CEIA DO SENHOR

Março 29, 2018

1. Com esta celebração da Ceia do Senhor, em Quinta-Feira Santa, a Igreja Una e Santa reacende a memória da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade, e dá início ao Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do seu Senhor (o Tríduo Pascal prolonga-se até às Segundas Vésperas de Domingo), que constitui o ponto mais alto do Ano Litúrgico, de onde tudo parte e aonde tudo chega, coração que bate de amor em cada passo dado, em cada gesto esboçado, em cada casa visitada, em cada mesa posta, em cada pedacinho de pão sonhado e partilhado. É assim que Deus nos dá a graça de caminhar durante todo o Ano Litúrgico, dia após dia, Domingo após Domingo, sempre partindo da Páscoa do Senhor, sempre chegando à Páscoa do Senhor.

2. «Páscoa» quer dizer «passagem», e põe em cena «passageiros». Com os antigos pastores beduínos seminómadas, que preenchem a memória da pré-história de Israel, aprendemos a passar festivamente para um tempo novo, do inverno para a primavera, numa festa noturna, ao luar, na primeira lua cheia da primavera, que marca o início da transumância ao encontro de novas pastagens. Com os hebreus, no Egito, conforme o colorido relato do Êxodo que hoje Deus nos deu a graça de ouvir (Êxodo 12,1-14), sedentarizámos e atualizámos a festa da primeira lua cheia da primavera dos antigos pastores seminómadas de Israel, e aprendemos a passar da escravidão para a liberdade, que é um caminho sempre novo, nunca terminado e sempre a recomeçar, com a cintura apertada, sandálias nos pés, cajado na mão, lume novo aceso no coração. Com Jesus Cristo, aprendemos a passar do pecado para a graça, da soleira da porta para a mesa, da morte para a vida em abundância, da nossa casa para a Casa do Pai. É assim que nós, por graça feitos filhos no Filho, aprendemos a ser estrangeiros e hóspedes, tranquilamente sentados em Casa e à Mesa daquele único Senhor que servimos e que nos diz: «Toda a terra é minha, e vós sois, para Mim, estrangeiros e hóspedes», como se pode ler no Livro do Levítico 25,23.

3. É aí que estamos todos, meus irmãos. Aí, entenda-se, em Casa e à Mesa, hospedados. E é somente aí e daí, que podemos compreender o grande Capítulo 13 do Evangelho de S. João, que Hoje ouvimos nos nossos ouvidos, e que relata em vez da Ceia Primeira um lava-pés. Ceia Primeira, e não Última, porque nós continuamos à Mesa (o que é este Altar?) a celebrar esta Ceia (o que é este Pão e este Vinho?). E a recomendação atenta de S. Paulo, que nos lembra que nós continuamos a comer este Pão e a beber este Vinho sempre novo: «Sempre que comerdes deste Pão e beberdes deste Cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha» (1 Coríntios 11,26). Anunciar a morte do Senhor não é, todavia, entristecer-nos, chorar ou vestir de luto. Não é esta a vocação cristã. É preciso compreender, e é o que S. Paulo nos quer dizer, que anunciar a morte do Senhor é anunciar a Dádiva da Vida por amor, para sempre e para todos!

4. Mas é à Mesa que estamos, meus irmãos, nesta tarde e nesta Ceia Primeira de Quinta-Feira Santa, hospedados na Casa do único Senhor da nossa Vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo. Reparemos então bem em tudo o que Ele faz e diz no Evangelho de hoje (João 13,1-15), porque tudo n’Ele é exemplar e programático para nós. Diz-nos o narrador atento que Jesus «DEPÕE (títhêmi) o manto» a abrir a cena, no v. 4, e «RECEBE (lambánô) o manto» a fechar a cena, no v. 12. DEPOR e RECEBER são, aos nossos olhos encantados, os mesmos verbos com que, no Capítulo 10.º, o Bom Pastor «DEPÕE (títhêmi) a vida» e «RECEBE (lambánô) a vida» (v. 17). Ora, DEPOR a vida e RECEBER a vida são a imensa e penetrante tradução da Cruz. E entre uma e outra coisa, entre «DEPOR o manto» e «RECEBER o manto», «DEPOR a vida» e «RECEBER a vida», no centro geométrico e teológico do lava-pés (v. 8), aí está a advertência solene que Jesus dirige a Pedro e a cada um de nós: «Se não te lavo, Pedro, não tens parte comigo!» (João 13,8).

5. «Ter parte com» Cristo é participar no seu supremo serviço de amor até dar a vida para receber a vida. «Ser lavado» e «ter parte com» e «estar puro» é linguagem bíblica de ordenação sacerdotal. Basta ler o texto do Livro dos Números 18,20, juntamente com os Capítulos 29 e 40 do Livro do Êxodo e o Capítulo 8.º do Livro do Levítico, acerca da ordenação sacerdotal de Aarão e dos seus filhos.

6. Digamos tudo outra vez, seguindo passo por passo este imenso Capítulo 13 do Evangelho de S. João: no v. 4, Jesus DEPÕE o manto, com o mesmo verbo com que, em João 10,17, Jesus DEPÕE a vida; no v. 12, Jesus RECEBE o manto, com o mesmo verbo com que, no mesmo João 10,17, Jesus RECEBE a vida. No v. 4, DEPÕE o manto ou a vida. No v. 12, RECEBE o manto ou a vida. No v. 8, que é o centro geométrico e teológico entre 4 e 12, Jesus lava os pés a Pedro, e diz-lhe: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo». Isto é, não participarás da minha vida Dada e Recebida. Compreenda-se então que este Lava-pés não é um simples gesto de humildade por parte de Jesus. Este Lava-pés é a verdadeira ordenação sacerdotal dos discípulos de Jesus!

7. Por isso, Jesus diz, num imenso dizer revelatório ainda a retinir nos nossos ouvidos e a ecoar em tudo o que fazemos: «Como Eu vos fiz, fazei vós também!» (João 13,15). Vê-se bem, meus irmãos, que não é tanto o que se faz que interessa. Interessa muito mais o como se faz. O segredo é dar a vida por amor, para sempre, para todos. Jesus é o único Mestre que ensina a Viver desta maneira. E é assim que fica bem à nossa vista o significado da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade.

8. Que o Senhor da nossa vida nos ensine a ser fiéis ao seu dizer e ao seu modo admirável de fazer.

 

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a Deus,

Sabe a pão,

Sabe a alegria,

Sabe a Eucaristia!

 

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a amor,

A dádiva da vida,

A uma lágrima comovida.

 

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a Ceia

E a Jesus,

Luz grande que incendeia

As trevas do coração,

E faz nascer amor e comunhão.

 

António Couto

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O MUNDO VEIO ATRÁS DELE!

Março 17, 2018

1. A «caminhada» quaresmal aproxima‑se da sua meta e do seu verdadeiro ponto de partida: a Cruz Gloriosa, onde resplandece para sempre o Rosto do imenso, indizível amor de Deus por nós. Nesta altura do percurso (supõe‑se que encetámos uma subida «espiritual»: entenda‑se no Espírito Santo e com o Espírito Santo), batizados e catecúmenos devem estar já a ser Iluminados por essa Luz, a ponto de se desfazerem das «obras das trevas» e de abraçarem as «obras da luz», como verdadeiros discípulos que seguem o Mestre até ao fim, que é também o princípio, a Fonte da Vida verdadeira donde jorra o Espírito Santo (sempre Atos 2,32-33; João 19,30 e 34; 7,38-39). Os catecúmenos têm neste Domingo V da Quaresma os seus terceiros «escru­tínios»: última «chamada» para a Liberdade antes da Noite Pascal Batismal.

