JESUS: SURPRESA PERMANENTE

Abril 17, 2021

1. É-nos dada hoje, Domingo III da Páscoa, a graça de escutar a página sublime do Evangelho de Lucas 24,35-48, em que Jesus Ressuscitado se faz ver aos seus discípulos reunidos, que não são apenas os Onze, mas «os Onze e os outros com eles» (Lucas 24,33), dissipa as suas dúvidas e os seus medos, e lhes indica o sentido da Escritura, ao mesmo tempo que abre diante dos seus olhos o sentido obrigatório da missão. Podem assaltar-nos questões como estas: a) o que terá acontecido àqueles discípulos depois da morte de Jesus?; b) como chegaram ao ponto de afirmar a sua ressurreição?; c) terão sido vítimas de alguma desmedida ilusão?; d) autoconvenceram-se de que a obra de Jesus não podia terminar com aquela morte?; e) é a partir de si mesmos que chegam à fé na ressurreição, e que começam a anunciar convictamente que Jesus está vivo? A página do Evangelho de hoje ajuda-nos a compreender melhor os acontecimentos.

2. Ainda os dois discípulos de Emaús faziam exegese demorada (exegoûnto: impf. de exêgéomai) das coisas acontecidas no caminho e de como Jesus se deu a conhecer (egnôsthê: aor. pass. de ginôskô) a eles (autoîs), dativo do beneficiário, no partir do pão (en tê klásei toû ártou) (Lucas 24,35), quando o próprio Ressuscitado irrompeu e ficou de pé no MEIO deles (o lugar da presidência), e saudou-os, dizendo: «A Paz convosco!» (Lucas 24,36). O leitor estaria à espera de uma receção apoteótica, do rebentamento de recalcadas emoções, de incontidos gritos de júbilo e de alegria. E, em vez disso, assistimos ao extravasar de medos, perturbação e dúvidas, pois o que pensavam estar a ver diante deles, no MEIO deles, era um espírito, um fantasma! (Lucas 24,37 e 39).

3. Esta reação é importante, e manifesta que estes discípulos de Jesus, após aquela morte de Jesus, já tinham desistido de Jesus e nada mais esperavam dele (Lucas 24,21). Qualquer novo início só poderia vir de fora, só poderia vir de Deus. Naqueles discípulos não se vislumbrava nenhuma réstia de esperança, nenhuma acha ainda fumegava. Tudo cinza do mais cinzento que há. É a maneira de a Bíblia inteira realçar a intervenção de Deus. Deus não intervém como consequência de um pedido ou desejo nosso, para satisfazer os nossos anseios ou projeções mais insistentes. É sempre pura iniciativa sua, do nosso lado impensável, imprevisível e incontrolável. Ao mostrar as coisas desta maneira, a Bíblia, toda a Bíblia, antecipa-se em muitos séculos aos «mestres da suspeita» (Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud) e dissolve avant la lettre a sua denúncia de um Deus produzido ou projetado pelos nossos anseios e desejos. É, portanto, de assinalar que estes discípulos de Jesus deem o “dossier Jesus”, que os encantou, por encerrado, e comecem às apalpadelas a planear à sua maneira o “pós-Jesus”, mais ou menos como nós vamos estudando e planeando agora o pós-pandemia. Como se Jesus não estivesse aqui, no MEIO de nós! E como se não houvesse mais nenhuma surpresa para engolir! Não nos esqueçamos da verdade escondida aos olhos dos dois discípulos de Emaús: «Tu és o único que não sabe as coisas que aconteceram em Jerusalém nestes dias?» (Lucas 24,18). Sim, Ele é o único que não sabe aquelas coisas, estas coisas, como nós as sabemos!

4. É assim que Jesus vem sem ser esperado e sem se fazer anunciar. E porque não era possível, da nossa parte, acreditar que fosse Ele, Ele tem mesmo de se identificar, coisa estranha. Para o fazer, não exibe, porém, qualquer fotografia ou documento. Mostra as mãos e os pés (Lucas 24,39-40), como em João 20,20 e 27 mostra as mãos e o lado, que levam a reconhecer o Ressuscitado como o Crucificado, sendo as mãos e os pés, como as mãos e o lado, as marcas da sua vida dada. Note-se uma vez mais que não é pelo rosto que identificamos Jesus Ressuscitado. Senão aqueles discípulos, que com Ele tinham convivido de perto, tê-lo-iam identificado sem demora. É a sua maneira de ser que diz Quem Ele é. E a sua maneira de ser é dar a vida. Maneira de ser e de estar connosco. No meio de nós (Lucas 24,36) e à nossa frente (Lucas 24,43), presidindo-nos e precedendo-nos e surpreendendo-nos.

5. Sintomático que aqueles discípulos, vendo o que veem, nada digam. Permanecem mudos. Eles que antes estavam cheios de palavras… Mas Jesus continua a ser, é sempre, não o simples orador à maneira dos escribas, mas Aquele que fala com autoridade (Marcos 1,22). Ele é a Palavra criadora de mundos novos e de corações novos (João 1,3). Quando Ele surge, um mundo novo começa a acontecer. Dentro e fora de nós. E como é que podemos falar se ainda estamos a nascer?! Portanto, Ele fala (laléô): «É necessário (deî) que se cumpram todas as coisas escritas (gegramména) na Lei de Moisés e nos Profetas e nos Salmos acerca de mim (perì emoû). […] Assim foi escrito (gégraptai) que o Cristo havia de sofrer (1) e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia (2) e de ser anunciada (kêrýssô) (3) no seu nome a conversão para a remissão dos pecados a todas as nações» (Lucas 24,44-47). E acrescenta com autoridade: «Vós sois testemunhas (mártyres) destas coisas» (Lucas 24,48).

6. A partir deste luminoso falar revelatório (laléô) de Jesus fica claro, para nós, que a Missão do anúncio do Evangelho não é facultativa, mas insere-se na necessidade do plano de Deus, ao mesmo nível da morte e da ressurreição de Jesus. De forma clara, o cristão é batizado na morte de Cristo e vive a vida nova da Ressurreição de Cristo, mas tem de viver também do/e para o anúncio do Evangelho. É este o único lugar do Novo Testamento que guarda esta tripla necessidade: sofrimento e morte de Jesus (1), ressurreição de Jesus (2), anúncio do Evangelho a todas as nações (3). Nos outros lugares do Novo Testamento, esta necessidade afeta apenas as duas primeiras realidades.

7. Esta necessidade teológica fica registada no uso do verbo grego deî e das coisas para sempre escritas em todas as Escrituras. O para sempre escritas fica gravado no uso dos dois perfeitos (gegramména e gégraptai, respetivamente particípio perfeito passivo e perfeito passivo do verbo gráphô). Se o uso do perfeito indica o «para sempre», o uso da forma passiva aponta para Deus, tratando-se, como é usual classificar-se, de um passivo divino ou teológico.

8. Importa ainda precisar que este necessário anúncio do Evangelho não afeta apenas os Onze, mas «os Onze e os outros com eles» (Lucas 24,33), entenda-se, todos os discípulos de Jesus, pois é perante todos [«os Onze e os outros com eles»] – não há mudança de cenário – que Jesus pronuncia o luminoso falar revelatório de Lucas 24,44-47. Sem equívocos então: esta missão afeta-nos a todos, todos os discípulos de Jesus de todos os tempos. Fica ainda claro que o anúncio (kêrygma) do Evangelho não decorre por conta e risco do anunciador (kêryx), que não o faz em seu próprio nome; antes, apresenta-se sempre vinculado a Jesus Cristo, pois o anúncio é feito «em seu nome» (Lucas 24,47), é Ele que envia o anunciador. E este anúncio do Evangelho não fica circunscrito a um horizonte limitado, paroquial, diocesano, nacional, continental, pois o seu verdadeiro horizonte são «todas as nações» (Lucas 24,47), «todos os lugares», todos os corações.

9. Bem se vê que é, neste ponto preciso e nesta necessidade, que S. Paulo, «o maior missionário de todos os tempos» (Bento XVI) e «modelo de cada evangelizador» (S. Paulo VI), enxerta a sua vida e se entende a si mesmo, pois confessa: «Evangelizar não é para mim um título de glória, mas uma necessidade que se me impõe desde fora (epíkeitai). Ai de mim se não Evangelizar!» (1 Coríntios 9,16).

10. Impõe-se ainda uma anotação sobre aquela importante afirmação final de Jesus, que nos designa como testemunhas (mártyres). É a primeira vez que os discípulos são designados como testemunhas. No mundo de hoje, tal como o conhecemos, falar de testemunhas é falar de alguém que, tendo presenciado um acidente ou um crime, se compromete depois, no tribunal, a apresentar o seu ponto de vista sobre o sucedido. Alguém, portanto, que é chamado a comprometer-se com uma história que não é a dele. Para evitar chatices, acabamos muitas vezes por dizer logo à partida que não vimos nada. Mas, aqui, é Jesus que nos designa como testemunhas. Convenhamos que esta designação dos cristãos como testemunhas não tem sido nem é habitual. A linguagem corrente cataloga-nos mais depressa como «praticantes» ou «não-praticantes». Mas aqui somos designados como «testemunhas» dos acontecimentos de Jesus Cristo. Aquando da necessária substituição de Judas no colégio apostólico, Pedro traça assim os requisitos necessários que devem presidir à escolha do novo membro que venha a entrar no grupo dos Doze: «É necessário (deî), pois, que, dos homens que vieram connosco (synérchomai) durante todo o tempo em que entrou e saiu à nossa frente o Senhor Jesus, tendo começado desde o Batismo de João até ao dia em que Ele foi arrebatado (anelêmphthê) diante de nós, um destes se torne connosco testemunha (mártys) da sua Ressurreição» (Atos 1,21-22). Somos, portanto, chamados a envolver-nos de tal modo na história e na vida de Jesus, a ponto de a fazermos nossa, para a transmitir aos outros, não com discursos inflamados ou esgotados, mas com a vida! Sim, aquela história e aquela vida são a nossa história e a nossa vida. Aí está o estilo da testemunha e do evangelizador.

11. Aí está, então, o importante acerto com a narrativa do Livro dos Atos dos Apóstolos (3,13-19), que nos mostra Pedro no papel de testemunha (mártys) (v. 15) envolvendo-se e envolvendo outros na história «deste Jesus, que vós entregastes» (v. 13), «mas que Deus ressuscitou dos mortos» (v. 15). E a Primeira Carta de S. João (1,1-5) mostra-nos Jesus Cristo como nosso Advogado (paráklêtos) e vítima de expiação (hilasmós) pelos pecados de todos.

12. O canto sereno, à serena luz da vela, do Salmo 4, que é um canto noturno, enche-nos de paz e de confiança e ensina-nos a viver serenamente, dia e noite, na companhia daquele Deus que se envolveu e envolve na nossa história e na nossa vida, realizando prodígios e reduzindo a fumo os ídolos e as insensatas e orgulhosas manobras humanas. O poeta francês Paul Claudel, que muitas vezes passeava pela Bíblia, parafraseou assim: «Há em mim esta paz que me leva ao sono. Há em mim este tesouro da esperança que me deste».

Senhor Jesus,/ há tanta gente que Te procura à pressa e Te quer ver./ Mas quando dizem que Te querem ver,/ não é para Te conhecer./ É o teu rosto, a cor dos teus olhos e cabelos,/ a tez da tua pele, a tua forma de vestir que os atrai e contagia./ Querem ver-te como se fosse numa fotografia.//

Mas Tu, Senhor Jesus Ressuscitado,/ quando Te dás a conhecer a nós,/ não mostras o rosto,/ uma fotografia,/ o cartão de cidadão./ Se fosse assim,/ mal seria que os teus amigos Te não reconhecessem.//

E o facto é que,/ quando surges no meio deles,/ não Te reconhecem./ E em vez do rosto,/ são, afinal, as mãos e o lado,/ ou as mãos e os pés que apresentas./ Entenda-se: é a tua maneira de viver que nos queres fazer ver./ Na verdade, a tua identidade é dar a vida,/ é dar a mão e o coração./ É essa a tua lição,/ a tua paixão,/ a tua ressurreição.//

Senhor, dá-nos sempre desse pão!//

António Couto


TOMÉ, CHAMADO «GÉMEO»

Abril 10, 2021

1. Novos percursos se abrem, e é aqui que se inicia o Evangelho do Domingo II da Páscoa (João 20,19-31), que o Papa João Paulo II, em 30 de Abril do ano 2000, consagrou como «Domingo da Divina Misericórdia». Os discípulos estão em um lugar, com as portas fechadas, por medo dos judeus. O Ressuscitado, Vida vivente e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter ou derreter, vem e fica no MEIO deles, o lugar da Presidência, e saúda-os: «Shalôm!», «A paz convosco!».

2. Esta Saudação, este Shalôm, esta Paz, a Bondade deste “Bom-Dia”, que ressoa desde a Criação, entra em nós, enche-nos de Bondade e de Alegria, e faz-nos encontrar um modo novo de encarar a vida. Esta Saudação, este Shalôm, esta Paz, este “Bom-Dia” estabelece connosco uma relação nova e boa, e inverte por completo a nossa velha maneira de ver e de viver. Na verdade, estamos habituados a pensar, a decidir e a escolher o que vamos fazer, comprar ou vender. Sou eu que penso, decido, escolho. Como se o mundo inteiro começasse em mim e a partir de mim. Como se eu fosse (porque penso que sou) o senhor do mundo. Ora, o imenso texto do Evangelho de hoje, como, de resto, a Escritura inteira, começa com Alguém que vem de fora do meu alcance, e me surpreende, e me saúda, deixando-me na condição nova e inédita, não de senhor que pensa e escolhe, mas de respondedor que é pensado e acolhe. Quando «eu penso», decido e escolho, escolho sempre um alter ego, isto é, algo ou alguém igual a mim, que venha ao encontro do meu mundo desiderativo e projetual, e o encha e satisfaça. Quando «eu sou pensado» e escolhido e saudado, cabe-me acolher aquela Saudação, aquela «Paz», aquele Shalôm, e responder, responder, responder. O “Bom-Dia” precede o cogito. Precede, inverte e investe.

3. Jesus mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, e agrafa-os à sua missão: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): está sempre em missão; o nosso está no presente, e passa. O presente da nossa missão aparece, portanto, agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-nos dito que os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo (cf. João 20,8), também eles veem com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão. Este sopro só aparece aqui em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para outras passagens, nomeadamente para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

4. A identidade do Senhor Ressuscitado está para além do rosto. Por isso, vê-lo não implica necessariamente reconhecê-lo, como sucede em não poucas páginas dos Evangelhos. A identidade do Ressuscitado não é do domínio da fotografia. Vem de dentro. Reside na sua vida a nós dada por amor até ao fim, aponta para a Cruz. Por isso, Jesus mostra as mãos e o lado, sinais abertos para entrar no sacrário da sua intimidade, dádiva infinita que rebenta as paredes dos nossos olhos embotados e do nosso coração empedernido. Entenda-se também que a missão que nos é confiada é mostrar Jesus. Está bom de ver que não basta exibir as capas do catecismo que mostram um Jesus de olhos azuis e cabelo louro encaracolado. Só o podemos mostrar com a nossa vida dele recebida, e igualmente dada e comprometida.

5. O narrador informa-nos logo a seguir que, afinal, Tomé (Toma’), chamado Gémeo (Dídymos), não estava com eles quando veio Jesus. Dídymos é, na verdade, a tradução literal, em grego, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»]. Mas os outros diziam-lhe repetidamente (élegon: imperf. de légô), imperfeito de duração, com a mesma linguagem da Madalena, mas no plural: «Vimos (heôrákamen: perf. de horáô) o Senhor!» (João 20,25). Portanto, também eles são testemunhas, pois viram e continuam a ver o Senhor, de acordo com o tempo perfeito do verbo grego. Mas Tomé quer tudo controlado e verificado, ponto por ponto, e refere: «Se eu não vir (ídô: conj. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) nas suas mãos a marca dos cravos, e não meter o meu dedo na marca dos cravos e não meter a minha mão no seu lado, não acreditarei» (João 20,25).

6. Novo desarme: oito dias depois, estavam outra vez os discípulos com as portas fechadas (mas o medo já não é mencionado), e Tomé estava com eles. Veio Jesus, ficou no MEIO, saudou-os com a paz, e dirigiu-se logo a Tomé desta maneira: «Traz o teu dedo aqui e vê (íde: imper. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Aí está Tomé adivinhado, desvendado e desarmado! Também ele podia ter pensado: «E como é que ele sabia que eu queria fazer aquilo?». Tomé cai aqui, adivinhado e antecipado, precedido por Aquele que nos precede sempre! Não quer tirar mais provas. Diz de imediato: «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20,28), uma das mais belas profissões de fé de toda a Escritura. E Jesus diz para ele: «Porque me viste e continuas a ver (heôrakás me), tempo perfeito de horáô, acreditaste e continuas a acreditar (pepísteukas), tempo perfeito de pisteúô; felizes (makárioi) os que, não tendo visto (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo), acreditaram (pisteúsantes: part. aor. de pisteúô)!» (João 20,29), tempo aoristo. Esta felicitação é para nós.

7. Notável o percurso dos Discípulos. Fechados e com medo, viram Jesus entrar e ficar no MEIO deles, sem que as portas e as paredes constituíssem obstáculo. Trocaram o medo pela alegria, e também eles começaram a ver de forma continuada o Senhor e a dizê-lo repetidamente. Notável e exemplar para nós o percurso de Tomé, chamado Gémeo: não estava com a comunidade, tão-pouco aceitou o seu testemunho; queria provas. Mas quando veio Jesus e o adivinhou, precedendo-o e presidindo-o, entregou-se completamente! Tomé, chamado Gémeo! Irmão gémeo! Irmão gémeo de quem? Meu e teu, assim pretende o narrador. De vez em quando, também nós não estamos com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. Por vezes, também duvidamos e queremos provas. Como Tomé, chamado Gémeo. Salta à vista que também devemos estar com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. E professar convictamente a nossa fé no Ressuscitado que nos preside (no MEIO) e nos precede sempre. Como Tomé, chamado Gémeo.

8. A lição do Livro dos Atos dos Apóstolos (4,32-35, mas ver também 2,42-47 e 5,12-16) deste Domingo II da Páscoa é outra vez soberba. Trata-se de uma visita guiada ao Cenáculo, a primeira Catedral da Igreja nascente, mas com ramificações em todas as casas, em todos os corações, bem assente em quatro colunas: o ensino dos Apóstolos (1), a comunhão fraterna (2), a fração do pão (3) e a oração (4). Com a boca cheia de louvor, os olhos de graça, as mãos de paz e de pão, as entranhas de misericórdia, a comunidade bela crescia, crescia, crescia. Não admira. Era tão jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela!

9. Nascer de Deus, amar a Deus e o Filho Unigénito de Deus, amar no Filho os filhos de Deus, é a lição da Primeira Carta de São João 5,1-6. O critério é: se nascemos de Deus, então somos filhos de Deus, e, sendo filhos de Deus, somos irmãos. E, se nascemos de Deus, também o amor que nos vincula aos irmãos é de Deus. Amar a Deus é, então, o critério último da fé e da caridade. A vida de Deus em nós, amar como Deus nos ama, permanece, portanto o único critério verdadeiro. Na Primeira Carta de São João 4,20-21, tínhamos anotado o critério de que o nosso amor a Deus é verificável no nosso amor ao próximo. Mas São Paulo adverte-nos com sabedoria que o amor ao próximo pode fingir-se, pois podemos dar todos os nossos bens aos pobres, e não ter a caridade verdadeira (1 Coríntios 13,3). Neste sentido, diz acertadamente São Máximo Confessor (580-662) que «a Páscoa gera a fé e a fé gera o amor». A misericórdia é a chama divina com que devemos acender e purificar o nosso coração.

10. Cantemos por isso o Salmo 118, que é o último canto do chamado «Pequeno Hallel da Páscoa» (113-118), mas que era seguramente cantado noutras festividades de Israel, nomeadamente na Festa das Tendas, tendo em conta o seu teor processional, e até a sua distribuição por coros. Este Salmo levanta-se do meio da alegria própria da Festa («Este é o dia que o Senhor fez,/ nele nos alegremos e exultemos!»: v. 24) e eleva ao Deus sempre fiel uma grande Ação de Graças por todas as maravilhas que Ele tem realizado em favor do seu povo. Sim, toda a nossa energia e toda a melodia que nos habita é o próprio Senhor, conforme o belíssimo v. 14: «Minha força e meu canto YAH!», que soa assim em hebraico: ‘azzî wezimrat YAH. Além do nosso Salmo, a expressão densa e impressiva encontra-se ainda em Êxodo 15,2 e Isaías 12,2. YAH está por YHWH. O refrão que vamos cantar aparece a abrir e a fechar este grande Salmo, e constitui como que o envelope onde guardamos a bela melodia que cantamos. Soa assim: «Louvai o Senhor porque Ele é bom,/ porque para sempre é o seu amor!» (v. 1 e 29).

11. Em tudo e sempre nos precede o nosso bom Deus com a iniciativa do seu amor primeiro e misericordioso.

«O lugar para onde Eu vou,

Vós sabeis o caminho para lá», diz Jesus.

«Nós não sabemos para onde vais,

Como podemos saber o caminho para lá?»,

Retorquiu Tomé.

Tomé é como nós:

Não sabe trabalhar sem metas e objetivos.

E é em função das metas e objetivos,

Que escolhe caminhos e metodologias.

Deus disse a Abraão: «Vai do teu país

Para o país que Eu te fizer ver».

E o narrador diz-nos que «Abraão foi».

Para onde? Para qual país?

Não interessa.

Interessa é saber que uma mão segura nos guia,

E que o caminho que trilhamos nos conduz sempre ao destino.

É assim que faz Jesus também.

Não nos indica no mapa o lugar do destino,

Mas mostra-nos o caminho para chegar lá.

Por isso nos diz: «Vinde atrás de Mim…».

É assim a procissão e a peregrinação.

Ele vai connosco e à nossa frente.

Ele é o caminho, a mão segura,

A água pura,

O pão de trigo.

Ensina-nos, Senhor,

A caminhar contigo.

António Couto


O SENHOR RESSUSCITOU. ALLELUIAH!

Abril 3, 2021

1. «Esta é a Obra do Senhor!», assim gritava com «voz forte» (grito de Vitória e de Revelação) Jesus na Cruz, deci­frando a Cruz, recitando o Salmo 22 todo (entenda‑se a meto­nímia de Mateus 27,46 e Marcos 15,34, citando apenas o início). Par­ticularmente ao longo da Semana Santa, dita «Grande» ou «dos Mistérios» pela Igreja do Oriente, Deus expôs (proétheto) diante dos nossos olhos atónitos – e logo a partir do Domingo de Ramos – o Rei Vitorioso no seu Trono de Graça e de Glória, que é a Cruz (veja‑se aqui demoradamente Romanos 3,24‑25), tomando posse da sua Igreja‑Esposa para o efeito redimida na «água e no sangue» (João 19,34; Efésios 5,25‑27), isto é, no Espírito Santo, conforme ensina Jesus com «voz forte» (!) no grande texto de João 7,37-39. Para aqui apontava também a «caminhada» quaresmal, a qual – vê‑se agora claramente – só daqui podia afinal ter partido. É este «o Mistério Grande» (Efésios 5,32) que nos foi dado a conhecer por Deus (Romanos 16,25‑26; 1 Coríntios 2,7‑10; Efésios 3,3‑11; Colossenses 1,26‑27). E só Deus pode dar tanto a conhecer (veja‑se agora o texto espantoso de Efésios 3,14‑21). É quanto Deus operou na Cruz! Por isso, exultamos e nos alegramos (com a Chará, a alegria grande da Páscoa), pois «este é o Dia que o Senhor fez» (Salmo 118,24) e em que o Senhor nos fez! É o «Primeiro Dia» (Mateus 28,1; Marcos 16,2 e 9; Lucas 24,1; João 20,1 e 19; Atos 20,7; 1 Coríntios 16,2), e tal permanecerá para sempre (!), o «Dia do Senhor, o Dia Grande» (Atos 2,20; Apocalipse 1,10), o Domingo, todos os Domingos, o Ano Litúrgico todo, o Ano da Graça do Senhor, em que a Igreja‑Esposa, redi­mida, santificada, bela (apresentada no Apocalipse com voz forte), celebra jubilosamente o seu Senhor, à volta do al­tar, do ambão, do batistério: tudo «sinais» do túmulo aberto do Senhor Ressuscitado, donde emerge continuamente a mensagem da Ressurreição. Aleluia!

