta-nos à mesa
Começa a contar histórias e estrelas
Leva-nos até ao colo de Abraão, até à Criação,
Sopra sobre nós um vento novo,
Rasga uma estrada direitinha ao coração:
Chama-se Perdão, Espírito, Amor, Nova Criação.
 
Varrido para o canto da casa pelo vento,
Rapidamente todo o medo arde.
Ardem também bolsas, portas e paredes,
E surge um lume novo a arder dentro de nós
Mas esse não nos queima nem o podemos apagar.
 
Estamos lá tantos à roda desse vento, desse fogo,
Com esse vento, com esse fogo dentro,
Portugueses, russos, gregos e chineses,
Começamos a falar e tão bem nos entendemos,
Que custa a crer que tenhamos passaportes diferentes.
 
E afinal não temos.
Vendo melhor, maternais mãos invisíveis nos embalam,
Nos sustentam.
Sentimos que estamos a nascer de novo,
Percebemos que somos irmãos,
Filhos renascidos deste vento, deste lume.
E não é verdade que falamos,
Mas que alguém dentro de nós fala por nós,
Chama por Deus,
Como um menino pelo Pai.
 
António Couto