2. O Evangelho deste Domingo V da Quaresma (João 12,20-33) apresenta-nos o último discurso e a última aparição de Jesus em público, aos olhos da «multi­dão» (João 12,29 e 34), antes da narrativa da Ceia e da Paixão. Pouco depois, o evangelista diz‑nos que «Jesus se retirou e se escondeu deles» (João 12,36). A nós, porém, foi‑nos dado conhecer o Mistério deste escondimento, que o não é senão para se vir a manifestar (leia­‑se de novo inteligentemente o lógion de Jesus no Evange­lho de Marcos: «nada está escondido que não seja para se manifestar» (Marcos 4,22), e que esclarece o Mistério da Luz-que-vem (!), que é Ele, no versículo anterior). Em boa verdade, este Jesus que agora se esconde da multidão manifestar-se-á definitivamente, aos olhos de todos (também aos nossos!), na Cruz Gloriosa, último e único sinal dado (por Deus) a esta geração (Mateus 12,39‑40; 1 Coríntios 1,20‑24): «olharão para aquele que trespassaram» (João 19,37).

3. É neste contexto que «uns gregos» (João 12,20) querem ver (ideîn) Jesus (João 12,21). São gregos de nascimento (hellênes), mas já não são pagãos. São prosélitos ou «tementes a Deus», que receberam o dom do «temor de Deus» (cf. At 10,2.22.35; 13,16.26), e se converteram dos ídolos ao Deus único, aderindo ao monoteísmo de Israel e à prática dos mandamentos. Tão-pouco são os chamados «helenistas» (hellênistai), hebreus na diáspora, que falavam a língua grega e tinham aderido à cultura grega. Note-se, desde já, o verdadeiro alcance deste desejo de ver, formulado com o verbo ideîn. De ideîn deriva, em português, ideia e identidade. A formulação deste ver com o verbo ideîn implica, portanto, que aqueles gregos não são movidos por mera curiosidade, não pretendem ver apenas Jesus por fora, isto é, ver o aspeto ou o rosto de Jesus. Eles pretendem ver a identidade de Jesus, ou seja, pretendem ver quem é Jesus. Ora, ver quem é Jesus não se resolve em cinco minutos, num simples relance de olhos. Implica uma longa e intensa convivência com Jesus.

4. Comunicam este seu desejo a Filipe, o qual, por sua vez, o comunica a André. Filipe e André são conterrâneos, naturais de Betsaida Julia (João 1,44), situada nos confins da Galileia e no limiar do mundo helénico, e são os dois únicos Apóstolos com nome claramente grego. Contam-se também entre os primeiros discípulos que, querendo saber quem era Jesus, se dirigiram a Ele, e que logo comunicaram a sua experiência a outros, e os conduziram a Jesus (cf. João 1,35-46). Pelos vistos, não se cansaram nem esqueceram esse jeito de fazer, e é assim que os vemos no episódio de hoje a desempenhar com diligência o seu papel de fazer de ponte entre a humanidade e Jesus. Os dois levam a mensagem a Je­sus (João 12,22). E Jesus marca a hora da entrevista: desde agora e pa­ra sempre. É este o sentido do a hora veio (João 12,23). Veio (elêluthen: perf2 de érchomai) e fica para sempre: assim o indica o perfeito usado no texto grego. Esta hora que veio é a hora da morte, ressurreição, glorificação (um único acontecimento), é a hora da Cruz Gloriosa, último e único sinal dado (por Deus) a «judeus» e a «gregos», portanto, a todos. A entrevista começou e não termina mais, pois o futuro anunciado do discípulo é o presente do Mestre, a Glória celestial em que está: «onde eu estou (eimí), aí estará (éstai) também o meu servo» (João 12,26).

5. Para o leitor atento do IV Evangelho, esta hora (hôra) de Jesus de há muito era esperada, dado que, em episódios sucessivos, Jesus e o narrador vão orientando para ela o olhar dos seus discípulos. Acontece logo nas bodas de Caná, quando Jesus diz: «ainda não chegou a minha hora» (João 2,4). E, em Jerusalém, no decurso da Festa das Tendas, o narrador informa-nos por duas vezes que os judeus bem queriam prendê-lo, mas não o fazem «porque ainda não tinha chegado a sua hora» (João 7,30; 8,20). Sempre durante a Festa das Tendas, o próprio Jesus enche esta hora com conteúdo novo e significativo, quando diz: «O meu tempo (kairós) ainda não chegou» (João 7,6). Kairós não é o mero tempo cronológico, mas o tempo grávido, verdadeira enchente da Palavra de Deus e da nossa resposta, até transbordar. Sem Deus e a sua Palavra primeira e criadora, que está antes das coisas e do homem, que faz acontecer as coisas e o homem, não há kairós nem chrónos. Chrónos é o segmento de tempo que nos é dado viver. Kairós é este segmento de tempo com relevo, o tempo grávido de beleza e de amor, que requer de nós a adequada resposta à Palavra primeira e criadora de Deus.

6. Aí está a inaudita história nova do grão de trigo: «Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; mas se morrer, produz (phérô) muito fruto» (João 12,24). É fácil ver neste único grão de trigo, e neste grão de trigo único, e na sua história de produção nova e incalculável, o próprio Jesus. Sim, esta é a sua história, mas vê-se também, olhando em contraluz o grão de trigo e o seu percurso, a inteira história humana, em que do abaixamento, do sangue inocente, da humildade e da humilhação, brota sempre vida nova. Paradoxal: a morte a produzir fruto abundante. O v. 25, logo a seguir, esclarece e amplia este paradoxo, com Jesus a dizer bem alto: «quem se agarra à sua vida, perde-a». Portanto, é forçoso que o discípulo de Jesus olhe para o chão, e aprenda a lição do grão de trigo semeado. Mas é igualmente necessário, e em simultâneo, olhar para o céu, para o alto, para o cume, para a Cruz, para poder ser, por graça, arrastado por Jesus (v. 32). Só assim se pode perceber e receber a vida eterna, a vida divina. Fora deste paradigma, nada. Apenas agarrar-se a esta vida e «receber glória uns dos outros» (João 5,44).

7. Aquele «veio a hora» enche o tempo, leva-o e eleva-o à sua plenitude, e vê-se toda a latitude aberta diante dos nossos olhos atónitos. É a hora da Cruz Gloriosa, avenida para sempre aberta entre Deus e nós. Graça a transbordar. Tempo novo. É importante acentuar que são «uns gregos», também os gregos, que querem ver Jesus (João 12,20-21). Cenário grandioso, muito para além do imaginado, mas que mostra bem a largueza da ambiência desta hora e da audiência que segue Jesus para escutar esta cena altíssima da Revelação de Jesus acerca da chegada da sua hora, que é a Cruz Gloriosa. Jesus terminará a suprema Revelação desta hora, dizendo: «Quando eu for levantado da terra, arrastarei (hélkô) todos a mim» (João 12,32). E os próprios fariseus tinham confessado imediatamente antes do início do nosso texto: «O mundo (ho kósmos) veio atrás dele (opísô autoû)!» (João 12,19).

8. Para fazer acorde musical com o imenso texto do Evangelho de hoje, aí está a escolha perfeita: a «aliança nova» de Jeremias 31,31-34. É a aliança nova prometida para os últimos tempos, e realizada neste Jesus que Deus ressus­citou, o qual «recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou» (Atos 2,32‑33). Este Jesus é, portanto, a úni­ca Fonte do Espírito Santo, a Vida nova de Deus nos nossos corações (Romanos 2,29; 5,5; 7,6; 8,14‑27; 2 Coríntios 3,6; Gálatas 3,14; 4,6; Efésios 1,13…), com o dom do Jubileu divino do perdão dos pe­cados (João 20,19‑23). Deus «peca» sempre por excesso: é anu­lada até a «memória divina dos pecados»! Deus tinha antes escrito no nosso coração os nossos pecados (Jeremias 17,1). Eis que apaga agora essa escrita, para escrever no nosso coração o perdão, que é a chave que abre todas as avenidas do humano coração (Jeremias 31,33-34).