2. O Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor oferece-nos o grande texto de João 20,1-10, com a descoberta do túmulo aberto, mas não vazio! Túmulo aberto: a pedra muito grande (Marcos 16,4) do poder da morte tinha sido retirada, e o Anjo do Senhor sentou-se sobre ela (Mateus 28,2), impressionante imagem de soberania e vitória! Mas não vazio: está, na verdade, cheio de sinais, que é preciso ler com atenção: um jovem sentado à direita com uma túnica branca (Marcos 16,4), dois homens com vestes fulgurantes (Lucas 24,4), as faixas de linho no chão e o sudário enrolado noutro lugar (João 20,6-7). É importante ler os sinais e ouvir as mensagens! Se o túmulo estivesse vazio, como vulgarmente e inadvertidamente dizemos, estávamos perante uma ausência cega e muda. Na verdade, os sinais e as mensagens mostram uma presença nova que somos convidados a descobrir.

3. O texto imenso de João 20,1-10 coloca-nos ainda diante dos olhos o início de diferentes percursos por parte de diferentes figuras face aos sinais encontrados ou ainda não, lidos ou ainda não:

4. A Madalena vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e vê, com um olhar normal (verbo grego blépô) que até causa aflição a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus(João 20,1), tal é o significado imposto por êrménos, particípio perfeito passivo de aírô. De facto, até dói e aflige que se veja o inefável como quem vê uma coisa qualquer, cegos como estamos tantas vezes pelos nossos preconceitos! Esta pedra para sempre retirada por Deus reclama e estabelece contraponto com a pedra por algum tempo retirada (aoristo de aírô) pelos homens do túmulo de Lázaro (João 11,39 e 41). Cega pelos seus preconceitos, a Madalena falha a visão do inefável, e corre logo, equivocada, a levar uma falsa notícia: «Retiraram (êran: aor. de aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (João 20,2). Mas o leitor atento e competente do IV Evangelho não estranha esta cegueira da Madalena. É que o narrador informa-nos que ela anda ainda no escuro (João 20,1), e, no IV Evangelho, quem anda na noite e no escuro, anda perdido na incompreensão e na cegueira, e nada entende ou dá bom resultado. A oposição luz – trevas atravessa de lés-a-lés o inteiro texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os homens é Jesus (João 1,9). Sem esta Luz que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na cegueira, na dor, no fracasso, na incompreensão. É assim, narrativamente – e, portanto, exemplarmente, para nós, leitores –, que somos levados a constatar como Nicodemos, que anda de noite (João 3,2) e nada entende, como os discípulos, que nada pescam de noite (João 21,3) e no meio do escuro andam perdidos (João 6,17-18), como o homem da noite na noite perdido, que é Judas (João 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido na noite e no meio dos guardas (João 18,17-18).

5. A notícia levada pela Madalena põe em movimento Simão Pedro e o «discípulo amado». Anote‑se a progressão e repare-se atentamente nos verbos utilizados: 1) Maria Madale­na vai ao túmulo, e vê (blépô) a pedra(da morte) retirada. 2) O outro discípulo, «o discípulo amado», corria juntamente com Pedro, mas chegou primeiro (!), inclina-se e vê (blépô) as faixas de linho no chão. 3) Pedro, que corria juntamente com «o discípulo amado», mas SEGUINDO-O e chegando depois… Na verdade, ainda em João 18,15, os dois SEGUIAM Jesus, que é a correta postura do discípulo. Pedro, porém, não SEGUIU Jesus até ao fim: ficou ali estacionado no pátio do Sumo-Sacerdote! Mais do que isso e pior do que isso, em vez de estar com Jesus, Pedro ficou com os guardas, a aquecer-se com os guardas! (João 18,18). Pedro, portanto, não fez o curso ou o percurso de discípulo de Jesus até ao fim! Deixou por fazer umas quantas unidades curriculares. É por isso que agora tem de SEGUIR alguém que tenha SEGUIDO Jesus até ao fim. É por isso, e só por isso – nada tem a ver com idades (Pedro mais idoso, o «discípulo amado» mais jovem!) – que Pedro tem agora de SEGUIR o «discípulo amado», chegando naturalmente ao túmulo atrás dele. Note-se ainda que, não obstante um ir à frente e o outro atrás, correm os dois juntos. É aquilo que ainda hoje vemos na catequese e na mistagogia cristãs: corremos sempre juntos, mas alguém vai à frente, para ensinar o caminho aos outros! Belíssima comunhão em corrida!

6. Pedro, que corria juntamente com o «discípulo amado», mas SEGUINDO-O, entra no túmulo que o «discípulo amado» cuidadosamente sinaliza e lhe aponta (ele é o grande sinalizador de Jesus: veja-se João 13,24 e 21,7), e vê (theôréô: um ver que dá que pensar e que abre para a fé: cf. João 2,23; 4,19; 6,2.19.40.62) as faixas de linho no chão e o sudário que cobrira o Rosto de Jesus, à parte, dobrado cuidadosamente, como «sinal» do Corpo ausente do Ressuscitado! Conclusão: o corpo de Jesus não foi roubado, como supôs a Madalena equivocada! Os ladrões não costumam deixar a casa roubada tão em ordem! Por isso, Pedro vê com o olhar de quem fica a pensar no que se terá passado… Talvez seja coisa de Deus… Com a indica­ção preciosa de que o véu foi cuidadosamente retirado do seu Rosto, a Revelação convida agora a contemplar o Rosto divino no Rosto humano do Ressuscitado: vendo‑o a Ele, vê‑se o Pai (cf. João 14,9).

7. «O discípulo amado» entrou, viu com um olhar histórico (tempo aoristo) de quem vê por dentro a identidade (verbo grego ideîn), e acreditou (v. 8). É o olhar de quem vê o inefável, verdadeiro clímax do relato: anote‑se a passagem do verbo ver do presente para o aoristo, e de fora para dentro: «o discípulo amado» viu na história a identidade dos «sinais»: toda a Economia divina realizada! O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde.

8. A narrativa de João 20 abre com a Madalena, que vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e vê, com um olhar normal (verbo grego blépô) a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus (João 20,1), tal é o significado imposto por êrménos, particípio perfeito passivo de aírô. Conforme a grandiosa narrativa, a Madalena tem diante dos olhos o inefável. Mas cega como está pelos seus preconceitos, a Madalena falha a visão do inefável, e corre logo, equivocada, a levar uma falsa notícia: «Retiraram (aoristo de aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (João 20,2). Não é de admirar, dado que a Madalena anda pelo escuro, e, no IV Evangelho, quem anda no escuro ou na noite, não vê a Luz.

9. Ainda que não faça parte do Evangelho deste Dia Grande, vale a pena, para que não fique perdido, acostar aqui o percurso que a Madalena continua a fazer em João 20,11-18. Mudou de olhar. Aparece agora junto do túmulo a chorar, inclina-se e vê, agora também (como Pedro) com um ver que dá que pensar (verbo grego theôréô), dois anjos vestidos de branco (cor divina), estrategicamente colocados no túmulo, como sinais. Perguntam à Madalena: «Mulher, por que choras?». Na verdade, ela ainda está do lado da morte, do escuro, da dor, da tristeza. A paisagem em que se move ou a página que a move ainda é o Capítulo 19 de João, daquele Jesus morto por mãos humanas retirado (João 19,38), daquele Rei por mãos humanas retirado (João 19,15[2x]), ou até daquela pedra por mãos humanas retirada do túmulo de Lázaro (João 11,39 e 41) – em todos os casos o verbo aírô no aoristo –, não sabendo ainda ler a pedra para sempre retirada por Deus, de João 20,1. É ainda à procura de um corpo morto que ela anda. De um corpo morto a que ela se acha com direito de posse. Talvez seja este o preconceito que lhe tolhe o olhar e a impede de ver o inefável. Na verdade, responde assim à pergunta feita pelos dois anjos: «Retiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram» (João 20,13). Note-se outra vez o aoristo do verbo aírô, e note-se agora também o possessivo «meu» afeto a Senhor.

10. Voltando-se para o jardim, vê, outra vez com um ver que dá que pensar (theôréô), um homem de pé, que ela pensa ser o jardineiro, mas que, na verdade, é Jesus, que a deixa espantada com a segunda pergunta que lhe faz: «Mulher, por que choras? (normal, pois ela continuava a chorar); a quem procuras?». Esta segunda pergunta desvenda a Madalena, retirando-a dos preconceitos que a cegam. Precedendo-a, antecipando-se a ela, adivinhando-a com aquela pergunta direita ao coração, Jesus dá-se a conhecer à Madalena, deixando-a a pensar mais ou menos assim: «E como é que este desconhecido sabe que eu ando à procura de alguém neste jardim?». Compreendendo-se compreendida, a Madalena começa a sair aqui da sua cegueira, mas ainda precisa de algum tempo para mudar de paisagem, de margem, de página, do Capítulo 19 para o Capítulo 20. A resposta que dá é elucidativa: «Se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu o retirarei» (João 20,15).

11. Ao responder com um pronome três vezes repetido, que esconde o nome, vê-se bem que a Madalena sabe que aquele desconhecido bem sabe quem ela procura. E confessa aqui o intento que desde aquela madrugada, ainda escuro, a movia: retirar para si aquele corpo morto! Manifesta que anda ainda perdida no Capítulo 19, quando responde «em hebraico» (hebraïstí) a Jesus que acabava de pronunciar o nome dela: «Maria!» (João 20,16). A locução adverbial «em hebraico» (hebraïstí) é uma ponte para João 19,13 e 17. Equivocada como anda, ainda quer reter o Ressuscitado, mas não pode: aprende ainda que nada nem ninguém pode reter o Ressuscitado, aquela vida nova, aquele modo novo de estar presente! Leva tempo até passar da margem da morte para a margem da vida verdadeira! E finalmente vai anunciar aos discípulos, que Jesus significativamente chama «meus irmãos» (João 20,17), enviada pelo Ressuscitado: «Vi (heôraka) o Senhor!» (João 20,18). Nova mudança de olhar. O que ela diz agora é: Vi e continuo a ver o Senhor! É o que significa o verbo grego horáô, no tempo perfeito. É o olhar da testemunha que vê o inefável! Aqui termina a Madalena o seu longo e belo percurso, e sai de cena.

12. Os primeiros cristãos rapidamente fizeram do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto, que o Imperador Adriano (117-138) soterrou e paganizou, estabelecendo ali cultos pagãos (no lugar da Ressurreição, colocou a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore), com o intuito de desviar deles os cristãos. O mesmo fez em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, Em 326, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, que aí terá descoberto a Cruz do Senhor, mandou demolir as construções pagãs, e vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela Anástasis, grandioso mausoléu que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota, e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a veneração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. Esta comemoração ganhou novo relevo quando, em 630, o imperador Eráclio derrotou os Persas, e as relíquias da Cruz foram trazidas processionalmente para Jerusalém. Esta bela Basílica Constantiniana foi danificada por diversas invasões e ocupações. A atual Basílica do Santo Sepulcro, que os ortodoxos e os árabes chamam Anástasis e Qiyama, termos que em grego e árabe significam «Ressurreição», é fruto de cinquenta anos de trabalho dos Cruzados (1099-1149). Aqui estão guardadas as mais fundas raízes da nossa vida cristã, hoje quase uma espécie de «condomínio» de três Igrejas cristãs, infelizmente separadas entre si: a igreja greco-ortodoxa, a romano-católica e a armena. Aqui se sente ao vivo a mesma e comum fé pascal, mas também o drama da separação.

13. Na Leitura que hoje escutamos do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-43), os Apóstolos dão testemunho do que viram. Foi‑lhes dado ver exatamente para dar teste­munho. Viram e testemunham o Batismo de Jesus, a execução da sua missão filial batismal, a sua Morte na Cruz, a sua Ressurrei­ção Gloriosa, a sua Vinda Gloriosa. Mas os Apóstolos insistem que também os Profetas [= Antigo Testamento] dão testemunho d’Ele Ressuscitado, no qual se cumpre para nós a «remissão dos pecados», o Jubileu divino do Espírito Santo (v. 43). A base profética é imponente: Jeremias 31,34; Isaías 33,24; 53,5‑6; 61,1; Ezequiel 34,16; Daniel 9,24. Ver depois João 20,19‑23. «As Escrituras» (então o Antigo Testamento) apontam para o Ressuscitado! O Ressuscitado remete para «as Escrituras». Cumplicidade entre o Ressuscitado e «as Escrituras». Na verdade, o Ressuscitado cumpre e enche as «Escrituras». Não está depois delas ou no fim delas. Está no meio delas, fá-las transbordar, transborda delas.

14. O Capítulo III da Carta aos Colossenses (3,1-4) trata a «vida nova» em Cristo, que é vida batismal, operada pelo Espírito Santo que faz morrer e renascer na Fonte da Graça. Por isso, adverte solenemente Paulo: «procurai as coi­sas do alto» (v. 1), «pensai as coisas do alto» (v. 2), exorta­ção que ecoa ainda no Diálogo que antecede o Prefácio: «Corações ao alto!», a que respondemos com a alegria e a sabedoria do Espírito: «O nosso coração está em Deus!», enquanto ecoa ainda em cada coração habitado pelo Espírito o «Glória a Deus nas alturas!».

15. Em alternativa a Colossenses 3,1-4, pode ler-se e escutar-se 1 Coríntios 5,6-8. A sua linguagem é da cor da Páscoa (grego páscha, hebraico pesah). O Novo Testamento usa o termo grego páscha [= Páscoa] por 28 vezes, assim distribuídas: 24 vezes nos Evangelhos + Atos 12,4 e Hebreus 11,28, todas em referência exclusiva à Páscoa hebraica do Antigo Testamento; as duas menções que faltam são precisamente 1 Coríntios 5,7 e Lucas 22,15, esta com o precioso lógion de Jesus: «Desejei ardentemente esta Páscoa (toûto tò páscha) comer convosco». Em 1 Coríntios 5,7, lemos a expressão tò páscha hêmôn etýthê Christós, cuja tradução não pode ser «Cristo, a nossa Páscoa, foi imolado», como se vê habitualmente, mas «durante a nossa Páscoa (hebraica), foi imolado Cristo». Os motivos são gramaticais (tò páscha hêmôn é um acusativo adverbial) e teológicos: o cordeiro da páscoa não é um sacrifício imolado; não é queimado sobre o altar; não é oferecido ao Senhor (só o que é oferecido ao Senhor é sacrifício); é convivialmente comido em família. Sacrifício da Páscoa era a ʽôlat-tamid, o holocausto perpétuo, diário, o sacrifício de dois cordeiros, filhos de um ano, um de manhã e outro de tarde, conforme Êxodo 29,38-42 e Números 28,3-8, e que, sendo diário, precedia qualquer celebração festiva. Só depois deste sacrifício quotidiano, se procedia, em dias de festa, como é a Páscoa, ao sacrifício da festa propriamente dito, sacrifício suplementar, e que, na Páscoa, consistia num «sacrifício de ovelhas e bois», este sim, «Páscoa imolada para o Senhor» (Deuteronómio 16,2). De notar também que o Novo Testamento desconhece em absoluto o adjetivo «pascal», de que nós fazemos uso indiscriminado, e não pensado. A restante linguagem da cor da Páscoa que 1 Coríntios 5,6-8 mostra é o fermento (hamets) e os pães ázimos (matstsôt). Servem os termos para Paulo reclamar dos cristãos vida nova (pães ázimos), sem malícia (fermento velho).

António Couto


CELEBRAÇÃO DA VIGÍLIA PASCAL

Abril 3, 2021

1. «Este é o Dia que o Senhor fez!» (Salmo 118,25). Aleluia! Este é o Dia que o Senhor nos fez! Aleluia! Este é o Dia em que o Senhor nos fez! Aleluia! «Por isso, estamos exultantes de alegria» (Salmo 126,3). Aleluia!

2. Este é o Dia em que desfiamos com amor o rosário das tuas maravilhas, tantas elas são, percorrendo a avenida das tuas Escrituras desde a Criação até à Páscoa, desde a Páscoa até à Criação. Tanto faz. Porque neste Dia novo o tempo não nos mede e nos afasta e nos cataloga em séculos e milénios, mas põe-nos todos a conviver lado a lado. É assim que lemos e compreendemos que no teu «Filho amado», Jesus Cristo, Imagem tua e «primogénito dos mortos», «tudo foi criado» (Colossenses 1,16), «e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Lemos e compreendemos que o «teu Filho, Jesus Cristo, não foi Sim e não, mas unicamente Sim» (2 Coríntios 1,19). Passeámos assim no jardim da tua Criação boa e bela, visitámos as suas 452 palavras (Génesis 1,1-2,4a), e nelas não encontrámos, de facto, um único «não». Se o teu Filho amado, Jesus Cristo, Imagem tua e primogénito dos mortos, foi sempre Sim e nunca não, e se foi n’Ele que foram criadas todas as coisas, então a Criação inteira tem também de ser Sim, Sim, Sim, e nunca não.

3. Que belo mundo novo, Senhor, quiseste depositar nas nossas mãos! Que grande Sim nos confiaste, Senhor, antes de nós merecermos de Ti qualquer confiança! Visitámos depois o Egito opressor, e de lá, Tu nos libertaste, Senhor, fazendo-nos atravessar a pé enxuto o mar Vermelho, como se fosse uma «planície verdejante» (Sabedoria 19,7). Vestíamos roupas brancas, trazíamos o coração em festa, e nos lábios um cântico novo, como sucede também ainda hoje, Senhor, neste Dia admirável da tua Ressurreição, em que cantamos outra vez com inefável alegria: «Minha força e meu canto é o Senhor! A Ele devo a minha liberdade!» (Êxodo 15,2).

4. Com Isaías e Ezequiel, recordámos depois as paisagens tristes e sombrias do nosso exílio, mas também da tua admirável proteção. Diz uma velha história rabínica que, um dia, «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o arguto rabino terá respondido que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas, gastando o nosso dinheiro com aquilo que não alimenta, e esquecendo o teu insistente convite: «Vinde e comprai sem dinheiro vinho e leite […]. Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom» (Isaías 55,1-3). Era assim que andávamos, Senhor, perdidos longe de ti e longe de nós. Mas também lá, à perdição em que andávamos, chegou a tua mão criadora, redentora, libertadora e carinhosa, e reconstruíste a nossa vida sobre a alegria, embelezaste o nosso rosto com óleo perfumado, e vestiste-nos com a veste branca dos teus filhos. E como se isto não enchesse a medida do teu amor sempre sem medida, ainda fizeste connosco uma Aliança nova, e deste-nos um coração novo e um espírito novo, nova pulsação, nova alegria, novo alento, em pura sintonia com o pulsar do teu coração e do teu sopro criador.

5. Coração novo, música nova, ensinada pelos Anjos nos campos de Belém: Gloria in Excelsis Deo! Outra vez lado a lado, oh milagre da Escritura Santa, dois acontecimentos no tempo separados: o nascimento de Jesus e a sua morte e Ressurreição: os mesmos Anjos, as mesmas faixas a envolver o Menino e o Crucificado, o Menino deposto na manjedoura, o Crucificado deposto no sepulcro. Extraordinária acostagem do Menino e do Crucificado. E S. Paulo a descodificar o nosso Batismo, pelo qual somos sepultados com Cristo, para com Ele ressurgirmos para uma vida nova (Romanos 6,3-5).

6. E assim chegamos sempre ao Ressuscitado. Àquele Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras, que se levanta do chão raso e da folha plana de papiro ou de papel, elevando a humana vida e a inteira Escritura à sua Plenitude. Era, na verdade, muito grande aquela pedra que barrava a entrada e a saída do sepulcro (Marcos 16,3-4). Quem a pode retirar? A pedra da morte é sempre intransponível para as nossas forças. Tem, por isso, de ser trabalho de Deus. É assim que as mulheres que vão de madrugada ao sepulcro, veem com espanto a pedra do sepulcro para sempre retirada (apokekýlistai: perf. pass. de apokylíô), e, entrando, veem, com não menor espanto, um Anjo vestido de branco, sentado do lado direito.

7. A pedra muito grande retirada, no tempo perfeito, representa a porta da habitação da morte para sempre aberta. O modo passivo (passivo divino ou teológico) do verbo revela que um tal operar é coisa só Deus. O facto de o Anjo aparecer sentado significa que tem autoridade. O lado direito é o lado favorável (cf. Marcos 12,36; 14,62), e sugere que é portador de boas notícias. A cor branca é a cor celeste (cf. Marcos 9,3). Só do Anjo pode vir este dizer com autoridade: «Procurais Jesus de Nazaré, o Crucificado? Ressuscitou; não está aqui (…). Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que Ele vos precede na Galileia. Lá o vereis, como vos disse» (Marcos 16,6-7). Ao mandar levar a notícia aos seus discípulos, acrescenta especificamente o nome de Pedro. É como que o reconhecimento de que o arrependimento e as lágrimas de Pedro pela sua tríplice negação (Marcos 14,66-72) foram aceites. É quase como dizer que, ao contrário do «não conheço esse homem», dito por Pedro a respeito de Jesus (cf. Marcos 14,71), Jesus manda dizer, por meio do Anjo: «mas Eu conheço-te, Pedro, e ver-me-ás de novo». Fica ainda claro que Ele nos precede sempre, e que, portanto, o nosso verdadeiro lugar é sempre «atrás d’Ele», que permanece sempre o único Senhor e o caminho único da nossa vida.

8. O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde. É por isso que a Paixão é um relato, mas a Ressurreição, que põe fim ao relato, só nos pode chegar como Notícia, vinda de fora, como a Aurora.

9. É por isso que esta Noite é uma fulguração de Luz e Lume novo. Desde as brasas acesas, ao Círio Pascal aceso, ao nosso coração aceso como o dos discípulos de Emaús. É também por isso que o Batismo começou por ser chamado «Iluminação», sendo a Vigília Pascal também a grande Noite Batismal. E cada batizado levará para sempre a arder dentro de si este Lume, de que não pode fugir, e que ninguém pode apagar.

10. Lume novo, lareira acesa na cidade,/ És Tu, Senhor, o clarão da tarde,/ A notícia, a carícia, a ressurreição./ Ilumina, Senhor, a tua Igreja Santa, e os seus novos filhos que hoje nascem na fonte batismal. Que os nossos passos sejam sempre firmes, e o nosso coração sempre fiel. Vem, Senhor Jesus! Aleluia!

António Couto


OUSAR DIZER «PAI NOSSO»

Fevereiro 17, 2021

1. Entrados pelo Novo Testamento adentro, eis que Deus nos aparece agora como «Pai» e como «Filho» no plano pessoal. Dizer que o Deus bíblico é «Pai» é uma afirmação de uma enorme ousadia, pois implica reconhecer a sua proximidade carinhosa e de extrema ternura em relação a nós, mantendo embora a sua transcendência, obviamente sem confusão de naturezas. Mas dizer agora que o Deus bíblico é também «Filho» é de uma ousadia ainda maior, pois confessar que Deus é «Filho» é dizer que Deus é também recetividade.