9. Outra música igualmente intensa vem hoje da Carta aos Hebreus 5,7-9, para ajudar a compor a linha melódica que Deus toca diante de nós e dentro de nós, nas cordas mais sensíveis do nosso coração. É um dos passos mais densos do Novo Testamento. O próprio Cristo, sendo embora o Filho de Deus, Deus ele mes­mo, enquanto Homem verdadeiro, treme perante a Morte. Porém, no momento central da sua vida (central para ele e para nós), ele aceita a morte, submetendo a sua vontade humana à sua – e do Pai e do Espírito Santo – Vontade divina (conferir a Oração do Getsémani e do «Pai Nosso»). On­de toda a Humanidade, desde Adam, fracassou, ele venceu, ofe­recendo a Deus incondicionalmente a sua 1iberdade e a nós a graça do amor e do perdão. Por isso, o Pai pode levá‑lo à perfeição, verbo teleióô, que não in­dica perfeição moral (!), mas «ser feito sacerdote, perfei­to no serviço sacerdotal», por nossa causa. Perante tanta e quase insuportável riqueza, não nos resta senão cair de joe­lhos e adorar em silêncio «no Espírito e na Verdade».

10. Cantamos hoje o Salmo 51, a súplica penitencial por excelência, que constitui a ossatura espiritual de Agostinho, de Charles de Foucauld, de Joana D’Arc, que inspirou a pena de muitíssimos Padres da Igreja, e ecoa na música de Bach, Lulli, Donizetti, Honegger… Hoje é a nossa vez de nos sentarmos um pouco a trautear a música que nos atravessa e nos põe de pé. Está aqui a letra e a música do homem, de qualquer homem, seja ele quem for, de que raça for, de que religião for. Enxerto aqui as palavras preciosas que constituem a introdução: «Faz-me graça, ó Deus, segundo o Teu amor! Segundo a multidão das Tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões! Lava-me e relava-me da minha iniquidade, e do meu pecado purifica-me!» (Salmo 51,3-4). Quem é Deus? Graça, amor, misericórdias. Quem sou eu? Transgressões, iniquidade, pecado. Será Deus o vencedor ou serei eu? Claro que é Deus. Deixo aqui, a fechar, as palavras altíssimas da grande mística muçulmana do século VIII, Rabiʽa, de seu nome: «Um homem disse a Rabiʽa: “Cometi muitos pecados e muitas transgressões; se me arrepender, Deus perdoar-me-á?”. Disse Rabiʽa: “Não. Tu arrepender-te-ás, se Ele te perdoar”» (I detti di Rabiʽa, XII, 2).

 

Ainda agora abri a página em branco do deve-e-haver

Desta última etapa da Quaresma.

Não sei ainda os registos que nela se farão,

Mas já sei que, ao terminar o dia,

A página agora aberta transbordará de perdão e de alegria.

 

É essa a lição que se recebe do grande Salmo deste dia:

«Faz-me graça, ó Deus, segundo o teu amor,

Segundo a multidão das tuas misericórdias!

Apaga as minhas transgressões,

Lava-me e relava-me da minha iniquidade,

E do meu pecado purifica-me!».

 

Graça, amor, misericórdias:

É a tua bondade aqui três vezes dita.

Transgressões, iniquidade, pecado:

É a minha maldade aqui também três vezes repetida.

 

Tu e eu sempre frente-a-frente,

Sempre lado-a-lado:

Teu é o amor, meu é o pecado.

Mas vê-se bem que esta luta tem um vencedor antecipado:

Sim, o teu amor acaba sempre por vencer o meu pecado!

 

António Couto


A LUZ VEIO AO MUNDO

Março 10, 2018

1. Com o olhar cada vez mais fixo na Cruz Gloriosa, em que foi entronizada a Luz que dá a Vida verdadeira, bati­zados e catecúmenos continuam a sua «caminhada» quaresmal: memória do batismo [= execução do programa filial batis­mal] para os batizados, preparação para o batismo por parte dos catecúmenos (Sacrosanctum Concilium 109), que têm neste IV Domingo da Quaresma os seus segundos «escrutínios»: segunda «cha­mada» para a Liberdade.

2. O Evangelho deste Domingo IV da Quaresma (João 3,14-21) mostra-nos a toda a luz o «Filho do Homem», que deve (deî) ser levantado [= crucificado/exaltado/glorificado] como o verda­deiro «Servo do Senhor» (Isaías 52,13), logo identificado com Cristo Jesus (Filipenses 2,9), o Filho Unigénito de Deus, «a Luz que veio ao mundo» (João 3,19; 12,46), para dar a Vida ao mun­do (João 1,4; 3,15‑16). Veio (elêlythen) ao mundo e permanece acesa no mundo, como indica o perfeito usado no texto grego. Marcos recorre à crueza da linguagem para nos fazer compreender melhor o Mistério desta Luz-que-vem: «Vem a Luz (!) para ser colocada debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não, antes, para ser colo­cada sobre o candelabro? Na verdade, nada está escondido que não seja para se manifestar» (Marcos 4,21‑22). Tendo vindo na humildade da condição humana, esta Luz foi entronizada na Cruz onde arde para sempre: suprema manifestação do infinito, insondável, impenetrável, incompreensível, indi­zível amor de Deus: «Deus amou (êgápêsen: aoristo históri­co!) tanto o mundo»! (João 3,16). Assim manifestada na Cruz Gloriosa, esta Luz dá a Vida verdadeira a quem para ela olhar como a imagem da cobra levantada no deserto (Números 21,8‑9). «Hão de olhar para aquele que trespassaram» (João 19,37). «Quando eu for levantado da terra, arrastarei (hélkô) todos a mim» (João 12,32). «Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então sabereis que “Eu Sou”» (título divino) (João 8,28).

3. Quanto à força daquele arrasto operado por Jesus, continua Jesus a ensinar-nos, em outra lição, que também pode ser levado a cabo pelo Pai: «Ninguém pode vir a Mim (eltheîn prós me), se o Pai, que me enviou, não o arrastar (hélkô)» (João 6,44). Vê-se bem, por debaixo do falar de Jesus, o teclado do Antigo Testamento, nomeadamente Jeremias 31,3 [38,3 LXX], que refere textualmente, pondo Deus a falar: «Com um amor eterno Eu te amei; por isso te arrastei (mashak TM; hélkô LXX) com carinho (hesed TM; oiktírêmôn LXX)». É demasiado pobre não reparar nisto. É demasiado belo reparar nisto. Há neste amor de Deus por nós uma paixão declarada, força ou coação que o verbo arrastar traduz bem. Mas a expressão completa é: «arrastar com carinho». Entendamos então, se Deus nos der a graça e o dom do entendimento, que Deus luta por nós, arrasta-nos tantas vezes, mas sempre com carinho! Tomar consciência desta realidade: estupendo programa quaresmal!

4. Para ter a Vida verdadeira, é necessário ver [= acre­ditar] o Filho (João 3,36; 6,40), Luz da Luz, que brilha sobre a Cruz, novo e último candelabro do amor de Deus (Atos 2,36). Ver o Filho é obra do Espírito Santo em nós (1 Coríntios 12,3). Para O ver é necessário ter nascido da água e do Espírito (cf. João 3,5), claríssima alusão ao batismo, a grande iluminação que abre os nossos olhos para o divi­no (Hebreus 6,4‑5: texto espantoso!) e nos faz «filhos da luz», operadores das «obras da luz», que não têm parte com as «obras das trevas» (Efésios 5,8‑14).

5. Ver o Filho do Homem levantado na Cruz é ver passar dois filmes: 1) o da nossa violência e malvadez, postas a descoberto naquele rosto desfigurado, naqueles chagas abertas, naquele sangue a escorrer ou já coalhado: está ali, bem diante de nós, a imagem do pecado que está em nós; 2) ali passa também o filme do imenso amor de Deus, que não faz frente à minha violência, mas a abraça, única maneira de a absorver, dissolver e absolver. A cura não é mágica. Exibida a imagem da cobra escondida que há em nós e que de nós se alimenta como um parasita ou um ídolo – de facto, alimenta-se de nós, vive à nossa custa: leia-se, com o dom do entendimento, Génesis 3,14, em que se lê que a cobra se alimenta de pó [ՙaphar], sendo que só o homem é modelado do «pó da terra» (Génesis 2,7) –, conhecemos agora a doença de que padecemos. Podemos, portanto, começar a tratar-nos. E o remédio também está ali posto bem diante dos nossos olhos: é o amor subversivo!

6. A grande «teologia da história» expressa no 2 Livro das Crónicas 36,14-23 deixa bem claro que, abandonando a Palavra de Deus, que é a nossa luz (Salmo 118,105) e a nossa vida (Deuteronómio 32,47), caímos inevitavelmente nas trevas e na morte de um «exílio» qualquer. Porém, o caminho é reversível: aproximando‑nos de Deus e da sua Palavra, podemos recuperar de novo a luz e a vida. É, na verdade, «a tua Palavra, Senhor, que tudo cura» (Sabedoria 16,12).

7. O extrato da Carta de S. Paulo aos Efésios (2,4-10) acentua hoje o nosso movimento da morte para a vida em Cristo Je­sus: movimento batismal (da morte para a vida) e fórmula batismal («em Cristo Jesus»). Nisto se manifestou «o gran­de amor com que Deus nos amou» (êgápêsen: de novo o inaudi­to aoristo histórico!) (Efésios 2,4). Mas há muito mais «coisas» inauditas de que Paulo tem de se socorrer, inovando até o vocabulário grego (!), num esforço supremo para tentar tra­duzir este indizível «grande amor» de Deus por nós: com Cristo nos com-vivificou (Efésios 2,5), nos com‑ressuscitou e nos com­‑sentou nos Céus (Efésios 2,6). Tudo aoristos históricos!!! Com­preenda‑se, portanto, o incompreensível: tudo isto nos aconteceu! Somos, de facto, obra de Deus! (Efésios 2,10). Demos Graças a Deus!

8. A grande e sentida súplica que atravessa o Salmo 137 atravessa também as nossas mãos, língua, céu da boca, voz, mente, alegria, lágrimas. Não é possível cantar na Babilónia. Os Cânticos de Sião não são folclore, mas oração a ferver saída das entranhas! Não se dão naquele «lá» (sham) estrangeiro e inóspito da Babilónia. A pátria da música e da alegria é o «lá» (sham) de Jerusalém, cidade-mãe, que faz de Deus-Pai, Casa materna e paterna, onde reina a liberdade e a fraternidade, e não a escravidão e a tirania. No decurso da segunda guerra mundial, o poeta italiano Salvatore Quasimodo glosou assim este imenso Salmo: «E como podíamos nós cantar/ com o pé estrangeiro sobre o coração,/ entre os mortos abandonados nas praças,/ sobre a erva dura do gelo,/ com o lamento de cordeiro das crianças,/ com o urlo negro da mãe/ que ia ao encontro do filho/ crucificado sobre o poste do telégrafo?/ Nos ramos dos salgueiros, por voto,/ também as nossa harpas estavam dependuradas:/ oscilavam leves sob o vento triste».

9. Mas nós, que atravessamos a Quaresma, sabemos bem que todo o gelo glaciar é derretido pelo sopro do amor que até nós vem daquele que está naquela Cruz erguido!

 

Irei, Senhor,

Em procissão de amor,

Beijar a tua Cruz.

 

E quando eu olhar para ti,

Para o teu rosto ferido e desfigurado,

Para as tuas muitas chagas a sangrar,

Dá-me a graça de aí ver bem o meu pecado.

 

E quando Tu, Senhor, olhares para mim,

Com esse meigo olhar de serena compaixão,

Dá-me a graça de aí ver o teu perdão nunca poupado,

E de sair com o coração transfigurado.

 

António Couto


O NOVO SANTUÁRIO QUE É JESUS

Março 3, 2018

1. No programa de «preparação» para a Noite Pascal Batis­mal, início e meta da vida cristã, o Domingo III da Quaresma está marcado pelos primeiros «escrutínios» para os catecúme­nos: primeira «chamada» para a liberdade.

2. O texto do Evangelho deste Domingo III da Quaresma constitui uma importante passagem no tecido do IV Evangelho (João 2,13-22). Jesus apresenta-se como tempo novo e Templo novo, novo espaço relacional, caminho novo aberto para o PAI, nova paginação e compreensão das Escrituras. Da Páscoa dos judeus (A) à Páscoa de Jesus (A’), do Templo antigo (B) ao Santuário novo (B’), tendo no meio o caminho da memória que começam a fazer os discípulos de Jesus (C), como podemos constatar no texto a seguir transcrito:

 

«2,13E estava próxima a Páscoa dos judeus, e JESUS subiu a Jerusalém. (A)

 14E ENCONTROU no TEMPLO (hierón) os vendedores de bois e ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. 15E, tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do TEMPLO (hierón), as ovelhas e os bois, bem como os cambistas, espalhou as moedas, derrubou as mesas, 16e disse aos que vendiam as pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da CASA DO MEU PAI (oíkos toû patrós mou) CASA de COMÉRCIO (oíkos emporíou)”. (B)

 17Recordaram-se os discípulos d’ELE que está escrito: “O zelo da tua CASA (toû oíkou sou) me devorará”. (C)

 18Responderam então os judeus e disseram-LHE: “Que sinal nos mostras de que podes fazer estas coisas?” 19Respondeu JESUS e disse-lhes: “Destruí este SANTUÁRIO (naós), e em três dias o levantarei (egeírô)”. 20Disseram então os judeus: “Em quarenta e seis anos foi edificado este SANTUÁRIO (naós), e tu em três dias o levantarás (egeírô)?” (B’)

 21Isto, porém, dizia do SANTUÁRIO do seu corpo (toû naoû toû sômatos autoû). 22Quando, pois, foi ressuscitado dos mortos (êgérthê), recordaram-se os discípulos d’ELE que tinha dito isto, e acreditaram na Escritura e na palavra que JESUS tinha dito» (João 2,13-22). (A’)

 

3. O episódio aparece situado e datado. O lugar é Jerusalém e o seu Templo. O tempo é a Festa da Páscoa. Ora, uma FESTA é, na tradição bíblica, um ENCONTRO marcado (mô‘ed) , plural mô‘adîm, de ya‘ad [= marcar um encontro]. Um ENCONTRO marcado com Deus e com os outros. Sendo um ENCONTRO marcado com Deus e com os outros, então é sempre um espaço de alegria, de filialidade e de fraternidade. E se a FESTA é de peregrinação, como é a PÁSCOA, aqui referida [as outras duas são as SEMANAS ou PENTECOSTES e as TENDAS], então a alegria, a filialidade e a fraternidade são ainda mais intensas, dado que FESTA de peregrinação se diz, na língua hebraica, hag, plural hagîm. E o nome hag remete para o verbo hag [= dançar], e deriva de hûg, que significa círculo, e, portanto, família, lareira, encontro, alegria, música, roda, dança, vida.

4. ENCONTRO, filialidade, fraternidade: marcas acentuadas por JESUS que, em vez de Templo de pedra (hierón), diz CASA (oíkos) – com particular afeto, CASA DO MEU PAI –, sendo a CASA paterna o lugar do ENCONTRO e da intimidade, e não das coisas, da superficialidade, da banalidade, do consumismo, do mercado. Nos paralelos de Mateus, Marcos e Lucas, citando Isaías 56,7, JESUS fala do Templo usando a expressão forte «A MINHA CASA» (ho oîkós mou) (Mateus 21,13; Marcos 11,17; Lucas 19,46).

5. É neste sentido que o Livro dos Atos dos Apóstolos nos mostra a comunidade-mãe de Jerusalém a frequentar assiduamente o Templo, salientando, no entanto, que a sua maneira de prestar culto a Deus acontecia nas CASAS. Do Templo para as CASAS (Atos 2,46). Não se trata de uma simples mudança de lugar, mas de uma diferente conceção do espaço: não se trata de um espaço local, mas relacional. O novo espaço cultual é a comunidade que vive filial e fraternalmente, verdadeira transparência de Jesus. A extensão deste espaço chama-se comunhão.