2. Este «Filho» Deus, Jesus, que, sem rutura nem descontinuidade, recebe tudo o que tem e é, do Pai (Mt 11,27; Jo 3,35; 10,18; 13,3; 17,7; Ap 2,28) – a sua identidade de «Filho» consiste em receber tudo do Pai –, revela o Pai. Revela o Pai naquilo que diz e naquilo que faz. Bastaria uma vista de olhos por algumas parábolas que ele conta para vermos o rosto do Pai de misericórdia ou «das misericórdias» ou «compaixões» (ho patêr tôn oiktirmôn) (2 Cor 1,3). O texto clássico é a chamada «parábola do filho pródigo» (Lc 15,11-32), mais facilmente compreensível se se intitular «parábola do Pai das misericórdias», dado que é o Pai a personagem central do relato. Mas fixemo-nos na oração do «Pai nosso», que é sem dúvida um dos mais privilegiados acessos ao Deus «Pai» da Bíblia.

3. Já sabemos que os Evangelhos nos oferecem duas versões dessa oração: Mt 6,9-13 e Lc 11,2-4. Começamos pela versão de Lucas, que pode muito bem trazer-nos o contexto primitivo. Nesta versão, a oração ao Pai compõe-se de cinco pedidos. Jesus aparece ao fundo da cena, a rezar sozinho ao Pai, totalmente voltado para o seio do Pai (Jo 1,18), completamente ocupado nas Realidades do Pai (Lc 2,49), repousando toda a sua existência no Pai. Os discípulos veem Jesus a rezar, mas não ousam interromper tão intensa corrente de confiança e de amor. Veem apenas. O deslumbramento tolhe-lhes os movimentos e as palavras. Mas eis que Jesus termina a sua oração ao Pai. Então, ainda extasiado, um dos discípulos, em nome de todos – também em nosso nome –, atreveu-se a formular este pedido: «Senhor, ensina-nos a rezar como João Batista ensinou a rezar os seus discípulos!».

4. E foi então que Jesus ensinou a eles e a nós, a todos, o segredo mais profundo da sua vida e da nossa vida, a orientação da sua vida e da nossa vida: para onde, melhor, para quem devem estar sempre voltados o nosso coração, os nossos olhos, as nossas mãos, os nossos pés, a nossa vida toda. E disse:

«Quando rezardes, dizei:

Pai (páter),

1. Santifica o teu Nome,

2. Venha o teu Reino,

3. Dá-nos o pão nosso (árton hêmôn) de cada dia,

4. Perdoa os nossos pecados,

5. Não nos deixes cair na tentação”» (Lc 11,2-4).

Compreendemos bem, e os especialistas referem-no, que não se trata de uma lição teórica, mas da comunicação de uma experiência.

5. Na versão de S. Mateus, a oração do «Pai nosso» compõe-se de sete pedidos, está integrada de forma redaccional no contexto amplo do grande «Sermão da Montanha» (Mt 5-7), de que ocupa o centro da composição dos três Capítulos, como se pode ver no seguinte diagrama, da responsabilidade de Marcel Dumais:

(A) Mt 5,1-2 = Audiência: discípulos e multidões

(B) Mt 5,3-16 = Introdução: Felicitações e Declarações

(C) Mt 5,17-19 = A Lei e os Profetas

(D) Mt 5,20-48 = Seis antíteses

(E) Mt 6,1-4 = Esmola

(F) Mt 6,5-15 = PAI NOSSO

(E’) Mt 6,16-18 = Jejum

(D’) Mt 6,19-7,11 = Entesourar, inquietar-se, julgar, pedir

(C’) Mt 7,12 = A Lei e os Profetas

(B’) Mt 7,13-27 = Conclusão: Exortações

(A’) Mt 7,28-29 = Audiência: reacção das multidões: ensino com autoridade

O seu contexto restrito são os ensinamentos acerca da esmola (eleêmosýnê) no segredo (en tô kryptô) (6,1-4), da oração no segredo (6,5-6) e do jejum no segredo (6,16-18). Vê-se bem que, neste contexto restrito das três práticas fundamentais da piedade judaica, a oração aparece interposta entre a esmola e o jejum, isto é, em termos retóricos, ocupa o lugar privilegiado: o centro. No que se refere àquela insistência «no segredo», salta à vista que a prática da piedade judaica, com a oração em destaque, é posta no seguimento do grande Salmo 51,8: «Eis que de verdade Tu te comprazes no íntimo (tuhôt TM = o que está debaixo do reboco),/ e no segredo (satum TM;  tà krýphia LXX) a sabedoria Tu me fazes conhecer». Rezar, que é ousar pôr-se, não diante dos homens, mas diante de Deus, faz-se, portanto, «no segredo», na cripta, no íntimo, debaixo do reboco, sem fingimento, sem máscaras, sem qualquer verniz social, cultural, económico, religioso. Rezar é um ato de verdade, sem defesa, sem reboco. O reboco é a caliça que esconde a verdade da parede. Podemos viver caiados, mascarados, betumados, rebocados. Rezar é tudo por debaixo disso. Desde a medula dos ossos ou desde o coração.

«Portanto, rezai assim:

Pai nosso (páter hêmôn) que estás nos Céus,

1. Santifica o teu Nome,

2. Venha o teu Reino,

3. Faça-se a tua Vontade,

4. Dá-nos hoje o pão nosso (árton hêmôn) deste dia,

5. Perdoa os nossos pecados,     

6. Não nos deixes cair na tentação,

7. Livra-nos do mal”» (Mt 6,9-13).         

6. É convicção assente entre os especialistas que o contexto de Lucas é de preferir ao de Mateus, claramente redaccional. Mas também o texto mais curto de Lucas parece ser em geral mais primitivo, a começar pela invocação («Pai» / «Pai nosso que estás nos Céus»). A passagem de cinco para sete pedidos resulta do acrescento de dois pedidos, um no final da primeira parte, outro no final da segunda. Cinco ou sete pedidos que Jesus nos ensinou a dirigir ao Pai. Sim, antes de mais, Jesus ensinou-nos a estar perante Deus com total confiança, simplicidade e verdade, tal como uma criancinha com o seu «papá» (’abba’) ou com a sua «mamã» (’imma’), em quem a criancinha vê a única direção da sua vida, a proteção e a defesa, o socorro e o sustento, a confidência que nunca engana. De acordo com os Evangelhos, sempre que Jesus se dirige a Deus, emprega a expressão «meu Pai», exceto num único caso, que é o grito na Cruz: «meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mc 15,34), que é uma citação do Salmo 22,2. Mas Joachim Jeremias faz-nos ver ainda que sempre que Jesus, na sua oração, se dirigia a Deus como ao seu Pai, se servia do termo aramaico ’abba’ (Mc 14,36), termo que chegou, de resto, na língua aramaica, a tomar o sentido de «o pai» e «meu pai», e a substituir de vez em quando «seu pai» e «nosso pai». Esta invocação, que ressoa ainda nas primeiras comunidades cristãs (Rm 8,15; Gl 4,6) traduz a total liberdade e confiança (parrêsía) de quem reza. Por isso, Jesus não quis que invocássemos a Deus apenas com o nome adulto de «Pai» (՚Ab), título institucional que podia deixar perceber alguma frieza, distância, respeito e autoridade. Como sabemos, já no Antigo Testamento e nos textos judaicos, os hebreus e judeus piedosos, com imenso respeito e adoração, falavam de Deus ou a Deus com o nome de «Pai». Jesus, porém, queria dizer uma realidade nova, e por isso recorreu ao aramaico ’Abba’ [= Papá], linguagem hipocorística [= Ab-bá / im-má // pap-pá / mam-mã], uma Lallwort de intolerável confiança, que nunca encontramos no AT nem nas inúmeras orações judaicas. Era impensável para um judeu chamar a Deus ’Abba’, termo que pertence à linguagem infantil familiar. Ao adotar esta invocação sem precedentes na piedade de Israel, dirigindo-se a Deus como uma criança ao seu papá, sem qualquer distância ou temor – digamos mesmo sem nenhum respeito! –, mas com imensa ternura e carinho, Jesus desvela o verdadeiro Rosto de Deus, ao mesmo tempo que mostra a sua (e a nossa) inaudita confiança n’Ele. É por isso que basta «o pão de um dia!». Neste particular, é de preferir o texto de Mateus («dá-nos hoje o pão deste dia») ao de Lucas («dá-nos o pão de cada dia»). O pedido «Dá-nos hoje o pão deste dia» acentua a nossa radical confiança em Deus e dependência de Deus. O imperativo aor2 dós (de dídômí) concerne um ato único (com a precisão do «hoje», sêmeron), ao contrário do imperativo presente dídou, de Lucas, que é iterativo, traduzindo atos repetidos de dar, e do kath’ êméran [= cada dia]. De acordo com o texto de Mateus, uma sentença do rabino Eleazar de Modim (séc. II) diz: «Aquele que tem que comer hoje e diz: “Que comerei amanhã?”, é um homem de pouca fé».

7. De notar ainda que, não obstante os pedidos serem 5 em Lucas e 7 em Mateus, o pedido do centro (n.º 3 em Lucas; n.º 4 em Mateus), que é o que estrutura ou concentra a oração, permanece o mesmo: «Dá-nos o pão deste dia»! O pão de um dia! (cf. Ex 16,4). É ainda importante notar que este pedido central é o único que se coaduna com a invocação «Pai nosso» ou «Pai», pois o pai é, por natureza, aquele que dá o pão. Se é sobre este pedido que se concentra toda a oração, então ele define a verdadeira atitude com que se pode rezar a inteira oração dos 5 pedidos ou dos 7 pedidos diante de Deus. Ora, acontece que a maioria de nós já não tem jeito nenhum para fazer um pedido assim. Quem sabe pedir pão com verdade e simplicidade são as criancinhas. E é, de facto, a única atitude correta para se «tratar» com o «papá» ou com a «mamã». Total abandono e confiança.

8. Em última análise, é esta atitude que identifica a fé bíblica, que é, segundo a DV, 5, a entrega total e livre do homem a Deus. É uma atitude pessoal, psicobiológica, de total abandono em Deus, única realidade a que nos podemos agarrar para estarmos «seguros», «firmes». «Fé» ou «fidelidade» diz-se em hebraico emunah. emunah vem do verbo ’aman (= segurar, firmar) que assenta numa etimologia tipicamente maternal: ՚em, ’omen. ՚em significa «mãe»; ’omen é a mãe, ou a «ama» que transporta uma criancinha (’amûn: ainda a mesma etimologia) nos braços (Nm 11,12) ou o pedagogo que a educa. A criancinha agarra-se [= segura-se] com todas as suas forças à sua «mamã», única verdadeira direção da sua vida, única segurança que conhece (nada sabe da polícia ou do dinheiro…). E o mesmo se passa do lado da «mamã» em relação à criancinha que transporta nos braços. Por nada deste mundo a abandona. E se a abandonar, o Senhor a acolherá (Sl 27,10). É esta segurança de pessoalíssima confiança que é a fé bíblica, de que o «Pai nosso» é expressão privilegiada, deixando-nos entrever em contraluz um Deus que nos ama entranhada e carinhosamente (e é isto a «compaixão» bíblica = rahamîm) e que sorri para nós com um sorriso condescendente enquanto nos embala nos seus braços paternais e maternais (e é isto a «graça» bíblica = hen).

9. Conhecemos todos a fórmula introdutória do «Pai nosso» na liturgia romana: «Fiéis aos ensinamentos do Salvador, ousamos dizer: “Pai nosso…”». A fórmula introdutória na liturgia grega é ainda mais expressiva: «Torna-nos dignos, Senhor, de ousar com confiança (parrêsía) e sem incorrer na tua reprovação, invocar-te como Pai, a ti, o Deus do céu, e dizer: “Pai nosso”». Ousar dizer «Pai nosso» é diferente de dizer «Pai meu». Ousar dizer «Pai nosso», e não apenas «Pai meu», com toda a verdade, confiança e liberdade, implica, portanto, que o orante tenha à sua volta um mundo de irmãos. Um mundo só de irmãos. E, portanto, evangelicamente, «se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta» (Mt 5,23-24). Verdadeiramente, ousar dizer «Pai nosso» implica toda uma revolução na vida. Implica um coração puro, solidário, fraternal, filial.

António Couto


IMITADORES DE CRISTO

Fevereiro 12, 2021

1. O Evangelho de Marcos 1,40-45, que neste Domingo VI do Tempo Comum temos a graça de ver e de escutar, continua a mostrar que Jesus, que é «o Reino de Deus em pessoa» (autobasileía, como bem refere Orígenes [185-254], insigne mestre das escolas de Alexandria e de Cesareia Marítima), Aquele que se fez nosso próximo para sempre (Marcos 1,15), continua a passar pelos nossos caminhos, a cruzar-se com as nossas dores e a assumi-las sobre si, curando a nossa pele chagada e o nosso esclerosado coração. Sim, o Evangelho de hoje não é apenas para ouvir. É também para ver atenta e demoradamente, pois oferece aos nossos olhos, sobretudo ao olhar do coração, o cenário extraordinário de um leproso ajoelhado aos pés de Jesus, que provoca a comoção visceral de Jesus, entenda-se o amor maternal de Jesus, levando-o a estender a sua mão soberana sobre o leproso, como fez Deus em ação de condescendência e de libertação no Livro do Êxodo, e a tocar no leproso sem receio de qualquer contágio.

2. A cena evangélica é comovente e surpreendente, desarmante, como é sempre, para a pobre e aplanada esquadria do nosso olhar, para os nossos trejeitos e preconceitos, a notícia ousada, boa e feliz que se chama Evangelho. Contra todas as regras estabelecidas, que impunham aos leprosos o isolamento e a distância de Deus (não podiam frequentar o Templo ou a sinagoga) e dos homens (não podiam entrar nas povoações), a que se associava o facto de terem de andar com o rosto escondido por qualquer trapo de miséria, e ainda o grito de «impuro, impuro», que deviam trazer sempre nos lábios (Levítico 13,45), para que as pessoas ditas boas e saudáveis, ao ver um homem sem rosto e ao ouvir o seu grito, dele se pudessem distanciar o mais possível, pondo-se a seguro do impuro. Deixando tudo isto na penumbra, eis hoje um leproso que ousa aproximar-se de Jesus e colocar-se de joelhos diante dele, implorando dele a cura (Marcos 1,40). É, nos Evangelhos, o único doente que se coloca de joelhos diante de Jesus, implorando a sua cura. O gesto é o seu verdadeiro pedido, que as palavras que diz apenas iluminam. Ele sabe que a sua cura só pode ser um dom de Deus.

3. Um leproso, diziam os rabinos, era como um morto em vida. Separado de Deus e da comunidade do louvor de Deus, isto é, da comunhão de vida com Deus, o leproso em tudo se assemelhava aos mortos, que também estavam separados de Deus e fora do louvor de Deus, que é a verdadeira nascente da vida (Salmo 6,6; 88,6; Isaías 38,18). Neste sentido, o Livro de Job define a lepra como o «primogénito entre os mortos» (Job 18,13). Tanto assim era que uma eventual cura da lepra suscitava então o mesmo efeito, o mesmo espanto, de uma ressuscitação da morte!

4. As vísceras maternais de Jesus comovem-se (splagchnízomai) quando vê o estado miserável deste seu filho (Marcos 1,41). O verbo splagchnízomai indica o desarranjo interior, nas vísceras (splágchna), e vísceras maternais (hebraico rahamîm). Por isso, Jesus não pode repelir o seu filho necessitado. Pelo contrário, estende a sua mão sobre ele, gesto de divina condescendência e soberania (Êxodo 3,20; 7,5; Salmo 138,7), e toca-lhe na pele chagada, e estabelece comunicação com ele, falando para ele (Marcos 1,41). Para Jesus, não há gente para acolher, e gente para evitar ou repelir. A todos acolhe, sobretudo aos piores e aos que estão em pior estado. Tocando-lhe, Jesus assume sobre si a lepra daquele pobre homem. É assim que o salva e nos salva. Jesus não passa por nós apenas à distância ou à tangente; desce ao nosso mundo, ao nosso fundo, e assume e paga a conta por inteiro. Nunca deixemos de cravar os olhos naquela Cruz, até percebermos bem que aquelas chagas são as nossas chagas, e que aquelas dores são as nossas dores, umas e outras assumidas, e, por isso, salvas, como lembram os antigos Padres da Igreja.

5. Com este seu comportamento de radical proximidade física e afetiva e salutar, Jesus diz-nos que nos devemos abeirar de todas as pessoas, nomeadamente dos doentes e marginalizados ou descartados, sempre incluindo e nunca excluindo, com uma atitude próxima, compassiva, calorosa e familiar, no polo oposto de qualquer comportamento indiferente, cético ou assético.

6. «Quero, fica limpo!», diz Jesus (Marcos 1,41), e nasce um homem novo, com o rosto destapado, por Deus descoberto, para ser visto e admirado, saído das mãos puras de Deus e da sua Palavra mansa e criadora (Génesis 1; João 15,3). Um grito se calou: «impuro, impuro!». Um novo grito nasceu: o do ANÚNCIO (kêrýssô) do Evangelho (Marcos 1,45). É o terceiro ANUNCIADOR, depois de João Batista (Marcos 1,4.7) e de Jesus (Marcos 1,14.38.39). Outros se seguirão (Marcos 3,14; 5,20; 6,12; 7,36; 16,15). Também nós. Sim, é aí que nos enxertamos nós também, porque também nós estamos depois do milagre em nós realizado. Por isso, temos, antes de mais, de entender que a mão estendida, soberana e carinhosa de Deus tocou em nós, e nos curou, e nos levantou, e rebentou os nossos odres velhos, ressequidos, carcomidos, e nos enviou com uma notícia ousada, boa e feliz, ardente, explosiva, comovente.

7. Atirai fora os odres, velhos e novos. Há muito que acabaram os almocreves! A notícia boa e feliz, isto é, o Evangelho, não se leva em vasilha nenhuma. Levai-o nas entranhas, nos pés, nas mãos, no rosto, no coração. Ah!, antes que me esqueça: atirai também fora o ouro, a prata, o cobre, a outra túnica, o bastão, as sandálias. E aproveitai para virar também os bolsos do avesso! Deve haver por lá algum cotão!

8. Quanto ao mais, aceitai a provocação de Paulo, na sua lição de hoje aos Coríntios (1 Cor 10,31-11,1). Sede imitadores (mimêtês) de Cristo (1 Coríntios 11,1); sede «mimos» (mîmos) de Cristo, fazei como Cristo fez e faz, como vistes hoje Cristo fazer!

9. O texto do Livro do Levítico 13,1-2.44-46, que serve de pano de fundo ao Evangelho de hoje, mostra-nos o caminho estreito e triste do leproso, que abre, todavia, para a larga e feliz avenida do Evangelho deste dia.

10. O Salmo 32 não é uma abstrata lição de moral, mas o testemunho autobiográfico de um convertido, que canta a felicidade do perdão. A liturgia cristã colocou este Salmo, desde o século VI, na lista dos sete «Salmos penitenciais» (juntamente com os salmos 6; 38; 51; 102; 103; 143). Logo no primeiro versículo, o Salmo diz admiravelmente: «Feliz aquele a quem foi retirada (nasaʼ) a culpa,/ coberto (kasah) o pecado» (Salmo 32,1). «Retirada a culpa» alude à imagem de um fardo, de um peso, de que somos aliviados, para podermos respirar de alívio. «Coberto o pecado»: Lutero, comentando a Carta aos Romanos 4,7, que cita o versículo do Salmo que estamos a apresentar, serviu-se deste verbo (kasah, cobrir) para argumentar que o pecado não é perdoado, mas apenas «coberto» pela justificação pela graça. Em boa verdade, o valor simbólico do «cobrir» bíblico traduz, sem qualquer dúvida, a anulação efetiva e eficaz do pecado por parte de Deus. Biblicamente falando, «cobrir» ou «perdoar» o pecado não significa simplesmente «esquecer» o pecado, passar por cima do pecado, mas, mais intensamente, «arrancar» o homem ao pecado, o que constitui um milagre só ao alcance do poder de Deus. Santo Agostinho tinha em grande apreço este Salmo. Afixou uma cópia na parede do seu quarto, diante do seu leito. E lia-a entre lágrimas, o que lhe trazia grande paz e conforto, sobretudo durante os últimos tempos da sua doença de que veio a falecer.

António Couto


QUANDO DEUS VEM, VÊ, FAZ E CHAMA…

Janeiro 22, 2021

1. Neste Domingo III do Tempo Comum é-nos dada a graça de escutar o Evangelho de Marcos 1,14-20. Não é a primeira vez que Jesus surge em cena. Já o tínhamos contemplado a dirigir-se da Galileia para o Rio Jordão, para ser batizado por João Batista (Marcos 1,9). Mas ainda não tínhamos ouvido a sua voz. Ouvimo-la agora pela primeira vez. Serão, portanto, dizeres importantes e programáticos.

2. Mas antes de ouvirmos, pela primeira vez, a voz de Jesus, anotemos desde já dois notáveis dizeres do narrador, que atravessam em filigrana o inteiro Evangelho de Marcos, unindo os caminhos e os destinos de João Batista, de Jesus e dos seus discípulos. O primeiro é este: «Depois de João ter sido entregue (paradothênai: inf. aor. pass. de paradídômi)» (Marcos 1,14). Trata-se de uma prolepse, que serve para ver já o que irá suceder a Jesus, acerca de quem o verbo será usado 13 vezes (Marcos 3,19; 9,31; 10,33; 14,10.11.18.21.41.42.44; 15,1.10.15), e aos seus discípulos (Marcos 13,9.11.12). O segundo é o uso do verbo anunciar (kêrýssô) para traduzir o afazer primeiro de Jesus (Marcos 1,14). E, mais uma vez, este verbo é um fio condutor que une Jesus (Marcos 1,14.38.39), João Batista (Marcos 1,4.7), os Doze (Marcos 3,14; 6,12), algumas pessoas curadas por Jesus (Marcos 1,45; 5,20; 7,36) e a Igreja de Jesus (Marcos 13,10; 14,9). Mas o verbo grego kêrýssô (anunciar), antes de nos fazer dizer ou escutar mensagens, implica a radical fidelidade do anunciador ou mensageiro em relação a quem lhe confia a mensagem e o envia a anunciá-la. Fica, portanto, claro que, antes de pregar, ensinar e curar, Jesus, os seus discípulos, a sua Igreja, são mensageiros fiéis, sempre vinculados a Deus, e a sua primeira missão é testemunhar esta proximidade e compromisso. E percebe-se agora bem o conteúdo da mensagem: «O Evangelho de Deus» (Marcos 1,14). Sem equívocos então: a primeira coisa que fica expressa com esta linguagem, é que Jesus, o seu precursor (João Batista) e seguidores (discípulos), se apresentam completamente vinculados a Deus e ao seu Evangelho [= «Notícia Feliz»], vivem de Deus e da Sua Notícia Boa, não agem por conta própria, não são emissores da sua própria sabedoria ou opinião.