6. Sintomático é que, postos estes pressupostos, o texto refira, não que JESUS ENCONTROU filhos e irmãos, mas que ENCONTROU vendedores, banqueiros e comerciantes, contra a profecia de Zacarias 14,21, que refere que «Não haverá mais vendedor na CASA de YHWH dos exércitos naquele dia». «A CASA DO MEU PAI», «A MINHA CASA», por um lado, e o MERCADO, por outro lado, são lugares incompatíveis. São maneiras diferentes de conceber e ocupar o espaço.

7. No texto que estamos cuidadosamente a ler, o Templo é dito com três vocábulos diferentes – hierón, oíkos e naós – com significações diferentes: edifício de pedra, casa familiar, santuário (ou lugar da presença de Deus).

8. Quando, num dos típicos «mal-entendidos» do IV Evangelho, JESUS diz: «Destruí este SANTUÁRIO (naós), e em três dias o levantarei (egeírô)» (João 2,19), os judeus não conseguem distinguir entre o naós pessoal que JESUS levantará em três dias e o hierón feito de pedra que demorou 46 anos a construir (João 2,20). Em claro contraponto, o narrador explica bem, num genitivo epexegético, que JESUS «dizia isto do SANTUÁRIO do seu corpo» (toû naoû toû sômatos autoû) (João 2,21). Entenda-se: do SANTUÁRIO que é o seu corpo. Com esta explicação do narrador, fica claro que é JESUS o «lugar» da adoração de Deus, a verdadeira «Casa de Deus» (cf. João 1,51), o SANTUÁRIO de Deus.

9. A anotação do narrador, em João 2,22, faz-nos ver ainda que foi também assim que entenderam os discípulos a partir da Ressurreição de Jesus. Lição para os leitores: num tempo em que já não há Templo em Jerusalém, os leitores crentes do IV Evangelho experimentam a PRESENÇA de JESUS Ressuscitado como o seu verdadeiro «Templo».

10. O Livro do Êxodo (20,1-17) serve-nos hoje a Palavra de Deus que alimenta a vida nova dos seus filhos. O texto abre assim: «E falou Deus todas estas palavras dizen­do» (Êxodo 20,1). Estas palavras constituem o Decálogo, um con­junto de leis que cobrem todo o âmbito da ação moral. Saí­das diretamente da boca de Deus, estas palavras constituem o alimento de que deve nutrir‑se o Povo santo de Deus do Antigo Testamento (Deuteronómio 8,3), mas também o Povo santo dos batizados (Mateus 4,4) que, à luz da Ressurreição, faz anamnese da vida his­tórica de Jesus e acredita na Palavra da Escritura [= Antigo Testamento] e do Evangelho. Palavra que há que guardar sábia e amorosa­mente, pois ela é a nossa vida (Deuteronómio 32,47).

11. E São Paulo continua esta lição sobre a nova Sabedoria (1 Coríntios 1,22-25). Enquanto os judeus pedem sinais (João 2,18;1 Coríntios 1,22) e os gregos procuram a sabedoria des­te mundo (1 Coríntios 1,22), os batizados, confirmados, chamados, continuam de olhos postos no único sinal da Cruz Gloriosa, sem dúvida a mais bela página que Deus escreveu na história dos homens, embora a letra seja ainda ilegível para muita gente!

12. O Salmo 19 é uma estupenda «música teológica», como dizia Hermann Gunkel. Na verdade, Deus ilumina e aquece o universo com o fulgor do sol, e ilumina e acalenta o homem com o fulgor da sua Palavra contida na sua Lei revelada.

 

O caminho da Quaresma leva-nos à cripta,

Ao miolo,

Àquele lugar íntimo e íntegro, inteiro,

Onde eu sou verdadeiro,

Sem dolo

Nem tijolo

Nem roupeiro.

 

Chegar lá implica desfazer-se do barulho

E do entulho,

Arredar a caliça e o reboco,

Aprender com os pássaros do céu,

Com os lírios do campo,

Ir até ao fundo,

Até ao toco,

E deixar Deus a trabalhar no fundo desse poço,

Onde só Ele sabe semear semente santa,

Que depois há de florir e dar fruto

A seu tempo e a seu campo.

 

Que rebento pode brotar de um toco seco?

Que sucesso pode ter uma semente

Na aridez do deserto semeada?

É mesmo só com Deus essa empreitada.

E Jesus explica bem,

No meio do sermão da montanha,

Que são também assim a esmola,

A oração e o jejum,

Frutos que só Deus pode fazer brotar em mim.

 

A Quaresma é tempo de deixar de fazer tantas coisas

Por mim e ao meu jeito,

E para mim e em meu proveito,

Nas ruas,

Nas praças,

Nas igrejas,

Só para que as pessoas vejam e aplaudam.

 

A Quaresma é tempo de deixar Deus

Fazer nascer

Dentro de mim

Um jardim,

Uma maneira nova de viver.

 

António Couto


AINDA A «JORNADA DE CAFARNAUM», E JOB, O HOMEM QUE DÓI

Fevereiro 3, 2018

1. Aí está diante de nós o Evangelho do Domingo V do Tempo Comum, Marcos 1,29-39, no seguimento imediato da proclamação feita no Domingo passado (Marcos 1,21-28). De madrugada a madrugada. Depois de entrarem [Jesus e os seus discípulos; ninguém como Marcos vincula Jesus aos seus discípulos] em Cafarnaum, na manhã de sábado entra Jesus na sinagoga de Cafarnaum e ensinava (Marcos 1,21). Ei-los agora que saem [Jesus e os seus discípulos: verbo no plural] da sinagoga, e entram na casa de Simão e de André (Marcos 1,29). Trata-se de um «relato de começo». Saindo da casa antiga, entram, uns 30 metros a sul, na casa nova, de Pedro. A sogra de Simão está deitada com febre. Jesus segura-lhe (kratéô) na mão (Marcos 1,31), expressão lindíssima que indica no Antigo Testamento o gesto protetor com que Deus protege o orante (Salmo 73,23), Israel (Isaías 41,13), o seu servo (Isaías 42,6). E a sogra de Simão «levantou-se» (êgeírô), verbo da ressurreição, e pôs-se a servi-los (diêkónei: imperfeito de diakonéô) de forma continuada, como indica o uso do verbo no imperfeito. A sogra de Simão é uma das sete mulheres que, nos Evangelhos, «servem» Jesus e os outros. Ela é bem a figura da comunidade cristã nascente, que passa da escravidão à liberdade, da morte à vida, gerada, protegida, guardada e edificada por Jesus no lugar seguro da casa de Pedro.

2. À tardinha, já sol-posto, primeiro dia da semana [o dia muda com o pôr do sol], toda a cidade de Cafarnaum está reunida diante da porta daquela casa, para ouvir Jesus e ver curados por Ele os seus doentes. Note-se que os demónios continuam impedidos de falar, exatamente porque sabiam quem Ele era (Marcos 1,34). Pode parecer estranho este silenciamento de quem sabe! Mas é exatamente para ficar claro que acreditar em Jesus não é isolar uma definição exata de Jesus, mas aderir a Ele e à sua maneira de viver. E este afazer é trabalho nosso, não dos demónios.

3. Na madrugada do mesmo primeiro dia da semana, muito cedo, de madrugada a madrugada, tendo-se levantado (anístêmi), outra prolepse da madrugada da Ressurreição que já se avista no horizonte, Jesus sai sozinho para rezar (Marcos 1,35), mas os discípulos correm logo a procurá-lo para o trazer de volta a Cafarnaum, pois, dizem eles, todas as pessoas o querem ver e ter. Ninguém o quer perder (Marcos 1,36-37).