3. E aí está então o primeiro dizer de Jesus, articulado em duas declarações inseparáveis: «Foi cumprido (peplêrotai: perf. pass. de plêróô) o tempo (ho kairós),/ e fez-se próximo (êggiken: perf. de eggízô) o Reino de Deus (he basileía toû theoû)» (Marcos 1,15). O acento cai sobre os dois perfeitos que abrem enfaticamente as declarações, e revelam que o Evangelho é em primeiro lugar o anúncio da iniciativa divina, Deus em ação, que abre ao homem novas e belas perspetivas. O perfeito passivo (peplêrotai), que qualifica o kairós, indica bem que Jesus não se refere a qualquer segmento de tempo cronológico, mas àquele específico do cumprimento, posto expressamente sob a intervenção definitiva de Deus. Só Deus pode agir sobre o tempo cronológico, tornando-o kairós, tempo grávido de alegria e de esperança. Uma vez mais, o anúncio precede a ordem: Jesus não começa com normas e exigências, mas assinala quanto Deus já fez e está a fazer, por sua gratuita iniciativa, em nosso favor. Só depois, e como normal consequência, surgem na boca de Jesus dois imperativos: «Convertei-vos» (matanoeîte) e acreditai (pisteúete) no Evangelho» (Marcos 1,15), que traduzem o que compete aos homens fazer. Jesus não é um moralista, mas um Evangelizador.

4. Vem logo, para não se afastar da fonte, o tempo de chamar, de romper amarras, de «ir atrás de» (Marcos 1,16-20). Mas tudo começa ainda com o ver e o fazer primeiros e criadores de Jesus. Jesus viu Simão e André, Tiago e João, e chamou-os: «Vinde atrás de mim, e farei de vós…». É o ver e o fazer do Criador (Génesis 1). Está em cena um verdadeiro chamamento de Jesus. É dele toda a iniciativa. Não são os discípulos que se apresentam a Jesus, pedindo trabalho. E não é como colaboradores, com remuneração e férias asseguradas, que Jesus os assume. Jesus apenas vê e chama. Espanta aquele «imediatamente» deixaram… e foram «atrás de» Jesus. Sem reticências nem calculismos. E nem sequer sabem onde os conduzirá o caminho em que agora entram. Confiança total em Jesus.

5. Perante o que nos é dado ver, uma primeira pergunta nos assalta, irrompendo sobre nós como uma onda súbita: Quem pode dar uma ordem assim absoluta? Mas, ainda antes de esboçarmos a resposta, já uma segunda vaga, que tempera a primeira, cai sobre nós: Quem merece uma tal confiança?

6. Temos hoje a graça de ouvir um bocadinho da profecia de Jonas e dos trejeitos que o chamamento de Deus desencadeia na sua vida (3,1-5.10). «Jonas, o hebreu» (Jonas 1,9), bem ouve o chamamento e a ordem de Deus para ir pregar contra Nínive, a cidade inimiga (Jonas 1,1-2). À primeira vista, devia Jonas levar por diante a sua missão com prazer, pois tratava-se de ir dizer à cidade inimiga que Deus tinha decretado o seu fim. Mas Jonas não quer ir, e não é por sentir piedade de Nínive. Bem pelo contrário. Jonas sabe que Deus é um Deus gracioso e misericordioso (hannûn werahûm), que se arrepende do mal (Jonas 4,2). E Jonas sabe também que, indo dizer a Nínive: «Ainda quarenta dias e Nínive será destruída» (Jonas 3,4), os habitantes de Nínive mudarão a sua vida, o que levará Deus a mudar também o seu plano e a não destruir a cidade. É porque sabe tudo isto e quer mesmo que Nínive seja castigada, que Jonas não quer ir lá pregar. Na verdade, apanha, no porto de Jafa, um navio que vai para Társis, para ocidente e não para oriente, para fugir de Deus e da missão que Deus lhe confiou (Jonas 1,3). Mas Deus é mais forte, e Jonas acaba, por vias travessas, por ir parar a Nínive. É a contragosto que prega. E quando verifica que os ninivitas se converteram, o que ele já sabia que iria acontecer, e que Deus também amava Nínive, Jonas foi tomado por grande desgosto (Jonas 4,1), e pede mesmo a Deus que lhe dê a morte (Jonas 4,3), pois a vida assim deixou de ter sentido.

7. Vendo melhor as coisas, «Jonas, o hebreu», está com certeza na viragem do século V para o século IV, época de Esdras, que manda dissolver os matrimónios mistos contraídos pelos exilados durante o Exílio ou após o regresso a Sião (Esdras 10; cf. Deuteronómio 7,3). Com esta medida, que deve ter tido um enorme impacto na consciência judaica, os conservadores como que cancelavam da sua história o catastrófico episódio do Exílio, lançando uma ponte que ligava a nova época judaica diretamente ao antes do Exílio. A personagem Jonas incarna bem este Israel particularista e míope, ao contrário do autor do Livro, que testemunha admiravelmente um universalismo salvífico próximo já do espírito do NT. Jonas representa o judaísmo fechado, que pensa que se salvará, fechando-se sobre si mesmo. Esta tentação também afeta a Igreja, e também a nós, de tempos a tempos. Às vezes só vemos inimigos ao redor, e amuralhamo-nos. Vistas as coisas do lado de um Deus que ama a todos, só nos é permitido abrir todas as portas e a todos escancarar o coração. Um coração inquinado asfixia e morre.

8. A lição do Apóstolo é hoje breve e intensa (1 Coríntios 7,29-31). São Paulo começa por dizer, em tradução literal: «O tempo (ho kairós) já está a enrolar as velas (synestalménos: perf. pass. de sy(v)-stéllô)» (1 Coríntios 7,29). Entenda-se: o tempo da oportunidade dada, da enchente da Palavra de Deus por nós já respondida ou ainda não, está a chegar ao fim; já está a enrolar as velas, como fazem os marinheiros quando a embarcação se aproxima da terra. E termina, afirmando: «Passa, na verdade, o esquema (tò schêma) deste mundo» (1 Coríntios 7,31). Bem entendido: «O (filme) que passa na tela é este mundo!». Se assim é, devemos aprender a saber relativizar a maneira como habitualmente nos agarramos às nossas ideias feitas e às coisas deste mundo, desde o casamento, aos bens possuídos, aos negócios, aos currículos, aos primeiros lugares. Grande lição de São Paulo em 1 Coríntios 7,29-31. A nossa vocação traduz-se na adesão ao Último, que reclama o desprendimento do penúltimo e um amor desmedido.

9. O Salmo 25, que hoje fica a ecoar no nosso pobre coração, mostra-nos um fino e delicado jogo de olhares entre o orante fiel e um Deus sensibilíssimo, que olha para nós sempre com ternura paternal, refúgio permanente para os pobres e pecadores. Deixo aqui a ressoar as palavras da grande mística muçulmana do século VIII, Rabiʽa, que viveu em Bassorá, no Iraque, e que, para responder à pergunta: «Como chegaste a um grau tão elevado na vida espiritual?», respondeu: «Repetindo ininterruptamente: “Meu Deus, refugio-me em ti para me defender de tudo o que me distrai de ti, e de todo o obstáculo que se interpõe entre mim e ti”» (I detti di Rabiʽa, IV).

 

Jesus é Deus que desce ao nosso mundo,

Caminha pelas nossas estradas,

Percorre as nossas praias,

Visita as nossas casas,

Vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho.

 

Jesus é Deus que passa, ama e chama.

Mas não nos chama a responder a um inquérito,

A preencher uma ficha,

Responder a uma entrevista,

Fazer uma inscrição,

Pagar a matrícula,

Aprender uma doutrina.

 

Não é como os escribas que Jesus ensina ou examina.

Nem sequer nos entrega um projeto de vida,

Uns apontamentos, um guião, caneta, tinta, mata-borrão.

Chama-nos apenas a segui-lo no caminho:

«Vinde atrás de Mim!»,

E partilha logo connosco a sua vida toda,

Como uma boda.

 

Não nos põe primeiro a fazer um teste,

Não nos ama nem chama à condição,

Não tem lista de espera,

Não nos põe num estágio,

Num estado,

Num estrado,

Numa estante,

Mas num caminho!

 

E um dia mais tarde,

Ouvi-lo-emos dizer ainda: «Ide!».

É sempre no caminho que nos deixa.

Nunca se desleixa,

Não apresenta queixa,

Não paga ao fim do mês,

Pede e dá tudo de uma vez.

 

Vem, Senhor Jesus!

Vem e ama!

Vem e chama por mim outra vez!

 

António Couto


VINDE E VEDE!

Janeiro 22, 2021

1. O Evangelho deste Domingo II do Tempo Comum (João 1,35-42) faz-nos ver no primeiro plano João Batista e Jesus. João Batista permanece lá «estacado» (eistêkei), em Bethabara [= «Casa de passagem»], desde João 1,28, imóvel e sereno e atento. O lugar em que permanece parado, define-o e define-nos: é um umbral ou limiar. Todo o umbral ou limiar é um lugar de passagem. Estamos de passagem. João Batista ocupa, portanto, o seu lugar estreito e aberto entre o des-lugar e a casa, o deserto e a Terra Prometida, entre o Antigo e o Novo Testamento. João coloca-se estrategicamente do outro lado do Jordão, onde um dia o povo do Êxodo parou também, para preparar a entrada na Terra Prometida, atravessando o Jordão (Josué 3). É desse lugar de passagem, mas em que está parado como um guarda ou sentinela vigilante, que João vê bem (emblépô) Jesus a passar (peripatoûnti). Perfil exato: Jesus a passar: Ele é o caminho (Jo 14,6); João não é o caminho: está parado. E logo João aponta Jesus como o Cordeiro de Deus. Aponta-o e apresenta-o a nós, e põe-nos em movimento atrás d’Ele. Riquíssima apresentação de Jesus. Na verdade, Cordeiro diz-se na língua aramaica, língua comum então falada, talya’. Mas talya’ significa, não só «cordeiro», mas também «servo», «filho» e «pão». Aí está traçada, com uma pincelada de mestre, a identidade de Jesus: Cordeiro, Servo, Filho e Pão de Deus.

2. Seja qual for o perfil adotado, deparamo-nos sempre com a verdadeira identidade de Jesus, na sua verdade e simplicidade. O «Cordeiro» é manso e dócil, e Jesus não vem ter connosco com um fulgor que cega ou um poder que esmaga. Vem como quem ama e serve com radical humildade e mansidão. Entenda-se bem ainda que este Cordeiro é de Deus, pertence a Deus, é Deus o seu pastor (cf. Salmo 22).

3. E aí vamos nós a segui-l’O, agora no Caminho. Ele é o caminho. Sem caminho, temos de ficar parados. Jesus pergunta: «O que procurais?» (João 1,38). Jesus não faz uma afirmação, mas uma pergunta. Não começa uma aula, mas um colóquio vital. Reconhece neles e em nós homens à procura, que ainda não sabem dizer o que procuram, mas desejam saborear o pão que só Jesus pode dar na sua Casa. «Onde moras?», é, portanto, a questão que os move e nos move (João 1,38). E a resposta-convite de Jesus: «Vinde e vede» (João 1,39) aviva e sacia a nossa sede. Uma vez mais, Jesus não nos entrega um livro ou um guião com doutrinas e preceitos para nós estudarmos e sabermos, mas chama-nos a viver uma relação pessoal de comunhão com Ele. Assim, também eles, e nós com eles, não podemos manter-nos a uma distância de segurança, não comprometida, como meros turistas ou espectadores. A indicação da hora pelo narrador pode querer dizer-nos que, para aqueles dois, e para nós também, aquela hora foi e será sempre uma hora decisiva. Fomos e vimos quem era (ideîn) e morámos com Ele um dia (João 1,39), simbolismo para indicar de agora em diante, sempre. Percebemos logo que era aquela a nossa Casa. Por isso, André, um de nós, o Prôtóklêtos Andréas, o «primeiro chamado», como o qualifica ainda hoje a Tradição Oriental, foi logo procurar, encontrar (o uso do verbo grego eurískô supõe um encontro depois de uma busca; não um encontro por acaso) e chamar, «primeiro chamante», o seu irmão Simão, e trouxe-o de casa para a Casa, para Jesus (João 1,40-42). O resto é com Jesus. «Olhando-o por dentro (emblépô autô), Jesus disse: “Tu és Simão, o filho de João; serás chamado Kêphâs, que se traduz Pedro”» (João 1,42). Depois é Filipe que é chamado por Jesus, sem introdução ou explicação (João 1,43). E Filipe conduz a Jesus Natanael, também sem qualquer explicação ou demonstração convincente.

4. É importante precisar que a demonstração é frágil face à experiência que implica a vida. Na verdade, a eficácia do testemunho acontece, não quando a testemunha incita o destinatário a inclinar-se ou a render-se perante as provas, mas quando o incita a fazer, por sua vez, a experiência, levando-o a implicar a própria vida. A experiência da testemunha é sempre mais forte e mais radical do que as provas que eventualmente queira dar. É por isso que Filipe fala de Jesus a Natanael, mas face às objeções deste, não lhe dissipa as dúvidas (João 1,45-46), mas diz-lhe simplesmente: «Vem e vê!» (João 1,46).

5. Mas voltemos ao chamamento decisivo, aquele que muda o nome, isto é, segundo a mentalidade bíblica, a pessoa e a sua vida. Diz Jesus: «Tu és Simão, o filho de João; serás chamado Kêphâs, que se traduz Pedro» (João 1,42). O termo hebraico normal para dizer «rocha», «rochedo», «pedra firme» é tsûr ou sela‘, que designa mesmo Deus no AT por 33 vezes. Mas o hebraico também conhece o termo keph, aramaico kêpha’, que designa a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos; kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, que diz também a cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça, para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas.

6. Nasce aqui, portanto, um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos, alimentados.

7. O contraponto musical vem hoje do Primeiro Livro de Samuel 3,3-19, com Deus a chamar uma e outra vez o jovem Samuel, que «ainda não conhecia o Senhor» (1 Samuel 3,7), e Eli, sacerdote do santuário de Silo, a fazer bem o papel de Guia Espiritual. Depois de discernir a Voz de Deus que chamava Samuel, é para Deus que Eli remete Samuel, com a indicação precisa: «Fala, Senhor, que o teu servo escuta» (1 Samuel 3,9). E o texto termina com o belo resumo do narrador: «E Samuel crescia, o Senhor estava com ele, e nenhuma das suas palavras deixou cair por terra» (1 Samuel 3,19). Extraordinário programa de vida para a Igreja inteira e cada cristão em particular.

8. E São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios 6,13-20, traça em contraluz a radiografia da grande cidade de Corinto, capital da província romana da Acaia, com muitas divisões, distrações, idolatrias e imoralidades, coisas em tudo semelhantes ao que se vê hoje nas grandes metrópoles modernas. E aponta aos cristãos de Corinto e de hoje o caminho do Evangelho: o corpo que, no mundo bíblico, diz a pessoa toda, integral, é para o Senhor, e o Senhor é para o corpo.

9. A toada musical que hoje embala a nossa vida está em consonância com a docilidade e o rumo novo, para o Senhor, que devemos empreender. Na verdade, canta assim o Salmo Responsorial de hoje: «Sacrifício e oblação não Te agradaram, mas escavaste-me os ouvidos» (Salmo 40,7), expressão forte que a Carta aos Hebreus cita atualizando assim: «Sacrifício e oblação Tu não quiseste, mas formaste-me um corpo» (Hebreus 10,5). Sim, dá para entender, que o corpo é para oferecer ao bom Deus, num culto novo de todos os dias (cf. Romanos 12,1). Mas, para que a melodia chegue ao coração, também é verdade, como diz o Salmo e nos lembra poeticamente Nelly Sachs, talvez seja necessário escavar bem os ouvidos. Nelly Sachs (1891-1970), de origem judaica, nascida em Berlim, refugiada em Estocolmo a partir de 1940, recebeu o prémio Nobel de literatura em 1966. Deixamos aqui um extrato de um poema:

«Se os profetas irrompessem

pelas portas da noite

com as suas palavras abrindo feridas

nas rotinas do nosso quotidiano

(…)

 

Se os profetas irrompessem

pelas portas da noite

à procura de um ouvido como pátria

 

Ouvido humano

obstruído por mato e por silvas

será que saberias escutar?».

 

António Couto


SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR

Dezembro 24, 2020

1. «Exultemos de alegria no Senhor, porque nasceu na terra o nosso Salvador», é a Antífona do Cântico de Entrada da Missa da Meia-Noite, que dá o devido tom de exultação a esta Solenidade, magnífico pórtico para este intenso feixe de Luz, Mistério de Jesus, fazendo logo ver o Natal à Luz da Páscoa, «a Páscoa do Natal», assim o diz significativamente a liturgia oriental. A Antífona da Missa da Aurora prossegue a mesma sinfonia, conjugando Isaías 9,1 e Lucas 2,11, e soa assim: «Hoje sobre nós resplandece uma Luz: nasceu o Senhor». A Antífona da Missa do Dia continua a indicar o «para nós» deste Filho e do seu Mistério, trazendo ao de cima outra vez a pauta musical de Isaías: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (Isaías 9,6).

2. A linha dos Evangelhos deste Dia é de excecional riqueza, e desenvolve-se em três movimentos: o acontecimento, o anúncio e o acolhimento. Começa com Lucas 2,1-14 (Meia-Noite), e continua com Lucas 2,15-20 (Aurora), que nos trazem o quadro histórico-geográfico do nascimento de Jesus (Lucas 2,1-7), o seu anúncio (Lucas 2,8-14) e acolhimento (Lucas 2,15-29). O nascimento de Jesus, na sua nudez, aparece narrado três vezes, nos três movimentos do texto (Lucas 2,7.12.16). Ele é claramente o centro. Aparece logo situado no decurso do recenseamento do mundo romano ordenado por César Augusto, sendo Quirino prefeito romano da Síria (Lucas 2,1-2). O reinado de Augusto estende-se por muitos anos (27 a.C.-14 d.C.), mas Pôncio Sulpício Quirino foi prefeito da Síria apenas no ano 6 d.C., sendo então que liquida os bens de Arquelau, filho de Herodes o Grande, e anexa definitivamente a Judeia ao Império Romano. O leitor menos prevenido dirá logo que há aqui uma imprecisão histórica. Acrescento então que este recenseamento foi iniciado em 7-6 a.C. por Sêncio Saturnino, prefeito da Síria durante os anos 9-6 a.C. É sabido, de resto, que a era cristã atualmente em vigor foi fixada no século VI pelo monge xiita, de origem egípcia, Dionísio o Pequeno, com um pequeno erro de cálculo que resultou no atraso de 6 ou 7 anos em relação ao nascimento de Jesus. Portanto, Jesus terá nascido 6 ou 7 anos antes do início da era cristã fixada pelo monge Dionísio. E aí está então tudo em dia: Jesus nasce quando Sêncio Saturnino dá início ao recenseamento. Dirá outra vez o leitor incauto: se assim foi, por que é que Lucas fala de Quirino, e não de Saturnino? Se repararmos bem, Lucas faz exatamente como nós fazemos hoje. Nas placas que colocamos nos edifícios públicos que inauguramos, constam os nomes das autoridades que os terminam e inauguram, e não daqueles que os iniciam. O mesmo se diga da promulgação de leis e tratados.

3. É ainda no quadro deste recenseamento que José, acompanhado por Maria, sua esposa, sobe a Belém para se recensear. O texto explica bem que esta deslocação se fica a dever ao facto de José ser da descendência de David (Lucas 2,3-4). Alguém poderá perguntar: então por que foi José viver para Nazaré, se ele era natural de Belém, a uns 150 km de distância? Provavelmente dentro do programa político-religioso de tornar mais judaica a Galileia, iniciado por Alexandre Janeu (103-76 a.C.), em que colonos judeus eram incentivados a repovoar e rejudaizar a Galileia.

4. O próximo passo refere que não havia lugar para eles (José e Maria) na sala (Lucas 2,7). Note-se que o texto refere, de forma clara, sala, grego katályma, e não hospedaria, como se lê em muitas e preconceituosas traduções. Na verdade, Lucas sabe bem dizer hospedaria, como faz na passagem do bom samaritano (Lucas 10,34), em que usa o termo grego pandocheîon. Katályma não significa hospedaria. Significa sala. Pode ser a sala do andar superior (Lucas 22,11), mas é, neste caso, a sala de hóspedes que a arqueologia pôs a descoberto no rés-do-chão de muitas das casas da Palestina do tempo de Jesus. Esta sala apresenta forma quadrada ou retangular, com um banco rochoso ao longo das paredes, destinado ao descanso das pessoas. Uma única porta de entrada dava acesso à sala a pessoas e animais. Ao fundo da sala localizava-se outra porta, que dava para um estábulo, para onde as pessoas conduziam naturalmente os animais. É neste estábulo anexo à sala de hóspedes que vai nascer Jesus, e é também aqui que se compreende perfeitamente a presença da manjedoura (Lucas 2,7 e 12).

5. Vem depois a cena maravilhosa da manifestação desta Notícia aos pastores dos campos de Belém. Os pastores são os últimos da sociedade, não são praticantes de nenhuma religião oficial (não têm tempo e condições para isso) e não entram nas contas de ninguém, tal como o pequeno pastor de Belém, David, não entra nas contas já encerradas de seu pai (cf. 1 Samuel 16,10-11), mas entra nas de Deus (cf. 1 Samuel 16,11-12). Assim é também aos pastores de Belém que o mensageiro celeste anuncia a Alegria do nascimento de um Salvador para todo o povo, Hoje nascido em Belém (Lucas 2,8-11).

6. E, deste acontecimento, o mensageiro celeste dá um sinal (sêmeîon) aos pastores e a nós: «encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deposto numa manjedoura» (Lucas 2,12). Entra então subitamente em cena uma multidão do exército celeste (Lucas 2,13) – expressão que só se encontra aqui nos Evangelhos – para entoar aquele celestial e humano Gloria in excelsis Deo e Paz na terra aos homens que Ele ama (Lucas 2,14). Depois desta cena grandiosa e única, aí vão eles, os pastores, aqueles com quem ninguém conta e que não entram em nenhuma lista de convidados, aí vão eles apressadamente (Lucas 2,16), como Maria (Lucas 1,39), verificar (ideîn) os acontecimentos a eles dados a conhecer por Deus (Lucas 2,15), e que, como verdadeiros anunciadores, não podem calar, e devem dar também a conhecer a todos (Lucas 2,17). Note-se esta Paz diferente, que não é obra das armas, como no mundo romano, nem de acordos entre as partes, como no judaísmo palestinense, mas dom de Deus!

7. Cena sublime e suprema ironia. Os senhores do mundo (César Augusto e Quirino) são mencionados, mas saem logo de cena, para dar lugar aos pastores, que assumem o papel de verdadeiros protagonistas. Os senhores do mundo ocupam um único versículo cada um (Lucas 2,1 e 2). Os pastores enchem treze versículos (Lucas 2,8-20). Também lá estão Maria, José e o Menino, mas não dizem uma única palavra. A palavra é toda dos Anjos e dos pastores. Mas Maria, no seu silêncio musical e habitado, é estupendamente retratada a «guardar todas aquelas palavras, compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,19).

8. Note-se ainda o sinal dado aos pastores e a nós, leitores: um recém-nascido envolto em faixas, deposto numa manjedoura. É preciso também ver já aqui a Luz da Páscoa, com o corpo de Jesus a ser envolto num lençol e deposto num sepulcro (Lucas 23,53). Mas também a sala (katályma) onde não havia lugar para eles (Lucas 2,7) reclama já a sala para comer a Páscoa (Lucas 22,11). O Evangelho do Dia (João 1,1-18) deixa-nos de joelhos em contemplação: «E o Verbo se fez carne e pôs a sua tenda entre nós, e nós contemplámos (theáomai) a sua glória» (João 1,14). Mas também reclama conversão: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11).

9. Os passos dos peregrinos e os nossos convergem Hoje para a Basílica da Natividade em Belém. Não obstante os múltiplos trabalhos de reconstrução e conservação ao longo dos séculos, a Basílica que hoje se depara ao peregrino é, nas suas linhas gerais, obra do imperador Justiniano, edificada entre 531 e 565, e é mesmo o único templo, provindo de Justiniano, que resta na Palestina. Escapou mesmo à razia dos Persas do rei Cosroé II, em 614, contra os templos cristãos, devido ao facto de os frescos que adornam a Basílica conterem representações dos Magos, o que muito terá sensibilizado os Persas. Esta não é, porém, a Basílica primitiva. Os trabalhos arqueológicos efetuados pelo P. Bagatti em 1949-1950 mostraram, por debaixo do pavimento da atual Basílica, os traços arquitetónicos de outra grandiosa Basílica, levantada entre 326 e 333, por Santa Helena, mãe do imperador Constantino. Esta primitiva Basílica foi assolada por diversos incêndios e depois grandemente devastada pela revolta dos Samaritanos de Nablus em 529 contra o governo bizantino. Foi sobre as ruínas desta Basílica Constantiniana que o imperador Justiniano fez construir, com traços arquitetónicos diferentes, a Basílica atual.

10. Mas a Basílica Constantiniana também não representa o estádio primitivo do culto cristão em Belém. Este encontra-se certamente na cripta da Basílica atual, guardado num espaço retangular de 12,30 metros de comprimento por 3,50 metros de largura, para onde convergem os passos dos peregrinos. Este espaço corresponde ao estábulo anexo à já mencionada sala de hóspedes. Aí se encontra o Altar da Natividade, debaixo do qual se pode ver uma estrela de prata com a inscrição: Hic de Virgine Mariae Jesus Christus natus est [= «Aqui da Virgem Maria nasceu Jesus Cristo»]. A Basílica da Natividade guarda na sua cripta o mistério do nascimento de Jesus, da pobreza, da humildade, do amor, da paz. Daquele e daquilo que não tem lugar na sala do nosso bem-estar, poder, ódio, ostentação, tirania. Na tua casa e na tua sala há lugar para quem e para quê, meu irmão deste Dia de Natal?

 

Há dois mil anos Deus sonhou

E foi

Natal em Belém.

Sonha também.

 

Se o jumento corou

E o boi se ajoelhou,

Não deixes tu de orar também.

 

A notícia ecoou nos campos de Belém.

Com o celeste recital que ali se deu,

O céu ficou ao léu,

A terra emudeceu de espanto,

E os pastores dançaram tanto, tanto,

Que até os mansos animais entraram nesse canto.

 

Isaías 1,3 antecipou a cena,

E gravou com o fulgor da sua pena

O manso boi e o pacífico jumento

Comendo as flores de açucena da vara de José sentado ao lume,

E bafejando depois suavemente o Menino de perfume.

Enquanto os meigos animais vão comer à mão do dono,

O meu povo, diz Deus, não me conhece, e perde-se nos buracos de ozono.

 

Vem, Menino!

E quando vieres para a tua doirada sementeira,

Que logo cresce e se faz messe (João 4,35),

Quando assobiares às boieiras,

Chama também por mim,

Diz bem alto o meu nome,

Vamos os dois para o campo e para a eira,

E enche-me de fome de um amor como o teu,

Pequenino e enorme.

 

António Couto


PARA VÓS, SENHOR, ELEVO A MINHA ALMA

Novembro 28, 2020

1. «Para vós, Senhor, elevo a minha alma» (Salmo 25,1). Antífona do Cântico de Entrada que inaugura a celebração eucarística do Advento, do ano litúrgico, do ano inteiro. Aponta a atitude a assumir pela assembleia fiel e orante: a oblação permanente, a oração constante. Extraordinário pórtico de entrada no Advento e no novo ano litúrgico. Belíssima forma de viver, elevando para Deus a nossa vida: a oração é a nossa vida! A nossa vida em ascensão e oração permanente, sacrifício de suave odor, incenso puro subindo para o nosso Deus. Sempre. O Evangelho dirá com a mesma energia e alegria: «Estai atentos», «vigiai», «não sabeis quando virá o dono da casa» (Marcos 13,33-37). Na verdade, nós não o podemos ver: é como um homem que partiu de viagem (Mateus 13,34). Todavia, tudo o que possuímos foi dele que o recebemos (Mateus 13,34). Portanto, vida levantada, rosto erguido para Deus. É o gesto do justo justificado por Deus (Job 22,26). Página em branco, Primeira e Última, que podemos apresentar a Deus neste início de Advento e de ano litúrgico. É de Deus a palavra e a escrita que não passa (Marcos 13,31).

2. A lição do Evangelho de hoje (Marcos 13,33-37) está atravessada pelo verbo «vigiar», por quatro vezes repetido (13,33.34.35.37), em imperativo: uma vez agrypneîte (agr-, negação, e hypnóô, dormir) (v. 33), e três vezes grêgoreîte, vigiar (v. 34.35.37). No Getsémani, Jesus clarificará em que consiste esta «vigilância», pois aí dirá: «vigiai e orai» (Marcos 14,28). É preciso manter o coração sintonizado com o coração de Deus. Daí as vigílias da noite também enunciadas no v. 35: ao anoitecer (21h00), à meia-noite (24h00), ao cantar do galo (03h00) e às matinas (06h00). A locução «estai atentos» atravessa também por quatro vezes o inteiro Capítulo 13 do Evangelho de Marcos (13,5.9.23.33), que é um Capítulo em que Jesus fala para quatro discípulos: Pedro, André, Tiago e João, sentados no Monte das Oliveiras, diante do Templo (Marcos 13,3).

3. O Templo ainda está de pé (será destruído no ano 70), e os discípulos admiram a excelência daquelas pedras e do embelezamento do Templo feito por Herodes o Grande, com a intenção de captar as boas graças dos judeus, já que Herodes não era judeu, era Idumeu, e estava interessado em ter os judeus do seu lado. Jesus adverte que aquele luxo passaria, e aproveita para lembrar que passará mesmo tudo, também as nossas seguranças (ou aquilo que pensamos estar seguro), sacudidas por guerras, violências, rapinas, perseguições, pelo normal andamento do tempo e da idade. Com a contundência que lhe é conhecida, diz-nos São Paulo que «passa, na verdade, a figura (tò schêma) deste mundo (toû kósmou toúto)» (1 Coríntios 7,31), isto é, tendo em conta a força das palavras e a expressão gramatical de que se revestem, «a figura que passa (na tela) é este mundo». Sem equívocos: a realidade deste mundo é penúltima, não Última. Neste cenário passageiro, há, porém, uma realidade que não passa: a palavra de Jesus (Marcos 13,31). Salta à vista, portanto, que é a esta âncora que nos devemos agarrar, e não à poeira das nossas grandezas ilusórias! Este discurso é dirigido aos quatro discípulos referidos. Mas, o Evangelho de hoje termina com Jesus a dizer: «O que vos digo a vós, digo-o a todos!». Portanto, a nós, hoje, também.

4. O escritor argentino Jorge Luis Borges deixou-nos versos densos como estes, acentuando a importância e a intensidade de cada momento da nossa vida a não desperdiçar: «Não há um instante que não esteja carregado como uma arma»; «Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes»; «Em cada instante a clépsidra deixa cair a última gota». E o poeta brasileiro Vinícius de Moraes escreveu assim num belíssimo poema: «A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais». É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Aprendamos então que tudo no Evangelho é decisivo, pois é-nos mostrado com toda a clareza que cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

5. Átrio de um tempo novo, habitado, «carregado» de justiça e de bondade. Obra de Deus no nosso mundo. E só dele. Obra terna, tenra e nova, como um «rebento» de um jovem casal ou de uma planta. Sinal de Primavera no meio da invernia e da lama em que nos vamos atolando, ensonados e enlatados, sem sequer darmos por isso. É, portanto, mesmo preciso que Ele venha e que nos acorde e nos levante da nossa letargia com novas pautas e novos acordes musicais! E que nos dê nomes novos a nós, às nossas cidades, às nossas escolas, aos nossos hospitais, às nossas ruas! Nomes novos, isto é, em termos bíblicos, nova expressão e novas maneiras de viver. Up! Up! Up! Luz nova lá no alto a atrair os nossos olhos embotados. Instrução nova de Deus para todos os povos, armas transformadas em relhas de arado, flores brancas em mãos ensanguentadas (Isaías 2,1-5).

6. Isaías serve-nos hoje o mais poderoso Salmo de lamentação popular da Bíblia inteira (Isaías 63,17-64,7), nas palavras de Claus Westermann. Nele confessamos a nossa rebeldia, mas também a nossa fugacidade (somos como folhas secas levadas pelo vento), e invocamos o amor paternal, criador e redentor de Deus, para que venha em auxílio da nossa fraqueza. «Oh, se rasgásseis os céus e descêsseis», ficará para sempre como um grito maravilhoso de quase inultrapassável intensidade e beleza! E, por nós, Deus, nosso Pai, rasgou mesmo os céus, e veio ter connosco (veja-se o cenário maravilhoso da Incarnação, em que o Verbo de Deus comunga da nossa frágil humanidade, e pode ver-se também o cenário do batismo de Jesus, em que se cumpre a expressão dos céus que se abrem).

7. E São Paulo, a abrir a Primeira Carta aos Coríntios (1,3-9) saúda-nos com a Graça e a Paz de Deus, nosso Pai, e refere ainda esta maravilha: «Dou graças ao meu Deus por vós em todo o tempo» (v. 4). Motivo: as inumeráveis bênçãos com que Deus nos tem enriquecido em Cristo Jesus, o único Senhor da nossa vida. O extrato de hoje fecha com a indicação notável de que Deus nos chamou, não a isto ou àquilo, nem sequer a participar na alegria do Messias, como dizem os rabinos acerca de Abraão, mas a participar na comunhão pessoal com o seu Filho, Jesus Cristo (v. 9).

8. É neste tom maravilhoso que devemos recitar com amor a autobiografia de Israel, que é também a nossa, e que passa nas notas do poderoso Salmo 80: videira arrancada do Egito e transplantada para a nossa terra livre, bela, boa e espaçosa. Tratada com amor, cresceu, cresceu, cresceu, encheu a terra inteira de folhagem e de frutos. Porém, abandonada, foi devastada pelo javali, pelos animais do campo, pelos parasitas… É tempo, portanto, de levantar a alma e rezar em todo o tempo: «Senhor, nosso Deus, vinde de novo; fazei brilhar a vossa face, e seremos salvos!».

 

Como é fácil, Senhor Jesus,

Daqui, de ao pé da tua Cruz,

Avistar a paisagem do Advento,

Compreender-lhe a mensagem,

Respirar-lhe o alento.

 

Daqui, de ao pé da tua Cruz de Luz,

Sem dúvida o lugar mais alto do mundo,

Mais alto e mais profundo,

Vê-se bem, com toda a claridade,

Que a lonjura do Advento não é horizontal.

Eleva-se em altura.

Como a tua túnica tecida de Alto-a-baixo,

Vertical,

E sem costura.

 

Tu vens do Alto, Senhor.

Tu vens de Deus.

Tu és Deus.

Tu és o Justo

Que chove das alturas

Sobre a nossa humanidade sedenta e às escuras.

 

Vem, Senhor Jesus,

Alumia e rega a nossa terra dura,

Acaricia o nosso humilde chão

E modela com as tuas mãos de amor

Em cada um de nós

Um novo coração

Capaz de ver.

Capaz de Te ver

Nascer

Em cada irmão.

 

António Couto


O ÚNICO REI QUE NÃO REINA DESDE FORA

Novembro 21, 2020

1. A «Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei» foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de ação, que já tinha fundado a Ação Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se de valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, com o título de «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo». É esta Solenidade que hoje celebramos.

2. «O Senhor Reina». É assim que, no Antigo Testamento, o Deus bíblico se apresenta em ação reinando, isto é, salvando, justificando, perdoando, criando. Na verdade, biblicamente falando, Reinar é Salvar, isto é, trazer o bem-estar, a alegria e a prosperidade ao seu Povo. É esta a missão do Rei. Salvar é Justificar, o que implica a extraordinária ação de transformar um pecador em justo. Justificar é, portanto, Perdoar. Neste profundo sentido bíblico, Justificar e Perdoar são ações que só Deus pode fazer, dado que transformar um pecador em justo é igual a Criar ou Recriar um homem novo. E da ação de Criar também só Deus é sujeito em toda a Escritura. Já se sabe que o Novo Testamento transforma o ativo «Deus Reina» no mais abstrato «Reino de Deus», expressão que ressoa no Novo Testamento por mais de 160 vezes.

3. Tanta e quase indescritível riqueza a de um Deus, sentado no seu trono de Luz, mas que Vem, como um Filho do Homem, com o domínio novo, frágil e forte, do Amor: «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5). Da lição do Livro de Daniel 7,13-14 e respetivo contexto, vê-se bem que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra e da Atitude do Filho do Homem, que dissolve no Amor as nossas raivas e violências, manifestações das bestas bravas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7), símbolo da confusão e do mal, e que deixará naturalmente de existir (Apocalipse 21,1).

4. O domínio do Filho do Homem que nos ama, o domínio do Amor, é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é de sempre e é para sempre. Por isso, é Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania e prepotência!

5. Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos violentos, o que só aumentaria a violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história e da nossa vida, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, absorvendo-a, absolvendo-a e dissolvendo-a. É assim que o Amor Reina, nos Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Chefes dos Judeus, os Soldados e Pilatos representam os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência e estupidez. O Reino do Filho do Homem não pode, na verdade, ser daqui (cf. João 18,33-37). Se fosse daqui, apenas aumentaria a espiral da mentira, da ganância e da violência. É de Amor novo e subversivo, transformante, que se trata.

6. Aí está então a página divina do Evangelho deste Último Domingo do Ano Litúrgico, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo: Mateus 25,31-46. Texto espantoso. Surge em cena o Filho do Homem, o Pastor, o Rei, mas vê-se bem que é Jesus, o Senhor. Reúne e cria, separando (Mateus 25,31-33), como sucede no texto da criação de Génesis 1,1-2,4a. A mansidão é a nota maior deste Rei, Pastor, Filho do Homem, Jesus e Senhor, que domina os animais, separando os mansos (ovelhas) dos violentos e orgulhosos (cabras). Mas esta ação de separação acontece apenas no entardecer da vida e da história, tal como sucede, para muito espanto nosso, ao trigo e à cizânia da parábola de Mateus 13,30-31 e 36-43. Para muito espanto também de João Batista que tinha anunciado um Messias que vinha aí, já e em força, com o machado e a pá de joeirar (cf. Mateus 3,10 e 12) para proceder aos devidos ajustes de contas com aquela geração má e perversa.

7. A parábola de hoje, que difere para o final do Evangelho e da história a separação «já e em força» proclamada por João Batista e por nós tanto apetecida, mostra em Jesus um Messias, Rei e Senhor, que não comunga da nossa atração sádica pelo espetáculo ávido de sangue, mas vem revestido da mansidão do Servo do Senhor, de Isaías 42,1-4, que é, por sinal e de forma significativa, a mais longa citação do Antigo Testamento que o Evangelho de Mateus faz em 12,18-21, retratando com ela Jesus, o Rei manso e novo que desconcerta João Batista e a nós também. O referido texto de Isaías 42,2 diz do Servo do Senhor que «não fará ouvir desde fora a sua voz». Fica então claro que, se não faz ouvir a sua voz desde fora, só a pode fazer ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, escrevendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, armas ou decretos. Se não reina desde fora, então só pode reinar desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas, salvando as pessoas. Jesus, Rei manso e novo, vai assumir por inteiro a identidade deste Servo e vai cumprir a sua missão.

8. Em ordem a uma melhor compreensão do andamento do imenso texto de Mateus 25,31-46, importa notar que começa com um cenário descritivo introdutório (v. 31-33) (A1) e termina com um cenário descritivo conclusivo (v. 46) (A2). Entre os dois cenários descritivos que abrem e fecham o movimento do texto (A1-A2), bem no centro da estrutura, surge a ação da Palavra, o dizer (v. 34-45), que podemos distribuir em duas vagas: um dizer positivo, dizer SIM (v. 34-40) (B1), e um dizer negativo, dizer NÃO (v. 41-45) (B2), como se pode ver na configuração do texto, que hoje aqui deixamos exposto:

«25,31Quando vier o FILHO DO HOMEM na sua glória e todos os anjos com Ele, então sentar-se-á sobre o trono da sua glória, 32e serão REUNIDAS diante d’ELE todas as nações, e SEPARÁ-LOS-Á uns dos outros, como o PASTOR SEPARA as ovelhas das cabras, 33e porá as ovelhas à sua direita e as cabras à esquerda. (A1)

34Então DIRÁ o REI aos que (estão) à sua direita: “Vinde, benditos de meu PAI, recebei em herança o REINO preparado para vós desde a fundação do mundo, 35pois tive fome e destes-ME de comer, tive sede e destes-ME de beber, era estrangeiro e recolheste-ME, 36nu e vestites-ME, estive doente e visitastes-ME, estava na prisão e viestes ter COMIGO”.

37Então os justos responder-lhe-ão, DIZENDO: “SENHOR, quando foi que TE vimos com fome e TE demos de comer, ou com sede e TE demos de beber? 38Ou quando TE vimos estrangeiro e TE recolhemos, ou nu e TE vestimos? 39Ou quando TE vimos doente ou na prisão e viemos ter CONTIGO?

40E, respondendo, o REI DIR-LHES-Á: “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a UM destes meus irmãos, os mais pequenos, a MIM o fizestes”. (B1)

41Então DIRÁ também aos da esquerda: “Afastai-vos de MIM, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos, 42pois tive fome e NÃO ME destes de comer, tive sede e NÃO ME destes de beber, 43era estrangeiro e NÃO ME recolhestes, nu e NÃO ME vestistes, estive doente e na prisão e NÃO ME visitastes”.

44Então também eles responderão, DIZENDO: “SENHOR, quando foi que TE vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou nu ou doente ou na prisão e NÃO cuidámos de TI?”

45Então responder-lhes-á, DIZENDO: “Em verdade vos digo: cada vez que NÃO o fizestes a UM destes, os mais pequenos, também a MIM o NÃO fizestes”. (B2)

46E irão estes para o castigo eterno, e os justos para a vida eterna» (Mt 25,31-46). (A2)

9. Lendo este imenso texto e captando o seu movimento, não passará despercebido a ninguém que o seu centro reside nas duas vagas que mostram a ação de dizer SIM (v. 34-40) (B1) ou de dizer NÃO (v. 41-45) (B2), uma e outra em consonância com a ação de FAZER (v. 40) ou de NÃO FAZER (v. 45). Na verdade, aquela declaração afirmativa de Jesus: «Tive fome e destes-ME de comer (1), tive sede e destes-ME de beber (2), era estrangeiro e recolhestes-ME (3), nu e vestites-ME (4), estive doente e visitastes-ME (5), estava na prisão e viestes ter COMIGO (6)» (v. 35-36), tem um alcance quase incontornável e insuperável, que não se confina neste pequeno imenso texto de Mateus, mas se insinua nas pregas da Bíblia inteira, linhas e entrelinhas.

10. Diz-nos São João, no prólogo do seu Evangelho, que «foi pelo Verbo que tudo foi feito» (João 1,3), e São Paulo escreve, na Carta aos Colossenses, que «n’Ele foram criadas todas as coisas» (Colossenses 1,16), para acentuar depois, na sua Segunda Carta aos Coríntios, que o «Filho de Deus, Jesus Cristo […], não foi “sim e não”, mas unicamente “sim”» (2 Coríntios 1,19). Acentuações teológicas ricas e densas, que ganham ainda uma maior intensidade, se verificarmos que a narrativa de Génesis 1,1-2,4a, a grande narrativa da Criação, se compõe de 452 palavras hebraicas, não registrando, todavia, o que é absolutamente espantoso, um único «não»! Esplêndida e contagiante harmonia das Escrituras. O denso texto de Gn 1,1-2,4a, como o nosso texto de Mateus 25,35-36, que fornece a base das nossas «obras de misericórdia», não contêm nenhuma negação! Antes, são uma extraordinária afirmação que se insinua em todas as linhas e entrelinhas da Escritura Santa, e que mantém o ser humano em permanente tensão e atenção, para mais quando Jesus nos revela que os pobres e necessitados a quem prestámos assistência são, na verdade, seus irmãos (v. 40). E mais ainda: todo o bem que fizemos a UM desses pequeninos, foi, na verdade, feito ao próprio Jesus (v. 40). Vê-se bem que Jesus, o Senhor do SIM, por quem tudo foi feito, em quem tudo foi criado, anda muito metido nos nossos caminhos lamacentos ou empedrados, mas sempre tortuosos, e pede a nossa esmola em cada esquina, e quer que o nosso «fazer» seja criador, sempre marcado pelo SIM, como o d’Ele.

11. Toda a atenção, portanto, uma vez que o próprio Jesus se cruza connosco, todos os dias, nos nossos caminhos tortuosos e lamacentos. Mas atenção sobretudo, porque «negar» é «não-dizer-sim» (ne-aiere) ao rosto nu e interpelante do outro, e «não-dizer-sim» ao rosto nu e interpelante do outro é não responder ao apelo-mandamento do seu rosto nu e interpelante, e não responder ao rosto nu e interpelante do outro define-se como «indiferença», pelo que, nos interstícios de negare [neg, forma reforçada de ne], já se entrevê necare [= matar]. Veja-se então, em contraluz, o peso insuportável daquela declaração negativa de Jesus: «Tive fome e NÃO ME destes de comer (-1), tive sede e NÃO ME destes de beber (-2), era estrangeiro e NÃO ME recolhestes (-3), nu e NÃO ME vestistes (-4), estive doente e na prisão e NÃO ME visitastes (-5 e -6) (v. 42-43)», situação bem retratada na confissão de Caim, o assassino do seu irmão: «A minha culpa é demasiado pesada para a suportar» (Génesis 4,13). Mas também o orante que reza nos Salmos confessa: «As minhas culpas estão em acima da minha cabeça; como um fardo pesado, são demasiado pesadas para mim» (Salmo 38,5).

12. A selar a declaração afirmativa de Jesus, encontramos uma dupla afirmação sobre o «fazer»: «Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a UM destes meus irmãos, os mais pequenos, a MIM o fizestes» (v. 40). O mesmo acontecendo no final da declaração negativa de Jesus, com uma dupla afirmação sobre o «não-fazer»: «Em verdade vos digo: cada vez que NÃO o fizestes a UM destes, os mais pequenos, também a MIM o NÃO fizestes» (v. 45). O narrador informa-nos, no v. 46, que estes vão para o «castigo eterno», a que Jesus já tinha chamado «fogo eterno» (v. 41), e os justos para a «vida eterna», a que Jesus já tinha chamado «Reino para vós preparado» (v. 34), em linha com a formulação das Bem-Aventuranças 1.ª e 8.ª (Mateus 5,3 e 10). A condenação aqui mostrada, sem que outros critérios tenham sido considerados no âmbito da fé ou da moral, assenta na inação. Tal como nas duas parábolas que precedem imediatamente o nosso texto de Mateus 25,31-46, a parábola das dez virgens (Mateus 25,1-13) e a parábola dos talentos (Mateus 25,14-30), sucede às virgens insensatas, que não se prepararam, e ao servo que ficou paralisado pelo medo, e enterrou o seu talento. As virgens insensatas e o servo que nada fez não se aperceberam da atenção vigilante, da prontidão e da urgência que o Reino dos Céus requer de nós.

13. Ouçamos hoje com qualificada atenção Ezequiel 34,11-12.15-17. O cenário apresentado mostra-nos Deus como Pastor amoroso, companheiro de viagem dos seus filhos. Deus surge retratado com os verbos «procurar», «curar», «reunir», «conduzir», «fazer repousar», «apascentar». Mas também é dito que Deus fará justiça entre ovelhas e ovelhas, carneiros e cabritos, preparando assim a cena grandiosa de Mateus 25,31-46. Assim também Jesus, Pastor e Rei, passou pelo meio de nós, tratando as nossas feridas e lavando-nos os pés e a alma, e o seu Reino novo não é inaugurado com uma solene parada militar, mas com a sua prisão e intronização no trono da Cruz!