4. Mas Jesus desconcerta os seus discípulos, e abre-lhes já os futuros caminhos da missão: «VAMOS, diz Jesus, a outros lugares, às aldeias vizinhas, para que TAMBÉM (kaí usado adverbialmente) ali ANUNCIE (kêrýssô) o Evangelho» (Marcos 1,38). Importante e intenso dizer. ANUNCIAR, verbo grego kêrýssô, é todo o afazer de Jesus, enche por completo o seu programa e o seu caminho. Ora, ANUNCIAR, kêrýssô, é dizer em voz alta a MENSAGEM que outro nos encarregou de transmitir. Aqui, o outro é Deus. Jesus é, então, o MENSAGEIRO de Deus. O ANUNCIADOR, o MENSAGEIRO, não fala em seu próprio nome, não emite opiniões. Fala em nome de Deus.

5. Prossigamos. Com aquele vamosvamos a outros lugares»], Jesus desinstala e agrafa a si os seus discípulos, apontando-lhes já o seu futuro trabalho de ANUNCIADORES do Evangelho pelo mundo inteiro. Mas é igualmente importante aquele TAMBÉM inclusivo [«para que também ali anuncie o Evangelho»]. É como uma ponte que une duas margens. Se, por um lado, proleticamente, aponta o futuro, por outro lado, analepticamente, classifica como ANÚNCIO do Evangelho todos os afazeres da inteira «jornada de Cafarnaum», em que o verbo ANUNCIAR (kêrýssô) nunca apareceu. Ficamos, portanto, a saber que a toada do ANÚNCO do Evangelho é ensinar, libertar, acolher, curar, recriar.

6. Jesus, o Médico divino, curou a sogra de Pedro e muitos doentes. Eis o contraponto vindo hoje do Livro de Job (7,1-7), o homem que dói e grita por socorro. Em nome do homem, Job procura um sentido para a vida humana breve, frágil e nem sempre feliz e gratificante. Pede a graça de uma mão. Os amigos aparecem, mas, em vez de servirem de consolo, entretêm-se à procura de razões que expliquem a desgraça caída sobre Job. E assim, em vez de consolarem Job, atiram-no para a vala do lixo do pecado sem redenção e sem remédio. Já se vê que também só Deus poderá curar Job e todo o humano frágil e dorido que ele representa. É para ele também o salutar EVANGELHO de hoje. Para ele, e para nós. Bem vistas as coisas, todos somos eleitos de Deus. E o eleito é sempre alguém que abre livremente a mão para receber um dom.

7. Por causa de Jesus e à maneira de Jesus, cai sobre Paulo também a graça e a missão de EVANGELIZAR (1 Coríntios 9,16-23). É neste caminho belo de EVANGELIZADOR que Paulo anda, mas não é por sua iniciativa ou gosto. É «uma necessidade (anagkê) que lhe é imposta desde fora (epíkeitai)» (1 Coríntios 9,16). Desde fora, isto é, desde Deus, contra quem não vale a pena lutar (Actos 26,14). Sim, a vida nova de Paulo assenta nessa derrota sofrida (katelêmphthen: aor. passivo de katalambánô) no caminho de Damasco (Filipenses 3,12), que lhe é imposta por Jesus, que desequilibra para a frente, e para sempre, a vida de Paulo (Filipenses 3,13-14). Sem esse desequilíbrio para a frente, para o Evangelho, para Cristo, a vida de Paulo começaria a arruinar-se, como indica a «fórmula de desgraça», introduzida por aquela interjeição «Ai» (hôy hebraico; ouaí grego), que fecha o v. 16. Esta inclinação para a frente traduz também a devotação de Paulo a todos (1 Coríntios 9,19-23), «tudo para todos» (1 Coríntios 9,22), «por causa do Evangelho» (1 Coríntios 9,23).

8. O Salmo 147 mantém-nos atentos e fiéis cantores das obras boas de Deus, que opera sempre em nosso favor, debruçando-se sobre nós com amor providente, curando todas as nossas feridas, as do coração e as do nosso corpo chagado. Mas sobretudo porque nos põe a cantar, e cantar a Deus é bom e faz bem!

António Couto

 


VIDA NOVA DADA EM ABUNDÂNCIA

Abril 1, 2017

1. A «caminhada» quaresmal aproxima-se da sua meta e do seu verdadeiro ponto de partida: a Cruz Gloriosa onde resplandece para sempre o Rosto do imenso, indizível amor de Deus. Nesta altura do percurso (supõe-se que encetámos uma subida espiritual: entenda-se no Espírito Santo e com o Espírito Santo), batizados e catecúmenos devem estar já a ser Iluminados por essa luz, a ponto de se desfazerem das «obras das trevas» e de abraçarem as «obras da Luz», como verdadeiros discípulos que seguem o Mestre até ao fim, que é também o princípio, a Fonte da Vida verdadeira donde jorra o Espírito Santo (sempre Atos 2,32-33; João 19,30.34; 7,38-39). Os catecúmenos têm neste Domingo V da Quaresma – Domingo da dádiva da Ressurreição – os seus terceiros «escrutínios»: última «chamada» para a Liberdade antes da Noite Pascal Batismal.

2. A Ressurreição de Lázaro (João 11,1-45) constitui o sexto dos sete «sinais» do Mistério de Cristo segundo o Evangelho de João. Depois das bodas de Caná (João 2,1-12) (1.º), da cura do filho do oficial em Cafarnaum (João 4,46b-54) (2.º), da cura do paralítico na «piscina probática» (João 5,1-47) (3.º), da multiplicação dos pães e dos peixes (João 6,1-14) (4.º), da Iluminação da cego de nascença (João 9,1-41) (5.º), e antes do Sétimo Grande Último Primeiro «Sinal» que é a própria Ressurreição do Senhor, «o Sinal da Santa Cruz», decifrado pelo Espírito Santo, com que todos fomos (somos) marcados para sempre (Efésios 1,13; 4,30).

3. Em boa verdade, o episódio da morte / ressurreição de Lázaro remete de forma clara para a Morte / Ressurreição do Senhor. O tempo que marca a narrativa não é o tempo de Lázaro (da sua doença, da sua morte, do seu sepultamento), mas é o tempo (a hora) de Jesus, o Filho de Deus, Aquele-que-Vem sempre, passageiro total, pascal. Por isso, quando recebe a notícia da doença do amigo, Jesus deixa passar propositadamente dois dias (João 11,6), e é ao terceiro dia que se encaminha para a Judeia (João 11,7), e é ao terceiro dia que chama Lázaro da morte (João 11,43). Pouco importa que para Lázaro seja já o quarto dia! (João 11,17 e 39). Verdadeiramente importante é a hora-que-vem (!), agora, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus (João 5,25 e 28), Aquele-que-dá-a-vida (João 5,21; 1 Coríntios 15,45), esplendoroso Rio de Luz e de Sentido a inundar a terra inteira, enchendo-a de Vida e de Saúde (Ezequiel 47,1-12; Apocalipse 22,1-2). Verdadeiramente importante é este terceiro dia em que o Filho de Deus é glorificado (João 11,4), e suscita a fé de todos os intervenientes na cena: dos discípulos (João 11,15), de Marta (João 11,27), de Maria (João 11,29.32), da multidão (João 11,42), de muitos judeus (João 11,45).

4. Marta permanece ligada à corrente de uma teologia tradicional: «Eu sei (oída) que ressuscitará na ressurreição no último dia» (João 11,24), e não deixa entrar em si a torrente da novidade enunciada por Jesus, que é Jesus: «Eu Sou (egô eimi) a ressurreição e a vida» (João 11,25). E, quando Jesus dá ordens para retirar (árate: imperativo aor. de aírô) a pedra (João 11,39), Marta avança logo a inutilidade, mesmo o desconforto, o mau cheiro, de uma tal ação, dado que já lá vão quatro dias desde que Lázaro morreu (João 11,39). O certo é que, por ordem de Jesus, mãos humanas retiraram (êran: aoristo de aírô) a pedra (João 11,41), e, mediante nova ordem de Jesus, Lázaro sai para fora ligado com as faixas e o rosto envolto num sudário (João 11,44). É preciso ainda uma nova ordem de Jesus, para que Lázaro seja libertado das faixas que o prendem na morte e do sudário da morte que lhe tapa o rosto (João 11,44).