14. Neste imenso e denso contexto, recebemos hoje também a lição magistral que São Paulo oferece aos Coríntios e a nós (1 Coríntios 15,20-28). «Cristo foi ressuscitado dos mortos, primícias dos que adormeceram» (1 Coríntios 15,20). Ele é, portanto, o primeiro Homem a ser ressuscitado. E se é o primeiro e primícias, então representa-nos a todos e constitui promessa e certeza para todos. Nele a morte foi vencida para todos. A esperança fundamenta-se na certeza deste Acontecimento principal da Vida do Senhor, que dá significado a todos os outros acontecimentos da sua Vida, ao inteiro Antigo Testamento, à Igreja e à vida de todos os homens.

15. Recebendo este mundo novo, que a nós chega como vida nova dada aos filhos, e por eles recebida, deixemos então ressoar em nós a música sublime do Salmo 23, e deixemo-nos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… Confessou o filósofo francês Henri Bergson: «As centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23».

António Couto


NEGOCIANTES OUSADOS OU O TEMPO TODO SENTADOS EM CIMA DO TESOURO

Novembro 14, 2020

1. A parábola do Domingo passado (XXXII) terminava assim: «Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora» (Mateus 25,13). E a parábola deste Domingo, XXXIII do Tempo Comum, que segue imediatamente a anterior (Mateus 25,14-30), agrafa-se a ela, utilizando três motivos temáticos e literários: a) se a parábola do Domingo passado terminava incutindo uma atitude de vigilância: «Vigiai, pois…» [gregoreîte oûn], a de hoje encaixa ou imbrica-se nela, dizendo em que consiste essa atitude de vigilância, iniciando com: «É, na verdade, como…» [hôsper gár] (Mateus 25,14); b) o atraso do noivo na parábola anterior (Mateus 25,5) corresponde ao «muito tempo depois» da parábola de hoje (Mateus 25,19); c) as virgens operosas da parábola anterior, que tinham tudo preparado, correspondem aos dois servos operosos da parábola de hoje: elas entram na sala do banquete (Mateus 25,10), como eles entram na alegria do seu Senhor (Mateus 25,21 e 23); do mesmo modo que as virgens não operosas da parábola anterior, que não tinham tudo preparado, têm o seu paralelo no servo mau e preguiçoso da parábola de hoje: elas ficam fora da porta da sala do banquete (Mateus 25,12), como ele é excluído da alegria do seu Senhor (Mateus 25,30).

2. Entrando agora mais dentro da parábola deste Domingo XXXIII (Mateus 25,14-30), somos logo levados a tomar consciência de que um imenso dom, vindo de Deus, precede sempre a nossa ação: cinco talentos, dois talentos, um talento… é sempre uma imensa quantidade dada logo à partida!

3. O talento começou por ser uma unidade de peso, usada sobretudo para medir metais preciosos. Por exemplo, na Babilónia, um talento equivalia a 60 quilos. Imagine-se então o valor de um talento de ouro! Em épocas sucessivas, no período helenístico, o valor do talento baixou, situando-se então entre 35 e 26 quilos. De qualquer modo, um talento equivalia então a 6000 denários, sendo que o denário era o salário normal de um dia de trabalho. Um talento, 6000 denários, era assim o equivalente a uma vida inteira de trabalho! Portanto, quer seja um, dois ou cinco talentos, é sempre um imenso dom que nos é entregue! É sabido que o grande humanista Erasmo de Roterdão (1467-1536) partiu desta página do Evangelho para dar a estes «talentos» o sentido novo do «talento» ou «capacidades» que distinguem cada ser humano. Esta acostagem é possível, se respeitarmos as devidas distâncias. O Evangelho não fala tanto do empenho, dos méritos, das capacidades de cada um, mas mais, muito mais da graça preveniente de Deus, do primado da graça de Deus em relação a nós.

4. Bem! O andamento da parábola continua a dizer-nos que os talentos entregues por Deus a cada um de nós não são como uma pedra preciosa que há que guardar ciosamente. São antes como uma imensa soma de dinheiro que há que pôr a render, ou como uma semente que há que semear para produzir raízes, caule, ramos, folhas, flores e frutos. Só que esta imensa soma de dinheiro ou esta semente capaz de um tal desenvolvimento são-nos entregues sem instruções!

5. É assim que a parábola progride, mostrando-nos que os dois primeiros servos não perderam tempo, mas partiram logo (euthéôs) (Mateus 25,15 e 17) e obtiveram resultados fantásticos [100% de lucro] (Mateus 25,20 e 22). Mas o terceiro, ao contrário, agiu como se o talento recebido fosse uma pedra preciosa, e guardou-a ciosamente, para, a seu tempo, a devolver intacta ao seu dono.

6. As razões do comportamento estranho deste terceiro servo, são-nos manifestadas depois, quando este servo se explica aquando da chegada, «muito tempo depois», do seu Senhor. Ele diz, escolhendo mal as palavras: «Eu sei que és um homem duro (sklêrós), que colhes onde não semeaste e juntas onde não espalhaste. Tive medo, e escondi o teu talento na terra» (Mateus 25,24-25).

7. Aqui estão as respostas erradas, que vêm desde Adam. Também Adam, nosso lídimo representante, teve medo de Deus e escondeu-se dele (cf. Gn 3,10). Na esteira de Adam, também este terceiro servo da parábola de Mateus ficou tolhido pelo medo e optou por jogar pelo seguro, que se vem a revelar falso. O medo deriva, nos dois casos, de uma falsa imagem de Deus, que é visto como um homem duro e exigente. É assim que ficamos muitas vezes paralisados, sem perceber a lógica dos dons de Deus, a começar pelo dom de Deus por excelência, que é o Espírito Santo. Sim, os dons do Deus da parábola são dinâmicos, e não pedras estáticas e imóveis! E o Deus da parábola é o Senhor da alegria (Mateus 25,21 e 23), e não do medo!

8. Portanto, a vigilância de Mateus 25,13 («Vigiai, pois…») manifesta-se em sermos ativos, generosos, corajosos e ousados desde o primeiro momento («partir logo») (Mateus 25,21 e 23), e não em ficarmos tolhidos, frios e inertes, ciosamente guardando um grande tesouro… Negociantes ousados, e não o tempo todo sentados em cima do tesouro.

9. A lição do Livro dos Provérbios 31,10-31, hoje lida aos repelões (vv. 10-13.19-20.29-31) mostra-nos, por assim dizer, o retrato da «mulher ideal». Não se fala da sua beleza nem do charme feminino. Vemo-la, antes, como esposa, mãe e dona de casa, sempre atenta a tudo e a todos. Não vive centrada em si mesma, de forma autorreferencial, mas olha para todos e por todos à sua volta, não esquecendo os pobres e necessitados (v. 20), que estão no centro das suas atenções e no centro do poema. Como este belo modelo encaixa bem no coração deste Dia Mundial dos Pobres, que hoje se vive e celebra. Ela faz tudo, e tudo sabe fazer bem. Não perde tempo. Esta figura modelar encaixa à maravilha na parábola dos talentos do Evangelho de hoje. Nas suas mãos e em tudo o que faz, ela põe a render os talentos que Deus, no seu Desígnio Divino, lhe entregou. É ainda de realçar que este magnífico poema (Provérbios 31,10-31) é alfabético, isto é, os seus 22 versículos seguem, uma após outra, as 22 letras do alfabeto hebraico, e constitui o fecho do Livro dos Provérbios.

10. O Apóstolo, por sua vez, na sua Primeira Carta aos Tessalonicenses 5,1-6, reclama de nós a vigilância permanente, sem nunca nos deixarmos embalar pelos pregões dos distribuidores de soníferos e de tranquilizantes, que vão pregando «paz e segurança» (1 Tessalonicenses 5,3).

11. Sim, as 45 palavras hebraicas do Salmo 128 enchem-nos de paz, luz, serenidade. Respira-se também a fragrância da videira e a juventude da oliveira. Mas a família cantada neste Salmo não está fechada sobre si mesma, mas aberta à comunidade por Deus abençoada. Portanto, do perímetro da casa e da mesa em que vivem e se sentam pais e filhos, avista-se e sente-se a paz da Cidade Santa, Jerusalém. Não é de admirar que a tradição judaica tenha sabido extrair deste Salmo as «sete bênçãos para as núpcias». Saboreemos o perfume deste extrato: «Bendito, ó Senhor, que concedeste ao esposo e à esposa júbilo, canto, gozo, alegria, amor, paz, fraternidade e amizade. Possam depressa e para sempre, ó Senhor, ressoar gritos de gozo em Jerusalém, cidade santa. Possa levantar-se, cheia, a voz jubilosa do esposo e da esposa e os coros gozosos de quem os acompanha na sua alegria. Bendito és tu, Senhor, que alegras o esposo com a sua esposa!».

António Couto


CHEGAR COM O CONTROLO ENCERRADO

Novembro 7, 2020

1. O cenário é o de um casamento judaico tradicional. No último dia dos festejos, depois do pôr-do-sol, o noivo, acompanhado pelos seus amigos, à luz de tochas e ao som de cânticos, formando um cortejo, dirigia-se para a casa da noiva, que o esperava, acompanhada pelas suas amigas. Quando o cortejo do noivo chegava ao seu destino, a noiva abandonava a sua casa com as suas amigas, e formava-se então uma única comitiva luminosa e ruidosa, que se dirigia para a casa do noivo onde se celebrava o casamento e tinha lugar o banquete nupcial.

2. O Evangelho deste Domingo XXXII do Tempo Comum (Mateus 25,1-13) começa por aludir ao cenário referido no que diz respeito ao grupo das jovens amigas que acompanham a noiva que aguarda a chegada do cortejo do noivo. Note-se, porém, que a noiva nunca é referida no texto, e que o noivo não segue o ritual previsto, pois se atrasa muito para além da hora habitual. Mas também as amigas da noiva saltam fora do espelho, pois são divididas em dois estranhos grupos, iguais em número, mas não em qualidade: cinco prudentes e cinco insensatas.

3. Dado o atraso, inesperado, do cortejo do noivo, as amigas da noiva acabam por adormecer todas, não se notando, neste particular, qualquer diferença entre os dois grupos. Até que, no meio da noite, também inesperadamente, a vozearia do cortejo do noivo faz acordar, estremunhadas, as amigas da noiva, e é agora que se notam as primeiras dissonâncias no comportamento dos dois grupos: as prudentes, juntamente com as suas tochas, necessárias para entrar na luminosa comitiva noturna, levam também o indispensável combustível: o azeite. A arqueologia tem mostrado estas antigas tochas e o seu funcionamento: um suporte de madeira em cuja cavidade superior se introduziam trapos e estopa, que eram então embebidos em azeite, e acesos só na hora de sair para o exterior. São, na verdade, luzes de exterior, que nada têm a ver com as lucernas de interior. Depois de embebidas em azeite, e acesas, o seu tempo de duração era de cerca de quinze minutos. Pelo que só deviam ser acesas imediatamente antes de sair. E, ainda assim, se a viagem demorasse, devia transportar-se também a vasilha do azeite, para não se correr o risco de a tocha se apagar. É este segundo aspeto que separa as jovens insensatas das prudentes.

4. Com as tochas apagadas e sem o indispensável azeite, as jovens insensatas não puderam integrar a comitiva nupcial. Enquanto foram comprar o azeite, pôs-se em marcha o cortejo até à casa do noivo, deu-se início ao banquete e fechou-se a porta. Mais tarde, chegaram também as jovens insensatas, e disseram: «Senhor, Senhor, abre-nos a porta» (Mateus 25,11). A resposta, porém, surge com mais estrondo que o fechar da porta, e soa assim: «Em verdade vos digo que não vos conheço» (Mateus 25,12).

5. Para se entender bem o alcance das locuções «Senhor, Senhor» e «não vos conheço», importa reler atrás, no Discurso programático da Montanha, Mateus 7,21-23: «Não todo aquele que me diz “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos e em teu nome que expulsámos demónios e em teu nome que fizemos muitos milagres?” Então eu lhes declararei: “Nunca vos conheci”».

6. E a propósito do bom conhecimento, importa revisitar ainda Mateus 12,48-50, para descobrir uma nova família, que são as pessoas que melhor conhecemos: «“Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” E estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem faz a vontade do meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”».

7. Este noivo que demora a vir é o Senhor. O tempo da sua demora é o tempo que, por graça, nos é dado a todos para estarmos sempre prontos, preparados e operosos. Afinal, as jovens insensatas também sabiam bem o que era necessário, tanto que acabaram por cumprir o programa e chegar à meta. Só que tarde e a más horas, e o controlo já estava encerrado.

8. O texto do Antigo Testamento que serve de espelho ao Evangelho de hoje, que fala do noivo, da luz e da vigilância, é o texto do Livro da Sabedoria 6,13-18. Saúda-se já por termos hoje a graça de escutar um bocadinho deste Livro delicioso, que poucas vezes encontramos na Liturgia. Alegramo-nos ainda porque encontramos neste bocadinho de pão da Sabedoria o amor, a luz, o conhecimento, a busca incessante, o encontro feliz. Na verdade, a Sabedoria em Deus é Deus, e constitui uma figura simbólica que indica o amor de Deus, amor nupcial, transformante, unitivo. A Sabedoria é Luz divina inalterável; portanto, Vida divina inalterável. Apresenta-se como uma esposa que vem ao nosso encontro, tomando a iniciativa do Amor. Portanto, a Sabedoria é Graça preveniente, concomitante, consequente, que desposa cada fiel, e todos os fiéis reunidos em comunidade. Trabalho do Amor é a Sabedoria, que atravessa o Novo Testamento como Sabedoria Incarnada. Dá-nos, Senhor, a tua Sabedoria sempre diligente. Ensina-nos a bem contar os nossos dias (Salmo 90,12) e a saber cantar as nossas alegrias. Vem, Senhor Jesus!

9. Escutamos e escrutamos uma vez mais um grande e claro texto da Primeira Carta aos Tessalonicenses 4,13-18, saído da pena de S. Paulo que, de Corinto, capital da Acaia, da casa de Priscila e Áquila, onde estava hospedado, escreve aos cristãos de Tessalónica, capital da Macedónia, certamente respondendo a dúvidas que de lá lhe foram trazidas e reportadas. No extrato de hoje, trata-se de saber se a força da ressurreição de Jesus Cristo (cf. Filipenses 3,10) também chega àqueles que já morreram. O texto diz bem, como ainda hoje nós usamos dizer na liturgia, aqueles que adormeceram em Cristo, usando o verbo grego koimáomai, em cuja raiz está também koimêsis [= sono] e koimêtêrion [= cemitério], que é o dormitório, o lugar onde se dorme. A resposta de Paulo é clara: com a vinda do Senhor, e à sua voz de comando, todos ressuscitaremos com Ele, os mortos [= os que dormem] e os vivos. Sim, vem a hora, e é agora, em que os que morreram ouvirão a voz do Filho de Deus, e viverão (cf. João 5,25 e 28). Não nos deixemos, portanto, habitar pela tristeza, porque temos connosco a esperança, que nos atira para além do horizonte das mais elementares leis da natureza. O neopaganismo em que vive atolada esta sociedade vende uma finitude, em que o finito, o defunto, que é aquele que deixou de funcionar, deve ser assumido como tal, ponto final. O Cristianismo também sabe desta finitude, mas enquanto a finitude neopagã é vista como natural, nós, cristãos, vemo-la como criatural. Então, no Cristianismo, o homem tem um fim, não por ser mortal, mas por ser criado. E, portanto, a nossa finitude cristã está fundada sobre o Criador, e não sobre nós mesmos. A maneira de ver neopagã não tem saída, nem a quer ter, nem a pode ter. Ao contrário, a ótica cristã remete para o Criador, deixando-nos, portanto, no terreno firme da esperança e da confiança.

10. O Salmo 63 é conhecido como «o cântico do amor místico», atravessado por uma apaixonada intensidade, bem expressa na primeira afirmação ou declaração de amor à boca do Salmo, mas que enche, de resto, o Salmo inteiro: «O meu Deus és Tu» [ʼelî ʼattah], a que responde e corresponde Deus em Isaías 43,1, declarando: «Para mim tu és» [lî ʼattah]. Tudo o resto no Salmo 63 assenta sobre esta certeza. A minha vida recebida (naphshî), por quatro vezes referida (v. 2.5.9.10) agarra-se amorosamente (dabaq) a Ti (v. 9), canta o teu amor, vive de Ti, tem sede de Ti, como cantaremos no refrão. A beleza, intensidade e espiritualidade que atravessam este Salmo ganham visibilidade na liturgia bizantina das manhãs de Domingo, e os v. 3-6 entram no cânone eucarístico armeno.

António Couto


A FORÇA DA SUA RESSURREIÇÃO

Novembro 1, 2020

1. Seja qual for o texto de Paulo hoje lido e escutado, é sempre de uma enxurrada de vida nova que se trata, mas que, a fazer fé no que se sente, ouve e vê, já não nos diz nada, não fala para nós, nenhuma fome nos mata, nenhuma sede nos apaga, não responde a nenhuma inquietação nossa. E, todavia, os textos de Paulo que hoje lemos, quer provenham das Cartas aos Coríntios ou aos Tessalonicenses, eram ansiosa e atentamente recebidos e respondiam às questões que se punham os cristãos das comunidades dos anos 50: o que acontece com a nossa morte? O que vai acontecer quando Cristo Ressuscitado vier ao nosso encontro? E como pode a humanidade das gerações que viveram e morreram antes de Jesus ter aparecido a calcorrear os caminhos da Palestina beneficiar da salvação por Ele trazida e oferecida?

2. Em boa verdade, não parece credível que as questões acima formuladas façam parte das preocupações das pessoas que hoje frequentam as igrejas ou visitam os cemitérios das nossas comunidades paroquiais. Tanto quanto nos podemos aperceber, as questões que as gentes de hoje transportam têm mais a ver com a situação daqueles que a morte separou de nós: o que permanece da relação que tínhamos com eles? O que permanece sobretudo da amizade, do amor, do carinho que se partilhava quando eles ainda estavam connosco? Haverá alguma maneira, alguma possibilidade de lhes permanecermos fiéis? Poderemos, porventura, fazer algo mais do que colocar estas flores sobre a sua campa?

3. Podemos, com certeza, pôr tranquilamente de parte a imagem do toque da trombeta e dos restos mortais a saírem dos túmulos. Mas também podemos abandonar sem medo o medo quotidiano da morte que uma certa pregação medieval e moderna incutia nas pessoas. É sabido, de resto, que esta comemoração de todos os fiéis defuntos é de origem medieval e monástica, e acusa, por vezes, traços de piedade duvidosa e supersticiosa, acentuados ainda por outras estranhas ideologias que, de forma difusa, dissimulada e até violenta, invadem hoje o nosso quotidiano.

4. Estranha Boa Nova que amedrontava para levar à conversão. Conversão a que deus?, temos de nos perguntar. Porque não era seguramente àquele Deus a quem Jesus tratava e nos ensinou a tratar por Pai. E a força explosiva dos textos de Paulo hoje lidos não está nos acessórios, mas reside toda no nosso conhecimento pessoal, experimental (ginôskô / yadaʽ), de Jesus Cristo e da força (dýnamis) da sua Ressurreição (Filipenses 3,8 e 10). «Em verdade, em verdade, vos digo: “Quem escuta a minha palavra e acredita naquele que me enviou, tem a vida eterna, e passou da morte para a vida”» (João 5,24).

5. Sim, esta Palavra nova que Jesus faz irromper na nossa vida faz-nos saber que o peso e o medo da morte já passou, afinal, para trás de nós, de tal modo que já não pode ameaçar apagar, mais dia, menos dia, como uma esponja, a vida que vamos construindo com o amor novo que nos vem do Ressuscitado, pois é este amor que nos faz passar da morte para a vida (1 João 3,14). E mesmo quando o sofrimento cai sobre nós como uma avalanche, transformando a nossa vida num insuportável pesadelo, como sucede com Job, seremos ainda levados a descobrir que não é Deus que nos persegue e fustiga, pois Ele permanece ao nosso lado, dado que é Ele o nosso «familiar mais próximo», que é o nosso «redentor» (goʼel) (Job 19,25), aquele a quem cabe o dever, a obrigação, de velar sempre por nós em todas as situações difíceis da nossa vida. Os pretensos e falsos amigos de Job tudo fazem para o fazer calar. Vão de argumento em argumento. Só Deus se vem verdadeiramente sentar ao nosso lado, põe a sua mão de Pai sobre o nosso ombro (Job 9,33), carrega sobre si as nossas dores e a nossa morte (Isaías 53,4; Mateus 8,17; Hebreus 2,14-15), limpa os nossos olhos e o terreno todo à nossa frente, dá-nos a mão para a liberdade, libertando-nos também do temor da morte (Hebreus 2,15).

6. Estranha aberração que a Igreja tenha durante tanto tempo pregado a resignação, a aceitação do sofrimento, mas também da injustiça e da desigualdade. Sim, mas a fé na ressurreição é esta força (dýnamis), esta alavanca, que mantém Job de pé, e o leva a recusar até ao fim a resignação, a demissão, a ideia de um Deus que ficaria satisfeito com a injustiça.

7. Faz-nos bem sentar hoje com tempo na página do Evangelho (Mateus 11,25-30). As poucas linhas que a atravessam guardam o segredo mais inteiro de Jesus. Há quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente à popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (Marcos 4,38). Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos, os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!».

8. «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (népioi)» (Mateus 11,25). Sim, aos pequeninos, grego népioi, que em sonoridade portuguesa daria «népias», nada, nenhuma ciência, nenhum poder, nenhum valor autónomo. Ó abismo da sabedoria dos pequeninos, daqueles que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem podem confiar (2 Timóteo 2,12). É sobre os pequeninos que recai toda a atenção de Jesus, que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45). E, no ritual do Batismo, são estes os dizeres que acompanham a entrega da vela acesa aos pais e padrinhos das crianças batizadas: «a vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que estes pequeninos, iluminados por Cristo…».

9. Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897) exalta na sua História de uma alma, que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que é o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança desmamada (gamûl). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

10. Os pequeninos, os népioi, népias, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de alguém que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira página, temos então de perguntar: o que é que são então cristãos adultos, maduros na sua fé? Serão aqueles que sabem tudo, que estão seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que têm tudo na mão, que já não são dependentes porque já não precisam de ninguém que cuide deles? Seguramente não. Cristãos adultos na sua fé são aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, e que sabem debruçar-se sobre os pequeninos com amor. Cristãos adultos na fé não somos nós que pensamos que temos as chaves de tudo e de todos, mas somos nós como filhos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI (ʼAbbaʼ), em quem depositamos toda a nossa confiança, somos nós como filhos e irmãos, carinhosamente atentos uns aos outros, até ao ponto sem retorno de já não sabermos viver senão repartindo o pão e o coração.

11. «Eu Te bendigo, ó PAI, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da oração de Jesus [além desta vez, só no Getsémani: «PAI, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mateus 27,46); «PAI, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «PAI, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)]. Note-se que a belíssima oração do «PAI Nosso» (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) é-nos ensinada por Jesus, mas não o ouvimos a rezá-la. Um cristão adulto na sua fé, isto é, na sua confiança, tem de se pôr, como Jesus, totalmente nas mãos seguras e carinhosas do PAI, única direção da sua e da nossa vida.

12. É assim que o Evangelho deste Dia entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi. Nenhum arrogante raciocínio, nenhum orgulho, nenhuma escada por nós construída, conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Ensina-se a si mesmo, dando-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (Mateus 10,8-9). Nenhum acessório nos faz falta. Nenhuma estratégia dá certo. Basta-nos Cristo no coração, e a vida, sim, a nossa vida, para dar.

13. O Salmo 27 pode deixar-nos nos braços de Deus, cantando e decantando a luz e a confiança que de Deus recebemos. Mas também a suavidade, a bondade e a beleza nos encantam. Corolário normal, ainda que sempre de excecional elevação, para este dia e para esta liturgia, que nos deixa sempre tranquilos a brincar à porta da Casa de Deus, sob o olhar carinhoso e atento de Deus.

Senhor,

Tu firmaste a terra há muito tempo,

O céu é obra das tuas mãos.

Eles perecem, mas Tu permaneces.

Eles ficam gastos como a roupa.

Sim,

Tu os mudarás como um vestido,

E eles ficarão mudados.

Mas tu permaneces sempre o mesmo,

E os teus anos jamais findarão.

O homem é como a erva,

E toda a sua glória como a flor do campo.

Seca a erva e murcha a flor,

Mas a tua Palavra, Senhor, permanece para sempre.

Neste mês em que a paisagem muda,

As folhas caem,

As árvores choram,

E nós verificamos que a nossa vida é breve e frágil,

Como a lançadeira no tear,

Assiste-nos, Senhor, mais de perto, com a tua bondade,

Sustém os nossos passos vacilantes,

Alumia os olhos do nosso coração titubeante,

Faz-nos sentir a alegria da tua presença carinhosa,

Senta-nos à mesa da certeza da tua salvação.

António Couto


A (PRO)VOCAÇÃO DA SANTIDADE E DA FELICIDADE

Outubro 31, 2020

1. Dia de Todos os Santos. Deus é a Santidade. Três vezes Santo. Santo, Santo, Santo. Santo, na língua hebraica, diz-se qadôsh, cujo significado mais consistente é separado. Separado de quê ou de quem, podemos perguntar. Da sua criação? Parece que não, pois o Deus da Bíblia olha para ela e por ela com beleza e bondade. De nós? Obviamente não, pois o Deus da Bíblia bem vê e vê bem os seus filhos queridos, ouve a nossa voz, conhece as nossas alegrias e tristezas, desce ao nosso nível e debruça-se sobre nós com carinho. Separado de quê ou de quem, então? Separado de si mesmo, eis a surpreendente identidade de Deus! Separado de si mesmo, isto é, não agarrado ao seu mundo divino e dourado para o defender ciosamente (Filipenses 2,6). Ao contrário, o nosso Deus é um Deus que sai de si por amor, para, por amor, vir ao nosso encontro. É esta realidade que se vê bem em toda a Escritura, Antigo e Novo Testamento. Paulo, na Carta aos Filipenses e na 2 Carta aos Coríntios, resume bem esta realidade ao falar de Jesus Cristo que «se esvaziou (ekénôsen) a si mesmo, recebendo a forma de escravo» (Filipenses 2,7), e «sendo rico se fez pobre por causa de nós, para nos enriquecer com a sua pobreza» (8,9).

2. Sim. Se agora pararmos um pouco a contemplar a vida dos Santos canonizados e de tantos outros irmãos nossos, de extrema dedicação, simplicidade e alegria, não oficialmente canonizados, mas também Santos, pois arriscam e dão diariamente a sua vida pelos outros, compreenderemos logo que também eles, todos eles, se desfizeram ou separaram dos seus projetos, gostos, família, amigos, coisas, e se entregaram de alma e coração aos seus irmãos. Veja-se, por exemplo, e porque ainda temos presente o seu modo de proceder, a Santa Madre Teresa de Calcutá. Que dedicação, que amor, que paixão! Veja-se também, porque parece que todos o conhecemos e amamos, S. Francisco de Assis. Entenda-se, porém, sempre que somos Santos por graça, porque o Deus Santo, Ele é a Santidade, se faz próximo de nós, santificando-nos! É assim que nos tornamos, por graça, «concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Efésios 2,19). Nova cidadania. Nova familiaridade. Demos, pois, neste Dia Santo, graças ao Deus Santo, que nos santifica.

3. Só um Deus assim pode e sabe felicitar os pobres. Com um tom carregado de felicidade, não restritivo, mas alargado a toda a humanidade, as «Felicitações» do Rei novo atingem todas as pessoas, chegando às franjas da sociedade, às periferias existenciais, onde estão os pobres de verdade. É o grande Evangelho das «Bem-Aventuranças» ou «Felicitações» (Mateus 5,1-12), que abre o SERMÃO da MONTANHA, dito nas alturas da MONTANHA, que hoje temos a graça de escutar mais uma vez. No meio destas «Felicitações» – é por nove vezes que soa o termo «FELIZES» –, note-se a centralidade da MISERICÓRDIA (5.ª felicitação) (5,7). Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS. Aos misericordiosos será feita misericórdia. Belíssimo círculo bem no centro das Bem-Aventuranças. Notem-se igualmente as inclusões assentes na repetição da locução «reino dos céus» (1.ª e 8.ª) (5,3 e 10) e do termo «justiça» (4.ª e 8.ª) (5,6 e 10). Estas inclusões convidam-nos também ao reconhecimento de duas tábuas de felicitações, a primeira à volta da pobreza evangélica (5,3-6), e a segunda à volta da bondade do coração (5,7-10).

«5,1Vendo as multidões, subiu à montanha.

Tendo-se sentado, vieram ter com ele os seus discípulos.

2Abrindo então a sua boca, ensinava-os dizendo:

3FELIZES (makárioi / ’ashrê) os pobres de espírito (ptôchoì tô pneúmati),

porque deles é o reino dos céus;

4FELIZES os aflitos,

porque serão consolados;

5FELIZES os mansos,

porque herdarão a terra;

6FELIZES os que têm fome e sede de justiça,

porque serão saciados;

7FELIZES os misericordiosos (eleêmones), porque lhes será feita misericórdia (eleêthêsontai);

8FELIZES os puros de coração,

porque verão a Deus;

9FELIZES os fazedores de paz,

porque serão chamados filhos de Deus;

10FELIZES os perseguidos por causa da justiça,

porque deles é o reino dos céus.

11FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem,

e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal

por causa de mim (éneken emoû)» (Mateus 5,1-11).

4. Não nos esqueçamos que continuamos na Montanha, nas alturas, pois há certas maneiras de viver e de sentir que só podem ter o seu habitat nas alturas. O Papa João Paulo II escreveu na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (2001), n.º 31, que perguntar a um catecúmeno se ele quer receber o batismo é o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta última pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo número, João Paulo II define a santidade como a «”medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto, imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.

5. Os «pobres de espírito», aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é «baixa de rûah» (shephal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23), isto é, sem espaço físico, económico, social ou psicológico. Não precisam de se afirmar. São claramente os últimos da sociedade, mas que, na sua humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois os ptochoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados, num círculo restrito, mas uma imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie.

6. É quanto assinala a majestosa multidão dos 144.000 da bela página do Apocalipse 7,2-4.9-14. 144.000, número perfeito e incontável (12 vezes 12 vezes 1000), que traduz todos os redimidos, de todas as raças, nações, povos e línguas, inumerável família dos filhos de Deus, todos com vestes brancas, porque lavadas no sangue do Cordeiro, e que jubilosamente aclamam o Deus Santo. «Somos filhos de Deus e seremos semelhantes a Ele», grande teologia da divinização por graça aportada pela página sempre nova da Primeira Carta de S. João 3,1-3.

7. Note-se ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «felizes» ou «bem-aventurados» diz-se ’ashrê, derivação do verbo ’ashar, que significa «pôr-se a caminho». Extraordinária maneira de designar os «bem-aventurados» como pioneiros, aqueles que abrem caminhos novos e bons e de vida nova e boa para o mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente e anestesiado em que vivemos.

8. Sim, disse-o no Sínodo, para mim e para todos: por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por serem pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza quanto baste (Mateus 19,22; Marcos 10,22; Lucas 18,23), por sermos ricos e importantes?

9. «Esta é a geração dos que procuram o Senhor». Cantemos e aclamemos, por isso, com o Salmo 24, o Senhor do Universo e Rei da Glória, que vem e entra no seu Templo e na nossa frágil humanidade, que Ele glorifica. Nos dois primeiros andamentos deste Salmo (vv. 1-2 e 3-6), justamente a parte Hoje cantada, destaca-se o nosso canto de amor ao Deus criador e providente (vv. 1-2), que constitui como que a abertura do inteiro Salmo, e as condições morais para viver na presença deste Deus (vv. 3-6), formuladas numa espécie de «liturgia de entrada» ou «das portas». Os fiéis, em procissão, à chegada ao Templo de Jerusalém, fazem a pregunta ritual: «Quem pode subir ao monte do Senhor,/ quem pode entrar no seu lugar santo?» (v. 3), ao que os sacerdotes respondem, apontando aquí três condições essenciais: «Mãos inocentes e coração puro», em que as mãos traduzem a ação, e o coração a intenção, isto é, o inteiro viver do homem, a sua opção fundamental, de onde decorre também o não ir atrás dos ídolos e não praticar fraudes (vv. 4-5). O terceiro andamento mostra as portas do Templo e as da nossa vida, personificadas, que são convidadas a abrir-se e a levantar-se, para que possa entrar em nossa Casa o Rei, Senhor dos Exércitos, um título que a Bíblia registra por 279 vezes. Gerhard Ebeling (1912-2001) comenta assim este Salmo arcaico: «São três os pressupostos fundamentais do texto. O primeiro é que Deus criou o mundo, e é o seu Senhor. O segundo é que devemos comparecer junto de Deus e ser interrogados sobre o que fizemos. O terceiro é que Deus vem para o que é seu, e deseja ter livre acesso. Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus: nós vivemos por obra de Deus, diante de Deus, e podemos viver com Deus». E o poeta francês Paul Claudel (1868-1955), recolhendo o último tema, o da vida com Deus, exclamava: «Aqui, Deus! Aqui, o nosso Deus, o Senhor dos Exércitos, que está empenhado, através dos séculos, em transferir-nos para a sua eternidade».

«A santidade é a medida alta da vida cristã ordinária».

Os santos vivem, portanto, nas alturas,

Sem, todavia, levantarem os pés do chão.

Também Jesus se sentou no alto do Monte,

Para aí declarar felizes, felizes, felizes

Os pobres, os mansos, os aflitos,

Os famintos, os sedentos, os misericordiosos,

Os pacificadores, os perseguidos.

E Jesus repete estas felicitações,

E por nove vezes as atira

Contra os vidros embaciados

Do nosso empedernido coração.

É do alto do monte que Jesus proclama estas maravilhas.

Há coisas que só se podem dizer nas alturas.

Senhor Jesus,

Mestre diferente dos escribas de todos os tempos,

Ensina-nos a descobrir a sabedoria que há nos pobres

Quando estendem para nós as suas mãos abertas e vazias,

A ternura que há nos pacificadores e misericordiosos

Quando se colocam diante das nossas armas,

A esperança que há nos perseguidos e refugiados

Quando batem às nossas portas fechadas.

Ensina-nos, Senhor, a compreender

Que sempre foram os santos e os justos

A abrir caminhos novos e belos Onde os poderosos só sabem estender muros e arame farpado.

António Couto


FIÉIS DEFUNTOS 2020: INDULGÊNCIAS PLENÁRIAS

Outubro 30, 2020

Decreto da Penitenciaria Apostólica acerca das indulgências plenárias para os fiéis defuntos na atual situação de pandemia

No corrente ano, devido à pandemia de “covid-19”, as indulgências plenárias pelos fiéis defuntos serão prorrogadas para todo o mês de novembro, comutando-se as obras de piedade e as condições de modo a garantir a segurança dos fiéis.

Chegaram a esta Penitenciaria Apostólica numerosas petições dos Pastores sagrados solicitando que neste ano, devido à epidemia da “covid-19”, fossem comutadas as obras de piedade para obter as indulgências plenárias aplicáveis exclusivamente às almas do Purgatório, conforme estabelecido no Manual das Indulgências (conc. 29 §1). Por este motivo, a Penitenciaria Apostólica, com especial mandato de Sua Santidade o Papa Francisco, de bom grado estabelece e decide que, neste ano, para evitar aglomerações proibidas ou desaconselhadas em algumas nações e territórios:

a) a indulgência plenária para quem visite um cemitério e reze pelos defuntos mesmo só mentalmente, estabelecida normalmente apenas nos dias de 1 a 8 de novembro, pode ser transferida para outros dias do mesmo mês, até oito; tais dias, livremente escolhidos por cada fiel, poderão também ser descontínuos entre si;

b) A indulgência plenária do dia 2 de novembro, anexa à Comemoração de todos os fiéis defuntos, para quem visitar piedosamente uma igreja ou um oratório e aí rezar o “Pai nosso” e o “Credo”, pode ser transferida não só para o Domingo anterior ou seguinte ou para o dia da solenidade de Todos os Santos, mas também para outro dia qualquer do mês de novembro, livremente escolhido por cada fiel.

As pessoas mais idosas, os enfermos e todos os que por motivo grave não podem sair de casa, por exemplo, devido a decretos que proíbam que os fiéis se desloquem e aglomerem nos lugares sagrados, poderão obter a indulgência plenária desde que, unindo-se espiritualmente a todos os outros fiéis que fazem as visitas de piedade acima referidas, desapegados completamente do pecado e com a intenção de satisfazer logo que possível às três condições do costume (confissão sacramental, comunhão eucarística e oração pelas intenções do Santo Padre), diante de qualquer imagem de nosso Senhor Jesus Cristo ou da Bem-aventurada Virgem Maria, façam preces piedosas pelos defuntos (por exemplo, Laudes e Vésperas do Ofício de Defuntos, o Rosário Mariano, a Coroa da Divina Misericórdia e outras orações pelos defuntos mais queridas aos fiéis), ou se ocupem na leitura meditada de alguma das passagens evangélicas propostas pela liturgia dos defuntos, ou façam uma obra de misericórdia, oferecendo a Deus misericordioso as dores e incómodos da própria vida.

Para que, pela caridade pastoral, se facilite o acesso para obter a indulgência divina mediante as chaves da Igreja, esta Penitenciaria exorta vivamente que todos os sacerdotes dotados das devidas faculdades se ofereçam com generosidade e prontidão para a celebração do sacramento da Penitência e para ministrar a Sagrada Comunhão aos enfermos.

Todavia, no tocante às condições espirituais para conseguir plenamente a indulgência, permanece válida a nota “Sobre a celebração do Sacramento da Reconciliação no tempo da pandemia por covid-19”, emitida por esta Penitenciaria Apostólica em 19 de março de 2020.

Por fim, para que as almas do Purgatório sejam ajudadas pelos sufrágios dos fiéis e especialmente pelo sacrifício do Altar agradável a Deus (cf. Concílio de Trento, Sess. XXV, decr. De Purgatorio), todos os sacerdotes são vivamente convidados a celebrar por três vezes a Santa Missa no dia da Comemoração de todos os fiéis defuntos, de acordo com a norma da Constituição Apostólica “Incruentum Altaris” emanada pelo Papa Bento XV, de venerada memória, em 10 de agosto de 1915.

O presente Decreto é válido para todo o mês de novembro, não obstante qualquer disposição em contrário.

Roma, sede da Penitenciaria Apostólica, 22 de outubro de 2020, memória de São João Paulo II.

Maurus Card. Piacenza, Paenitentiarius Maior

Christophorus Nykiel, Regens


O ESSENCIAL E AS SOBRAS

Outubro 24, 2020

1. Aí está, no Evangelho deste Domingo XXX do Tempo Comum (Mateus 22,34-40), mais uma pergunta armadilhada [«para o experimentar», verbo grego peirázô, literalmente «montar um laço, uma armadilha»] posta a Jesus por um Fariseu, um doutor da lei (nomikós), única menção deste nome em todo o Evangelho de Mateus. Antes deste «legista» partir ao encontro de Jesus com a sua pergunta traiçoeira, destinada a capturá-lo na armadilha preparada, é-nos dito que os Fariseus se reuniram (Mateus 22,34). Mas já o tinham feito também em Mateus 22,15, antes da pergunta sobre o imposto, e é ainda reunidos que os encontramos em Mateus 22,41, antes da pergunta decisiva de Jesus [aí é Jesus que formula a pergunta] acerca da filiação do Messias, que os reduzirá ao silêncio (Mateus 22,46). Estas sucessivas reuniões dos Fariseus para estudar a maneira de tramar Jesus representam uma clara alusão ao Salmo 2, em que se diz que os reis das nações se amotinam contra Deus e contra o seu Messias (v. 2).

2. A pergunta armadilhada que o «legista» fariseu coloca hoje a Jesus soa assim: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» (Mateus 22,36). A pergunta parece inofensiva, mas, na verdade, destina-se a tentar arrastar Jesus para o plano inclinado da interminável discussão académica. De facto, os mestres judeus, lendo minuciosamente a Lei, ou seja, os cinco primeiros Livros da Bíblia [= Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio], e reduzindo-a a preceitos, tinham contado lá 613 preceitos, sendo 365, tantos quantos os dias do ano, negativos, e 248, tantos quantos, assim se pensava então, os membros do corpo, positivos.

3. A questão que entretinha os mestres e as suas escolas era agora a de estabelecer uma ordem nesses 613 preceitos ou mandamentos, dizendo qual consideravam o primeiro ou o mais importante ou o maior, e assim por diante. Discussão interminável e natural fonte de conflitos, pois, como é usual dizer-se, cada mestre sua sentença. Qual seria então a posição de Jesus nesta matéria, e como a defenderia?

4. Jesus responde ao «legista» fariseu, não caindo, porém, na apertada ratoeira que este lhe arma, mas abrindo portas, janelas e… corações engessados! Na verdade, e como sempre costuma fazer, a resposta de Jesus excede, rebentando-a, a pergunta feita. Jesus cita, em primeiro lugar, o Livro do Deuteronómio 6,5: «AMARÁS o Senhor, teu Deus, com todo o coração, toda a alma, todas as forças». Dito isto, Jesus opera um inesperado, para o «legista», salto de trapézio, e acrescenta: «O segundo, porém, é semelhante (homoía) a este, e cita agora o Livro do Levítico 19,18: «AMARÁS o teu próximo como a ti mesmo».

5. Ora, o «legista» estava apenas interessado em saber qual era, segundo o Mestre Jesus, o primeiro mandamento. Jesus respondeu, mas fez logo saber ao «legista» também o segundo. Mas não disse simplesmente que era o segundo. Disse que este segundo era semelhante ao primeiro. Ora, se é semelhante (e só Mateus usa aqui este semelhante), já não é apenas segundo, mas faz corpo com o primeiro. Sendo assim, então o AMOR a Deus é verificável no AMOR ao próximo, no nosso dia-a-dia.

6. Mas Jesus rebenta outra vez a pergunta do «legista», na conclusão que tira, e em que refere que «Destes dois mandamentos se suspende» (krématai) (Mateus 22,40), verbo só aqui usado no Novo Testamento, isto é, «depende», «dependura», «decorre» «toda a Lei e os Profetas» (Mateus 22,40). Não se trata, portanto, de um final, de uma conclusão a que se chega, de um resumo, mas de um ponto de partida, de um fundamento. Na linguagem de Santo Agostinho, seria como o fundamento de um edifício espiritual que se encontra no cume, na pedra cumeeira. A locução «a Lei e os Profetas» é uma forma de dizer toda a Escritura. A pergunta do «legista» visava apenas a Lei, mas Jesus acrescenta «os Profetas», clarificando, pois, na sua resposta, que é a inteira Escritura que está atravessada pelo fio de ouro do AMOR a Deus e ao próximo.

7. Como quem diz: o grau do teu AMOR a Deus verifica-se pela qualidade do teu AMOR ao próximo. Diretamente de Jesus para o «legista»: se olhas para mim de lado, se vens cheio de más intenções, se colocas um laço, uma armadilha, diante dos meus pés, então estás longe de todos os mandamentos. Do 1.º, do 2.º, do 3.º e do 613.º!

8. Tudo somado, aquele «legista», perguntador traiçoeiro, não se situava corretamente face a Deus e ao seu próximo. Não era o AMOR que o fazia mover. Não estava no centro da Escritura Santa. Andava muito pela periferia. Ocupava muito do seu tempo, não a AMAR, mas a «ARMAR laços», a tentar tramar os outros! É preciso vigiar todos os dias sobre aquilo que verdadeiramente nos move.

9. Nem de propósito. Salta daqui uma missão aberta, um imenso convite a sairmos de nós, sem armadilhas e só com amor, ao encontro dos nossos irmãos. Dizia o Papa Bento XVI, na sua mensagem para o 85.º Dia Missionário Mundial (2011): «A missão universal empenha TODOS, TUDO e SEMPRE». Entenda-se bem: TODOS, TUDO e SEMPRE! Um silogismo fácil: se a missão envolve TODOS, TUDO e SEMPRE, então atinge-nos no essencial, e não afeta apenas as sobras, porque ficámos sem sobras! Verificação: então por que razão continuamos com toda a tranquilidade do mundo a dedicar à missão universal apenas as nossas sobras de pessoas, de meios e de tempo? Como podemos andar, afinal, também nós, armadilhados de boas, subtis e sub-reptícias intenções!

10. A lição de hoje do Livro do Êxodo (22,20-26) é clara e faz de coro e de chão à página sublime do Evangelho: Deus ama com especial predileção os necessitados, em que a Bíblia vê particularmente os pobres, o órfão, a viúva e o estrangeiro, e manda-nos que façamos como Ele. Deus não tolera qualquer armadilha que lhes seja feita!

11. Da janela embaciada da casa de Priscila e Áquila, em que agora habita, em Corinto, S. Paulo continua a evocar com amor a sua passagem por Tessalónica, como refere um extrato do início da Primeira Carta aos Tessalonicenses hoje lido (1,5-10). Não um amor qualquer, mas aquele amor com que ele próprio foi amado por Jesus Cristo (Gálatas 2,20). Portanto, amor de doação total, amor sem volta atrás. Na página que escreve, Paulo diz saber que os cristãos de Tessalónica estão a imitar o seu modo de proceder, isto é, de amar, que é o do Senhor também. Ressoará sempre na Igreja e nas Igrejas este fortíssimo dizer de Paulo: «Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo» (1 Coríntios 11,1). É nesta linha que se devem pôr também as Igrejas e os corações que hoje escutam esta página, escrita com amor.

12. Um Deus fiel, seguro, firme como «rocha», que não oscila nem engana, atento e próximo do homem, sobretudo dos mais fragilizados e em dificuldade, eis o fluxo poético que nos oferece o grande Te Deum que é o Salmo 18, que tem muitas afinidades com o «Cântico de David», registado em 2 Samuel 22. Deixemo-lo tomar conta de nós. Este Deus e este fluxo poético. E cantemos com o orante e como ele, com todo o coração, alma, mente, energia, arte: «Eu te amo, Senhor, minha força!» (Salmo 18,2).

António Couto


DEVOLVEI AS COISAS DE CÉSAR A CÉSAR E AS COISAS DE DEUS A DEUS

Outubro 17, 2020

1. Depois das parábolas do banquete (Mateus 22,1-10) e do traje nupcial (Mateus 22,11-14), sendo esta última exclusiva de Mateus, mas as duas muito bem articuladas no texto de Mateus 22,1-14, o restante do Capítulo 22 de Mateus oferece-nos uma série progressiva de três questões postas sucessivamente a Jesus por Fariseus e Herodianos (Mateus 22,15-22), Saduceus (Mateus 22,23-33) e um Fariseu (Mateus 22,34-40), a que se segue uma quarta, a mais importante (sequência 3 + 1), posta por Jesus aos Fariseus (Mateus 22,41-46).