5. Como tudo isto aponta, em contraponto, para a ressurreição de Jesus. Aqui, no caso de Lázaro, a pedra é mandada retirar (árate) e é por mãos humanas por algum tempo retirada (êran). O verbo aírô [= retirar] aparece nos dois casos na forma ativa e no tempo aoristo, que traduz uma ação no tempo. Entenda-se: por mãos humanas e por algum tempo. Mas, para o leitor competente, esta ação remete já para o cenário da Ressurreição de Jesus. E quando se tratar do túmulo de Jesus, o leitor competente não pode deixar de notar que a pedra se apresenta retirada (êrménon: part. perf. passivo), na forma passiva e no tempo perfeito (João 20,1). Entenda-se: por Deus e para sempre! É o inefável que se abre diante dos nossos olhos! E também as faixas não prendem, e o sudário não encobre! As faixas estão no chão, e o sudário cuidadosamente enrolado em um lugar (João 20,6-7). Tudo está feito, e bem feito. Nenhuma ação de libertação é necessária, como o foi em João 11,44).

6. Significativamente estes discípulos de Jesus ficam confusos com o sono-morte de Lázaro (João 11,11-13) – a morte confunde-nos a todos (!) – mas compreendem perfeitamente que a ida de Jesus para a Judeia é a sua entrega à Morte (João 11,8), e vislumbram até o significado Batismal dessa Morte, uma vez que manifestam o desejo de morrer com Ele (João 11,16), isto é, querem Viver aquela Morte! Como bons catecúmenos que seguiram fielmente o Mestre, aprenderam já que a Vida verdadeira brota daquela Morte na qual verdadeiramente somos batizados (Romanos 6,3-4), com-mortos, com-sepultados, com-ressuscitados, com-vivificados, com-sentados na Glória! (Efésios 2,5-6; Colossenses 2,12-13). Sentada estava Maria (João 11,20), figura do díscípulo (Lucas 10,39); mas quando lhe é dito ao ouvido que o Senhor a chama (João 11,28), levantou-se (êgérthê: verbo técnico da Ressurreição: Lucas 24,34; 1 Coríntios 15,4) de imediato e foi ao seu encontro (João 11,29).

7. Belo, belo, belo este Jesus que vem ao nosso encontro, que sente as nossas dores e chora connosco e também por nós (notem-se as três menções do verbo «chorar», duas por parte de Maria (cf. 11,31-32, e uma por parte dos judeus (cf. 11,33). O verbo empregado é, nos três casos, klaíô. No mesmo contexto, é dito também que Jesus se comove connosco (cf. 11,33) e que também chora (cf. 11,35). Ao constarmos que Jesus chora, fácil se torna perceber que Jesus chora connosco, misturando as suas lágrimas com as nossas nesta situação dolorosa. Mas é preciso notar ainda que o narrador põe Jesus a «chorar» com um verbo diferente do que usou para nós nas três vezes anteriores. Jesus chora com o verbo dakrýô. Com este procedimento, talvez o narrador nos queira dizer que, além de chorar connosco, Jesus também chora por nós, ao ver a nossa incredulidade. É só o 3.º Dia dele e a voz dele, daquele que nos ama e nos chama sempre, inclusive dos vales onde vamos caindo mortos, que nos salva. Ele é a Vida. Ainda hoje, em Betânia, atual al-Azariye, aldeiazinha situada na colina oriental que desce do monte das Oliveiras, a cerca de três km de Jerusalém, se pode visitar, descendo 24 degraus, o túmulo que a tradição popular atribui a Lázaro. Ao lado está a igreja franciscana, dita «da amizade», levantada pelo famoso arquiteto Barluzzi, em 1952-1953.

8. O imenso texto de Ezequiel 37,12-14 é uma belíssima metáfora plantada no meio da Escritura, uma lampadazinha (2 Pedro 1,19) que aponta já para a Luz nova e grande de Jesus. A metáfora mostra-nos que os exilados na Babilónia são como ossos ressequidos e sem nenhuma esperança. Eles estão na morte e na humilhação. O seu discurso não deixa dúvidas: «Os nossos ossos estão secos; a nossa esperança está desfeita; para nós está tudo acabado» (Ezequiel 37,11). Mas a Palavra de Deus manda também na morte. Apontando para o Novo Testamento, Deus chama os mortos dos seus túmulos, e fá-los reviver. Jesus que passa no Evangelho de Hoje «grita com voz forte» (João 11,43), e Lázaro, morto, saiu do túmulo.

9. Paulo não se cansa de nos lembrar a vida nova que habita os filhos de Deus (Romanos 8,8-11). «Viver em Cristo» ou «no Espírito» são fórmulas batismais intensas que indicam a vida nova do batizado: com o dom da Iluminação, marcado pelo Espírito até à Vida eterna. Mas agora é tempo de passar, como Jesus, ao estilo de Jesus, dando um testemunho credível da nossa condição nova de filhos de Deus, deixando o fruto do Espírito iluminar a nossa vida. E «o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gálatas 5,22-23).

10. Sim, o Salmo 130 é um grito desde o abismo profundo em que jazemos atolados. São apenas 52 palavras hebraicas que atiramos a Deus, Senhor do Amor fiel (hesed) da Redenção (pedût). Cada orante que grita este Salmo sabe em que grau ou degrau de profundidade está. Sim, este é um dos 15 Salmos graduais ou das subidas ou das peregrinações (120-134). É uma voz que se levanta e sobe até àquele Senhor que não desprezou as nossas profundezas, mas até elas desceu, e até elas desce, para nos ajudar a subir!

 

Como é fácil, Senhor Jesus,

Daqui, de ao pé da tua Cruz,

Avistar a paisagem deste tempo,

Compreender-lhe a mensagem,

Respirar-lhe o alento.

 

Daqui, de ao pé da tua Cruz de Luz,

Sem dúvida o lugar mais alto do mundo,

Mais alto e mais profundo,

Vê-se bem, com toda a claridade,

Que a lonjura do tempo não é horizontal.

Eleva-se em altura.

Como a tua túnica tecida de Alto-a-baixo,

Vertical,

E sem costura.

 

Tu vens do Alto, Senhor.

Tu vens de Deus.

Tu és Deus.

Tu és o Justo

Que chove das alturas

Sobre a nossa humanidade sedenta e às escuras.

 

Vem, Senhor Jesus,

Alumia e rega a nossa terra dura,

Acaricia o nosso humilde chão,

Limpa as nossas lágrimas,

E modela com as tuas mãos de amor

Em cada um de nós

Um novo coração,

Capaz de ver,

Desde al-Azariye,

A alegria do teu terceiro dia

E a força nova

Da tua Ressurreição.

 

António Couto


LUZ QUE LAVA E ALUMIA O CORAÇÃO

Março 25, 2017

1. Com o olhar cada vez mais fixo na Cruz Gloriosa, em que foi entronizada a Luz que dá a Vida verdadeira, batizados e catecúmenos continuam a sua «caminhada» quaresmal: memória do batismo [= execução do programa filial batismal] para os batizados, preparação para o batismo por parte dos catecúmenos (Sacrossantum Concilium 109), que têm neste Domingo IV da Quaresma – Domingo da dádiva da Luz – os seus segundos «escrutínios»: segunda «chamada» para a Liberdade.

2. O Evangelho narra a dádiva da Luz por Jesus à nossa pobre e cega humanidade (João 9,1-41). Deus é Luz (1 João 1,5), e é na sua Luz que nós vemos a Luz (Salmo 35,10). Ora, a Luz veio ao mundo (João 3,19; 12,46) para dar a Vida ao mundo. Veio (elêluthen) ao mundo e permanece acesa no mundo, como indica o perfeito usado no texto grego. Marcos recorre à crueza da linguagem para nos fazer ver melhor o Mistério desta Luz-que-vem: «Vem a Luz para ser colocada debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não, antes, para ser colocada sobre o candelabro? Na verdade, nada está escondido que não seja para se manifestar» (Marcos 4,21-22). Na verdade, o Divino, o Filho Unigénito de Deus, Aquele-que-vem, passa escondido na humildade da nossa condição humana. É Ele a Luz-que-vem, que agora está escondida, mas que se manifestará no novo e último candelabro do amor de Deus (Atos 2,36), a Cruz Gloriosa, única fonte do Espírito Santo para nós (sempre Atos 2,32-33; João 19,30.34; 7,38-39). Não esqueçamos que ver o Filho é obra do Espírito Santo em nós (1 Coríntios 12,3). É por isso que o Filho do Homem, Aquele (o Único)-que-de-Deus-vem-e-a-Deus-volta (João 9,13) tem de (deî) ser levantado [= crucificado / ressuscitado /glorificado / exaltado] (João 3,14; cf. Filipenses 2,9): só então se saberá que «Eu Sou» (título divino) (João 8,28), e atrairei todos a Mim (João 12,32).