2. Destes quatro episódios, apenas dois serão escutados nos próximos dois Domingos. Assim, neste Domingo XXIX do Tempo Comum, escutaremos o episódio de Mateus 22,15-22 (cf. paralelos em Marcos 12,13-17 e Lucas 20,20-26), em que Fariseus e Herodianos se juntam para tentar tramar Jesus pela palavra, colocando-lhe por isso e para isso uma pergunta traiçoeira, assim formulada: «É permitido dar (dídômi) o imposto a César, ou não?» (Mateus 22,17).

3. Note-se que o episódio decorre no Templo, certamente no Átrio dos Gentios, uma vasta área de 13,5 hectares, propícia ao encontro de muita gente, judeus e não judeus, onde Jesus se encontra a ensinar desde Mateus 21,23 até Mateus 24,1, em que é referido que Jesus saiu do Templo.

4. É, portanto, no Átrio dos Gentios que, de forma estudada e matreira, fariseus e herodianos tentam surpreender Jesus com uma pergunta política fechada. Note-se que a pergunta foi preparada e feita para levar Jesus a responder «sim» ou «não». Para o caso, aos maliciosos perguntadores, tanto lhes fazia: para tramar Jesus, tanto lhes servia o «sim» como o «não». Na verdade, se Jesus respondesse «sim», seria visto como colaboracionista com o império romano ocupante e perderia todo o crédito religioso acumulado aos olhos das multidões que o viam como profeta, totalmente do lado de Deus. Cairia assim um dos grandes aliados de Jesus, o povo, que os adversários de Jesus temiam, sendo este medo que até agora os impediu de prender e eliminar Jesus (cf. Mateus 21,46). Se respondesse «não», seria denunciado às autoridades romanas como revolucionário, e certamente executado. Com este dilema aparentemente sem saída, os fariseus pensam retribuir a Jesus o embaraço em que os meteu com a pergunta acerca da origem do batismo de João, se era do céu ou se era da terra, de que não souberam sair de forma airosa (cf. Mateus 21,23-27).

5. Antes de verificarmos a extraordinária resposta com que Jesus desmonta a armadilha que lhe é posta, é ainda conveniente examinar o grau de adulação e hipocrisia dos perguntadores. De facto, o grupo de fariseus e herodianos aproxima-se de Jesus estendendo-lhe um tapete de louvores: «Sabemos que és verdadeiro», que «ensinas com verdade o caminho de Deus», e que «não fazes aceção de pessoas» (Mateus 22,16). Esta última expressão deriva da locução latina accipere personam [= receber a pessoa], que, por sua vez, traduz à letra o grego lambánein prósôpôn [= tomar o rosto], que tem por detrás a expressão hebraica nasaʼ panîm [= levantar o rosto]. A expressão hebraica faz sentido, e é muito mais clara do que a grega, a latina e a portuguesa. O juiz justo, no ato de administrar a justiça, não levanta o rosto das pessoas, isto é, não julga de acordo com o rosto das pessoas ou por interesse, consoante as pessoas sejam ricas ou pobres, simpáticas ou desprezíveis, do nosso grupo de amigos ou não. O grego tenta traduzir a expressão hebraica, mas o latim e o vernáculo «fazer aceção de pessoas» não significa nada.

6. Note-se, porém, que este tapete rolante colocado diante de Jesus por fariseus e herodianos é com a intenção de o fazer mais facilmente escorregar e cair.

7. Mas Jesus descobre logo a malícia deles, e diz as coisas a direito, levando a sério o que os seus interlocutores lhe dizem por malícia. Além disso, chama-lhes «hipócritas» (uma palavra que se conta 30 vezes em Mateus), isto é, mentirosos camuflados debaixo de uma capa de verdade. Jesus, portanto, não responde à adulação com adulação, mas denuncia a máscara de mentira que envolve aqueles rostos! Vai mais longe: pede-lhes que lhe mostrem a moeda do imposto per capita (kênsos, transliteração grega do latim census) que, desde o ano 6 d. C., todos os judeus adultos, mulheres e escravos incluídos, tinham de pagar ao império romano. Além de hábeis impostores, os interlocutores de Jesus são igualmente rápidos a tirar a moeda do bolso, um denário, moeda romana correspondente ao salário de um dia de trabalho. Jesus pergunta, de forma contundente, usando o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: de quem é esta imagem e a inscrição?» (Mateus 22,20). A moeda tinha ao centro a imagem de Tibério coroado de grinaldas, que reinou de 14 a 37 d. C., e à volta a inscrição Ti[berius] Caesar Divi Aug[usti] F[ilius] Augustus, tendo no reverso Ponti[fex] Maxim[us]. Eles têm, portanto, de responder que uma e outra são de César. Note-se que tudo se passa no recinto sagrado do Templo. E a moeda que estes falsos justos ostentam desrespeita os dois primeiros mandamentos (Êxodo 20,3 e 4). Na verdade, Êxodo 20,4 proíbe as imagens (2.º mandamento), e Êxodo 20,3 proíbe o culto a outros deuses (1.º mandamento): ora, a inscrição descrevia o Imperador Romano com Divi Filius [= filho de um deus].

8. Jesus continua a usar o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: devolvei então as coisas de César a César e as coisas de Deus a Deus!» (Mateus 22,21). Note-se ainda como Jesus não responde com o verbo «dar» (dídômi) da pergunta, mas com «devolver» (apodídômi) o seu a seu dono. E introduz a enfática 2.ª parte «e as coisas de Deus a Deus». Fica então claro que a moeda vem de César e a César deve voltar. Mas Jesus, o Filho verdadeiro de Deus, «imagem do Deus invisível» (Colossenses 1,15), que até os falsos interlocutores reconhecem que está vinculado a Deus, pois afirmam que ensina o caminho de Deus (Mateus 22,16), é para devolver a Deus… Mas já sabemos que estes impostores montaram esta armadilha com o fito de o entregar a César (e é o que vão fazer mais à frente). E também fica claro que o ser humano, homem e mulher, criado à imagem de Deus (Génesis 1,26-27), é para devolver a Deus.

9. O v. 22, que foi cortado (mal) do texto deste Domingo, desenha a reviravolta dos caçadores caçados na sua própria armadilha. Caçados por excesso, pois refere o texto que ficaram maravilhados, e se foram embora (Mateus 22,22). Maravilhados, mas não convertidos. Voltarão cada vez mais envenenados para levar a cabo o projeto iníquo de retirar Jesus de Deus, para o entregar a César.

10. Como se vê, há nesta extraordinária resposta de Jesus muito mais do que a corrente e banal leitura que vê nesta passagem o mero estabelecimento de regras de convivência entre Estado e Igreja…

11. Ao contrário da nossa malícia que vamos extravasando, Deus olha-nos com bondade, e os seus desígnios, mesmo quando escolhe um estrangeiro, são sempre por causa de nós, porque nos ama (Isaías 45,1.4-6).

12. É este também o modo caloroso de agir de Paulo, Silvano e Timóteo, que têm sempre presente, porque a amam, a comunidade de Tessalónica (1 Tessalonicenses 1,1-5). Terá de ser também o nosso modo de agir para com Deus e os nossos irmãos.

13. Sim, sem malícia, mas com o coração puro, cantemos as notas sublimes do Salmo 96. A música está escrita diante de nós, no pergaminho da natureza e da história, mas também no rosto belo de cada irmão e da inteira criação. O canto é novo. E já aprendemos com Santo Agostinho que só um homem novo pode cantar um canto novo.

14. Um canto novo nos deve unir e reunir, à volta do Senhor Ressuscitado, nosso contemporâneo, que nos guia e acompanha nos caminhos sempre novos da missão. Passa hoje o 94.º Dia Missionário Mundial, a que o Papa Francisco apôs o belo lema: «Eis-me aqui, envia-me!», que constitui a resposta de Isaías à pergunta de Deus: «Quem enviarei?» (Isaías 6,8). Importa que respondamos nós também, pois a missão é sempre resposta. Assim, ficamos todos a saber que «Evangelizar é a nossa maneira de ser, a nossa identidade mais profunda» (Paulo VI, Evangelii nuntiandi [1975], n.º 14), o verdadeiro ADN de todo o cristão batizado. Foi o Papa Pio XI que instituiu este Dia Missionário Mundial em 1926. Vamos hoje na 94.ª edição.

António Couto


QUANDO O REI TE DIZ: «AMIGO…»

Outubro 10, 2020

1. No seguimento dos dois Domingos anteriores, também neste Domingo XXVIII do Tempo Comum, os chefes religiosos e civis continuam na mira de Jesus. O Evangelho deste Domingo é retirado de Mateus 22,1-14. Já quando ouviram as duas parábolas anteriores – a dos dois filhos (Mateus 21,28-32) e a dos vinhateiros homicidas (Mateus 21,33-43 –, perceberam bem que as palavras de Jesus se dirigiam a eles, e, parafraseando Jorge Luis Borges, perceberam também que as palavras de Jesus estavam carregadas como uma arma. O narrador informa-nos, de resto, no final, que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e procuravam prendê-lo», e que só o não fizeram por «receio das multidões, que o tinham por profeta» (Mateus 21,45-46).

2. É importante, para o leitor, esta última informação do narrador, pois o texto de hoje, que segue imediatamente os anteriores, começa assim: «E, respondendo, JESUS disse-lhes novamente em parábolas» (Mateus 22,1). Ficamos então a saber que o novo dizer parabólico de Jesus serve de resposta aos pensamentos e planos violentos que as parábolas anteriores desencadearam nos chefes.

3. E segue a primeira, estupenda parábola, que parte da afirmação da semelhança do Reino dos Céus a um banquete nupcial que um Rei fez para o seu filho. «Reino dos Céus», usual em Mateus, é uma circunlocução para dizer «Reino de Deus». E a figura do Rei é muitas vezes usada no Antigo Testamento e no judaísmo para designar Deus. E o verbo «fazer» evoca imediatamente o relato criação (Genesis 1,1-2,4a), em que o verbo fazer se conta por dez vezes. E o filho do Rei, para uma audiência cristã da parábola, designava de imediato Jesus. E o banquete nupcial feito pelo Rei é uma imagem fortíssima de festa e de alegria, tantas vezes anunciado pelos profetas (veja-se, por exemplo, a lição de hoje do profeta Isaías 25,6), e impacientemente aguardado pelos judeus piedosos. É seguro: ser convidado e poder participar num banquete assim era um sonho para qualquer judeu piedoso!

4. Atravessam o texto várias surpresas. Primeira surpresa: quando o Rei enviou os seus servos a chamar os CONVIDADOS para o banquete, estes não queriam (ouk êthelon: impf. de thélô) vir (Mateus 22,3). O uso do imperfeito indica duração; não se trata de um ato, mas de uma atitude: nem hoje, nem amanhã, nem em dia nenhum. E o uso do verbo querer deixa claro que se trata de uma ação voluntária, e não de uma qualquer predisposição ou sentimento. Mais ainda: que a ação é deliberada, fica patente no facto de o Rei ter enviado outros servos para voltar a chamar os CONVIDADOS, e estes nem prestaram atenção, indo cada um à sua vida (Mateus 22,4-5). E os restantes ainda maltrataram e mataram os servos do Rei (Mateus 22,6).

5. Note-se ainda que foi o próprio Rei que preparou (hêtoímaka: perf. de hetoimázô) o banquete, empenhando-se pessoalmente nele (Mateus 22,4). O verbo preparar está colocado em lugares-chave em Mateus: veja-se 3,3: «Preparai o caminho do Senhor»; 25,34: «Vinde, benditos de meu Pai, recebei o Reino preparado para vós…; 26,17.19: preparar a Páscoa.

6. Este cuidado meticuloso posto pelo Rei na preparação do seu banquete para nós parece esbarrar depois na brutalidade com que se irou (ôrgísthê: aor. de orgízomai), enviou as suas tropas, matou aqueles homicidas e incendiou a sua cidade (Mateus 22,7). O sentido voa aqui em duas direções: primeiro, o uso do aoristo em todos os verbos mostra que «a sua ira dura apenas um momento», como diz o Salmo 30,6; segundo, o castigo descrito retrata e interpreta os acontecimentos dramáticos bem conhecidos do ano 70.

7. Segunda surpresa: as sucessivas e gradativas recusas dos CONVIDADOS não desarmam o Rei, que DIZ (légei) então aos seus servos (Mateus 22,8): IDE às encruzilhadas dos caminhos, e TODOS os que encontrardes, chamai-os para o banquete (Mateus 22,9). Os servos saíram, e reuniram TODOS os que encontraram, maus e bons (Mateus 22,10). Missão universal que brota do amor fontal de Deus Pai (Ad Gentes, n.º 2)… E foi assim, por nova, excessiva e a todos os títulos surpreendente iniciativa do Rei, que se encheu a sala do banquete. Note-se o novo DIZER do Rei, posto no presente histórico («diz então aos seus servos»), que marca um primeiro ponto alto no relato. Note-se ainda que o intervalo militar parece não ter esfriado a comida daquela mesa sempre posta!

8. Terceira surpresa: o Rei entra, vê «um homem» sem o traje nupcial, e expulsa-o da casa alumiada para as trevas cegas e as lágrimas vazias. Que o homem não tenha o traje nupcial é surpresa para o Rei, que não para nós. Para nós, a surpresa é que TODOS os outros, maus e bons, tenham o traje nupcial, uma vez que foram como que arrastados à pressa dos caminhos lamacentos do mundo! Como é que ainda conseguiram vestir o traje nupcial, não deixa de ser surpreendente para nós! Para o Rei, é aquele «um homem», que não vestiu o traje nupcial, que causa surpresa! E chegamos ao segundo ponto alto do relato, marcado também pelo verbo DIZER no presente histórico. De facto, o Rei trata aquele «um homem» cordialmente, e DIZ-lhe (légei autô): «Amigo» (hetaîre), apelativo que só Mateus usa no Novo Testamento (20,13; 22,12; 26,50), e que apenas é usado quando se aborda alguém de forma muito cordial, de forma especialmente cordial. A este amigo (hetaîros), o Rei concede, mediante esta última abordagem direta e cordial, uma última oportunidade de se dizer, isto é, de reconhecer o seu desarranjo interior e de mudar a sua vida.

9. Oportunidade desperdiçada, pois o homem simplesmente não responde. Ficou calado e petrificado (Mateus 22,12). Note-se o mesmo tratamento de Jesus para Judas naquela noite escura, mas ainda à beirinha da Luz: «Amigo (hetaîre), para que estás aqui?» (Mateus 26,50). Judas também não respondeu.

10. É aqui que a parábola nos atinge a TODOS em cheio. Vistas bem as coisas, só o Rei fala nesta parábola. E se ouvirmos bem, DIZ-nos: «Amigo!…».

11. A razão daquele homem não usar o traje nupcial. 1) Não o usa devido à técnica do arrasto que o apanhou desprevenido e sem tempo para ir a casa ao menos para lavar a cara e mudar de roupa. Este é o entendimento banal e superficial da parábola, que nos rouba as verdadeiras chaves de leitura e nos leva para leituras mais ou menos moralizantes! 2) Também não podemos explicar o não uso do traje nupcial recorrendo, como é habitual, a motivos moralizantes traduzidos em comportamentos menos dignos. Esse motivo e essas pessoas (os CONVIDADOS) já foram excluídos (cf. Mateus 22,8), e é-nos dito expressamente que os servos daquele rei levaram agora para a sala do banquete todos os que encontraram, maus e bons (cf. Mateus 22,10); se foram levados todos, maus e bons, é difícil suportar aqui uma leitura moralizante. 3) Não é, portanto, pelo facto de ser mau ou distraído que aquele homem não usa o traje nupcial. 4) Não o usa, porque não o quis receber. O traje da festa não se vai buscar a casa; tão-pouco traduz a nossa bondade ou qualquer mérito. É um presente do Rei à entrada da sala do banquete. No nosso mundo ocidental, são os convidados que levam os presentes. No mundo oriental, quem convida é que oferece presentes aos convidados, entre os quais se conta o vestido da festa. É sabido que, no mundo bíblico, o vestido significa a vida. Ao fundo da cena está sempre a nossa vida dada e que deve ser com alegria recebida. Ao fundo da cena está, portanto, sempre Deus de mãos abertas, que reclama as nossas mãos também abertas.

12. Nunca nos esqueçamos de que é de Deus toda a verdadeira iniciativa. Nunca nos esqueçamos de começar sempre por receber. E de gastar o resto do tempo que nos for dado a agradecer e a partilhar.

13. De banquete para banquete. Aí está a pena de Isaías, na lição de hoje (25,6-10), a descrever um banquete por Deus oferecido a todos os povos (kol-haՙammîm) e um mundo novo aberto aos olhos de todas as nações (kol-haggôyim) e de todos os rostos (kol-panîm), carinhosamente limpos de lágrimas, tudo sobre este monte (bahar hazzeh) preparado (Is 25,6-8). Este magnífico cenário reclama ainda Is 56,1-8, e a extraordinária elevação e inclusão dos extrangeiros no povo de Deus, dignos de subir ao «monte da minha santidade» (har qodshî) e de entrar na «casa da minha oração» (bêt tephillatî) (v. 7), assim definitivamente transformada em «casa de oração para todos os povos» (bêt-tephillah lekol-haՙammîm) (v. 7). Declaradamente, fica patente a oposição entre «os jardins» e os lugares altos com árvores frondosas, por um lado, e o «monte do Senhor», o «monte da minha santidade», por outro, confirmando a função do «monte», purificado de maldade e violência, em Is 65,11.25. Texto tardio que abre diante de nós, não apenas as portas de Sião, mas as portas da casa de Deus.

14. A Carta aos Filipenses, que continuamos a ler aos bocadinhos (4,12-20), como se de pão para a boca se tratasse, continua a mostrar-nos Paulo empenhado na sua missão dia após dia, sem se preocupar, como pediu Jesus, com o que havia de comer ou de vestir (cf. Mateus 6,25). Mostra-se reconhecido e agradecido à comunidade querida de Filipos, mas toda a sua confiança está posta em Deus, a quem dirige a sua bela doxologia final: «A Deus, e nosso Pai, a glória pelos séculos dos séculos, amén».

15. Deixemos, entretanto, ressoar em nós a música sublime do Salmo 23, e deixemo-nos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… Outra vez o banquete preparado! Confessou o filósofo francês Henri Bergson: «As centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23».

16. De banquete para banquete para banquete! Não nos esqueçamos de ver em contra luz o Banquete da Eucaristia em que hoje, Domingo, dia do Senhor, temos a graça de participar.

António Couto


PELOS SEUS FRUTOS OS CONHECEREIS

Outubro 3, 2020

1. O soberbo cântico de Isaías 5,1-7 dá o tom e o aroma da vinha e do amor a este Domingo XXVII do Tempo Comum. O Senhor da vinha e do amor, que é Deus, tratou com infinito desvelo a sua vinha, que é o seu povo, o povo de Israel e de Judá, e somos nós, como se pode ver neste belo «cântico da vinha» de Isaías 5,7: plantou-a numa colina solarenga com castas selecionadas, cavou-a, limpou-a, amou-a, fê-la crescer ao ritmo de música de embalar. Todavia, a vinha assim amada e acariciada produziu agraços, em vez de uvas doces e saborosas. O Cântico di-lo numa extraordinária aliteração hebraica: «Deus esperava mishpath [= retidão],/ e eis mispah [= sangue derramado];/ tsedaqah [= justiça],/ e eis tseʽaqah [= gritos de socorro]» (Isaías 5,7). Depois de uma lírica serena e tranquila, eis-nos agora perante o lamento de um camponês desiludido, de um amante traído, de um amor dorido, não correspondido.

2. O mesmo canto, ao mesmo tempo dorido e belo, atravessa o Salmo 80,9-17, que canta a videira, e conta a história da videira, que simboliza Israel. Contando a história desta videira, o poeta está, na verdade, a fazer uma autobiografia de Israel. Estava plantada no Egito, de onde Deus a arrancou para a transplantar para outra terra (v. 9). Aí lançou raízes, cresceu e atingiu tais dimensões que a sua folhagem verde cobria todo o mapa de Israel (v. 11 e 12). Mas também aí conheceu o abandono e foi devastada pelo javali, símbolo de impureza pela sua semelhança com o porco. Se, em Isaías 5,1-7, era Deus que se queixava da sua vinha que já não respondia ao amor primeiro de Deus, agora é a vinha que se sente abandonada, e chora o estado de desolação em que se encontra, mas entrecorta o seu lamento com um belo refrão, pedindo a Deus que se levante e volte atrás, que lhe faça graça e a salve (v. 4.8.15.20).

3. O Evangelho deste Domingo XXVII é retirado de Mateus 21,33-43, e começa por descrever os gestos de amor embevecido de DEUS pela sua vinha, seguindo de perto o cântico da vinha, de Isaías 5,1-7. Mas depois continua de forma incisiva, introduzindo novas personagens: os VINHATEIROS violentos e assassinos são os chefes religiosos e civis (chefes dos sacerdotes e anciãos do povo, ou chefes dos sacerdotes e fariseus), dado que estas parábolas são dirigidas a eles (Mateus 21,23), e são eles que, no final, reagem (Mateus 21,45-46). Os SERVOS sucessivamente enviados por DEUS e maltratados pelos homens são os profetas, todos assassinados, segundo o módulo narrativo mais breve de toda a Escritura (Lucas 11,50-51; cf. Mateus 23,34-35). O FILHO, que é o último enviado, e que é igualmente morto pelos VINHATEIROS, salta à vista que é JESUS, prolepse do que está para acontecer.

4. Os VINHATEIROS são, neste ponto da parábola, apanhados na pergunta sem saída de JESUS: «Quando vier o dono da vinha, que fará com esses VINHATEIROS?» (Mateus 21,40). Eles respondem fácil e direto, ao jeito de David, quando ouve a história da ovelhinha do pobre, roubada e comida à mesa do rico (2 Samuel 12,5-6): «Mandará matar sem piedade esses malvados, e arrendará a vinha a OUTROS VINHATEIROS, que lhe entreguem os frutos a seu tempo» (Mateus 21,41).

5. E Jesus remata com uma citação do Salmo 118,22: «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular» (Mateus 21,42). E ainda: «O Reino de Deus ser-VOS-á tirado, e confiado a UM POVO que produza os seus frutos» (Mateus 21,43). Nesta altura, diz-nos o narrador, que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e procuravam prendê-lo…» (Mateus 21,45-46).

6. Claramente, os chefes dos sacerdotes e os fariseus são alinhados ao lado dos VINHATEIROS violentos e assassinos, mas já surge no horizonte OUTRO POVO e OUTROS VINHATEIROS, à imagem do último Profeta e dele verdadeira transparência. Não nos esqueçamos de que é este o nosso retrato. Saibamos fazê-lo frutificar.

7. Esta Parábola faz passar diante de nós a inteira história da salvação, mostra-nos o amor permanente e persistente de Deus, e faz-nos ver também a qualidade do amor da resposta que somos hoje chamados a dar.

8. E somos seguramente chamados a tornar a vinha de Deus uma maravilha deliciosa e apetitosa, jovem, leve e bela. Mais ou menos como canta um apócrifo de origem judeo-cristã, de finais do séc. I ou princípios do II d. C., o Apocalipse Siríaco de Baruc: «A terra dará fruto, dez mil por um. Cada videira terá mil ramos, cada ramo mil cachos, cada cacho mil bagos, cada bago centenas de litros de vinho!».

9. Outra vez Paulo e as palavras de antologia que nos dirige na Carta aos Filipenses 4,6-9, que hoje temos a graça de escutar: «Tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento» (Filipenses 4,8). E coloca-se como modelo a imitar: «O que aprendestes, recebestes e vistes em mim, isso fazei» (Filipenses 4,9). Já se sabe que por detrás de Paulo está Cristo, que é a sua vida (cf. 1 Coríntios 11,1).

António Couto