3. Mas agora, após o Batismo no Jordão e a Transfiguração / Confirmação no Tabor, durante o dia que é a sua vida toda, eis Jesus passando sempre (parágôn: particípio presente durativo) (João 9,1) e executando a «obra» daquele que o enviou (João 9,4). Na sua condição de «passageiro» total, pascal, no sentido «que de Deus veio e para Deus voltava» (João 13,3), Jesus viu um cego de nascença, e os seus discípulos também viram. Mas Jesus e os discípulos não viram a mesma coisa. Os discípulos viram um cego, e por detrás do cego viram o encadeado «pecado – doença», e por detrás do encadeado viram a manifestação do Deus-garante da «ordem da retribuição». Jesus viu um cego, mas não viu naquela cegueira a manifestação de Deus; antes, viu que «era preciso» (deî) (João 9,4) aquele cego para que Deus se manifestasse nele. Jesus viu um cego e como que disse: preciso deste cego! «É preciso» (deî) que Deus se manifeste neste cego. E como é que Deus se podia manifestar naquele cego? Através das «obras» (tà érga) daquele que Ele enviou (João 9,4), fazendo passar aquele cego do domínio da cegueira para a liberdade da glória dos filhos de Deus, para usar a expressão feliz de Romanos 8,21. Sendo a Luz do mundo (João 8,12; 9,5), Jesus concede o dom da vista ao cego de nascença acompanhado do dom da Luz (Iluminação) em ordem à contemplação das coisas divinas (veja-se a propósito Hebreus 6,4-5: texto batismal espantoso!). Atente-se bem que o cego de nascença recebeu o dom da vista e o dom batismal da «divinização» para ver e ouvir as coisas divinas. Perante este segundo dom, também os fariseus eram cegos de nascença, e não o sabiam!

4. Significativamente, o cego recupera a vista e recebe o dom da Luz na «piscina de Siloé» (João 9,7). De notar que «piscina» se diz em grego kolymbêthra, nome que ainda hoje para a Igreja grega significa «fonte batismal». Siloé é a grecização do aramaico shlîha, hebraico shalîah, que quer dizer «enviado». Santo Agostinho comenta, sempre de forma acertada e penetrante: «Sabeis bem quem é o enviado; se Cristo não tivesse sido enviado, nenhum de nós teria sido desviado do pecado. O cego lavou os olhos naquela fonte que se traduz “Enviado”: foi batizado em Cristo». A «fonte batismal» do «enviado» de Deus, daquele-que-vem-de-Deus, o Filho do Homem. O cego recobrou a vista imediatamente. A luz da fé, essa é gradual. Passa por: «não sei» (João 9,12); «é um profeta» (João 9,17); «vem de Deus» (João 9,33); «eu creio, Senhor» (João 9,38).

5. A narrativa vai abrindo cenários sucessivos. O primeiro (João 9,1-7) põe Jesus e os seus discípulos face ao cego, mostra as suas diferentes maneiras de ver, e deixa claro que é a postura criadora e redentora de Jesus que cura o cego. O segundo (João 9,8-12) mostra-nos a discussão estéril que se gera entre os vizinhos acerca do cego. Só palavras. O terceiro (João 9,13-17) traz para a cena a presença dos fariseus, que também discutem o assunto, e também não o entendem nem se entendem. O quarto (João 9,18-23) mostra a atitude dos pais que não se querem comprometer. O quinto (João 9,24-34) põe de novo em cena os judeus e o cego, que apontam os respetivos mestres: Moisés para os judeus; Jesus para o cego. Mas acerca de Jesus, dizem os judeus: «Esse não sabemos DE ONDE (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego responde com inteligência, apontando a cegueira deles: «Isso é «espantoso» (tò thaumastón): vós não sabeis DE ONDE (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! O último cenário (João 35-41) traz-nos de volta Jesus, que se revela ao cego, iluminando-o, e deixa os fariseus cada vez mais às escuras!

6. Temos todos algo a ver com o cego de nascença: os batizados receberam como ele o dom batismal da Luz para ver e ouvir e viver a vida divina; os catecúmenos recebê-lo-ão. Temos todos a ver com o Enviado, Aquele-que-vem: Ele é o único enviado do Pai para fazer a sua «obra»; nós somos enviados por Ele (João 20,21) para continuar no mundo a sua «obra». Mas temos de reconhecer que muitas vezes ainda vemos as pessoas e as coisas de forma bem diferente de Jesus!

7. O Primeiro Livro de Samuel 16,1-13 serve-nos hoje um texto fantástico em clara sintonia com o Evangelho. Trata-se da unção real do menor dos filhos de Jessé, David, um garoto que andava nos montes a guardar o rebanho. Nem entrava nas contas do seu pai. Teve de ser o profeta Samuel a perguntar a Jessé, depois de este lhe ter apresentado sete filhos e não ter dado sequer a entender que ainda tinha mais um: «Acabaram os teus filhos?» (1 Samuel 16,11). Só aqui é que Jessé se apercebeu que ainda tinha mais um. Mas, como David era ainda um garoto, nunca Jessé pensou que passasse por ele a escolha de Deus! A sua presença é, portanto, tão paradoxal como a do cego de nascença! Mas Deus não vê como nós. Deus vê o coração, e nele deposita o seu Espírito (1 Samuel 16,13; Romanos 5,5). Levamos este tesouro em vasos de barro… (2 Coríntios 4,7). Brilha melhor a Luz de Deus (2 Coríntios 4,6).

8. Cumpre-nos ler também hoje o grande texto da Carta aos Efésios 5,8-14. Iluminados pela Luz da Luz, que é também a Luz do mundo, somos a Luz do mundo: constatação, mas sobretudo desafio e programa! Somos, por isso, «filhos da Luz» (Efésios 5,8; 1 Tessalonicenses 5,5) – um dos termos técnicos de «divinização» – e «filhos do dia» (1 Tessalonicenses 5,5). Chamados das trevas para a luz maravilhosa de Deus (1 Pedro 2,9), devemos tornar-nos operadores das «obras da Luz», que não têm parte com as «obras das trevas». O Apóstolo [= Enviado] dá testemunho do Evangelho e continua no mundo o Evangelho. Passando como Jesus. Vendo como Jesus. Aí está a nossa missão.

9. Tempo para nos deixarmos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom Pastor, cantando o Salmo 23. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos…

 

Vai adiantado o tempo da Quaresma,

E eu continuo ainda aqui parado

Nesta página em branco da calçada.

 

Sei bem que foste tu que me puseste em movimento,

Que teceste o meu ser,

Que me deste a vida e de comer,

Que me acolheste e me acolhes sempre em tua casa.

 

Como é que estou então aqui parado na berma desta estrada,

Pensando que fui eu que me pus no ser,

Que sou dono de mim,

Que esta vida é minha,

Minha é esta casa, este pedaço de chão,

Este naco de pão

E até este coração?

 

Não fiques aí parado, meu irmão.

Ergue-te e vai pelos nós do vento,

Chegarás por certo à pátria do Espírito,

Submisso ao sopro obsessivo do silêncio.

 

Olha com mais atenção

O chão que sonhas,

O céu que lavras.

Recomeça!

Conquista o espaço

Onde a palavra cresça

Longe do ruído das palavras!

 

António Couto